quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

EMIGRAÇÃO NAS ESCOLAS

 Ferro Rodrigues. 110973657 Resolução da Assembleia da República n.º 267/2017 Recomenda ao Governo a valorização do ensino da história da emigração portuguesa A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que: 1 — Reforce a presença nos currículos escolares da história da emigração portuguesa, de forma integrada e nas suas várias dimensões. 2 — Apoie o desenvolvimento da investigação sobre a emigração portuguesa nas instituições de ensino superior portuguesas e estrangeiras, em particular em países com presença relevante de comunidades portuguesas. Aprovada em 27 de outubro de 2017. O Presidente da A

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CONDECORAÇÕES NO MASCULINO

Dizer "condecorações no masculino" é quase um pleonasma, de tão raras que são as femininas.
Portugal condecora muito, mesmo muito, em termos comparativos, mas, em regra, apenas homens. Assim aconteceu, recentemente, no Porto, pela mão do Presidente Marcelo. De uma assentada foram sete. Sete magníficos! Segundo a lista publicada pelo JN: Germano Silva, Valente de Oliveira, Amândio Seca, José de Oliveira, João Casal, Avelino do Carmo, Eduardo de Sousa. Oriundos do meio académico, cultural, empresarial. Nada contra - alguns conheço, são amigos que admiro, e os outros serão, decerto, igualmente merecedores. Em todo o caso, fica a pergunta: não há no Porto uma, ao menos uma, ilustre senhora a distinguir, do mesmo modo?
Parece que não.
De todos os presidentes da Republica do pós 25 de abril, só Jorge Sampaio se preocupou em olhar em volta e descobrir valores na metade esquecida da sociedade portuguesa. Começou por o fazer numa data simbólica do combate das mulheres pela igualdade - o 8 de março. Algumas teriam preferido o 10 de junho...  Eu não -  gostei que tivesse sido assim, como uma chamada de atenção não só para as individualidades, como para a discriminação que ainda as atinge enquanto sexo, ou género. Ou seja, para a regra e não só para as exceções.
Recebi, em Braga, a par de outras colegas que, por largos anos, haviam servido no Governo da República, ou. em outros cargos e domínios, a minha condecoração (a  Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo trabalho feito nas comunidades do estrangeiro).
Ter acontecido num 8 de março e por decisão do Presidente Jorge Sampaio, aquele com quem mais me identifico com feminista, acrescentou imenso ao significado do gesto em si.
Agora, cerca de 20 anos depois, pensando nas cidadãs Portuguesas, que, dentro e fora do País, sem qualquer reconhecimento oficial, se envolvem em atividades cívicas ou profissionais, no voluntariado e na luta contra todas as formas de discriminação, tinha de fazer este reparo...



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ENCONTRO DE PORTUGUESES NAS MARGENS DO RIO PRATA

1 - Todos os anos, em Novembro, os Portugueses do chamado "Cone Sul" (da América) encontram-se num dos três países que o formam, Brasil, Argentina e Uruguai.  O grande Encontro nasceu à volta de um campeonato do popular jogo da sueca, que, praticamente desde o início, se foi alargando a outras formas de convívio interassociativo - exposições, desfile e exibição de ranchos folclóricos, palestras, debates, conferências... Na verdade, a componente puramente lúdica com que começou por se apresentar e por ganhar o seu público, rapidamente cedeu a um marcante perfil cívico e cultural, com a participação de personalidades de relevo dos países co-envolvidos - membros do Governo, Deputados, Diplomatas, Autarcas, Conselheiros das Comunidades, dirigentes das instituições comunitárias, especialistas das temáticas em análise, escritores, artistas plásticos....
A 29ª edição decorreu nas margens do Rio da Prata, na famosa Colónia de Sacramento, fundada por Manuel Lobo, ido do Rio de Janeiro, por largo tempo, território de reino português e hoje "património da Humanidade", na sua belíssima traça antiga. Sem o imenso Prata à vista, poderíamos julgar que estávamos no centro de uma vila transmontana, milagrosamente preservada, através dos séculos.
A qualidade da sua reconstrução, em data recente, fica a dever-se, sobretudo, a um notável historiador luso-uruguaio, o Prof Fernando Assunção, com quem em 1980 visitei a cidade, ainda á espera  da finalização das obras que a colocaram no mapa da UNESCO.
  
2 - Num outro país de emigração, este Encontro seria apenas importante. No nosso caso, é mais do que isso: é único! É um paradigma de internacionalização  inédito no panorama do associativismo português.
De facto, ao contrário do que acontece nos demais países europeus. o associativismo português é muito forte, a nível de cada cidade, ou região, ou país, mas nunca ultrapassa esta última fronteira.
A proliferação de organizações mundiais de emigrantes deu-se em inícios do século XX, num tempo em que os europeus procuravam, em massa, nova vida na América, de norte a sul. Exemplos: a Organização dos Suíços no Estrangeiro, (que ainda hoje dá mostras de extraordinária vitalidade, reunindo anualmente, em congresso, mais de um milhar de emigrados e elegendo, entre eles, o mais antigo dos "Conselhos" das Diáspora europeias: a "Associação Mundial dos Austríacos no Estrangeiro"; os "Flamengos no Mundo" e a "União Francófona dos Belgas no Estrangeiro": a "Associação de Cultura Alemã no Estrangeiro": a Fundação dos Espanhóis no Mundo": a "Associação para os Direitos dos Ingleses": a "União dos Italianos no Estrangeiro": a " Suécia no Mundo" e a "Associação Educativa das Mulheres Suecas": a "União dos Franceses no Estrangeiro", a primeira a reclamar, desde 1927, a representação política dos expatriados, (que está na origem da instituição, em 1948, do "Conselho Superior dos Franceses do Estrangeiro", atualmente "Assembleia dos Franceses do Estrangeiro" - órgão de consulta governamental, em que se inspiraram, na década de 80, os "Conselhos" de todos os outros países europeus, incluindo o nosso). A última  é "Comunidade Polaca", constituída em 1991, pouco depois da dissolução da URSS.
É paradoxal ver o Povo que, na sua dispersão planetária, corporizou o primeiro movimento de globalização dar, assim, mostras de incapacidade de unificar institucionalmente um movimento associativo pujante, mas fechado sobre si - como uma infinidade de ilhas que querem sempre fazer ponte com o País, mas não entre si.
Houve uma tentativa, tardia embora, de alterar este estado de coisas - nos anos sessenta, com  a criação da "União das Comunidades de Cultura Portuguesa", por iniciativa de Adriano Moreira, então presidente da Sociedade de Geografia, O regime não a deixaria sequer passar da proclamação formal, num grande Congresso mundial,  para a ação concreta.
De qualquer modo, note-se, era de dentro do país e não da própria Diáspora que o clarividente projeto nascia...Depois, no princípio de oitenta, foi o governo a propor uma ideia de federalização associativa a partir do Conselho das Comunidades. Também não resultou. O Conselho continua, mas como mero órgão consultivo governamental, onde há dirigentes de coletividades dos cinco continrentes, eleitos a título individual..

3 - Neste novembro de 2017, houve uma razão muito especial para reunir no Uruguai o atual Secretário de Estado, José Luís Carneiro e dois dos seus antecessores, José Cesário e eu mesma: O Encontro era dedicado a José Lello, 
que ocupou esse cargo, de uma forma memorável, nos anos noventa e começo do século XXI. Foi depois Ministro do Desporto e deputado, sem nunca esquecer e, como se viu em Sacramento, sem ser esquecido pelo mundo da emigração. Foi o único titular da pasta, que anos depois de cessar funções procurou lançar uma Fundação para o diálogo no espaço lusófono (Terra Mater) e convidou-me a partllhar com ele o empreendimento. Aceitei sem pensar duas vezes, porque  para mim José Lello, tendo sido, episodicamente, um adversário político, se convertera num amigo verdadeiro -  e para sempre. O que nos dividiu, numa fase encerrada foram questões menores. No essencial, tínhamos a mesma visão da Diáspora e da urgência dea unir em volta de valores culturais. Por isso, não hesitei em fazer tantos milhares de quilómetros para o lembrar, numa sentida  homenagem, com a presença do seu filho Miguel, entre muitas centenas de Portugueses de países distantes. (a homenagem que faltou no Portugal do território...).

