terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

As minhas memórias do CCP (CONSELHO das COMUNIDADES PORTUGUESAS

O CCP - TRÊS GOVERNOS no CONSELHO O CCP estava destinado a ser a grande assembleia representativa dos cidadãos do estrangeiro, um fórum de encontro e reflexão sobre a realidade das migrações portuguesas e de co-participação nas políticas para a emigração e para a Diáspora - a ponte da passagem de um Portugal centralizador, ditatorial, segregacionista dos emigrantes, para um Portugal democrático e aberto a todos. Logo na elaboração do anteprojeto de lei do Conselho das Comunidades Portuguesas, a que foi dada a maior prioridade e urgência no meu gabinete, foi pensado e equacionado o papel das Regiões. A Lei fundadora (um decreto-lei com que se pretendia tornar o processo mais expedito) torna o Conselho um órgão de consulta não apenas do Governo da República, mas também dos Governos Regionais. Curiosamente, através das múltiplas transfigurações que o CCP, não obstante manter precisamente o mesmo nome, veio a sofrer, desde 1980 até hoje, a presença das "Autonomias" nunca foi contestada, mas a sua importância foi quase completamente esvaziada, após 1996. Deixaram de estar nas salas de reunião. ainda que permaneçam, de pedra e cal, na letra da lei. Têm, evidentemente, como já tinham, nos anos 80, os seus próprios mecanismos de convívio dos emigrantes e das Diásporas madeirenses e açorianas - diversos entre si, aliás, e nos quais, como é óbvio, o Governo da República não tem lugar, exceto, eventualmente, como convidado. Eu era invariavelmente convidada. Será que o foram os meus sucessores?. Talvez um deles, que era madeirense, tenha estado em iniciativas regionais no Funchal. Os seguintes, duvido... De qualquer modo, aquém e além desses congressos, o que constatámos foi um gradual apartar de caminhos. Participei "ex officio", como deputada da emigração no CCP, na sua "segunda vida", entre 1996 e 2005, e não me recordo de ver os representantes das Autonomias no palco das aberturas e encerramentos solenes, à mesa de conversações, ou nas receções sociais do Palácio das Necessidades ou de Belém. O meu trabalho conjunto com os responsáveis pela política de emigração das regiões não se limitava, porém, ao CCP. Era uma relação do dia a dia, concreta e discreta, que assumia mediatismo apenas de longe a longe - por exemplo na composição da delegação de Portugal a nível internacional. Aconteceu, pela última vez, na III Conferência de Ministros do Conselho da Europa para as migrações, a que presidi no Porto. Lá estavam, como membros oficiais da nossa delegação, Virgílio Teixeira e Duarte Mendes. Duvido que os anais de um sem número de conferências internacionais registem composição semelhante em outra delegação nacional, no campo das migrações, mas espero estar enganada. Nesse primeiro CCP até os Presidentes dos Governos Regionais participaram: Alberto João Jardim no Encontro Mundial que, em 1985, se realizou em Porto Santo e no Funchal, e Mota Amaral na Reunião Regional da América do Norte (Toronto), em 1986. PORTO SANTO Em Porto Santo, coube ao Dr Alberto João, como anfitrião, fazer a intervenção de abertura. Mal acabou de falar, um dos habituais contestatários do grupo de Paris (uma ruidosa minoria), José Machado levantou-se, avançou pelo corredor central do auditório e interrompeu os trabalhos, pedindo, intempestivamente, a palavra. Machado era, então, animador cultural dos serviços franceses para a imigração portuguesa, com quem viria a ter, muito depois, uma longa e frutuosa cooperação. Contudo, então, estávamos ainda a anos disso acontecer. AJJ, do alto do seu microfone, ordenou: - "Cale-se! (ele recuou, instintivamente, um passo). - " Aqui há democracia, com ordem e responsabilidade!" (Machado retrocedeu mais uns passos) - "Só fala quando eu lhe der a palavra." (nessa altura já o Conselheiro tinha voltado mais ou menos ao ponto de partida, lá atrás). Foi apenas o começo! Os confrontos nas sessões de trabalho, já sem o Presidente do Governo Regional mas com a Presidente do CCP, (eu própria, por delegação de competência do Ministro dos Negócios Estrangeiros), sucederam-se numa espiral de turbulência. Nada que me causasse desconforto. O problema maior era convencer os conselheiros do Brasil, os meus mais acérrimos defensores, a não se interporem nas discussões, porque eu gostava de responder frente a frente. Por fim, grupo de Paris veio comunicar-me que deixaria de participar na assembleia dos seus pares, para reunir à parte. Respondi prontamente: - Tudo bem! Como é óbvio, têm plena liberdade de fazer o que muito bem entenderem, aonde e quando quiserem, mas à vossa custa. O governo só pode suportar as despesas com os trabalhos do Conselho: gastar verbas do orçamento Estado em atividades privadas seria um desvio de fundos - está fora de questão!. E deixei-os a discutir entre eles, como pretendiam. O hotel era caro... Nessa noite, de malas na mão, tomaram o voo para Lisboa, onde pernoitaram, seguramente, por preços mais em conta... E, no dia seguinte, convocaram uma conferência de imprensa para provocarem o escândalo da praxe. O que corre bem não faz notícia, ou faz sem privilégio de primeira página, mas, na verdade, em Porto Santo, as condições de debate melhoraram substancialmente. Posições diferentes havia, naturalmente, mas acabara o afrontamento partidário. Os dissidentes não tinham seguidores fora da Europa e nem mesmo conseguiram todo o contingente europeu - longe disso. Só num aspeto tiveram mais sorte do que os outros - escaparam a uma viagem de susto, contra ventos (quase) ciclónicos entre o Porto Santo e o Funchal! No último dia, um grande temporal atingiu as ilhas e interrompeu as ligações marítimas entre elas, mas os aviões operaram normalmente, os mais pequenos, como os de maior porte. Eu ainda pensei optar por um dos "mini aviões" porque teriam mais pista para o poiso... Todavia, pensando bem, o risco de turbulência seria bem pior. Nunca vivi nada semelhante à entrada no Boeing - tão forte era o vento que pouco faltou para termos de rastejar até à porta. como num exercício militar. Em compensação, o trajeto foi tranquilo. 