terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A TAP CONTRA O PORTO E EU CONTRA A TAP

A ver o programa de informação da RTP 3, fico a saber que a TAP, nos voos intercontinentais que desviou do norte, pratica preços muito mais baixos a partir de Vigo do que a partir do Porto (mais de 700 euros de diferença). Contava Luis Costa, o comentador do programa, que um seu amigo portuense, escolheu viajar com a British por um preço intermédio. Eu faço exatamente o mesmo, como meio de resistência cívica à companhia regional de Lisboa, que deixei de considerar nacional. Com a TAP, agora, só mesmo se não houver alternativa... Mas há! Sempre que posso, vou com o grupo AIR FRANCE, quase sempre com a KLM, que é excelente e me permite revisitar, por umas horas, a lindíssima cidade de Amesterdão. Foi o que aconteceu em novembro passado, no trajeto Porto - Newark -Toronto - Porto, via Holanda. Custo do bilhete, com todas aquelas ligações: 750 euros. Com a Tap ficava quase pelo dobro.

domingo, 29 de janeiro de 2017

TRUMP E TRUDEAU

Em comum, apenas o "T" no início dos apelidos. Trump a banir refugiados muçulmanos por decreto presidencial. Trudeau a abrir, a todos esses refugiados, as portas do Canadá. Querem apostar quem ganhará o futuro? É uma primeira lição para os que procuram, desde a primeira hora, "normalizar" Trump e o trumpismo. A tarefa vai revelar-se impossível, mesmo para os mais esforçados. Tudo isto é medonho, desumano, atentatório do Direito internacional. Não faz o menor sentido e é apenas o começo... Porquê os 7 países escolhidos na lista fatal? Porquê, se os líderes terroristas do 9 de setembro eram da Arábia Saudita, que nem consta dessa lista?...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

2006 - COM MÁRIO SOARES, NA CAMPANHA PRESIDENCIAL

1 - Surpreendida com a última candidatura de Mário Soares à presidência, como toda a gente, mas, ao contrário de muitos portugueses de vários partidos, idades e profissões, encantada com a perspetiva de nele, por fim, votar, aceitei, sem hesitação, o convite que me foi feito para pertencer a uma daquelas alargadas comissões de apoio público e formal. Digo "por fim", porque pertencia ao imenso mas "inquantificável" grupo de admiradores de Soares, que nunca o tinham votado nas urnas, fosse para o que fosse. Uma oportunidade de 25ª hora... Um apoio subjetivamente gratificante por isso mesmo, mas objetivamente justificado, porque para esse cargo se deve escolher o que melhores atributos tem para representar o Povo e o Estado. E Mário Soares tinha-os, pela experiência do seu passado, pelo prestígio internacional do seu nome - neste nosso tempo, maior do que o do País... - e pela "pujança da sua velhice", que, em existindo, tende ser bem mais vigorosa, criativa e perfeita do que a pujança da juventude (e era o caso!). 2 -

domingo, 22 de janeiro de 2017

O grande DERROTADO DO VOTO POPULAR fala em DEVOLVER O PODER AO POVO!

Trump faz-me lembrar um boneco da minha infância, que dava quantas cambalhotas fosse preciso para ficar sempre em pé. Afirma tudo e o seu contrário. Mente como respira. Desmente os seus próprios "tweets", de um dia para o outro. O discurso inaugural foi um mero encadeamento de tweets, de "slogans" de campanha, que cabem, cada um por si, nas dimensões do twitter... O mais divertido dos comentários ao 20 de janeiro de Trump foi feito, ontem, através das imagens com que encerrou "O Eixo do mal": imagens de Trump, plagiando Bane, o vilão de Batman, a gritar "giving it (the power) back to the people", seguida da versão original do próprio Bane a proclamar rigorosamente o mesmo: "giving it back to the people". Os cibernautas não perdoam estas coisas, não há plagiador que resista... Esquecendo o seu aspeto anedótico e atentando no conteúdo da frase dita pela criatura da vida real (tomara que fosse pura ficção, mas não é...) Donald Trump, mal conseguia acreditar no que via e ouvia: então ele, que o Povo derrotou, quer devolver o poder ao Povo? Devolver o poder ao Povo (o poder do seu voto, da sua voz) implicaria pôr Hillary na "Casa Branca"!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

De Adolfo a Donald - o mesmo slogan

Adolfo H.: "Deutschland uber alles" (a Alemanha acima de tudo") Donald T.: "America first" (a América "em primeiro lugar" - ou "acima de tudo"...) Separa-os um século - e ainda não sei bem o que mais - mas não o "leit-motiv" da campanha!

HILLARY!

Hoje deveria ter sido um dia histórico para a América e para o mundo: o dia da tomada de posse de uma Mulher como presidente dos Estados Unidos. Uma Mulher excecional, com uma longa carreira de quase meio século ao serviço de avanços civilizacionais, da luta pela dignidade de todos os seres humanos, pela igualdade (na mobilização dos mais marginalizados à participação cívica e democrática), pelo diálogo entre diferentes, entre credos e culturas, entre Povos e Nações. Nunca alguém mais experiente e mais qualificado em questões de política nacional e internacional se candidatara a uma eleição presidencial (afirmação de Barack Obama, mil vezes repetida ao longo da campanha, em 2016). Todavia, nunca também uma campanha americana foi tão vergonhosa e tão violenta, tão distorcida, tão alavancada em golpes baixos e mentiras (de Trump, himself!), tão falseada por interferências de inimigos externos (a Rússia de Putin!), ou de sabotadores internos (o FBI de Combey!) como esta foi. Hillary resistiu, com uma coragem espantosa, ganhou os debates, ganhou uma das duas Américas - aquela que admiramos pelos valores da liberdade, do humanismo e do multiculturalismo, a "América primeiro- mundo" - contra a América terceiro- mundista, paroquial e primitiva do Tea-party e da Ku Klux Klan. Hillary ganhou as eleições no voto popular, com mais de 3 milhões de votos de avanço sobre Trump. Hillary ganhou na desolação de todos os democratas do mundo, face aos resultados do anacrónico voto colegial, que atraiçoou o voto popular. E vai ganhar o futuro sobre o descalabro da administração Trump.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

TRUMP: MAKING RUSSIA GREAT AGAIN?

Yes, he can...

MÁRIO SOARES - "autobiografia oral"

AS MEMÓRIAS DO TEMPO FUTURO Imperdível a série de programas, com este título que a RTP 3 passou, de novo, há dias. São entrevistas de quase uma hora, a Mário Soares, sobre os tempos da ditadura, do PREC, do renascimento da democracia. É na verdade, uma autêntica "autobiografia oral" Guardei em arquivo, na" box", para ver muitas vezes, e tenho recomendado a todos os amigos que façam o mesmo. A meu ver, seria ideal editar a série inteira em DVD, para ser mais acessível ao grande público (eu sei que agora se vai à NET, procurar em RTP-Play, mas prefiro o velho DVD e, como eu, haverá ainda muita gente... Ontem, tive uma simpática conversa num alfarrabista na rua do Cinema Trindade (tão bem conheço as ruas de toda a baixa do Porto e de poucas sei o nome...). As conversas mais agradáveis começam muitas vezes como esta, ocasionalmente. Na livraria estávamos três pessoas, o proprietário, um outro cliente e eu. Procurava uns antigos mini cadernos com biografias de jogadores de futebol dos anos cinquenta (do FCP de Yustrich), coisa que não consegui. Os dois senhores comentaram que raramente havia mulheres a pedir literatura sobre futebol, eu, não tendo dados para discordar, lembrei que agora os estádios estão cheios de raparigas, mas eles não pareciam muito convencidos de que elas lá vão pelas mesmas razões dos homens, isto é, para ver o jogo... Palavra puxa palavra, não sei como, do enfoque no desporto transitámos para a política. Soares, Sá Carneiro, Mota Pinto... O outro cliente era, afinal, um colega, advogado formado por Coimbra, como eu, mas muito mais novo. Mário Soares esteve, naturalmente, no centro da conversa, O advogado nunca tinha votado em Soares, o livreiro, julgo, era um eleitor fiel e eu uma votante da 25ª hora, da sua última e épica campanha presidencial, mas todos nos confessámos seus grandes admiradores. O jovem advogado, que fora aluno de Mota Pinto, de quem gostava imenso, lamentava não ter tido o privilégio de privar com Soares. Perguntei-lhe se tinha visto as entrevistas da RTP3. e, como ele , de facto, tinha, disse-lhe: "A maneira como o Dr Soares conta história e peripécias é exatamente como as contava num pequeno grupo de amigos. Está ali genuíno inteiro, singular, com toda a sua graça e acutilância. Não há mais ninguém que na vida e no ecrã seja tão igual a si mesmo". Por isso, essas memórias gravadas em vídeo são um delicioso convívio com um Dr, Soares, que permitirá aos jovens, às gerações futuras, o privilégio de um encontro intemporal com a maior figura política do século XX português.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

