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Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Dialogar é preciso
Dialogar é preciso
Fui sempre uma praticante de diálogo, tanto em debates académicos e tertúlias de café à portuguesa, como no espaço público, no Governo, na Assembleia, no Conselho das Comunidades Portuguesas e em organizações internacionais.
Sou social-democrata "à sueca", desde os tempos de estudante e uma admiradora incondicional de Sá Carneiro, a partir dos inícios de 70, quando ele, na "Ala Liberal" da AN, reivindicava a liberdade de expressão e de reunião e a libertação de presos políticos, a democracia plena. E dava entrevistas a declarar--se, precisamente, "social democrata à sueca".
Nunca mudei de quadrante. É um facto. Parece ser comum, e, porventura, positivo, evoluir mais para a direita ou para a esquerda , com o passar dos anos. Eu, ("hélas"), fiquei no mesmo lugar ideológico, desde os 16 ou 17 anos, apesar de todas as voltas que dei ao mundo - ao mundo geográfico.
Vivi esperançosamente o período da revolução e da construção da democracia, votando PPD/PSD, por causa de Sà Carneiro e dos meus amigos de Coimbra (Morta Pinto, Barbosa de Melo, Figueiredo Dias, Pereira Coelho...), sem, contudo, me filiar no partido, Na Faculdade de Direito, fui assistente de Mota Pinto e, em 1978/79 Secretária de Estado do Trabalho no seu Governo . Um Executivo de independentes., como é sabido
Conheci o Dr. Sà Carneiro somente em janeiro de 1980, no dia em que me convidou para ser Secretária de Estado da Emigração. Por essa altura, tomei, livremente, a decisão de me filiar no PSD. E, assim, por acaso, me tornei a primeira mulher do partido a exercer um posto governativo. Fui militante durante 45 anos, apesar de o partido se ter deslocado, pouco a pouco,, para o centro-direita, e, mais recentemente, a meu ver, para a direita sem barreiras à extrema-direita e mimetizando o seu discurso anti-imigração.
Na realidade, o PSD, (como os outros partidos) tinha alas e eu mantive-me na minha, cada vez mais minoritária. Há muitos anos, já Nascimento Rodrigues, menos otimista do que eu, me dizia: "Pertencemos a uma ala do partido que já não existe."
De qualquer modo, acredito, sobretudo, nas pessoas, na diferença que fazem à frente das instituições. Trabalhei igualmente bem com Mota Pinto, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, Mário Soares (com outros, nos mesmos cargos não direi o mesmo).
No partido, fiz parte dos chamados "críticos", que preferiam Cavaco e Silva a Balsemão, estive, depois, com líderes de perfil tão diferente como Fernando Nogueira e Durão Barroso. Do ponto de vista do diálogo nas afinidades e nas diferenças, a relação mais interessante foi com este último. Concordamos sempre, até em discordar - na regionalização, no regime de quotas para a igualdade, que eu defendia, na guerra do Iraque, contra a qual me insurgi publicamente, etc etc. Nunca esquecerei que, graças a ele, consegui realizar o mais desafiante projeto da minha vida parlamentar, a consagração na Constituição da igualdade de direitos entre Portugueses e Brasileiros, em 2001, assim como desempenhar o mais grato de todos os lugares políticos em que me fui vendo: a presidência da Delegação Portuguesa à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, organização onde muito gostei de representar o país, durante 14 anos.
Na veste de cidadã estive, também, disponível para me envolver na ação concreta, em prol de valores partilhados com democratas de diversos partidos - por exemplo, com socialistas como António Costa, nas persistentes diligências para a legalização de imigrantes, na década de noventa, com António Braga (2005.2009) e José Luís Carneiro (2005-2019), meus sucessores na pasta das Comunidades Portuguesas, em campanhas pela igualdade entre mulheres e homens na Diáspora, e com o meu então correligionário José Cesário, que, no mesmo cargo, levou as políticas públicas para a igualdade ao seu expoente máximo ( 2011- 2015).
No mesmo espírito, aceitei, no final do ano passado, o convite para participar no Conselho Estratégico do PS.
No mesmo espírito, espero poder colaborar sempre, com excelentes companheiros da infindável luta pelos direitos de cidadania dos expatriados ,como José Luís Carneiro e José Cesário, que considero verdadeiros amigos
Hoje, como há 45 anos, tenho como prioridade dar voz e fazer justiça aos mais marginalizados e para isso todos os fóruns são bons. Assim me parece o Conselho Estratégico do PS, felizmente aberto a independentes.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
CAMPANHA ELEITORAL SUBMERSA, MAS ABSTENÇÃO CONTIDA
1 –O ato cívico da votação foi um momento de bonança entre tempestades. Os ventos ciclónicos que arrasaram Leiria e grande parte da região centro, submergiram a campanha eleitoral na última semana, secundarizando a presença e o discurso dos dois candidatos, remetidos a uma relativa invisibilidade. Não obstante isso, revelaram, tanto ou mais do que em normalidade de circunstância, as suas diferenças de qualidade humana e política. Um criando ruído e falsas "perceções", no circo mediático em que medrou e existe. O outro, agindo já como o excelente presidente que, certamente, vai ser, ouvindo e apoiando as vítimas no mundo real em que sobrevivem, e lembrando-as nas primeiras palavras do sereno discurso de vitória.
Nunca, em meio século de democracia, a escolha entre dois contendores foi tão fácil, entre democracia e humanismo e o seu contrário. Estranhamente, os líderes da AD não tomaram posição, invocando a sua equidistância entre uma soi-disant “direita” e o “socialismo”. Que absurdo! Há muitas esquerdas e muitas direitas. As direitas e as esquerdas democráticas têm afinidades de valores que as agregam, naturalmente, contra os extremismos, porque, como diz o ditado popular, “os extremos tocam-se”.
Felizmente, os mais proeminentes rostos do PSD e do CDS, de Cavaco Silva, a Leonor Beleza e Marques Mendes, de Paulo Portas a Lobo Xavier, vieram dar o seu apoio inequívoco ao representante da civilidade e da decência contra o profeta do ódio e da cizânia. E o Povo mostrou que estava com eles e deu a António José Seguro a maior vitória eleitoral de sempre, em números absolutos.
Para mim, na noite eleitoral, umas das maiores alegrias foi constatar que, em termos percentuais, no concelho de Espinho, Seguro teve uma votação superior à das três grandes cidades, onde ultrapassou os 70& - Coimbra, Lisboa e Porto. Do mesmo modo, destacarei o “voto Seguro” das mulheres portuguesas, que excedeu, largamente, o do outro sexo. Um sinal dos tempos - em começos do século XX, eram vistas como forças reacionárias, inimigas da democracia. o que foi, como é sabido, o principal argumento para a República lhes negar, até ao fim, os seus direitos politicos.
2 - A declaração do "estado de calamidade", em parte do território, foi pretexto para o demagogo da direita iliberal e desordeira. reclamar o adiamento das eleições. Pouco lhe importava a lei que não permitisse um adiamento global (cumprir a lei é só para ciganos, não é para Ventura). Antecipando a derrota anunciada em todas as sondagens, lançou mão da clássica receita trumpista de desmobilizar e descredibilizar a eleição que estava perdida, agitando o fantasma de uma enorme abstenção. Pouca sorte a dele! O povo derrotou-o duas vezes - primeiro pela participação em massa nas urnas de voto, depois, nos números e percentagens da estrondosa vitória do adversário.