20 valores para a tripulação da TAP! Vim a saber que o comandante era, de facto, do melhor que a companhia desse tempo tinha - e, nesse tempo, no que respeita a perícia dos pilotos, a nossa TAP era insuperável. TORONTO No ano seguinte, realizou-se o que sempre considerei como a reunião mundial no formato "plenário por regiões", que alternava com o "plenário por secções". O plenário do CCP era, nos termos da lei, convocado, uma vez por ano. Todavia, em 1983, os conselheiros, por consenso geral, dirigiram ao governo uma recomendação em que propunham a realização alternada de uma reunião no país, e de uma sessão quadripartida geograficamente por grandes regiões - América do Norte, América do Sul, África e Europa (a Àsia/Oceânia. com um único representante tinha a possibilidade de escolher aquela em que queria participar). A recomendação foi, naturalmente aceite. A lei não especificava um "modus faciendi" para os trabalhos do nosso "conclave" mundial e foi adotada, desde o início, a audição em secções especializadas, que decorriam em simultâneo, pelo que os conselheiros tinham de escolher a pertença a uma ou várias. Por isso, do ponto de vista da qualidade da consulta, era mais englobante fazê-la por regiões em vez de secções, ouvindo todos os representantes sobre todas as matérias. Esta forma de configurar juridicamente a reunião mundial não é nada de original - veja-se o paradigma da Assembleia do Conselho da Europa, onde o plenário se reparte, não geografica mas cronologicamente, em 4 partes da sessão plenária - um mês no total, dividido por quatro semanas). A recomendação de 1983 foi vertida num decreto-lei, com essa e outras pequenas alterações pontuais ao Decreto-Lei fundador do Conselho - mas o processo legislativo, como é normal no nosso país, foi retardado algures numa das gavetas de um ministério, por onde o diploma circulava obrigatoriamente, e, apesar da minha insistência, quando chegou a data da 1ª Reunião Regional, agendada para os arredores de Paris (La Rochelle), assinei a convocatória, por despacho, apoiado numa interpretação que considerava caber na letra da lei - o fazê-lo em novo diploma legal era, no fundo, sobretudo, um meio de dar especial relevo à inovação e de resolver outras questões, como a participação igualitária de associações culturais e sociais ligadas a igrejas, que levantara polémica, embora apenas na Alemanha. O grupo de Paris viu no despacho uma oportunidade de fazer barulho - tudo lhes servia, até o que só podia causar dano sem outro proveito que não fosse a "bagarre" pela "bagarre". Mas, do ponto de vista deles, isso era pertinente, pois o CCP sempre foi visto e utilizado como arma para bombardear o inimigo (ou seja, o governo, "hélas", com o meu rosto muito concreto...). Convertidos em arautos de uma interpretação restritiva da letra da lei, ei-los a recusar a reunião regional, antes de consagrada legislativamente. Se bem me lembro, aceitavam comparecer em La Rochelle, apenas enquanto encontro informal. Estava numa sala VIP de aeroporto, em Paris, quando da Embaixada, me deram essa notícia. Falei de imediato com o Ministro Jaime Gama, que concordou plenamente com o adiamento "sine die" da reunião regional da Europa, Dito e feito - ao chegar a Lisboa lavrei o despacho. A reunião não chegou a acontecer, ao contrário das da América do Norte em Danbury e da América do Sul/África/Oceânia em Fortaleza (Brasil), que foram um sucesso. Entretanto, a lei fora publicada e o grupo de Paris processara judicialmente o governo português. Perderam o processo, é claro, com decisão dada um ou dois anos depois. A sentença aceitou plenamente a argumentação do Governo. Voltando aos nossos parceiros insulares: como os "radicais"ligados ao PCP eram todos continentais, nunca eles foram molestados por campanhas de imprensa, ou quaisquer outras... Todavia, em Toronto, coincidindo com o encontro do CCP, mas sem nada ter a ver com ele, pretextos houve que serviram para pôr em palco a questão regional - no caso, tratando-se dos Açores, nada de novo, só mais um episódio da "guerra de bandeiras" . Estava o Presidente Mota Amaral alojado num dos muito bons hotéis da cidade, que, para homenagear o seu mais ilustre hóspede, hasteou na frontaria a bandeira azul e branca, pontuada de açores em voo (esteticamente uma beleza!). Levantou-se, de imediato, em Lisboa, um coro de protestos, insinuações de separatismo, o habitual... Não contaram comigo. Pareceu-me muito bem que um líder regional fosse saudado com a bandeira da Região... No CCP falámos de outros temas mais importantes, numa reunião que, como dizem no Brasil, correu "bem demais". A reunião em si e "a latere" a parte social também, O Ministro da Imigração do Ontário, Tony Ruprecht, que era amigo do Cônsul António Tânger, fora, pouco antes, meu convidado em Portugal (Lisboa, Porto, Amarante - com visita ao Museu Sousa Cardozo e à casa de Pascoaes), Retribuiu-nos em Toronto, por altura dessa realização do CCP-América do Norte, com um grande banquete oferecido a todos os conselheiros. O facto ganha particular realce, se pensarmos que, meses antes, as eleições para o órgão homólogo de Itália,que são efetuadas, "in loco", por sufrágio direro e universal (os "Comitati" de Emigrantes italianos) tinham sido proibidas em todo o país, em nome da legalidade, por se tratar de uma instituição oficial estrangeira. Em relação ao nosso, tivemos a prudência de esclarecer previamente, que se tratava de um órgão consultivo emanado do associativismo local, ou seja, representativo, bem vistas as coisas, de organizações de direito canadiano, E chamámos a atenção para a singularidade de os conselheiros poderem mesmo ter, apenas, nacionalidade canadiana, de origem ou por naturalização (isso no Canadá só terá acontecido com portugueses naturalizados canadianos, mas, por exemplo, no Brasil, foi extensiva a naturais do País, de ascendência portuguesa - ou não! - , desde que se tratasse de presidentes ou dirigentes de instituições da nossa comunidade, pois esse era a qualidade que relevava). Esta preciosa diferença, verdadeira ponte de união entre gerações, abrangendo os luso-descendentes, e entre povos e governos, perdeu-se, quando, em 1996, copiámos a reforma do Conséil francês, que, a partir de 1984, adotou um modelo de sufrágio universal, influenciando os congéneres italiano e espanhol, nascidos