BISPO DE BRAGANÇA E MIRANDA versus MÁRIO SOARES

(antes de virar Soarista) A coisa mais próxima de uma discordância, que tive com o Primeiro-ministro, durante os dois anos e alguns meses do governo do Bloco Central, foi provocada por uma incursão na política do Senhor Bispo de Bragança e Miranda. A propósito das medidas de austeridade, impostas pelo estado das finanças e pela intervenção do FMI, para salvar Portugal da falência em que o Governo Balsemão deixara o país, em 1983. Tempos duros - mas mal comparados aos que se viveram, neste século, com as perniciosas imposições da troika... Então, a fórmula foi aplicada inteligentemente e resultou em pleno, oferecendo ao Executivo de Cavaco, a partir da adesão à CEE, em 1985, um futuro melhor, de "vacas gordas". Em democracia, a crítica é livre e das liberdades usou aquela alta autoridade da Igreja para zurzir as mais altas autoridade do Estado. Aproveitou o mês de agosto e um ajuntamento de emigrantes em férias para lhes recomendar que acautelassem as suas poupanças, que não as mandassem para Portugal, porque isso era o mesmo que" pôr dinheiro em saco roto" - exatamente estas palavras, um ditado popular para o povo entendesse bem o seu conselho. Vi os títulos de jornal, mas interpretei a intervenção episcopal como mais uma das muitas que havia que aguentar, estoicamente, enquanto Hernâni Lopes cuidava de acertar as contas (e acertou, ao contrário de Gaspar e Luísa). Para além de ficarmos a saber a opinião do Bispo, achei que os emigrantes mais o seguiriam como líder espiritual do que como consultor financeiro e, por mim, guardei sobre o caso um despreocupado silêncio. Contudo, um ou dois dias depois (estava eu a norte do país, nos meus périplos habituais), recebi um telefonema direto do Primeiro Ministro. Perguntou-me se conhecia as declarações do Bispo e eu disse que sim. Informou-me, então, que o Conselho de Ministros estava reunido, tinha analisado a diatribe de Bragança e decidido que era urgente ripostar. E eu fora escolhida para a missão. Argumentei que não era a pessoa mais indicada para discutir as finanças do país com o Bispo, cuja referência ao país como um"saco roto" tinha sido feita a uma audiência de emigrantes, como o poderia ter sido a residentes, (empresários, donas de casa, a jogadores de futebol...), a não punha em causa as políticas da emigração, pelas quais eu era responsável, A meu ver, o ideal era uma réplica do próprio Chefe do Governo e, como o Dr Soares declinasse, de imediato, sugeri o Ministro das Finanças. Firmemente, embora amavelmente, pôs ponto final às minhas objeções - a decisão do Conselho de ministros estava tomada, a incumbência entregue. Não me parecia, francamente, que subir o tom da polémica fosse útil e, por isso, o meu comunicado de imprensa ou entrevista - já não sei qual o modo utilizado - foi frouxo, morno, porque não consegui deixar de ser genuína. Dei a entender que o Sr Bispo não era especialista de finanças (como Jesus Cristo, segundo o Poeta), e assim encerrei, de vez, as hostilidades. Não creio que os mandantes do Conselho de Ministros tivessem considerado brilhante o desempenho da mandatária... Todavia, quando o mesmo Senhor Bispo, algum tempo depois, recebeu o já´Presidente Soares em Bragança, com grandes manifestações de regozijo e com os maiores encómios, pensei que talvez eu tivesse com aquela minha passada atitude contribuído um pouquinho para isso...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