Tal como durante a epidemia de covid, os portugueses cumpriram, de forma exemplar, o seu dever cívico. E, na realidade, quer em 2021, quer em 2026, a abstenção, em território nacional, foi muito inferior à que os números finais indicam. Estes números são empolados pela colossal abstenção dos círculos de emigração, abstenção essa que é intrínseca ao modo de votação (presencial) dos emigrantes.
Os emigrantes votaram, pela primeira vez, presencialmente, nos consulados, em 2001 (reeleição de Jorge Sampaio), mas constituíam um universo limitado, e, por isso, provocavam na taxa de abstenção aumento pouco significativo. Quando a lei consagrou o recenseamento automático de todos os portugueses com cartão de cidadão, os votantes nos dois círculos de Emigração (Europa e Fora da Europa), passou (se bem me lembro) de cerca de 250.000 para mais de um milhão e, atualmente, para 1 777 019. Contudo, a lei dá aos emigrantes com uma mão, o que lhes tira com a outra, ao não facilitar a multiplicação das mesas de voto, obrigando a maioria a deslocações de muitas dezenas, centenas ou milhares de quilómetros.
Neste processo eleitoral, a abstenção, na 1ª volta, foi de cerca de 96%, na segunda, desceu ligeiramente, para um pouco mais de 95% (em números exatos: 85 854 votantes, 1,692 164 abstencionistas - na sua maioria, forçados pela distância entre a residência e o local de voto. Se, dentro do território nacional, obrigassem os portugueses do país inteiro a ir, por exemplo, votar a Lisboa, as taxas de abstenção também subiriam em flecha…
A votação postal, que é permitida nas eleições legislativas, facilita, obviamente, a participação (nas últimas legislativas votaram cerca de 350 000 expatriados) mas, como é evidente, só o voto eletrónico, idealmente combinado com o postal e o presencial, poderá colocar os emigrantes em condições de igualdade com os residentes no território.
Enquanto se mantiver este estado de coisas, melhor será informar corretamente o país sobre a participação eleitoral dentro e fora do território nacional.Se fizerem contas da abstenção relativas a 9 262 653 cidadãos residentes dentro de fronteiras, (e não ao total de11 milhões), e verão como ela desce.
3 - Em países de dimensão populacional imensamente superior à nossa, como o Brasil ou os EUA, há muito se introduziu o voto eletrónico, mas por cá, apesar de tão justamente reclamado pelos emigrantes, não deverá ser aceite no futuro próximo. É muito ousado para os burocratas da Administração Pública e muito arriscado para os políticos que, no íntimo, temem o voto dos expatriados – mais uns dos que outros.
Espero que, um dia, não muito longínquo, algum jovem académico empreenda o estudo que falta sobre a história do “sufragismo emigrante”, que tem algumas semelhanças com o sufragismo feminista). Aqui direi, “en passant”, que o PSD foi, durante décadas, ( e quero acreditar que ainda é) o mais favorável às reivindicações dos emigrantes. Na revisão de 1997, Marques Mendes condicionou mesmo o acordo interpartidário com o PS, (então parceiro obrigatório de maioria constitucional), à aprovação do voto dos emigrantes na eleição do Presidente da República. O PS foi fazendo, lentamente, a sua “estrada de Damasco”, até avançar (pela iniciativa de José Luís Carneiro) para o grande salto qualitativo do recenseamento automático.
Muito resta por fazer. Os quase 1 8000 000 recenseados no estrangeiro elegem apenas quatro deputados para o Parlamento e estão excluídos das eleições autárquicas e das autonómicas (ao contrário do que acontece, por exemplo, na vizinha Espanha).
Estou convencida de que o verdadeiro travão à consagração da igualdade de direitos políticos para os emigrantes, foi o medo do seu sentido de voto (mais inclinado para o centro e a direita, considerava a esquerda…). Agora que se verifica um crescimento da extrema direita em ambos os círculos da emigração (venceram as últimas legislativas e, também, embora por pouco, estas presidenciais), será ainda mais difícil lutar pela plenitude dos seus direitos de cidadania? Espero que não! Há que acreditar nas pessoas e na Democracia. Os portugueses da Diáspora são eleitores tão conscienciosos como os residentes.
A facilitação do seu exercício do voto não favorecerá o extremismo. Em condições muito adversas, são os mais militantes, os mais fanáticos que resistem. Em condições normais (sobretudo com a admissibilidade do voto digital), virá, ao de cima, a grande vaga dos moderados.
Note-se que, na emigração, Ventura venceu, quase à tangente. Perdeu em todos os continentes, exceto nas Américas. Num total de cerca de 85 000 votos, a diferença para Seguro foi apenas de 1 366. Na primeira volta, Ventura liderava com 40, 93% contra 23,69% de Seguro, na 2ª volta acabaram quase empatados. Ventura ganhou nas comunidades da “velha guarda”, (na Suíça, na França), mas perdeu na Alemanha e em mais 23 países da Europa, em todos os Palop, no Oriente – ou seja, na "nova emigração" mais qualificada. O perfil de eleitor Ventura/Chega é, afinal, semelhante no país e no estrangeiro. E recolhe, ainda, o “voto do descontentamento” – e razões de protesto não faltaram nunca aos portugueses que se sentem tão discriminados.
A sua insatisfação não se combate tirando-lhes direitos, mas sim fazendo-lhes justiça.
In Defesa de Espinho, 19 fevereiro
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
ENTREVISTA TSF - LONGE DO NOVO PSD/AD
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Política
Desiludida com "alianças constantes" entre PSD e Chega na imigração, histórica Manuela Aguiar deixa de ser militante social-democrata.
É mais um nome histórico a abandonar o PSD. Quarenta e cinco anos depois de ter entrado no partido pela mão de Francisco Sá Carneiro, Manuela Aguiar entregou o cartão de militante, desiludida com as políticas para a imigração seguidas pelo governo da AD. Em entrevista exclusiva à TSF, a antiga secretária de Estado lamenta a colagem do PSD ao pior que o Chega tem, na forma como olha para os imigrantes, sobretudo a partir do segundo governo de Luís Montenegro.
"No primeiro Governo, eu estava completamente aplacada, porque havia uma linha vermelha: 'Não é não'", recorda, em declarações à TSF. No entanto, "quando no segundo Governo, começa a ver-se as alianças constantes na Assembleia da República entre o PSD e o Chega, naquelas questões que eram as últimas em que eu esperava que o PSD alinhasse e ultrapassasse a linha vermelha, com a criação das fake news e das perceções, criou-se uma percepção completamente errada da imigração", defende.
Para Manuela Aguiar, Portugal "não tem imigrantes a mais", mas, sim, "serviços a menos para legalizar os imigrantes". "Os imigrantes são absolutamente precisos à nossa economia, estou preocupada com os traficantes de imigração, como temos no Alentejo. Estamos, eventualmente, a negar à nossa imigração as condições de ela ser o que é: uma imigração pacífica, uma imigração útil e uma imigração que nos traz um enriquecimento cultural", argumenta.
A antiga secretária de Estado e deputada lembra que "defendeu isto para os portugueses em qualquer país do mundo" e defende "isto para os estrangeiros em Portugal". Por isso, "uma pessoa que defende isto e que vê as coisas assim, dificilmente pode estar no PSD e é impossível estar no PSD de hoje", atira.