SOBRE A MINHA DESCOBERTA DAS ACADEMIAS DE BACALHAU



Em 1980, por gratificante "dever de ofício", como membro do Governo responsável pela emigração, iniciei um infindável roteiro de viagens ao mundo da nossa Diáspora, que até aí desconhecia na sua verdadeira dimensão, como era comum e ainda hoje é, entre os portugueses que de deixaram ficar no território das fronteiras geográficas. 
Cheguei à África do Sul, em setembro desse ano, já com a experiência de contactos com coletividades portuguesas de três continentes, e, assim, facilmente, pude constatar, viver e sentir a absoluta originalidade das Academias de Bacalhau, enquanto modelo de reunir os portugueses para fazerem coisas grandes na campo dos valores do humanismo, da lusofonia, da entreajuda, em ambiente de tertúlia, a partir da festa, de ditames e rituais, que se diria (e bem...) inspirados nas tradições académicas, numa fraternidade de jovens de espírito, se não de idade...  Nos momentos divertidos em que levantava, baixava e bebia um copo de vinho no meu primeiro " gavião de penacho", pensava: "que ideia tão bem achada e tão bem conseguida!". Estava em Joanesburgo, na Academia-mãe, num almoço certamente mais formal do que habituais, mas onde (não obstante esse "senão"...), o espírito da festa se mantinha intacto. Entre tiradas de humor, graça "académica", boa disposição geral, ao lado do mítico fundador  Durval Marques, aprendi que nas Academias, já então pujantes em outras cidades do África austral, ninguém se ficava no "convívio pelo convívio". Eram todos militantes da intervenção solidária na sociedade! Aprendi que a ação se desenrolava, sempre, em dois tempos sucessivos:
 Primeiro, o dos almoços de amigos, puramente lúdicos, com as suas regras estritas de convivialidade, as proibições (como falar de religião, de política...), cuja infração frequente, garantia multas pesadas:
 Segundo,  o da gestão das generosas "multas". Com essas verbas lançaram,por exemplo, a primeira pedra do lar de terceira idade de Joanesburgo, que talvez seja o melhor de todos os que existem na Diáspora, prestaram assistência aos refugiados de Moçambique e Angola, em 1974 e 1975, e prosseguem, hoje nos quatro cantos da terra, projetos adequados ao perfil de cada comunidade, ás suas aspirações culturais ou ao apoio a desfavorecidos.
Aquele primeiro "almoço de descoberta" converteu-me em incondicional admiradora de tão eficaz paradigma de, "ridendo",  fazer o bem ! Ainda por cima, fui declarada membro da "Academia-mãe", com um sentimento de genuína adesão aos seus princípios e práticas, fundados na amizade, na alegria de conviver e na vontade de tornar o mundo melhor e mais divertido. 
Não era, aliás, a primeira portuguesa a ser assim chamada ao convívio dos auto-designados "compadres". Na altura, os almoços e, com eles, a titularidade de associado,  eram, em regra, reservados aos "compadres", mas tudo o que se passava em horário pós-laboral, jantares, encontros, abrangiam as mulheres, as "comadres".  Era a evidência de que a "praxis" se baseava em formas de relacionamento preexistentes - o do almoço, na pausa do trabalho, entre profissionais (todos homens, porque a metade feminina estava, de facto, ausente desse círculo), o do jantar, naturalmente, reunindo famílias inteiras. Nunca foram, bem pelo contrário, uma espécie de "clube inglês" segregacionista! Quando as Academias chegaram a comunidades onde as mulheres partilhavam  com colegas homens o meio profissional, logo se abriram à sua plena participação e logo as vimos assumirem cargos de direção e até a presidência - o que nas instituições mais tradicionais foi, ou ainda é, um caminho longo...
Defensora, como sou, de uma associativismo misto, onde os géneros de completam como fator de progresso e democracia, compreendo a existência de organizações femininas - ou masculinas - quando moldam realidades  de cooperação, que, de outro modo, seriam prejudicadas, esperando, embora, vê-las evoluir para um harmonioso encontro das duas metades, do todo. Também neste aspeto, que tende a ser sempre menos valorizado, as Academias de Bacalhau nos deram uma lição de boas práticas, na rota dos bons princípios!

domingo, 19 de novembro de 2017

RIO E SANTANA ENTRE OS HOMENS DO PARTIDO

Estou a ver a SIC Notícias, Santana nas florestas, que os incêndios deixaram dramaticamente negras, Rio num colóquio.
Santana rodeado por homens, sem uma única mulher à vista. Rio numa mesa também 100% masculina. embora com uma audiência  razoavelmente paritária (ou seja, nos moldes da lei, que só exige 1/3...)

À atenção das Mulheres Sociais Democratas), que têm muito caminho a andar!

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

No LUXEMBURGO, INSTITUTO CAMÕES

Dia 19 de outubro, Apresentação do livro de TENREIRA MARTINS, nas versões francesa (L ' Harmattan) e portuguesa (Orfeu). Patrocínio do Instituto Camões. Oradores: o Autor, o Padre Melícias Lopes e eu mesma. Presentes a anfitriã, Doutora  Adília Martins de Carvalho , o Consul-Geral de Portugal, Dr Manuel Gomes Samuel, o antigo Embaixador em Portugal Paul Schmidt, hoje chefe do Protocolo no MNE luxemburguês, numerosos dirigentes associativos, o Conselheiro das Comunidades e muitos outros compatriotas. Excelente tarde para falar de um livre singular sobre histórias comuns e incomuns das nossas migrações.

domingo, 22 de outubro de 2017

HOMENAGEM A RUTH ESCOBAR NA CONFERENCIA "PORTUGAL BRASIL A DESCOBERTA CONTÍNUA"



DE MARIA RUTH DOS SANTOS A RUTH ESCOBAR

Ruth Escobar foi, porventura, no Brasil, a mais destacada  mulher portuguesa da sua geração. Nome célebre na cultura, na política -  ativista de direitos humanos, voz indomável contra a ditadura, feminista tardia mas convicta, pioneira na vida política brasileira, primeira mulher eleita deputada, em dois sucessivos mandatos, à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, 
 Maria Ruth dos Santos, na pré-história de Ruth Escobar, foi uma emigrante comum. Aos 16 anos acompanhou a mãe numa partida, de onde não haveria retorno. Invulgar era, sim, o facto de ser uma aventura no feminino, de uma mulher solteira e da sua filha única - a menina rebelde que estava destinada a convolar o modesto projeto de futuro, com o ímpeto da sua ambição e o fulgor da sua personalidade, num trajeto épico de permanentes rupturas e incríveis desafios, em rota da continuada transcendência do seu "eu", no cenário movente de novas fronteiras físicas e culturais. O seu saber é todo "de experiência feito" -  as viagens pela geografia, pelas alteridades culturais, são fonte de conhecimentos avidamente absorvidos e inspiradores de ação. Ousada e vanguardista, fará dessa mundividência em progressão uma arma para mudar o mundo, e, com ela,om ela haveria de revolucionar a realidade e o devir do teatro brasileiro.
Através de todas as metamorfoses, Maria Ruth será, porém, sempre a portuguesa do Porto, nascida em Campanhã, criada na rua do Bonjardim, no coração da cidade que levou consigo, em gratas recordações, A sua autobiografia, desde o primeiro parágrafo, é uma história portuense, começa num calcorrear de ruas e praças familiares, nas festas do São João, nas sessões de cinema do Rivoli, nas excursões de elétrico até à Foz, quando chegava o verão, ou até aos jardins do Palácio de Cristal, e, também, nos longos dias de aulas no Carolina Michaellis, onde se inicia na arte dramática, a representar, ao som dos primeiros aplausos, todos os diabos dos autos de Gil Vicente...
Nas suas próprias palavras: "quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente".
Na esteira dessa certeza, a sua vida avançará, vertiginosamente. No "Roosevelt" , mal acabara de chagar, a sua graça em palco, encarnando, de novo, os diabos de Gil Vicente logo, granjeia-lhe  o prémio oficial de "rainha" do colégio. Passa os exames, sem dificuldade.  Todavia, logo troca os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias". É um sucesso, já ganha mais do que a mãe, mas depressa dá um passo em frente, angariando apoios na comunidade portuguesa para criar e vender a sua própria revista, "Ala Arriba". Tem apenas 18 anos. Na sua nova veste, apercebe-se das ameaças que se desenham sobre a presença portuguesa na Índia e propõe-se defende-la à volta do planeta. 
Corria o ano de 1954 e, uma vez mais, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, a improvisada jornalista, ainda "teenager", vai ombrear com os melhores correspondentes de imprensa internacional, entrevistando uma longa lista de celebridades, como Foster Dulles e Christian Pinaud, Bulganin e Krushev, o Principe Norodan Sihanouk, o presidente das Filipinas, os primeiros-ministros da Turquia e da Tailândia, o mítico Nasser (a única a ter esse privilégio, no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo!), e entre compatriotas, os governadores de Macau e da Índia e até Salazar. Os seus exclusivos são disputados por revistas como a "Life" e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, É um primeiro vislumbre de fama.... Convidada a integrar a comitiva do Presidente Craveiro Lopes na visita oficial a Moçambique, acaba expulsa por ato considerado subversivo -  a revelação perante os "media" nacionais e internacionais de um trágico acidente aéreo, que a propaganda do regime queria ocultar. Será o primeiro de muitos gritos de liberdade, pelos quais não hesitará nunca em arriscar tudo, 
Na casa dos seus vinte anos, lança-se como empresária e produtora teatral, depois como atriz. Constrói um teatro com o seu nome, na cidade de São Paulo, e  e faz história com a fundação, em 1963, do Teatro Nacional Popular, que leva ao povo das periferias do Estado, a muitos milhares  de pessoas, espetáculos de qualidade (Martins Pera, Suassuna...) no palco improvisado num velho autocarro. 
Não é menos arrebatadora é a sua vida fora de cena, com quatro filhos de três casamentos (o primeiro anterior a esta década, o segundo com o poeta e dramaturgo Carlos Escobar, o terceiro com o arquiteto Wladimir Cardoso, que viria a ser o cenógrafo das suas peças de enorme êxito artístico - como "Cemitério de automóveis" de Arrabal, com montagem do argentino Vitor Garcia, e encenação dela mesma: Uma dupla que, em 1969, com "O balcão" de Jean Genet, venceria todos os prémios, no Brasil.
Os trinta anos de Ruth são passados no tempo conturbado de repressão e de medo em que se afunda o país, a partir de 1964. O seu teatro converte-se em palco de luta pela liberdade de expressão, Sucedem-se as ameaças, as pressões, os ataques de comandos para-militares, a violência sobre os próprios atores.  Na sua autobiografia, Ruth Escobar diz-nos que perdeu a conta ao número de ameaças, de prisões e interrogatórios, aos quais ia respondendo sempre com desafios a rondar o excessivo, como reconhecerá, retrospetivamente. De uma das vezes, é Cacilda Becker, sua referência, mentora e grande amiga, que intervém junto do Prefeito de São Paulo para conseguir liberta- la: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou...
É nesta sua década que traz a Portugal alguns dos maiores sucessos, "Missa leiga" e "Cemitério de automóveis" , logo proibida em Lisboa, mas não em Cascais, onde, pelo visto, a censura supunha ser inacessível a camadas populares...
É então que conhece as três Marias, lê as " Novas cartas portuguesas", Simone de Beauvoir, e se converte ao feminismo, uma metamorfose que contribuirá para a conduzir aos hemiciclos da intervenção parlamentar, onde volta a fazer história como pioneira, no universo masculino e fechado da política brasileira (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, visto que nunca teve outra nacionalidade além da portuguesa). Como feminista, torna-se a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e, durante muitos anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres.
Entretanto, tinha casado, uma última vez, e tido o seu quinto filho.
Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro. Ela que, aos 19 anos, fora de São Paulo explorar as riquezas culturais do mundo, traz, então, a São Paulo, o mundo das artes cénicas - o que de melhor se apresentava nas grandes capitais. Em 1976, igual iniciativa teria a mesma força renovadora no panorama da arte dramática brasileira. 
Depois de quase uma década nos palcos políticos de um Brasil democrático, regressa, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como atriz e como empresária e como promotora de festivais, em novos moldes, porventura menos elitistas, mas mais abrangentes de outras artes ,  
Conheci-a em 82, num jantar na residência do nosso Cônsul- Geral de São Paulo, em que estávamos lado a lado e, como toda a gente, não fiquei imune ao seu carisma, que era feito de espontaneidade e de extroversão, de inteligência e de humor, de uma vivacidade incomparável. Do que falámos? Do Porto, é claro, da sua e da minha cidade, que nos uniu em afinidades imediatas. Era evidente que ela permanecera portuguesa e portuense, e sempre, assim, se sentira parte do Brasil. A sua herança teatral, enraizada no Gil Vicente da juventude, e no vanguardismo em que projetou o seu talento ao longo de décadas, mudou para sempre a face do moderno teatro brasileiro . A sua última produção - a que, por sorte, pude assistir -  pôs em cena "Os Lusíadas" , bem no centro de São Paulo, e, depois, em Portugal.
Em vida, Ruth recebeu as mais altas condecorações brasileiras. a Legião de Honra da França. E até também Portugal a distinguiu, com a Ordem do Infante Dom Henrique.
Fica a faltar o Porto. Mas, talvez, agora que ela nos deixou, o Porto a queira reclamar, bem viva na sua memória e na toponímia da cidade