JESUS EM QUEDA LIVRE

Para já em Chaves. Tudo bem, desde que o ponto final de aterragem não seja o Estádio do Dragão... É um temor que me acompanha há muitos anos.
UM FRENTE A FRENTE TEMPESTUOSO :SOARES-CCP FRANÇA 1- Como toda a gente, ouvia falar das cóleras súbitas e passageiras de Mário Soares (eu própria sou muito propensa ao mesmo tipo de explosão). Todavia, 7 anos depois de o conhecer pessoalmente , nunca assistira a nada que se pudesse qualificar nesse preciso comportamento e, nunca mais voltei a presenciar nada de semelhante nos 30 anos seguintes. Mas o que tive a sorte de testemunhar foi sensacional e fez manchetes em toda a espécie de "media". 2- CCP é a sigla de Conselho das Comunidades Portuguesas. O Conselho era um órgão consultivo do Governo, composto por representantes do movimento associativo e teve, desde o seu começo, em 1981, até ao seu silenciamento, a partir de 1988, e extinção, em 1990, uma vida bastante atribulada, devida, em linha reta, à politização dos conselheiros de França e, sobretudo de Paris. A instituição era de inspiração francesa, mas o modelo original (o Conséil Supérieur des Français de l' Etranger), não nos preparara para o potencial de conflitualidade de que o nosso se revelou capaz. De tal forma o confronto foi constante e radical, nesses anos longínquos, que só eu, a Secretária de Estado que o tinha lançado no mundo das instituições nacionais, consegui lidar com ele - um exercício de paciência, qualidade ou defeito que não é o meu forte. Em 1982/83, quando fui substituída por José Vitorino no 2º Governo de Balsemão, o plenário não foi sequer convocado - uma ilegalidade, em nome da paz e sossego do ilustre governante. Em 1987, quando saí de vez do Palácio das Necessidades, no 2ª Governo de Cavaco Silva, ainda se realizou o plenário, que, à cautela, deixei convocado e em ativa preparação. Mas a sessão plenária de 1987 decorreu num ambiente fúnebre de fim dos tempos, claramente definido no discurso do meu sucessor Correia de Jesus. O CCP ressuscitaria com José Lello, em 1996, mantendo a designação num novo formato. É agora eleito por sufrágio universal, por emigrantes (muito poucos...) e parece condenado ao "low-profile" em que, mais pacatamente, continua a sua marcha - infelizmente, para quem nele sempre pôs altas expetativas (o meu caso). Ainda por cima surgiu, há alguns anos, um auto-designado "Conselho da Diáspora", composto, fundamentalmente, por empresário e banqueiros, que ocupa o palco mediático que falta ao CCP. 3 - Este preâmbulo é necessário para se compreender o espírito que animava os delegados do CCP- França na audiência concedida pelo Primeiro- Ministro Soares. (eram quase todos comunista, de várias facções, não sendo os do PCP necessariamente os mais agressivos...). As audiências eram simples pretexto para uma conferência de imprensa e funcionavam como altifalantes num comício permanente. Quanto mais elevado o "ranking" do interlocutor, mais amplificação garantia ao confronto. Por isso pediam encontros ao PR, ao PM, ao MNE, a que estes, regra geral, se escusavam, Viam-se, pois, na necessidade de dialogar com a Secretária de Estado que, por dever de ofício, nunca se negava a essa espécie de ritual. Dessa vez, nem o MNE Jaime Gama nem o PR Eanes lhes abriram a porta, mas alguém convenceu o PM de que eles iriam ao Palácio de Belém no dia seguinte (de facto, nem sequer sei se estava pedida a audiência ao PR - acreditava que sim, mas não acreditava que fosse concedida, porque se tratava de um pequeno grupo, não do órgão em si). Vozes mais influentes do que a minha tentaram dissuadir o Dr Soares da sua posição, mas ele não recuou. 4 - O encontro, para o qual fui, naturalmente, convocada, teve lugar na Gomes Teixeira. Assisti, sentada num dos sofás, à direita do PM. O desastre anunciava-se desde a primeira fração de minuto, a hostilidade respirava-se no ar, marcava os semblantes fechados dos conselheiros. O Dr Soares, que tinha examinado o CV resumido de cada um dos interlocutores começou, com o seu proverbial à vontade por interpelar o padre operário, que dava nas vistas, com uma berrante camisola vermelha: "O senhor é que é o padre?" Ele respondeu que sim, mas rindo abertamente, um pouco a despropósito (era um homem jovial, amplo de estatura, extrovertido, na hora de liderar o combate, que ia iniciar). O Dr Soares atalhou severamente: "Não é caso para rir! Tenho muito respeito pelos padres". Senti que a tensão subia... Seguidamente, o Abílio Laceiras tomou a palavra. Sempre gostei do Abílio e continuo a gostar, mas é tudo menos um diplomata e, ali, não sei porquê, atrapalhou-se na exposição e, por fim, como Mário Soares o olhava, dubitativamente, resolveu explicar que se exprimia assim, porque era um homem do interior da Beira. O Dr Soares ripostou logo: "Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Salazar também era um homem da Beira e tinha um discurso muito articulado". Dito certeiro que baixou a temperatura - para glacial - generalizando a discussão, um coro autêntico coro de protestos. O PM dispôs-se a repor a ordem, à maneira de um moderador de debate: "Fala aquele senhor e os outros falam depois". Foi o pandemónio! Saltaram das cadeiras, todos ao mesmo tempo, como numa coreografoa bem ensaiada, gritando que se iam embora porque o PM os tinha insultado, mandando-os calar. O Dr Soares. enquanto eles saíam, (pouco menos que em passo de corrida, atropelando-se uns aos outros), gritava também: " Isto é uma grande golpada ! Foi para isto que aqui quiseram vir... estava tudo combinado, é tudo encenação!". Claro que era. Dali, os "enragés" foram diretos para a programada conferência de imprensa, onde contaram verdades a par de "pós verdades"... .Umas das quais foi a mentira absurda, mas eficaz, de que o PM os tinha acolhido mal, com os pés em cima da mesa. Foi essa a principal notícia da imbróglio, uma notícia não só ridícula como completamente falsa. A verdade é que, muito ao seu jeito, o Dr Soares não ficou hirto e colado às costas da poltrona, deixou-se escorregar, lenta, lentamente, e os pés foram ficando um pouco mais perto do tampo da mesa, mas por baixo, não por cima. 5 - Eu, que estivera calada durante as hostilidades - só teria falado se o Primeiro ministro me desse a palavra, como é óbvio - participei, comedida embora, na segunda parte deste episódio, que foi tão intensa, ou mais, do que a primeira. O Dr. Soares estava irritadíssimo! Ao seu chamamento acorreram vários assessores do gabinete, entre eles o da imprensa, que foi encarregado de redigir um comunicado, denunciando a premeditação de toda aquela trama. Contundente e imediato!. Ninguém achava que isso fosse a melhor ideia, havia que não valorizar a importância das pessoas envolvidas e dos factos passados, dar-lhe apenas a que tinham. Enquanto durou o estado de exaltação, o Primeiro-ministro não cedeu à nossa argumentação e o assessor, muito contrariado, preparava-se para compor o texto, Foram uns dez minutos altamente emotivos e, de súbito, com o simples correr do tempo, mudou de humor e concordou connosco. Eram assim, as suas cóleras, fortes e passageiras, como chuvadas tropicais (subjetivamente a comparação faz sentido - eu ia, então, muito a África e ouvia falar desse fenómeno, que despertava a minha curiosidade, e nunca se materializava, durante as minhas estadas, até que aconteceu, no Zaire, e só por milagre o Mercedes da embaixada "navegou" por uma estrada feita rio, a caminho do aeroporto - uma coisa absolutamente excessiva e grandiosa! Já com o Dr Soares muito bem disposto, aproveitei para me vitimizar - aliás, sem cair em exagero - dizendo mais ou menos isto: - Senhor Primeiro Ministro, teve aqui uma pequena mostra do que eu aturo constantemente. Comigo são horas de discussão, tensas, repetitivas, infindáveis. E, depois, disparam os ataques descabelados na comunicação social... É o meu dia a dia. Não com todo o Conselho, há uma maioria construtiva, com quem se pode trabalhar, sem politiquices . Mas este grupo é sempre assim! A resposta veio pronta: " Nem mais um escudo para esta gente vir passear e provocar desacatos!". A ordem tinha razão de ser, era justíssima, mas não completamente exequível, porque não podia prejudicar o todo pela parte... Continuaram a ser pagos, como os outros. Os outros para cooperar, sempre e bem, nos objetivos do CCP, estes, às vezes também, apesar das "bagarres"...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