Manuela Aguiar foi a primeira mulher com cartão de militante do PSD a desempenhar funções num Governo em Portugal, num Executivo liderado por Mota Pinto. Esteve depois, durante vários anos, ligada às comunidades portuguesas, primeiro, como secretária de Estado, depois como deputada eleita pelo círculo da emigração. Despediu-se do Parlamento em 2002.
À TSF, Manuela Aguiar diz que o PSD é hoje um partido completamente diferente do fundado por Francisco Sá Carneiro e confessa "um verdadeiro horror" ao ouvir alguns dirigentes políticos invocarem o nome do antigo primeiro-ministro.
"É um partido que tem o ministro Leitão Amaro, que diz que com a nova lei da nacionalidade, uma das mais restritivas da Europa, Portugal é mais Portugal. Eu acho que não, que não é mais Portugal, acho que é menos. Um secretário-geral, que, nas eleições americanas, entre Kamala Harris e Trump, dizia que não sabia muito bem qual havia de escolher, o que quer dizer que é trumpista, porque as pessoas têm vergonha de dizer que são definitivamente Trump. Eu nem entendo, porque, se seguirmos a doutrina social, seguirmos os papas de hoje, o Papa Francisco, o que é que ele nos diz? Está nas antípodas do discurso do PSD de hoje. É um discurso anticristão", afirma, sublinhando que Sá Carneiro "foi um homem que começou a sua vida política pelo sentimento religioso, pelos valores religiosos".
"Portanto, realmente não tinha outra solução", reforça, acrescentando que Luís Montenegro cometeu um erro na segunda volta das presidenciais ao não apoiar António José Seguro. Sobre o Presidente da República eleito no passado domingo, Manuela Aguiar está convicta de que será um excelente chefe de Estado.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR
2025 BRASIL/ PORTUGAL - À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR
1 – A descoberta do Brasil pela expedição de Pedro Álvares Cabral ocorreu há exatamente 525 anos, em tempo pascal. No dia 22 de abril de 1500 alguns dos homens pisaram terra, para um primeiro encontro amigável dos povos de dois continentes separados por um oceano. Ao lugar deram o nome de Porto Seguro, hoje cidade turística do Estado da Bahia, especialmente vocacionada a receber os festejos da celebração dessa data matricial. Data que se tornou, oficialmente, o dia da Comunidade Luso-brasileira por força da Lei nº 5270 de 22 de abril de 1967, (a chamada “Lei da Amizade” da iniciativa do Senador Vasconcelos Tavares), a que Portugal deu pronta reciprocidade.
Porém, como sabemos o Direito só tem a força que lhe dão os seus destinatários e, neste caso, o Dia da Comunidade Luso-brasileira foi sendo esquecido pelos dois Estados e tornou-se uma festa da sociedade civil, dos imigrantes de origem lusa no Brasil, com significativo apoio em alguns municípios e Assembleias Estaduais. Entre nós, a data tem sido, regra geral, pura e simplesmente ignorada. Enquanto Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, na meia década de oitenta, tentei remar contra a maré, organizei comemorações oficiais em cidades como Guimarães, Ponte do Lima, Belmonte, mas, que depois que deixei o Governo, há quase quatro décadas, não mais houve interesse governamental em continuar esse legado. E, por isso, deste lado do Atlântico, o 22 de abril, vem sendo, quando muito, festejado num pequeno círculo associativo…
2 – Em 2025, a Associação Mulher Migrante (AMM) promoveu a comemoração do dia desta comunidade no auditório do FACE, com o patrocínio da Câmara Municipal e a ativa participação da Presidente Maria Manuel Cruz. A iniciativa tornou Espinho um caso singular, um exemplo a ser seguido, nomeadamente, nos Concelhos onde já existe grande número de imigrantes brasileiros – trabalhadores, empresários, estudantes - quase todos aparentemente bem integrados. Este é, também, o dia deles, o dia de publicamente lhes darmos voz e visibilidade, de manifestarmos a alegria de os vermos felizes na nossa sociedade.
A AMM vem celebrando a efeméride transnacional há vários anos, em Espinho e em outras cidades, sob o título “Brasil- Portugal, a descoberta continua”. Ou seja, pondo o foco na necessidade de combater a enormidade do desconhecimento mútuo do património material e imaterial comum. Com tal propósito, perante uma audiência de dezenas de estudantes, decidi falar sobre uma mulher portuguesa, Ruth Escobar, completamente ignorada na sua e nossa terra, muito embora tenha feito história no Brasil. Antes do início da sessão, em conversa com muitos dos jovens fiquei com duas certezas: o nome Ruth Escobar, às 15.00, não lhes dizia nada; às 16.00 sairiam todos daquele auditório a saber mais sobre ela do que o resto dos jovens deste país…
3 – Foi um verdadeiro prazer “pôr em palco”, (uma vez mais!), a grande atriz e produtora teatral, pioneira política, feminista e revolucionária, a emigrante portuense imortalizada com o nome artístico Ruth Escobar.
Maria Ruth dos Santos nasceu no Porto, em Campanhã, viveu na rua do Bonjardim, e foi aluna do Liceu Carolina Michaelis, onde se distinguiu a representar todos os diabos de Gil Vicente. Tinha 16 anos quando a mãe a levou, a bordo do Serpa Pinto, numa viagem sem retorno para o Brasil. Lá, no Colégio Roosevelt, como antes no liceu português, o seu talento em palco deu-lhe prestígio e popularidade, a ponto de conquistar o título de "rainha" do colégio. Mas, como vivia pobremente com a mãe, trocou os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias", com o que ganhava mais do que a progenitora. E, ainda antes de fazer 18 anos, deu um passo em frente e angariou apoios da comunidade portuguesa para lançar a sua própria revista, "Ala Arriba". Na veste de jornalista e diretora de jornal, apercebeu-se das ameaças à presença portuguesa na Índia e propôs-se defende-la, a nível planetário. Tinha 19 anos quando, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, partiu numa volta ao mundo, com essa missão – Nova Yorque, Los Angeles (entrevista o ator Jack Lemon), Hawai, Tóquio, Manilha (entrevista o Presidente) Hong Kong, Macau, Karachi, (onde, a cobrir a Conferência Internacional sobre o Sudeste Asiático, a sua lista de entrevistados célebres cresce enormemente, com Foster Dulles, Christian Pinaud, Bulganin, Kruschev e outros,) Camboja, onde dialoga com o Principe Norodan Sihanouk (e dele recebe uma mensagem e uma fotografia para Salazar), Tailândia e da Turquia (entrevista com os primeiros –ministros), e, por fim, o mítico Nasser, durante a crise do canal de Suez - no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo, foi a única a quem ele acetou responder! No mundo português foi recebida pelos governadores de Macau e da Índia e, em Lisboa, pelo ditador Salazar.
Durante o longo périplo, os seus “exclusivos” eram disputados por jornais de referência no Brasil, em Portugal e, no caso de Nasser, até nos EUA. Vaticinava-se futuro à jovem jornalista, mas a sua união com o dramaturgo, filósofo e poeta Carlos Escobar leva-a a Paris, onde estuda arte dramática. Aos 20 vinte anos, de volta a São Paulo, estreou-se como empresária, produtora teatral e atriz. Poucos anos depois, construiu na cidade, no bairro residencial da Bela Vista, um teatro com o seu nome, onde os autos vicentinos se cruzavam com as peças mais vanguardistas. Na década de sessenta fundou o Teatro Nacional Popular para levar ao interior da Estado espetáculos de qualidade, montados num autocarro aberto (Martins Pera, Suassuna, montados num autocarro aberto …
Não era menos exuberante a sua vida fora de cena, (somaria cinco casamentos, cinco filhos) O terceiro marido, arquiteto Wladimir Cardoso, viria a ser o cenógrafo das suas peças de maior sucesso, com o " O cemitério de automóveis" de Arrabal ou "O balcão" de Jean Genet, que, em fins de sessenta, venceu os maiores prémios do teatro brasileiro.
