quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR

2025 BRASIL/ PORTUGAL - À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR 1 – A descoberta do Brasil pela expedição de Pedro Álvares Cabral ocorreu há exatamente 525 anos, em tempo pascal. No dia 22 de abril de 1500 alguns dos homens pisaram terra, para um primeiro encontro amigável dos povos de dois continentes separados por um oceano. Ao lugar deram o nome de Porto Seguro, hoje cidade turística do Estado da Bahia, especialmente vocacionada a receber os festejos da celebração dessa data matricial. Data que se tornou, oficialmente, o dia da Comunidade Luso-brasileira por força da Lei nº 5270 de 22 de abril de 1967, (a chamada “Lei da Amizade” da iniciativa do Senador Vasconcelos Tavares), a que Portugal deu pronta reciprocidade. Porém, como sabemos o Direito só tem a força que lhe dão os seus destinatários e, neste caso, o Dia da Comunidade Luso-brasileira foi sendo esquecido pelos dois Estados e tornou-se uma festa da sociedade civil, dos imigrantes de origem lusa no Brasil, com significativo apoio em alguns municípios e Assembleias Estaduais. Entre nós, a data tem sido, regra geral, pura e simplesmente ignorada. Enquanto Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, na meia década de oitenta, tentei remar contra a maré, organizei comemorações oficiais em cidades como Guimarães, Ponte do Lima, Belmonte, mas, que depois que deixei o Governo, há quase quatro décadas, não mais houve interesse governamental em continuar esse legado. E, por isso, deste lado do Atlântico, o 22 de abril, vem sendo, quando muito, festejado num pequeno círculo associativo… 2 – Em 2025, a Associação Mulher Migrante (AMM) promoveu a comemoração do dia desta comunidade no auditório do FACE, com o patrocínio da Câmara Municipal e a ativa participação da Presidente Maria Manuel Cruz. A iniciativa tornou Espinho um caso singular, um exemplo a ser seguido, nomeadamente, nos Concelhos onde já existe grande número de imigrantes brasileiros – trabalhadores, empresários, estudantes - quase todos aparentemente bem integrados. Este é, também, o dia deles, o dia de publicamente lhes darmos voz e visibilidade, de manifestarmos a alegria de os vermos felizes na nossa sociedade. A AMM vem celebrando a efeméride transnacional há vários anos, em Espinho e em outras cidades, sob o título “Brasil- Portugal, a descoberta continua”. Ou seja, pondo o foco na necessidade de combater a enormidade do desconhecimento mútuo do património material e imaterial comum. Com tal propósito, perante uma audiência de dezenas de estudantes, decidi falar sobre uma mulher portuguesa, Ruth Escobar, completamente ignorada na sua e nossa terra, muito embora tenha feito história no Brasil. Antes do início da sessão, em conversa com muitos dos jovens fiquei com duas certezas: o nome Ruth Escobar, às 15.00, não lhes dizia nada; às 16.00 sairiam todos daquele auditório a saber mais sobre ela do que o resto dos jovens deste país… 3 – Foi um verdadeiro prazer “pôr em palco”, (uma vez mais!), a grande atriz e produtora teatral, pioneira política, feminista e revolucionária, a emigrante portuense imortalizada com o nome artístico Ruth Escobar. Maria Ruth dos Santos nasceu no Porto, em Campanhã, viveu na rua do Bonjardim, e foi aluna do Liceu Carolina Michaelis, onde se distinguiu a representar todos os diabos de Gil Vicente. Tinha 16 anos quando a mãe a levou, a bordo do Serpa Pinto, numa viagem sem retorno para o Brasil. Lá, no Colégio Roosevelt, como antes no liceu português, o seu talento em palco deu-lhe prestígio e popularidade, a ponto de conquistar o título de "rainha" do colégio. Mas, como vivia pobremente com a mãe, trocou os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias", com o que ganhava mais do que a progenitora. E, ainda antes de fazer 18 anos, deu um passo em frente e angariou apoios da comunidade portuguesa para lançar a sua própria revista, "Ala Arriba". Na veste de jornalista e diretora de jornal, apercebeu-se das ameaças à presença portuguesa na Índia e propôs-se defende-la, a nível planetário. Tinha 19 anos quando, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, partiu numa volta ao mundo, com essa missão – Nova Yorque, Los Angeles (entrevista o ator Jack Lemon), Hawai, Tóquio, Manilha (entrevista o Presidente) Hong Kong, Macau, Karachi, (onde, a cobrir a Conferência Internacional sobre o Sudeste Asiático, a sua lista de entrevistados célebres cresce enormemente, com Foster Dulles, Christian Pinaud, Bulganin, Kruschev e outros,) Camboja, onde dialoga com o Principe Norodan Sihanouk (e dele recebe uma mensagem e uma fotografia para Salazar), Tailândia e da Turquia (entrevista com os primeiros –ministros), e, por fim, o mítico Nasser, durante a crise do canal de Suez - no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo, foi a única a quem ele acetou responder! No mundo português foi recebida pelos governadores de Macau e da Índia e, em Lisboa, pelo ditador Salazar. Durante o longo périplo, os seus “exclusivos” eram disputados por jornais de referência no Brasil, em Portugal e, no caso de Nasser, até nos EUA. Vaticinava-se futuro à jovem jornalista, mas a sua união com o dramaturgo, filósofo e poeta Carlos Escobar leva-a a Paris, onde estuda arte dramática. Aos 20 vinte anos, de volta a São Paulo, estreou-se como empresária, produtora teatral e atriz. Poucos anos depois, construiu na cidade, no bairro residencial da Bela Vista, um teatro com o seu nome, onde os autos vicentinos se cruzavam com as peças mais vanguardistas. Na década de sessenta fundou o Teatro Nacional Popular para levar ao interior da Estado espetáculos de qualidade, montados num autocarro aberto (Martins Pera, Suassuna, montados num autocarro aberto … Não era menos exuberante a sua vida fora de cena, (somaria cinco casamentos, cinco filhos) O terceiro marido, arquiteto Wladimir Cardoso, viria a ser o cenógrafo das suas peças de maior sucesso, com o " O cemitério de automóveis" de Arrabal ou "O balcão" de Jean Genet, que, em fins de sessenta, venceu os maiores prémios do teatro brasileiro. A partir de 1964, Ruth, com trinta, trinta e tal anos) afrontou a ditadura em que o Brasil se afundava, convertendo o seu teatro em arena de luta pela liberdade, resistindo a ameaças, ataques de comandos paramilitares, violência sobre os atores, interrogatórios e prisões. De uma das vezes, foi Cacilda Becker, sua mentora e amiga, que interveio junto do Prefeito de São Paulo: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou... No começo da década de setenta, a emigrante sem medo trouxe a Portugal "Missa leiga", "Cemitério de automóveis”, que a Censura proibiu em Lisboa, mas autorizou na elitista Cascais, longe das massas populares... Aí Ruth conheceu as três Marias, leu "As novas cartas portuguesas", Simone de Beauvoir, e converteu-se ao feminismo. A nova causa abriu-lhe outros palcos, os da política. Ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros (nunca se naturalizou brasileira), em oitenta, candidatou-se e foi a primeira mulher eleita e reeleita Deputada à Assembleia do Estado de São Paulo, depois, a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e a primeira Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres. Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro, que levou a São Paulo, o que de melhor se fazia nas grandes capitais do mundo, feito que repetiu em 1976, vendo-se reconhecida como grande renovadora da arte dramática brasileira. Depois de deixar o cargo de Deputada, em 1988, voltou aos palcos e à organização de novos festivais paulistas, sempre em espírito de renovação, tornando-os inclusivos de outros terrenos e saberes – os Festivais de Artes e Ciências dos anos noventa. A Ruth, a caminho dos 70 anos não está disposta a parar… Já neste século, tive a sorte de assistir ao seu lado, em São Paulo, a uma última produção, tão audaciosa como as primeiras: uma original encenação de "Os Lusíadas". E assim Ruth Escobar deixou uma fantástica herança cívica, intelectual e artística, enraizada no Gil Vicente da sua juventude (segundo ela, o “Shakespeare português”) e no modernismo com que mudou a face do teatro em São Paulo e no Brasil. Por isso, recebeu as mais altas condecorações brasileiras, a nossa Ordem do Infante D Henrique, a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França. É um nome lendário no Brasil, mas está, ainda, por descobrir em Portugal.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A TRÊS DIAS DAS ELEIÇÕES in Defesa de Espinho 15 jan