BRASIL 2000

BRASIL - uma ÚLTIMA VIAGEM Depois de deixar a VP da AR, raramente fui indicada pelo PSD para integrar delegações parlamentares (não incluo aqui 13 anos nas delegações institucionais, Conselho da Europa e UEO). Que me lembre apenas duas idas ao Brasil, uma num 25 de abril, inaugurar uma estátua em S Paulo, na companhia de vários militares da revolução de 74, outra nas festividades do 5º centenário da Descoberta, no ano 2000 e uma aos EUA, em defesa da independência de Timor. Em 2000, coincidi com o Dr. Mário Soares na comitiva do Presidente Sampaio. Do ponto de vista pessoal foram dias maravilhosos, revi os amigos da nossa comunidade, estava permanentemente entre muita gente interessante, em excelentes hotéis, sempre em movimento, de cidade em cidade - Salvador, Porto Seguro, São Paulo, Rio.... De avião ou em deslocações em mini autocarros, muito confortáveis (poucas eram as limousines), em que me sentei ao lado da Secretária de Estado da Cultura, ou do José Lello, Secretário das Comunidades. Com o Zé Lello, de longe a longe, a discussão subia de tom e, para acalmar os ânimos, o Dr Mário Soares mandava-me mudar de sítio e sentar.me com ele no banco da frente... Do ponto de vista de uma avaliação das comemorações em si, com a exceção de algumas belas exposições, a nota só pode ser negativa. Em Porto Seguro atingiu-se o ponto alto do baixo nível do programa :uma caravela, "made in Brazil" que devia aportar ali e então, encalhou desastradamente; algures nos arredores, nesse e nos dias seguintes, houve cargas da polícia sobre manifestações de índios, a programação cultural parecia um "show" de meninos da escola primária, umas danças de roda, umas frouxas serenatas nas ruas antigas do belo centro histórico, um concerto numa pequena capelinha apinhada de ilustres personagens... a assinatura de uma adenda ao Tratado de Igualdade entre Portugueses e Brasileiros, que se limitava a diminuir uns prazos para pedir o estatuto de direitos políticos e a coligir documentos pré-existentes. Tudo insignificante face ao significado da efeméride, como Mário Soares haveria de expor, no ano seguinte, em linguagem contundente, numa audição parlamentar, de que falarei adiante Do ponto de vista do futuro do Tratado da Igualdade, contudo, esta acabou por ser, acidentalmente, uma jornada de uma importância crucial. Acidentalmente, graças a uma conversa tida pelo Dr Soares comigo, no átrio do hotel de Salvador da Bahía, que poderia ter acontecido em qualquer outro lugar e em qualquer outro momento. Estávamos ali, de pé, adiantados em relação à hora de sair, fazendo comentários soltos sobre já não sei sobre o quê. Até que eu comecei a criticar o facto de Portugal se mostrar incapaz de corresponder aos avanços da Constituição Brasileira, que, doze anos antes, conferira aos imigrantes portugueses, a plenitude de direitos da nacionalidade, sob condição de reciprocidade. A não dação de reciprocidade na Constituição portuguesa suspendia, pois, o alargamento do estatuto em vigor para os nossos compatriotas e era motivo de escândalo. Temia-se a qualquer altura a revogação do testo constitucional brasileiro, nesta matéria. A hora certa de por fim à polémica era aquela comemoração, que só assim, ganharia a devida dimensão. O Dr Soares concordava a cem por cento com as minhas diatribes e, logo ali, acordámos um plano para promover em Lisboa, ainda durante o ano de 2000, uma revisão extraordinária da Constituição, que era possível por 3/5 da Câmara. O passo seguinte foi reunir na Fundação Soares com deputados dos vários partidos - todos adeptos da "reciprocidade", como é óbvio. Não encontrámos abertura da direção das bancadas, nomeadamente do próprio PS, que, em 1997 fora o responsável único pelo impasse em que permanecíamos (o PS de Almeida Santos, que foi, nesta questão, um obstáculo intransponível, contra uma corrente quantitativamente largamente maioritária, onde se contavam Manuel Alegre, Sampaístas, Soaristas...). Tudo parecia perdido. Mas eis que, em 2001, acontece o inesperado, uma revisão constitucional com um ponto único: a criação das condições para Portugal poder aderir ao Tribunal Penal Internacional (TPI). A tentação de acrescentar outros pontos foi irresistível - alargou-se um pouco, mas pouco, o âmbito da revisão extraordinária. Óbvio, eu tentei introduzir a questão da reciprocidade. A recetividade na direção do grupo parlamentar era nenhuma, mas Durão Barroso interveio e não houve mais oposição. Criou-se a habitual Comissão para a revisão, com uma longa agenda de audições de personalidades. Sugeri ao representante do PSD, Marques Guedes, que incluísse o Dr Soares e ele ficou espantado. "Tem a certeza? Já contactou o Dr Mário Soares?" "Não, não o contactei, mas não é preciso. Tenho a certeza absoluta de que vem aqui defender esta emenda". E tinha!. Naquela auspiciosa tarde em Salvador, o Dr Soares fora muito claro - podia contar com ele em todas as propostas e diligências na matéria. O argumento para chamar o Dr. Soares à audição foi o facto de ele ter sido o Presidente ao tempo da criação da CPLP (e o Estatuto de Igualdade na nossa Constituição não se limitava ao Brasil, alargava-se a todos os países de língua oficial portuguesa). O Dr Soares foi e arrasou o que restava de oposição à emenda - o seu próprio partido, o amigo Almeida Santos, Jaime Gama... Foi tão contundente numa audição pública, cheia de jornalistas, que o representante do PS logo ali se rendeu à evidência do discurso. Estava finalmente alcançada a reciprocidade! A partir daí, a votação, em plenário, que seria unânime (ou quase - houve uma abstenção, mas que era genérica, não direcionada à questão brasileira) era um mero "pro forma" . Terá sido essa a última grande intervenção parlamentar de Mário Soares! Aconselho a sua leitura - é uma obra-prima se sabor queirosiano!

domingo, 15 de janeiro de 2017

O PRAZER DE VIAJAR COM ELES - ELES, Maria Barroso e Mário Soares! Não foram muitas as em que vezes fui na sua comitiva, mas foram memoráveis. Ninguém exprimiu a sensação de bem-estar e liberdade que se sentia no seu círculo O PRAZER DE VIAJAR COM ELES ELES - Maria Barroso e Mário Soares! Não foram muitas as viagens em que fui na sua comitiva, mas foram memoráveis. Ninguém exprimiu a sensação de bem-estar e liberdade que se sentia no seu círculo melhor do que a mulher de um Ministro PSD, ao lado de quem partilhei a fila do avião, horas a fio. "Com estes, tudo é permitido, com os outros (Maria e Aníbal Cavaco, o então Primeiro ministro) tudo parece mal! Se falo um pouco mais alto, repreendem-me de sobrolho levantado, se faço uma compra, é como se estivesse a arruinar as contas externas do país" . Rimo-nos imenso, ela pertence ao clube da gente divertida! Não me tendo nunca aventurado em compras no séquito do Prof Cavaco e da Dr.ª Maria (que acompanhei numa única viagem ao estrangeiro - Paris - em que me trataram bastante bem), fui, em deslocações caseiras, pelo menos uma vez apanhada em ruidosas manifestações e mandada calar, delicadamente, é certo, por um assessor...Por isso compreendia a minha amiga, mulher de ministro. Com o casal Soares tudo se passava ao contrário. Um exemplo: Quando íamos em rota para a África do Sul, com um avião cheio de empresários, jornalistas, funcionários, políticos, etc, numa algazarra medonha, já o Presidente já dormia, tranquilamente, e a Drª Maria de Jesus tentava dormir, fui eu própria que me dei conta da nossa inconveniência e pedi silêncio coletivo. Uma viagem de sonho, em que estivemos com Mandela e o Bispo Tutu - grande e sorridente conversador - , em que o ambiente a nível de sul-africanos e portugueses foi caloroso, vimos as mais belas paisagens do Cabo e assistimos ao doutoramento "honoris causa" de Mário Soares na famosa "Witts" (acho que na" Witts", mas não tenho a certeza). De qualquer modo, uma sessão colorida e soleníssima. O nosso Presidente, espantando a audiência a falar de improviso, e muito bem, enquanto os demais liam discursos pelo papel! Com o seu chapéu de doutor, que lhe ficava bem - todos ficavam, qualquer que fosse a cor e o design. De novo, dividi o meu tempo pela programação do Presidente e da Primeira Damas, com quem estive nas maiores instituições portuguesas de beneficência e cultura. (sempre tive um especial carinho pela Drª Maria Barroso, com quem 10 anos depois haveria de correr as comunidades da diáspora em quatro continentes!). Na altura, havia um movimento para a convencer a candidatar-se à presidência, movimento que eu estimulava quanto podia. Mas não podia estimular por perto do Dr Soares, que era irredutivelmente contra e se irritava, de verdade, com a simples menção da hipótese. O General Azeredo (com que depois partilharia a candidatura autárquica no Porto, na mais excêntrica e deliciosa das campanhas eleitorais - ele à Câmara, eu à Assembleia), preveniu-me, atempadamente... Creio que ele também era a favor, mas abstinha-se de o manifestar. Aquele General sempre me fascinou. Era culto, tinha muita graça e era descontraído, de uma forma que me parecia muito adequada. Perante paisagens deslumbrantes não hesitava em usar uma vistosa de máquina fotográfica, que levava a tiracolo.