na segunda metade da década de 80. Um e outro sistema têm evidentes vantagens e inconvenientes. O novo, entre nós em vigor desde 1996, é aparentemente mais democrático, pela especial legitimação do voto popular, mas, deixando, na prática, os conselheiros desprovidos de grandes meios de trabalhar, caso falte o suporte do governo, logo, mais dependente... O originário, associativo (o CCP em funções entre 1981 e 1987), era mais abrangente, aberto, sem exigência de nacionalidade ou de inscrição consular, a todos os verdadeiros construtores e continuadores das Comunidades, através de poderosas estruturas orgânicas, tendo, por isso, a força que lhe dá essa rede organizacional, eventualmente, aré para enfrentarem governos adversos ou desinteressados (como mostra o historial da instituição as mais das vezes desinteressados, raras vezes o consultando, de facto, sobre a feitura de leis ou a tomada de medidas concretas...). Ponderando em favor de um e outro, apresentei na Assembleia um anteprojeto que previa a coexistência de dois colégio eleitorais, com idêntico número de representantes, um eleito no círculo associativo (tanto portugueses, como luso descendentes), e outro eleito por sufrágio universal (restrito aos nacionais com passaporte, inscritos nos consulados). Só os italianos consagram um sistema que visa a mesma finalidade de abarcar o mundo da Diáspora e não só da emigração recente. Conseguem-no, atribuindo aos eleitos diretamenmte o poder de cooptar uma determinada proporção de dirigentes associativos, que podem ser italo-descendentes. O nosso primeiro CCP visava expressamente a valorização das comunidades orgânicas e a cooperação interinstitucional, quer a nível de cada país, quer a nível mundial (objetivo fundamental, sabido que de todos os países europeus de emigração antiga, somos o único que nunca conseguiu estabelecer uma grande federação internacional. E, por isso, o Conselho mundial era apenas a cúpula de um edifício, assente numa base muito alargada - nas comissões de país, formadas por líderes associativos, que tinham, por incumbência legal, elegiam os membros do Conselho mundial, no número atribuído a cada comunidade, segundo a sua dimensão. Este era o único dever a que estavam vinculados, com prazos e regras a cumprir rigorosamente. Em tudo o mais, decidiam livremente o número de membros que entendiam por ideal, os programas de atividades, o regimento interno... Foi uma originalidade nossa. No sistema italiano ou espanhol, a lei uniformiza o modo de funcionamento das delegações locais, que atuam junto dos consulados, e o francês foi, desde o início, igualmente centralizador. Não admira, pois, que os governos dos países de acolhimento olhem os "Conselhos" como entidades "estrangeiras". Não, assim, como disse, as nossas Comissões de País, genuinamente locais, e, por derivação, o próprio CCP. . Os plenários regionais contaram sempre com uma boa colaboração das autoridades do território onde tiveram lugar - nos EUA (1984, Danbury - Conn), no Brasil (1984, Fortaleza, depois,1986, Maringá), no Canadá (1986, Toronto), na RAS (1986, Capetown), na Alemanha (1986, Stuttgart). A primeira reunião regional, que deveria ter sido a de França, (adiada para as calendas pelo radical oposição do núcleo parisiense) foi a de Danbury, esplendidamente organizada pelo presidente da Comissão dos EUA, DoutorJosé Alves Cachadinha, na sua paróquia do Imaculado Coração de Maria, em Danbury, em Outubro de 1984. Nunca mais teríamos nenhuma assim, pelo envolvimento comunitário, pela projeção mediática local, pela qualidade de intervenção, sobretudo do próprio organizador, isto é, pelo trabalho e pelo convívio. E foi aí que surgiu a ideia da realização de um Encontro Mundial de Mulheres da Diáspora, que, no ano seguinte, com verdadeiro pioneirismo a nível planetário, daria origem às políticas de género na emigração portuguesa! A proposta começou a ser gizada num dos memoráveis jantares com que nos brindaram os paroquianos da Igraja de Danbury - onde a reflexão sobre muitas questões tratadas no plenário era continuada com os muitos convivas presentes, e onde, às vezes, aconteciam as coisas mais interessantes. A ideia desse Encontro foi de Natália Dutra, a mulher de um conselheiro do sul da Califórnia, o Prof Ramiro Dutra, prestigiado académico e grande dinamizador da cultura portuguesa e do associativismo. Natália era, também, uma ativista na nossa comunidade, fundadora e dirigente de uma sociedade fraternal feminina, e lançou a ideia em boa hora. Ao lado, a única mulher, que era, então, membro do CCP/América , a jornalista Maria Alice Ribeiro,( proprietária e diretora do Correio Português, o mais antigo jornal lusófono de Toronto), logo manifestou o seu entusiasmo pelo projeto e, no dia seguinte, foi ela que o apresentou, formalmente, no plenário regional, onde o aceitaram consensualmente. Ainda hoje, quando refiro a génese das políticas para as portuguesas emigradas, o Encontro Mundial de Viana/1985, não sei ao certo, a quem conferir a autoria da recomendação feita ao Governo. O mérito é das duas - da que lançou a ideia, no ambiente convivial, e da que a apresentou, formalmente, em sessão do Conselho. E, depois, de uma série de mulheres envolvidas na execução do projeto, como a Dr-ª Maria do seu Cunha Rego, a Prof Graça Guedes, do Centro de Estudo, que funcionava no Porto, e das dirigentes de topo do Instituto de Apoio à Emigração e Comunidades Portuguesas, Drª Luisa Pinto, presidente e Drª Rita Gomes, vice-presidente. A Secretária de Estado, obviamente, foi uma convicta apoiante de primeira hora (embora não pudesse imaginar o brilho e a qualidade das intervenções do mítico Encontro de Viana - aliás, creio que não terá sido a única a ficar surpreendida por um sucesso muito acima das expetativas...). Todavia, nem só no feminino se trabalhou para esse sucesso. O papel de Duarte Mendes foi importantíssimo, ao indicar e, sobretudo, ao motivar à participação de notabilíssimas mulheres das comunidades açorianas (e açoriana era também a "mãe" do projeto, Natália Dutra). Emigrantes açorianas, madeirenses, continentais apresentaram comunicações, (avaliadas por um jurí de especialistas, evidentemente). E tiveram ocasião de privar em Viana, com notáveis vultos da Cultura, como Agustina Bessa Luís e Salvato Trigo, com políticos, com jornalistas... O maior número era o das Açorianas - nada de surpreendente pois foram, na Califórnia, desde fins do sécculo XIX, as grandes pioneiras do associativismo feminino, dentro das correntes do fraternalismo mutualista. Da Madeira, também o contingente, embora menor em número, era notável - algumas viriam a pertencer, depois, ao Congresso das Comunidades Madeirenses.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