A TRÊS DIAS DAS ELEIÇÕES 1 - Estamos a três dias da primeira volta das eleições, com a certeza de que haverá uma segunda volta, tal como em 1986.  Para alguns é o momento de escolher, sem hesitação, convictamente, o seu favorito, para outros a preocupação será a de eliminar candidatos indesejáveis ou a de deixar em campo, como finalista, um nome da sua área política pela força do voto - o chamado voto útil.A atual situação assume contornos singulares, por ser, praticamente, impossível avaliar a posição relativa dos muitos protagonistas com expetativas de sucesso. As sondagens ganham, por isso, uma importância desmesurada. E o mesmo se pode afirmar dos comentadores (melhores, piores, mais pragmáticos, mais levianos) que intervêm, num turbilhão incessante, em canais de televisão, na rádio, na imprensa, nas redes sociais. Ai dos que não tenham crenças firmes! Ficam à mercê da dificuldade de cálculo que  é enorme, e daí o risco de votar errado, querendo votar útil. É risco que não corro, tendo há muito tomado uma decisão firme e não me deixando impressionar pelas oscilações das “tracking polls”, nem pelo receio de não apostar no vencedor. Ao longo deste meio século de democracia foi sempre assim que alinhei com os meus candidatos, na vitória como na derrota. Em alguns casos, sabendo que era incerto o resultado (por exemplo, o do General Soares Carneiro, em 80, de Freitas do Amaral, em 86, de Cavaco Silva, em 96) ou extremamente remotas as hipóteses de alcançar a meta, caso de Mário Soares, em 2006. Num dos países mais idadista do mundo, previ que o regresso do Dr. Soares ao Palácio de Belém, aos oitenta e dois anos, (e, ainda por cima, sem o suporte oficial do partido que fundou) não aconteceria, mas considerei que tinha todas as condições para prestigiar o cargo e a República no presente e que merecia o nosso reconhecimento pelo seu passado. Foi uma opção ética e afetiva. Aceitei, com alegria, o convite para pertencer à sua “Comissão de honra” e participar, com ele, em comícios a arruadas. Momentos inesquecíveis! Nunca tinha sufragado o seu nome num boletim de voto, era a minha última oportunidade. Em 1986, aquando da sua primeira vitória, estava eu, de alma em coração, com o seu opositor, por quem tinha muita admiração e amizade. Na verdade, 1980 foi o ano mais feliz da minha vida, no Governo de Sá Carneiro e a trabalhar, diretamente, com o Vice-Primeiro Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros Freitas do Amaral, (como Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas). Antes mesmo do PSD o adotar como candidato, (por iniciativa de Cavaco Silva, que encontrou não poucas resistências internas), já o fizera eu. Sempre achei que a presidência da República é cargo suprapartidário, para o qual devemos eleger em consciência, em liberdade, sem obediência a agremiações.   2 – A eleição da meia década de oitenta vem sendo muito lembrada, porque constituia a única experiência portuguesa de presidenciais a duas voltas. Certamente por isso, nos primeiros dias de janeiro, a RTP presenteou-nos com uma esplêndida série de reportagens sobre essa mítica eleição com as imagens de multidões radiosas, enchendo comícios e arruadas, num ambiente de confraternização, com muita juventude, muita música, muito júbilo, seguindo os líderes, que as arrebatavam pela palavra. Líderes que, diga-se, ombreavam, em qualidade, com os melhores do mundo. Quezílias, contundência, afrontamentos também os houve, como é inevitável, sendo o objetivo nada menos do que a chefia de Estado, mas nunca contaminaram o todo, não invadiam, como hoje invadem, o centro de debates, em substituição de argumentos sérios e politicamente válidos. Tenho saudades desse tempo áureo da democracia, em que as bandeiras da esperança davam cor e vida aos palcos e às ruas, ao ritmo de cânticos e slogans que ficaram para a história como o “P´ra frente Portugal” de Freitas do Amaral e o “Soares é fixe”! Que lições podemos tirar, dessa experiência pioneira das duas voltas, que agora se repete? Diferenças e semelhantes não faltam. Antes de mais, avulta a diferença da classe dos principais protagonistas todos notáveis, sem exceção: Soares, Freitas do Amaral, Maria de Lourdes Pintasilgo e Salgado Zenha. O que se refletiu no nível dos debates e na capacidade mobilizadora dos discursos. Outra diferença de peso: havia a possibilidade realista de uma decisão à primeira volta, na metade direita do espetro poitico. Um jovem e fantástico Freitas do Amaral fez o pleno nos simpatizantes da AD, ultrapassou a votação dos três partidos que a formavam e esteve pertíssimo da presidência. A proliferação de candidaturas dividia, então, a esquerda como agora afeta, essencialmente, a direita. Mário Soares era, dos quatro grandes, o último nas sondagens iniciais, muito atrás de Pintasilgo e de Zenha, mas, pouco a pouco, com o seu carisma, recuperou terreno, palmo a palmo, passou à segunda volta com Freitas do Amaral e ganhou na 25ª hora, por uma margem mínima, unindo toda a esquerda em seu redor, num país que era maioritariamente de esquerda. De facto, triunfou pela via de dois movimentos opostos:  -  O primeiro de dispersão em três correntes, encabeçadas por ele, Pintasilgo e Zenha. Se tivesse  concorrido nesse espaço só com Pintasilgo ou apenas com Zenha (contando ela ou ele com parte do PS, Eanistas e comunistas) seria afastado da final, sem sombra de dúvida -  O segundo de convergência, uma convergência que reunificou o PS e positivamente” obrigou” os deserdados de Zenha e os fiéis de Pintasilgo a pôr a cruz à frente do seu retrato no boletim de voto.  Quarenta anos depois, regressamos à excessiva fartura de nomes em competição. Onze precisamente – creio que nunca se viu tantos, embora nem todos contem, por igual. Há os que nem aparecem nas sondagens, há as esquerdas bloquista, comunista e "livre" que, todas somados, ficam muito longe dos dois dígitos. (levantando, em todo o caso, a dúvida sobre se os seus parcos votos farão falta a Seguro, nesta fase). Restam os presidenciáveis, cinco homens, nenhuma mulher: Seguro, sozinho na casa do socialismo reformista, Gouveia e Melo, no centro ligeiramente inclinado à esquerda, Cotrim e Marques Mendes, à direita, e, na extrema direita, Ventura, o “Trumpezinho” à portuguesa, o arauto de uma IV República, que sonha com três Salazares (não lhe bastando um ditador, quer uma "troika de malfeitores!).       Numa conjuntura favorável às diversas direitas, cujo eleitorado ultrapassa 50 %, é de estranhar que não tenham apostado num candidato comum, depois de se entenderem tão bem no Parlamento para aprovar as políticas e as leis mais emblemáticas e mais nefastas do Chega – como as Leis da Nacionalidade e da Imigração e as medidas anti-imigração.. E até  se juntaram para fabricarem percepções sobre a perigosidade dos trabalhadores estrangeiros e sobre a sua culpa em tudo quanto corre mal. Note-se que eu não confundo teoricamente as direitas. Elas é que se confundem, na sua “praxis”, quando os alegadamente moderados subscrevem as piores propostas e falácias da direita antidemocrática, neo salazarista e aldrabona. (basta pensar na arrepiante tirada do Ministro Leitão Amaro “Portugal é mais Portugal com a nova Lei da Nacionalidade”, que aqui cito de memória e que poderia ter sido proferida por Ventura.  3 – Como disse, seleciono o meu candidato pelo seu perfil humano e ideológico. Se me focasse apenas nas qualidades pessoais, na simpatia com que os olho, (em especial Marques Mendes, que é um amigo de longa data), só excluiria um: Ventura, (evidentemente). Porém, não posso associar-me a Marques Mende, que está associado a um Executivo, que está, por sua vez, associado a Ventura na governação e no parlamento (por mais que goste do Primeiro Ministro, como pessoa, não posso esquecer este facto).Quanto a Cotrim de Figueiredo, direi que tem feito uma campanha esplêndida, é um líder cosmopolita, moderno, com mundo, com à vontade, está bem em todos os ambientes, com jovens e com seniores de todos os escalões sociais. É um comunicador nato. Todavia, não é da minha área política. Não me escandalizei sequer por ter admitido que poderia apoiar qualquer um, sem excluir Ventura numa 2ª volta – foi uma pequena “gaffe” da qual, depois, se retratou. Mais me escandalizaram os dirigentes do PSD que foram os primeiros a “normalizar” Ventura, que o escolheram como parceiro preferencial para governar e agora, por muito menos, criticam Cotrim.      Restam-me, assim, dois candidatos para uma escolha: Gouveia e Melo e António José Seguro. Escolhi, sem hesitação, Gouveia e Melo, porque é grande a minha consonância com as suas posições, sobretudo, em política internacional e em matéria de defesa. Nos próximos cinco anos, a sua experiência nestes domínios será preciosa na obtenção de consensos internos e na representação externa do país.O mundo mudou. É preciso saber lidar hábil e inteligentemente com uma nova e assustadora realidade, que, de fora, nos ameaça. A minha escolha é não só, mas também, um gesto anti-Trump.