A partir de 1964, Ruth, com trinta, trinta e tal anos) afrontou a ditadura em que o Brasil se afundava, convertendo o seu teatro em arena de luta pela liberdade, resistindo a ameaças, ataques de comandos paramilitares, violência sobre os atores, interrogatórios e prisões. De uma das vezes, foi Cacilda Becker, sua mentora e amiga, que interveio junto do Prefeito de São Paulo: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou...
No começo da década de setenta, a emigrante sem medo trouxe a Portugal "Missa leiga", "Cemitério de automóveis”, que a Censura proibiu em Lisboa, mas autorizou na elitista Cascais, longe das massas populares... Aí Ruth conheceu as três Marias, leu "As novas cartas portuguesas", Simone de Beauvoir, e converteu-se ao feminismo. A nova causa abriu-lhe outros palcos, os da política. Ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros (nunca se naturalizou brasileira), em oitenta, candidatou-se e foi a primeira mulher eleita e reeleita Deputada à Assembleia do Estado de São Paulo, depois, a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e a primeira Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres.
Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro, que levou a São Paulo, o que de melhor se fazia nas grandes capitais do mundo, feito que repetiu em 1976, vendo-se reconhecida como grande renovadora da arte dramática brasileira.
Depois de deixar o cargo de Deputada, em 1988, voltou aos palcos e à organização de novos festivais paulistas, sempre em espírito de renovação, tornando-os inclusivos de outros terrenos e saberes – os Festivais de Artes e Ciências dos anos noventa. A Ruth, a caminho dos 70 anos não está disposta a parar… Já neste século, tive a sorte de assistir ao seu lado, em São Paulo, a uma última produção, tão audaciosa como as primeiras: uma original encenação de "Os Lusíadas".
E assim Ruth Escobar deixou uma fantástica herança cívica, intelectual e artística, enraizada no Gil Vicente da sua juventude (segundo ela, o “Shakespeare português”) e no modernismo com que mudou a face do teatro em São Paulo e no Brasil. Por isso, recebeu as mais altas condecorações brasileiras, a nossa Ordem do Infante D Henrique, a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França.
É um nome lendário no Brasil, mas está, ainda, por descobrir em Portugal.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
A TRÊS DIAS DAS ELEIÇÕES in Defesa de Espinho 15 jan
A TRÊS DIAS DAS ELEIÇÕES
1 - Estamos a três dias da primeira volta das eleições, com a certeza de que haverá uma segunda volta, tal como em 1986.
Para alguns é o momento de escolher, sem hesitação, convictamente, o seu favorito, para outros a preocupação será a de eliminar candidatos indesejáveis ou a de deixar em campo, como finalista, um nome da sua área política pela força do voto - o chamado voto útil.A atual situação assume contornos singulares, por ser, praticamente, impossível avaliar a posição relativa dos muitos protagonistas com expetativas de sucesso. As sondagens ganham, por isso, uma importância desmesurada. E o mesmo se pode afirmar dos comentadores (melhores, piores, mais pragmáticos, mais levianos) que intervêm, num turbilhão incessante, em canais de televisão, na rádio, na imprensa, nas redes sociais. Ai dos que não tenham crenças firmes! Ficam à mercê da dificuldade de cálculo que é enorme, e daí o risco de votar errado, querendo votar útil.
É risco que não corro, tendo há muito tomado uma decisão firme e não me deixando impressionar pelas oscilações das “tracking polls”, nem pelo receio de não apostar no vencedor. Ao longo deste meio século de democracia foi sempre assim que alinhei com os meus candidatos, na vitória como na derrota. Em alguns casos, sabendo que era incerto o resultado (por exemplo, o do General Soares Carneiro, em 80, de Freitas do Amaral, em 86, de Cavaco Silva, em 96) ou extremamente remotas as hipóteses de alcançar a meta, caso de Mário Soares, em 2006.
Num dos países mais idadista do mundo, previ que o regresso do Dr. Soares ao Palácio de Belém, aos oitenta e dois anos, (e, ainda por cima, sem o suporte oficial do partido que fundou) não aconteceria, mas considerei que tinha todas as condições para prestigiar o cargo e a República no presente e que merecia o nosso reconhecimento pelo seu passado. Foi uma opção ética e afetiva. Aceitei, com alegria, o convite para pertencer à sua “Comissão de honra” e participar, com ele, em comícios a arruadas. Momentos inesquecíveis!
Nunca tinha sufragado o seu nome num boletim de voto, era a minha última oportunidade. Em 1986, aquando da sua primeira vitória, estava eu, de alma em coração, com o seu opositor, por quem tinha muita admiração e amizade. Na verdade, 1980 foi o ano mais feliz da minha vida, no Governo de Sá Carneiro e a trabalhar, diretamente, com o Vice-Primeiro Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros Freitas do Amaral, (como Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas). Antes mesmo do PSD o adotar como candidato, (por iniciativa de Cavaco Silva, que encontrou não poucas resistências internas), já o fizera eu. Sempre achei que a presidência da República é cargo suprapartidário, para o qual devemos eleger em consciência, em liberdade, sem obediência a agremiações.
2 – A eleição da meia década de oitenta vem sendo muito lembrada, porque constituia a única experiência portuguesa de presidenciais a duas voltas. Certamente por isso, nos primeiros dias de janeiro, a RTP presenteou-nos com uma esplêndida série de reportagens sobre essa mítica eleição com as imagens de multidões radiosas, enchendo comícios e arruadas, num ambiente de confraternização, com muita juventude, muita música, muito júbilo, seguindo os líderes, que as arrebatavam pela palavra. Líderes que, diga-se, ombreavam, em qualidade, com os melhores do mundo.
Quezílias, contundência, afrontamentos também os houve, como é inevitável, sendo o objetivo nada menos do que a chefia de Estado, mas nunca contaminaram o todo, não invadiam, como hoje invadem, o centro de debates, em substituição de argumentos sérios e politicamente válidos. Tenho saudades desse tempo áureo da democracia, em que as bandeiras da esperança davam cor e vida aos palcos e às ruas, ao ritmo de cânticos e slogans que ficaram para a história como o
“P´ra frente Portugal” de Freitas do Amaral e o “Soares é fixe”!