UM ADMIRÁVEL MOVIMENTO SÉNIOR

(As "universidades") 1 - Realizou-se, há poucos dias, no Porto, um Congresso Científico e um Encontro Mundial de Universidades Seniores, promovidos pela RUTIS - a rede que procura abarcar boa parte das chamadas "universidades seniores", que um movimento de cidadãos vem criando, em Portugal, desde as últimas décadas do século XX. A convite da Universidade Senior de Espinho (USE), tive a sorte de poder participar nestas importantes reuniões internacionais, juntamente com a sua Presidente Drª Glória Rocha e o Sr Van Zeller. Sou admiradora declarada do paradigma institucional a que, nas últimas décadas, deram e dão vida muitas centenas de iniciativas locais, inspiradas umas nas outras, de norte a sul do continente e nas ilhas atlânticas - entre as quais se distingue a que tenho acompanhado mais de perto, a USE. Esta era, pois, uma oportunidade única para alargar os horizontes do conhecimento sobre tal domínio - o vibrante mundo novo dos mais velhos, unidos e reunidos para voltarem "ao ativo"- olhando-o numa perspetiva comparatista. Participaram nos trabalhos investigadores, políticos, deputados, autarcas, dirigentes associativos de vários países e continentes, sobretudo da Europa, ocidental e de leste, das Américas, e também da África, com uma presença muito significativa do Brasil e da Galiza, que nos são tão próximos cultural e afetivamente. A maior parte dos académicos levaram, todavia, o debate para outras configurações deste fenómeno - não as que são comuns num sem número das nossas cidades, vilas e aldeias, mas as que se centram nas próprias universidades públicas ou privadas, em cursos de frequência universitária intergeracional, ou de extensão à comunidade, com ou sem a possibilidade de passar exames (sempre facultativos), e de atribuir, ou não, diplomas oficiais. É uma vertente que se acrescenta e completa a mais corrente entre nós, a de um puro associativismo de base etária, popular e cidadã, e vem privilegiar a perspetiva de "intergeracionalidade" que é aquela em que se colocam as chamadas "age friendly universities" (na tradução portuguesa: "universidades amigas de todas as idades"). Algumas atuam já em redes internacionais, como no caso que nos foi apresentado da Universidade de Leeds. Do Brasil nos chegaram, igualmente, nas jornadas do Porto, bons exemplos de universidades abertas aos mais idosos - de Campinas a Goiás - assim como de Espanha, das Universidades de Vigo, Corunha e Salamanca e do Campo Educativo de S. Alberto (Nóia - Galiza). Da Eslováquia, destacou-se a presença da Universidade Técnica de Zvolen. E de Portugal tivemos mostra convincente de uma adesão crescente a esta corrente, com programas inovadores, como os da Universidade do Porto, em especial da Faculdade de Desporto, ou os do Instituto Politécnico de Leiria. E quantos mais não haverá? Foi o que perguntei a uma das investigadoras presentes. Ao que parece o levantamento está ainda largamente por fazer. Um tema excelente para teses de mestrado, sugeri, e a minha interlocutora concordou. 2 - Uma outra questão quis colocar ali, entre tantos e tão excelentes especialistas: a da pertinência da disseminação das academias séniores no contexto da emigração, como instrumento de convívio, de combate à solidão, de integração em sociedades estrangeiras - um objetivo extra a alcançar, para além das demais finalidades a que, nos seus vários moldes, se votam com enorme sucesso. Aí a resposta que obtive (de Nuno Frazão) foi: "Essa é a pergunta que vale um milhão de dólares" . Também acho, dado que não se trata de tarefa fácil... Sei-o por experiência própria, desde que, em 2008, num encontro com mulheres portuguesa em Joanesburgo, a Professora Graça Guedes lançou a ideia da formação de universidades seniores locais, dando o exemplo da USE. A partir de então, a" Associação Mulher Migrante", a que a Professora e eu pertencemos, transformou a ideia em projeto prioritário, procurando impulsiona-lo no vasto círculo da nossa Diáspora. Na África do Sul, a Liga da Mulher Portuguesa veio a constituir, algumas das primeiras universidades deste tipo em comunidades de emigração (não digo as primeiras, porque suponho que já então existia a da Paróquia de Santa Cruz, em Montreal, com centenas de alunos e numerosas disciplinas). Seguiu-se a Argentina, por obra da Presidente da Associação Mulher Migrante nesse país, Maria Violante Martins e está em fase de estudo uma outra em Toronto. É ainda pouco para a continuada divulgação que temos feito junto de outras comunidades da emigração. A meu ver, o maior dos obstáculos à sua expansão é o desconhecimento das virtualidades do modelo. Os líderes das comunidades parecem não acreditar na capacidade de empenhamento, de assiduidade dos idosos na vivência desta fórmula de associativismo sócio-cultural. O generalizado êxito das academias ou tertúlias seniores no nosso país demonstra (exuberantemente!) o contrário - mas lá longe isso não é evidente. Se pudéssemos convidar alguns desses líderes a vir a Espinho para acompanhar uma semana de trabalho da USE, aqui mesmo fariam a sua "estrada de Damasco"... O mais complicado é mesmo dar o primeiro passo, implantar as primeiras Universidades, depois o seu exemplo promoverá rapidamente um movimento, que tão eficazmente responde a necessidades e anseios de sociedades com uma forte componente de populações envelhecidas, que, todavia, querem envelhecer com mais força anímica e coragem de combater a visão distorcida das suas reais capacidades. 