Maria Barroso in Defesa de Espinho

O LEGADO FEMINISTA DE MARIA BARROSO Foi lançado, há dias, um livro sobre "Maria Barroso - Os legados", em que são analisados o seu percurso, o seu pensamento, as suas causas, no ano em que se comemora o seu centenário. A iniciativa partiu de um grupo de cinco mulheres, na sua maioria académicas, e contou com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Universidade Nova. O prefácio é do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e um dos testemunhos do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres. A primeira apresentação, em Lisboa, na Fundação Maria Soares Maria Barroso, foi antecedida por um colóquio sobre a mesma temática, organizado pela Fundação, que teve momentos altos na abertura nas intervenções dos filhos de Maria Barroso, Isabel e João Soares. Um dia memorável de saudade e de reflexão que, na realidade, não terminou ali, pois, ao longo deste ano comemorativo, a publicação vai ser divulgada em diversas regiões e cidades do país, numa multiplicidade de colóquios, o primeiro dos colóquios ocorreu em Loulé, com intervenções da escritora Lídia Jorge e de alguns dos coautores do livro. Espero que Espinho, onde veio tantas vezes, esteja presente nesse roteiro de homenagens. Na referida publicação abordei um dos legados de Maria Barroso, que, a meu ver, não tem sido suficientemente destacado: o seu feminismo. Um feminismo vivido! A vida de Maria Barroso foi uma admirável aventura cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e às injustiças moldaram a humanista, e a inteligência, a determinação e o espírito prático fizeram a mulher de ação em variados domínios - a atriz, a pedagoga, a diretora de um grande colégio, a mulher apaixonada e mãe de família, a corajosa oposicionista política, a ativa construtora da nossa democracia, a Deputada, a “primeira dama” da República, a primeira mulher presidente da Cruz Vermelha, a líder de movimentos para o defesa dos Direitos Humanos, da paz e do aprofundamento dos laços no mundo lusófono. E, também, a feminista, que soube continuar, em novos tempos, a antiga tradição de luta pela liberdade e emancipação da mulher, recusando a guerra de sexos e toda e qualquer forma de supremacismo. A ausência de radicalismo constituiu, como é sabido, uma singularidade da primeira vaga do feminismo português, muito influenciada pelo contexto revolucionário em que emergiu, com homens e mulheres (famílias inteiras!) irmanados nos ideais republicanos. Na geração seguinte, Maria Barroso formou-se em meio não muito diverso, conviveu desde a infância com a resistência dos pais à ditadura, numa família solidária e tolerante e começou um imparável percurso cívico e político a lutar por uma nova revolução democrática capaz de erradicar as injustiças e desequilíbrios económicos e sociais, incluindo os de género. Nesse combate, Maria Barroso usou as armas ao seu alcance: as da cultura! Do palco do teatro fez palco de cidadania, pondo o talento e a fama ao serviço dos seus ideais, na forma como representava e como declamava a palavra revolucionária dos poetas… O regime perseguiu-a implacavelmente, cortou cerce a sua fulgurante carreira de atriz no Teatro Nacional, interditou-lhe o exercício da profissão no ensino, vigiou os seus passos, mas nunca calou a sua voz. A jovem Maria de Jesus enfrentou, sem vacilar, os interrogatórios da polícia política, a prisão do marido, como, antes, sofrera a de seu pai. Após a Revolução de 1974 foi uma notável participante na vida cultural e política do país, uma figura pública de referência, que não perderia nunca a sua individualidade, ao lado de Mário Soares. Em Belém, na missão onde mais arriscava a subalternização política, face ao estatuto do marido, o Presidente da República, revelou-se uma mais valia, a perfeita diplomata, um ícone de elegância e distinção. Sobre esse novo recomeço de vida, disse, simplesmente: "Ganhei um novo espaço para me reinventar". E ganhou, sem dúvida, mais mundo, mais experiências, mais contactos de proximidade com tanta gente, dos poderosos, que governam Estados, aos marginalizados, que estão no centro de tantas das suas inúmeras declarações públicas - as crianças, as vítimas de guerras e violência, os timorenses, os refugiados, os imigrantes, as mulheres… Sim, ainda e sempre, as mulheres, porque a igualdade jurídica fora rapidamente consagrada na Constituição e nas leis da República, mas, duas décadas depois da Revolução, as mudanças tardavam na sociedade, na política, no mundo do trabalho. O impasse acordou o feminismo intrínseco de Maria Barroso. Ela própria o revelou numa entrevista, afirmando: "Não sou feminista "à outrance", sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre homens e mulheres”. Na sua visão das coisas, a igualdade é inerente à condição humana, já que "a humanidade está dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina, com dons e virtualidades semelhantes". A “humanidade é uma família” salientava, inspirada, certamente, no paradigma da sua própria família. Porém, a resistência das estruturas (das máquinas partidárias, das corporações económicas…), assim como das mentalidades, à afirmação da “paridade natural”, levou- a denunciar a imperfeição da nossa democracia, por manter, no século XXI, “o modelo masculino do poder” e a reconhecer a importância do sistema de quotas no processo de “empoderamento” das mulheres.
Pela palavra e pela ação, empenhou-se, incessantemente, na causa da igualdade de género. É de toda a justiça equiparar o “feminismo natural” de Maria Barroso ao "verdadeiro feminismo" de Ana de Castro Osório, (um “humanismo integral”, que deve ser partilhado por ambos os sexos), ao “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, e ao “feminismo tácito” de Maria Lamas. Foi, por sinal, nos caminhos do feminismo que nos encontramos, há quase meio século, numa sintonia espontânea, apesar de virmos de direções opostas, eu do feminismo “à outrance”, Maria Barroso da constatação de persistentes resistências à intervenção das mulheres na esfera pública, que a levava a um crescente envolvimento. Entre 2005 e 2009, com mais de oitenta anos, aceitou “correr mundo”, presidir a múltiplos “Encontros para a cidadania”, ser o rosto de uma intensa e eficaz campanha de mobilização das mulheres da Diáspora para a intervenção cívica, em que tive o privilégio de a acompanhar. Neste ano do centenário, quero lembrá-la assim, com o seu sorriso e amabilidade espontânea, a sua mensagem humanista e solidária, o seu incomparável exemplo de vida. Na verdade, nenhuma figura pública do nosso país e do nosso tempo foi tão consensual, tão agregadora e tão amada pelo povo português.

