quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

UMA MULHER PRIMEIRA MINISTRA - MARIA DE LURDES PINTASILGO

Maria de Lurdes Pintasilgo, a primeira mulher a chefiar um governo da República portuguesa, por pouco não foi pioneira no desempenho desse cargo, na Europa democrática - pelos dias que vão de 4 de maio de 1979, quando Margareth Thatcher ocupou o nº 10 de Downing Street, a 1 de agosto, data da sua chegada à residência de São Bento. Todavia, para além da coincidência e do caráter histórico e simbólico dessa quase simultânea intrusão feminina no mundo das altas esferas da política, rompendo tabús de velhas sociedades patriarcais, o que as distancia na aventura governativa é muito mais do que o que as aproxima. Thatcher ascendera do âmago das estruturas partidárias, de um (improvável) quadrante conservador, numa democracia antiga, através de uma sucessão de vitórias eleitorais, no partido e no país. Pintasilgo vinha da pura militância em organizações católicas nacionais e internacionais e em movimentos cívicos, feministas, numa democracia incipiente, instável, ainda a tentar erguer as suas traves mestras. Entrou na cena política, trazida de fora para dentro, por escolha do Presidente Ramalho Eanes, no auge de uma crise - crise que está na origem das controversas decisões presidenciais de dissolver a Assembleia da República, convocar eleições intercalares e nomear um governo transitório, para conduzir o processo eleitoral. Por isso, o mandato da Engª Pintasilgo, prometia, logo à partida, ser, como foi, tudo menos pacífico. Ela era uma personalidade independente, de grande notoriedade e prestigio, tal como os seus predecessores nos governos "de iniciativa presidencial", mas, dos três, a mais descomprometida com o sistema partidário e a mais conotada à esquerda, em especial, à "ala meloantunista" do Conselho da Revolução. (Quando interrogada por um jornalista sobre a sua alegada pertença a essa corrente do MFA, responderia ironicamente: "Eu não sou meloantonista, Melo Antunes é que é marialurdista"). A opinião pública, os "media"nacionais e internacionais seguiam, com natural interesse, o desempenho das duas chefes de governo, não resistindo, às vezes, à tentação de comparar os seus perfis e declarações. Um jornal espanhol chegou a apelidar Pintasilgo de "Thatcher roja". Em Portugal, a imprensa e alguns políticos da ala direita, preferiam outros termos de comparação e falavam de "terceiro mundismo socialista", gonçalvismo de saias"... Contudo, mesmo nos casos em que a linguagem decaiu em laivos de sexismo, que hoje seriam intoleráveis, no meu subjetivo olhar "feminista", terá significado antes um recurso ao insulto fácil do que uma objeção à mulher, por ser mulher. A questão de género ficou submersa na vaga gigante das questões políticas, das propostas, dos ideários daquela pessoa em particular, admirada ou temida por ser, como era, extremamente inteligente e determinada no seu ímpeto de mudança, que, de facto, uns queriam e outros não. Em suma, estávamos perante uma personagem pouco consensual e muito carismática, que acreditava na importância da intervenção inovadora da mulher na igreja e no mundo - uma teórica e doutrinadora, pronta a passar das palavras aos atos, aceitando o testar a sua própria capacidade de fazer obra no terreno da política. Foi Procuradora à Câmara Corporativa, instada por Marcello Caetano, com quem colaborou, do mesmo modo, no âmbito do Ministério das Corporações, presidindo aos trabalhos da plataforma que esteve na origem da Comissão de Política Social relativa à Mulher, à qual presidiu. Em 1974, tornou-se a primeira portuguesa ministra nos governos provisórios, sem levantar, na pasta dos Assuntos Sociais, quaisquer reparos de natureza sexista. O seu percurso, um regime para o outro, em cada momento e circunstância, indicia que o seu objetivo era dar o melhor de si, com uma assumida intenção de transformar as coisas, tanto quanto possível, até ao limite da utopia. Esteve nos cargos de passagem, sem amarras, sem "pertenças", mas cheia de ideias, de convicção e de energia. Assim a vi, ao longo de várias décadas. Nos encontros esporádicos que fomos tendo, nos anos 60 em Coimbra e, anos mais tarde, em Lisboa, falávamos, invariavelmente de intervenção feminina na sociedade, o domínio em que a sintonia era maior. Em 1979, aliás, eu estava firmemente do outro lado da barreira, contra a ideia de um governo "para fazer eleições", e contra a sua procura de um paradigma de desenvolvimento democrático, que considerava um enfraquecimento da democracia representativa, ainda tão frágil. Estava entre os que queriam a simples adaptação de modelos europeus, em vez do “experimentalismo” social e político, que a primeira - ministra nos prometia. Como muitos portugueses, também eu a julgava a mulher certa, no lugar certo, na hora errada.. Estive na sua tomada de posse no Palácio da Ajuda, numa quente manhã de verão, no meio de uma multidão de amigos e de representantes das instituições públicas, muitos admiradores incondicionais e alguns antagonistas, entre estes quase todos os ministros e secretários de Estado do governo cessante, a que eu pertencera. Não havia indiferentes...O ambiente era, ali dentro, como no país, um misto de expectativa e de tensão difusa. Muito formal, evidentemente. A solenidade das posturas e do trajar, dos discursos, dos cumprimentos não se perdera, com o pendor iconoclasta da revolução, nem com a frequente repetição daquele cerimonial. Mas as palavras do juramento eram ali, ditas no feminino ( "eu abaixo assinada...) e a Primeira-ministra escolhera, não um "fato de executiva", mas um vestido chique de seda italiana, um penteado conservador, elaborado, uma imagem bem feminina para a história que ali se escrevia. No entanto, eu estranhava ver em seu redor somente os habituais vultos de fato e gravata, esperava mais ministras, lembrando a senhora que conhecera 20 anos antes, em debates abertos do Graal, incitando as jovens universitárias à participação cívica (mais tarde, li a sua justificação de que convidara quatro mulheres e recebera quatro recusas). Para além da falta de uma forte componente feminina na equipa governamental, notada foi, também, a de muitos políticos em oposição aberta - prenunciadora dos duros afrontamentos a que iríamos assistir, em larga medida provocadas pela sua recusa em se concentrar, apenas, no processo eleitoral, pela reiterada afirmação de uma vontade de inovar nas mais diversas áreas. Cerca de cinco meses durou o V Governo Constitucional, ultrapassando o horizonte temporal previsto, no meio de uma campanha eleitoral radicalizada, que levou à vitória da coligação encabeçada por Francisco Sá Carneiro, com maioria parlamentar, a primeira desde 1974. Anos mais tarde, ao fazer o balanço dessa experiência singular, a Engª Maria de Lurdes diria que toda a classe política estivera contra ela, mas o povo não.Não terá sido surpreendida por isso, pois era inevitável a reação dos três maiores partidos, do centro-esquerda ao centro-direita, no projeto europeu, relativizando divergências menores, contra quem procurava outras configurações para estruturar a arquitetura de uma democracia emergente. Temiam o intervencionismo de um executivo que, na sua ótica, se preparava para extravasar o mandato: "o governo só durará 100 dias, mas organiza-se e actua como se estivesse para ficar 100 anos" (Expresso, 11 de agosto). Muito mais adesão encontrava ela, por exemplo, em "O jornal", que a defendia das diatribes em títulos como "A direita perdeu a vergonha". A visão oposta dos dois semanários, como de outros "media" nacionais, refletiu, a par e passo, a divisão em que o país viveu a chamada "marcha dos 100 dias". No fim, deu-se por cumprida a missão principal do governo - levar a cabo um processo livre e transparentes de expressão da vontade popular. E, no meio de tanta efervescência e controvérsia, a Primeira -miinistra ganhara o desafio de se impor como mulher na esfera pública, em cumplicidade com o povo, de quem procurou aproximar-se. Sentiu-o e disse-o na altura. Demonstrou-o, em 1985, aquando do seu breve regresso ao palco da política, com uma campanha para a presidência da República, marcada pelo integridade e pelo fulgor do seu discurso. Arrancou, cercada de entusiasmo e simpatia, e com sondagens esperançosas, mas acabou, em novo braço de ferro, vencida pela dinâmica avassaladora das máquinas partidárias. Mais uma vez denunciou, asperamente, as forças que lhe retiraram a vitória, dizendo que: “[..] surgiram do fundo arcaico da sociedade portuguesa, em profunda simbiose com estruturas rígidas e autoritárias, de raiz marcadamente patriarcal.” Com a eleição de Mário Soares e o que considerava "a implantação do liberalismo" no país, afastou-se da vida pública nacional, porque lhe parecia óbvio que ":a sociedade portuguesa, na sua expressão político-institucional, não tinha lugar para uma pessoa como eu". Voltou às origens, ao campo da militância cívica e foi, sobretudo, em organizações internacionais que se distinguiu como grande vulto do pensamento europeu e universal, pela cultura, pela criatividade, pela apaixonada defesa de valores humanistas (incluindo neles, sempre, a vertente feminina). Maria de Lurdes Pintasilgo foi não só a única mulher, mas, igualmente, a única personalidade declaradamente feminista, a presidir, até hoje, ao governo de Portugal. Suportou os custos inerentes a uma forma diferente de estar na república, tal como a idealizava, quando escrevia:" As mulheres [...], enquanto mulheres na vida política trazem sempre consigo uma certa perturbação ao sistema. São portadoras não de interesses, mas de causas, as causas da vida". No seu caso, sem dúvida alguma, tão grandiosos foram os ideais como o desassossego com que abalou o “sistema”…Valeu certamente a pena para quem dizia que: "estar na política de forma idêntica à dos homens não me parece um contributo que traga muito de novo para a solução dos problemas [...]" Não a acompanhei no modo como avançou, em 1979, para a " solução dos problemas" do país e fui mantendo algumas diferenças de enfoque, ou gradações de fé, em relação a algumas das suas posições, mas reconheço a sua excecionalidade como ser humano, a sua capacidade de viver as crenças e os sonhos em gestos concretos, e admiro-a por ter sido, antes, durante e depois dos dias contados do V Governo, uma " Mulher de Cidades Futuras

THE GREAT AMERICAN DISASTER

Do 9-11 ao 11-9 1 - Cheguei a NY na segunda daquelas datas fatídicas: o "day after " da eleição presidencial americana. A viagem pareceu interminável, porque ao tempo real se somou o tempo psicológico, de quem ia chegar à América, já não para partilhar a festa da vitória, mas como quem vai a um funeral... de tudo o que admira na terra da liberdade, de todos os valores e de todas as causas em que acredita. Nessa noite, nas maiores cidades do país, o povo, que com o seu voto elegeu Presidente Hillary Clinton, saiu à rua, em pacíficas marchas de protesto. Foram as primeiras e não serão as últimas! Hopefully...Temos de esperar que o povo americano saiba defender-se da tirania , da intolerância racista, xenófoba e misógina que Trump encarna, e, com uma pacífica resistência, defender o mundo de uma eminente regressão civilizacional. O "nine-eleven" foi uma data trágica que mudou, para sempre o tempo e o espaço de paz em que viviam as democracias, desde a derrota das potências do "Eixo", do nazismo e do fascismo, na segunda metade do século XX . Um outro presidente republicano, JW Bush, lançou a guerra (do Iraque), destruiu equilíbrio de forças no Médio Oriente e criou o "habitat" ao desenvolvimento da Al_Qaeda e de todos os terrorismos aparentados. O erro de Bush não tem fim à vista. Contudo, ao comparar Trump a Bush, a conclusão é assustadora, porque, apesar de toda a sua incompetência e estupidez , este ainda se situa no campo da democracia, na sua faixa mais conservadora e belicista, contudo ainda dentro dos princípios elementares e das normas mínimas de relacionamento entre pessoas, raças, sexos e religião, entre nações e povos - um homem de trato normal. Trump pelo contr´rio, quer na enunciação das suas políticas, quer como personagem é um acabado fascista do século XXI Tal como Trump face a Hillary, ele perdera no voto popular para o democrata Al Gore, e fora entronizado por um sistema anacrónico de voto colegial - tão anacrónico quanto o direito individual de porte de armas, que, há 200 anos, correspondia a uma necessidade de auto-preservação nas pradarias ou nos "saloons" do Far -west" e hoje serve, sobretudo, a violência dos fanáticos e o instinto assassino dos loucos. Na verdade, o sistema eleitoral vigente na América favorece Estados menos populosos ( por fatal coincidência, mais caucasianos, mais envelhecidos e mais conservadores), que estão sobre -representados, e cada vez mais, com o crescimento do universo cosmopolita face ao rural. Acresce um outro fator de distorção da vontade popular, que é o facto do vencedor de um Estado, mesmo tangencialmente, conquistar todos os delegados que o representam, sejam eles muito ou poucos, assim inutilizando o voto de todos quantos, nessa circunscrição, sufragaram o outro candidato De há muito se multiplicam as críticas a tais aberrações eleitorais, assim como ao uso generalizado de armas de fogo, sem que tenha sido possível a sua erradicação. 2 - Hillary Rodham Clinton, a brilhante Senadora de NY, a competentíssima e prestigiada antiga Ministra dos Negócios Estrangeiros, ganhou a eleição por sufrágio direto e universal, como acontecera com o antigo Vice-presidente de Bill Clinton Al Gore, Seria , em qualquer Estado, que respeite o voto expresso do Povo - de Portugal à África do Sul, do Brasil à França... - a Presidente do seu país. Fica com ela, como não deixem de clamar muitos democratas, essa inegável legitimidade! Resta ao oponente a "legitimidade de sistema", ironia do destino para quem se apresentava como a candidato anti-sistema.... Num e noutro caso, há 16 anos como agora, os EUA perderam, assim, estadistas de grande estatura e de grande visão. política, realmente ELEITOS pelo POVO, e viram , em seu lugar, homens sem qualidade , que, à frente da única super-potência mundial são tremendamente perigosos para a humanidade inteira! 3 - Pessimista, mas inconformada quanto ao futuro que nos espera, regressei a Portugal no domingo, com o Globe and Mail e o NY Times como companheiros de viagem, que a direção dos ventos torna sempre bem mais curta do que a de ida. Nos seus textos, encontrei, invariavelmente, uma leitura do acontecido na madrugada do "elevan nine" próxima da minha. "Horrorizada", como Paul Krugman ( "Thoughts for the horrified", 1ª página do NY Times), dececionada como John Irving, nas colunas de "The Globe and Mail" (The "great beast" has spoken), resistente como Timothy Egan, do NY Times ("Resistance is not Futile). Em Portugal, constatei, com espanto, que (quase) todos se mostram menos preocupados com a figura de Trump do que com Marine le Pen, sua aliada em versão “soft”., e dão mostras de querer “branquear” a sua imagem A história recente da Europa e do mundo mostra o perigo de subvalorizar ditadores em potência. Não relativizemos os movimentos nacionalistas e xenófobos que alastram por todo o lado, até nos países mais improváveis, com o Brexit do Reino Unido, e a Dinamarca a confiscar os bens dos refugiados à maneira hitleriana… Não sejamos a maioria democrática silenciosa. Maioria, sim! A começar na América, menos dividida ao meio do que se julga, porque o projeto humanista e generoso de Hillary ganhou o sufrágio popular, e, do outro lado, muitos votaram por fatores mais benignos do que o ódio, que, A “Alternative Right” /Tea Party , de Trump, Pence, Bannon ou Flyn, embora no poder, é largamente minoritária. .A América vai regredir, sem dúvida, mas a democracia sobreviverá: os democratas já vieram para a rua, em inúmeras manifestações cívicas, um elenco de negros, num palco da Broadway, já teve a coragem de exortar o futuro Vice.Presidente Pence - vaiado pelo público - a respeitar os direitos das minorias, um significativo número de clubes da NBA, já recusou alojar-se nos hotéis Trump, o “Mayor” de Nova York já fez desaparecer do alcance persecutório da administração Trump os registos de trabalhadores indocumentados. Assim se resiste não pela violência das armas, mas pela força da razão Publicado em "A Defesa de Espinho"