3 - É extraordinário o surgimento, em Portugal, deste associativismo destinado a idosos, e, note-se, em larga medida, fundado e dirigido pelo grupo etário dos "mais de 50", com uma participação maioritária de mulheres. A sua expansão por todo o território, a sua expressão quantitativa e qualitativa coloca-nos na vanguarda, a nível europeu e universal- constatação tanto mais relevante quanto, a nível de políticas públicas, estamos ainda numa retaguarda, entre aqueles Estados que parecem considerar a terceira idade como um pesado fardo e limitam as suas preocupações para com ela à sustentabilidade do sistema pensões ou aos cuidados de saúde, chegando ao extremo de a discriminar no plano económico, cívico e cultural. Veio tarde - mas mais vale tarde do que nunca - por Resolução do Conselho de Ministros de 29 de novembro de 2016, o reconhecimento governamental do papel das universidades seniores, pela forma como têm colmatado a inércia do Estado na defesa dos direitos dos mais velhos à igualdade de oportunidades, à valorização cultural e à participação cívica e política. A Resolução reconhece a RUTIS, justamente, como entidade parceira no desenvolvimento de "políticas de envelhecimento ativo e da economia social". De facto, a RUTIS enquadra uma boa partes das muitas centenas de instituições deste género existentes atualmente. Ao discursar na sessão da abertura do Congresso do Porto, o seu presidente Dr Luís Jacob traçou um quadro com números deveras impressionantes: 302 afiliados, mais de 46.000 alunos e 5.600 professores, com idades e formação variáveis. Cerca de 75% dos frequentadores das "universidades" são mulheres. A média de idades é de 67 anos, a média de habilitações o 9.º ano de escolaridade, a média de propinas pagas de 10 euros. Entre os docentes, as mulheres são 66%, os doutorados 27% e os licenciados ou bacharéis 58%. Quase todos exercem as funções "pro bono", mas, se fossem remunerados, receberiam, anualmente, na estimativa do Presidente da RUTIS, mais de quatro milhões de euros. Contudo, a meu ver, a maior riqueza criada, quer nas chamadas "universidades" deste grande movimento social, quer nas Universidades oficiais abertas à inclusão da "terceira idade" é a imposição de uma nova imagem, mais real e positiva da qualidade humana de toda uma geração, de rosto rejuvenescido no processo de relativização do envelhecimento. Imagem que, no mundo académico, vem sendo validada cientificamente em múltiplos domínios, nomeadamente o do empreendedorismo e da "economia grisalha" ("silver economy"), e, no mundo associativo, é credibilizada pela "mais valia" de uma dinâmica intervenção cultural nas comunidades locais. É o caso da USE, na cidade de Espinho.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

EU REGIONALISTA ME CONFESSO (DAR A SUA PARTE ÀS NOSSAS REGIÕES)

I - UM PRIMEIRO PASSO NA ROTA DA CUMPLICIDADE - A democracia fez das nossas formosas duas REGIÕES AUTÓNOMAS. Deu-lhe, não sem alguma relutância, um novo peso, com a oportunidade de vencerem a distância do poder central, a cujo tradicional descaso, só escapa Lisboa, onde está instalado. Beneficiaram, pois, de algum modo, do surto de descolonização, elas que, antes, partilhavam o destino de outras realidades insulares lusófonas. No seu caso, dentro de fronteiras, não pela via da independência - substantivo que A J Jardim atribuiu, como nome, a um barco que liga o Funchal a Porto Santo - mas pelo da autonomia, cujos limites foram crescendo, não sem alguns atritos no percurso. Só ganharam com isso e o País também (exceto, eventualmente, numas contas parcelares de contabilidade de mercearia). Como nortenha e portuense sempre soube que fomos sempre fomos portugueses menos iguais do que outros e ainda somos. Enquanto não posso bater-me, salvo com palavras, contra o Terreiro do Paço e pela regionalização da minha terra, vou valorizando o paradigma das Regiões Autónomas que há, Levei, naturalmente, comigo essas inabaláveis convicções para o primeiro governo a que pertenci, em 1978. Como Secretaria de Estado do Trabalho, tive, enfim, ocasião de apoiar, pela ação, na medida das minhas modestas possibilidades, o reforço das autonomias, quando o Diretor-geral do Trabalho, me veio relatar, com uma infinidade de pormenores, um conflito até então insanável que dividia os Governos, central e regional, com epicentro na Praça de Londres. Em síntese, o imbróglio era o seguinte: executara-se, a mal, a regionalização dos serviços da área do Trabalho, mantendo a Lisboa a dependência dos serviços da Inspeção de Trabalho, em conformidade com o normativo das convenções da OIT. Até então, esses serviços partilhavam com os demais teto, publicações, documentação, mapas de pessoal das empresas. viaturas, etc,etc. Com a cisão, em clima de acesa discórdia, ficou tudo isso do lado dos departamentos inseridos nas estruturas regionais, que, por assim dizer, "jogavam em casa" e a inspeção viu-se na rua, sem poiso certo e sem papéis. O Diretor-Geral, que me considerava já então, suponho, um temperamento aguerrido, mas desconhecia o meu pendor regionalista, esperava mais um cruzado (ou cruzada) naquela sua luta e ficou vivamente dececionado, ao deparar com uma invencível vontade de transigir... Chamei-lhe a atenção para o facto de não ter conseguido resolver o impasse, falhado o diálogo, nem pelo recurso aos tribunais nem pelo recurso à força. "Acha viável uma expedição militar?" - perguntei-lhe eu - "Se não, resta a hipótese de uma conversa amável - acompanhada de cedências muito concretas - que eu estou pronta a ter com o outro lado". Chamei, de seguida, a Lisboa o Secretário Regional do Trabalho, Bazenga Marques, que entrou no meu gabinete, com um ar aparentemente relutante. Começámos por tomar café. como sempre eu começava uma conversa com qualquer convidado e, sem preâmbulos, ainda de chávena na mão, disse-lhe: "Sei que tem havido alguns incidentes no relacionamento entre os serviços regionais do Trabalho e a Inspeção de Trabalho. Vamos acabar com isso, facilmente! Há o problema da casa, que é vossa, indiscutivelmente. E do carro - também é vosso. E há os mapas de pessoal, e outros documentos, que temos de partilhar. Vamos combinarmos quem os recebe primeiro e passa, depois, ao outro serviço". A recetividade do meu convidado a este desafio foi imediata e total. Quanto ao carro, eu tinha falado previamente com o Ministro, que dispunha de vários automóveis ao serviço do gabinete, nem todos absolutamente imprescindíveis, Pedi-lhe o mais pequeno para