"O FEMINISMO NATURAL DE MARIA BARROSO" in "Maria Barroso - os Legados"

O FEMINISMO NATURAL DE MARIA BARROSO Maria Barroso atravessou quase um século e muitos mundos, num movimento a que não deu pausas. A sua vida foi um constante recomeço, muitas vidas numa só, norteada por convicções profundas, que soube repartir pelos campos de ação que ia achando, quando outros se fechavam… Em cada rutura, voluntária ou forçada do percurso, retomava o fio condutor do movimento, conseguindo, desde a sua juventude, ter presença e influência numa sociedade misógina, fechada à modernidade e ferreamente controlada pela força de um regime policial. Aprendeu a lidar com a opressão e a violência da ditadura, as arbitrárias prisões do pai (e, mais tarde, do marido), as perseguições pessoais que lhe cortaram uma fulgurante carreira artística, como atriz do Teatro Nacional. E, depois, outras… Resistiu sempre, erguendo a voz, sem transigências nem vacilação, com o seu perfil feminino de coragem. Como diria décadas depois, relembrando essa época: “É preciso aprender a chorar por dentro”. (As Primeiras Damas”, pp 115). Do palco do teatro fizera palco de cidadania no anseio de liberdade e de mudança social, pondo ao serviço dos combates a fama e o talento, no modo como dava alma a personagens subversivas dos dogmas sexistas do regime, e como, em sessões culturais, dizia poemas revolucionários e mobilizadores. Em palavras suas: “Fiz imensos recitais de poesia revolucionária com o grupo de Fernando Lopes Graça, que cantava também canções revolucionárias. De facto, a maneira como o coro cantava e a força que eu punha nos poemas que dizia, faziam com que esses recitais de canto e poesia fossem uma espécie de comícios”. (As mulheres políticas e as suas causas, pp 49) Quando os sonhos de carreira artística se esfumaram, pelo seu “saneamento” político do Teatro Nacional, era já, aluna da Faculdade de Letras, de Ciências Histórico-Filosóficas, curso em que foi colega do futuro marido, como contou, numa entrevista, à distância de várias décadas: “Eu entrara na Faculdade com um certo prestígio, uma vez que era aluna da Faculdade e, simultaneamente, atriz do Teatro Nacional. Fui a aluna mais classificada do Conservatório, o que só por si, dava acesso imediato ao Teatro Nacional”. (As mulheres politicas e as suas causas, pp 49) Custoso início de uma ininterrupta e longa caminhada cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e à injustiça moldaram a humanista, e o espirito prático e a energia fizeram a militante, a mulher de ação em tantos terrenos - a- atriz, a professora, a gestora de um grande colégio, a mãe de família, a oposicionista política, a deputada na democracia, a “primeira dama” da República, a presidente da Cruz Vermelha, a líder de organizações para o desenvolvimento do mundo lusófono, feminista, a defensora dos Direitos Humanos, e da paz. No enfrentamento da ditadura seria candidata a deputada e a única mulher a tomar a palavra no 3º Congresso da Oposição Democrática, proclamando, com o seu timbre de jovem rebelde: O Congresso não é uma dádiva do regime, é uma conquista nossa! (As Primeiras Damas, pp 116) E seria, também, a única mulher presente na reunião em que o PS se constituiu como partido político, em 1973. Após o 25 de abril de 1974 vemo-la envolvida na aventura de erguer do chão a arquitetura democrática, informando e comunicando com a eloquência e a sinceridade que atraía multidões, em comícios, debates, sessões de esclarecimento, trabalhos parlamentares. Na década de 1986/96, no papel em que, aparentemente, mais arriscava a sua secundarização como mulher – sendo a mulher do Presidente da República – readquiriu a notoriedade dos anos de juventude, interagindo com a gente de todas as condições e de todo o lado, no país e no estrangeiro. Sobre a sua excecionalmente bem-sucedida missão, diria com sua usual simplicidade: “Ganhei um novo espaço para me reinventar” (Firmeza de convicções, pp 121). Do inventário da sua década em Belém constam centenas de intervenções, incluindo sobre a Mulher (o capítulo mais volumoso) e bem assim o registo de iniciativas pioneiras, como o primeiro passo dado na pré-história do processo de paz de Moçambique, pela abertura aos refugiados do corredor de Ressano Garcia. Um feito que “O Século de Joanesburgo”, jornal distante do seu quadrante ideológico, destacou em manchete “Maria Barroso em África, uma lição de amor ao próximo” (Viagem a Moçambique, pp 87). O que nos faz pensar como poderia ter-se “reinventado” nos mais altos cargos nacionais e, sobretudo, internacionais… Nas duas décadas seguintes, de fora das estruturas partidária, realizou uma obra notabilíssima, no país, no universo da lusofonia e na Diáspora, no estrangeiro, por uma cultura de paz e solidariedade, com crescente foco na situação das mulheres e em novas formas de exclusão e de violência - a violência na família, nos média, o tráfico de armas… O trabalho sempre inacabado de uma ativista, que, no seu ímpeto de transformação social, abraçava todos as pessoas injustiçadas e desprotegidas, sem favoritismo (mulheres e homens, portugueses, africanos, timorenses, refugiados, imigrantes), em gestos concretos, com infinita dedicação e dinamismo, no dia a dia, sem abrandar até ao seu derradeiro dia. Com tudo isso, podemos considera-la feminista? Sim, respondeu ela própria, sem ambiguidade, como era seu hábito: “Não sou feminista à outrance, sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre mulheres e homens. Acho que devia haver uma maior colaboração e participação das mulheres na procura dos grandes problemas que nos afligem. Costumo dizer muitas vezes que se as mulheres estivessem em lugares de decisão em maior percentagem dificilmente as guerras se arrastariam por tanto tempo. [...]. Apreciamos mais o diálogo do que a guerra. Esta é a minha convicção profunda”. (As Mulheres na política - as suas causas, pp 54) Foi nos caminhos do feminismo que nos cruzámos, há quase meio século, numa fácil sintonia, apesar de virmos de direções opostas – eu do “feminismo à outrance”, ela de uma multifacetada experiência de luta, em que nenhuma discriminação a deixava indiferente: "O ambiente de minha casa e a minha formação tornavam-me mais desperta para as injustiças que no país se iam cometendo, para a falta de Liberdade, para as perseguições dos que não alinhavam com o Estado Novo, para o perigo que representava ter-se sequer qualquer atividade cívica, mesmo a mais simples” (Mulheres na política - as suas causas, pp 49). O seu feminismo emergiu de um pelejar, em muitas frentes, por uma nova revolução, tal como a de 1910, portadora da esperança numa democracia capaz de erradicar todas as desigualdades, incluindo a de sexo. Numa conferência sobre “As mulheres na primeira República”, na abertura das comemorações do centenário da Revolução, em Espinho, Maria Barroso aludia às grandes expetativas das feministas portuguesas do dealbar do século XX: “Esperavam as que aderiam à República e às suas instituições – quase todas – que este novo sistema político curasse a sociedade de todos os males”. (Jornal Memória da República, Câmara Municipal de Espinho, 2011, pp 1) E como não acreditariam nas virtualidades da revolução e na solidariedade masculina quando eram pais, maridos, irmãos, que as convidavam a colaborar, a seu lado, na propaganda republicana, transpondo, enfim, a fronteira entre o espaço privado e o público? Famílias inteiras partilhavam a mesma ideologia, as mesmas causas e essa cumplicidade contribuiria para singularizar o movimento feminista português, que, em regra, recusou a “guerra dos sexos”, e somou à questão do sufrágio as reivindicações de emancipação pela educação e pelo trabalho profissional. Maria Barroso olhava o período da 1ª República, como a travessia de um “deserto de direitos”, onde começaram a emergir “oásis de igualdade”. Não esquecia, contudo, a recusa fatídica do sufrágio feminino, que provocou a cisão do movimento, e insanáveis divisões entre as mulheres: “divergências de opinião, de estratégia, de liderança e de rumo, conforme se assumiam como mais feministas do que republicanas e vice-versa”. (jornal Memória da