Maria Manuela Aguiar

ESPAÇO PORTO CRUZ, 14 de outubro

COMO PRESERVAR AS MEMÓRIAS DE ESPINHO ANTIGO EM AZULEJO

Espinho festejou um "jovem centenário", em 1989, com a inauguração dos belos quadros de azulejo que, na rua 19, passaram a encimar a entrada e ornamentar os acessos ao túnel do comboio. Uma feliz iniciativa da Junta de Freguesia, que assim nos ofertava uma espécie de pequeno museu dos seus lugares históricos, em tradicional azulejaria, permitindo-nos viajar no tempo até às suas origens oitocentistas.
Depois, o enterramento da linha significou o enterramento dessa esplêndida galeria de memórias, da qual só resta, bem visível, mas não sabemos por quanto tempo, a sugestiva imagem daquele mesmo lugar, quando ainda havia comboio à vista, e a singela ponte sobre a linha férrea a ligar os dois troços da rua principal, e quando  os edifício mantinham ainda a seu harmónico  traçado do início do século XX..
Podem chamar-me saudosista - aceito que o sou. Não exatamente dessa época, mas do que dela restava nos anos 40 e 50 do século passado: a linha à superfície, a ponte sob a qual as máquinas a vapor, magnificamente negras, lançavam baforadas de fumo escuro (coisa fascinante de contemplar de perto para criança da minha idade), o quiosque, a avenida cosmopolita, que agora é só relva e alcatrão, à espera do projeto de futuro, que tanto tarda.
 Na verdade, tenho de confessar que fui sempre contra a obra grandiosa e cara do enterramento da linha, mesmo que ela fosse, como deveria ter sido, alargada a todo o espaço central da cidade, desde o Rio Largo ao bairro piscatório, e não apenas a umas centenas de metros.
Bem mais económica e original teria sido, a meu ver, a construção de mais umas pontes, de preferência, esteticamente vanguardistas, e de um ou outro túnel, de norte a sul de Espinho...  Estarei, porventura, sozinha neste meu apego à fisionomia de uma cidade da qual o comboio era matriz, tal como a arte xávega, o oceano de ondas fortes, ou a sua vocação cosmopolita.  O comboio era um mensageiro da sua singularidade, meio ideal  de evidenciar a inúmeros de passageiros, todos os dias, a convivialidade da avenida 8, com mar em pano de  fundo, as majestosas palmeiras, as esplanadas, o movimento festivo de muita gente.  Nos trezentos quilómetros do trajeto Porto/ Lisboa era a parte mais interessante, mais atrativa. Hoje é precisamente o contrário, os clientes da CP atravessam a cidade sem a ver, por um longo túnel escuro, feio e claustrofóbico, com uma teto de cimento. permeável ´humidade e a infiltrações,  de tal ordem, que, não raramente, colocam baldes de plástico a apanhar as gotas de água que tombam sobre o cais - cena autenticamente terceiro -mundista. E nem sequer se dignaram destacar o nome de Espinho na massa uniforme das suas paredes... 
Por tudo isto, pareceria evidente o destino dos belos azulejos; a estação! Para decorar as longas paredes do túnel, onde cabem todos os que existem e onde se pode acrescentar muitos mais. Espaço despido e incaraterístico é o que não falta. Assim haja a vontade de embelezar o cinzentíssimo subterrâneo  com o nome e as imagens de Espinho, antigo e moderno, para que os passageiros do comboio se apercebam que estão a atravessar uma cidade e possam levar consigo vislumbres do que foi, e é, a urbe que vive lá em cima..
(publicado na DEFESA DE ESPINHO, 19 de outubro)

CEMRI CONGRESSO, 27 e 28 de outubro, Fundação Gulbenkian

COMUNICAÇÂO ORAL

Título: AS MULHERES NA HISTÓRIA DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS E DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EMIGRAÇÃO.

MARIA MANUELA AGUIAR (Ex. Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas; Associação Mulher Migrante) 

Resumo  
As migrações portuguesas começam como uma aventura masculina, onde o sexo feminino só excecionalmente tem lugar. As primeiras políticas públicas neste domínio são de limitação ou condicionamento dos fluxos migratórios masculinos, quase sempre considerados excessivos, e de proibição da saída de mulheres, em regra, vista como contrária aos interesses do País. Ao longo dos tempos, centenas de milhares de homens e também um número crescente de mulheres, que querem juntar-se aos maridos ou aos pais, ou mesmo partir com eles, vão ultrapassar todos os obstáculos para alcançarem o "novo mundo". É com a chegada das mulheres e a reunificação das famílias que nascem as comunidades de cultura portuguesa, mas o seu papel, ainda que  matricial, é escassamente visível e reconhecido e a sua participação obedece à divisão tradicional de trabalho entre os sexos, no associativismo, como no núcleo familiar. Os movimentos feministas descuram a emigração e são raras e extraordinárias as organizações femininas de entreajuda até meados do século XX - caso do movimento mutualista feminino da Califórnia.   Após a revolução de 1974, a Constituição de 1976 vem proclamar a igualdade entre Mulheres e Homens e estabelecer a inteira liberdade de emigrar. As políticas públicas, que, até início da década de 70, se restringem à proteção dos emigrantes na viagem de ida e os abandonam nas terras de destino, evoluem para a defesa dos direitos dos cidadãos e  tomada de medidas de apoio social e cultural, e para o reconhecimento do papel do movimento associativo, Todavia, só uma década depois, no quadro de funcionamento do Conselho das Comunidades Portuguesas  - quase 100% masculino - se dá o primeiro passo para a prossecução de políticas com a componente de género, com a convocatória do "1º Encontro Mundial de Mulheres no Associativismo e no Jornalismo".(em junho de 1985). Mais de trinta anos decorridos sobre esse histórico Encontro Mundial, qual o balanço da ação da sociedade civil e do Estado no campo da igualdade de género nas comunidades do exterior? Eis o que nos propomos abordar. 


