sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A PRE HISTÓRIA DAS "SUBVENÇÕES"

Finalmente, sobre este tema,uma análise inteligente num debate sereno - na "Quadratura do círculo" (só podia ser na Quadratura!). Com abordagens várias, todos disseram coisas com as quais, pessoalmente, concordo. Mesmo Pacheco Pereira, que foi o mais crítico do sistema. As subvenções foram, de facto, uma forma ínvia de justificar a desindexação dos vencimentos dos políticos aos dos altos cargos da administração pública, feita durante os governos de Cavaco Silva... aqueles governos em que os secretários de Estado passavam a ministros e os chefes de gabinete a secretários de Estado... Os vencimentos do pessoal dos gabinetes e dos altos quadros da função pública, muitos deles saídos da máquina partidária, quando não diretamente das "jotas", eram a prioridade. Autarcas e deputados não eram! A desindexação significou uma "widening gap" em favor dos primeiros e em desfavor dos últimos. A pretexto de que estes tinham uma espécie de pagamento diferido: a subvenção. Eu estava no Governo, não na Assembleia, quando o regime das subvenções foi aprovado (ao que parece uma proposta redigida pelo grande legislador que foi Almeida Santos). Porém, já estava na Assembleia quando aconteceu a fatídica desindexação e lembro-me bem de que o principal argumento aduzido, numa tentativa de a tornar mais aceitável, foi, ao menos nos bastidores, a existência do tal subsídio vitalício. Meios ínvios de atingir fins não muito explícitos... Se a indexação se tivesse mantido, a subvenção estava incorporada no montante da pensão! Por isso, os políticos que foram então prejudicados, continuam a sê-lo, agora como os "maus da fita"... Eis os antecedentes deste imbróglio. Tem razão Pacheco Pereira. Tem razão Manuel Alegre. Tem razão Maria de Belém.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

LOPETEGUI, UM CASO DE ESTUDO

1 - Os erros, que fazem de Lopetegui um "caso de estudo" não cabem num texto curto. Em síntese, apenas uma referência a dois que lhe foram fatais. Primeiro erro: a forma como viveu o seu estatuto de emigrante. A cabeça e o coração ficaram no país basco, ou em Madrid, ou noutra terra longe de nós. É comum esta espécie de inadaptação, que os portugueses, em regra, superam melhor do que quaisquer outros, simplesmente porque, onde quer sejam bem recebidos (como Lopetegui foi), retribuem, gostando do novo país, fazendo-o seu. E, por isso combinam formas próprias de estar no trabalho e na sociedade, com as dos outros, intuitivamente. A partir de certa altura, já pertencem lá, sem deixarem de pertencer aqui. Há para isto uma palavra: integração...Lopetegui nunca se integrou: o Porto era "Oporto", esperança era "Ilusión". Mais do que mera questão linguística, dificuldade de aprendizagem desculpável, era a ponta de um "iceberg"... Ficamos com a impressão de que se sentiu sempre, subjetivamente, um Gulliver em Lilliput, não viu que todos os homólogos que encontrava nos estádios de Portugal eram da sua dimensão, exceto os que lhe eram superiores... Não percebeu que estava num país de treinadores de excelência, muitos dos quais vão pelo mundo fora, como triunfadores: Mourinho, Villas- Boas, Manuel José, Marco Silva, Fernando Santos, Jardim, Jesualdo, Victor Pereira, etc, etc. Pior ainda: não soube avaliar a grandeza do FCP, não conhecia bem o seu passado, não interiorizou a sua "mística". 2 - Segundo erro e o maior de todos: o excesso de vedetas que exigiu para a equipa com que queria fazer história no futebol português - hispanizando-a, naturalmente. Olhávamos com espanto a revoada de espanhóis, que se instalava no Porto, ao lado de alguns sul-americanos, africanos, e até um português, o Rúben, vindo da "cantera" do clube - única decisão altamente meritória a que deixa o seu nome ligado. Foi o oposto de Mourinho, que chegou ao FCP e prometeu ganhar o campeonato apenas com dois ou três reforços, recrutados em modestos clubes portugueses (Derlei, Nuno Valente...). E assim construiu um conjunto fantástico e cumpriu a promessa. Depois, para vencer a "champions", pediu um nome sonante só um! Benny McCarthy, que já conhecia o clube. As infindáveis contratações de luxo deste "anti- Mourinho" eram de mau augúrio. Estavam reunidas as condições para a "grande nau" sofrer a "grande tormenta"... Não tardaram as tormentas. A primeira atingiu Quaresma, o génio do futebol, o herói portista! Como era possível prescindir de Quaresma? Resposta fácil: tinha bons jogadores a mais! 3 - Nova época, mais exigências milionárias. Nunca o FCP condescendera tanto com um técnico, ainda por cima perdedor em toda a linha. Mas nem por isso ele se mostrava reconhecido. Queixava-se da falta dos jogadores que partiram - alguns, Quaresma, Quintero, em boa verdade, por sua vontade, outros, Óliver, Casemiro, em função de contratos precários que promovera. E, pelo visto, subestimava as numerosas aquisições de 2015, como Maxi Pereira, André André, Layún, Danilo (um Danilo português), Corona, para além de Casillas, Imbula (por 20 milhões), sem falar de Cissoko, Bueno, Varela. Osvaldo, Sérgio Oliveira... . Ora lidar com o excesso num plantel, não parecendo, é mais difícil do que o seu contrário. Foi a super abundância de estrelas que levou um inexperiente Lopetegui à perdição. Não havia um onze base, não havia lugar certo para ninguém (salvo, evidentemente, para o guarda-redes) e era enorme a probabilidade de qualquer um se tornar redundante, caíndo em desgraça. Em suma: muitos jogadores e pouca equipa. Com a qual perdeu tudo qunto havia para ganhar... Partiu, assim, em boa hora, este imigrante do futebol, sem levar saudades e sem deixar saudade. E chega um emigrante português, José Peseiro, homem sensato e telentoso, que nos dá a garantia pôr o FCP a jogar bem (e, sobretudo, para frente! )... e talvez de ganhar tudo o que há ainda para ganhar Maria Manuela Aguiar