República, Câmara Municipal de Espinho, pp 2) A história ia repetir-se na geração seguinte - também Maria Barroso, nascida em 1925, se formou numa família solidária e aberta aos valores democráticos, em oposição frontal ao regime, o que, a meu ver, contribuiu para a tornar uma natural continuadora das pioneiras feministas, quase todas já desaparecidas. Ninguém mais do que ela, por si só, sem a preocupação de aderir a correntes ou a grupos, trouxe, até ao século XXI, a firmeza sem radicalismo e a intemporal modernidade das suas reivindicações, com o enfoque na paridade, (vendo a emancipação da mulher como inseparável da emancipação do homem), na educação e no acesso ao trabalho. Antes de mais na educação: só a educação e a cultura podem libertar a Mulher, pensava Maria Barroso, como Ana de Castro Osório, Angelina Vidal, Veleda ou Cabete… Porém, num tempo em que a última associação feminista (o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, dirigido por Maria Lamas e Elina Guimarâes), fora abrupta e despoticamente extinta pelos poderes constituídos, era inevitável a diluição do feminismo na resistência antifascista, numa faixa de oposição, que atraía as mulheres com clara consciência da problemática feminina, entre elas, Elina Guimarães, a última das sufragistas, Maria Lamas e Maria Archer, e, na nova geração, Maria Antónia Palla e Maria Barroso. É uma época em que Maria barroso se situa, a meu ver, na área mais “republicana do que feminista”, só mais tarde evidenciando o seu empenhamento particular nas questões de género, na medida em que o ritmo lento das transformações sociais e políticas em direção à paridade, contrastava com a igualdade jurídica formal, tão rapidamente alcançada na Constituição e nas leis. Vinte anos depois da Revolução de setenta e quatro, denunciava o impasse, com veemência, “Uma vez que a democracia está ferida de grandes injustiças e imperfeições, até na medida em que beneficia e valoriza ainda o modelo masculino do poder, pode por isso, dizer-se que está em crise”. (Firmeza de convicções, pp 185). A clara consciência da enormidade das discriminações de género, que a malha das leis deixava escapar, por um lado, e, por outro, da importância fundamental do equilíbrio de poderes, feminino e masculino, no governo das Nações, acorda o seu feminismo, elevado a causa maior. No seu primeiro quinquénio no Palácio de Belém são destacadas dez intervenções neste domínio, no segundo, cerca de cinquenta, com o capítulo referente a temáticas sobre “A Mulher” a ultrapassar o da “Cultura” e da “Educação e Família”. Não é, certamente, por acaso. Maria Barroso acreditava na paridade natural, vista como exigência ética, mas perdera a esperança de que se concretizasse durante a sua vida: “A paridade natural – que consiste na igualdade de possibilidades dadas, à partida, a homens e mulheres, e não no estabelecimento definitivo e artificial de percentagens – levará o seu tempo a conseguir”. (A Firmeza das Convicções, pp 164). Consequente e pragmaticamente, apostaria, nos anos seguintes, na imposição do sistema de quotas, a fim de acelerar o processo de empoderamento das mulheres, condição “sine qua non” de uma mutação civilizacional: “Penso sinceramente que o mundo complexo em que vivemos e sofremos poderia ser diferente se a vez e a voz das mulheres tivessem o peso nas decisões que traçam e determinam os destinos de cada povo” O seu feminismo achava, até nas diferenças de género, argumentos para abrir campo de participação às mulheres, nos seus lugares de ausência na política, na sociedade, nas diversas profissões, rejeitando toda e qualquer forma de supremacia sexista. Era o “verdadeiro feminismo”, na expressão de Ana de Castro Osório, que o queria partilhado por mulheres e homens, para formar as mulheres pela inteligência, pela razão, pela educação, para garantir sua independência. Do mesmo modo, Maria Barroso insistia na importância de “sermos solidários uns com os outros”, a fim de atingir a igualdade natural entre mulheres e homens. Considerava a humanidade “dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina”, com dons e virtualidades semelhantes, que deviam ser potenciados pela boa e útil cooperação, porque “a humanidade é uma família”. (A Firmeza das Convicções pp 131). Não quis ser uma teórica do feminismo, antes uma praticante, que soube mobilizar pelo exemplo e pelo discurso, pela antiga, e sempre atual, via do congressismo, com uma intensificação do ritmo, que aumentava com a idade. Foi entre 2005 e 2009, que se envolveu na mais sistemática e movimentada das suas campanhas pelos direitos das mulheres, junto das comunidades da Diáspora. Deu rosto a um plano estratégico para chamar as emigrantes à intervenção nas comunidades espalhadas pelo mundo, onde os movimentos feministas nunca haviam curado de se expandir, nem os Governos, com raríssimas exceções, tratado de promover, a igualdade entre mulheres e homens (uma tarefa de que o incumbe a Constituição, sem a limitar ao território). E teve, de facto, um papel fundamental nessa fase de viragem histórica nas políticas públicas de emigração - presidiu aos congressos, deu a sua própria dimensão cultural, a sua idoneidade, a sua marca ao projeto conjunto do Governo e de várias ONG´s do estrangeiro e do país, entre as quais a “Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade” (AMM) e a Fundação Pro Dignitate”. Como dirigente da AMM, (entidade que apresentara o projeto inicial ao Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas), tive a sorte e o privilégio de a acompanhar na aventura cívica, que constituíram os chamados “Encontros para a Cidadania – a Igualdade entre Mulheres e Homens”. Maria Barroso tinha mais de oitenta anos, no começo dessa longa caminhada, e não hesitou em “correr mundo”, para trazer as mulheres ao exercício da cidadania, no universo das comunidades portuguesas do estrangeiro, onde a sua situação de discriminação era patente. Situação que fora amplamente analisada e denunciada no 1º Encontro de Mulheres no Associativismo e no jornalismo, organizado pela Secretaria de Estado da Emigração, em 1985, e que, vinte anos depois, permanecia realmente inalterável: as emigrantes mais facilmente acediam ao ensino, ascendiam no trabalho profissional e eram aceites na sociedade de acolhimento do que no espaço institucional demarcado pela cultura de origem. E, por isso, se concentrou no associativismo o esforço de consciencializar para a igualdade, através dos “Encontros”, onde o Governo português esteve representado pelos Secretários de Estado da Presidência, Jorge Lacão e das Comunidades Portuguesas, António Braga. Maria Barroso dirigia-se a esse mundo fechado e tradicionalista, para o abrir às realidades de um novo relacionamento e cooperação entre os sexos, com um estimulante discurso de dominante cultural, numa abrangência que não deixava os homens de fora. Uma estratégia consonante com o seu “feminismo natural”, que se revelou particularmente eficaz, e seria continuada nos Encontros Mundiais de 2011 e 2013, e em diversos colóquios e debates, até 2015. Passada apenas uma década, é impressionante a evolução do papel das mulheres nas organizações das nossas comunidades extraterritoriais. Ainda longe da paridade, dirão… Sim, todavia, ver uma mulher presidente de uma associação, grande ou pequena, antiga ou recente, tornou-se coisa normal. E, uma vez que as barreiras do preconceito ruíram, a sua ascensão é imparável, está, com elas, criada uma dinâmica de resposta à necessidade sentida de ultrapassar o envelhecimento, a crise de lideranças, a ameaça de declínio do movimento associativo da Diáspora.. Maria Barroso acreditava no futuro que está acontecendo, que as suas palavras anteciparam, em terras longe e perto. Na nossa memória ecoam, com o som da sua voz… Na América do Sul (Buenos Aires, 2005): “Mulheres e homens têm de assumir um papel, onde ambos os géneros contribuem para a melhoria da sociedade”. Na Europa (Estocolmo, 2006): “É muito importante que os homens estejam aqui presentes, não queremos uma sociedade de mulheres, mas antes de homens e mulheres conscientes dos seus direitos e deveres”. Na América do Norte, costa