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Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quinta-feira, 2 de julho de 2026
IMAGINAR O MUNDO COM KAMALA HARRIS
1 – Nas últimas presidenciais nos EUA, o país dividiu-se ao meio, entre um homem já sentenciado por diversos crimes infamantes (um “fora de lei”), e uma mulher que estava nas antípodas, tendo-se dedicado a velar pelo cumprimento da Constituição e da lei e a fazer justiça - ela, Kamala, antiga Procuradora- Geral da Califórnia, Senadora e Vice-Presidente dos EUA. Ele, Donald, um ex-Presidente, com cadastro, que entre outros crimes, recusara aceitar a derrota na sua não reeleição e instigara o destruidor e mortífero assalto ao Capitólio, como, pouco depois, faria, no Brasil, outro vencido, mas não convencido, o seu seguidor Jair Bolsonaro. É extraordinário que, por crime da mesma gravidade, o populista de extrema direita sul americano habite uma cadeia, pela duração de uma pena de mais de 27 anos, e o norte americano more na Casa Branca, a cumprir um mandato presidencial de quatro anos e a disseminar, universalmente, as sementes da discórdia e da violência.
Ao contrário da “perceção” generalizada, Trump ganhou por apenas alguns milhares de votos, e tem uma escassa, embora fiel e fanática, maioria nas duas Câmaras, que talvez perca nas eleições de meio mandato, em novembro próximo.
E se ela tivesse vencido, ainda que por pequena margem? Imaginemos a América da Presidente Harris! Não é um exercício inútil, é um convite à tomada de consciência da importância do voto de cada um e dos custos que pode acarretar a má escolha.
Na presidência Harris, o planeta não estaria, como está, à beira da crise e do caos. Não haveria quotidianamente fanfarronices, insultos, palavrões, ameaças, “bulling”, cortes nos programas de ajuda humanitária, rutura de velhas alianças, total desrespeito pelo Direito interno e internacional, a traição à Ucrânia, os pactos com Putin, as tarifas arbitrárias, que abalam o comércio global, as perseguições de imigrantes por agentes do ICE, com ordem para matar, assaltos piratas a riquíssimas reservas de petróleo (consumados na Venezuela, planeados, muito provavelmente, para o Irão), tentativas de anexação da Gronelândia, e (loucura das loucuras!) dos grandes países vizinhos, Canadá, México e por aí adiante, sem excluir os mais pequenos, como Cuba, (a próxima prioridade na “agenda Trump” de invasão e conquista). Não haveria, agora, a guerra do Golfo, a alastrar pelo Médio Oriente, nem o fecho do estreito de Ormuz, a abrir, se não uma 3ª guerra mundial, a maior das crises, petrolífera e alimentar, à escala do planeta Terra…
Insólito foi que metade da América, a mais poderosa democracia do mundo, tenha votado num psicopata, com amplas provas dadas da doença, exibindo, despudoradamente, um ego monstruoso, que traz ao presente o eco longo da história dos Césares doidos do império romano. Por cá, em eleições que afetam os destinos de todos os povos (como estamos vendo...), o insólito foi ouvir o Secretário-Geral do PSD confessar a sua equidistância de Harris e de Trump...
2 – Nas recentes eleições presidenciais, em Portugal, constatamos idêntica tomada de posição da parte do líder do PSD e do Governo, mas não da parte do Povo, que nos deu uma verdadeira lição de maturidade democrática. De facto, mais de dois terços dos portugueses deram a vitória ao representante dos valores civilizacionais vividos no último meio século, contra o líder do partido da intolerância e da cizania, o candidato que propõe a ressurreição do salazarismo, a República distópica dos “três Salazares”.
A esmagadora maioria de eleitores, disse, pelo voto livre e lúcido, aos dirigentes máximos da AD.2, que não há uma linha divisória entre democratas, sejam eles de direita ou de esquerda, mas sim um fosso intransponível a separar os militantes da Liberdade e do Humanismo dos arautos de novos totalitarismos, em qualquer das extremidades do espetro político.
É curioso constatar que, nos primórdios da construção da nossa arquitetura democrática, os programas e as lideranças dos partidos fundadores estavam à esquerda das suas bases. O CDS, a direita cristã-democrata, considerava-se centrista (“rigorosamente ao centro”). O PPD/PSD afirmava-se de esquerda (sendo social-democrata, nem outra coisa se poderia declarar…), apesar das suas hostes se repartirem do centro-direita ao centro esquerda. E o PS gritava nos comícios e marchas cívicas: “Partido Socialista, partido marxista”, muito embora o grosso do seu eleitorado fosse reformista.
Meio século depois, ao menos no respeitante a esta segunda AD, são os dirigentes máximos que se colocam à direita das bases. Assim o revela, claramente, a expressiva votação do seu eleitorado no Presidente Seguro.
Foi uma primeira zurzidela na teoria da equidistância do PSD face ao PS e ao Chega, e, também, obviamente, no projeto “Passista” de uma grande coligação com o Chega – como se houvesse chão comum entre a direita salazarista/trumpista e a direita democrática! Por mim, não tenho dúvidas de que um regresso de Passos Coelho à presidência do PSD seria o fim do PSD, em definitivo rompimento com a sua designação e os seus fundadores.
A segunda e não menos forte machadada na obstrusa tese da equidistância veio pela mão de mestre de Cavaco Silva. Num artigo publicado no Expresso da semana passada, o mais prestigiado nome do atual PSD, situou o Chega fora do espaço da civilidade e dos possíveis consensos partidários, ao concluir que “não permite construir uma sociedade onde haja uma sã convivência entre todos”, e ao denunciar a sua “impreparação técnica para falar de políticas para o progresso do país”.
Assim o economista que governou Portugal durante a década de ouro da adesão à CEE, fala numa linguagem em simultâneo, rigorosa, contida e demolidora. Mas não se fica por essa sentença letal. Em palavras mais contundentes foi traçando o retrato realista dessa “estirpe” política, que, segundo ele, recorre: “ao insulto, à calúnia e à mentira”; a uma “retórica de confrontação”; a um “discurso teatral de ódio, de insulto, de calúnia e de mentira”. Olhando mais de perto o chefe do partido, (um partido praticamente unipessoal, sem existência para além do dono) diz, simplesmente: “O líder do Chega procura iludir e enganar os portugueses, através de uma gritaria de pretensas verdades sobre a situação do país, sem referência às políticas concretas que defende ou sugerindo falsas soluções para os problemas”.