2016-2017 PASSAGEM DE ANO

Like a bridge over troubled water 1 - A passagem de ano é obrigatoriamente tempo de balanço do que finda e de bons augúrios para o que nasce, como se nascesse imaculado. Longe de mim a ideia de romper com a tradição, que convoca à solidariedade e à partilha de otimismo, em convívios e em mensagens, enviadas nos velhos cartões de papel ou nas redes sociais. Proponho-me atravessar a ponte de um ano a outro, em casa, ao som da inspiradora canção de Simon e Garfunkel "Like a bridge over troubled waters". Resisto, pois, à tentação de dizer à maneira de Pedro Passos Coelho: "vem aí o diabo!". De qualquer modo, devo precisar que os demónios que vejo. a agitar águas turvas, não são esses de que ele fala. Isto é, não são nacionais. Bem pelo contrário, temo é uma invasão de diabos alheios. 2 - De facto, 2016 deixa a 2017, essencialmente, um rasto de ameaças e incertezas, a nível planetário. A mesma força perversa da demagogia, da distorção da realidade, a que se usa agora chamar "pós verdade" (uma expressão que de algum modo "normaliza" as mentiras, por vezes delirantes, mas eficazes, que enchem, por exemplo, os novos "media"), fabricou o "Brexit", derrotou Hillary e Renzi, e continua a alavancar sinistras personagens como Farage, Beppe Grillo, Marine, Erdogan, Trump, Putin. Putin, o improvável "compagnon de route" do futuro presidente americano, que ele terá ajudado a eleger, tanto quanto o diretor do FBI, com aquela cirúrgica retoma e pronta retirada da "questão dos emails" de Clinton, quase à boca das urnas (ingerências que colocam em causa a própria democraticidade do processo eleitoral americano e podem inverter o slogan de Trump, que se arrisca a fazer, de facto, não os EUA mas a Russia "great again" - a Rússia capitalista, na qual tem os seus negócios privados, note-se). Assistimos, um século depois, ao ressurgimento, dos nacionalismos e dos fascismos, do ódio e da xenofobia que germinam, em velhas democracias, seja no "Tea Party", na "Alternative Right", no movimento "Cinco estrelas", seja nos movimentos da mesma raiz, que já estão no poder em alguns países do leste europeu. O caos do Médio Oriente, desencadeado pelo Presidente Bush com a guerra do Iraque, alastra, imparável, nessa e em outras regiões, provocando vagas dramáticas de refugiados - as primeiras vítimas do fanatismo religioso, que, contudo, ultrapassa todas as fronteiras e pode, a qualquer momento, levar a violência e a morte a qualquer recanto tranquilo das nossas terras. É, verdadeiramente, a globalização do terror, a par da globalização da mentira (a partir dos "media" digitais...) e da globalização de um capitalismo selvagem, regido pela lei dos mercados contra a Lei do Estado. Ou seja, o poder financeiro sobrelevando o poder político - uma "economia que mata" nas palavras do Papa Francisco... Os demónios do século XXI aí estão. Conhecemos os seus rostos, os seus propósitos. 2017 é ano eleitoral em muitos Estados da Europa e é absolutamente crucial que vençam os democratas, de esquerda ou de direita, tanto faz - caso de Angela Merkl, vista, cada vez mais, como paladina de uma tradição humanista europeia ameaçada. 3 - Em Portugal, 2016 foi, inesperadamente, um ano bem melhor do que o anunciado nas profecias da "inteligentzia" nacional, apesar da dívida, do desemprego, da emigração, do estado da economia, do estado da banca, que não mudaram, no essencial. Mudou, contudo, o estado de espírito coletivo. O novo Presidente da República chegou e trouxe consigo uma nova forma de estar em Belém (e um pouco por toda a parte) e de dar ânimo aos seus concidadãos, em nome dos afetos, da concórdia e da alegria (e energia!) de viver. O novo Primeiro - ministro (seu antigo aluno na Faculdade de Direito, e um excelente aluno) vai pelo mesmo caminho. É um espetáculo deveras cativante, vê-los a partilhar um guarda-chuva no 10 de junho, em Paris, ou, juntos e sorridentes, a plantar uma árvore em Lisboa. Primeiro, rendeu-se-lhes Portugal, que, nas sondagens, dá 97% a Marcelo Rebelo de Sousa e um pouco menos, mas bastante, a António Costa. Depois, rendeu-se-lhes a Europa, esfumado, definitivamente, o receio dos excessos "gauchistes". de um Executivo saído de uma fórmula parlamentarista inesperada e contra-corrente, se bem que legítima. E, subitamente, o mundo rendeu-se a Portugal no mais mediático dos desportos, com a conquista do campeonato europeu de futebol. Uma trajetória espantosa, jamais vista, de empate em empate até à vitória final, contra a França, anfitriã do evento e grande favorita. Uma seleção de uma vedeta única (Ronaldo, então em baixo de forma, mas, ainda assim, Ronaldo), intergeracional (do mais velho, o incomparável Ricardo Carvalho, ao mais novo, um irreverente Renato Sanches, passando pelo reaparecimento de Quaresma). Fernando Santos acaba de receber o troféu de melhor treinador do mundo! Ronaldo, idem, como jogador (sem ponto de exclamação, porque a isso já nos habituou). Por fim, nesta síntese de feitos para a História de 2016, o maior de todos: a eleição de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas. E não pela via de meros jogos de bastidores, como aconteceu com os seus antecessores, mas numa escolha pelo puro mérito individual, em processo transparente, pontuado por debates abertos, em que foi, destacadamente, o primeiro. Homem universal, a quem está agora entregue a missão de velar pela paz no mundo (missão quase impossível, em que, segundo Jorge Dias, nós, portugueses, somos melhores do que em tarefas fáceis e rotineiras). Importando uma linguagem corrente no futebol para este outro campo, podemos dizer que Guterres e Marcelo, colegas e especiais amigos, pertencem ainda à "geração de ouro", que devolveu ao País a liberdade, a democracia e a esperança de as transportar para o futuro. É bom podermos olhar para nós, sobretudo para os que dão a medida grande das nossas capacidades, e sentirmos que temos, naturalmente, muito a aprender com outros Povos, mas também muito a ensinar-lhes. 2016 foi, nesta perspectiva, um ano positivo de mudança, de auto-confiança e de auto- afirmação, que de individual se converteu, de algum modo, em coletiva. Assim seja, igualmente, 2017. Publicado em "A Defesa de Espinho", 29 de dezembro de 2016

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

REPENSAR O NATAL

1 - O Natal da minha infância era a magia de muitos encontros, na casa grande da Avó Maria, no centro de Gondomar - três gerações de uma família enorme, alegre, expansiva, com muita mocidade à volta da figura matriarcal dessa Avó, que sempre recordamos, especialmente, nesta data. Um Natal cristão, de felicidade absoluta, de luzes, de música, de sabores - hoje de memórias muito vivas do passado distante. Essencialmente, uma festa de família, que evocava a família de Jesus, Maria e José, numa proximidade ou cumplicidade com o Deus menino, amigo de todos os meninos da Terra. O amigo que nos fazia chegar a casa, na madrugada de 25 de Dezembro, por meios assaz misteriosos, enquanto dormíamos, prendas magníficas, recompensa de bom comportamento, formalmente sugeridas numa carta que os nossos pais enviavam pelo correio, uns dias antes. Triciclos, bicicletas, ursos, bonecas, jogos, puzzles, livros, muitos livros... Só ficou mesmo a faltar-me, a mim, um vistoso automóvel de pedais, vermelho, pedido a Jesus, direta e sigilosamente, nas orações da noite, e, por isso, nunca mencionado na letra incerta dessas missivas tão genuinamente ingénuas - uma deceção e um segredo que só viria a contar, meio século mais tarde, num programa de televisão, quando me perguntaram qual fora a prenda mais desejada nos meus Natais de criança. Devo acrescentar que, antes desse programa (o "Portugal no coração") terminar, lá estava eu a receber, das mãos da Merche e do Malato. nos estúdios da RTP no Monte da Virgem, uma bela miniatura de um carro de corrida vermelho, exatamente da cor do original, o dos meus sonhos. Logo depois, outro bem disposto participante desse inesquecível momento televisivo, o José Lello, um amigo que lembro com saudade, recebia, também, por entre palmas e sorrisos, um presente simbólico. 2 - Natal é tudo isto - gestos de compreensão e generosidade, laços de afeto e de fraternidade. Começa no pequeno círculo da família restrita, à medida da nossa pouca idade e entendimento das coisas, mas não pode ficar-se por aí, antes deve alargar-se, numa vivência da matriz cristã da comemoração, ao círculo maior da família humana, para além das fronteiras das religiões ou da geografia, da raça, da língua, da cultura... Nesta perpetiva, a mensagem de Jesus - mensagem humanista, universal, até para os não crentes ou praticantes de outros credos - parece agora mais atual do que nunca. Todos estamos convocados a projetar o sentido da história que aconteceu há mais de 2000 anos na história que está a acontecer, dramaticamente, sob os nossos olhos, arrastando tantos milhões de refugiados através dessa mesma região do globo, o Médio Oriente, berço da nossa Civilização. É perfeita a semelhança do quadro de causas que os forçam à fuga e à clandestinidade, com a situação vivida por Maria e José. um casal de migrantes, vítimas de perseguição, em trânsito arriscado, aventuroso, mas, finalmente, venturoso, em terra estranha. Maria caminha, no último estádio da gravidez, à espera do filho, que nascerá num abrigo improvisado, num presépio ou estábulo, precisamente como tantas crianças, que são, atualmente, dadas à luz em lugares inóspitos, em tendas e acampamentos degradantes, quando não nos botes da morte no Mediterrâneo... Poderíamos, na verdade, representar o Natal com as imagens e os rostos da tragédia que nos trazem as reportagens dos "media", quotidianamente, para que se tome plena consciência da impossibilidade de se julgarem cristãos, civilizados, democratas, os mais altos responsáveis políticos ou as pessoas anónimas que negam a sua solidariedade aos refugiados, aos estrangeiros. Os que os tornam objeto de polémica e divisão nas sociedades contemporâneas. Os que se conseguem eleger com os votos do ódio e da intolerância, feitos armas de guerra contra os mais desprotegidos. 3 - Não é, afortunadamente, o caso de Portugal, quer enquanto Estado, quer enquanto Povo. Para mim, o melhor presente natalício de 2016 foi o saber que um estudo credível, divulgado há poucos dias, distingue os portugueses como os mais abertos dos europeus ao acolhimento de quantos procuram escapar aos horrores da destruição das suas casas e das suas cidades. Na segurança e no conforto das nossas, pensamos neles e estamos dispostos a partilhar aquilo que um país relativamente pobre lhes pode oferecer, em tempo de crise! É uma virtude que nos vem, certamente, de uma cultura de convívio, a âmbito planetário, através de séculos de infindáveis migrações. Não temos medo da alteridade e das particularidades dos outros, porque os conhecemos na experiência vivida, na Diáspora. O medo dos estrangeiros, das minorias, é sempre sinal de desconhecimento, de ignorância, de preconceito atávico. Nós somos, assim, individual e coletivamente capazes de viver o espírito do Natal, a letra das suas canções, a emoção das suas cores brilhantes, porque somos capazes de ver em todo e qualquer pequeno refugiado sírio ou afegão o menino Jesus, que veio ao mundo em missão de paz. Em "A DEFESA DE ESPINHO", 22 de Dezembro de 2016