sábado, 14 de janeiro de 2017

UMA (não) VIAGEM E UMA VIAGEM À URSS. Recordo uma oportunidade perdida de viajar na comitiva do Primeiro-ministro Soares, durante o governo do "Bloco Central". Teria sido a mais longa, e nas condições mais difíceis, com exposição inevitável ao frio e ao vento, quando não à neve. Nada que me fizesse recusar o convite, que só fiquei a conhecer "ex post facto". Nesses anos, de 83 a 85, morreram, um após outro, vários líderes soviéticos e o Dr Soares foi, suponho, aos seus sucessivos funerais. Estava ele já na URSS, na primeira dessas solenes exéquias, quando o Doutor Mota Pinto (Vice- Primeiro Ministro e Ministro da Defesa) me informou: "Nem a Manuela imagina do que eu a livrei! Do funeral de Moscovo - horas e horas, de pé, com um tempo gélido! O Doutor Soares sugeriu o seu nome, em representação dos membros do governo do PSD, mas eu disse-lhe que do PSD não ia nenhum". O mais gratificante deste episódio, ou "não episódio", é que, segundo me contou, o Dr Soares lhe tinha dito que preferia que fosse eu a acompanhá-lo, porque me achava divertida. Acabei por integrar a comitiva de Mário Soares, então Presidente, numa viagem oficial a três repúblicas soviéticas, cerca de dez anos depois. Já em pleno tempo de degelo de relações Este/Oeste, com a ascensão de Gorbatchev ao poder. Degelo diplomático, que não climatérico. Mal conseguíamos caminhar no chão branco de Moscovo. Logo no aeroporto, assisti a várias quedas e exercícios de patinagem. Eu própria, embora habituada às neves do inverno parisiense e norte-americano, me vi a escorregar perigosamente durante todos os dias que passei na Rússia - até voarmos para a Arménia e Azerbeijão. Foi uma viagem esplêndida! O Presidente Soares conseguia escapar, de vez em quando, aos rigores da segurança e do protocolo... Levava com ele uma comitiva parlamentar tão numerosa e pluri-partidária quanto possível. Em vez de seguir o critério da proporcionalidade de representação, a Assembleia, respeitando o seu pedido, mandou um membro de cada um dos grandes ou pequenos grupos parlamentares. E o Dr Soares deleitava-se a fazer pedagogia democrática naquelas repúblicas de partido único, apresentando cada um dos partidos ali presentes, através dos deputados, da esquerda mais à esquerda, até à direita mais à direita, em todas as gradações... O pior é que. como éramos tantos, o protocolo local, em vez de nos distribuir em, pelo menos, três "limousines" pretas, acumulava-nos numa vulgar carrinha ou "mini-bus", que, inevitavelmente, ocupava a cauda do cortejo automóvel, como o tradicional "carro-vassoura" no ciclismo. Depois, como o Presidente se recusava a iniciar qualquer cerimónia sem a nossa presença, era uma correria para chegarmos junto dele. O atraso parecia culpa nossa. Tanto protestei com o protocolo local (perante a inércia dos diplomatas portugueses) que resolvi o problema, sempre ao 2º dia, em cada uma das três Repúblicas. Não me queixei nunca ao Presidente, para não despertar a sua justa ira... Em outros casos, as autoridades soviéticas deram melhores provas, sobretudo no caso de um dos convidados presidenciais que, em Helsínquia, onde tínhamos pernoitado, num primeiro "stop" em rota para Moscovo, dormiu pesadamente e perdeu o avião! Nem sequer o passaporte tinha com ele (estava nas mãos do nosso protocolo, com certeza), pelo que entrou em Moscovo com um simples cartão de visita. Houve um sem número de momentos inesquecíveis nesse longo périplo, em que umas vezes seguia o programa do Presidente e outras o da Dr.ª Maria Barroso (o mais difícil foi escolher entre a visita a um poço de petróleo ou a uma passagem de modelos no Azerbeijão - optei por esta, não menos arcaica e, sem dúvida, mais hilariante). De qualquer modo, a minha maior contribuição durante esses dias foi ir no avião, à janel,a muita atenta às nuvens no momento em que de entre elas irrompeu o cume branco do monte Ararat. Gritei: "Ararat! Que beleza!" E o Presidente e toda a gente. ao menos naquela cabin,e pode contempla-lo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

NO PORTO EM FESTA - COM O DOUTOR SOARES

O animado e apaziguador reencontro no pavilhão das Antas não foi o único a acontecer no Porto. Curioso que a relativa pouca simpatia que o Dr Soares tinha pelo futebol o não levasse a recusar os convites do FCP (e seguramente de outros clubes, que eu não frequento)... Mesmo que considerasse sobrevalorizada a importância nacional e universal deste desporto, reconhecia assim a importância dos clubes como instituições. Até em Lisboa, no casino do Estoril, num aniversário do clube me lembro de ter ficado ao seu lado, nessa época em que por ser Vice-Presidente da Assembleia (não por ser genuinamente portista, como é óbvio) me cabia esse lugar no protocolo. A festa, ao contrário do que é habitual, não teve discursos. Apenas confraternização, um excelente jantar e, depois, um daqueles "shows" de casino, sem graça nenhuma (recordo vagamente uma trama de piratas). Entre cenas, o Dr Soares fechava os olhos, que abria logo que soavam as palmas. Até que do fundo da sala uma voz potente, com o acento do norte, gritou: "Biba o Porto!". Grito terminado por um palavrão de sabor regional. O Dr Soares, que me pareceu tão recetivo ao "show" de piratas das Caraíbas como eu, voltou-se para mim e desabafou: "Finalmente, algo de genuíno!" Quanto ao futebol propriamente dito, contou-me um dirigente do FCP que, uma vez, ao assistir à entrada das equipas, lhe perguntou: "Quantos são de cada lado?" Como não se passou comigo, não garanto que seja verdade. Mas pode ser., mesmo que o Dr Soares tenha jogado à bola em pequenino, porque estas coisas esquecem quando não são prosseguidas... Bem mais inquietante para mim, foi o que se passou numa celebração militar na Avenida dos Aliados, com a fachada da Câmara do Porto como pano de fundo. Era, se bem me lembro, o dia da Força Aérea, estavam presentes o Presidente Soares, o Primeiro Ministro Cavaco Silva e eu, em representação da Assembleia, todos solenemente alinhados no alto da plataforma. Gostava de paradas e de cerimónias militares que o presidente Vitor Crespo evitava sistematicamente (suponho que por não ter feito serviço militar e não se sentir muito à vontade). Era, pois, voluntária! O Professor Crespo convidava sempre para o substituir o 2º Vice - Presidente, que era do PS e oficial de Marinha, até que eu lhe confidenciei que era grande apreciadora de paradas e outras cerimónias militares. Além do mais, uma presença feminina era interessante, por ser, então, coisa raríssima. Aquela sessão não era a primeira, mas foi a primeira em que iam ser atribuídas condecorações. Por um altifalante, que era ouvido em toda a Avenida e nas proximidades, foi chamado o Presidente da República para impor uma insígnia. Lembro-me que avançou com todo o garbo e segurança, fruto de uma larga experiência - notei isso, mas sem atentar em pormenores. Mal ele se sentou, de novo, eis que do altifalante chamam o meu nome para entregar a segunda condecoração. Foi uma surpresa enorme, e um susto, porque eu não sabia como proceder. Tinha só duas hipóteses: perguntar a Soares ou perguntar a Cavaco... Sem hesitação, recorri ao Dr Soares (Cavaco ter-me-ia olhado com ar enfadado, mesmo que me desse resposta). Aliás, o próprio Presidente ficou um pouco perplexo: "Faça como eu fiz!". E eu: "O pior é que não vi como o Senhor Presidente fez!". Prático e rápido, o Dr Soares deu-me o esclarecimento, enquanto me levantava para descer à praça "Coloque a medalha do lado esquerdo, acima do coração". Cumpri o ritual sem qualquer problema... Na cerimónia militar seguinte (salvo erro, o dia das Forças Armadas) em Braga, fui convocada para idêntica tarefa, para a qual já me achava preparada. Engano meu! Saiu-me em sorte um oficial da Marinha, que objetivamente, sem culpa própria, se constituiu em inesperado desafio. A farda não era semelhante à da Força Aérea - ou pelo memos não o era uma tira resistente, que os dois longos ganchos paralelos da medalha não atravessavam com a mesma facilidade. Estava perante dois males: o receio de apunhalar o oficial se enterrasse os ganchos com uma boa dose de força e o de os deixar mal encaixados, levando a que a condecoração tombasse no chão, o que seria um desastre não menos horroroso... Por fim, sempre a perguntar se não o estava a magoar com os dois sinistros ganchos, consegui que o Comandante pudesse ostentar a insígnia no lugar certo, sem cair nem descair. No dia seguinte, uma simpática assessora da Assembleia, veio ter comigo, nos corredores de S Bento, e disse-me: "Com que então foi complicado colocar a condecoração na farda da Marinha?" Assenti: "Sim, foi terrível, o tecido era impenetrável..." Por um momento, assaltou-me a dúvida: teria boa parte do país assistido à cena, nos ecrãs da TV? Tinha de apurar o facto. "Como é que soube?". E ela, a sorrir: "O Comandante é o meu marido". Rimos a duas às gargalhadas!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES - UM LISBOETA ABERTO AO PORTO