A minha leitura subjetiva destas asserções, (que subscrevo por inteiro), leva-me em linha reta às questões da nacionalidade, da imigração, do reagrupamento familiar, ou da expulsão de portugueses naturalizados, como pena acessória (medida que, aliás, considero inconstitucional). Questões que o “trumpismo” e os partidos europeus da mesma estirpe põem na ordem do dia e que a AD.2 estranhamente fez suas, com absoluta prioridade. Num país obrigado a dar resposta à devastação do seu território pelas intempéries do inverno e tão carente de reformas, por exemplo, nas áreas da saúde, da educação, da administração pública, da habitação, da defesa, a que propósito gastar tempo e energias governamentais, em alianças com o "trumpismo à moda de Lisboa"?
Os portugueses, entre os equivalentes nacionais de K. Harris e D.Trump, escolheram Harris, seguiram a via proposta por Cavaco Silva, contra a de Passos.
3 – Neste contexto, o artigo do Prof. Cavaco Silva assume uma relevância muito especial. Mais uma vez, mostrou que sabe como e quando intervir, enquanto académico, enquanto político e personalidade de referência. É o futuro do país que o move, como apoiante de primeira hora de Luís Montenegro.
Mas não esqueceu o passado. Veio a público defender Sá Carneiro da vergonhosa apropriação do seu nome pelo líder do Chega, perante o incompreensível silêncio dos dirigentes do PSD.
Aqui deixo uma última citação deste histórico artigo, a que, naturalmente, mais me emociona:
“Tendo sido Ministro das Finanças e do Plano de Sá Carneiro e tendo estudado os seus textos sobre o exercício do poder em Portugal, estou absolutamente convencido que ele lutaria com todas as suas forças contra o discurso de ódio e as ideias do líder do Chega”.
Eu, que fui apenas Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas de Sá Carneiro, mas que também li os seus discursos na Assembleia Nacional, os “Vistos” do Expresso e acompanhei, como incondicional admiradora, as suas intervenções, após o 25 de Abril de 74, na oposição e no Governo, penso exatamente o mesmo.
E, por isso, posso proclamar que Sá Carneiro, um grande democrata, um lutador contra todas as formas de ditadura, um convicto social-democrata, teria, sem sombra de dúvida, votado em António José Seguro e jamais faria alianças com “trumpistas”.
UMA IDEIA PARA ESPINHO
Uma ideia para Espinho
1 – A recente entrevista do Presidente Jorge Ratola à “Defesa de Espinho” fala-nos das agruras e dos compromissos de governar a autarquia, traçando o retrato de uma cidade que, na transição de século XX para o século XXI, apostou em significativo número de equipamentos de vulto, os quais estão hoje, não só subutilizados, mas em estado de degradação acelerada. Nas palavras claras e contundentes do atual Presidente não oferecem “condições mínimas de dignidade” todos aqueles que lista: “o edifício da Câmara, Piscina Municipal, Balneário Marinho, Solário Atlântico, Multimeios, Nave Desportiva, FACE e parque de campismo”. Uma situação de estarrecer, a que poderemos acrescentar, por exemplo, o deplorável estado de conservação dos passeios e das ruas, e, embora sem diretas responsabilidades da Autarquia, a estação do caminho de ferro, com aquele longo túnel escuro, feio e sujo.
É óbvio que Espinho não chegou a este estado da noite para o dia, mas devido à inação acumulada em vários mandatos autárquicos (doze anos de PSD, quatro de PS, estes tumultuados por uma crise, que levou à barra dos tribunais políticos e funcionários camarários e precipitou o afastamento do Presidente e do Vice-Presidente, com a ascensão à chefia de uma mulher corajosa, cujo partido a veio a “descartar”, talvez por
ser mulher).
Sobre os equipamentos que frequento com alguma regularidade, (o Multimeios, o FACE, a piscina Solário Atlântico), faço minhas as palavras do nosso Presidente da Câmara e saúdo a sua pragmática decisão de “começar pelo princípio”, cuidando dessas estruturas.
O espetáculo dado pelo exterior do FACE é, talvez, o caso mais extremo, a desfigurar um edifício belíssimo, infelizmente, ainda pouco visitado, quer por espinhenses, quer por turistas. O que se deve a razões muito diversas, algumas das quais são fáceis de resolver. De facto, quem passa à beira-mar, nas traseiras do edifício, não adivinha que se trata de um Fórum de Artes e Cultura, com o seu Museu, as suas Galerias de Arte, o seu Auditório, etc. etc. E circula muito mais gente nessa parte, virada ao mar, do que na parte da frente, numa rua estreita que praticamente só serve o trânsito automóvel. Para atrair visitantes, conviria sinalizar o Fórum, por exemplo, através de um simples cartaz ou de umas bandeiras a flutuar ao vento. Ajudaria, também, a crescer o seu público, a abertura de uma cafeteria, como a que existe na Biblioteca e, em regra, nos museus de qualquer país do mundo. Sugeri essas medidas ao Executivo, em 2009/ 2010, quando era vereadora da Cultura. Recordo-me de que, nessa altura, já chovia no FACE, aqui e ali, nomeadamente nas Galerias...
A exceção a este triste panorama geral parece ser a Biblioteca, frequentada, por gente de todas as idades na sua programação cultural, com aquele significativo espaço dedicado a José Marmelo e Silva e ao seu valioso espólio, com o tranquilo jardim das oliveiras, entre as duas salas de leitura, e com a pequena
cafetaria, onde se almoça saudavelmente e os doces são deliciosos.
2 – Nestes últimos tempos, em Espinho, na verdade, nem tudo, mas várias coisas correram mal… » cabeça, o enterramento da linha férrea, desejado por quase todos (não por mim, membro de uma escassa minoria), foi uma oportunidade perdida, porque incumpriu o objetivo de libertar espaço urbano, eliminar uma barreira física e devolver continuidade à malha da cidade: o túnel deixou de fora extensas zonas a norte e a sul... E o que libertou é apenas uma vulgar avenida, não uma nova “Avenida 8”, cheia de encanto e movimento. Não gerou a revolução económica e turística que muitos imaginavam. A cidade ganhou espaço, mas o espaço não recuperou centralidade.
Afinal, o maior problema da terra não era ferroviário, mas identitário. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, Espinho era uma das mais famosas estâncias balneares portuguesas, pela rara combinação de praia, caminho-de-ferro, (que aproximava o interior de Portugal e Espanha), casinos, e todas as demais trações da moda: cinemas, teatros, festivais, esplanadas, cafés, dinâmico comércio, recintos desportivos, piscinas, golfe…. Era a "rainha da Costa Verde" respondia às exigências do paradigma da “Côte d’ Azur”!