Que lições podemos tirar, dessa experiência pioneira das duas voltas, que agora se repete? Diferenças e semelhantes não faltam. Antes de mais, avulta a diferença da classe dos principais protagonistas todos notáveis, sem exceção: Soares, Freitas do Amaral, Maria de Lourdes Pintasilgo e Salgado Zenha. O que se refletiu no nível dos debates e na capacidade mobilizadora dos discursos. Outra diferença de peso: havia a possibilidade realista de uma decisão à primeira volta, na metade direita do espetro poitico. Um jovem e fantástico Freitas do Amaral fez o pleno nos simpatizantes da AD, ultrapassou a votação dos três partidos que a formavam e esteve pertíssimo da presidência. A proliferação de candidaturas dividia, então, a esquerda como agora afeta, essencialmente, a direita. Mário Soares era, dos quatro grandes, o último nas sondagens iniciais, muito atrás de Pintasilgo e de Zenha, mas, pouco a pouco, com o seu carisma, recuperou terreno, palmo a palmo, passou à segunda volta com Freitas do Amaral e ganhou na 25ª hora, por uma margem mínima, unindo toda a esquerda em seu redor, num país que era maioritariamente de esquerda. De facto, triunfou pela via de dois movimentos opostos:
- O primeiro de dispersão em três correntes, encabeçadas por ele, Pintasilgo e Zenha. Se tivesse concorrido nesse espaço só com Pintasilgo ou apenas com Zenha (contando ela ou ele com parte do PS, Eanistas e comunistas) seria afastado da final, sem sombra de dúvida
- O segundo de convergência, uma convergência que reunificou o PS e positivamente” obrigou” os deserdados de Zenha e os fiéis de Pintasilgo a pôr a cruz à frente do seu retrato no boletim de voto.
Quarenta anos depois, regressamos à excessiva fartura de nomes em competição. Onze precisamente – creio que nunca se viu tantos, embora nem todos contem, por igual. Há os que nem aparecem nas sondagens, há as esquerdas bloquista, comunista e "livre" que, todas somados, ficam muito longe dos dois dígitos. (levantando, em todo o caso, a dúvida sobre se os seus parcos votos farão falta a Seguro, nesta fase). Restam os presidenciáveis, cinco homens, nenhuma mulher: Seguro, sozinho na casa do socialismo reformista, Gouveia e Melo, no centro ligeiramente inclinado à esquerda, Cotrim e Marques Mendes, à direita, e, na extrema direita, Ventura, o “Trumpezinho” à portuguesa, o arauto de uma IV República, que sonha com três Salazares (não lhe bastando um ditador, quer uma "troika de malfeitores!).
Numa conjuntura favorável às diversas direitas, cujo eleitorado ultrapassa 50 %, é de estranhar que não tenham apostado num candidato comum, depois de se entenderem tão bem no Parlamento para aprovar as políticas e as leis mais emblemáticas e mais nefastas do Chega – como as Leis da Nacionalidade e da Imigração e as medidas anti-imigração.. E até se juntaram para fabricarem percepções sobre a perigosidade dos trabalhadores estrangeiros e sobre a sua culpa em tudo quanto corre mal.
Note-se que eu não confundo teoricamente as direitas. Elas é que se confundem, na sua “praxis”, quando os alegadamente moderados subscrevem as piores propostas e falácias da direita antidemocrática, neo salazarista e aldrabona. (basta pensar na arrepiante tirada do Ministro Leitão Amaro “Portugal é mais Portugal com a nova Lei da Nacionalidade”, que aqui cito de memória e que poderia ter sido proferida por Ventura.
3 – Como disse, seleciono o meu candidato pelo seu perfil humano e ideológico. Se me focasse apenas nas qualidades pessoais, na simpatia com que os olho, (em especial Marques Mendes, que é um amigo de longa data), só excluiria um: Ventura, (evidentemente). Porém, não posso associar-me a Marques Mende, que está associado a um Executivo, que está, por sua vez, associado a Ventura na governação e no parlamento (por mais que goste do Primeiro Ministro, como pessoa, não posso esquecer este facto).Quanto a Cotrim de Figueiredo, direi que tem feito uma campanha esplêndida, é um líder cosmopolita, moderno, com mundo, com à vontade, está bem em todos os ambientes, com jovens e com seniores de todos os escalões sociais. É um comunicador nato. Todavia, não é da minha área política. Não me escandalizei sequer por ter admitido que poderia apoiar qualquer um, sem excluir Ventura numa 2ª volta – foi uma pequena “gaffe” da qual, depois, se retratou. Mais me escandalizaram os dirigentes do PSD que foram os primeiros a “normalizar” Ventura, que o escolheram como parceiro preferencial para governar e agora, por muito menos, criticam Cotrim.
Restam-me, assim, dois candidatos para uma escolha: Gouveia e Melo e António José Seguro. Escolhi, sem hesitação, Gouveia e Melo, porque é grande a minha consonância com as suas posições, sobretudo, em política internacional e em matéria de defesa. Nos próximos cinco anos, a sua experiência nestes domínios será preciosa na obtenção de consensos internos e na representação externa do país.O mundo mudou. É preciso saber lidar hábil e inteligentemente com uma nova e assustadora realidade, que, de fora, nos ameaça. A minha escolha é não só, mas também, um gesto anti-Trump.
Maria Barroso in Defesa de Espinho
O LEGADO FEMINISTA DE MARIA BARROSO
Foi lançado, há dias, um livro sobre "Maria Barroso - Os legados", em que são analisados o seu percurso, o seu pensamento, as suas causas, no ano em que se comemora o seu centenário. A iniciativa partiu de um grupo de cinco mulheres, na sua maioria académicas, e contou com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Universidade Nova. O prefácio é do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e um dos testemunhos do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.
A primeira apresentação, em Lisboa, na Fundação Maria Soares Maria Barroso, foi antecedida por um colóquio sobre a mesma temática, organizado pela Fundação, que teve momentos altos na abertura nas intervenções dos filhos de Maria Barroso, Isabel e João Soares. Um dia memorável de saudade e de reflexão que, na realidade, não terminou ali, pois, ao longo deste ano comemorativo, a publicação vai ser divulgada em diversas regiões e cidades do país, numa multiplicidade de colóquios, o primeiro dos colóquios ocorreu em Loulé, com intervenções da escritora Lídia Jorge e de alguns dos coautores do livro. Espero que Espinho, onde veio tantas vezes, esteja presente nesse roteiro de homenagens.
Na referida publicação abordei um dos legados de Maria Barroso, que, a meu ver, não tem sido suficientemente destacado: o seu feminismo.
Um feminismo vivido! A vida de Maria Barroso foi uma admirável aventura cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e às injustiças moldaram a humanista, e a inteligência, a determinação e o espírito prático fizeram a mulher de ação em variados domínios - a atriz, a pedagoga, a diretora de um grande colégio, a mulher apaixonada e mãe de família, a corajosa oposicionista política, a ativa construtora da nossa democracia, a Deputada, a “primeira dama” da República, a primeira mulher presidente da Cruz Vermelha, a líder de movimentos para o defesa dos Direitos Humanos, da paz e do aprofundamento dos laços no mundo lusófono. E, também, a feminista, que soube continuar, em novos tempos, a antiga tradição de luta pela liberdade e emancipação da mulher, recusando a guerra de sexos e toda e qualquer forma de supremacismo.
A ausência de radicalismo constituiu, como é sabido, uma singularidade da primeira vaga do feminismo português, muito influenciada pelo contexto revolucionário em que emergiu, com homens e mulheres (famílias inteiras!) irmanados nos ideais republicanos. Na geração seguinte, Maria Barroso formou-se em meio não muito diverso, conviveu desde a infância com a resistência dos pais à ditadura, numa família solidária e tolerante e começou um imparável percurso cívico e político a lutar por uma nova revolução democrática capaz de erradicar as injustiças e desequilíbrios económicos e sociais, incluindo os de género. Nesse combate, Maria Barroso usou as armas ao seu alcance: as da cultura! Do palco do teatro fez palco de cidadania, pondo o talento e a fama ao serviço dos seus ideais, na forma como representava e como declamava a palavra revolucionária dos poetas… O regime perseguiu-a implacavelmente, cortou cerce a sua fulgurante carreira de atriz no Teatro Nacional, interditou-lhe o exercício da profissão no ensino, vigiou os seus passos, mas nunca calou a sua voz. A jovem Maria de Jesus enfrentou, sem vacilar, os interrogatórios da polícia política, a prisão do marido, como, antes, sofrera a de seu pai.