Nota Biográfica

Licenciatura em Direito pela Universidade de Coimbra. "Diplôme Supérieur d'Études et de Recherche en Droit" pela Universidade Católica de Paris. É atualmente presidente da Assembleia da Associação Mulher Migrante: Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade. Foi docente da Universidade Católica de Lisboa, da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta, Mestrado de Relações Interculturais (Regeu o curso de "Políticas e Estratégias para as comunidades Portuguesas). Secretária de Estado do Trabalho (1978/79) e Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas (1980/87). Vice-Presidente da 2ª Conferência de Ministros do Conselho da Europa para as Migrações (Roma,1983) e Presidente da 3ª Conferência de Ministros do Conselho da Europa para as Migrações (Porto, 1987). Deputada à Assembleia da República eleita, em mandatos sucessivos, entre 1980 e 2005. Vice-Presidente da Assembleia da República (1987/1991). Presidente da Subcomissão das Comunidades Portuguesas (2002/05). Presidente da Subcomissão das Migrações da APCE (1994/1995), Presidente da Comissão das Migrações, Refugiados e Demografia da APCE (1995/97). Legislação, criação e reforma de organismos que impulsionou: Comissão para a Igualdade no Trabalho e Empresa (CITE), 1979; Instituto de Apoio à Emigração e Comunidades Portuguesas (IAECP), 1980; Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), 1980; Lei da Nacionalidade, 1981; Centro de Estudo do IAECP e "Fundo Documental e Iconográfico das Comunidades Portuguesas" (1984); Comissão Interministerial para as Comunidades Portuguesas (1987). Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres entre Portugueses e Brasileiros (reciprocidade), 1989-2001; Lei da Nacionalidade (recuperação automática), 2004; Direito de voto nas eleições para o Parlamento Europeu (fora do espaço da UE), 2004. Algumas publicações: Políticas para a Emigração e Comunidades Portuguesas (1986); Emigration policies and the Portuguese Communities (1987); Portugal, País das Migrações sem fim (1999); Círculo de Emigração (2002); Mulheres Portuguesas Emigrantes, Rio de Janeiro, coord. (2004); Comunidades Portuguesas - Os Direitos e os Afectos (2005); Migrações - Iniciativas para a Igualdade de Género, Coord. (2007); Problemas Sociais da Nova Imigração, Coord. (2009) Relatórios apresentados na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (coletânea); Cidadãs da Diáspora - Encontro em Espinho, Coord (coletânea). Numerosos artigos publicados em revistas da especialidade sobre Direito do Trabalho, Migrações, Igualdade de Direitos, Direitos Humanos. Condecorações: Nacional Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique. Estrangeiras: Grã-Cruz da Ordem do cruzeiro do Sul (Brasil), Grã-cruz da Ordem do Império Britânico (OBE), Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco (Brasil), Grã-Cruz da Ordem de Mérito (Itália), Grã-Cruz da Ordem de Mérito (Alemanha), Grã-Cruz da Ordem de Mérito (Luxemburgo), Grã-Cruz da Ordem de Leopold II (Bélgica), Grã-Cruz da Ordem Fenix (Grécia), Grã-Cruz da Ordem Francisco Miranda (Venezuela), Grande Oficial da Ordem da Estrela Polar (Suécia), Grande Oficial da Ordem de Mérito (França).

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A ONU Mulheres é a organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres.

07.10.2017 - Nota de pesar da ONU Mulheres pelo falecimento Ruth Escobar



Ruth dedicou anos à construção de direitos para as mulheres. Foi uma das articuladoras do lobby do batom na Constituinte, movimento para inclusão da pauta de reivindicação das mulheres na Constituição Federal. Foi a primeira presidenta do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres (1985-1986). Exerceu por quatro anos, de 1986 a 1990, representação do Brasil no Comitê de Monitoramento e Acompanhamento da Convenção pela Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW), das Nações Unidas

Nota de pesar da ONU Mulheres pelo falecimento Ruth Escobar/
Ruth Escobar, aos 76 anos
Foto: Reprodução internet

A ONU Mulheres Brasil manifesta pesar pelo falecimento da feminista Ruth Escobar, ocorrido em 5 de outubro, em São Paulo. Estende condolências a familiares, amigas e amigos, movimento de mulheres e feministas de todo o Brasil.
Nota de pesar da ONU Mulheres pelo falecimento Ruth Escobar/
Ruth Escobar, na posse como presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
Foto: Reprodução internet
Ruth dedicou anos à construção de direitos para as mulheres. Foi uma das articuladoras do lobby do batom na Constituinte, movimento para inclusão da pauta de reivindicação das mulheres na Constituição Federal. Foi a primeira presidenta do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres (1985-1986). Exerceu por quatro anos, de 1986 a 1990, representação do Brasil no Comitê de Monitoramento e Acompanhamento da Convenção pela Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW), das Nações Unidas.
Desenvolveu dois mandatos parlamentares na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, entre 1983 e 1991, ampliando a representação de mulheres na política. Fez parte do movimento de resistência à ditadura. Foi presa, por três vezes, por se opor ao regime. Foi uma das fundadoras da Frente de Mulheres Feministas do Estado de São Paulo, na década de 1970.
É um dos nomes notáveis da dramaturgia teatral e gestão de cultura no Brasil. Coordenou o primeiro Festival Nacional de Mulheres nas Artes, em 1982, com mais de 600 espectáculos e 10 mil pessoas participantes.
Por sua obstinada trajetória política, feminista e cultural, Ruth Escobar um deixa um legado a ser valorizado por todas as brasileiras e brasileiros, os quais animam a união de esforços para dar passos decisivos pelo empoderamento das mulheres e pela promoção da igualdade de gênero.
Nadine Gasman
Representante da ONU Mulheres Brasil
A ONU Mulheres é a organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres. Nota de pesar da ONU Mulheres pelo falecimento Ruth Escobar Main Menu ONU Mulheres Brasil Áreas de atuação PARCERIAS COMUNICAÇÃO PLANETA 50-50 ElesPorElas 07.10.2017 - Nota de pesar da ONU Mulheres pelo falecimento Ruth Escobar Ruth dedicou anos à construção de direitos para as mulheres. Foi uma das articuladoras do lobby do batom na Constituinte, movimento para inclusão da pauta de reivindicação das mulheres na Constituição Federal. Foi a primeira presidenta do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres (1985-1986). Exerceu por quatro anos, de 1986 a 1990, representação do Brasil no Comitê de Monitoramento e Acompanhamento da Convenção pela Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW), das Nações Unidas Nota de pesar da ONU Mulheres pelo falecimento Ruth Escobar/ Ruth Escobar, aos 76 anos Foto: Reprodução internet A ONU Mulheres Brasil manifesta pesar pelo falecimento da feminista Ruth Escobar, ocorrido em 5 de outubro, em São Paulo. Estende condolências a familiares, amigas e amigos, movimento de mulheres e feministas de todo o Brasil. Nota de pesar da ONU Mulheres pelo falecimento Ruth Escobar/ Ruth Escobar, na posse como presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher Foto: Reprodução internet Ruth dedicou anos à construção de direitos para as mulheres. Foi uma das articuladoras do lobby do batom na Constituinte, movimento para inclusão da pauta de reivindicação das mulheres na Constituição Federal. Foi a primeira presidenta do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres (1985-1986). Exerceu por quatro anos, de 1986 a 1990, representação do Brasil no Comitê de Monitoramento e Acompanhamento da Convenção pela Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW), das Nações Unidas. Desenvolveu dois mandatos parlamentares na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, entre 1983 e 1991, ampliando a representação de mulheres na política. Fez parte do movimento de resistência à ditadura. Foi presa, por três vezes, por se opor ao regime. Foi uma das fundadoras da Frente de Mulheres Feministas do Estado de São Paulo, na década de 1970. É um dos nomes notáveis da dramaturgia teatral e gestão de cultura no Brasil. Coordenou o primeiro Festival Nacional de Mulheres nas Artes, em 1982, com mais de 600 espectáculos e 10 mil pessoas participantes. Por sua obstinada trajetória política, feminista e cultural, Ruth Escobar um deixa um legado a ser valorizado por todas as brasileiras e brasileiros, os quais animam a união de esforços para dar passos decisivos pelo empoderamento das mulheres e pela promoção da igualdade de gênero. Nadine Gasman Representante da ONU Mulheres Brasil