Entretanto, foi evoluindo o conceito de turismo balnear, surgiram centenas de praias, sobretudo a sul, e o Algarve de águas mais quentes e sol abrasador tornou-se destino dominante para todas as classes sociais. Espinho tratou de se dotar de novas atrações, de equipamentos grandiosos. Infelizmente, não se
encontram em muito bom estado, como revela o Presidente. Acredito na sua vontade e capacidade de os recuperar. Porém, depois, o pleno aproveitamento das diversas estruturas vai depender, não só, mas também, de novos projetos para Espinho. Ainda não sabemos quais e não é questão que quero abordar neste texto. Deixo apenas uma ideia que me parece viável, tendo olhado em volta, para outra “cidade-casino” à beira-mar – a Póvoa, nossa eterna rival!
3 - O casino desempenhou na “Belle époque” de ambas as distintas urbes um papel fundamental. Agora, no novo século, como avaliar esse papel, no que respeita à sua inserção no tecido social e cultural de cada uma das cidades?
O Casino de Espinho é um mundo em si, voltado para o turismo e o entretenimento. Está aqui, como podia estar em Miami. Fornece concertos, revistas, espetáculos internacionais e jantares-espetáculo em salas magníficas, mas encerrou, há muito, um último espaço de convívio quotidiano para gente menos endinheirada: a esplêndida sala de cinema, uma das mais bonitas, se não a melhor, de todo o Portugal. O Casino da Póvoa seguiu via oposta: conservou o seu belo e antigo edifício, verdadeiro “ex-libris”, e, embora também organize espetáculos de variedades, singularizou-se, pelo envolvimento profundo na criação cultural e literária da cidade, como espaço cultural poveiro e polo cultural regional, com uma agenda artística contínua no Teatro, incluindo peças e concertos de música popular. A Póvoa conseguiu, com essa opção do Casino, tornar-se uma marca cultural de alto prestígio, através das “Correntes d'Escrita” e do
prémio literário, que é um dos mais importantes do país.
Passando dos Casinos ao poder local, a análise permitirá conclusões análogas. Espinho (terra onde a sociedade civil, através da programação do Auditório de Música, Cinanima, FEST, dá esplêndidos contributos), procurou a afirmação em edificações importantes, em festivais, de âmbito local, em eventos dispersos. A Póvoa, para além de financiar esse tipo de programação, associou-se a uma iniciativa identitária e continuada, criando uma marca intelectual reconhecida, a nível nacional e até internacional.
A Póvoa tem as “Correntes”, o Porto a sua “Babel”, projetos com os quais rompem a medianiae se afirmam para o exterior por uma imagem de qualidade. O que não resolve os problemas todos, mas cria oportunidades, desenvolve a autoconfiança e o espírito que ajudam à resolução. E Espinho?
A meu ver, a cidade precisa de iniciativas que a relacem para além das suas fronteiras e combatam o subaproveitamento de vasto património (mais ainda depois de recuperado), dando-lhes um caráter de atividade constante, não meramente pontual e, se possível, pondo o foco na história que queremos continuar e que bem merece ser conhecida por portugueses e estrangeiros.
Para mim, o projeto ideal seria a criação de um museu imersivo, a partir dos nossos preciosos arquivos fotográficos, acordando a memória da improvável caminhada da pequena urbe piscatória primordial para a estância balnear cosmopolita dos anos vinte, com os seus casinos, tertúlias, festivais e a sua mítica e movimentada Avenida, até à cidade atual e sua perspetivas de futuro.
Façamos algo, que “ainda ninguém fez”, nem da mesma forma poderá fazer, porque é única e inconfundível a matéria prima de que se tece: o nosso próprio passado.
Um museu vanguardista e singular, não necessariamente muito grande, comportável no orçamento municipal (custando, numa dimensão inicial, apenas cifrões equivalentes a quatro ou cinco concertos com chamativos nomes da música popular). Não é uma utopia. Pensei em exemplos concretos, no “Perlan”, da Islândia - país onde há muitos outros centros interpretativos deste tipo, que são enorme atração turística, e onde alguns, por sinal, nasceram em infraestruturas já existentes.
A Islândia não tentou competir com Paris ou Berlim, através de museus universais, antes exibe o que a torna única - os seus fenómenos naturais, que transforma numa experiência maravilhosa para os visitantes, de qualquer idade ou formação. Precisamente como Espinho não precisa de competir com a Póvoa, com o Porto, ou com qualquer outra cidade. A ideia é converter a sua própria história numa narrativa contemporânea, que transporte o pioneirismo do passado para o futuro, como um verdadeiro traço identitário.
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domingo, 24 de maio de 2026
CCP Europa tem nova Direção
Um dos momentos centrais dos trabalhos foi a eleição da nova Direção do Conselho Regional da Europa, realizada por voto secreto. A lista apresentada foi eleita por unanimidade, confirmando um amplo consenso interno. A nova Direção passa a ser composta por Inês Rodrigues Peixoto (Luxemburgo) como Presidente, Manuel Cardia Lima (França, Lyon) como Vice-Presidente, Duarte Manuel de Sousa Fernandes (Grã-Bretanha, Jersey) como Secretário, António Oliveira (França, Paris) como Relator, e ainda os vogais João de Carvalho Figueiredo (Suíça, Genebra), Maria Cândida Pereira de Melo (Alemanha, Estugarda) e Sílvia Maria Paredes Prada (Andorra).
quinta-feira, 21 de maio de 2026
FCP - A ARTE DE SABER GANHAR
1 – A vitória do FCP, no campeonato de 2026, foi indiscutível, com um começo fantástico, em força, (à Farioli), depois, com a capacidade de se manter na frente e de superar o abrandamento final (também à Farioli). Em suma, foi sempre a melhor equipa, deu ao jovem treinador, formado em Filosofia por Florença, o seu primeiro grande troféu e, do mesmo passo, a todos os portistas, mais uma taça para o Museu e a certeza de que, no novo ciclo de Villas Boas, retomavam o seu percurso como estrela maior do futebol português, seu paradigma de qualidade, sua bandeira a nível internacional. A bandeira azul e branca, cores originais de Portugal, que foram adotadas, desde a primeira hora, pelo clube portuense, nascido ainda sob o regime monárquico.