UMA IMFAME CAMPANHA POPULISTA

Assim falou Manuel Alegre (bem!)sobre a vergonhosa demagogia que colocou no centro da campanha eleitoral uma questão que verdadeiramente nada tem a ver com os poderes e o exercício do cargo presidencial - as subvenções vitalícias. Matéria que pertence ao domínio da competência da Assembleia da República, em relação à qual o Presidente apenas pode fazer o que, com mais cerca de 30 deputados, fez Maria de Belém: suscitar a sua inconstitucionalidade. A meu ver, mais do que um direito, suscitar a inconstitucionalidade do que é inconstitucional não é um direito, é um dever dos deputados. Maria de Belém cumpriu o seu dever!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

PERGUNTAS A MARISA

MARISA brada em campanha contra as badaladas "subvenções"... entre gente pobre que a olha como solidária - e pobre, também... Será que tem coragem de lhes dizer que recebe mais num mês do que eles ganham de salário, em vários anos? Será que tem coragem de lhes dizer que, para além do vencimento-base, recebe de ajudas de custo, por cada dia de presença no Parlamento Europeu, mais do que muitos deles auferem de pensão ( 306 euros por dia...)? Será que tem coragem de lhes falar do que vai receber quando se reformar desse Parlamento...indemnização milionária?...subvenção? o que quer que seja...

2015 O ANO DA MORTE DE MARIA BARROSO

2015, o ano da morte de Maria Barroso

! - Num tempo propício a festas de família, balanços e prognósticos políticos, estava eu posta perante a dificuldade da escolha de tema para esta coluna, enquanto ouvia, na Antena 1, um programa sobre os factos marcantes de 2015. Primeiro pronunciaram-se comentadores e celebridades, depois a voz do povo, glosando motes: a aliança de esquerda pós eleitoral, o Banif e outros buracos negros, o desaparecimento de três vultos da vida portuguesa, dois cineastas e um poeta…
Reagi, de imediato ao esquecimento em que via deixada uma grande personalidade que, em julho, partira do nosso convívio, a Dr.ª Maria Barroso. Tinha de escrever sobre ela…