Sou uma portuguesa do distrito do Porto, que conheceu Paris e Londres, aos 16 anos e Lisboa aos 18. Na política nacional, o ser "da província" não era coisa de todo irrelevante. Eu era-o, duplamente, por naturalidade (Porto), e pela vida académica (Coimbra). No PSD, onde havia Lisboa, província, grupo de Coimbra e outros mais, sempre me senti tratada como "provinciana" por vários dos mais importantes dirigentes históricos. E não só pelos políticos lisboetas, também pelos jornalistas. Nunca fui popular entre uns e outros. Ora o Dr Soares, definitivamente um lisboeta, nado e criado na cidade, sendo "um deles" não deixava de ser "um de nós" . Nunca o vi olhar-me "do alto" (neste sentido, pois mais alto do que eu era, obviamente), desde o primeiro momento. Uma inexperiente e desajeitada jovem Secretária de Estado, para além de tímida (embora mais em público do que em pequenos grupos), a quem ele fazia sentir-se desenvolta. É "pormaior" que não esqueço, até porque tudo se passava em clima geral de confronto, a que a nossa conversa não escapava. Falando da minha própria experiência, ao longo de quarenta anos, classifico o seu humor como tão incisivo quanto benigno. Sem excluir a graça mais contundente de todas, que selou uma espécie de reconciliação, após a campanha presidencial de 1985 (em que apoiei, entusiaticamente, Freitas do Amaral). Aconteceu. no Porto, num jantar, no grande pavilhão que ficava junto ao campo de treinos do estádio das Antas. A certa altura, não sei a que propósito, enveredámos pelo tema dos vários quadrantes políticos, mais quadrantes do que partidos, e eu proclamei-me "social-democrata à sueca". Comentário imediato do Presidente Soares: "Social-democrata à sueca? Julguei que era social-democrata à Strauss!" (Strauss, o homem de direita bávaro, que eu detestava. Não me revi na classificação e protestei: "O facto de pertencer à Fundação Século XXI não significa que tenha guinado à direita. Aceitei o convite do Prof Freitas do Amaral, porque trabalhei com ele no governo de Sá Carneiro e tenho por ele enorme admiração. Não é política, é amizade. E, como também gostei de trabalhar com Jaime Gama no governo do Bloco central, se ele criar uma fundação e me convidar, também aceito". A partir daí, o teor dos comentários foi-se amenizando. Discutimos pessoas concretas e foi muito divertido, porque eu apreciava mais alguns antigos governantes socialistas do que outros do meu partido e ele "idem"... Acabámos, à gargalhada, a discutir qual era o tipo mais burro - um determinado PSD ou um determinado PS. Não chegámos a acordo. Nomes não digo. Na expressão brasileira: "Não digo nem morta!".

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

INTERPELAÇÕES SEMPRE SIMPÁTICAS O Dr Soares tinha uma forma muito simpática de fazer pequenas provocações, Uma maneira de "forçar a nota", que tinha sempre graça e nunca ofendia. Eu tinha a fama mais do que o proveito de viajar muito. Claro, como Secretária de Estado de uma emigração espalhada pelo mundo, depois como deputada da emigração Fora da Europa ou membro da Assembleia do Conselho da Europa fiz possivelmente mais horas de voo do que muitas hospedeiras de bordo, mas não eram excursões turísticas a países exóticos, eram deslocações regulares aos mesmos destinos - as maiores comunidades portuguesas, Brasil, Canadá, EUA, África do Sul, Venezuela, sem esquecer algumas mais distantes, mais antigas, mais pequenas. Quero dizer, fui vezes vezes sem conta a Paris, Estrasburgo e Bruxelas (Conselho da Europa e UEO, ao longo 13 anos), assim como ao Rio, a Toronto e Montreal, a New Jersey ou a Connecticut, a Joanesburgo, Kinshasa ou Caracas, e apenas uma vez ou duas às Bermudas, a Goa, Malaca, Curaçau, Havai, Austrália ou Suazilândia. Hoje em dia, os meus sucessores viajam mais intensivamente, mas isso é visto com mais naturalidade... E o certo é que o próprio Dr Soares conhecia mais mundo do que eu, mas quando se falava de um qualquer país longínquo num grupo onde eu estivesse, voltava-se para mim e perguntava:: "A Srª Drª já lá esteve?" Nem sempre tinha estado....mas, em qualquer caso, achava graça