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

NATAL, nas palavras do Papa FRANCISCO

Enviado pela mão de uma Amiga (Ana C). Um verdadeiro programa de vida, para a vida inteira. Por isso, partilho. "O Natal és tu, quando decides nascer de novo em cada dia e deixar Deus entrar na tua alma. A árvore de Natal és tu, quando resistes vigoroso aos ventos e dificuldades da vida. Os enfeites de Natal és tu, quando as tuas virtudes são cores que enfeitam a tua vida. O sino de Natal és tu, quando chamas, congregas e procuras unir. És também luz de Natal, quando com a tua vida iluminas o caminho dos outros com a bondade, a paciência, a alegria e a generosidade. Os anjos de Natal és tu, quando cantas ao mundo uma mensagem de paz, justiça e amor. És também os reis magos, quando dás o melhor que tens sem teres em conta a quem o dás. Os cânticos de Natal és tu, quando conquistas a harmonia dentro de ti. Os presentes de Natal és tu, quando és um verdadeiro amigo e irmão de todos os seres humanos. Os desejos do Natal és tu, quando perdoas e restabeleces a paz, mesmo sofrendo. A consoada és tu, quando sacias com pão e esperança o pobre que te é próximo. Tu és a noite de Natal, quando, humilde e consciente, recebes no silêncio da noite o Salvador do mundo, sem ruído nem grandes celebrações; tu és sorriso de confiança e ternura na paz interior de um natal constante estabelecendo o reino dentro de ti." Papa Francisco

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

SOMOS MAIS PORTO com BRAHIMI !

Acho que o Porto teria continuado a perder oportunidades de golo e pontos preciosos se Nuno Espírito Santo não tivesse sido praticamente "obrigado" a utilizar Brahimi - pelo facto de uma lesão de um dos "seus" titulares... Brahimi e Corona, do outro lado do campo. O problema não era o da juventude André Silva, como se vê agora. É bem mais fácil exprimir estas opiniões quando se ganha - e melhor do que fazer de conta que tudo esteve sempre perfeito. É evidente que este FCP de Nuno Espírito Santo joga um belo futebol ofensivo, de que se gosta. Como jogava o Valência naquela época aurea, até que começou o desaproveitamento, para não dizer "banimento", de alguns dos grandes nomes do plantel. Receio que este seja o grande risco que corremos com ES. Não é só o caso de Brahimi. É o caso ainda mais inexplicável de Rúben Neves, em relação ao qual ninguém pode dizer que é muito bom, mas individualista... Não só só eu que penso assim. Carlos Daniel afirmou há pouco na RTP3 que lamenta a sua sistemática não utilização, reconhecendo embora a qualidade de Danilo, mas considerando que este jovem portista acrescentaria valor ao conjunto...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O melhor PORTO

Numa pequena entrevista dada a "O Jogo", nas vésperas do Porto- Braga, ou seja ainda em período de crise de golos, não ilibei das responsabilidades o treinador, não me queixei da insuficiência do plantel e fui absolutamente contra a compra de reforços de inverno. Na minha opinião, os reforços já lá estavam, mal aproveitados. Sinto-me profeta! Foi, é certo, preciso uma infeliz lesão para que Espírito Santo recorresse ao mais brilhante jogador que tem à disposição - Brahimi, é claro! Um verdadeiro ala. E, como do outro lado, escolheu outro extremo de grande classe, Corona, tudo ficou mais fácil. Contra o Braga, o Leicester, o Feirense... O FCP já jogou muito bem (daí eu achar que não carece de reforços), muito mal e assim-assim. A ver vamos o que o futuro nos reserva, Se não tinha perdido ainda a esperança, duas semanas atrás, sinto-me hoje mais otimista. Não, contudo, absolutamente tranquila. (e continuo a lamentar a pouca utilização de Rúben Neves... esperando que venha a ter a oportunidade merecida de um lugar no onze, sem ser por lesão de um colega)

sábado, 26 de novembro de 2016

AS ESCOLHAS DO ESPÍRITO SANTO

Lopetegui, Peseiro, Espírito Santo... "Somos Porto" à imagem destas cabeças pensantes. Não somos "Porto à Mourinho", nem somos "Porto à Villas Boas". José e André não tinham um grande passado, quando aqui chegaram, mas aqui começaram um grande futuro. E se não havia muito a recomendá-los, não havia também nada contra. O pouco que haviam feito havia sido bem feito! Um no Leiria e no Benfica, o outro na Académica. Não é o paradigma dos que, mais recentemente, têm sido responsáveis por uma longa sucessão de desaires portistas. Lopetegui trazia a marca de maus desempenhos em equipas secundárias e vitórias só em seleções juniores. Uma contratação inexplicável, que me provocou calafrios, desde o primeiro momento. A perseguição a Ricardo Quaresma foi o seu "começo do fim". (uma espécie de versão basca de Co Adriaanse, que perseguiu, da mesma maneira, entre outros, Baía e Diego). Peseiro é um perdedor nato, que conseguiu, como era expectável, a proeza de se mostrar pior do que o antecessor. Espírito Santo, a meu ver, não prometia, à partida, inverter o caminho descendente do FCP. Porquê? Porque não é muito significativo para um clube como o Porto, o que conseguira no Rio Ave. E o trajeto no Valência revelava, sobretudo, a incapacidade de dar sequência a um início promissor, por mau relacionamento com jogadores. Com alguns dos melhores jogadores do plantel... Não há nele nenhum Jesualdo em potência! Não sabe e não me parece que vá saber nunca tirar partido da matéria prima que tem ao dispor. Falta-lhe humildade, falta-lhe carisma, falta-lhe empatia, onde sobra o seu discurso articulado, à mistura com traços de arrogância na hora da vitória e a tendência a negar as evidências em caso de derrota. Choca-me o tratamento que foi dado a Helton, a Aboubakar, a Brahimi, para referir apenas exemplos gritantes. Que bem Aboubakar vai mostrando no Besiktas a falta que faz a este Porto... E o Quaresma! O homem que decide jogos - como aconteceu até contra o Bayern, no Dragão. Quaresma não voltará mais. Mas porque será o mágico que nos resta, Brahimi, excluído das escolhas do Espírito Santo?

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

GILBERTO FERRAZ NA BIBLIOTECA JOSÉ MARMELO E SILVA

Londres, 22 nov (Lusa) - O jornalista português residente em Londres Gilberto Ferraz destacou o contributo que a sociedade britânica deu para a independência de Timor-Leste da Indonésia, num livro que vai lançar em Lisboa na quinta-feira. Organizações de direitos humanos jornalistas, académicos, estudantes e outras personalidades lutaram pela causa timorense, a qual o antigo correspondente do Jornal de Notícias e funcionário da BBC considera que não tem sido reconhecida. "Timor-Leste - Dívida por Saldar" reúne depoimentos, artigos de imprensa e correspondência diplomática, muitos dos quais inéditos, em que se pretende dar a conhecer o ativismo britânico. "Houve um movimento extraordinário que, quanto a mim, apressou e alertou" a comunidade internacional para a situação, disse o autor à agência Lusa. Gilberto Ferraz contou que, na altura, se limitou "a comunicar a audiências portuguesas o que se passava no Reino Unido sobre Timor-Leste" através dos seus artigos no JN. Durante vários anos, teve acesso a figuras como James Dunn, diplomata australiano que defendeu a independência dos timorenses, ou o prelado Martinho da Costa Lopes. Contactou com jornalistas que escreveram sobre Timor-Leste, como Hugh O'Shaughnessy, e com ativistas como o antigo deputado pelo partido Liberal Eric Lubbock e a defensora dos direitos humanos Carmel Budiardjo. Posteriormente, contou à Lusa, ouviu de Jaime Gama, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, que esse trabalho ajudou o Governo português na preparação dos argumentos de defesa de Timor-Leste em organizações internacionais. O livro, resumiu, "é uma dívida ao povo britânico pelo que fez pela causa timorense". A obra vai ser lançada na quinta-feira na Fundação Pro Dignitate, em Lisboa, no dia 25 de novembro no Auditório do Jornal de Notícias, no Porto, e no dia seguinte na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, em Espinho. Natural de Tondela, Gilberto Ferraz, de 82 anos, ingressou no Serviço Mundial da BBC em 1965, onde se manteve durante mais de 30 anos, e foi correspondente no Reino Unido do JN, TSF e RTP. Este ano, publicou um livro de memórias, também em língua portuguesa, intitulado "Por Terras de Sua Majestade".

SÁBADO, 26. às 15.00, na Biblioteca José Marmelo e Silva

Lançamento do livro “Timor-Leste, dívida por saldar” de Comendador Gilberto Ferraz Gilberto Ferraz, comendador, natural da freguesia de Tonda, Tondela, com um vasto currículo, destacando-se a sua função como jornalista durante 30 anos na BBC, em Londres. Organização: Associação Mulher Migrante

Sábado, 26. às 15.00, na Biblioteca Jpsé Marmelo e Silva

Lançamento do livro “Timor-Leste, dívida por saldar” de Comendador Gilberto Ferraz Gilberto Ferraz, comendador, natural da freguesia de Tonda, Tondela, com um vasto currículo, destacando-se a sua função como jornalista durante 30 anos na BBC, em Londres. Organização: Associação Mulher Migrante

terça-feira, 1 de novembro de 2016

SAUDADES DE JOSÉ LELLO - A ÚLTIMA ENTREVISTA JUNHO DE 2016

O meu último encontro com José Lello, no programa de rádio e TV de uma grande jornalista, Maria Flor Pedroso. Ainda bem que aconteceu. Foi um convívio inesquecível, e, de alguma forma, um balanço de relacionamento político e, acima de tudo, pessoal de dois antigos responsáveis da pasta da Emigração - uma Secretária de Estado, um Secretário Estado. Dois Amigos. O link: https://shar.es/1E9hJt

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O DOUTOR CARLOS LEMOS NA "PRAÇA"

História da sua vida contada na "Praça" - uma inesquecível entrevista de Sónia e de Jorge Gabriel. Eu, coisa muito divertida, fiz de " efeito surpresa". Tudo perfeitamente controlado, nas salas e corredores para não nos encontrarmos antes do tempo certo, em pleno estúdio... Link to Praca program 21 October 2016 http://www.rtp.pt/play/p2778/e255525/a-praca/531208

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O DR CARLOS de LEMOS EM ESPINHO