No período de transição de liderança isso não fora, de início, coisa que pudéssemos ter por segura na era pós- Pinto da Costa (o mítico Presidente mais titulado do mundo), que fizera de um clube aguerrido, mas “regional”, uma superpotência, a nível interno, e em rápida ascensão na alta roda do futebol mundial. Para os portistas, a não participação do clube na “UEFA Champions League” só pode atualmente ser vista como uma anormalidade, com foros de escândalo. Ora a última participação do FCP na Liga dos Campeões datava de 2023/24 (quando foi eliminado pelo Arsenal, nos oitavos de final, por grandes penalidades), e o título de campeão fugia-lhe há quatro longos anos. À perda dos milhões daquela competição europeia juntava-se o anúncio (felizmente exagerado) do estado de falência do clube em 2024. Para mim, de qualquer modo, o desnorte no campo de jogo era mais inquietante do que no campo das finanças, onde, num ápice, havendo pilares de sustentação, “se dá a volta por cima”. De facto, lembrava-me de diversos períodos altos e baixos nas contas do FCP, e, sobretudo, do pitoresco episódio da penhora de seu património, incluindo a retrete do árbitro do estádio das Antas, pelo tristemente célebre Ministro Catroga, que não logrou atrapalhar esplêndidas vitórias desportivas, nem vultosos investimentos em jogadores. Tal como eu esperava, a história repetiu-se, e, apenas um escasso ano após a anunciada “falência”, eis que o FCP se reforça com o seu mais caro plantel de sempre, o atual. Milagre? Não, nem milagre, nem perdão bancário das dívidas, que é privilégio de um certo clube de Lisboa. Foi, simplesmente, muito boa gestão de sólida riqueza institucional herdada, inclusive, o potencial de vendas de passes de jogadores. E eis o Porto de regresso ao seu lugar cimeiro, retomando o fio da sua história “contra tudo, contra todos”!.
2 - Assim foi e assim vai ser, provavelmente por muito tempo ainda. Somos o país mais centralizado da Europa (razão primordial do nosso atraso, gerador de pobreza relativa e de emigração de jovens talentos), e os maiores clubes da capital gozam das vantagens da sua proximidade do Terreiro do Paço e do favorecimento geral dos “média”, nomeadamente, das televisões privadas e, por vezes, também da pública. Quando um dos emblemas da capital é o vencedor, todos os canais se centram nos festejos, durante dias e dias, comentando as imagens, os feitos e os heróis, em infindável “replay”. Quem não se lembra, por exemplo, daquele desfile sportinguista, pela madrugada dentro, atravessando quilómetros de ruas de uma Lisboa, até então, enclausurada pela pandemia de Covid (em completo e tolerado desrespeito de rigorosos ditames)? Tudo religiosamente filmado e transmitido ao minuto, até os incidentes desagradáveis, que, por lá, fazem parte integrante de rituais guerreiros. Com exceção das desordens (que, por cá, não fazem parte dos programas de festas), esperava que, ao menos naquela noite especial, o FCP estivesse em foco nos vários canais televisivos, que abundantemente se ocupam do futebol.
Passei a tarde na cidade do Porto, mas foi em Espinho, que fiquei e ver a festa do título na televisão, maravilhada com um espetáculo “jamais vu”, mas estupefacta com a parca cobertura que lhe era dedicada, da SIC Notícias e CNN à CM e à Sport TV, ressalvado o caso da RTP Notícias, serviço público, a demonstrar a que, nestas alturas, faz a diferença e é imprescindível. Circunstância agravante: aqueles quatro canais estavam devidamente debruçados sobre o futebol, mas com o epicentro noutros protagonistas do dia final do campeonato. O clube nº 1, sendo do Norte, interessava-lhes menos do que o 2º e o 3º classificados! Quando muito, aqui e ali, tripartiam o ecrã, com imagens da festa do campeão num cantinho, enquanto os comentadores falavam, não tanto do segundo e do seu acesso aos milhões da UEFA, mas antes de um nome singular, por ironia do destino, o maior derrotado da noite: Mourinho! Curioso fenómeno mediático, um só homem a ocupar o lugar que, no inverno, fora o das inundações, no verão é, desgraçadamente, o dos incêndios, e, nos intervalos, o das guerras que grassam num mundo assustador. Desde que chegou a Portugal, o “Special One” (de quem devo dizer que gosto muito), ocupou a cena mediática, mesmo para além das fronteiras do desporto. Curiosamente, o mais prejudicado com isso, a meu ver, foi o Trump à portuguesa, que diga o que disser, monopoliza os “media”, e, graças a eles, vem medrando, desmesuradamente, na política. Mourinho “secou” Ventura em tempo de antena! Mais uma boa razão para eu lamentar a sua anunciada partida para Madrid…
3 – Voltemos à festa do campeão, a que assisti, alternando as belas reportagens da RTP Notícias e do Porto Canal (ignorando os outros, que só transmitiram, na íntegra, a parte final do programa, os discursos na Câmara e o desfile dos “craques” no palco da Avenida.
Foi um espetáculo de que nos devemos orgulhar tanto quanto do próprio título. Uma mostra do que eu considero “a arte de saber ganhar”. Junto-me aos que afirmam que nunca se viu, em parte alguma do planeta azul, festejo comparável! Foi a mais perfeita conjugação da paisagem natural (o fabuloso rio Douro, revestido de mil luzes azuis, as pontes rendilhadas a ferro, da escola de Eifel, a nossa Ribeira, património arquitetónico mundial, com “patine” de séculos) e da paisagem humana (a maior multidão jamais vista, avaliada, nos vários lugares da cidade, em mais de 600 000 pessoas, uma imensa multidão unida, fraternalmente, no sentimento alegria). E, é claro, a organização que esteve por trás de tudo isto, a criatividade, a combinação do tradicional fogo de artifício e do recurso à tecnologia para desenhar mensagem nos céus, com “drones” ao serviço da arte e do tributo a Jorge Costa, eterno capitão.
Penso que tanto nos devemos orgulhar da realização desportiva do FCP, como desta sua forma ímpar de partilhar o triunfo em sã e jubilosa convivência e de um modo tão esplendoroso, tão imaginativo. Campeões há muitos, festejos como os nossos, não há.
É, em particular, impressionante a comparação com o que, (quase) sempre, acontece em Lisboa (os desacatos). A que se deverá a nossa singularidade? Eu tinha, e mantenho, uma tese, a este propósito, mas decidi consultar um observador supostamente neutro: o Chat GPT (uma estreia absoluta, confesso). Para os da minha idade, ou de outras idades, que nunca o tentaram, aqui fica, resumidamente, a minha primeira experiência. Segundo o “Chat” três fatores favorecem o Porto versus Lisboa:
- a geografia urbana, a Avenida, espaço amplo, aberto e linear, ao contrário da Rotunda, com múltiplas artérias de escoamento e barreiras, como estátuas e canteiros, o que facilita pequenos desacatos, que escalam mais facilmente em violência;
- o policiamento de proximidade, em cordões periféricos e equipas de intervenção posicionadas fora da vista da multidão, para evitar o sentimento de confrontação, por um lado, e, por outro, uma cultura de forte união regional.
- a sociologia da Identidade: as festas do FCP assumem um caráter de afirmação regional “nortenha contra o centralismo. Existe uma forte autorregulação entre as claques (como os Super Dragões) e os adeptos comuns para manter a ordem e proteger a imagem da cidade. Em Lisboa, a rivalidade partilhada na mesma cidade (Benfica e Sporting) eleva a tensão prévia das celebrações.