enviar para o Funchal e ele disse-me logo que sim (poucos ministros se mostrariam tão disponíveis para perder um bem, ainda que pequeno, do seu património estatal, mas este era diferente - como eu, grande adepto de resoluções rápidas e práticas. Pude, assim garantir a Bazenga que o automóvel seguiria, prontamente, para lá. E pedi-lhe ajuda para encontrar um andar para arrendamento, que, no Funchal, não era coisa muito fácil. Ao que ele logo anuiu. Assim ali se iniciou não só um perfeito entendimento, como uma sólida amizade. O combinado, informalmente, sem mais papelada ou assinaturas, foi cumprido à risca. A partir daí, um telefonema bastava para tratar qualquer questão superveniente. Antes de endereçar o convite a Bazenga Marques para o encontro na Praça de Londres, prudentemente, falara sobre o caso com Nascimento Rodrigues, assessor do Ministro, sindicalista, PSD, futuro ministro, e, depois, Provedor de Justiça. Um homem muito experiente e capaz, que tinha os melhores contactos com o governo madeirense e aceitou fazer uma primeira abordagem ao meu interlocutor. Desta forma, garanti, "ab initio", um precioso suporte do gabinete e do próprio Ministro Eusébio Marques de Carvalho, que, como disse, até um dos carros postos ao seu serviço disponibilizou para consolidarmos as negociações. Depois de uma guerra inútil veio uma paz duradoura. Uns meses depois, Ministro, Secretários de Estado e as mais altas chefias do Ministério do Trabalho deslocaram-se à Madeira para celebrar, formal e festivamente, os protocolos de regionalização de serviços. Visita preenchida com numerosas visitas a instalações de departamentos de trabalho e emprego, muito mediatizada, num ambiente de inexcedível hospitalidade, que culminou, no último dia, com um faustoso banquete no Reid's. AJJ falhou uma parte do programa, porque entretanto se adensara dramaticamente a vida política da República e ele fora a Lisboa participar num espetacular comício, convocado em Lisboa, de uma hora para a outra, que constituiu como que uma "prova de vida" do PSD, após a cisão do grupo parlamentar, durante a votação do Orçamento de Estado. Não poderia, pois, o enquadramento de uma viagem de membros do governo Mota Pinto a um governo regional ortodoxamente social democrata, ser mais desfavorável, mas nesta área particular, o entendimento era real e a questão partidária não o abalou... AJJ estava eufórico e, logo nos primeiros momentos do cerimonioso banquete do Reid's, não se coibiu de proferir, com ar bem disposto, e a pretexto de justificar a sua ausência na véspera, uma frase que poderia ter sido entendida como rondando a fronteira da provocação. Qualquer coisa do género: "Aquele comício de ontem deve ter sido uma grande surpresa para quem julgava que o PSD estava dividido ao meio". Fez-se silêncio na compridíssima mesa, ao redor da qual a mancha escura dos fatos masculinos - excetuando a minha pessoa, os convivas eram todos homens - contrastava com a claridade da toalha branca, da baixela e dos cristais. De saias, como eu acentuava ao contar, mais tarde, estes episódios, só o Bispo do Funchal e eu. Por sinal, o protocolo colocou-me ao lado do Senhor Bispo e rigorosamente em frente a AJJ, ao lado de quem ficaram o Ministro Marques de Carvalho e o meu colega da Secretaria de Estado Emprego (e lealíssimo amigo), João Padrão. Foi uma colocação certeira do ponto de vista convivial, porque o Bispo era, naquele alargado círculo, o mais espirituoso e descontraído dos comensais, e Alberto João o segundo no topo deste "ranking". Voltando ao comentário de AJJ, aparentemente uma espécie de repto aos "continentais", e ao silêncio se lhe seguiu: fui eu que lhe pus termo. Sem querer, com uma resposta puramente lúdica e espontânea ("beguinner's luck"?) dei fim ao silêncio, à hipótese de controvérsia ou hostilidade, ou ao que quer que estivesse destinado a acontecer. Não recordo as palavras precisas, mas sei precisamente o seu sentido. Olhei diretamente AJJ e opinei, sem meias palavras: "Tem toda a razão. Estes dissidentes do PPD não arrastam multidões. O partido está solidamente com o líder ." Era uma verdade insofismável, mas verdades desse tipo não costumam sair da boca de políticos a quem causam qualquer espécie de constrangimento. O Ministro e o Secretário de Estado do Emprego não se mostravam nada incomodados e AJJ ficou pouco menos do que estupefacto. Todos os outros, o acompanharam, suponho. Daí por diante, a conversa fluiu, leve, animada e divertida, comandada por AJJ que, habilmente, mudou o registo e passou à crítica bem humorada a outros quadrantes, preferencialmente ao PS. Nem o Dr Soares escapou... O PS era o inimigo declarado do governo da República (não menos do que esquerdas marxistas, leninistas, maoistas, etc) e, pelo visto, igualmente, do governo regional - ou seja, era o inimigo comum. Uma nota sobre o posicionamento político do trio de governantes da Praça de Londres: éramos todos independentes ("ça va de soi", num governo de iniciativa presidencial, onde só um secretário de Estado era do PPM - ou do CDS? - e, talvez não por coincidência, foi o único a deixar a meio o barco em que navegávamos, gostosamente, com Mota Pinto). Independentes, mas não um "rassemblement" de tecnocratas. Mota Pinto era um académico, e nesse meio recrutou a maioria dos elementos da sua equipa. Alguém, já não sei quem, comentou, na altura, que o Conselho de Ministros mais parecia um Senado universitário. Era, além disso, um dos fundadores do PSD, um dos seus principais ideólogos, um social-democrata da escola germânica. Procurou, evidentemente, parceiros dessa área... Muitos deles foram, depois de deixarem os cargos, em Agosto de 1979, convidados, logo em janeiro de 1980, por Sá Carneiro para o seu governo. Uma espécie de homenagem póstuma (e bem merecida!) à qualidade da governação de Mota Pinto. Antes do final desse ano de 1980, já Sá Carneiro e Mota Pinto estavam, lado a lado, na campanha presidencial... Era o meu sonho feito realidade, como "incondicional" de Mota Pinto e Sá-carneirista assumida - não apenas desde 1974, mas, em boa verdade, desde 1969... II - A MESMA ROTA NA DIÁSPORA
