quinta-feira, 18 de maio de 2017

ROSTOS DA EMIGRAÇÃO - LANÇAMENTO DO LIVRO DE TENREIRA MARTINS

1 - Depois do lançamento, em Paris e Bruxelas, da versão francesa (Visages de l' Émigration", edição de L' Harmattan, 2016), o livro, na nossa língua, foi apresentada, sucessivamente, em diversas cidades portuguesas, Lisboa, Porto, Guimarães e outras, Coube-me fazer uma introdução à sessão realizada no Ateneu Comercial do Porto, ao fim da tarde de 12 de maio. Na verdade uma introdução a um verdadeiro debate sobre o atual ciclo da emigração portuguesa e a importância de recriar os serviços sociais junto aos consulados, voltando às origens das políticas de apoio aos cidadãos no estrangeiro, hoje absolutamente imprescindíveis... Como salientava já no prefácio que tive o gosto de escrever sobre tão interessante exercício de "ficção moldada no real" e que aqui transcrevo: ROSTOS DA EMIGRAÇÃO é uma viagem ao interior do mundo da emigração portuguesa, com alguém que alia a experiência de anos e anos de contacto com situações concretas - difíceis, problemáticas... - a uma grande sensibilidade para o sofrimento de pessoas inadaptadas, marginalizadas, e ao conhecimento das regulamentações jurídicas, das burocracias dos países envolvidos no trajecto migratório, dos contornos sociais de questões, que se colocam, com premência, a exigir soluções. Ao que acresce a arte de bem escrever, o dom de apaixonar o leitor pelas personagens, pelas vicissitudes da sua aventura de procuraram em outras terras, no confronto com outras leis, costumes e formas de estar em sociedade, o que o seu próprio país lhes não garantia - emprego, perspectivas profissionais, ou mesmo, num contexto hoje já ultrapassado, liberdade e democracia. Ficção ou realidade? “Diário Provável” é uma expressão tão sugestiva quanto ambígua, no que respeita a essa interrogação. Se percorrêssemos todos os capítulos do livro, deixando para o final o primeiro, intitulado "Vidas em tom menor" - onde a explicação nos é dada, sob a forma de um diálogo do Autor com um amigo, que é também um diálogo connosco -, julgaríamos estar face ao verídico registo de casos anotados, dia a dia, pelo responsável do serviço social do Consulado de Portugal em Bruxelas. É o que parece, mas, em rigor, não é - nem poderia ser, por razões deontológicas. Nomes, datas, frequentemente as circunstâncias, ou até o desfecho efectivo, foram, naturalmente, alterados. Isso é, porém, coisa de somenos. Na essência, estamos perante um impressionante relato de ocorrências, captadas na sua verdade humana, bem presente em todos os textos, através de vibrantes narrações, ora focando um determinado evento, ora sumariando o percurso migratório de mulheres e homens, ao longo de muitos anos. Sou levada a traçar um paralelo com crónicas de uma “realidade ficcionada” na prosa acutilante de Maria Archer, que previamente confidencia aos leitores: "O meu trabalho neste livro ["Eu e Elas"] foi quase o de um artista plástico. Moldei as obras sobre o modelo vivo". Deparamos aqui com uma outra fascinante aplicação desse paradigma - uma obra rigorosamente moldada sobre “modelo vivo”, gizada, do princípio ao fim, com uma profunda compreensão afectiva, uma simpatia que não exclui ninguém. Por vezes, tudo quanto os interlocutores querem é falar, falar em português, reencontrando um espaço cultural perdido, pelo tempo de uma conversa amiga - reclusos, que sofrem a perda da liberdade, agravada pelo estatuto de estrangeiros, doentes internados em hospitais, em instituições sócio psiquiátricas... Outras vezes, há que agir - para valer, de imediato, a vítimas de violência doméstica, à menina órfã que precisa de uma nova família, à mulher sequestrada pelo marido, a jovens que chegam "ao Deus dará"... Há que proceder com bom senso e perspicácia, ajudando a que, por si mesmos, encarem novos rumos, porque, como diz, com a sageza aprendida na formação académica e aprofundada na prática profissional, "sempre pensei que as soluções têm de vir das próprias pessoas". São vivências do quotidiano, a que o "saber contar" dá densidade dramática e emoção, aqui e ali pontuada por um subtil sentido de humor, permitindo-nos partilha-las, ver e sentir o que ele próprio viu e sentiu, no seu gabinete acolhedor. Muitas delas revelam-nos personalidades ou circunstâncias extraordinárias- porque o real rivaliza, quando não ultrapassa, frequentemente, o potencial imaginativo do romanesco... Penso na jovem reclusa (correio de droga - a tentação fatal do dinheiro fácil...), planeando casar no consulado, logo depois do nascimento do filho, que espera no confinamento da prisão. ( No dia da cerimónia, de Portugal vem o noivo, a mãe, duas filhas pequenas, da penitenciária chega