Não entrei em debate com o “chat” (está na hora de eu enviar o texto para a redação…). Resta-me manifestar as minhas humanas discordâncias. Descarto os fatores geografia urbana, polícia escondida nas sombras, ou ausência de rivalidades clubistas, que, por sinal, não nos faltam, as do Porto (Boavista, etc) e as de Lisboa, que aqui têm adeptos de sobra… A festa dos campeões portistas é simplesmente um São João antecipado, e, tal como o São João, acontece por todas as ruas, becos e vielas, sem vigilância e sem desordem. O Chat só se aproxima da verdade, como eu a vejo e sinto, quando fala de solidariedades “regionais”. Corrijo: mais precisamente, “portuenses”. A verdade é que o Porto Clube e o Porto Cidade se unem na celebração das vitórias, para sair à rua, numa noite mágica, animados pelo espírito comunitário e pela alegria de viver. O espírito do nosso São João.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
MARIA LAMAS
A HUMANISTA PRATICANTE
Maria Lamas é uma mulher verdadeiramente intemporal, que tem um lugar ímpar na história portuguesa do jornalismo e das Letras, do movimento feminista em meados de novecentos, e da luta contra a violência de uma longa ditadura. Foi protagonista maior, em todos estes domínios, senhora de um destino extraordinário, num dado tempo, particularmente ingrato, que, sobretudo por ser mulher, a obrigou a vencer mil obstáculos, preconceitos misóginos e perseguições da polícia política. Figura intemporal, antes de mais, como paradigma de cidadania vivida audaciosa e apaixonadamente, com uma visão clara do devir português, uma crença na força criativa e subversiva das mulheres para mudar o velha Ordem, e o velho mundo anacrónico do chamado “Estado Novo”, sempre numa atitude coerente de generosidade.
Nascida ainda no século XIX, foi aluna do “Colégio das Teresianas Jesus, Maria e José”, estudando num ambiente religioso, onde se sentia bem, e onde cedo terá despontado o sentido de missão, que, mais tarde, alargando horizontes com projetos de carreira profissional e de intervenção cívica, se consumou no humanismo laico e fraternalista com que fez percurso, num combate sem fim pela justiça, pela igualdade e pela paz.
Casou aos 18 anos, com um republicano, Oficial de Cavalaria, e com ele viveu três anos em Angola. No regresso a Torres Novas, ainda muito jovem, já vislumbramos, na suas iniciativas solidárias, a militante de ideias e causas que não tardaria a revelar-se plenamente: é voluntária da Cruz Vermelha, organiza saraus de beneficência para ajudar famílias dos soldados, publica na imprensa local artigos sobre a guerra. Aos 26 anos, depois do divórcio – à época, era visto como um ato de rebeldia ou de afrontamento dos "bons costumes",e do dever de submissão feminina – fixa-se em Lisboa e torna-se pioneira no jornalismo, que era ofício de homens. Trabalha, primeiro, numa agência de notícias, e em “A Capital”, depois no grupo editorial de “O Século”, dirigindo, durante muitos anos, a revista feminina “Modas e Bordados”. A revista, muito popular entre a metade feminina, supostamente conservadora e fútil, era o mais improvável dos instrumentos para o empreendimento que ousou: promover a revolução de mentalidades, a mobilização das mulheres de todas as idades para a vivência cidadã, a independência de espírito, a valorização do seu papel. Usa, habilmente para aconselhamento, um “correio de leitoras”, que, para ela se converteu em posto de observação e de tomada de consciência dos problemas e dilemas do mundo (ou do gueto) feminino.. A sua obra mais emblemática, que podemos classificar como “monumental”, " As Mulheres do meu País”, terá tido aí a sua pré-história.
É nesta sua forma de dar concretização pragmática e eficiente aos valores e ideais que a norteiam, e numa rara capacidade de realizar coisas grandes com meios parcos e banais, que Maria Lamas me parece singularmente inspiradora, hoje e em qualquer época. O “correio” da popularíssima revista feminina teve um enorme impacto, o mesmo se podendo dizer das conferências e das grandiosas exposições que, sob o patrocínio de “O Século”, com incomparável brilho, levou a cabo, para dar do papel mulher sua contemporânea, em diversas sociedades, domínios e circunstâncias, uma visão pedagógica e dignificante confirmada por factos e por feitos, com que desmentia, categoricamente, a ideologia misógina e opressiva do salazarismo - a última das quais, organizada na qualidade de Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), e em que exibia obras de mulheres escritoras de todo o mundo, lhe custou o emprego, uma sólida carreira e, até, a segurança pessoal. O Conselho foi eliminado, e, a partir daí ela seria alvo de repetidos atos persecutórios do regime, que quis cortar-lhe os meios de subsistência e bani-la, implacavelmente, do espaço público. Em tempo de repressão e declínio do primeiro movimento feminista português,Maria Lamas foi uma verdadeira sobrevivente, a última a presidir ao CNMP, expressão máxima desse associativismo revolucionário, que começara com Adelaide Cabete, nos primórdios da República. O Decreto do Governador Civil de Lisboa extinguiu o CNMP, mas não conseguiu silencia-la, ou erradicar os seus ideais de igualdade.
Maria Lamas estava, então, divorciada do segundo marido, o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, tinha as três filhas a cargo, dependia de si e do seu trabalho... Não se deixou abater - pelo contrário, recomeçou, com redobrado ânimo, um solitário e fecundo exercício de jornalismo de investigação, abraçando desafios cada vez maiores. Munida de uma máquina fotográfica, papel e caneta foi, pelo país adentro, em toda a espécie de incertos e deficientes meios detransporte, recolher depoimentos e testemunhos de mulheres de todos os misteres e condições, até às aldeias mais remotas e inacessíveis. Deu-lhes inédito protagonismo e visibilidade num impressionante retrato coletivo, de alta precisão, de incomensurável valor humano, literário e científico. Uma obra prima do jornalismo português, que é também, um grito de revolta contra a exploração económica, a pobreza, quando não miséria, o confinamento de horizontes, num todo em que a metade feminina era duplamente vítima de subjugação.
Maria Lamas atravessou, assim, corajosamente, as décadas seguintes, cumprindo o seu destino de ativista dos Direitos Humanos, tão eficaz a usar a escrita, como a recorrer à ação concreta.
E não menos admirável foi na sua veste privada! Sozinha educou as filhas, influenciou e cativou as netas, os netos, através de cujos testemunhos sobre a “Avó Maria”, ficamos a conhecer melhor o seu encanto como pessoa, a sua irradiante beleza de rosto e de espírito, de espírito jovem, aberto a novas ideias e formas de luta, o seu temperamento, a um tempo, impetuoso e afável, a dedicação aos que tratava como família, num círculo que se foi alargando sempre. Durante os anos de exílio, em Paris, tornou-se a "Avó Maria" de um sem número de expatriados, que nela encontravam, invariavelmente, amizade e apoio.