Nos governos de 1980 em diante, transitei do Trabalho para a Emigração. A sintonia com a Madeira estendeu-se, desde então, a todo o universo da Diáspora. Não havia aqui lugar a qualquer forma de dependência, era uma colaboração entre iguais, que, tal como a ensaiámos, não continuava relacionamentos do passado, escassos e descontínuos, mas os criava de raíz - para mim, da maior utilidade, porque muitos eram os emigrantes originários das Ilhas, sobretudo nas comunidades transoceanicas, com os quais começava a contactar, em visitas a instituições de uma dimensão e ação espantosas, que muito pouco deviam ao Estado Português. No Brasil, mais do que em qualquer outro país, onde continentais e insulares se distribuem por todo o país, com grandes zonas de colonização açoriana no sul e Casas dos Açores ou da Madeira em várias cidades. Na Venezuela e África do sul, a predominância é de madeirenses, na América do Norte de açorianos, como nas Bermudas, ou no Hawaí (aqui, depois de se ter iniciado com pioneiros madeirenses, em 1876). A aconselhar o relacionamento estreito entre governos, o facto de as Regiões terem políticas de emigração e serviços exemplares, em muitos aspetos superiores aos da República, mais próximos das pessoas, mais atentos aos seus problemas, mais eficazes. A meu ver, menos burocráticos,mais terra a terra. Na verdade, em Lisboa, os funcionários conheciam, quando muito, os casos da França e outros países europeus - geografia jogava poderosamente contra os mais distantes, que eram visitados, episódica e apressadamente, por Ministros ou Secretários de Estado, sem consequências de vulto, em termos de apoio ou acompanhamento. Das milhares de clubes e centros comunitários existentes por esse mundo fora, nem um só teria arrancado do chão, se para isso dependesse de um pequeno subsídio do Estado - um contraste radical com o contexto em que prolifera um sem número de congéneres que, dentro do país, não fazem nem tanto nem tão bem... A colaboração vinda de trás tinha agora terreno ainda mais vasto para prosseguir, com companheiros de caminhada animados do mesmo espírito (e, na altura, até do mesmo partido, embora isso não fosse factor de peso). Falei do "caso" da Madeira, em 1979, mas nos Açores também houve solenes assinaturas de protocolo de regionalização de serviços, (na Praça de Londres, não nas Ilhas de bruma) e precedidos e seguidos de muitos telefonemas informais. O meu homólogo regional era um jovem chamado Gentil Lagarto. A principal diferença face à Madeira foi o facto de todo o processo ter sido pacífico. Dizem que as pessoas felizes não fazem história. Os processos felizes também não. Contudo, embora tivesse perdido o rasto ao realmente gentil Dr Lagarto, o que não aconteceria com o amigo Bazenga Marques, prontamente estabeleci relações "à moda do Funchal" com Angra do Heroísmo. Durante os meus anos no governo. Lisboa- Angra- Funchal conversaram à volta da távola redonda sobre as grandes questões da globalidade das migrações portuguesas, acrescentando mais valias ao tratamento dessas questões, sem ninguém jamais ter interferido no área própria de cada um dos outros. O Diretor do Serviço das Comunidades Madeirenses era um emigrante famoso, o mais famoso do seu tempo, o ator de Hollywood, Virgílio Teixeira. O responsável por idênticos serviços na Terceira, Duarte Mendes, era um funcionário de excecional qualidade, alguém que conhecia todas as pessoas e instituições que faziam mover as comunidades açorianas. A triangulação entre a continente e as duas Autonomias, neste domínio, foi, suponho, absolutamente inédita e resultou na perfeição, numa relação de inteira confiança, solidariedade e amizade. Não me digam que o fator entendimento concreto entre pessoas não é o mais importante. É! O meu genuíno e primordial regionalismo levar-me-ia, em qualquer caso, a tentar o que tentei - a aproximação às Regiões. Mas tive a sorte de ser correspondida e o ter feito amigos depressa e para sempre, tornou fácil e eficaz o projeto de cooperação, que, cedo, atingiu um ponto alto dentro do Conselho das Comunidades Portuguesas. O CCP - TRÊS GOVERNOS no CONSELHO O CCP estava destinado a ser a grande assembleia representativa dos cidadãos do estrangeiro, um fórum de encontro e reflexão sobre a realidade das migrações portuguesas e de co-participação nas políticas para a emigração e para a Diáspora - a ponte da passagem de um Portugal centralizador, ditatorial, segregacionista dos emigrantes, para um Portugal democrático e aberto a todos. Logo na elaboração do anteprojeto de lei do Conselho das Comunidades Portuguesas, a que foi dada a maior prioridade e urgência no meu gabinete, foi pensado e equacionado o papel das Regiões. A Lei fundadora (um decreto-lei com que se pretendia tornar o processo mais expedito) torna o Conselho um órgão de consulta não apenas do Governo da República, mas também dos Governos Regionais. Curiosamente, através das múltiplas transfigurações que o CCP, não obstante manter precisamente o mesmo nome, veio a sofrer, desde 1980 até hoje, a presença das "Autonomias" nunca foi contestada, mas a sua importância foi quase completamente esvaziada, após 1996. Deixaram de estar nas salas de reunião. ainda que permaneçam, de pedra e cal, na letra da lei. Têm, evidentemente, como já tinham, nos anos 80, os seus próprios mecanismos de convívio dos emigrantes e das Diásporas madeirenses e açorianas - diversos entre si, aliás, e nos quais, como é óbvio, o Governo da República não tem lugar, exceto, eventualmente, como convidado. Eu era invariavelmente convidada. Será que o foram os meus sucessores?. Talvez um deles, que era madeirense, tenha estado em iniciativas regionais no Funchal. Os seguintes, duvido... De qualquer modo, aquém e além desses congressos, o que constatámos foi um gradual apartar de caminhos. Participei "ex officio", como deputada da emigração no CCP, na sua "segunda vida", entre 1996 e 2005, e não me recordo de ver os representantes das Autonomias no palco das aberturas e encerramentos solenes, à mesa de conversações, ou nas receções sociais do Palácio das Necessidades ou de Belém. O meu trabalho conjunto com os responsáveis pela política de emigração das regiões não se limitava, porém, ao CCP. Era uma relação do dia a dia, concreta e discreta, que assumia mediatismo apenas de longe a longe - por exemplo na composição da delegação de