Leste (Toronto, 2007), com o anúncio da “Lei da Paridade”, sentindo os ventos de mudança, proclamava: “A Mulher pode governar uma Nação” (e, tendo dado provas dadas a esse nível do Estado, porque não passarem de imediato, ao “governo” das associações da sua comunidade?). Na América do Norte, costa oeste (Berkeley, 2008), apelava à criação de laços entre as mulheres das diásporas lusófonas, uma meta ainda hoje largamente por cumprir. (Entre Portuguesas, 2015, pp 32 a 36). Na África (Joanesburgo, 2008), proferiu uma brilhante conferência sobre “A diacronia do pensamento sobre a Mulher”, e aflorou uma outra forma larvada de discriminação de género, o apagamento “póstumo” dos feitos das mulheres: “Apesar da História ter sido tecida por mulheres e homens, só a estes é dada relevância”. (Século de Joanesburgo, 11 de fevereiro, 2008, pp 4). Era o retomar de um temática, que há muito preocupava a feminista, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas: “A história humana evidencia a ação do homem, esbatendo a importância da mulher”. (A Firmeza das Convicções, pp 166). “As histórias das mulheres foram sendo sempre deixadas fora da História, sendo acentuada, sobretudo, a dimensão masculina das transformações sociais e do progresso humano” (A firmeza das convicções, pp 174). Eis sobre a História, ao longo de séculos e séculos, reescrita pela pena seletiva dos cronistas, a visão de uma Mulher para a História. Uma reflexão que, hoje, pensando nela, nos interpela… quanto do que Maria Barroso fez, no passado, chegará ao distante futuro? Neste breve apontamento, procurei destacar a sua pertença, não só, mas também, à história do feminismo. A par do “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, ou do “feminismo tácito”de Maria Lamas, não esqueçamos o feminista vivido, o “feminismo pro dignitate” de Maria Barroso. (E que não o esqueça, sobretudo, a comunidade académica…). Ela mesma, olhando as mulheres cujas vidas foram de “persistente doação” pela igualdade de direitos e oportunidades, dizia: “lembremos-lhe a memória, seguindo o rasto de luz que nos traçaram” (Firmeza das Convicções, pp165). Agora, ao comemorar o seu centenário, dez anos depois de ter partido do nosso convívio, recordemos, nós, Maria Barroso e a sua mensagem universalista, feminista e fraternal. Recordemos que nenhuma figura pública do nosso país, no nosso tempo, foi tão consensual, inspiradora e amada pelos Portugueses.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O Legado feminista de Maria Barroso in "As Artes entre as Letras"

O FEMINISMO NATURAL DE MARIA BARROSO A vida de Maria Barroso foi uma longa e admirável caminhada cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e às injustiças moldaram a humanista, e a determinação, o espírito prático, a competência fizeram a excecional mulher de ação em muitos e variados domínios. Foi atriz, pedagoga, diretora de um grande colégio, mulher apaixonada e mãe de família, oposicionista política, e, depois, construtora de uma democracia nascente, Deputada, “primeira dama” da República, primeira mulher presidente da Cruz Vermelha, líder de movimentos e organizações para o defesa dos Direitos Humanos, da paz, do aprofundamento dos laços no mundo lusófono. E foi, também - o que tende a ser mais esquecido... - uma genuína feminista que soube continuar, em novos tempos, a antiga tradição de luta pela liberdade e emancipação da mulher, que recusava a guerra de sexos e toda e qualquer forma de supremacismo de género.
Essa ausência de radicalismo constituiu uma singularidade da primeira vaga do feminismo português, certamente influenciada pelo contexto revolucionário em que emergiu, com homens e mulheres (famílias inteiras!) irmanados nos ideais republicanos. Na geração seguinte, Maria Barroso formou-se num quadro familiar e societal não muito diverso, conviveu desde a infância com a resistência dos seus pais à opressão do salazarismo, numa família solidária e tolerante, e iniciou o seu percurso político, sonhando com uma nova revolução, tal como a de 1910, portadora da esperança numa democracia capaz de erradicar todas os desequilíbrios e desigualdades sociais, inclusive as de género. Em tempo de ditadura, tornava-se praticamente inevitável a diluição do feminismo na resistência antifascista! Maria Barroso usou as armas ao seu alcance, as da cultura. Do palco do teatro fez palco de cidadania, pondo a fama e o talento ao serviço de uma causa, na forma como representava personagens e como declamava a palavra revolucionária dos poetas… O regime perseguiu-a implacavelmente, cortou cerce a sua fulgurante carreira de atriz no Teatro Nacional, interditou-lhe o exercício da profissão no ensino, vigiou os seus passos, mas nunca calou a sua voz. Sem transigência nem vacilação, a jovem Maria de Jesus enfrentou os interrogatórios da polícia política, a prisão do marido, como, antes, sofrera a de seu pai. Após a Revolução de 1974 vimo-la envolvida na edificação da nova arquitetura democrática, em debates, em manifestações, no parlamento, como Deputada, no ensino, como pedagoga... Uma ativa participante na vida cultural e política do país, uma figura pública de referência, universalmente respeitada. E não perderia nunca a individualidade, ao acompanhar o marido, Mário Soares, nas suas funções de Primeiro-Ministro e de Presidente da República, onde se revelou, uma mais valia, uma perfeita diplomata, um ícone de elegância e distinção. Sobre essa missão, em que, afinal, mais arriscava a subalternização, face ao estatuto do marido, disse simplesmente: "Ganhei um novo espaço para me reinventar". E ganhou, sem dúvida, mais mundo, mais experiências, mais contactos de proximidade com tanta gente, dos poderosos, que governam Estados, aos marginalizados, que estão no centro de tantas das suas inúmeras declarações públicas - as crianças, as vítimas de guerras e violência, os timorenses, os refugiados, os imigrantes, as mulheres…. Sim, as mulheres e a sua situação na “res publica”, no regime democrático renascido em 1974! A igualdade jurídica fora rapidamente consagrada na Constituição e nas leis, mas, duas décadas depois da Revolução, tardavam as mudanças no mundo político e social, e esse impasse acordou o feminismo intrínseco de Maria Barroso. Ela própria o revelou numa entrevista dada por essa altura: “Não sou feminista à outrance, sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre homens e mulheres”. Na sua visão das coisas, a igualdade é inerente à condição humana, já que "a humanidade está dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina, com dons e virtualidades semelhantes". A “humanidade é uma família” proclamava, inspirada certamente no paradigma da sua própria família. Foi a resistência das estruturas (sobretudo das máquinas partidárias e das corporações económicas), assim como das mentalidades, à consecução da “paridade natural”, que a levou a agir, a denunciar a imperfeição da nossa democracia, por manter, no século XXI, “o modelo masculino do poder” e a reconhecer a importância do sistema de quotas para acelerar o processo de “empoderamento” das mulheres. Ao "verdadeiro feminismo" de Ana de Castro Osório, (um “humanismo integral”, abrangente de ambos os sexos), ao “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, ao “feminismo tácito” de Maria Lamas considero de toda a justiça equiparar o "feminismo natural" de Maria Barroso. Foi, por sinal, nos caminhos do feminismo que nos encontramos, há quase meio século, numa sintonia espontânea, apesar de virmos de direções opostas, eu do feminismo “à outrance”, Maria Barroso da constatação de inesperadas resistências à igualdade de género. O seu envolvimento neste domínio foi convicto, profundo, e incessante. Entre 2005 e 2009, com mais de oitenta anos, aceitou “correr mundo”, presidir a múltiplos “Encontros para a cidadania”, ser o rosto de uma grande e eficaz campanha de chamamento das mulheres à participação na vida das nossas comunidades da Diáspora. Ao comemorar o centenário de Maria Barroso, é assim que prefiro lembrá-la, com a sua mensagem fraterna, feminista, humanista.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