À terra voltou, em 1969, durante a efémera "primavera política" para participar nos dias da revolução e gozar os seus últimos anos na democracia que ajudou a refundar. Vêmo-la, ainda combativa, fulgurante e carismática, à frente do Movimento Democrático de Mulheres e a dirigir a sua Revista.
Ao Estado coube atribuir-lhe, como não podia deixar de ser, a Ordem da Liberdade. Aos Portugueses, em cada nova geração, cumpre guardar a memória do exemplo de vida que legou às "Mulheres (e aos Homens) do seu País".
Maria Manuela Aguiar
Jurista. Ex Deputada e Secretária de Estado da Emigração e Comunidades Portuguesas
Cidalia Vargas
terça, 28/06/2022, 14:02
para mim
Está mais do que perfeito.
Fico super feliz com a onda de sororidade que se está a criar entre as mulheres que colaboram nesta obra.
Bem haja!
Quando estiver paginado, envio-lhe, e será um prazer contar com a sua presença no lançamento.
Um abraço,
2021 A PINTURA DE BALBINA MENDES – O LUGAR DAS MULHERES NAS ARTES
Balbina Mendes ocupa um lugar de primeiro plano na Arte pictórica em Portugal, através de um trajetória feita de originalidade e de inovação, numa constante travessia de fronteiras artísticas - sempre em movimento, numa viagem de procura sem fim, pelo gosto de lançar a si própria desafios, um depois de outro, através da experimentação de ideias, de temáticas, de técnicas, de materiais, com a ousadia de sempre, a segurança dada pela maturidade, e a invariável insatisfação, essência de uma obra em que o talento inato se expressa, reinventando-se.
Um percurso raro nos vários ângulos em que o podemos considerar, desde logo porque começou numa pintura de matriz etnológica, que recuperava arquétipos primordiais emergindo, revistos e recriados em toda a sua magia, em telas de grande dimensão e impacto. A Natureza, as vivências, os costumes da sua terra são, assim, transpostos, num universo de interlocução que foi crescendo, à medida que a própria Balbina ganhou notoriedade e reconhecimento, em exposições individuais nas mais prestigiadas Galerias. As suas espantosas “Máscaras Rituais do Douro e de Trás-os-Montes “ fizeram história, simultaneamente a do lugar da sua infância, a das suas gentes e tradições, perdidas e achadas no tempo, e a dela própria, inconfundível intérprete e narradora de memórias e rituais identitários.
Não menos importante é sublinhar a sua capacidade de se impor em grande mostras individuais, o que é, por ora, entre nós, coisa que só está ao alcance de um escol de mulheres pintoras. Embora a perceção comum não o reconheça mantém-se, ao nível de mega exposições com um só nome no cartaz, um largo predomínio masculino, enquanto nas coletivas, ou nas que são exibidas, mais modestamente, em pequenos redutos, elas ultrapassam já os homens, num avançar gradual, como se estivessem, ainda, em difícil transição do espaço privado para o público… É um exemplo que poderemos extrapolar, em muitas outras áreas, a nível nacional e internacional, constatação eficazmente determinante na criação do movimento pela Arte no Feminino, que, no último quartel do século XX, teve uma das suas líderes mais insignes e arrojadas em Paula Rego, símbolo máximo da nossa pintura, cujo recente passamento foi ocasião de a enaltecer e entronizar no panteão dos imortais. Nas suas próprias palavras: "As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra?". [...] "Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com aquilo em que jamais se tocou-as experiências de mulheres".
Uma tomada de consciência e um discurso com que a vanguarda feminista dessa época incorporou o plano da expressão artística na globalidade da sua luta - discurso que, diga-se, neste como em qualquer outro campo, é tudo menos pacífico. Mais consensual será, certamente, a exortação de Gisele Breitling em favor de "uma nova e verdadeira universalidade em que o feminino assuma o seu lugar de direito e o masculino as suas verdadeiras proporções".
Guardo-me, aqui, de entrar na complexa questão do modo como o "género" se exprime, (com caraterísticas próprias ou comuns e indistintas), ficando-me pelo que não pode ser contestado: o masculino avulta, desde tempos imemoriais e permanece como autêntico "padrão", enquanto o feminino é visto como "alteridade". Por outro lado, o sucesso das "mulheres-exceção" não deve deixar no esquecimento a persistente desigualdade de uma maioria, que as estatísticas, na fria linguagem dos números, denunciam. Como escrevia Armando Bouçon, no catálogo da 1ª Exposição de “Mulheres d’ Artes”: "Uma análise correta de toda a história da Arte dá-nos uma perceção muito transparente de como o campo das artes plásticas foi ocupado durante muitos séculos pelo género masculino". Foi. E, se atentarmos nas diferenças de visibilidade, segundo o sexo, continuará a ser, ao menos na medida de uma persistente desproporção. É um desequilíbrio que pode debelar-se de muitas e diversas maneiras…
No panorama português, Balbina Mendes tem, a meu ver, contribuído, poderosamente, para que as mulheres acedam, na vida cultural do país, ao seu "lugar de direito". Fá- lo, ocupando, simplesmente, esse lugar, com força anímica e qualidade de sobra, sem em nada se julgar discriminada, sem se sentir diferente, isto é, do lado de lá de uma linha de separação... É um caso a seguir, no campo das exceções, que, na minha ótica, tão devagar se vai alargando. Balbina faz parte das mulheres que, à partida, se sentem consideradas como iguais, e cuja atitude de despreocupação com disparidades de género, contém, implícita, a intransigente exigência de tratamento igualitário! À margem de manifestos reivindicativos, alcançaram, por si, as metas que o movimento se propôs e propõe, e, assim, afinal, o reforçam.
E será que a proclamação da especificidade de género, pode, no limite, paradoxalmente, dar azo à persistência de formas larvadas de discriminação?. É uma dúvida pertinente. A "arte com género" de que fala Paula Rego, pode, ou não, abaixo do patamar do génio universal a que ela subiu, transformar-se , de facto, não em sinal vanguardista de contracultura, mas em âncora de estereótipos de género, conotando o feminino com características convencionais que são, em sociedades ancestralmente misóginas, uma menos valia? O ponto de interrogação vale para qualquer setor... Recordo o crítico literário João Gaspar Simões, que, ao elogiar a força imanente da prosa de Maria Archer, o realismo puro e duro com que ela aborda temáticas ousadas, a qualificava não como uma grande escritora, mas como "um grande escritor" ... E não é verdade que a poetisas consagradas, como Sophia de Mello Breyner, ou Ana Luísa Amaral, preferimos chamar poetas? Ambíguo cumprimento, a que subjaz a conceção da masculinidade intrínseca do cânone... Certo é que, para esta escola de pensamento, Balbina é uma das grandes pintoras que merece, por inteiro o cumprimento, ainda que, pessoalmente, se não queira rever na categoria de "grande pintor".