Após a Revolução de 1974 foi uma notável participante na vida cultural e política do país, uma figura pública de referência, que não perderia nunca a sua individualidade, ao lado de Mário Soares. Em Belém, na missão onde mais arriscava a subalternização política, face ao estatuto do marido, o Presidente da República, revelou-se uma mais valia, a perfeita diplomata, um ícone de elegância e distinção. Sobre esse novo recomeço de vida, disse, simplesmente: "Ganhei um novo espaço para me reinventar". E ganhou, sem dúvida, mais mundo, mais experiências, mais contactos de proximidade com tanta gente, dos poderosos, que governam Estados, aos marginalizados, que estão no centro de tantas das suas inúmeras declarações públicas - as crianças, as vítimas de guerras e violência, os timorenses, os refugiados, os imigrantes, as mulheres… Sim, ainda e sempre, as mulheres, porque a igualdade jurídica fora rapidamente consagrada na Constituição e nas leis da República, mas, duas décadas depois da Revolução, as mudanças tardavam na sociedade, na política, no mundo do trabalho. O impasse acordou o feminismo intrínseco de Maria Barroso. Ela própria o revelou numa entrevista, afirmando: "Não sou feminista "à outrance", sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre homens e mulheres”.
Na sua visão das coisas, a igualdade é inerente à condição humana, já que "a humanidade está dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina, com dons e virtualidades semelhantes". A “humanidade é uma família” salientava, inspirada, certamente, no paradigma da sua própria família. Porém, a resistência das estruturas (das máquinas partidárias, das corporações económicas…), assim como das mentalidades, à afirmação da “paridade natural”, levou- a denunciar a imperfeição da nossa democracia, por manter, no século XXI, “o modelo masculino do poder” e a reconhecer a importância do sistema de quotas no processo de “empoderamento” das mulheres.
Pela palavra e pela ação, empenhou-se, incessantemente, na causa da igualdade de género. É de toda a justiça equiparar o “feminismo natural” de Maria Barroso ao "verdadeiro feminismo" de Ana de Castro Osório, (um “humanismo integral”, que deve ser partilhado por ambos os sexos), ao “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, e ao “feminismo tácito” de Maria Lamas.
Foi, por sinal, nos caminhos do feminismo que nos encontramos, há quase meio século, numa sintonia espontânea, apesar de virmos de direções opostas, eu do feminismo “à outrance”, Maria Barroso da constatação de persistentes resistências à intervenção das mulheres na esfera pública, que a levava a um crescente envolvimento. Entre 2005 e 2009, com mais de oitenta anos, aceitou “correr mundo”, presidir a múltiplos “Encontros para a cidadania”, ser o rosto de uma intensa e eficaz campanha de mobilização das mulheres da Diáspora para a intervenção cívica, em que tive o privilégio de a acompanhar.
Neste ano do centenário, quero lembrá-la assim, com o seu sorriso e amabilidade espontânea, a sua mensagem humanista e solidária, o seu incomparável exemplo de vida. Na verdade, nenhuma figura pública do nosso país e do nosso tempo foi tão consensual, tão agregadora e tão amada pelo povo português.
"O FEMINISMO NATURAL DE MARIA BARROSO" in "Maria Barroso - os Legados"
O FEMINISMO NATURAL DE MARIA BARROSO
Maria Barroso atravessou quase um século e muitos mundos, num movimento a que não deu pausas. A sua vida foi um constante recomeço, muitas vidas numa só, norteada por convicções profundas, que soube repartir pelos campos de ação que ia achando, quando outros se fechavam… Em cada rutura, voluntária ou forçada do percurso, retomava o fio condutor do movimento, conseguindo, desde a sua juventude, ter presença e influência numa sociedade misógina, fechada à modernidade e ferreamente controlada pela força de um regime policial. Aprendeu a lidar com a opressão e a violência da ditadura, as arbitrárias prisões do pai (e, mais tarde, do marido), as perseguições pessoais que lhe cortaram uma fulgurante carreira artística, como atriz do Teatro Nacional. E, depois, outras… Resistiu sempre, erguendo a voz, sem transigências nem vacilação, com o seu perfil feminino de coragem. Como diria décadas depois, relembrando essa época: “É preciso aprender a chorar por dentro”. (As Primeiras Damas”, pp 115).
Do palco do teatro fizera palco de cidadania no anseio de liberdade e de mudança social, pondo ao serviço dos combates a fama e o talento, no modo como dava alma a personagens subversivas dos dogmas sexistas do regime, e como, em sessões culturais, dizia poemas revolucionários e mobilizadores. Em palavras suas: “Fiz imensos recitais de poesia revolucionária com o grupo de Fernando Lopes Graça, que cantava também canções revolucionárias. De facto, a maneira como o coro cantava e a força que eu punha nos poemas que dizia, faziam com que esses recitais de canto e poesia fossem uma espécie de comícios”. (As mulheres políticas e as suas causas, pp 49)
Quando os sonhos de carreira artística se esfumaram, pelo seu “saneamento” político do Teatro Nacional, era já, aluna da Faculdade de Letras, de Ciências Histórico-Filosóficas, curso em que foi colega do futuro marido, como contou, numa entrevista, à distância de várias décadas: “Eu entrara na Faculdade com um certo prestígio, uma vez que era aluna da Faculdade e, simultaneamente, atriz do Teatro Nacional. Fui a aluna mais classificada do Conservatório, o que só por si, dava acesso imediato ao Teatro Nacional”. (As mulheres politicas e as suas causas, pp 49)
Custoso início de uma ininterrupta e longa caminhada cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e à injustiça moldaram a humanista, e o espirito prático e a energia fizeram a militante, a mulher de ação em tantos terrenos - a- atriz, a professora, a gestora de um grande colégio, a mãe de família, a oposicionista política, a deputada na democracia, a “primeira dama” da República, a presidente da Cruz Vermelha, a líder de organizações para o desenvolvimento do mundo lusófono, feminista, a defensora dos Direitos Humanos, e da paz.
No enfrentamento da ditadura seria candidata a deputada e a única mulher a tomar a palavra no 3º Congresso da Oposição Democrática, proclamando, com o seu timbre de jovem rebelde: O Congresso não é uma dádiva do regime, é uma conquista nossa! (As Primeiras Damas, pp 116) E seria, também, a única mulher presente na reunião em que o PS se constituiu como partido político, em 1973.
Após o 25 de abril de 1974 vemo-la envolvida na aventura de erguer do chão a arquitetura democrática, informando e comunicando com a eloquência e a sinceridade que atraía multidões, em comícios, debates, sessões de esclarecimento, trabalhos parlamentares. Na década de 1986/96, no papel em que, aparentemente, mais arriscava a sua secundarização como mulher – sendo a mulher do Presidente da República – readquiriu a notoriedade dos anos de juventude, interagindo com a gente de todas as condições e de todo o lado, no país e no estrangeiro. Sobre a sua excecionalmente bem-sucedida missão, diria com sua usual simplicidade: “Ganhei um novo espaço para me reinventar” (Firmeza de convicções, pp 121).