UM NOVO CICLO POLÍTICO EM ESPINHO in Defesa de Espinho

UM NOVO CICLO POLÍTICO EM ESPINHO 1 – Viver em Democracia Em Espinho, tomou posse, no último dia de outubro, o novo Executivo camarário. O ambiente foi de festa, a festa da democracia, com o salão a mostrar-se pequeno para a multidão de munícipes presentes (entre os quais o Primeiro-Ministro do país) e com todos os eleitos em serena e civilizada confraternização. De facto, a participação política autárquica e a gestão da coisa pública, a este nível, é, em muitos casos, bem conseguida, em contraste com o que se passa a nível nacional. Na sucessão de Executivos locais, até quando são de cor partidária diferente, há, em geral, menos ruturas, mais linhas de continuação do que nos Governos da República, (por vezes, mesmo quando os Ministérios ou Secretarias de Estado passam, de mão em mão, para correligionários…). É, sem dúvida, uma prova de bom senso, uma garantia de eficácia e progresso. E, acima de tudo, é, também, um sinal de esperança na resistência da democracia às tremendas ameaças que se adivinham no horizonte próximo, com o desmesurado crescimento do populismo, de movimentos extremistas, de ideologias neonazis e da sua propagação potenciada pela sementeira de mentiras feita nas redes sociais, os pilares do assustador mundo novo que aí vem. Não é um fenómeno português, mas mundial, como sabemos…. Na falta da regionalização do território nacional, que tanto os governos de direita, como os de esquerda se recusaram, por igual, a implementar, o nosso círculo ideal de luta pela tolerância, pelo diálogo, pela verdade e pela cooperação entre os eleitos e a sociedade civil é, certamente, o concelhio, onde o poder é mais próximo das pessoas e mais sensível às suas preocupações e necessidades. Por pensar assim, muito me regozijo com o discurso inaugural do Presidente Jorge Ratola, que, apostando em ganhar a confiança dos cidadãos, dos investidores e de quantos se relacionam com o município, prometeu a sua atenção aos problemas de todos, dos séniores aos mais jovens, e terminou, com um apelo à colaboração geral, dizendo, no seu estilo direto e pragmático: “Seremos exigentes connosco e com todos. Cada um terá de fazer a sua parte”. É uma promessa e um convite ao exercício da nossa cidadania, do nosso direito de cidade! 2 – A magna crise da habitação Outra passagem da intervenção do Presidente, de especial significado nos tempos que correm, foi o apelo ao retorno dos jovens a Espinho, com o compromisso de procurar soluções para lhe dar viabilidade, antes de mais, através do combate à carestia da habitação, a causa principal que os levou a “migrar” para fora do concelho. Entre as causas determinantes da descontrolada inflação de preços a que assistimos, neste domínio, aponta-se, do lado da oferta, não só a subida de custos dos terrenos, como os da própria construção, dos materiais, da mão de obra, e os excessos da fiscalidade e da burocracia. E, do lado da procura, a pressão do turismo de massas e da imigração. Em Espinho, não há ainda sinais de movimento maciço de imigrantes ou da irrupção de “alojamento local”, porta sim, porta não. Maciço é só o turismo que o comboio despeja, de sandália no pé e mochila às costas, no nosso verão, nas praias, com ou sem bandeira azul, que a elite espinhense se apressa a abandonar, rumo aos Algarves... Esta especial situação terá, certamente, facilitado o civismo da campanha eleitoral e a afortunada ausência de discursos de ódio, numa comunidade com fortes sentimentos de pertença. Espinho é ainda, felizmente, uma cidade/comunidade, tradicionalmente aberta aos outros, e, por isso, um “oásis” democrático (não o único, felizmente...), num todo nacional dilacerado por linhas vermelhas entre esquerdas e direitas e por falsas perceções da ameaça de invasores do fim do mundo. Sem grandes vagas migratórias, e sem preponderância do alojamento local, restam, em Espinho, fatores inflacionistas comuns ao país inteiro, como o excesso de procura em relação à oferta, e outros, os amplamente denunciados, e os que ficam na sombra. Não sendo especialista nesta área, só através de uma experiência vivida, me apercebi da real dimensão destes últimos. É certo que, já antes, achava bastante estranho que, numa conjuntura de tão escassa oferta no mercado de casas, houvesse, em Espinho, (e não só em Espinho...) uma enorme proliferação de empresas e agentes envolvidos neste ramo de negócio, mas só recentemente descobri porquê. Na realidade, tudo começa, com ou sem interferência de fundos imobiliários, nas próprias agências imobiliárias. O "novo normal" é a construção de blocos de apartamentos ser financiada, no seu início, pela compra integral das frações do edifício, na planta, por investidores ligados ao setor, que, logo depois, as revendem, através de “contratos de cedência da posição contratual” à clientela dessas empresas, à arraia miúda, aos cidadãos comuns (jovens, velhos, solteiros, casais, pouco lhes importa…). Estes “grossistas” dominam, assim, completamente o panorama, com este esquema de lucro fácil e imediato. Podem ganhar 50%, ou mais, do valor total que vai ser efetivamente pago, pelo último comprador! E não se diga que esse lucro é a justa remuneração do risco de comprar na planta, pois, na maioria dos casos, é ainda na planta que os revendem, transferindo o risco para quem, por preço exorbitante, adquire um pequeno espaço para habitação própria ou para arrendamento. Dou um exemplo concreto, verídico, passado com intervenção de uma das inúmeras agências imobiliárias desta cidade: a compra de um T1, por 165.000 euros, no Lugar de Espinho, já dentro dos limites geográficos de S. Félix da Marinha. Dias ou meses depois, o grande investidor celebra, com um cliente da mesma imobiliária, um “contrato de cedência de posição contratual” por cerca de 94.000! Somando essas duas verbas (os 165.000 euros de compra pelo preço justo, mais os especulativos 94.000) temos o custo do pequeno apartamento para o novo comprador elevado para cerca de 260.000 euros! A construção do prédio em questão vai avançando, e deverá ser finalizada, previsivelmente, no verão de 2026. Se as coisas correrem bem, será, nessa altura, celebrada a escritura de compra e venda por 165.000 euros, verba sobre a qual o último comprador pagará os impostos devidos, depois de ter já pago os quase cem mil euros pela "cedência"... Julgo que vale a pena contar esta história, esmiuçar este processo, porque não se trata de uma singularidade ou exceção, mas de um verdadeiro paradigma, que corresponde a práticas generalizadas. Basta consultar os folhetos de propaganda das imobiliárias e examinar os preços de venda de apartamentos semelhantes ao referenciado, alguns com verbas superiores às indicadas para um T1 da mesma dimensão... Estamos, obviamente, no campo das “cedências”, em edificações de Espinho ou São Félix da Marinha, cujos alicerces ainda mal arrancaram e já rendem ou vão render somas incríveis aos intermediários!... 3 - Um começo de saída para a crise? O conhecimento prático destas situações. longe de me deixar cética e pessimista, com a ausência de políticas públicas de ataque à inflação no mercado imobiliário, no plano nacional, dá-me fundadas esperanças de que, a nível local, onde haja vontade e competência, como considero que haverá em Espinho, este fenómeno possa ser gradualmente combatido, com sucesso. De facto, parece que bastará, para embaratecer em cerca de 40% o preço da nova habitação, que uma entidade se substitua ao papel dos compradores de andares na planta para rápida revenda. Um simples cidadão não pode fazê-lo, mas uma Câmara pode, fomentando, diretamente, a construção de blocos de casas a preços justos para todos, que são, afinal, os preços do mercado sem os especuladores

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