“HISTÓRIA DE UMA VIDA” O HOMEM E O LIVRO Tem estado entre nós, desde Setembro, um dos casais portugueses mais cosmopolitas e mais viajados que conheço - o Doutor Carlos Pereira de Lemos e a Doutora Molly Murray de Lemos, emigrantes na Oceânia há largas décadas. Ele tem 90 anos, ela é mais nova, mas da mesma geração. Recentemente, ela recebeu uma honraria rara, a Ordem da Austrália, pelos seus trabalhos de investigação e ele, em Dili, as insígnias da Ordem de Timor - Leste, pela sua incansável intervenção diplomática em favor dos timorenses Nesta visita a Portugal Carlos de Lemos trouxe consigo uma autobiografia, que apresentou em vários lançamentos, de Lisboa a Melgaço, num vai vem constante, a partir de Espinho. Nada a que não esteja habituado - de movimento se fez " a história de uma vida", que parecia condenada ao confinamento em pequenos povoados serranos do Alto Minho. O Homem Carlos de Lemos quase não teve infância - saiu da escola com a 3ª classe e logo precisou trabalhar, como um adulto. A partir dos 12 anos ficou entregue a si próprio e as grandes decisões, que o conduziram a um destino prodigioso, foram da sua inteira responsabilidade. O perfeito exemplo de "self made man" que chegou longe - mas não no tipo de sucesso que geralmente se associa ao conceito: o sucesso material, a fortuna contabilizada em milhões. Não era isso o que procurava. Queria ir longe no sentido literal de abrir horizontes geográficos, mas também os horizontes do conhecimento e da Cultura. .Ele mesmo o afirma no epílogo da autobiografia: "Não acumulei dinheiro. Mas acumulei riqueza de ter vivido uma vida cheia de experiências variadas". Sozinho vai para a cidade. É empregado de café em Melgaço, depois em Monção. Já aí um dos doutores, cliente diário do café, lhe diz: "Rapaz, tu és um verdadeiro diplomata". E diplomata viria a ser, muito mais tarde…Na etapa seguinte está Lisboa e Cascais. É adjunto de topógrafo - um jovem bem parecido e simpático, facilmente aceite em tertúlias de universitários e de intelectuais. Discretamente, aí vai a exame da 4ª classe. Como topógrafo, palmilha o País, de lés a lés. Espinho, a Póvoa, são parte do seu roteiro. Na Póvoa, num só ano, completa o antigo 5º ano do liceu. Em todo o lado, convive e dialoga à vontade com elites da cultura. Está pronto para "correr mundo", até ao limite das fronteiras de um "império" (que entrava na sua fase derradeira), "do Minho a Timor".Primeiro, Moçambique - o vale do Limpopo, com esporádicas visitas à capital, onde frequenta o seletivo "Clube de Lourenço Marques"). E conta no seu círculo João Maria Tudela, Paulo Vallada, e... Samora Machel. Com as poupanças amealhadas, tira licença sem vencimento, não para se divertir, mas para estudar em Universidades da África do Sul. Quando o pecúlio se esgota procura nova ocupação, ainda mais longe. É o novo topógrafo -Chefe no projeto de construção do porto de Dili. Anos felizes, já com a Mulher. Molly, por quem se apaixonara nos bancos da Universidade. Na África do Sul pertencera ao "inner circle" de Alan Paton (cujo filho era colega). Na sua casa encontra outros famosos oposicionistas ao "apartheid", como Tambo, Mandela e Sisulu. Em Timor, o especial amigo é Rui Cinatti. Um novo capítulo se inicia, quando a carreira académica de Molly os atrai à Austrália. Serão, doravante, emigrantes. Como topógrafo, ele atravessa os desertos do norte australiano, por terras que ninguém tinha ainda pisado. Melbourne é a cidade onde, por fim, se enraízam. Molly prossegue a carreira académica. Carlos de Lemos, depois de terminar os cursos de Sociologia e de Ciências Políticas, é professor, correspondente de bancos portugueses. Um cidadão ativo na emergente comunidade portuguesa, que lidera e mobiliza. Cria a escola de português, o programa de rádio, a "comissão" de atividades sociais e culturais. Antes de ser, formalmente, acreditado como Cônsul Honorário (em 1988), já era o defensor natural dos imigrantes portugueses - e dos timorenses!. O seu prestígio e capacidade diplomática convertem-no no mais notável paladino da cultura e da história portuguesas em toda a Austrália. Consegue o "impossível" - erguer um padrão de homenagem aos navegadores portugueses em Warrnanbool, onde terão aportado as caravelas lusas, 200 anos antes de Cook.. Kenneth Mc Intire, o investigador que comprova a primazia da descoberta portuguesa, é visita assídua de sua casa. .Warrenanbool recebe, desde então, muitos milhares de turistas, sobretudo por altura do "Portuguese Festival", que, por iniciativa do nosso Cônsul, aí se realiza anualmente Converteu-se, assim, em autêntico "lugar de culto" para a nossa gente e para muitos australianos. A cidade agradeceu, dando a uma das ruas, o nome do Dr Lemos. O Presidente Sampaio distinguiu-o com a comenda da Ordem de Mérito. O Livro É uma narrativa fantástica da aventurosa trajetória deste Homem extraordinário, a mostrar mais um dos seus talentos: escrever num português límpido, simples e expressivo, que nos encanta e nos desafia a ir com ele pelo mundo fora, numa viagem que atravessa épocas, mares e continentes. É uma partilha de memórias, de confidências, de observações e comentários sobre muitos lugares e pessoas, com imenso interesse antropológico, histórico, sócio - político. É o retrato de um português de hoje que encarna, realmente, as virtudes que atribuímos aos antigos portugueses – a atracão por outras terras, outros costumes, o dom de conviver afetivamente com outros povos. É o retrato de um emigrante que soube "dar um sentido humanista e fraternal ao movimento incessante da sua vida" - cito palavras finais do meu prefácio, que é seguido por três mensagens, de personalidades dos países a que ele, de facto, pertence. Por Timor fala o Dr. Ramos Horta, reconhecendo que: "A sua tem sido, e sei que será, uma vida de serviço prestado à causa de Portugal, dos Portugueses e dos Timorenses". Por Portugal, o Dr. Rui Quartin Santos, antigo Embaixador em Canberra, realça "as suas qualidades humanas e profissionais, o prestígio que soube conquistar junto de portugueses e australianos". Pela Austrália, Sir James Gobbo, ex- Governador do Estado e Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, dirige-se, sobretudo, ao diplomata: "I think particularly of your role as Honorary Consul of Portugal and your admirable leadership of the Consular Corps in Melbourne".. Aqui fica um convite à leitura de uma história de vida, que é, também, parte da história do País e de outros Países. em "A DEFESA DE ESPINHO", 27 de outubro de 2016

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Livro doa Amigos de MÁRIO LAGES

É um privilégio dar a minha singela contribuição para este livro, que é um ponto de encontro das memórias de cada um de nós sobre algumas das histórias passadas com Mário Lages. Um livro que é, assim, uma "viagem de descoberta" de um ser humano admirável, dotado de muitos e variados talentos, alguns inimagináveis! Por isso, cada depoimento pode trazer-nos surpresas, sempre boas, porque há na sua vida uma essencial coerência de ideias e de ações. Homem de causas e, igualmente, de imensa energia e generosidade concreta. Comunicativo, alegre e muito discreto, com o seu fino sentido de humor. Um militante do humanismo no quotidiano, um cristão verdadeiro, de quem, depois de partir do nosso convívio, poderemos, em definitivo, dizer que "passou por esta terra fazendo o bem". Conheci-o há quase 50 anos, na Casa de Portugal da "Cité Universitaire" de Paris. no início do ano académico de 1968/69. Tornou-se, logo, a figura central de um grupo de jovens portugueses, (bolseiros, investigadores em diferentes áreas, quase todos a iniciarem uma primeira experiência de estudos fora do país), graças a um dom natural de convivialidade e ao seu gosto de partilha, que começava na partilha de informações utilíssimas - sobre como lidar com a burocracia local, onde obter livros com descontos para estudantes, onde fazer refeições económicas fora do perímetro da "Cité"...- e continuava na partilha de ideias, de preocupações sociais, na envolvência cívica. Os ventos políticos que agitavam a França e Portugal, embora de origem e direção diversas, convidavam igualmente à participação. Um duplo convite a que dissemos "sim". Resolvemos começar ali mesmo, na Casa de Portugal - com eleições, naturalmente. Uma das regras inovadoras, que maio de 68 tinha imposto na "Cité", era o "droit d' affichage", um passo largo no sentido da co-gestão. No exercício desse direito, sem consulta ou pedido de autorização ao Diretor da Casa, que, nessa altura, pertencia à Fundação Gulbenkian, afixámos a respetiva convocatória, apresentámos listas, realizámos e vencemos o ato eleitoral. Digo "nós", porque estive entre os proponentes, juntamente com Mário Lages e muitos dos que constituiriam o grupo de amigos, que se consolidou a partir daí, e ainda existe. Não me recordo já dos nomes que compunham essa lista, para além do presidente da assembleia de estudantes, o Luís Galvão Teles. O desenlace eleitoral não agradou ao Diretor que o contestou, de imediato, afixando um aviso em que acusava "uma trintena de residentes" de terem desencadeado aquele processo, à margem dos estatutos da instituição. Afinal, pas de droit d' afichage"... O ato eleitoral foi repetido, nós afastamo-nos, de vez, desse campo de ensaio democrático frustrado, não guardando da querela mágoas ou ressentimentos, mas apenas o rótulo de "católicos progressistas" e a vontade de assumir essa pertença. Concentramo-nos, sem mais, na preparação de combates futuros, pelo debate e reflexão no interior do grupo e, o que não foi menos importante, ao ameno e constante convívio, em que se teceram laços de afecto indestrutíveis. Gostei de saber, agora, há pouco, por acaso, ao conversar sobre Mário Lages, que também ele falava sempre dessa estada na " Cité", como um tempo muito feliz. Qual de nós não diz precisamente o mesmo? Tudo, então, era pretexto para festas e celebrações - os aniversários, por exemplo. Uma trintena de aniversários! Nos tempos livres, visitávamos catedrais e museus, frequentávamos cinemas, livrarias, cafés, discorríamos sobre mil e um assuntos, infindavelmente. E, assim, neste ambiente de tertúlia e de reflexão crítica, se construiu uma comunidade coesa, em terra estrangeira, como tantas outras em que os expatriados recriam um espaço nacional, sem rejeição do que o circunda - emigrantes "temporários", com uma situação bem diferente da maioria dos trabalhadores portugueses que, em massa, estavam a demandar os subúrbios de Paris, mas nem por isso inibidos de exprimir, do mesmo modo, a solidariedade entre pessoas na adaptação a um mundo novo. Compartilhávamos valores, saberes, lazer, como uma grande família no interior de um lugar pequeno, como numa aldeia portuguesa em que todos são parentes, para não dizer "como numa república de Coimbra", só porque acho que nos faltava completamente o toque boémio. Nem boémios, nem "enragés", embora acreditássemos nas profundas transformações sociais e políticas que teriam de acontecer. Mantínhamos as nossas diferenças, sem conflitos, nem cisões, entre iguais, mas com uma liderança espontânea, não imposta, não declarada, não assumida, e, nem por isso, menos decisiva. Responsável, em primeira linha, pela harmonia reinante foi a personalidade de Mário Lages. Disponibilidade constante, simpatia, e bom senso, conselho dado de um modo simples e direto, faziam dele um involuntário, mas autêntico, "primus inter pares". Sensível aos problemas de cada um, com a perfeita compreensão das pessoas e das situações. Um Homem de Ciência, ou melhor, no plural, de ciências - teologia, sociologia, etnografia... - . já com um brilhante doutoramento em Roma e outro em curso, ali, em Paris. Um Homem voltado para as Artes, a escrita, a música (cantava, tocava órgão e outros instrumentos), a fotografia. Um amador de todas estas e de outras Artes, exímio em tudo o que empreendia, facilmente superando os melhores profissionais. Um exemplo: foi ele quem, na altura, fotografou as telas de Nadir Afonso para uma sumptuosa edição das suas obras. Nadir era outra inesquecível personagem da Casa de Portugal, em fins da década da década mítica de sessenta. Um génio da pintura, com um esfuziante sentido de humor, faceta que o terá aproximado de Mário Lages. Um caso de admiração mútua! Pena foi eu não ter gravado alguns dos divertidíssimos momentos que passei a ouvi-los... Com Nadir não tínhamos contacto diário, tal como com amigos que moravam fora da "Cité", e nos faziam visitas muito apreciadas. porque se integravam perfeitamente no nosso círculo de conversação, como o Padre Januário Torgal Ferreira (trazido pelo Mário) ou o Alfredo de Sousa, compadre da Eduarda Cruzeiro. Sobre o tema fotografia, devo acrescentar que Mário Lages não se limitava a tirar retratos com uma máquina "topo de gama", pois se comprazia a completar o ciclo criativo, revelando as suas próprias fotos, num pequeno laboratório de uma das residências bem perto da nossa - não me lembro exatamente qual. A da Suiça, suponho. Sempre pronto a ensinar, convidou-nos para uma espécie de aulas práticas e logo viu crescer o número de discípulos aplicados, entre os quais me contava. Nos meus álbuns ainda hoje conservo algumas dessas fotos, em muito bom estado de conservação, sinal da competência do mestre. Outro terreno em que se distinguiu: o automobilismo, condução, corridas! Ao volante transformava-se por completo, como pudemos testemunhar depois que comprou um Austin mini. O tranquilo e erudito professor que media as palavras e não era dado a qualquer tipo de radicalismo, abria aqui uma exceção e fazia autênticos ralis, por entre as filas de trânsito parisiense, onde vale (quase) tudo, inclusive ultrapassar pela esquerda e pela direita. Ninguém o conseguia seguir. Era normal tomar a dianteira e desaparecer lá à frente, num ápice. Por isso, nos passeios dominicais, em excursão de várias viaturas, traçávamos um plano prévio, com paragens e destino final pré- definidos. E uma vez em que não o fizemos, em viagem para Portugal, no verão de 1969, perdemo-lo praticamente à saída da "Cité" , no "péripherique", para nunca mais o vermos . Ia eu no Volkswagen da Eduarda Cruzeiro, (por acaso, também excelente condutora, mas não tanto) e ela, quase até chegar à fronteira portuguesa, insistia em almoçarmos em esplanadas junto à estrada, na esperança de o reencontrar, com o seu "equipa". Esperança vã. Um episódio que mostra bem como a vida era diferente, sem telemóvel... Aliás, as peripécias com o famoso "mini" começaram cedo, na "rodagem", completada numa ida e volta a Amsterdão (1000 km de boa estrada plana). Chegado à chamada "Veneza do norte", com dois ou três colegas, decidiu estacionar junto ao primeiro canal que lhes oferecia uma vista pitoresca e aparentemente singular. Daí, seguiram todos a pé para o centro, onde jantaram. Pelo caminho, atravessaram pontes, trechos parecidos, despreocupadamente... O problema surgiu, na hora de localizar o "mini", numa densa rede de canais, excessivamente semelhantes na sua beleza pitoresca. Foram horas de deambulação. Depois, em Paris, uma vez por outra, à noite, quando a visibilidade o permitia, passava sinais vermelhos - o que os franceses designam, aliás benignamente, por "bruler les rouges". Era rápido e ágil na argumentação e na condução automóvel, como no desporto, que praticávamos, quando as condições meteorológicas deixavam, nos campos de jogos situados convenientemente em frente à Casa de Portugal. Os relvados que a separam da vizinha Casa do Brasil eram um espaço tranquilo, onde descansávamos dos exercícios atléticos, ou, onde, em dias de sol, nos sentávamos à conversa, após tomarmos um cafezinho brasileiro. Mas café ótimo, delicioso, era o que Mário nos oferecia, vezes sem conta. Café arménio, que ele sabia preparar a preceito, numa cafeteira própria, de metal, com uma base larga, remexendo o pó na água fervente. Como eu era a maior apreciadora dessa bebida exótica, em que o líquido se mistura com o pó, quando não o deixamos assentar, deu -me uma cafeteira igualzinha à sua, que eu guardo, como lembrança das animadas discussões "à volta de uma chávena de café", muito embora não saiba usá-la. O café oriental era uma raridade, sem dúvida, e constituia mais uma evidência de como o nosso Amigo passava dos estudos arménios ao relacionamento fraterno com pessoas concretas e adotava, prontamente, os seus costumes. Tinha colegas arménios, de quem falava com entusiasmo, do mesmo modo que nos relatava avanços na investigação académica. A cafeteira não seria o único presente que dele recebi. Os outros foram livros, todos muito mais utilizados: " Le Nouveau Testament", traduzido para o francês, sob a direção da Escola Bíblica de Jerusalém (na sequência de muitas conversas sobre religião - no meu caso, então, realmente, em busca de respostas para uma crise de fé...), um álbum de arte africana, "um pocket book" de PG Wodehouse, por sinal um dos mais hilariantes da série de Blandings Castle - PG tornar-se-ia o meu autor favorito- e, por fim, o seu ensaio etnológico sobre "Vida/Morte e Diafania do Mundo na História da Carochinha", que é de leitura obrigatória, absolutamente fascinante, tanto do ponto de vista científico como literário. Livros que abrem horizontes - uma das suas grandes missões de vida... São tantas e tão boas recordações! Hoje também já o é a única que podia não o ter sido: um 14 de julho, que comemorávamos pacificamente numa esplanada do "Quartier Latin". De repente, sem razão aparente, eis que irrompe a polícia no alto da rua, que era íngreme e estreita, varrendo os turistas à bastonada! Logo se formou um tropel de criaturas vindas de os lados, ruela abaixo. Ficámos irremediavelmente separados uns dos outros. A Eduarda e eu, por sorte, "integrámos o pelotão da frente" e, ao virar de uma esquina, entrámos por um portão, que estava oportunamente aberto, e fomos recolhidas com palavras amáveis dos donos da casa. Pareciam gente muito habituada a recolher passantes em fuga. Com eles, do alto de uma janela, assistimos à cena de inusitada violência de que foram vítimas alguns dos nossos queridos compatriotas, entre eles, o Mário. Um susto enorme, que se saldou, do mal, o menos, apenas nuns "galos" na cabeça de respeitáveis cidadãos. Foi o mais próximo que estivemos de uma das "bagarres" do pós Maio 68, numa França ainda não recomposta de múltiplas formas de sobressalto. Regressados a Portugal, tentámos lutar contra a dispersão na geografia lisboeta, continuámos a reunir, com frequência, por alguns anos. Contudo, no meu caso, como no de outros, as ocupações, as ausências constantes de Lisboa, do país, levaram-me a perder a ligação assídua com "o grupo de Paris", durante mais de três décadas, até à data da homenagem prestada a Mário Lages, na Universidade Católica, aquando da sua jubilação, que foi seguida de um jantar informal, num restaurante em que reencontrei a Luísa e o António Marques de Carvalho e conheci a Ana Costa Lopes (rimos tanto, que me parecia estar de volta a Paris, à "Cité", à nossa cidade dentro da cidade!). Recomecei a participar em convívios, já não de uma "trintena", mas de uma dezena de bons amigos. Reatámos o diálogo, à volta do Mário, como nos velhos tempos, como se não tivesse havido hiatos. Com o mesmo contentamento, a mesma espontaneidade. Acho que só não esculpimos um boneco de neve e não arremessamos bolas de neve uns aos outros, porque nos faltava a matéria-prima. Tão iguais ao que fomos, apesar dos cabelos brancos! Os verdadeiros amigos têm, afinal, sempre, a idade com que os conhecemos. E, para nós, nunca morrem. in "Lembranças e afectos - A Amizade também é memória" , coordenação de Ana Costa Lopes e Roberto Carneiro, CEP-CEP. Universidade Católica Portuguesa, Lisboa 2016 A A Maria Manuela Aguiar