Do inventário da sua década em Belém constam centenas de intervenções, incluindo sobre a Mulher (o capítulo mais volumoso) e bem assim o registo de iniciativas pioneiras, como o primeiro passo dado na pré-história do processo de paz de Moçambique, pela abertura aos refugiados do corredor de Ressano Garcia. Um feito que “O Século de Joanesburgo”, jornal distante do seu quadrante ideológico, destacou em manchete “Maria Barroso em África, uma lição de amor ao próximo” (Viagem a Moçambique, pp 87). O que nos faz pensar como poderia ter-se “reinventado” nos mais altos cargos nacionais e, sobretudo, internacionais…
Nas duas décadas seguintes, de fora das estruturas partidária, realizou uma obra notabilíssima, no país, no universo da lusofonia e na Diáspora, no estrangeiro, por uma cultura de paz e solidariedade, com crescente foco na situação das mulheres e em novas formas de exclusão e de violência - a violência na família, nos média, o tráfico de armas… O trabalho sempre inacabado de uma ativista, que, no seu ímpeto de transformação social, abraçava todos as pessoas injustiçadas e desprotegidas, sem favoritismo (mulheres e homens, portugueses, africanos, timorenses, refugiados, imigrantes), em gestos concretos, com infinita dedicação e dinamismo, no dia a dia, sem abrandar até ao seu derradeiro dia.
Com tudo isso, podemos considera-la feminista? Sim, respondeu ela própria, sem ambiguidade, como era seu hábito: “Não sou feminista à outrance, sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre mulheres e homens. Acho que devia haver uma maior colaboração e participação das mulheres na procura dos grandes problemas que nos afligem. Costumo dizer muitas vezes que se as mulheres estivessem em lugares de decisão em maior percentagem dificilmente as guerras se arrastariam por tanto tempo. [...]. Apreciamos mais o diálogo do que a guerra. Esta é a minha convicção profunda”. (As Mulheres na política - as suas causas, pp 54)
Foi nos caminhos do feminismo que nos cruzámos, há quase meio século, numa fácil sintonia, apesar de virmos de direções opostas – eu do “feminismo à outrance”, ela de uma multifacetada experiência de luta, em que nenhuma discriminação a deixava indiferente: "O ambiente de minha casa e a minha formação tornavam-me mais desperta para as injustiças que no país se iam cometendo, para a falta de Liberdade, para as perseguições dos que não alinhavam com o Estado Novo, para o perigo que representava ter-se sequer qualquer atividade cívica, mesmo a mais simples” (Mulheres na política - as suas causas, pp 49).
O seu feminismo emergiu de um pelejar, em muitas frentes, por uma nova revolução, tal como a de 1910, portadora da esperança numa democracia capaz de erradicar todas as desigualdades, incluindo a de sexo. Numa conferência sobre “As mulheres na primeira República”, na abertura das comemorações do centenário da Revolução, em Espinho, Maria Barroso aludia às grandes expetativas das feministas portuguesas do dealbar do século XX: “Esperavam as que aderiam à República e às suas instituições – quase todas – que este novo sistema político curasse a sociedade de todos os males”. (Jornal Memória da República, Câmara Municipal de Espinho, 2011, pp 1)
E como não acreditariam nas virtualidades da revolução e na solidariedade masculina quando eram pais, maridos, irmãos, que as convidavam a colaborar, a seu lado, na propaganda republicana, transpondo, enfim, a fronteira entre o espaço privado e o público? Famílias inteiras partilhavam a mesma ideologia, as mesmas causas e essa cumplicidade contribuiria para singularizar o movimento feminista português, que, em regra, recusou a “guerra dos sexos”, e somou à questão do sufrágio as reivindicações de emancipação pela educação e pelo trabalho profissional.
Maria Barroso olhava o período da 1ª República, como a travessia de um “deserto de direitos”, onde começaram a emergir “oásis de igualdade”. Não esquecia, contudo, a recusa fatídica do sufrágio feminino, que provocou a cisão do movimento, e insanáveis divisões entre as mulheres: “divergências de opinião, de estratégia, de liderança e de rumo, conforme se assumiam como mais feministas do que republicanas e vice-versa”. (jornal Memória da República, Câmara Municipal de Espinho, pp 2)
A história ia repetir-se na geração seguinte - também Maria Barroso, nascida em 1925, se formou numa família solidária e aberta aos valores democráticos, em oposição frontal ao regime, o que, a meu ver, contribuiu para a tornar uma natural continuadora das pioneiras feministas, quase todas já desaparecidas. Ninguém mais do que ela, por si só, sem a preocupação de aderir a correntes ou a grupos, trouxe, até ao século XXI, a firmeza sem radicalismo e a intemporal modernidade das suas reivindicações, com o enfoque na paridade, (vendo a emancipação da mulher como inseparável da emancipação do homem), na educação e no acesso ao trabalho. Antes de mais na educação: só a educação e a cultura podem libertar a Mulher, pensava Maria Barroso, como Ana de Castro Osório, Angelina Vidal, Veleda ou Cabete…
Porém, num tempo em que a última associação feminista (o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, dirigido por Maria Lamas e Elina Guimarâes), fora abrupta e despoticamente extinta pelos poderes constituídos, era inevitável a diluição do feminismo na resistência antifascista, numa faixa de oposição, que atraía as mulheres com clara consciência da problemática feminina, entre elas, Elina Guimarães, a última das sufragistas, Maria Lamas e Maria Archer, e, na nova geração, Maria Antónia Palla e Maria Barroso.
É uma época em que Maria barroso se situa, a meu ver, na área mais “republicana do que feminista”, só mais tarde evidenciando o seu empenhamento particular nas questões de género, na medida em que o ritmo lento das transformações sociais e políticas em direção à paridade, contrastava com a igualdade jurídica formal, tão rapidamente alcançada na Constituição e nas leis. Vinte anos depois da Revolução de setenta e quatro, denunciava o impasse, com veemência, “Uma vez que a democracia está ferida de grandes injustiças e imperfeições, até na medida em que beneficia e valoriza ainda o modelo masculino do poder, pode por isso, dizer-se que está em crise”. (Firmeza de convicções, pp 185).
A clara consciência da enormidade das discriminações de género, que a malha das leis deixava escapar, por um lado, e, por outro, da importância fundamental do equilíbrio de poderes, feminino e masculino, no governo das Nações, acorda o seu feminismo, elevado a causa maior. No seu primeiro quinquénio no Palácio de Belém são destacadas dez intervenções neste domínio, no segundo, cerca de cinquenta, com o capítulo referente a temáticas sobre “A Mulher” a ultrapassar o da “Cultura” e da “Educação e Família”. Não é, certamente, por acaso.