ela, num carro celular. E logo o consulado se converte para eles numa casa de família, aberta para uma festa comovente e inesquecível). Penso no velho mendigo português, que, no centro de Bruxelas, aproveita o segmento lusófono de "mercado", sempre com um sorriso no rosto e conversação jovial - um sem abrigo, que tivera antes muitas profissões, graças às quais, por intervenção do Consulado, vai mudar de estatuto, de mendigo para reformado, com pensão, casa própria e amigos...E em outras excêntricas figuras: o pescador que aparece todos os anos, na primavera, e se faz repatriar para o Porto, ora pelo consulado de Portugal, apresentando o BI, ora pelas autoridades belgas, por quem se deixa prender por vagabundagem, sem qualquer documento de identificação; o tatuador que vem dos Andes e pede repatriamento para os Açores; o portuense que se julga primo do Rei dos Belgas e não quer ser repatriado antes de apresentar cumprimentos na corte... A religar estes e tantos outros protagonistas existe um só denominador comum: são,todos, numa cidade estrangeira, portugueses cujas vidas, por instantes significativos, se cruzaram com a do Autor, deixando o seu rasto de memórias, umas tristes, muitas outras felizes, porque recordam pontos de viragem, na destino dessas pessoas. A narração atravessa, assim, o campo da chamada "emigração de sucesso", conduz-nos ao outro lado, o mais esquecido, o das "vidas em tom menor". No vasto fresco da representação das comunidades portuguesas contemporâneas, a geração do "salto", para a Europa, tomou o seu lugar, de início num quadro de exploração generalizada, que gradual e maioritariamente superou, de uma forma corajosa e assertiva. Uma "geração de triunfadores", nas palavras de Eduardo Lourenço, nos anos 80, ao fazer um balanço do processo global. Mas a minoria dos que ficaram para trás - e ainda hoje alguns ficam - é uma parte do todo, que não pode ser abandonada à sua sorte. E não o será, enquanto houver profissionais competentes e dedicados, cuja função é, justamente, a de combater a marginalidade e cooperar na procura de vias e condicionalismos propícios a uma boa integração. Nesta outra perspectiva, que vai muito para além de um enfoque puramente literário, devemos realçar o valor da publicação como testemunho histórico, como marco das grandes mudanças nas políticas contemporâneas de emigração, que romperam com a atitude de descaso tradicional do Estado para com os expatriados, reconhecendo um novo estatuto de direitos aos nacionais, dentro e fora de fronteiras, no domínio político, social, cultural. A ruptura com um passado de indiferença face à situação dos cidadãos fora do território nacional, tem a sua origem em medidas embrionárias de acompanhamento dos emigrados nas vésperas da revolução de 1974, mas só vem a afirmar-se, definitivamente, nos anos seguintes. A criação de serviços sociais junto dos consulados foi, de facto, o primeiro instrumento eficaz destas políticas de cunho humanista. Um dos muitos méritos do "Diário Provável" é, precisamente, o de nos mostrar, como, a partir das leis, das intenções e declarações oficiais, se passou à prática, dando aos consulados, antes vistos como serviços meramente burocráticos, um rosto mais humano. É, pois, uma incursão até ao cerne dos serviços sociais, revelando a sua enorme importância e constituindo um alerta para que não haja, em nome da austeridade, a tentação de os limitar ou suprimir, precisamente quando explode uma nova vaga imparável de emigração.. Uma palavra final de agradecimento pelo honroso convite para prefaciar este livro e de manifestação do regozijo com que o faço, porque posso dizer que me deu, como dará certamente a todos os leitores, um retrato de época da emigração portuguesa recente, das novas políticas de protecção implementadas, com autonomia e criatividade, pelos executores “no terreno”, e, também - ainda que não fosse obviamenteo esse o seu propósito –, um admirável auto-retrato do Autor, da sua vocação e qualidade profissional, do seu gosto de viver e conviver no universo em expansão das nossas comunidades do estrangeiro.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