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

AS MINHAS MEMÓRIAS DE RUTH ESCOBAR

Foi num jantar na residência do Cônsul-Geral em São Paulo, que conheci a Ruth. Nunca mais me cruzei com aquele nosso diplomata, que era bastante jovem para posto tão importante e extremamente simpático, comunicativo e elegante. Um homem encantador! Eu era, então, deputada pelo círculo "fora da Europa" e nessa qualidade visitava o Estado. Recebeu-me esplendidamente, com um jantar para o qual convidou personalidades interessantes da nossa comunidade. A meu lado ficou Ruth Escobar, que eu conhecia de nome, como toda a gente (ao menos no Brasil, não em Portugal, onde à partida, todos os emigrantes são esquecidos e só muito poucos conseguem a merecida notoriedade...). Grande atriz de teatro, produtora, empresária, mas também uma lutadora pela democracia, que levantou a voz no tempo da ditadura e acabou sendo pioneira da participação política feminina. Na verdade, foi, em todo o Brasil, a primeira mulher eleita deputada a uma Assembleia Legislativa estadual - e logo no Estado de São Paulo... Candidatou-se ao abrigo do estatuto de igualdade de direitos entre portugueses e brasileiros, como portuguesa, sem nunca ter pedido a nacionalidade brasileira! Ruth era extrovertida e divertida. Começámos por descobrir que éramos ambas do Porto, que víamos e amávamos a cidade da mesma maneira. Falámos das ruas, dos bairros velhos, da ribeira, da Foz, das festas, dos liceus, da burguesia portuense, do estado da política, do Terreiro do Paço, de machismo e do feminismo... De imensas coisas. As afinidades eram inúmeras. E ríamos, ríamos... Parecíamos, embora não fossemos, amigas de longa data que punham a conversa em dia. Até o nosso Cônsul caiu nessa suposição. Ainda recordo o seu ar de espanto, quando lhe disse que não, que nos encontráramos pela primeira vez, graças à sua esplêndida hospitalidade. À distância de tantos anos (não sei quantos, mas diria que esse convívio aconteceu em 1982 ou 83, quando deixei a SECP durante o 2º governo de Balsemão) guardo dessa noite memorável, também, o meu quinhão de surpresa ou espanto. Não só pela personalidade eletrizante de Ruth Escobar, o seu brilho, o seu carisma, mas, acima de tudo, pelo facto de ela estar tão bem integrada no Brasil continuando tão portuguesa, a par de tudo o que se estava a acontecer, no modo de falar e de ver o mundo - como se tivesse chegado na véspera do Porto, a nossa terra, a nossa primeira afinidade. Voltei a encontra a Ruth várias vezes, em São Paulo e em Lisboa. O segundo encontro até chegou, ao contrário do primeiro, às páginas sociais da imprensa - e incuiu Natália Correia, que estava em S Paulo com uma agenda cultural intensa. Nova ocasião de fazer graça e reforçar amizades. E na última vez em que voltámos às conversas de tertúlia, do lado de lá do Atlântico, ía eu integrada numa delegação parlamentar e fomos todos convidados para assistir à mais recente produção da Ruth - a teatralização de "os Lusíadas", um espetáculo muito bem conseguido, que ela quis e conseguiu trazer a Lisboa. Mulher vanguardista, cosmopolita, tão acarinhada no Brasil e tão fiel às origens, como o comum dos emigrantes! "Os Lusíadas" fora um tema imposto pelo coração, é claro como símbolo da cultura de ambos os seus países! Vi ainda a Ruth, de novo, mais chique e imponente do que nunca, numa sumptuosa festa em São Paulo, já no século XXI. Mas a sua memória esmorecia e não deu para recordarmos o Porto da nossa juventude. Mesmo assim, foi bom revê-la, já mais como mito do que como simples pessoa e pessoa simples. E portuense, como eu.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

CONTRA RAJOY E CONTRA FELIPE

Uma barbaridade a intervenção das forças policiais contra o Povo catalão, cujo único crime era querer votar num referendo, Pouco importava que o referendo fosse inconstitucional - já houve precedente, sem violência, sem afrontamento para além do afrontamento político. Um referendo com mero valor simbólico. Teria bastado a Rajoy proclamar a sua nulidade ou inconsequência jurídica. Se fosse um verdadeiro democrata, se fosse, ao menos, um homem inteligente assim teria procedido. O rei Felipe, numa mensagem medíocre e igualmente pouco inteligente, colou-se a Rajoy. Outro seria o sentido, a recetividade, se tivesse seguido o exemplo de seu pai, o Rei (com letra grande) Juan Carlos, fazendo o pronunciamento em língua catalã. Mesmo que dissesse as mesmas tíbias palavras, faria toda a diferença... Assim o receio com que se fica é que tenha acabado a Espanha e que ele seja já somente o rei de Castela e seus domínios...