Maria Barroso acreditava na paridade natural, vista como exigência ética, mas perdera a esperança de que se concretizasse durante a sua vida: “A paridade natural – que consiste na igualdade de possibilidades dadas, à partida, a homens e mulheres, e não no estabelecimento definitivo e artificial de percentagens – levará o seu tempo a conseguir”. (A Firmeza das Convicções, pp 164). Consequente e pragmaticamente, apostaria, nos anos seguintes, na imposição do sistema de quotas, a fim de acelerar o processo de empoderamento das mulheres, condição “sine qua non” de uma mutação civilizacional: “Penso sinceramente que o mundo complexo em que vivemos e sofremos poderia ser diferente se a vez e a voz das mulheres tivessem o peso nas decisões que traçam e determinam os destinos de cada povo”
O seu feminismo achava, até nas diferenças de género, argumentos para abrir campo de participação às mulheres, nos seus lugares de ausência na política, na sociedade, nas diversas profissões, rejeitando toda e qualquer forma de supremacia sexista. Era o “verdadeiro feminismo”, na expressão de Ana de Castro Osório, que o queria partilhado por mulheres e homens, para formar as mulheres pela inteligência, pela razão, pela educação, para garantir sua independência. Do mesmo modo, Maria Barroso insistia na importância de “sermos solidários uns com os outros”, a fim de atingir a igualdade natural entre mulheres e homens. Considerava a humanidade “dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina”, com dons e virtualidades semelhantes, que deviam ser potenciados pela boa e útil cooperação, porque “a humanidade é uma família”. (A Firmeza das Convicções pp 131).
Não quis ser uma teórica do feminismo, antes uma praticante, que soube mobilizar pelo exemplo e pelo discurso, pela antiga, e sempre atual, via do congressismo, com uma intensificação do ritmo, que aumentava com a idade. Foi entre 2005 e 2009, que se envolveu na mais sistemática e movimentada das suas campanhas pelos direitos das mulheres, junto das comunidades da Diáspora. Deu rosto a um plano estratégico para chamar as emigrantes à intervenção nas comunidades espalhadas pelo mundo, onde os movimentos feministas nunca haviam curado de se expandir, nem os Governos, com raríssimas exceções, tratado de promover, a igualdade entre mulheres e homens (uma tarefa de que o incumbe a Constituição, sem a limitar ao território). E teve, de facto, um papel fundamental nessa fase de viragem histórica nas políticas públicas de emigração - presidiu aos congressos, deu a sua própria dimensão cultural, a sua idoneidade, a sua marca ao projeto conjunto do Governo e de várias ONG´s do estrangeiro e do país, entre as quais a “Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade” (AMM) e a Fundação Pro Dignitate”.
Como dirigente da AMM, (entidade que apresentara o projeto inicial ao Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas), tive a sorte e o privilégio de a acompanhar na aventura cívica, que constituíram os chamados “Encontros para a Cidadania – a Igualdade entre Mulheres e Homens”.
Maria Barroso tinha mais de oitenta anos, no começo dessa longa caminhada, e não hesitou em “correr mundo”, para trazer as mulheres ao exercício da cidadania, no universo das comunidades portuguesas do estrangeiro, onde a sua situação de discriminação era patente. Situação que fora amplamente analisada e denunciada no 1º Encontro de Mulheres no Associativismo e no jornalismo, organizado pela Secretaria de Estado da Emigração, em 1985, e que, vinte anos depois, permanecia realmente inalterável: as emigrantes mais facilmente acediam ao ensino, ascendiam no trabalho profissional e eram aceites na sociedade de acolhimento do que no espaço institucional demarcado pela cultura de origem. E, por isso, se concentrou no associativismo o esforço de consciencializar para a igualdade, através dos “Encontros”, onde o Governo português esteve representado pelos Secretários de Estado da Presidência, Jorge Lacão e das Comunidades Portuguesas, António Braga.
Maria Barroso dirigia-se a esse mundo fechado e tradicionalista, para o abrir às realidades de um novo relacionamento e cooperação entre os sexos, com um estimulante discurso de dominante cultural, numa abrangência que não deixava os homens de fora. Uma estratégia consonante com o seu “feminismo natural”, que se revelou particularmente eficaz, e seria continuada nos Encontros Mundiais de 2011 e 2013, e em diversos colóquios e debates, até 2015.
Passada apenas uma década, é impressionante a evolução do papel das mulheres nas organizações das nossas comunidades extraterritoriais. Ainda longe da paridade, dirão… Sim, todavia, ver uma mulher presidente de uma associação, grande ou pequena, antiga ou recente, tornou-se coisa normal. E, uma vez que as barreiras do preconceito ruíram, a sua ascensão é imparável, está, com elas, criada uma dinâmica de resposta à necessidade sentida de ultrapassar o envelhecimento, a crise de lideranças, a ameaça de declínio do movimento associativo da Diáspora..
Maria Barroso acreditava no futuro que está acontecendo, que as suas palavras anteciparam, em terras longe e perto. Na nossa memória ecoam, com o som da sua voz… Na América do Sul (Buenos Aires, 2005): “Mulheres e homens têm de assumir um papel, onde ambos os géneros contribuem para a melhoria da sociedade”. Na Europa (Estocolmo, 2006): “É muito importante que os homens estejam aqui presentes, não queremos uma sociedade de mulheres, mas antes de homens e mulheres conscientes dos seus direitos e deveres”. Na América do Norte, costa Leste (Toronto, 2007), com o anúncio da “Lei da Paridade”, sentindo os ventos de mudança, proclamava: “A Mulher pode governar uma Nação” (e, tendo dado provas dadas a esse nível do Estado, porque não passarem de imediato, ao “governo” das associações da sua comunidade?). Na América do Norte, costa oeste (Berkeley, 2008), apelava à criação de laços entre as mulheres das diásporas lusófonas, uma meta ainda hoje largamente por cumprir. (Entre Portuguesas, 2015, pp 32 a 36). Na África (Joanesburgo, 2008), proferiu uma brilhante conferência sobre “A diacronia do pensamento sobre a Mulher”, e aflorou uma outra forma larvada de discriminação de género, o apagamento “póstumo” dos feitos das mulheres: “Apesar da História ter sido tecida por mulheres e homens, só a estes é dada relevância”. (Século de Joanesburgo, 11 de fevereiro, 2008, pp 4).
Era o retomar de um temática, que há muito preocupava a feminista, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas: “A história humana evidencia a ação do homem, esbatendo a importância da mulher”. (A Firmeza das Convicções, pp 166). “As histórias das mulheres foram sendo sempre deixadas fora da História, sendo acentuada, sobretudo, a dimensão masculina das transformações sociais e do progresso humano” (A firmeza das convicções, pp 174).
Eis sobre a História, ao longo de séculos e séculos, reescrita pela pena seletiva dos cronistas, a visão de uma Mulher para a História. Uma reflexão que, hoje, pensando nela, nos interpela… quanto do que Maria Barroso fez, no passado, chegará ao distante futuro?
Neste breve apontamento, procurei destacar a sua pertença, não só, mas também, à história do feminismo. A par do “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, ou do “feminismo tácito”de Maria Lamas, não esqueçamos o feminista vivido, o “feminismo pro dignitate” de Maria Barroso. (E que não o esqueça, sobretudo, a comunidade académica…).
Ela mesma, olhando as mulheres cujas vidas foram de “persistente doação” pela igualdade de direitos e oportunidades, dizia: “lembremos-lhe a memória, seguindo o rasto de luz que nos traçaram” (Firmeza das Convicções, pp165).
Agora, ao comemorar o seu centenário, dez anos depois de ter partido do nosso convívio, recordemos, nós, Maria Barroso e a sua mensagem universalista, feminista e fraternal. Recordemos que nenhuma figura pública do nosso país, no nosso tempo, foi tão consensual, inspiradora e amada pelos Portugueses.
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