domingo, 23 de outubro de 2016

FCP: um grande jogador à espera de vez, RÚBEN NEVES

O que mais me impressiona na história recente do FCP não é nem o défice record nas contas que acabam de ser apresentadas, nem a desolação dos resultados desportivos dos últimos três anos, sem títulos, é o continuado desperdício dos talentos das suas escolas de formação. Ao contrário do que, há muitos anos, se passa com o SCP (de Futre, Quaresma ou Ronaldo até João Mário ou Adrien) e, nestes últimos tempos, com o SLB de Rui Vitória, no Porto parece nunca haver lugar para os seus próprios jovens jogadores. Basta olhar a seleção nacional campeã da Europa e ver de onde vem cada um deles... (a atual equipa do FCP conta com um único campeão da Europa, que pouco jogou em França. e não é da sua formação - Danilo) O caso de André Silva é, agora, a exceção que confirma a regra. Teve a sua primeira oportunidade, demasiado tardia, com Peseiro (perdeu-se a Taça de Portugal, mas ganhou-se uma estrela). Rúben Neves, lançado por Lopetegui, é o caso mais visível de desperdício no FCP de Espírito Santo. Para mim, é o melhor da sua geração. Tem visão de jogo, precisão de passe, classe - classe pura! Quem pode esquecer o brilhantismo com que envergou a braçadeira de capitão na "champions" (aos 17 anos), e com que se estreou na seleção nacional? Há que lembrar a Espírito Santo que o seu muito citado "Somos Porto" não pode ser, apenas, um "slogan".