VAMOS PARTICIPAR NA BIENAL 1 - A Bienal "Mulheres d' Artes" organizada pelo Município de Espinho vai na sua 4ª mostra de vida.. Evoluiu, procurou novos moldes e parcerias, apostou na internacionalização com acento em Espanha, e promete continuar na agenda cultural da cidade. E muito justamente, antes de mais, porque se trata de uma iniciativa, tanto quanto se sabe, inédita, a nível nacional e internacional. Curiosamente, a ideia original teve um percurso "por etapas" e uma pluralidade de co-autores. Posso contar a sua história, ou melhor, pré-história, que acompanhei desde o primeiro momento, embora acidentalmente. .O primeiro momento aconteceu em finais do ano de 2010, em Gaia, no Museu Teixeira Lopes, durante uma exposição de obras da sumptuosa coleção Millenium. Depois dos discursos da praxe (todos, se bem me lembro, a cargo de "homens públicos e notórios"), os visitantes dispersaram-se, em pequenos grupos. E, como é fruto de usos e costumes arreigados em Portugal, foram homens na dianteira, para um lado, e ficaram as mulheres para o outro. De uma forma espontânea e natural, ali se criou um círculo feminino de mulheres de letras e artes, em cujo meio, sem pertencer a nenhuma das artes, me vi, em animada conversa. Uma das nós chamou a atenção para aquele exemplo de segregação de facto, em que, por ser costumeira, mal se repara. Foi então, e a propósito desse anacronismo lusitano e da necessidade de divulgar, em especial, o mundo artístico feminino que Luisa Prior sugeriu que se promovesse uma exposição coletiva de mulheres. A proposta suscitou entusiasmo geral. Sendo eu, na altura, vereadora da Cultura da Câmara de Espinho, não poderia deixar de fazer, de imediato, uma segunda proposta: a da "candidatura" desta cidade à realização do evento. Era uma oferta irrecusável, dado que as galerias do FACE sempre ganhariam, em dimensão e beleza, a qualquer concorrente... Logo ali se aventou o mês de março do ano seguinte para a "expo" e se encontrou uma comissária prestigiada, na pessoa da Diretora do único jornal literário nortenho, Nassalete Miranda. Quando, em Espinho, poucos dias volvidos, se efetuou a primeira reunião entre a Comissária, as pintoras, a vereadora e o Diretor do Museu, a fim de dar corpo ao projeto, ainda estávamos a considerar uma simples coletiva de pintura. Já na fase da despedida de uma frutuosa manhã de trabalho, o Dr Armando Bouçon, inesperadamente, lançou um novo desafio: "E se déssemos continuidade a esta exposição numa Bienal? O que acham?" Achámos, é claro, unanimemente, que estávamos perante um verdadeiro "achado". Eis como uma muito interessante, mas episódica, mostra pictórica se metamorfoseou em Bienal. 2 - Porém, como é óbvio, uma Bienal só o é a partir de uma segunda vez... De 2013 em diante, é à Câmara de Espinho, sobretudo, à Vereadora Leonor Fonseca, que se deve o seu trajeto para o futuro, a sua consolidação. Num país onde as políticas, incluindo a cultural, se processam, infelizmente, mais por linhas de rotura do que de continuidade, é um feito a salientar... Não quero com isto dizer que o modelo inicial de mantenha. A experimentação foi parte integrante da caminhada, numa incessante procura de inovação. Em 2011 o impulso viera de fora, da "sociedade civil", os convites foram determinados por uma avaliação curricular rigorosa da responsabilidade da Comissária.. Em 2013, o Município tomou em mãos e evento e deu-lhe a maior abrangência Em 2015, optou pela constituição de um júri de seleção e pela atribuição de prémios, graças ao mecenato (por sinal uma empresa de renome internacional, as Tapeçarias Ferreira de Sá, que tem à frente uma Mulher) e, em 2017, evidencia uma vontade marcante de internacionalização, que já vinha de trás. A Bienal assume, cada vez mais, uma dimensão peninsular. Talvez nos anos vindouros se possa estender ao país vizinho, num intercâmbio alargado de artistas portuguesas e espanholas. - nos anos ímpares aqui, nos anos pares em Madrid ou Barcelona. Quem sabe? Seria uma forma de Espinho recuperar a vocação "ibérica" de Espinho, com que cresceu no início de novecentos. 3 - A Bienal é um repto da Câmara de Espinho e a resposta concreta das artistas escolhidas, mas não só: é, também, a resposta do seu público! Nós. os que vamos visitar a exposição, temos de tomar consciência que ela se destina ao nosso olhar e que é a nossa adesão que lhe dá vida, cumprindo a sua finalidade última. Somos, pois, ativos participantes! No dia inaugural, 25 de abril, no contexto de uma bela programação da festa da liberdade, em Espinho, uma alegre multidão de centenas de convivas encheu as galerias Amadeo Sousa Cardozo e o auditório do FACE registou "casa cheia" para um magnífico espetáculo musical. Sem dúvida, um sucesso! Porém, o dia seguinte, ou melhor, no plural, os dias seguintes não são menos importantes para dar a inteira medida desse sucesso. Até Agosto, há muito tempo para concretizar o ato de participação a que me refiro. Ou seja, para visitar ou revisitar a Bienal, para pensar a mensagem que nos deixa em cada tela, para refletir sobre o tema aliciante da arte na perspetiva de género (qualquer que seja o entendimento que se lhe dá...) ou até, eventualmente, para abrir o debate à problemática de "mulheres de outras artes" no tempo presente.