A sua arte não procura rivalizar com quem quer que seja, nem obedece a ditames ou limitações de qualquer espécie, segue numa trajetória ascensional de inovação da estética e policromia, do ensaio de técnicas, da fusão de materiais...É genuína e livremente Ela, transmutando para a pintura a experiência ganha nos muitos espaços geográficos e culturais que a sua vivência atravessa e o seu olhar penetra. É única e inconfundível. Se me é permitida uma outra adjetivação, direi: carismática! Uma palavra que tão perfeitamente se ajusta a Autora como à globalidade da sua obra.
Balbina é uma admirável contadora de histórias de vários tempos, do tempo presente a tornar-se passado, ou do passado em dinâmicas e impulsos que o trouxeram até nós, num rasto longo de evocações de festividade populares, rituais, crenças, valores revividos e reconfigurados em toda a sua magia e em todo o seu mistério.
No percurso imparável de Balbina, para mim, no princípio era o rio... porque a conheci na exposição em que nos oferecia uma verdadeira crónica pictural do Douro, deslizando entre margens, da nascente até à foz, incorporado na beleza encantatória de paisagens, onde as gentes apenas se pressentiam, sem se verem... . Reencontrei-a, depois, em outro e surpreendente ciclo temático, na exposição das Máscaras Rituais do Douro e Trás os Montes, em que os homens se faziam presentes, mas ainda sem se verem... Era o início de um tropo narrativo em torno da máscara, incursão às raízes ancestrais, entrelaçamento telúrico de emoções e saberes, recriados nos traços dos seus pincéis, em explosões de cor...
Não resistindo a voltar a uma perspetiva feminista sobre o ineditismo das suas escolhas -perspetiva que, não sendo certemente a de Balbina, me permito ousar - noto a esplêndida audácia com que se apodera, para a eternizar em arte, da tradição masculina da máscara, símbolo, por excelência, da superioridade e camaradagem de sexo, da festa e do cerimonial rigorosamente interditos à mulher... É um prenúncio, um sinal da força subversiva e libertária da sua aventura artística. Logo depois, vai ultrapassar uma última barreira, no momento em que a fragmentação ou transparência das máscaras põe a descoberto... rostos femininos! Uma definitiva ruptura com o interdito. Transgressão, que Paula Rego, sem dúvida, saudaria com “o gozo pela inversão e pelo desalojar da ordem estabelecida". Por isso, Balbina Mendes poderia estar, se quisesse, entre as referências do movimento emancipatório de contracultura feminina nas Artes, na senda da emblemática Paula sobre quem Ana Gabriela Macedo afirma: [...] ela questiona continuamente os chamados "corolários naturais" da diferença de sexos, bem assim como a suposta "ordem natural das coisas", que se traduz na passividade, dependência e submissão, desmistificando o discurso estético e desmascarando o seu papel eminentemente ideológico e as relações do poder, que aí se encontram camufladas [...].
Na sua mais recente exposição, intitulada "Segunda pele", o engenho narrativo de Balbina não nos revela, antes adensa o segredo dos jogos entre as faces desocultada e as suas máscaras, mas revela-a, definitivamente, como assombrosa retratista, do rosto, das suas metamorfoses, do tangível e do intangível. Confirma o seu incessante questionamento sobre o ser, as suas mutações e aparências. É, agora, na Literatura que busca inspiração, glosando, em enigmáticas efígies, motes Pessoanos. As respostas que encontra na tela são sempre fonte de sucessivas interrogações, de demandas inspiradas na heteronímia do Poeta, ou até, talvez, simplesmente na duplicidade do “eu” de cada um de nós . Como dizia Maria Anderson; "Qualquer pessoa ficciona a sua própria identidade, Não nos ficcionamos sempre da mesma maneira. Vamos mudando o guião". Ou, secundando Maria Velho da Costa, nos poderemos interpelar: "Quem sou? Talvez seja quem vou sendo..."
A pessoa. A persona…
Para onde vai, Balbina Mendes? Para onde nos levará , no ímpeto de romper limites, a grande cultora de saberes arcanos e enigmas do espírito, em diálogo introspectivo com as Artes, com a Vida, connosco, nas suas cada vez mais fascinantes mensagens visuais?
Maria Manuela Aguiar
Espinho, junho de 2022
Balbina Mendes
sábado, 25/06/2022, 12:15
Muito obrigada minha querida amiga! O seu texto é belíssimo e vai enriquecer grandemente o meu livro. Um grande e carinhoso abraço Balbina
Maria Manuela Aguiar
sábado, 25/06/2022, 18:01
para Balbina
Eu sei que não é feminista... mas Paula Rego, como feminista-mor, teria gostado de conhecer a obra da Balbina!
Parece que a Ester não vai seguir com a expo Mª Archer. Os quadros já estão recolhidos na Galeria, ao que Ester diz, muito segura. O organizador, Aquilino (Ferreira?) , veio buscá ́-los, mas não parece com vontade de os trazer... Creio que a ideia é mandar pelo correio. É personagem que nem conheço...
Interessante seria a tal mostra na Biblioteca Nacional, no outono, mas depende das negociações entabuladas pela Universidade Nova de Lisboa- Faces de Eva (mais feministas!)
Beijinhos
Manuela
DE MARIA RUTH DOS SANTOS A RUTH ESCOBAR
Ruth Escobar foi, porventura, no Brasil, a mais destacada mulher portuguesa da sua geração. Nome célebre na cultura, na política - ativista de direitos humanos, voz indomável contra a ditadura, feminista tardia mas convicta, pioneira na vida política brasileira, primeira mulher eleita deputada, em dois sucessivos mandatos, à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo,
Maria Ruth dos Santos, na pré-história de Ruth Escobar, foi uma emigrante comum. Aos 16 anos acompanhou a mãe numa partida, de onde não haveria retorno. Invulgar era, sim, o facto de ser uma aventura no feminino, de uma mulher solteira e pobre, e da sua filha única - a menina rebelde que estava destinada a convolar um modesto projeto de futuro, com o ímpeto da sua ambição e o fulgor da sua personalidade, num trajeto épico de permanentes rupturas e incríveis desafios, em rota da continuada transcendência do seu "eu", no cenário movente de novas fronteiras físicas e culturais. O seu saber é todo de experiência feito - as viagens pelo mundo e pelas alteridades culturais são fonte de um saber avidamente absorvido e inspirador de ação em que, ousada e vanguardista, fará dessa mundividência em constante progressão uma arma para mudar o mundo - e com ela haveria de revolucionar, como sempre há-de ser lembrado, a realidade e o devir do teatro brasileiro.