2 - Maria Barroso foi um símbolo de excelência em tudo quanto fez durante uma vida longa, em tantas e diversas vestes – jovem e talentosa atriz do Teatro Nacional D Maria II, pedagoga e diretora de um colégio que colocou no topo dos “rankings”, militante da causa da liberdade, que usou o palco do teatro, a expressão artística, a força da poesia na sua voz, como instrumento de luta, mulher que ousou subir ao mundo masculino dos comícios políticos e falar sem medo.
Esteve no centro da sua própria família como esteve no centro da vida pública nacional, com a mesma dedicação e competência. Foi o rosto da cultura, da inteligência e da elegância das mulheres do seu país, na Europa e no mundo. A conversão, sincera e emotiva ao catolicismo, aprofundou o seu sentido de missão, a vontade de viver para os outros, num mundo melhor, que foi o fio condutor do seu percurso, nas Artes, na Política (com letra grande), no Voluntariado. O trabalho que, nas últimas décadas levou a cabo, no campo dos direitos humanos, na Fundação Por Dignitate, foi notabilíssimo, ultrapassou fronteiras, em especial no espaço da Diáspora e da lusofonia (no processo de paz de Moçambique, em Angola, na Guiné), no combate ao tráfico de armas, à intolerância e à violência nos “media” (e sobre todas as formas!), no apelo à participação das mulheres nas suas comunidades - como eu pude testemunhar, durante os chamados “Encontros para a Cidadania”, nos quatro cantos do mundo, admirando, de perto, a sua energia contagiante, uma enorme proximidade das pessoas, feita de compreensão dos problemas e de simpatia, uma rara capacidade de mobilização, pelo discurso e pelo exemplo - ia já nos 80, quase nos 90 anos.
Uma caminhada intensamente vivida em todas as idades, com a sabedoria dos que não envelhecem intelectualmente, com uma espantosa modernidade de pensamento e vontade de ação – até ao seu último dia entre nós!
Maria Barroso foi a maior figura feminina do século XX português, um incomparável exemplo de cidadania, que seu (e nosso) tempo lega ao futuro, um legado verdadeiramente intemporal, como o cinema de Oliveira ou os versos de Helberto Hélder.

3 – Há alguns anos, numa brilhante intervenção na cidade de Joanesburgo, a Dr.ª Maria Barroso lembrava que “apesar da História ter sido tecida por Mulheres e Homens, só a estes é dada relevância”.
 Não deixemos que isso aconteça no seu caso!


Maria Manuela Aguiar

TONY CARREIRA e um incidente pouco diplomático

Quem não se regozija com a atribuição a Tony Carreira de uma alta condecoração francesa? Chevalier des Arts et des Lettres! Um honra para o cantor, que ele quis partilhar com os portugueses de França, seus incondicionais admiradores. Pena é que um acontecimento, que devia ser de grande alegria para todo o país, acabasse no centro de um imbróglio diplomático (difícil de compreender e de justificar...), provocado pela inabilidade de um embaixador. Tony Carreira pediu para receber a condecoração na Embaixada de Portugal em Paris. A resposta foi negativa, a pretexto de que não faria sentido a entrega de uma distinção estrangeira na sede de uma representação nacional (versão do próprio diplomata, de viva voz nos "media"!). Pode até aceitar-se a desculpa. Inaceitável é que Sua Excelência não tenha recebido Tony Carreira nos salões da residência oficial, ou na chancelaria, para o felicitar, aproveitando o encontro para, pessoal e civilizadamente, dar explicações sobre os motivos que não lhe permitiam corresponder ao pedido. Se assim tivesse procedido, seguindo regras não escritas de respeito e cortesia por um ilustre compatriota, nada disto seria (triste)notícia. Conheço, felizmente, muito diplomatas que, por altura de tão prestigiante condecoração, onde quer que houvesse ocorrido, teriam tido o bom gosto e o bom senso de se associar à homenagem, em vez de a ensombrar. Maria Manuela Aguiar