terça-feira, 19 de setembro de 2017

LEMBRANDO O COMENDADOR ANTÒNIO BRAZ

1 - É um privilégio poder dar um breve testemunho nesta sessão de homenagem ao Comendador António Braz, em Tondela, sua terra natal, no centenário do seu nascimento. A exposição que acabámos de visitar dá-nos bem a ideia do Homem, do emigrante corajoso, que atravessou os mares e andou pelos quatro cantos da terra, do cosmopolita, movido pela alegria de conviver, por uma insaciável curiosidade sobre outras realidades culturais e outras formas de fazer desenvolvimento económico, sempre pronto a partilhar ensinamentos e experiências. Do empreendedor, que aliava inteligência e intuição a energia, capacidade de inovação a um bom gosto inato, com que sabia acrescentar ao rasgo profissional uma componente estética. Do “empresário de sucesso”, na expressão que entrou para ficar no discurso político, ao menos desde que Portugal aderiu à CEE, com a vontade de difundir a imagem moderna do seu povo, e, em especial, da emigração, ao que se anunciava (prematuramente…) no termo dos seus dias. Nenhum dos nossos compatriotas merece mais esse título prestigiante do que o Comendador Braz, mas, como os mais notáveis dos nossos expatriados, não se limitou a ser empresário inovador, foi um mecenas, um patriota, um líder das comunidades portuguesas do sul da África – a qualidade em que o conheci, em que muito o admirava e estimava. 2 - Permitam-me, pois, que o destaque, em particular, como ativo cidadão, colocando o enfoque nas comunidades a que pertenceu (comunidades vistas como instrumento de interculturalismo e engrandecimento nacional, com o seu insubstituível papel em sucessivos ciclos de migrações maciças, em praticamente todos os continentes), assim situando a obra do Comendador Braz num vasto movimento associativo, que ele encarnou, e encarna, exemplarmente. É, sem dúvida, justo, lembrá-lo pelo êxito empresarial e pelo mecenato com que contemplou a terra de origem, não esquecendo, porém, o seu envolvimento comunitário no estrangeiro. Foi, sobretudo, nesta veste que se converteu, como alguns outros ilustres compatriotas, a nível planetário, em agente ou protagonista da História da emigração e das Comunidades Portuguesas, que temos de saber, no futuro, estudar e divulgar como parte da nossa História . 3 - Não as "comunidades" de que comummente se fala como mero sinónimo de "emigração", realidade estatística, número global (aliás, quase sempre, pouco rigoroso, pecando por defeito), sim as comunidades estruturadas numa multifacetada rede de instituições de cultura, de convívio, de beneficência, que constituíram a mais importante retribuição do fenómeno migratório multissecular. Mais importante, afinal, do que aquela que se contabilizou, conjunturalmente, nas remessas de montantes astronómicos, de que os governos se mostravam ávidos para minorar os desequilíbrios das contas públicas...Até tempos recentes, prevaleceu esta componente material, e, com ela, se centrava a atenção no quadro quantitativo da expatriação, invariavelmente avaliada em cifras e mais cifras, que também serviam como expressão dramática da "ausência". De fora, no esquecimento, ficavam as formas de vivência coletiva no estrangeiro, a dinâmica associativa, em que se fundou e se continua um espaço de "presença" portuguesa intemporal e universalista. 4 - As comunidades/realidade orgânica, foram crescendo, sobretudo a partir do primeiro quartel do século XIX, fruto da visão estratégica dos portugueses, em cada sociedade de acolhimento, para dar resposta direta, sistemática, eficiente, às necessidades das pessoas - apoio aos recém-chegados, entreajuda, na doença ou no desemprego, e, também, convívio, pelo qual se conservam costumes e modos de estar. À medida que iam conseguindo uma boa integração na nova sociedade mais procuram a afirmação da identidade nacional e a sua preservação no encadeamento das gerações, pondo o acento no ensino da língua e da história aos jovens. Nessa aprendizagem de como ser de duas pátrias, os nossos compatriotas têm-se mostrado exímios, talvez porque o nosso nacionalismo é tradicionalmente de abertura aos outros, aos vizinhos e companheiros de trabalho, não sendo, por isso, conflitual, nem agressivo, antes se constituindo em fator de cooperação e de inclusão (sem a fatídica assimilação, que tantos académicos e políticos anteviam). É na malha densa de associações culturais, sociais, recreativas, paróquias católicas, escolas, meios de comunicação social que se vai suprindo a falta de políticas públicas do Estado, por um lado, e, por outro, sedimentando a Diáspora.. 5 -Os estudiosos da emigração portuguesa apontam o tradicional descaso dos governos com a sorte dos expatriados, desde que abandonam o território, e o caráter repressivo ou limitativo das políticas, com que tentam, regra geral, condicionar fluxos estimados como excessivos, já no período de colonização. É o caso do Brasil, onde os ingressos foram sempre em crescendo, antes como após a independência, com o mesmo caráter de espontaneidade. Por isso, se torna, como admitem os historiadores destas matérias, bem difícil traçar a linha de fronteira entre as partidas enquadradas no projeto estatal de colonização e as que foram assumindo, mais e mais, os contornos de fenómeno puramente migratório. A meu ver, uma tal ambivalência, terá tido, nas diversas possessões da Coroa, de Oriente a Ocidente, os seus reflexos no modo de trato e convívio com as populações locais e com os outros imigrantes, num relacionamento tendencialmente mais próximo, igualitário e cordial, de cujo rasto antigo e difuso emana o universo atual da lusofilia. "Solúvel e insolúvel este povo, na memória dos outros e na sua mesma", segundo Jorge de Sena... 6 - O desregramento dos fluxos de saída acentuou-se, em cada novo ciclo, ao longo de setecentos e oitocentos, e era visto como um risco para a sobrevivência do país no seu berço territorial. Contudo, como hoje sabemos, o declínio demográfico não aconteceu, então, e o excesso terá contribuido, decisivamente, para o definitivo enraizamento da língua e de uma forte componente cultural no Brasil independente (que, sobretudo após a abolição da escravatura, apelava à chegada em massa de migrações europeias e asiáticas), bem como em outras partes do império, e fora delas, na nossa Diáspora. Num balanço realizado à distância de séculos, somos tentados a afirmar que o futuro deu razão a milhões de homens e mulheres, que daqui se foram, movidos por um sonho proibido. Afinal mais efémero foi o império, cujas riquezas, em cada época, se ganharam e se perderam, do que as comunidades que, ainda hoje, estão vivas nas terras onde a saga da Expansão levou o povo, de Leste a Oeste, a nível planetário. Os emigrantes são ou não os autênticos descendentes dos navegadores e dos colonos pioneiros, dos voluntários da aventura quinhentista, os herdeiros da sua audácia e da sua ambição de "correr mundo"? Muitos acham que sim e eu estou com eles... 7 - Estas comunidades sobreviveram às primeiras levas de emigrantes, existem com caraterísticas espantosamente semelhantes, embora sem quaisquer interinfluências, quer as mais antigas, geradas nos movimentos migratórios, desde oitocentos, (quando não anteriores - pensemos em Malaca...), quer as contemporâneas, da Europa às Américas, da África à Oceânia, e podem ser consideradas a nossa última "descoberta". De facto, até meados do século XX, poucos investigadores se deram conta da existência das "colónias" de emigrantes, (designação então consagrada), entre eles se distinguindo os professores Afonso Costa e Emídio da Silva. Contudo, mesmo estes dois notáveis estudiosos não se terão apercebido da sua capacidade de sobrevivência, ou seja da sua conversão em autêntica Diáspora. Diáspora sem exílio,todavia nem por isso com menor apego aos valores matriciais, mantidos como herança preciosa por gerações sucessivas.. A descoberta das comunidades coincide com o fim do império, e não por acaso! Ninguém a enunciou melhor do que o Primeiro-ministro Sá Carneiro, em 1980: "Portugal foi um país de colónias, hoje é um país de comunidades"." Uma Nação populacional". Ou na definição em que acentua, essencialmente, valores próprios da sociedade civil: "Portugal é mais uma Cultura do que uma organização rígida". É nesse ano de 1980 que, consequentemente, surge no organograma do Governo, pela primeira vez, uma Secretaria de Estado da Emigração e das "Comunidades Portuguesas", e se procura desenvolver, articulando-as, mas dotando-as de meios específicos, políticas sociais para a emigração e políticas de dominante cultural para a Diáspora, representada num "Conselho Mundial das Comunidades Portuguesas". Todavia, já anos antes, por iniciativa do General Ramalho Eanes, o1º Presidente eleito depois de restaurada a democracia, o substantivo "Comunidades" entrara no léxico político, na denominação oficial do 10 de junho, "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesa". É o momento em que se anuncia o Portugal moderno, na sua perfeita dimensão humana e cultural - uma cultura viva e em expansão universal. Orador nas comemorações solenes dessa data, Vitorino Magalhães Godinho diz com meridiana clareza : "Portugal é mais do que o império que se fez e desfez, está presente com os Portugueses, onde quer que vivam" (cito de memória). 8 - Os governantes, os cientistas, os cidadãos em geral, não podem, hoje, ignorar espaço português das comunidades do estrangeiro, a dimensão universalista que confere à Nação Portuguesa, por obra e graça dos cidadãos, não pelo braço armado do Estado. E, porque assim foi e assim é, há que atribuir-lhes todo o mérito na fundação e preservação das comunidades, verdadeira extensão extra-territorial do País. Eles partiram, mas não se perderam na dispersão geográfica, como augurava a sabedoria popular e académica... Não abandonaram Portugal, levaram-no consigo, como tão finamente intuiu Jaime Cortesão. Reuniram-se e recriaram a terra mãe em instituições semelhantes àquelas que nela conheciam. São Diáspora!. Não basta, pois, admitir a existência das comunidades, colocando-as no cerne do discurso político sobre a emigração, meramente como seu sinónimo. É um erro em que cai, ainda, uma maioria de portugueses, políticos, jornalistas, funcionários, que delas falam com desenvoltura, mas nunca as visitaram, nem participaram nas suas atividades concretas, nem leram os seus jornais... Podemos, aliás, ir mais longe e dizer que as comunidades mal se conhecem umas às outras, e mal colaboram entre si, fora das fronteiras de um país, ou, até só de uma região, de uma cidade... Eu própria, quando por dever de ofício, há quase 40 anos, comecei o meu roteiro de contactos - que não mais terminou - por este Portugal sem território, tive de fazer uma fascinante aprendizagem, nas viagens circulares, em que ia e vinha, cruzando oceanos e continentes. sem nunca me sentir no estrangeiro - saíra do país, como se nunca tivesses saído. De princípio, tudo me parecia irreal, até me familiarizar e me apaixonar por essa realidade, que é, verdadeiramente. nossa. 9 - O "Portugal maior", de que falava Vitorino Magalhães Godinho, não é, assim, um "troppo" de retórica, não é um mito pós colonial e não é um guetto de inadaptados, de mal com a terra que deixaram e com aquela onde se encontram. Este Portugal de uma nova "Expansão" foi sendo impulsionado por Portugueses da estirpe do Comendador António Bras, ao longo dos tempos. Tem, lá longe, a grandeza, o espírito, o fraternalismo de que eles são capazes. É preciso dize-lo, contrariando ideias feitas sobre a imigração - ideias que fazem caminho até em organizações ou cimeiras internacionais, como as "conferências dos ministros responsáveis pelas migrações" no Conselho da Europa, onde sempre invoquei o paradigma português para defender o movimento associativo, que foi e é um poderoso fator de apoio à integração individual e se revela, em cada fase do ciclo migratório, o espelho do percurso coletivo, muito diverso, como é óbvio, em sociedades que oferecem oportunidades diferentes de enriquecimento e ascensão social. Temos, atualmente, a par de associações que reproduzem a atmosfera de uma pequena aldeia portuguesa tradicional, grandiosas instituições beneficentes, culturais ou desportivas, sobretudo no norte e no sul da América e na África. Contudo, o impulso que as determina é o mesmo - é a vontade de serem, no seu círculo geográfico, à medida das suas possibilidades, presença cultural portuguesa, elo de ligação entre duas sociedades em que se revêem e de que se consideram plenamente parte. 10 - O Comendador António Braz é um rosto inesquecível deste Portugal redimensionado pelas suas comunidades extra territoriais. Dando o seu exemplo, torna-se mais fácil falar da dimensão que conferem ao País, como ponte, feita de uma infinidade de pontes a reunificar um povo disperso, pontes lançadas entre um passado e um futuro português... Torna-se mais fácil evidenciar a persistência nos emigrantes de todas as virtudes que reconhecemos aos nossos Avós quinhentistas - a sua natural capacidade de aceitar e ser aceite pelos outros, de os envolver num trepidante intercâmbio de produtos, de instrumentos, técnicas e saberes, oriundos de terras distantes. Enquanto empresário do século XX, foi isso mesmo o que Ele conseguiu, levando ao sul da África, designadamente, tradições do quotidiano da América do Norte... Enquanto cidadão, conseguiu ser, como os nossos maiores, portador de uma mensagem de modernidade e humanismo, granjear amizades e alta reputação, que repartiu com a sua comunidade e o País. Lançou e apoiou associações, centros de cultura, e de acolhimentos e integração dos refugiados de Angola e Moçambique, fundou um jornal de superlativa qualidade, "O Século de Joanesburgo" (um dos melhores de todo o universo da lusofonia). Era, em fins do século XX, o patriarca das comunidades portuguesas da África do Sul. Quem mais teria conseguido dar às comemorações da primeira passagem pelo Cabo da Boa Esperança o momento mais simbólico, a dádiva mais perene, com a oferta de um monumento a Bartolomeu Dias, colocado em Pretória, no mais nobre lugar da capital da República, face ao "Union Building"? Uma celebração da História, por alguém que a sabia interpretar e fazer presente. Uma "prova de vida" do Povo que fomos, no início da Expansão, e ainda somos.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