sábado, 8 de outubro de 2016

NO GOVERNO (5 VEZES) - Governo MOTA PINTO

No início de uma participação política em órgãos de soberania, que haveria de se prolongar por mais de vinte e cinco ano, esteve um convite do Prof. Mota Pinto para o seu governo (1978/79). Tinha a particularidade de ser formado por independentes - um dos chamados "governos de iniciativa presidencial", não menos constitucional do que os outros, já que o seu programa passara (sem ir a votos) na Assembleia da República. O anterior, também nomeado pelo Presidente Eanes e chefiado por Nobre da Costa, objeto de uma moção de rejeição, caiu ao ver o seu programa rejeitado. Com eleições obrigatórias em Outubro de 1979, aquele era, de qualquer modo, um executivo destinado a durar cerca de um ano e foi ainda mais breve. Quando, depois de aprovado o orçamento de 79, que provocou uma cisão no PSD, os principais partidos ameaçaram, já nem me recordo a que pretexto, com uma moção de rejeição, o Doutor Mota Pinto não esperou muito para apresentar o pedido de demissão, simplificando o processo. E não se manteve em gestão, porque o Presidente optou pela constituição de um terceiro e último governo desta série, com uma duração estimada de três meses (embora tenha durado bastante mais), a fim de organizar eleições. A maior surpresa foi ter escolhido uma mulher: Maria de Lurdes Pintasilgo. Curiosamente, depois dela, desde que todo o poder foi retomado pelos partidos, não houve mais nenhuma... É obviamente mais difícil a ascensão feminina no puro quadro das maiorias parlamentares, pois as máquinas partidárias são coutada de homens - eram, e continuam a ser, regra geral. Já lá vão 37 anos! Thatcher e Pintasilgo, as primeiras a ocupar o cargo, com apenas algumas semanas de intervalo, faziam, então, história na Europa. Lideranças masculinas nos grandes partidos, dão primeiros- ministros, no masculino, numa perfeita relação de causa e efeito. Quando me perguntam a razão porque escolhi a política, a resposta é "não escolhi". De facto, fui convidada e pela circunstância de ser independente de qualquer partido. Para ser uma presença feminina num governo quase 100% masculino. Entrei na aventura,( que à partida seria breve e, como disse, o foi mais do que o previsto ), por me ser difícil dizer "não" ao Primeiro Ministro, que era um amigo de Coimbra, assim como ao parceiro de equipa no Ministério do Trabalho, o João Padrão, um colega de curso (brilhantíssimo!), que se ocupava do Emprego. Hesitei, mas fui bastante pressionada, sobretudo pelo João. Ofereci-me como voluntária para a assessoria no seu gabinete, mas não consegui ser aceite nessa mais modesta, mas bem conhecida posição (prestei serviço nessa qualidade, desde os primeiros governos provisórios). Tinha as minhas razões, não queria ser chefe de ninguém, faltava-me a paciência para esperar que outros fizessem as coisas por mim. Não sabia mandar - tive de aprender e, por acaso, não foi tão difícil como imaginava. Não era, pois, essa a minha opção de vida - dar aulas na Faculdade ou pareceres num centro de estudos, ou na Provedoria de Justiça: eis o meu sonho do presente e do futuro, aos 36 anos, para melhor usar o que a Universidade de Coimbra me ensinara. Com tempo para o cinema, (quase todos os dias, pelas 18.00), o desporto e o convívio com a família, as tertúlias de café, nos fins de semana, em Espinho. Tempo para ler e ouvir música (os meus velhos discos de vinil) e passear a minha cadela Serra d'Aires/cão de água, na Avenida do Uruguai, onde uma a Maria Póvoas, uma maravilhosa governante, que estava connosco há três gerações, cuidava do meu apartamento. Não me parecia que na vida política houvesse lugar para tudo isso. Pior ainda era a convicção de que o mundo do trabalho perderia uma executante suficientemente competente e o da política não ganharia nada com a troca. À mistura com o receio de falhar havia, porém, uma boa dose de curiosidade de conhecer o "outro lado", o lado do "poder" - neste caso, muito relativo e garantidamente efémero. Não sabendo como dizer "não", acabei Secretária de Estado do Trabalho. Fui para um Ministério que conhecia bem: ali mesmo, no arranha-céus da Praça de Londres, no início de 1967. tomara posse como assistente do Centro de Estudos, cerca de um ano depois de ter terminado o curso de Direito (com a média de curso exigida aos assistentes da Faculdade ou daquele "centro de estudos - não bastava, como em Passárgada, ser amigo do rei...). Um lugar de boas memórias, onde tudo me era familiar, os assuntos, os problemas e até algumas das caras que via nos corredores. Apesar da mudança de regime, o que havia de bom no Ministério se mantinha, antes de mais, a qualidade dos funcionários e dos serviços, dos velhos directores- gerais de carreira (à inglesa), que se distinguiam pela competência, bem mais do que por quaisquer tendências ideológicas. Por sinal, coube-me acolhe-los de volta à atividade, a eles e a muitos dezenas de dirigentes que tinham sido saneados, em 1974, e, depois, reintegrados por insuspeita decisão do Conselho da Revolução. Foram todos colocados em funções técnicas, para sua tranquilidade´, já que a nossa era imperturbável. Quatro anos apenas depois da revolução, os gabinetes dos membros do governo eram pequenos, como mandava a lei - um chefe de gabinete, dois adjuntos, dois secretários, dois motoristas. E assim foi enquanto estive nos Executivos, até 1987. Depois, parece que as coisas foram mudando, através de expedientes para recrutar gente vinda sobretudo dos partidos , com vencimentos "à la carte". Procurei, pois, compensar a minha falta de experiência com uma seleção, norteada pela procura desse atributo que me faltava. Desde já antecipo que resultou. Recomendo a solução. Escolhi os dois adjuntos dentro da "casa" (uma mulher e um homem), trouxe para chefe de gabinete o Manuel Marcelino, colega do Serviço do Provedor de Justiça, uma sumidade na área do Direito Administrativo. As duas secretárias, formadas no ISLA, tinham longo curriculum de gabinetes. Ajudaram-me, poderosamente, a atravessar o tempo iniciático - uma equipa unida nos bons e maus momentos. E destes, houve alguns. Não tanto pelos conflitos sociais, negociações, greves... verdadeiros "braços de ferro", uma requisição civil, etc, etc. Com o "adversário exterior" lidávamos nós bem. Com o interno, nem sempre... Não foi sempre pacífico o relacionamento com o Ministro e o seu "staff". Vinham do sector privado, convencidos da sua superior eficácia - o ministro até era eficaz, muito melhor do que a "entourage", ao contrário do que comigo se passava. A qualidade dos quadros do Ministério acabou por convencer o Dr Eusébio Marques de Carvalho, que fez lentamente a "estrada de Damasco" na Praça de Londres. Mais difícil de converter era o seu chefe de gabinete. Julgava-se o "chefe" dos chefes de gabinete dos Secretários de Estado. Ora não há vínculo hierárquico entre os gabinetes, embora haja entre o Ministro e cada um dos Secretários de Estado. Com ele, as coisas nunca melhoraram. O João Padrão foi o maior obreiro da paz, naquele 16º andar da Praça de Londres... Um homem encantador, com uns vivíssimos olhos azuis, um apurado sentido de humor e da relatividade das coisas. Muito inteligente, um diplomata e um grande amigo. Sempre que eu irrompia no seu gabinete, contíguo ao meu, a relatar um novo "caso" e a ameaçar demitir-me, oferecia-me um café, desdramatizava, entre sorrisos e amena conversa, e logo reduzia a dimensão do incidente... A esta distância, vejo que se tratava de uma falta de "savoir faire" do reincidente, que, aliás, era um homem de boas maneiras e agradável à vista - comigo muito simpático, mas não tanto com o meu gabinete... Talvez na empresa de onde vinha, esse comportamento fosse aceitável, mas na função pública eu estava habituada a mais civilidade. Os meus "chefes" formavam uma galeria de verdadeiros "gentlemen". Ali, na Praça de Londres, o Dr Cortez Pinto, cerimonioso, educadíssimo, e o Doutor António Silva Leal, um sábio, um génio, exuberantemente cordial, descontraído, que se sentava nas escadas do corredor a apertar os atilhos dos sapatos - "para que não tenham a tentação de me fazer ministro", explicava, entre duas sonoras gargalhadas. Depois da Revolução, na Universidade de Coimbra (onde tomei posse a 24 de abril), o Doutor Boaventura Sousa Santos, o Doutor Rui de Alarcão, o Doutor Mota Pinto. Em Lisboa, no Governo, o Doutor Rui Machete, na Provedoria de Justiça, o Coronel Costa Bráz, em meados de 1976, e, poucos meses depois, tendo ido o Coronel para o Governo, organizar eleições livres, o incomparável Dr José Magalhães Godinho - que foi, para mim, o mais próximo e o mais querido de todos. Tinha uma memória fenomenal e muita graça a contar as histórias da História. Era generoso, solidário, carismático e acessível. O mesmo não se diria do Dr. Eusébio Marques de Carvalho, com o seu feitio impulsivo e impaciente, e, tal como eu, "estreante" em lides governativas. Acabou por me influenciar mais do que todos os antigos e tão estimados "superiores", converteu-se em verdadeiro "role model"... Por um espontâneo mimetismo, dei por mim a tomar decisões rápidas e a exigir execução pronta. Com o que, sem que fosse esse o meu objectivo, se construiu a imagem que dei para o exterior "dama de ferro", na esteira daquele "homem de aço". Imagem mais ou menos positiva, segundo a perspectiva do observador. Mas a essa imagem devo, com certeza, o convite seguinte, para a pasta da Emigração. O tempo era de guerra, de afrontamento e contraditório, na aprendizagem da democracia, a começar no MNE, em guerra aberta com a Presidência. Numa das primeiras conversas com o Doutor Freitas do Amaral, no Palácio das Necessidades, disse-lhe que já se murmurava pelos corredores que eu iria revolucionar tudo, que não deixaria "pedra sobre pedra". Ao que ele me respondeu que não me preocupasse, porque era um tipo de fama não prejudicava a acção concreta. Talvez fosse "mais a fama do que o proveito", mas é verdade que parti para a inovação possível, embora mantendo tudo o que encontrei bem, nas práticas ou nas pessoas. Trabalhara os anos suficientes na função pública, ou com a função pública, para acreditar, até prova em contrário, que as pessoas estão nos seus postos para cumprirem tarefas e não para fazerem espionagem ou conta-corrente, a mando de forças ocultas. Suportei, logo na primeira experiência governativa, a pressão para despedir uma secretária, a Ana, que tinha transitado do gabinete do meu antecessor, supostamente comunista. A Ana era oriunda do quadro da Presidência do Conselho de Ministros e tinha-me sido recomendada pelo Secretário de Estado, Doutor Xavier de Basto, como muito competente. "Durante duas semanas fez de chefe de gabinete e de secretária, foi formidável, mas agora chegaram as pessoas que eu já tinha convidado e não tenho vaga para ela", dizia-me ele. (ali no alto da presidência, também tinha de respeitar os limites quadro legal...). "Ela conhece bem esse ministério, secretariou o seu antecessor". "Isso é que é pior" - disse - "o Ministro não quer, por perto, ninguém que tenha vindo dos anteriores gabinetes". O sigilo e a confidencialidade eram importantes, ali, onde se esperava já a conflitualidade, que veio a verificar-se. Contudo, como o meu amigo e professor de Coimbra, um homem particularmente perspicaz, a recomendava, contratei-a, de imediato. Pouco depois, alguém a denunciou e foi-me sugerido o seu afastamento. Recusei a sugestão, apesar do Ministro me prevenir, muito irritado: "No meu gabinete e no do Secretário de Estado do Emprego toda a gente é de absoluta confiança. Se houver uma fuga de informação é do seu gabinete. "Com certeza! Mas não vai haver problema!", tranquilizei-o. Isto é, não devo ter tranquilizado, mas, provou-se que tinha razão. Fuga de informação foi coisa que não houve. Nem Ministro nem mais ninguém jamais suspeitou que a Ana também tinha sido secretária e tradutora do Vasco Gonçalves! Imagino a reação, se descobrissem esse passado, aliás, nada secreto, porque ela era simplesmente oriunda dos quadros da Presidência. Foi convidada por uma boa razão, a sua competência. A par do "segredo" estava a outra secretária, a Maria de Lurdes. O que nós nos ríamos, a traçar cenários de pânico se a ligação, puramente profissional, viesse a ser detetada.... Na verdade, nunca fiz nomeações de pessoal vindo das profundezas dos partidos, nem para chefias de departamentos, nem para o "inner circle". A excepção terá sido um ou outro caso, fora de Lisboa, onde não conhecia alternativa aos nomes que me indicavam. As minhas preocupações eram outras: a primeira, descobrir talento e experiência profissional, a segunda a paridade de género. Tive a sorte de encontrar, no fundo de uma gaveta, um anteprojeto enviado ao Ministério do Trabalho pela Comissão da Condição Feminina e dei-lhe pronta sequência. Nomeei uma comissão, presidida por um homem, justamente para contrariar a ideia de que os homens não se devem preocupar com as chamadas "questões femininas", que são, evidentemente, questões de direitos humanos, Convidei, claro, o homem certo, o Dr. João Caupers, grande jurista, dinâmico e capaz de cumprir prazos muito curtos, E cumpriu, elaborando relatório e anteprojeto de lei, depois de terem sido ouvidas todas as entidades de uma longa lista de consultas, em primeira linha, sindicatos e associações patronais. Assim, nasceu a CITE (Comissão para a Igualdade no Trabalho e Emprego). Inspirada no "Ombudsman para igualdade", na legislação sueca, que visa assegurar, "em condições iguais, preferência ao sexo sub-representado na profissão". Aqui ainda não era possível ir tão longe. Assim mesmo, como surgiu, a CITE, com a sua composição tripartida (governo, sindicatos, associações patronais) foi, na altura, considerada "avant-garde", em termos de direito comparado. O projeto foi integrado, por vontade do Ministro (que nunca levantou obstáculo a estas minhas iniciativas), num muito mais vasto "pacote laboral". O governo caiu antes da sua promulgação e o seguinte, de Maria de Lurdes Pintasilgo, decidiu vetar o pacote, globalmente. Não desisti, falei com o meu sucessor, Dr. Ribeiro Ferreira, um dissidente do PPD - dissidência aparte, um político muito simpático, que eu conhecia no gabinete de Rui Machete. Expliquei-lhe a singularidade do projecto, ele compreendeu a sua importância e tudo fez para o salvar. Conseguiu. O decreto-lei foi promulgado em pleno mandato de Pintasilgo, ainda com a assinatura de Mota Pinto. Todavia, nem todas as batalhas "feministas" foram ganhas. Foi impossível evitar Portarias de Regulamentação de Trabalho (PRT's), com salários de enorme disparidade para tarefas definidas como masculinas ou femininas. Esbarrei na oposição dos sindicatos, para além da dos patrões. Nada fácil, mas concretizada, foi a nomeação da primeira mulher para chefiar uma delegação distrital do Ministério do Trabalho (em Aveiro) e das primeiras mulheres Inspectoras do Trabalho - várias, de uma assentada. Encontrei algumas delas, anos e anos depois, numa visita que fizeram à Assembleia da República, talvez para participarem nalguma audição, não me recordo das circunstâncias. Procuraram-me para me dar notícias sobre as suas carreiras. A que vinha à frente disse-me logo: "Sabe, sou uma daquelas primeiras inspectoras, que nomeou". Estava em rota ascendente na carreira. Pelo visto, o Inspector-Geral, que era um magistrado, não quis ser apenas condescendente com o poder político (feminino), velou, e muito bem, pala qualidade das escolhas. Foi mérito dele, eu não interferi no processo. Gostei de as conhecer, quase uma década depois - o IV Governo fora tão breve, que não tinha havido essa oportunidade em 1979. A verdade é que às mulheres pioneiras se exige, quase sempre, mais do que aos homens, e que, para se moverem na política, elas têm, em regra, menos à vontade do que eles. Eu contava-me na regra. Providencialmente, as funções de Secretário de Estado do Trabalho não tinham grande visibilidade mediática. Quem estava sempre em cena era o Ministro - situação ideal, porque eu preferia o trabalho "de interior", detestava falar em público e dar entrevistas. Das poucas intervenções públicas a que não escapei, algumas incidiram sobre trabalho feminino. As audiências ficavam, por vezes, perplexas com o discurso da Secretária de Estado, que se assumia como "feminista" naquele particular governo, conotado à direita. Mas eu, crente e praticante do "verdadeiro feminismo", tal como o definia Ana de Castro Osório (nele abrangendo os homens bem formados e sensatos, preocupados com a valorização da metade discriminada da humanidade) passei, naturalmente, à acção concreta, com inteiro aplauso do Ministro, e do Primeiro Ministro, que, de mim, não esperava outra coisa. Dos "media" mantive distância máxima, com uma só entrevista, dada ao jornal "A Bola", sobre o caso mais escaldante, ou, pelo menos, mais badalado que me passou pelas mãos, a transferência de jogadores de futebol para o estrangeiro. Contra tudo e contra todos, autorizei a saída, sem restrições, por uma pura questão de princípios - no caso concreto, o princípio de liberdade de circulação. Considerava inconstitucional a PRT, que impedia a contratação para o estrangeiro dos jovens, que não tivessem um mínimo de idade e uma permanência de, pelo menos, três anos no mesmo clube. A meu ver, esta última exigência violava o "direito à emigração" de cidadãos, que eram jogadores de futebol, sem deixarem de ser cidadãos iguais aos outros. Ora, se, por exemplo, um atleta mudasse, várias vezes de clubes, dentro do país, não permanecendo em nenhum deles por aquele período de três anos, nunca poderia exercer a profissão fora de fronteiras. Foi o fim do mundo!...Consegui uma espécie de antecipação da doutrina estabelecida, anos depois, sobre o caso Bosman. Os jovens que beneficiaram da minha interpretação jurídica, eram, por acaso, do SCP, que vendeu os passes a um clube americano de Boston (os Tea Men?) por somas à época extraordinárias. O Keita, o Jordão e outros. Felizmente, não eram do meu clube. O FCP até estava contra, o Benfica também. Diziam os especialistas que tal abertura iria pôr em causa o futuro do futebol nacional... O despacho era conjunto com o Secretário de Estado do Desporto, mas eu mantive-me irredutível, com os meus argumentos juridico-constitucionais, e ele assinou, ainda que contrariado. E o caos, que se anunciava, não aconteceu. O Ministro deixou-me fazer a "revolução", sem se intrometer. Era um desportista - corria todas as manhãs, antes do pequeno almoço - mas não creio que fosse um entusiasta do "desporto-rei". Deve ter gostado que eu fizesse frente à pressão dos poderosos do futebol. Era "linha dura" e muito corajoso. Teve, nomeadamente, a coragem de aceitar na sua equipa, na pasta do Trabalho, uma mulher, o que então surpreendia, mesmo na Europa mais progressista. Estive em duas ou três reuniões internacionais e os interlocutores perguntavam, invariavelmente: "É Secretária de Estado do Trabalho Feminino?". Quando retorqui: "Não. Do Trabalho, globalmente", manifestavam espanto: "Tem a negociação com os sindicatos?" Confirmava e estranhava a estranheza deles, porque problema com os sindicatos pelo facto de ser mulher, foi coisa que não aconteceu. Houve muitas greves em sectores chave - como o sector portuário, as comunicações... . mas contendiam com o patronato, ou com o governo, sendo para o caso indiferente que no governo estivessem homens ou mulheres. Mesmo sem querer e sem fazer nada demais - apenas o que era minha função, à frente de excelentes negociadores dos serviços do Ministério - ganhei uma aura de "resistente". Apercebi-me de que tinha essa fama na primeira conversa com o Dr. Sá Carneiro. Quando argumentava que o pelouro da emigração era especialmente difícil para mim, contrapôs: "Mas a Srª Drª foi Secretária de Estado do Trabalho!" (o tom era de quem considerava que aí residia um expoente máximo de dificuldade). Parece-me que achou que eu fazia humor, quando retorqui: "Oh, Não! Isso não foi nada de complexo! Lidava com questões jurídicas e técnicas, despachava tudo rapidamente, deixava a secretária livre de papéis ao fim do dia.". Era verdade. A política do governo era clara, não havia que enganar na hora da decisão. Os processos vinham bem instruídos. O Chefe de Gabinete escrutinava cada palavra, na dúvida os adjuntos, especialistas de Direito do Trabalho, davam parecer, avaliávamos em conjunto os dossiers mais controvertidos. Óbvio, a responsabilidade política era minha. Quando havia que falar aos "media", o Ministro lá estava, sempre pronto a isso. O que mais poderia eu desejar? Sá Carneiro, ao contrário de Mota Pinto, não me conhecia pessoalmente, não sabia da minha aversão a falar de improviso, para plateias, para jornalistas. Era óbvio que a pasta da Emigração obrigaria a isso, constantemente. E a viagens, também - e eu tinha medo de andar de avião. Bem! Aprendi que tudo isso só custa a primeira vez. A segunda já é rotina. Sem o meu feminismo, não teria havido uma primeira vez, para mim, na política, Protestava tanto contra a ausência de mulheres nos Governos, que não pude recuar, quando eu própria era convidada o cargo. Realmente, nesse tempo, mulheres no Governo eram raridade (antes, com Caetano,apenas uma Subsecretária de Estado, no domínio da assistência, Maria Teresa Lobo). Pintasilgo foi Ministra dos Assuntos Sociais nos Governos Provisórios. Maria de Lurdes Belchior, ocupou a pasta da Cultura, já não sei em que governo. Com Pintasilgo, Primeira-Ministra esteve Teresa Santa Clara Gomes... fez mais convites, que foram recusados, Vinham todas de fora dos partidos, onde o poder se enraíza. Como eu própria. Sem Mota Pinto, como disse, eu também não teria aceite o desafio... Ele era um político diferente, que avançava com um sentido de missão - não só no discurso, mas na realidade. O primeiro declaradamente "não socialista" depois da revolução de 74. O ter resistido às pressões "da rua" (como então se dizia), o ter conseguido "governar", com firmeza, ainda que apenas durante nove meses, foi um grande passo na história pós revolução. Não há democracia sem a possibilidade concreta e concretizada de viragem, como a que Mota Pinto representou. Sá Carneiro haveria de salientar justamente a importância matricial da alternância democrática, no discurso de tomada de posse, reivindicando para o seu governo o título de primeiro governo de alternativa saído do sufrágio popular. O que era exacto, já que o anterior, de Mota Pinto, não resultara directamente do voto, mas de nomeação presidencial. Acredito, porém, que sem a experiência vivida ("ver para crer"...) que ele protagonizou, a maioria do povo português não teria arriscado dar a vitória, aliás muito estreita, à AD, em fins de 1979. Os Ministros e Secretários de Estado do Prof Mota Pinto eram, quase todos, independentes da área social-democrata e seriam chamados para o Executivo da AD. Fui um caso, entre outros. A única mulher, obviamente. E, por impulso, filiei-me no partido, que era ideologicamente o meu, tornando-me, assim, a primeira militante do PSD a integrar um Governo da República Portuguesa.