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES UM DEMOCRATA PRATICANTE

Se tivesse de definir Mário Soares em duas palavras, diria, simplesmente, UM DEMOCRATA PRATICANTE. Não se limitava a acreditar no conceito teórico, deu abundantes provas que estava disposto a todos os sacrifícios da sua vida pessoal para a alcançar no seu país enclausurado na ditadura. E gostava, realmente de a viver com os outros, no quotidiano, em gestos concretos, num diálogo sempre aberto ao contraditório, aceitando as diferenças com uma absoluta naturalidade. Era socialista, mas considerava essencial a coexistência de outras correntes, à direita e à esquerda. Era laico, mas promovia o diálogo com as diversas religiões. Era republicano, mas mantinha relações de amizade com muitos dos Reis da Europa e o respeito pela tradição histórica da nossa própria Família real (os títulos nobiliárquicos foram abolidos pela 1ª República, mas eu sempre ouvi o Presidente Soares dar publicamente o tratamento de "Alteza Real" ao Duque de Bragança, Dom Duarte Pio, e recordo que fez questão de marcar destacada presença no Mosteiro dos Jerónimos, no dia do seu casamento). Nada de sectarismo, de dogmatismo! Nada de roturas com adversários por divergências menores ou maiores! Coabitava bem, "très à l' aise" com os seus opositores - assim eles soubessem corresponder... Acho que não só tolerava como apreciava uma discussão acesa, mais ainda se revestida de sentido de humor. Um sinal de inteligência, que encontrei em outros políticos de primeiro plano - Mota Pinto, Sá Carneiro, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, pois a comentários heterodoxos, obtive boa recetividade. Todavia o Dr Soares, levava o caráter lúdico da convivialidade mais longe e num círculo de interlocutores mais vasto. Com tanta gente! Situei-me, felizmente, dentro desse círculo alargadíssimo e, para mim, conversar com Mário Soares, desde o primeiro encontro, na remota década de 70, até ao último, há poucos meses, foi sempre uma festa! Relembro três de muitos episódios antigos, dos fins da década de 80: 1 - Democrata e parlamentarista - ele que foi muito mais tempo ativista partidário, governante ou presidente da República do que deputado... Mas prezava a missão parlamentar, como cerne da democracia. Alguns dos episódios em que vi esse espírito bem vivo, aconteceram, precisamente, no Palácio de São Bento. Recordo, por exemplo, o que me disse no dia em que o presidente Joaquim Chissano discursou na sala do Senado. Eu estava sentada junto ao meu grande amigo José Gama, na 2ª ou 3ª fila, numa posição oblíqua em relação à Mesa da presidência, onde Soares e Chissano ladeavam o Presidente da Assembleia. Chissano falou muito bem. A certa altura comentei em voz baixa: "Belo discurso, num ambiente tão morno... Vamos puxar os aplausos"? O Zé Gama concordou com o plano. Muito atentos, no fim de uma bela frase, discretamente, bem sintonizados, aplaudíamos e contagiávamos todas as bancadas. Fizemos isso umas três vezes, acordámos aquela quieta massa humana, convencidos de que ninguém sabia de onde tinha partido a iniciativa. No fim. quando me cruzei com o Presidente Soares, ele disse-me: - "Muito bem! Pôs a sala a aplaudir nos momentos certos". E eu, completamente atónita: -" O Senhor Presidente viu que era eu? Não podia imaginar..." Resposta: - "Claro que sim! Eu sou um parlamentar!" Era, sim. E era, também, muito perspicaz e observador. Nunca o vi olhar especialmente para a bancada onde estávamos o Zé Gama e eu. 2 - A imagem do Parlamento nunca lhe era indiferente. No dia em que recebemos o Presidente da Índia, estava eu a fazer-lhe companhia no salão nobre ainda vazio, onde o visitante e todo o longo cortejo protocolar chegariam dentro de poucos minutos, e vi-o debruçado sobre a mesa, onde estavam expostos os presentes a oferecer durante a receção, pela anfitriã, a Assembleia (um embrulho em papel colorido, inequivocamente um livro), e pelo convidado (um vistoso elefante, cravejado de pedras semi-preciosas, ali, a descoberto). Voltou-se para mim e comentou: "Belo elefante! E, em troca, a Assembleia dá-lhe mais um daqueles livros vulgares...". Não estou a imaginar outro Presidente com um olhar tão curioso e tão preocupado com a desproporção das oferendas. Estava ele e estava eu, também. Por minha iniciativa não faria nada, porque o Presidente da Assembleia achava sempre intrusivas as minhas sugestões. Contudo, poder invocar a opinião do Dr Soares mudava as coisas. "Tem toda a razão, Sr Presidente. Vou ver se há solução". Em princípio, não haveria, era missão impossível, mas, pelo menos, serviria para evitar a repetição da "gaffe". O Chefe de Gabinete do Prof. Crespo estava ali perto. Chamei-o e disse-lhe: "O Doutor Soares acha que o livro que vamos dar é de menos". Ele ficou espantado, a assimilar o comentário por uns segundos, mas logo acenou com a cabeça, saiu, disparado, do salão e, quase ato contínuo, regressou, acompanhado de um funcionário, em uniforme de gala, que transportava um enorme jarrão da Vista Alegre. No minuto seguinte, entrou o cortejo presidencial. Um "timing" perfeito, como num filme de "suspense"... O Presidente da Índia, por sinal, viu, de imediato o jarrão, imponente, junto ao elefante, e disse (em inglês): "Que bonito! Estava salva a honra do convento... 3 - Outra conversa, no mesmo salão, no mesmo contexto, a espera de uma n um Chefe de Estado. Não recordo a data com precisão, sei que foi em 1989, durante o período da 2ª revisão constitucional. Poucos dias antes, tinha sido vencida uma proposta de alteração ao artº 15, que eu tinha encabeçado, para dar aos brasileiros em Portugal o mesmo estatuto de igualdade de direitos que a Constituição Brasileira de 1988 consagrava para os Portugueses, sob condição de reciprocidade. Uma verdadeira equiparação ao estatuto da nacionalidade, sem naturalização prévia, coisa única em direito internacional. Eu apresentara a proposta, redigida em conjunto com o Deputado Adriano Moreira, primeiro na Comissão de Negócios Estrangeiros, então presidida por Dias Loureiro, (onde foi aprovada unanimemente!), e, meses depois, no plenário, onde encontrou uma inexplicável, mas inultrapassável, oposição da direção dos dois maiores grupos parlamentares, PSD e PS... Embora votada pelo CDS, pelo PRD, pelo MDP/CDE e por muitos deputados de todos os partidos não obteve os 2/3 necessários. Mário Soares era um incondicional defensor da reciprocidade, que considerava de grande importância nas relações luso-brasileiras, como me disse nessa altura. As palavras do Presidente representavam uma espécie de vitória moral e eu, tomada de entusiasmo, manifestei um ruidoso e pouco protocolar contentamento, apertando efusivamente as mãos do Presidente. Ficou admirado. Esperançado, também: - Então, afinal, a emenda sempre foi aprovada? - Não, Senhor Presidente, não foi. Mas o seu apoio dá-me imensa alegria. (Foi assim que decorreu uma primeira "entente" sobre o assunto, que levaria 13 anos e 3 revisões constitucionais para resolver. E só acabou resolvida, favoravelmente, depois de uma intervenção contundente e decisiva do Doutor Soares, na revisão constitucional de 2011, feita a meu pedido - essa é outra história para tenho para contar

sábado, 7 de janeiro de 2017

SAUDADES DE MÁRIO SOARES

Estava, por acaso, a ver a RTP3 e a notícia veio, pondo fim àquela esperança impossível num milagre, que temos, enquanto as pessoas ainda estão entre nós. Há muito que considerava a figura do Dr Soares como o "primus inter pares" da nossa democracia. Há muito que, sempre que o encontrava, sabia que estava a olhar o Homem que mais influíra na história portuguesa do meu tempo de vida. Contudo, ainda não pensava assim quando o conheci em 1979. Não era do seu partido - e, na altura, isso pesava bastante - embora reconhecesse já a imensa importância do seu papel, antes e, sobretudo, desde o 25 de abril, fizera quilómetros atrás dele, como tantos anónimos fizeram, em marchas e demonstrações cívicas, nas ruas de Lisboa. Ninguém como ele lutou e alcançou, para um Povo inteiro, a Liberdade. Mas, na verdade, só comecei a gostar dele quando o conheci pessoalmente. Com ele, o à vontade era natural, a aceitação de quaisquer discordâncias políticas também (era eu Secretária de Estado no Governo Mota Pinto - governo que o líder do PS aceitava mal, como Sá Carneiro, porque era um governo de nomeação presidencial). Quando voltei aos Governos AD em 1980 e 1981, a oposição política mantinha-se: o Dr Soares estava ainda do outro lado, mas o seu encanto pessoal era o mesmo. Até que me vi do seu lado, no Governo do Bloco Central! E a minha relação com ele era quase invariavelmente marcada pela boa disposição, por ditos engraçados da sua parte, a que eu procurava responder. Apesar de voltar a situar-me no campo oposto, por uns meses, no governo minoritário de Cavaco Silva, não tardámos a retomar um diálogo refrescante e divertido (o reencontro, depois da queda do Governo Soares/MotaPinto, foi no estádio das Antas, numa grande festa portista, em que fui, por boa sorte, colocada ao seu lado). Seguidamente, já com Mário Soares Presidente, via-o e acompanhava-o, muitas vezes, na qualidade de Vice-Presidente da Assembleia. Uma das vezes em que aguardávamos, no salão nobre, a chegada de um Chefe de Estado estrangeiro, um casal real, o de Espanha, suponho, enquanto os outros membros da Mesa da Ar aguardavam à entrada do Palácio, disse-me, qualquer frase como esta: "Está aqui comigo, quando podia estar lá em baixo, na comitiva, a receber o Rei..." . Foi com toda a sinceridade que lhe respondi: "Prefiro, de longe, estar aqui na conversa com o Senhor Presidente!" Sim, não havia nada que eu preferisse a um diálogo, mesmo que só de uns cinco minutos, com o Dr Soares! Não era a conversa com o Presidente, nem com o grande protagonista da nossa História, mas com o Dr Mário Soares. Tive, por fim, o gosto de fazer a única campanha presidencial, que o Dr Soares não ganhou - e eu previa que não ganhasse, mas achei-o simplesmente fabuloso! E pude intervir em alguns pequenos comícios, ao seu lado, e dizer o que me ia na alma, quanto ao que essa candidatura significava para Portugal: ter de novo um Presidente, que acrescentava prestígio ao País, cujo nome era universalmente reconhecido. São essas recordações - sobretudo, as deliciosas narrações que encheram o último serão que passei na sua casa, com ele e a Drª Maria Barroso, na primavera de 2015 - que relembro agora. com muita amizade e infinita tristeza.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