EDUCAÇÃO PARA A DESIGUALDADE 1 - Inesperadamente, irrompeu, em pleno verão de 2017, a polémica sobre os cadernos de exercícios escolares diferenciados segundo o sexo, com capa rosa para elas e azul para eles. Perfeito e anacrónico exemplo de uma forma de "educação para a desigualdade"... Estou bem acompanhada nesta abordagem da questão de género em tenra idade, começando pelos intervenientes de programas que vejo invariavelmente, como o "Governo Sombra" e o "Eixo do Mal", continuando por um sem número de outros "opinion makers" de todos os meios de comunicação e terminando - os últimos serão os primeiros...- pela Comissão para a Igualdade de Género e pelo Governo da República. Discussão inédita em tão negligenciado domínio, porque foi efetivamente a primeira vez que a alegação (ou, se preferirem, a evidência) de secundarização de alunas do ensino primário alcançou dimensão nacional, com foros de escândalo. Surpreendida pelo fúria mediática que atingiu obra tão rentável (um sucesso de vendas, ao que consta), a editora apressou-se a retirar os caderninhos do mercado, pelo que não tive a oportunidade de os comprar para aturada leitura e falo pelo que ouvi dizer a quem leu - e a quem não leu... Sabemos o "porquê" da perplexidade da Porto Editora. O mercado está inundado de literatura infantil rosa para meninas delicadas (futuro sexo fraco) e azul para meninos aguerridos (futuro sexo forte), sem que alguma voz suficientemente audível jamais se tivesse antes levantado contra a imposição de modelos de comportamento "de género", que, por esta via, se leva a cabo, contando com a colaboração, consciente ou inconsciente, da família e da escola - salvo as honrosas exceções que sempre existem em relação a qualquer regra. Em vão, já nos alvores do século XX, Ana de Castro Osório bradara contra este estado de coisas. Vale a pena reler que escreveu como pedagoga. O mesmo se diga dos seus contos para crianças, que são verdadeiras obras primas da língua portuguesa. 2 - O que mudou desde então foi, essencialmente, o facto das teses daquela famosa Mulher da 1ª República terem passado do campo da heterodoxia para o do politicamente correto. Mas, na prática, há ainda condicionamentos de toda a ordem à livre expressão da natureza feminina e masculina. Diferenças entre os sexos existem, evidentemente, mas o peso da educação, segundo preconceitos ancestrais de uma sociedade patriarcal, não nos permite distinguir a parte que é da natureza (um bem!), da parte resultante da (des)educação, matriz de preconceitos infundados, de depreciação e discriminação do feminino (um mal!). Na expressão de Simone de Beauvoir, mil vezes citada: "on ne nait pas femme, on le devient" .Na verdade, era a rígida divisão de trabalho, a formação imposta para papéis predeterminados (e não a natureza) que rebaixava a Mulher para o estatuto de "segundo sexo". Assim era mantida pela impossibilidade de acesso ao conhecimento, à aprendizagem de Ciências e Letras e pelas barreiras colocadas ao exercício de uma carreira e a toda e qualquer participação relevante na "res publica". Não é coisa do passado remoto, mas do tempo bem próximo das nossas avós, quando não das nossas mães - na minha própria família, pertenço à primeira geração de mulheres que tirou um curso universitário e teve uma vida profissional, isto é, cujo objetivo de futuro, desde a infância, não foi apenas o casamento. Desde fins do século XIX, o movimento de emancipação feminina centrou-se, inteligentemente, nos campos da educação e da autonomia económica, alcançada por uma remuneração de trabalho fora de casa. (Não menos importante, mas, não o esqueçamos, bem menos consensual, pelo menos entre as republicanas portuguesas, foi a luta pela igualdade de direitos políticos, o sufragismo). As mulheres souberam fazer caminho e mostrar o que valem, em todos os domínios do saber e da intervenção societal Ora uma política de segregação de conteúdos ou de suportes pedagógicos, em função do género, significa um retrocesso às profundezas de oitocentos, quando se considerava permitir o ensino público para as raparigas, desde que simplificado, ajustado às menores aptidões e necessidades a que se julgava corresponder. Nos dias de hoje, isto é simplesmente ridículo e indefensável e foi uma grande insensibilidade para o significado de uma tal opção (em primeira linha comercial) que "tramou" a Porto Editora. Aquilo que nos contos infantis passa sem crítica, não se admite, quando detetado, em material de aprendizagem escolar... Esperemos que o passo seguinte seja a firme denúncia do "sexismo" persistente neste ramo da literatura, não só por parte da Comissão da Igualdade, como por parte dos cidadãos, porque a desigualdade "contra natura" começa no berço e no jardim de infância e não nos bancos da universidade ou nos concursos de admissão a empregos. Como diz, prosaica mas sabiamente, o povo "de pequenino se torce o pepino"... E, se liberdade de expressão dos autores não pode ser posta em causa, pode e deve ser criticada, exposta, ridicularizada ( o ridículo é, afinal, uma das armas mais eficazes!). 3- Voltando à controvérsia dos caderninhos: não sei se, nos trabalhos especificamente colocados às alunas e aos alunos, há, como alguns argumentam, graus equivalentes de dificuldade. Em qualquer caso, a ideia de criar testes autónomos, para um e outro sexo, é bizarra, é absurda, como o seria diferenciar exercícios de matemática ou de história, em função da cor da pele, da religião, da nacionalidade. Mas, para além desta questão, outra há que não oferece dúvida: a dos estereótipos da rapariga que dança "ballet", enquanto o rapaz joga futebol. porque vai influenciar atitudes e escolhas e, não vai contribuir para as afastar, a elas, dos campos de jogos, onde é tão saudável correr e competir, como os afastar,a eles, por muito talentosos que sejam, dos palcos dessa maravilhosa arte, que é o "ballet". Pode ser que haja, mas eu nunca vi, em manual ou em livro infantil, imagens de meninas a jogar à bola ao lado de imagens de meninos em pose de dança... Quem sabe se surgirão, no rasto desta controvérsia? Se sim, acabou sendo benéfica a infeliz iniciativa da tal editora. Será altura para invocar mais um aforismo: "Deus escreve direito por linhas tortas". em "A DEFESA DE ESPINHO" 7 set 2017

domingo, 20 de agosto de 2017

UM TREINADOR À PORTO (finalmente...)