No Governo SÁ CARNEIRO

Não conhecia pessoalmente Sá Carneiro até ao dia em que me convidou para Secretária de Estado da Emigração. Fui ao seu encontro às cinco em ponto de uma tarde do início de Janeiro de 1980. Cheguei um minuto antes, recebeu-me no minuto seguinte. Pontualíssimo. Primeira impressão favorável, porque também sou. Veio à porta do gabinete receber-me, sorrindo: segunda nota favorável, porque sou adepta de "boas maneiras". Reparei no olhar intenso (intenso era o primeiro adjectivo que usaria para o descrever). A conversa foi inesperada. Para ambos, suponho. Para mim, certamente. Senti-me tão à vontade, que falei com ele como se o conhecesse há muito, como se fosse um dos velhos amigos de Coimbra. Sá Carneiro gostava, obviamente, de ser confrontado com respostas do género "não, não posso ir para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, porque ando sempre mal penteada e mal vestida". O que era visível, apesar do levar um casaco de peles, emprestado pela Branca Amaral. Tinha sido chamada por Sá Carneiro horas antes, sem tempo para ir a casa mudar de fato e, como estava com um casacão de tweed inglês, velho e "démodé", a Branca, minha colega de gabinete na Provedoria de Justiça, me aconselhou vivamente a trocar pelo dela.... Sá Carneiro quis foi saber se falava línguas, francês e inglês. Pragmático! (Quando tomaram posse dois dos meus sucessores, por sinal ambos do PSD, que não iam além do cultivo da língua - mãe, lembrei-me muito de Sá Carneiro e da falta que ele faz). A certa altura, chamou à reunião o Ministro Freitas do Amaral, que, como Vice-Primeiro Ministro, estava sedeado na Gomes Teixeira. Iria trabalhar diretamente com ele, na veste de MNE, no Palácio das Necessidades. A três, o tom do diálogo não sofreu alteração - mais parecia uma tertúlia! O Doutor Freitas do Amaral mostrava-se, igualmente, muito sorridente. Gostei dele, de imediato. E não é dizer pouco, porque como político, até esse preciso momento, não era propriamente um dos meus favoritos. Notei, que também ele, valorizava muito o meu relacionamento com os sindicatos e foi-me alertando para uma ameaça de greve que pairava sobre os consulados. Despedi-me de Sá Carneiro no mesmo tom bem-humorado em que a conversa começara: "Senhor Primeiro Ministro, por si faço tudo: vou de escadote colar o seu “poster” nas paredes. Vou de balde e pá pintar AD nas ruas. Tudo, menos ser Secretária de Estado! Ignorou o "não" e deu-me o prazo de 24 horas, para decidir. Dali, fui, de imediato, pedir conselho ao Doutor Mota Pinto (pelo telefone, porque ele estava em Coimbra). Encorajou-me a aceitar. Depois, combinei um jantar com Rui Machete, que tinha sido responsável pela mesma Secretaria de Estado, por uns meses, antes de se tornar Ministro dos Assuntos Sociais, ainda nos governos provisórios. Colaborei nesse seu gabinete, quando dava aulas em Coimbra, e de lá saí, por sua indicação, para assessorar o Provedor de Justiça, na área da segurança social. Um e outro me encorajaram a avançar - mais a Branca Amaral, cunhada do Rui e dona do casaco emprestado para o encontro com Sá Carneiro, que se juntou a nós nesse jantar. No dia seguinte, aceitei, não sem repetir ao Dr Sá Carneiro que não me considerava à altura da missão. Respondeu-me que não me preocupasse, porque assumia, por inteiro, a responsabilidade pela sua escolha. Penso que se apercebeu de que eu "queria e não queria" envolver-me naqueles trabalhos, que estava interessada, mas insegura. Acompanhou de perto as minhas primeiras semanas no Palácio das Necessidade, com um apoio constante. Foi extraordinário! Telefonava-me para me dar informação sobre casos concretos de emigração, para me dizer como esta ou aquela das minhas iniciativas tinha resultado bem... Pretextos para me dar ânimo -e dava. Gastou comigo algum do seu tempo tão ocupado de Primeiro-ministro, até ter a certeza de que estava à vontade... Pormenor significativo: não se servia, como é costume, de secretárias para mediarem as chamadas, ligava directamente para mim, e, às vezes, enganava-se no número direto e pedia às minhas secretárias para me passarem o telefone. Imagine-se a excitação delas... Ao longo de anos, transitando de gabinete em gabinete, nunca tinham ouvido a voz de um governante, através do fio. Exemplo único e irrepetível. Um Sá Carneiro bem diferente do que preferem traçar para a história muitos dos seus biógrafos. É o caso paradigmático de Miguel Pinheiro, que até começa bem mas acaba mal, apesar de ter recolhido larga bibliografia, e ouvido muita gente. Gente parcial... uma super abundância dos que perderam, no interior da "Nação PPD", todas as batalhas contra Sá Carneiro. Bem melhor é o texto de Maria João Avillez, numa objetividade mais conseguida. Ou José Miguel Júdice, que lhe era mais próximo. Júdice, a quem uma vez, num colóquio, ouvi dizer que Mota Pinto, à frente do IV governo Constitucional, foi uma espécie de São João Baptista, que anunciou aquele que havia de vir. Disse para comigo: "Il y a du vrai". Vi sempre Sá Carneiro, acima de tudo, empenhado em levar o país para patamares mais altos, acreditando que isso era possível, de imediato, sem períodos de transição (concretamente sem Conselho da Revolução...). Caminhava em linha recta para os objectivos, vertiginosamente. Para mim, ele era o “anti-Salazar” por excelência, na medida em que confiava tanto quanto o ditador desconfiava da capacidade dos portugueses para viverem em democracia, como os outros europeus do Ocidente. Toda a sua pressa, e o que chamavam perigoso “radicalismo” ou teimosia, eram a manifestação da vontade de pôr o sistema a funcionar democraticamente, sem tutelas militares ou outras, fortalecendo as instituições da democracia representativa. No domínio particular da emigração, como no conjunto da governação, considerava essencial o fortalecimento da sociedade civil, o diálogo Estado-sociedade civil. A criação de uma Assembleia ou Conselho de representantes das comunidades do estrangeiro era a grande novidade do programa da AD, e uma manifestação dessa vontade de diálogo. O Conselho das Comunidades Portugueses (CCP) era, de algum modo, inspirado no modelo francês, tal como os que, alguns anos depois do nosso, vieram a surgir na Itália e na Espanha, e, mais tarde, na Grécia. Um órgão de representação específica dos emigrantes, que acrescia à representação na Assembleia da República (então e ainda hoje apenas quatro deputados, eleitos nos dois círculos da emigração). No meu gabinete, toda a prioridade foi concedida à feitura do diploma, com a ajuda de deputados da emigração, sobretudo o José Gama, e de diplomatas, sobretudo o do Brasil, Embaixador Menezes Rosa. Foi ele mesmo que tomou a iniciativa de vir a Lisboa falar comigo. O primeiro esboço de diploma deixou-o preocupado. Veio propor alterações que contemplassem a especificidade dos países onde o movimento associativo estava federado, como era o caso do Brasil, nomeadamente no que respeita à constituição do colégio eleitoral para os delegados ao conselho mundial. Uma proposta que consideramos pertinente. Houve outros diplomatas que deram também contributos interessantes, mas não foi possível consultar diretamente os dirigentes associativos, porque havia pressa... O CCP era a grande prioridade, e essa falta seria compensada com a consulta aos Conselheiros, com vista a uma futura revisão legislativa. Ou seja, o Decreto- Lei criava o instrumento de co-participação no processo legislativo, a partir da primeira reunião. Estabelecia as regras para a eleição do órgão consultivo, delineava as suas funções principais, e deixava aos eleitos o poder de moldarem a instituição nascente. Uma originalidade, sem dúvida. Durante os meses de janeiro e fevereiro a vida do meu gabinete esteve muito centrada no arranque do CCP. Depois de cumprir as formalidades de circulação entre os membros do executivo, depois de se ter respondido a várias sugestões e propostas de alteração, o texto final foi aprovado em Conselho de Ministros no dia 1 de Abril, dando-nos tempo de convovar a primeira reunião no verão desse ano. Porém, de Belém, tardava a promulgação. O Presidente da República General Ramalho Eanes aplicou-lhe o "veto de bolso" ao longo de cinco meses, só o promulgando em 12 de Setembro. Foi a resposta natural ao facto de o Governo ter adiado o "Congresso das Comunidades", integrado nas comemorações camonianas, cuja preparação se iniciara no Governo Pintasilgo, sob a presidência de Vítor Alves. O Congresso seria realizado a 10 de junho de 1981, sob a presidência de um militante do CDS, coadjuvado (bastante mal, diga-se) por um secretário-geral do PSD, António Cabecinha, No esquema de Pintasilgo, ao Congresso se seguiria a institucionalização de novas formas de representação dos emigrantes. O Governo da AD avançava na mesma direção com um CCP, formado por líderes associativos, à semelhança do "Conséil" francês, que, sendo pioneiro, serviu de modelo a todos os que vieram a surgir na Europa (o português, anos depois o italiano e o espanhol, muito mais tarde, o grego). Com as eleições legislativas em Outubro, e as presidenciais em Dezembro, tornava-se impraticável convocar o Conselho, de imediato. Ficou adiado para 1981, antecedendo em dois meses o também adiado Congresso das Comunidades. Entre as duas iniciativas não houve, porém, qualquer articulação, constatação do domínio do insólita, que se explica por ter sido marginalizada na preparação do Congresso, não só a Secretária de Estado, pessoa concreta, mas, o que é mais ainda pior, os serviços da Secretaria de Estado (embora não a rede diplomática e consular, lá fora, onde era preciso apoio "in loco" para as reuniões preparatórias - de qualquer forma essa rede dependia diretamente do Ministro). Este "insólito" era impensável sob a liderança de Sá Carneiro e Freitas do Amaral, mas de 81 em diante, perdera-se toda a coesão da equipa, toda a harmonia que havia reinado na AD (não me digam que as coligações partidárias não dependem essencialmente do entendimento pessoal, porque a experiência daqueles sete meses provou-me o contrário). Mesmo sem CCP (que teve de ser anunciado não como feito mas como projeto) 1980 foi um ano prodigioso. Sá Carneiro definia Portugal como “Nação de Comunidades" - mais uma “cultura do que uma organização rígida", mais Povo do que território. São palavras dele, que me são, por vezes, atribu ídas, só porque as repeti ao longo dos anos, aliás sem nunca me esquecer de o citar. Dizia que era preciso reconfigurar o Estado à medida da Nação, estabelecer a igualdade de direitos políticos entre residentes e não residentes dentro no país, privilegiar os laços de sangue e a ligação afetiva dos expatriados à sua terra, apelar às segundas gerações, promover a sua participação real na vida coletiva. A chamada "lei da dupla nacionalidade", a mobilização para o recenseamento eleitoral, a revisão das leis eleitorais discriminatórias, o reencontro pelo diálogo, não só com a emigração europeia, mas com a de além mar (bonita que, então, andava muito marginalizada nos programas da Secretaria de Estado, em todas as formas de apoio social e cultural e na cooperação com o movimento associativo. A grande marca da governação AD foi a parceria com este movimento. Houve a exata compreensão de que uma coisa são os emigrantes portugueses isolados, imersos numa sociedade estrangeira, outra são as comunidades orgânicas, com a força das suas organizações e iniciativas culturais. Foi em relação a esta realidade a que muitos chamam "Diáspora" que o Governo Sá Carneiro foi mais inovador - até então havia política de emigração, com o enfoque nas questões sócio-laboral e económica. As comunidades de cultura portuguesa andavam esquecidas, desde que o Prof Adriano Moreira. à frente da Sociedade de Geografia, as convocara para grandiosos Congressos Mundiais, em 1964 e 1967. O regime, com Marcelo Caetano, não o deixou prosseguir... A reaproximação à "Diáspora" começara e ser tentada, após o 25 de abril, nas comemorações do 10 de junho, promovidas pelo Presidente da República Ramalho Eanes, Ecoam para sempre as palavras de Vitorino Magalhães