DE 2016 a 2017 LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER

I - 2016 deixa a 2017, essencialmente, um rasto de ameaças e incertezas, a nível planetário. Ondas de choque que já vinham de trás, mas ganharam nova dimensão, trouxeram-nos a um cenário marcado por três formas de globalização, que se entrelaçam e potenciam efeitos num todo mais nefasto do que a soma das partes: - a globalização do terror, exportada a partir dos seus núcleos territoriais no Médio Oriente, que, a todo o momento, pode levar os horrores da guerra ao mais distante e improvável recanto do universo (e que, por isso se transmuta em globalização dos sentimentos de insegurança e de medo, caldo de cultura para a aceitação dos profetas de muitos e variados extremismos - do Tea Party à Alt Right, que rodeiam Trump, de Farage e outros paladinos do Brexit, a Marine Le Pen, à Alternativa Alemanha, à ascensão ao poder dos seus "clones" na Hungria, na Polónia. - a globalização da mentira, ou "pós verdade", expressão, em si, bem reveladora de uma "normalização da mentira", a partir, como bem sabemos, sobretudo, do núcleo duro dos novos media, das redes sociais - o crime cibernético atingiu, coisa antes inimaginável, a democraticidade das eleições americanas, ajudando a eleger Donald Trump, ele próprio, autenticamente, uma encarnação da "pós-verdade" no seu quotidiano. . - a globalização de um capitalismo selvagem, regido pela lei dos mercados, à margem da leis do Estado, do seu poder de regulação e equilíbrio, ou seja, o controlo do poder político pelo financeiro, que manda, sem disfarce, nem necessidade da mediação de políticos menores, de "yes men" - uma "economia que mata" nas palavras do Papa Francisco. O Papa é cada vez mais, o grande líder espiritual do mundo, e não só da Igreja Católica, denunciando, incessantemente, esta trilogia fatal - a violência, a mentira, a ganância. Para representar a passagem de 2016 a 2017, nD melhor do que uma das mais belas canções de todos e para todos os tempos: "like a bridge over troubled water"... A esperança possível no atravessar de abismos... Poderão as eleições a realizar nos maiores países do centro da Europa, inverter a tendência de 2016 e salvar o que resta do humanismo europeu, com Angela Merkl, à direita moderada, a abrir portas a milhões de refugiados, e sem Marine Le Pen, na extrema direita, a erguer mais "muros da vergonha"?... Com Trump a fazer não a América, mas a "Russia great again" , poderá a Europa, a braços com o Brexit e a estagnação económica, ressurgir das cinzas, e lançar para outros continentes essa "bridge over troubled water"?... E poderão personalidades singulares, como o Papa e António Guterres, ser essa ponte de salvação para tantas nações desfeitas e tantos Povos sem terra? Pontos de interrogação, muitos, para o ano que assim principia... . 2 - Em Portugal, todavia, 2016 foi, inesperadamente, um ano bem melhor do que o anunciado nos pontos de interrogação colocados em fins de 2015 e lança sobre 2017, em contra-ciclo, prognósticos favoráveis... apesar da dívida colossal, da dependência de factores exógenos, do estado da economia e do estado da banca, que não mudaram, no essencial. Mudou, contudo, o estado de espírito coletivo, por influência das pessoas, que têm o poder de influenciar! O novo Presidente da República chegou e trouxe consigo uma nova forma de estar em Belém (e, um pouco por todo o lado, imparavelmente...), de dar ânimo aos seus concidadãos, em nome dos afetos, da concórdia e da alegria (e energia!) de viver. O novo Primeiro - ministro (seu antigo aluno na Faculdade de Direito, e um excelente aluno) vai pelo mesmo caminho. A imagem que melhor define o ano político, será aquela em que, no Dia Nacional, sob a chuva forte de Paris, partilham um guarda.chuva! Na verdade, primeiro, rendeu-se-lhes Portugal, que, nas sondagens, dá 97% a Marcelo Rebelo de Sousa e um pouco menos, mas bastante, a António Costa. Depois, rendeu-se-lhes a Europa, esfumado o receio dos excessos "gauchistes". de um Executivo saído de uma fórmula parlamentarista inesperada e inédita na Europa atual, se bem que legítima. E, num 10 de julho histórico, o mundo rendeu-se a Portugal no mais mediático dos desportos, com a conquista do campeonato europeu de futebol. Uma trajetória espantosa, de empate em empate até à vitória final, contra a França, anfitriã do evento e grande favorita. Uma seleção de uma vedeta única (Ronaldo, então em baixo de forma, mas, ainda assim, Ronaldo), intergeracional (do mais velho, o incomparável Ricardo Carvalho, ao mais novo, um irreverente Renato Sanches, passando pelo reaparecimento de Quaresma). Fernando Santos acaba de receber o troféu de melhor treinador do mundo! Ronaldo, idem, como jogador (sem ponto de exclamação, porque a isso já nos habituou). Por fim, nesta síntese de feitos notáveis do 2016 português, o maior de todos: a eleição de António Guterres para Secretário - Geral das Nações Unidas. E não pela via de meros jogos de bastidores, como aconteceu com os seus antecessores, mas numa escolha pelo puro mérito individual, em processo transparente, pontuado por debates abertos, em que foi sempre, destacadamente, vencedor. Homem universal, a quem está agora entregue a missão de velar pela paz no mundo (missão quase impossível, em que, segundo Jorge Dias, o nome maior da nossa antropologia, nos saímos melhor do que em tarefas fáceis e rotineiras). Guterres e Marcelo, colegas e especiais amigos, pertencem ainda à "geração de ouro" (terminologia mais usada em futebol, mas igualmente expressiva aqui), com que se construiu a democracia em Portugal.. É bom podermos olhar para nós próprios, sobretudo para essas personagens emblemáticas, que dão a medida grande das nossas capacidades, e sentirmos que temos muito a aprender com outros Povos, mas também muito a ensinar-lhes! 2016 foi, nesta perspectiva, um ano de mudança positiva, de auto-confiança e de auto- afirmação, que de individual, do domínio da política, se foi convertendo, a pouco e pouco, em coletiva, na sociedade. Assim seja, igualmente, 2017 Maria Manuela Aguiar

domingo, 1 de janeiro de 2017

MOTA PINTO NO SEU TEMPO POLÍTICO

Acabo um ano e começo outro a ler uma muito interessante biografia de Mota Pinto, lançada no dia 16 de dezembro, no auditório do Museu Soares dos Reis. São cerca de 800 páginas, de uma tese de doutoramento, excelentemente documentada, sobre um dos políticos mais importantes do Século XX, e não só sobre o Homem, mas sobre o seu tempo político, que se inicia imediatamente após o 25 de abril e vai até ao ano da sua morte tão prematura, em 1985. Um trabalho que estava, em larga medida por fazer. O enfoque sobre a espantosa aventura da democratização do País, não esquecendo, o que por vezes demais tem acontecido, uma das suas figuras principais, Mota Pinto, sem a qual o curso da História teria sido outro, mais incerto e mais moroso em direção à meta da alternância partidária na governação - que marca a transição para a plena democracia. O IV Governo Constitucional, de iniciativa presidencial, é certo, mas legitimado pelo parlamento, foi no pós revolução o primeiro que se pode considerar como tal. E por isso, na posse do VI Gov Const Sá Carneiro falaria do seu como o primeiro governo de alternância, resultante de uma eleição livre (até então tinha sido sempre o PS a liderar, como partido mais votado pelo povo, ainda que não maioritário. A Mota Pinto se deve o mérito de provar que a agitação da rua não valia mais do o sufrágio, que o país era governável, pelo menos, à esquerda ou ao centro (a que se chamava direita, como se chamou ao IV e VI Governos, apesar de o não serem...). Não foi o único, nem o mais pequeno dos seus méritos| E graças a ele, à prova provada da governabilidade à direita do PS, se construiu a vitória da AD... Sempre assim pensei!