Através de todas as metamorfoses, Maria Ruth será, porém, sempre a portuguesa do Porto, nascida em Campanhã, criada na rua do Bonjardim, no coração da cidade, que levou consigo em gratas recordações, A sua autobiografia, desde o primeiro parágrafo, é uma história portuense, começa num calcorrear de ruas e praças familiares, nas festas do São João, nas sessões de cinema do Rivoli, nas excursões de elétrico até à Foz, quando chegava o verão, até aos jardins do Palácio de Cristal, e nos longos dias de aulas no Carolina Michaellis, onde se inicia na arte dramática, a representar, ao som dos primeiros aplausos
todos os diabos dos autos de Gil Vicente...
Nas suas próprias palavras: "quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente".
Na esteira dessa certeza, a sua vida avançará, vertiginosamente.
Mal acabara de chegar e no "Roosevelt" , a sua graça em palco, encarnado, de novo, os diabos de Gil Vicente logo, lhe grangeia o título de "rainha" do colégio. Passa exames, mas troca os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias". É um sucesso, ganha mais do que a progenitora, mas depressa dá um passo em frente, angaria apoios na comunidade portuguesa para criar e vender a sua própria revista, "Ala Arriba". Tem apenas 18 anos. Na sua nova veste, apercebe-se das ameaças que se desenham sobre a presença portuguesa na Índia e propõe-se defende-la à volta do planeta.
Corria o ano de 1954 e, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, a improvisada jornalista, ainda "teenager", vai ombrear com os melhores correspondentes de imprensa internacional, entrevista uma longa lista de celebridades, como Foster Dulles e Christian Pinaud, Bulganin e Krushev, o Principe Norodan Sihanouk, o presidente das Filipinas, os primeiros-ministros da Turquia e da Tailândia, o mítico Nasser (a única a ter esse privilégio, no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo!), e entre compatriotas, os governadores de Macau e da Índia e até Salazar. Os seus exclusivos são disputados por revistas como a "Life" e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, É um primeiro vislumbre de fama. Convidada a integrar a comitiva do Presidente Craveiro Lopes na visita oficial a Moçambique, acaba expulsa por ato considerado subversivo - a revelação perante os "media" nacionais e internacionais de um acidente aéreo, que a propaganda do regime queria ocultar. Será apenas o primeiro de muitos gritos de liberdade, pelos quais não hesitará nunca em arriscar tudo,
Na casa dos seus vinte anos, fará a estreia como empresária e produtora teatral, depois como atriz, construirá um teatro com o seu nome na cidade de São Paulo e lançará uma iniciativa absolutamente inédita, com a fundação, em 1963, do Teatro Nacional Popular, que leva ao povo nas periferias do Estado, a muitos milhares de pessoas, espetáculos de ,qualidade (Martins Pera, Suassuna...) no palco instalado num velho autocarro. Não é menos arrebatadora é a sua vida fora de cena. com quatro filhos em três casamentos (o primeiro anterior a esta década, o segundo com o poeta e dramaturgo Escobar, o terceiro com o arquiteto Wladimir Cardoso, que viria a ser o cenógrafo das suas peças de enorme sucesso artístico (como "Cemitério de automóveis" de Arrabal com montagem do argentino Vitor Garcia e encenação de Ruth Escobar, uma dupla que, em 1969, com "O balcão" de Jean Genet, venceria todos os prémios, a nível nacional.
Os trinta anos de Ruth são passados no tempo conturbado de repressão e de medo em que se afunda o Brasil, a partir de 1964. O seu teatro converte-se em palco de luta pela liberdade de expressão, Sucedem-se as ameaças, as pressões, os ataques de comandos para-militares, a violência sobre os próprios atores. Na sua autobiografia, Ruth Escobar confessa que perdeu a conta ao número de ameaças, de prisões e interrogatórios, aos quais ia respondendo sempre com desafios a rondar o excessivo (como até ela reconhecerá, retrospetivamente). De uma das vezes, é Cacilda Becker, sua referência, mentora e amiga, que intervém junto do prefeito de São Paulo para conseguir a sua libertação: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou...
É nesta sua década que traz a Portugal alguns dos maiores sucessos, como "Missa leiga" e "Cemitério de automóveis" , que é objeto de proibição, exceto em Cascais, onde, pelo visto, a censura supunha ser inacessível a camadas populares...
É então que conhece as três Marias, que lê "As cartas", lê Simone de Beauvoir, e se converte ao feminismo, uma metamorfose que contribuirá para a conduzir a novas arenas, ao hemiciclo da intervenção parlamentar, onde fez história como pioneira, no universo masculino e fechado da política brasileira (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, visto que nunca teve outra nacionalidade além da portuguesa). Como feminista assumida, torna-se a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e, durante muitos anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das mulheres.
Entretanto casara, uma última vez, e tivera o seu quinto filho.
Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro. Ela que, aos 19 anos, fora de São Paulo explorar as riquezas culturais mundo, traz, então, a São Paulo, o mundo das artes cénicas, o que de melhor se fazia nas grandes capitais. Em 1976, igual iniciativa tem o mesma força renovadora no panorama e na história da arte dramática brasileira.
Depois de quase uma década no palco político de um Brasil democrático, volta, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como atriz e como empresária e, também, como promotora de festivais, em novos moldes, porventura menos elitistas, mas mais abrangentes de outras artes ,
Conheci-a em 82, num jantar na residência do nosso Cônsul- Geral, em que estávamos lado a lado e, como toda a gente, não fiquei imune ao seu carisma, que era feito de espontaneidade e de extroversão, de inteligência e de humor, de uma graça natural. Do que falámos? Do Porto, é claro, da sua e da minha cidade, que nos uniu em afinidades imediatas. Era evidente que ela permanecera uma portuguesa do Porto, ainda que sempre se tenha sentido parte de São Paulo e do Brasil. Por isso, deixa uma herança teatral, enraizada no Gil Vicente da sua juventude, e no vanguardismo em que projetou o seu talento ao longo de décadas, mudando a face do moderno teatro brasileiro . A sua última produção - a que, por sorte, pude assistir - pôs em cena "Os Lusíadas" , bem no centro de São Paulo, e, depois, em Portugal.
Ruth recebeu, ao longo do seu trajeto de realizações cívicas e artísticas, as mais altas condecorações brasileiras. a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França, onde estudou arte dramática, e até Portugal a distinguiu com a Ordem do Infante D Henrique..
Fica a faltar o Porto. Mas, talvez, agora que ela nos deixou, neste último 5 de outubro, o Porto a queira reclamar, bem viva na sua memória e na toponímia da cidade.
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