Godinho, num desses atos solenes: "Há um Portugal maior do que o império que se fez e desfez..." Há e o programa da AD era o primeiro que quis passar das palavras à ação - a par das "políticas de emigração", dedicou um capítulo próprio às "políticas para as comunidades", baseadas na trave mestra da institucionalização do diálogo com o associativismo, com o acento colocado nas questões culturais, na ideia de reencontro dos dois Portugais, que vivem um dentro e o outro fora do território. Na ideia da igualdade entre diversas formas de pertença ao todo nacional. Igualdade, também entre as emigrações, a mais antiga e a mais recente, a mais próxima e a mais distante, a europeia e a universal. Em Março fiz a minha primeira visita ao serviço dessa ideia. Comecei, naturalmente, pelas que ficam do outro lado do Atlântico: os EUA e o Canadá, de costa a costa, mais de 20 dias, mais de 20 hotéis, de cidades, dezenas de associações, de paróquias, de escolas, com longos debates públicos, entrevistas, conferências de imprensa... (o tirocínio, para quem não gostava de exposição pública e a teve em abundância). Em abril, segui para a América do Sul, Brasil (a minha descoberta do Brasil, de Manaus ao Rio Grande do Sul, dos seus grandiosos Gabinetes Portugueses de Leitura, Beneficências, Hospitais, Clubes desportivos, tudo à dimensão da grandeza do próprio país, e, também, de uma familiaridade tão imediata e completa, com os brasileiros, que os transformava em tudo menos estrangeiros), Argentina (mais uma surpresa, os seus dinâmicos clubes, a sua alegria, o seu cosmopolitismo, à imagem da sociedade argentina). Depois, a Europa - França, Alemanha, Inglaterra, Ilhas do Canal, Luxemburgo, Bélgica - a Europa portuguesa, que desconhecia mesmo em países, onde estudara ou estagiara, casos da França e do Reino Unido. O 10 de junho foi em Caracas, no já monumental, mas ainda inacabado Centro Português - uma sensação de futuro, essa cerimónia num salão ainda sem vidros nas janelas, nem soalho de madeira. Em agosto, obviamente, fiquei no país cheio de emigrantes e não parei um minuto, em colóquios e em festividades, de norte a sul - sobretudo a norte, no Minho e em Trás-os- Montes, de onde vinham, todos os fins de semana, convites irrecusáveis.Era Em Setembro, foi a vez do sul da África, de Capetown a Harare, M'Babane e Manzini, com regresso por Kinshasa. A Diáspora, num espaço cheio de história portuguesa, mas não história colonial - o rasto das caravelas e a presença bem amada, bem integrada da pura emigração, antiga e recente. Instituições com sedes espetaculares, como a Amicale Sportive Kinoise, o melhor e maior clube social de todo o Zaire, aberto a sócios de uma trintena de nacionalidades, em portuguesíssimo ambiente. Muito cordiais foram as conversas com os meus homólogos dos governos de Pretória (o Vice-Ministro do Interior, Kotze, e em Kinshasa, o Embaixador Izumbuir, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros. Aí, fui também recebida pelo Primeiro Ministros, Doutor Karl-i- Bond, um académico, que tinha sido Professor universitário na Bélgica, para onde julgo que voltou. Ambos amabilíssimos, a contarem-me a sua ligação pessoal a portugueses, que os tinham ajudado com bolsas de estudo. Izumbuir falava português perfeitamente, tinha vindo da Embaixada em Brasília. Um organização impecável do Embaixador Baptista Martins, de quem fui hóspede na residência, que era imponente (encantadora, também, a Embaixatriz, que me levou às zonas da cidade, onde os europeus nunca punham os pés, mas onde ela fizera amizades, com ourives e outros vendedores de arte africana - era um figura muito popular entre o "povo.povo", como tive a sorte de poder constatar. Voltei a Kinshasa, muitas vezes, mas sem ela, nunca mais voltei aqueles "quartiers", tão acolhedores...). Nas viagens à América do Norte e à África, o José Gama, deputado do CDS, fez-me companhia. Nos EUA foi mesmo ele que me traçou o roteiro - tinha sido jornalista em New Bedford, conhecia tudo e todos. Era uma simpatia e um orador excecional. Falava sempre, como manda o protocolo antes de mim, e deixava as audiências empolgadas, frequentemente, em lágrimas. E eu tinha bem a consciência de ficar longe do seu patamar oratório, com um discurso terra a terra, a enumerar os diplomas que estavam em agenda, o CCP (que não entusiasmava muito) a Lei da nacionalidade (que entusiasmava imenso), o livre acesso dos jovens às universidades, o aumento da representação política, os intercâmbios culturais. Apresentados, invariavelmente, num tom coloquial. As pessoas aceitavam-nos como éramos, guardo, desta movimentação incessante, boas recordações da hospitalidade lusa, mas ficou-me a impressão de quem nem todos acreditavam piamente no rol de promessas que fazia e que, felizmente, no essencial viriam a ser cumpridas... Os encontros bilaterais, com as autoridades eram, evidentemente, preparados pelos nossos diplomatas - e de forma muito dissemelhante: Em Ottawa, o Embaixador Góis Figueira organizou uma verdadeira cimeira, quase um dia inteiro de contactos com Ministros - Axworthy, que reencontraria, anos depois, no Conselho da Europa. mais dois membros do Governo, que não voltei a ver, e uma dezena de altos funcionários públicos das áreas da imigração, segurança social, cultura, Pelo meio, um almoço oferecido pela parte canadiana. Voltei à capital do Canada muitas vezes, mas nunca mais um diplomata português mostrou esta capacidade de interlocução com as autoridades do país. Nota 20... Em Toronto, fui recebida pelo Primeiro-Ministro do Ontário, pelo Mayor. Em Montreal pelo célebre Maire Drapeau, que convidou De Gaulle a falar na varanda, de onde este soltou o seu o grito de guerra "Vive le Quebec libre!", após o que foi convidado a regressar, prontamente a Paris. Em Conneticut, o Governador do Estado, os "mayors" das principais cidades - a aí fiquei a saber que há cônsules honorários com muito mais influência na sua área do que os de carreira. Era o caso do Dr Seabra da Veiga, uma sumidade como médico-cirurgião e professor, mais famoso no meio político e social americano do que na terra de origem , que, tal com a mulher Rita veiga, se tornariam meus grandes amigos.. Em Rhode Island, encontrei a primeira Cônsul, Anabela Cardoso. Impressionou muito pela sua desenvoltura e espírito prático. Em vez de uma "limousine" levou numa espécie de grande "jeep", colocando toda a nossa bagagem atrás, porque à noite já tínhamos hotel e programa de encontros no vizinho Estado de Massachussets, mas em Providence cumprimos uma agenda cheia - audiência com o governador, receção oficial na Assembleia Legislativa, almoço com o primeiro eleito portugês, o Senador Castro, um homem muito alto e forte, jovial, caloroso. Em Boston e Harvard, acrescentámos aos contactos oficiais, visitas às Universidades, Em Brasília, as receções oficiais foram múltiplas, sempre marcadas pelo "charme" brasileiro - com ministros, congressistas, muito interesse dos "media".Em 1980, não havia praticamente, mulheres na política nacional e o exemplo que Portugal dava comigo causou sensação e fez notícia. Quem diria que, tão pouco tempo depois, o Brasil no ultrapassria, meteoricamente. com uma Presidenta, Governadoras e Prefeitas, nos principais Estados, congressistas (nota curiosa, a nível estadual, por onde começou a imparável ascensão feminina, as pioneiras foram imigrantes de nacionalidade portuguesa, ao abrigo do "tratado de Igualdade": a atriz Ruth Escobar, deputada na Assembleia do Estado de São Paulo e a médica Manuela Santos, Secretária Estadual do Governo do Estado do Rio de Janeiro).Na Venezuela, foram insignificantes os contactos oficiais durante a primeira visita, acantonada à emigração portuguesa por um embaixador político e pouco simpatizante com a AD, mas, felizmente, passei por Caracas, de novo, nas férias desse sonho, e o Encarregado de Negócio, Rosa Lã, supriu todas as omissões. Um dos muito encontros bilaterais, com o Vice-Ministro do Interior, Aristigueta- Gramco foi de crucial importância para a legalização de portugueses (maciça, mas muito discreta - a condição era mesmo essa, não a divulgar - 36 anos depois, posso, enfim,, falar disto... Na Argentina, também tive um "rendez-vous" com um simpático colega, na França, idem, com Stoléru, que não era, propriamente muito efusivo, nem muito aberto a justas concessões. na Alemanha, com interlocutores governamentais, por sinal, mais sensíveis às boas provas aí dadas pelos trabalhadores portugueses (os alemães são facilmente convencidos por factos e números, e a nossa Embaixada, sabendo isso, preparou "dossiers" convincentes, baseados em estatísticas alemãs. No Luxemburgo, a receção do governo foi fraterna, começando po. Jean Claude Juncker, até hoje meu amigo, e mais importante do que isso, um amigo dos portugueses. E até na África do Sul, as reuniões fora um sucesso - Sá Carneiro, em negociações com o Governo de então, só as permitia a um membro do seu governo - o responsável pela emigração. Sou muito direta, e, sempre que o ambiente o permite, informal e, por isso, as coisas correm particularmente bem, com políticos nórdicos, germânicos, "boers", que são mito diretos também e olham as mesuras e os floreados latinos com reserva. Ainda hoje recordo o espanto do Embaixador Coutinho a ver-me em discurso, para usar uma expressão do povo, "pão, pão, queijo, queijo", sobre problemas da nossa comunidade, com a melhor das recetividades... O meu interlocutor no governo era o Vice-Ministro Kotze, a que já aludi - um homem enorme,de porte austero que me esperava, cortezmente, na sala VIP do aeroporto e se foi tornando mais e mais simpático à medida que a conversa fluía. À hora do almoço, que ofereceu à comitiva portuguesa (diplomatas, eu e uma adjunta, que era a minha única acompanhante) já mostrava um sentido de humor muito "british", e à volta da mesa, o embaixador Coutinho, homem encantador, mas sempre com o seu ar preocupado, era o mais silencioso. Enfim, só boas recordações do que aconteceu no eixo bilateral, mas lembro-me, sobretudo, da sensação de espanto e encantamento com que percorria este "outro Portugal" - mais intenso, mais afetivo, cheio de arraiais e procissões, de saraus, de música, de folclore, de caldo verde e bacalhau, de sessões solenes à portuguesa, e, também de muitos queixumes e justas reivindicações.. Quem visita comunidades, assim, uma a seguir a outra,num curto espaço de tempo e num largo espaço geográfico, pode melhor não só avaliar as suas diferenças, como constâncias - a primeira das quais, a fidelidade às tradições, o gosto pelas coisas portuguesas. No Brasil, a sensação estendia-se, como disse. ao povo inteiro, Só a dimensão continental, os voos de seis horas dentro de fronteiras me trazia à realidade de estar num outro país, que não o meu. Não é figura de retórica, é verdade, no Brasil sempre me senti brasileira (possivelmente mais do que muitos compatriotas que lá estão há muitos anos...). Quando digo que 1980 foi o ano mais feliz da minha vida, refiro-me ao período que vai de janeiro até 4 de dezembro ...O desaparecimento de Sá Carneiro e de António Patrício Gouveia, um dos homens mais inteligentes e mais agradáveis que encontrei ao longo da vida (a quem, com grande frequência, dava conta das minhas histórias, a quem pedia conselho. Era mais novo, mas mais sábio do que eu. Não era diplomata, mas parecia - falava do Ministério dos Negócios Estrangeiros e das suas particularidades, como se pertencesse à carreira. Um choque a sua morte, a de Sá Carneiro, a de Adelino Amaro da Costa (com quem tive pouco contacto, mas o havido bastou para o ver como uma espécie de Guterres do CDS). Acredito que com eles tudo teria sido diferente. Alguém imagina Sá Carneiro a dizer, por exemplo, que "Portugal é o bom aluno da Europa"? A aceitar esse tratamento para um país quase milenário, de cultura universalista, face a países com pouca história e "pouco mundo"? Sá Carneiro fez falta ao nosso país, e não só - também ao sul da à Europa, à Europa inteira... Mário Soares, o outro grande político que emergiu da revolução, ficou demasiadamente só....