A VENTURA DE SE CHAMAR VENTURA... 1 – Um almoço com Ventura foi notícia palpitante, num país habituado a que se faça política (e jornalismo político), à volta da mesa de refeições, reais ou imaginárias (quem não se lembra da “estória” da “vichissoise” protagonizada por Marcelo e Paulo Portas?). Com Ventura, na verdade, tudo é notícia! Agora, esse almoço insignificante, embora não inexistente, entrou na “petite histoire”. Foi até o tema central com que a SIC abriu o ciclo de entrevistas aos candidatos às eleições presidenciais, com o Almirante Henrique Gouveia e Melo. Uma experiente jornalista, Clara de Sousa, caiu na tentação de se focar numa “ementa política” sem qualidade e sem conteúdo, durante quase toda a primeira parte, transmitida para a mais vasta audiência, na SIC generalista, deixando para a SIC Notícias as temáticas realmente importantes. No que respeita ao repasto, o candidato respondeu, num minuto, com precisão matemática, o que tinha de responder: sim, aceitara o convite de um amigo, fora ao almoço com o chefe do “Chega”, conversaram e, entre os dois, não houve “intersecção” - uma maneira esclarecedora, simultaneamente diplomática e contundente, de pôr o ponto final no assunto. Nem outra coisa seria de esperar, as “intersecções” só podem acontecer em quadrantes políticos que não são os do Almirante, embora sejam, como se vem comprovando, aqueles de onde Ventura saiu para engendrar o Chega, a direita do PSD, o PSD de Passos Coelho (o desejado, mas indisponível candidato ideal do Chega às presidenciais). Sabemos que Clara de Sousa é uma prestigiada autora de "literatura gastronómica", mas nem isso a desculpa de se mostrar mais interessada no que se passou à mesa do restaurante do que no que se vai passando no universo. Debalde Gouveia e Melo dizia que vem almoçando com muita gente, incluindo um outro candidato presidencial, Marques Mendes. Ora aí estava, para mim, uma novidade! Esperava que Clara abordasse a ágape com Luís Marques Mendes, gostava de saber quais as “intersecções” existentes entre dois democratas, que, para além de óbvias e naturais diferenças, partilham um espaço de eleitorado e de pensamento. Mas não, Clara de Sousa descartou a oportunidade - aparentemente não estava no guião… no guião estava, como sempre está, no jornalismo que temos em Lisboa, o “fenómeno” Ventura. Criatura, que eles, os jornalistas, criam e alimentam, com o que Pacheco Pereira chamou no seu último texto na revista Sábado “a gigantesca complacência da comunicação social com o Chega”. Ainda em matéria de refeições com correligionários ou opositores, devo acrescentar que sou definitivamente a favor, desde que não sejam convertidas em meras armas de arremesso. No meu caso, (por acaso), alguns dos mais divertidos e memoráveis almoços de trabalho e de convívio foram na companhia de um colega de andanças internacionais que era do comité central do PCP e de um colega Deputado que tinha sido, brevemente embora, Ministro do Ultramar…. Penso que sempre ganhei em conhecer os adversários, as pessoas – quando há boa fé, ajuda a fazer oposição civilizadamente. E, se não se consegue fazer amigos, clarifica-se, pelo menos, o relacionamento. O almoço de que tanto se falou, pela graça dos “media”, correu, do meu ponto de vista, bastante bem, visto que Gouveia e Melo saiu elucidado e Ventura saiu furioso. É o que provam as declarações posteriores de um e do outro. 2 – No que respeita à entrevista da SIC, a segunda parte foi bem mais relevante pelos assuntos abordados, a visão do candidato sobre os poderes presidenciais, a importância de garantir a estabilidade da vida política, a situação internacional que nos condiciona, a imigração, a Lei da Nacionalidade… Reconheço-me no discurso de Gouveia e Melo, em matéria de relações internacionais e de defesa, nomeadamente no que respeita à concentração de investimentos na exploração e proteção da nossa extensa zona marítima exclusiva, ou na recusa do excesso que representaria afetar os 5% a este objetivo (o Almirante aponta aos 2,5%). Temos, enfim, um candidato que perspetiva o futuro, de forma realista, entrando em linha de conta com as condicionantes externas, europeias e mundiais. Entre nós, em qualquer eleição de âmbito nacional, tornara-se normalíssimo os políticos esquecerem o mundo real em que interagem, para só discutirem questões domésticas, como se fossemos uma ilha isolada. Em regra, não dizem uma palavra sobre Bruxelas, a UE, a NATO, o Banco Central Europeu, a CPLP, o imenso mar português…. Também em questões de política interna estou fundamentalmente de acordo com ele, mormente na sua análise dos poderes presidenciais, no âmago desse Poder: a nomeação do Primeiro Ministro de acordo com os resultados eleitorais, olhando à viabilidade do Executivo (aceitando, por isso, uma aliança do tipo da “geringonça”, se for a única apoiada maioritariamente no parlamento), ou a dissolução da Assembleia da República decidida só em último caso (ao contrário do Presidente Marcelo, Gouveia e Melo teria concedido ao Governo maioritário uma segunda tentativa de passar um Orçamento de Estado, assim como a possibilidade de se reconfigurar, após renúncia ao cargo do Primeiro-Ministro, com uma nova liderança). Igualmente me identifico com Gouveia e Melo nas magnas questões da nacionalidade e da imigração, quando se distancia não só da extrema direita, como da direita que está no governo (um Governo que desistiu de traçar linhas vermelhas ao extremismo, e começou a mimetizar, nesta fronteira, posições do Chega, raiando a xenofobia). Nesse campo, como nos demais, Gouveia e Melo foi claro: o país carece de imigrantes e deve criar a capacidade de os acolher de uma forma humanista, regrada e atempada: não se compreende, por exemplo, a contradição de facilitar a concessão da nacionalidade portuguesa aos ricos (a troco de dinheiro…) e de a dificultar aos trabalhadores, que sustentam a nossa sociedade, a economia, a segurança social. A defesa da dupla nacionalidade para imigrantes foi uma das causas da minha vida, internamente e a nível europeu, no Conselho da Europa. Em Portugal, foi o governo de Sá Carneiro que iniciou, em 1980, o processo de alteração da lei nesse sentido (lei que veio a ser aprovada no ano seguinte, por outro governo da AD - uma AD assumidamente de centro-esquerda, que se não pode confundir com a atual). No Conselho da Europa foram precisos mais 15 anos para revogar a Convenção de 1963, que impunha a uni nacionalidade. A minha argumentação foi sempre a mesma, testada no terreno, em contactos de proximidade: a aceitação da plurinacionalidade é ainda mais importante para facilitar a integração na nova sociedade do que para manter os laços com o país de origem que nunca, ou quase nunca, se cortam. Outro poderoso fator de integração é, obviamente, o reagrupamento familiar, pelo qual também batalhei em Estrasburgo, com não menos convicção. “In illo tempore”, quando era presidente da Comissão de Migrações, Refugiados e Demografia´... mas, vinte anos depois, ainda é preciso continuar o combate! 3 – Volto a Ventura, (do qual, ao invés dos média, só falo o necessário) para me regozijar numa semana em que o desporto – a área em que, inicialmente, medrou – só lhe trouxe dissabores. Primeiro por causa de Mourinho, cuja contratação pelo SLB ofuscou, por completo, o anúncio da sua própria candidatura presidencial. E Mourinho veio para ficar, para nos invadir a casa, nos ecrãs, a toda a hora – uma “overdose” que vamos suportar nos próximos meses ou anos. Enquanto não for despedido do cargo, os dois vermelhos, ou “encarnados”, que os jornalistas acalentam, vão repartir os tempos de antena! Depois, lá longe, no Japão, dois imigrantes infirmaram o seu discurso miserabilista sobre a imigração portuguesa (na mesma altura em que tentara, sem conseguir, lançar a confusão numa pacífica manifestação junto ao Palácio de São Bento, em que eu suponho que queria provocar o seu "momento Marinha Grande"...). Os dois atletas, Isaac Nader (filho de marroquinos, nascido cá) e Pedro Pablo Pichardo, (refugiado cubano, naturalizado português há não muitos anos), glorificaram a bandeira das quinas, sagrando-se campeões do mundo. Simplesmente fantástico o “sprint" final de Isaac, a ultrapassar não sei quantos competidores sobre a linha da meta! Espantoso o último salto de Pablo, a desfazer dúvidas (é o melhor do planeta na modalidade, para nós, mais uma medalha de ouro)! Feitos que vão diretamente, em simultâneo, para a história do desporto e para a história da imigração portuguesa.