1 - O FCP anda há vários anos - há mais do que os quatro em que a clamorosa ausência de títulos confirmou um temido "fim de ciclo" - à procura de um "treinador à Porto" e de uma "equipa à Porto", que lhe devolvam a sua identidade ganhadora. Estranho é que, no meio do clamor por novas soluções e novos protagonistas, entre as principais vozes que se ouviram ou se leram, poucos tenham sido as que efetivamente se basearam numa ideia precisa do que isso significa. O enfoque era posto apenas em ganhar, com garra, classe, superioridade. Ora em que é que esses atributos diferenciam um competente vencedor - seja ele o SLB, o SCP ou o FCP? Na verdade, de qualquer campeão se espera, precisamente, garra, classe, superioridade Qual é, então. a diferença do Porto? A meu ver, temos de a procurar no passado, na história do futebol nacional, nas origens da instituição, na singularidade de um percurso longo e penoso de afirmação, no modo como nele se forjou o espírito do clube. Num país de tradição imperial, que se manifesta em todos os domínios, da política às finanças e ao desporto, ganhar a partir de Lisboa era coisa natural, expectável, praticamente obrigatória. Fora da capital, semelhante feito tornava-se uma missão quase impossível. Antes da revolução de abril, as vitórias nacionais do FCP foram raras, espaçadas, titânicas, tais eram os obstáculos que contra ele se conjugavam! Numa imagem bíblica, o Porto foi sempre uma espécie de David em luta com Golias (um David, porém, frequentemente perdedor...). Na expressão inglesa, "the underdog". Numa citação com que, vezes sem conta, denunciei o estatuto dos emigrantes portugueses, no antigo regime, uma espécie de "estrangeiros no seu próprio país". A alma, o caráter do FCP forjaram-se, pois, na adversidade, na oposição a poderes constituídos, na incansável prossecução da utopia da igualdade. Uma cultura "à Porto" é, assim, uma cultura de inconformismo e resistência. Cultura inexistente (porventura,até, incompreensível e incompreendida) nos outros grandes clubes, que nasceram e cresceram instalados na "geografia do poder". Na Europa, mesmo em Estados onde o poder político se concentra fortemente numa cidade ou região, a competição, em matéria de desporto, é visivelmente mais aberta e inclusiva. Veja-se o caso da Inglaterra, onde Manchester ou Liverpool facilmente rivalizam com Londres, como, em França, Marselha, Lyon, Mónaco com o PSG, ou, na Itália, Milão ou Turim com a eterna Roma. Na Alemanha, o Bayern tem transformado Munique na capital do futebol, por pura e simples superioridade dentro do retângulo de jogo, é claro... A nosso lado, um outro paradigma centralista, menos extremado embora, é Madrid. Daí surge a natural empatia entre o FCP e o "Barça" (reforçada quando Vitor Baía, Fernando Couto e, depois, Deco brilhavam na Catalunha). 2 - A idade de ouro do FCP começa com o renascimento da democracia no país e deve-se à visão e à liderança de Jorge Nuno Pinto da Costa. Ele fez a revolução igualitária no desporto, nos órgãos federativos, nas estruturas dirigentes. Fez, neste campo, a regionalização que tarda nas vertentes política e financeira, num país cujo desenvolvimento, mais de 40 anos depois, salvo no que respeita às ilhas atlânticas, permanece enredado nas malhas do centralismo, e, consequentemente, cada vez mais assimétrico, mais desigual, mais desertificado no interior. Agora, contudo, assistimos, também no futebol a um retrocesso, pondo em causa equilíbrios que se julgavam adquiridos para sempre, com o regresso dos velhos senhores, em clima de escândalo e suspeição.... 3 - O Porto, de algum modo, deixou que isso acontecesse, baixou a guarda, descurou as suas exemplares estruturas organizacionais, que permitiam a treinadores medíocres, como Adriaanse, ou medianos, como vários outros que me dispenso de nomear, saírem como triunfadores, e não por acaso, antes com reconhecido mérito (graças também, como é óbvio, a uma pléiade de jogadores fora de série, que as famosas estruturas facultavam ). O último verdadeiro treinador "à Porto" fora, na minha opinião, André Villas Boas. Ganhou o que havia para ganhar, na sua "cadeira de sonho", no fim de uma era... Bem mais árduo será o trabalho de Sérgio Conceição. Também ele é portista, também ele está na sua "cadeira de sonho". Todavia, o mesmo sonho exige, hoje, muito mais audácia, muito mais luta contra constrangimentos de toda a ordem, muito mais afrontamento de condições adversas. Este é um Porto, que como o antigo, tem de remar contra ventos e marés, contra tudo e contra todos. Não sei se Sérgio vai conseguir, de imediato, os títulos que nos fogem há tantos anos. Espero que sim! E foi já muito o que conseguiu: devolveu-nos a esperança em vitórias futuras, a certeza de uma equipa a jogar "à Porto", o orgulho na nossa identidade, que, como Homem e profissional, é, também, a sua - feita de imensa competência e generosidade, de energia inesgotável, de ímpeto e rebeldia, quando preciso for, e de coragem sem limites. Se a sorte, como acreditavam os romanos, favorece os audazes, o triunfo será deste Porto de Sérgio Conceição. (publicado na DEFESA DE ESPINHO a 17 de agosto)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

UM POUCO MAIS DE DEMOCRACIA

1 - A democracia não é só um momento da libertação, é um percurso de aperfeiçoamento incessante. Temos de reconhecer que Portugal mudou bastante desde o 25 de abril de 1974 -a organização do Estado, tal como os costumes, a rede de estradas, a saúde, a escola... - mas há aspetos em que continua demasiadamente igual ao que era. País imperial sem império, centralizador (Lisboa e províncias, em vez de Lisboa e colónias...). País profundamente desigual nas oportunidades que oferece, segundo a situação geográfica (litoral/interior), o género, a geração, a fortuna... País de emigração forçada, com vícios de estruturais, assimetrias, anacronismos, que não serão erradicados, sem uma nova sensibilidade à própria existência das desigualdades. Nós, os cidadãos, não podemos considerar "natural" que tenham a sede em Lisboa todos os órgãos de soberania, as cúpulas da administração, as instituições públicas, a TAP (desvalorizando, crescentemente, as outras regiões), as televisões, incluindo a pública (com apenas uma delegação a norte, subvalorizada e subaproveitada) as principais rádios, quase todos os jornais de circulação nacional, os grandes eventos, exposições, agências internacionais. Nenhuma democracia europeia consolidada apresenta um semelhante quadro de macrocefalia, nem mesmo antigos Estados imperiais, como a França, ou a Grã-Bretanha, a Espanha ou a Holanda. Exemplos bem recentes mostram o constante agravamento desse estado de coisas: caso da candidatura de Lisboa à relocalização de uma organização internacional, havendo duas já instaladas na cidade, com argumentação falaciosa (só as vozes que, depois, se levantaram a norte, levaram o governo a reconsiderar), ou da organização por Portugal do próximo festival da Eurovisão, de imediato, proposta para a capital. A contestação veio, rápida e oportuna, de várias cidades, com Espinho na vanguarda. É assim que é preciso reagir, apresentando alternativas 2 - Terá sido como adepta portista que primeiro senti a força da discriminação, da injustiça (na relação norte-sul) e me converti em regionalista, antes, pois, de ter idade para saber exatamente o que isso era. Depois, como menina, habituei-me a contestar, do mesmo modo, o estatuto de limitações que me queriam impor, face aos rapazes da família. Assim nasceu, ao que creio, o meu gosto pelo contra-poder. Foi o facto de ser, como cidadã, uma ruidosa defensora da igualdade, nomeadamente de género, que me levou, em linha reta, para o IV Governo Constitucional, chefiado pelo Prof Mota Pinto e formado por independentes. O Professor, que ouvira, vezes sem conta, as minhas discursatas em tertúlias académicas, usou o mais forte dos argumentos para me convencer: se não avançasse, seria responsável por não haver mulheres no seu governo. Avancei. Era a hora de passar das palavras aos atos. E viria a repetir a experiência, noutros pelouros e funções, durante mais de trinta longos anos. Em todo esse tempo, fui uma fiel praticante da crença numaa democracia feita de pluralismo, de alteridade de equilíbrios - desde logo, de género, de geração. Nos gabinetes, nas promoções de chefias, na divisão de tarefas, sempre procurei atingir a meta da paridade, como factor de mais cidadania, criatividade e competência. Reconheço que fui a primeira beneficiária dessa preocupação de me rodear, sempre, de gente mais sábia e mais experientes do que eu. E até a hora da despedida de um último cargo, de vereadora, em 2011, foi decidida com o respeito de tais critérios. Na verdade, teria levado o mandato até ao fim, para não defraudar a regra das quotas, se na lista eleitoral, o meu substituto fosse um homem. Felizmente, era a Leonor Fonseca, uma mulher jovem, que prometia ser, e foi, a sucessora perfeita, competente e carismática. Uma autocrítica devo a mim própria, todavia, pois se fui consequente ao entrar na política, sem querer, para afirmar a presença feminina, não o fui ao sair, por querer sair, sem cuidar da “quota intergeracional”, dando o meu lugar a uma jovem. Tendo consciência desta discriminação (mais insidiosa do que qualquer outra), não a combati até ao limite do possível, permanecendo em funções, como única "representante" do meu grupo etário. 3 - Pergunto os "porquês", sem saber a resposta. Fico no campo das hipóteses: talvez porque a avaliação de prós e contras seja coisa complexa, talvez por falta de movimentos de luta, de pensamento e solidariedade de grupo, talvez porque os mais velhos tendam a interiorizar, sem resistência, a máxima do "dar lugar aos jovens",. Assim é, sobretudo numa sociedade como a portuguesa, em que tudo parece impelir os sexagenários para fora de cena, em qualquer sector, do desporto à política. Quem, desconhecendo o nosso quadro demográfico, comparasse a média de idade dos grandes protagonistas do futebol (num país latino, como a Itália) ou da política (na super potência que é a América), com a que se regista em Portugal, pensaria que se trata de um país extremamente jovem. Ora, pelo contrário, somos dos mais envelhecidos, pelo que a retirada prematura dos idosos da vida ativa é uma perda de tremenda dimensão, prejudicando a economia e enfraquecendo a democracia. É tema que temos de colocar em agenda, urgentemente, para estimular as boas práticas, os bons exemplos. E exemplos não faltam, como o de Ricardo Carvalho, a jogar um fabuloso futebol, aos 39 anos, na longínqua China, ou, aqui mais perto, o caso de Doutor Basilino Godinho, topógrafo reformado, que, depois dos 77 anos foi cumprir o sonho de uma carreira académica, inscreveu-se na Universidade de Aveiro, completou um curso de Letras, com 17 valores, e, seguidamente, com o mesmo brilho, o doutoramento, defendendo tese sobre Antero de Quental. Mantém um blogue (“cartas irreverentes”), quer exercer nova profissão, fala abertamente do “desperdício dos idosos no nosso país” e de como se sente jovem entre os jovens..A idade que importa, de facto, não é a do bilhete de identidade