Portugal a nível internacional. Aconteceu, pela última vez, na III Conferência de Ministros do Conselho da Europa para as migrações, a que presidi no Porto. Lá estavam, como membros oficiais da nossa delegação, Virgílio Teixeira e Duarte Mendes. Duvido que os anais de um sem número de conferências internacionais registem composição semelhante em outra delegação nacional, no campo das migrações, mas espero estar enganada. Nesse primeiro CCP até os Presidentes dos Governos Regionais participaram: Alberto João Jardim no Encontro Mundial que, em 1985, se realizou em Porto Santo e no Funchal, e Mota Amaral na Reunião Regional da América do Norte (Toronto), em 1986. PORTO SANTO Em Porto Santo, coube ao Dr Aalberto João, como anfitrião, fazer a intervenção de abertura. Mal acabou de falar, um dos habituais contestatários do grupo de Paris (uma ruidosa minoria), José Machado levantou-se, avançou pelo corredor central do auditório e interrompeu os trabalhos, pedindo, intempestivamente, a palavra. Machado era, então, animador cultural dos serviços franceses para a imigração portuguesa, com quem viria a ter, muito depois, uma longa e frutuosa cooperação. Contudo, então, estávamos ainda a anos disso acontecer. AJJ, do alto do seu microfone, ordenou: - "Cale-se! (ele recuou, instintivamente, um passo). - " Aqui há democracia, com ordem e responsabilidade!" (Machado retrocedeu mais uns passos) - "Só fala quando eu lhe der a palavra." (nessa altura já o Conselheiro tinha voltado mais ou menos ao ponto de partida, lá atrás). Foi apenas o começo! Os confrontos nas sessões de trabalho, já sem o Presidente do Governo Regional mas com a Presidente do CCP, (eu própria, por delegação de competência do Ministro dos Negócios Estrangeiros), sucederam-se numa espiral de turbulência. Nada que me causasse desconforto. O problema maior era convencer os conselheiros do Brasil, os meus mais acérrimos defensores, a não se interporem nas discussões, porque eu gostava de responder frente a frente. Por fim, grupo de Paris veio comunicar-me que deixaria de participar na assembleia dos seus pares, para reunir à parte. Respondi prontamente: - Tudo bem! Como é óbvio, têm plena liberdade de fazer o que muito bem entenderem, aonde e quando quiserem, mas à vossa custa. O governo só pode suportar as despesas com os trabalhos do Conselho: gastar verbas do orçamento Estado em atividades privadas seria um desvio de fundos - está fora de questão!. E deixei-os a discutir entre eles, como pretendiam. O hotel era caro... Nessa noite, de malas na mão, tomaram o voo para Lisboa, onde pernoitaram, seguramente, por preços mais em conta... E, no dia seguinte, convocaram uma conferência de imprensa para provocarem o escândalo da praxe. O que corre bem não faz notícia, ou faz sem privilégio de primeira página, mas, na verdade, em Porto Santo, as condições de debate melhoraram substancialmente. Posições diferentes havia, naturalmente, mas acabara o afrontamento partidário. Os dissidentes não tinham seguidores fora da Europa e nem mesmo conseguiram todo o contingente europeu - longe disso. Só num aspeto tiveram mais sorte do que os outros - escaparam a uma viagem de susto, contra ventos (quase) ciclónicos entre o Porto Santo e o Funchal! No último dia, um grande temporal atingiu as ilhas e interrompeu as ligações marítimas entre elas, mas os aviões operaram normalmente, os mais pequenos, como os de maior porte. Eu ainda pensei optar por um dos "mini aviões" porque teriam mais pista para o poiso... Todavia, pensando bem, o risco de turbulência seria bem pior. Nunca vivi nada semelhante à entrada no Boeing - tão forte era o vento que pouco faltou para termos de rastejar até à porta. como num exercício militar. Em compensação, o trajeto foi tranquilo. 20 valores para a tripulação da TAP! Vim a saber que o comandante era, de facto, do melhor que a companhia desse tempo tinha - e, nesse tempo, no que respeita a perícia dos pilotos, a nossa TAP era insuperável. TORONTO No ano seguinte, realizou-se o que sempre considerei como a reunião mundial no formato "plenário por regiões", que alternava com o "plenário por secções". O plenário do CCP, era, nos termos da lei, convocado, uma vez por ano. Todavia, em 1983, os conselheiros, por consenso geral, dirigiram ao governo uma recomendação em que propunham a realização alternada de uma reunião no país, e de uma sessão quadripartida geograficamente por grandes regiões - América do Norte, América do Sul, África e Europa (a Àsia/Oceânia. com um único representante tinha a possibilidade de escolher aquela em que queria participar). A recomendação foi, naturalmente aceite. A lei não especificava um "modus faciendi" para os trabalhos do nosso "conclave" mundial e foi adotada, desde o início, a audição em secções especializadas, que decorriam em simultâneo, pelo que os conselheiros tinham de escolher a pertença a uma ou várias. Por isso, do ponto de vista da qualidade da consulta, era mais englobante fazê-la por regiões em vez de secções, ouvindo todos os representantes sobre todas as matérias. Esta forma de configurar juridicamente a reunião mundial não é nada de original - veja-se o paradigma da Assembleia do Conselho da Europa, onde o plenário se reparte, não geografica mas cronologicamente, em 4 partes da sessão plenária - um mês no total, dividido por quatro semanas). A recomendação de 1983 foi vertida num decreto-lei, com essa e outras pequenas alterações pontuais ao Decreto-Lei fundador do Conselho - mas o processo legislativo, como é normal no nosso país, foi retardado algures numa das gavetas de um ministério, por onde o diploma circulava obrigatoriamente, e, apesar da minha insistência, quando chegou a data da 1ª Reunião Regional, agendada para os arredores de Paris (La Rochelle), assinei a convocatória, por despacho, apoiado numa interpretação que considerava caber na letra da lei - o fazê-lo em novo diploma legal era, no fundo, sobretudo, um meio de dar especial relevo à inovação e de resolver outras questões, como a participação igualitária de associações culturais e sociais ligadas a igrejas, que levantara polémica, embora apenas na Alemanha. O grupo de Paris viu no despacho uma oportunidade de fazer barulho - tudo lhes servia, até o que só podia causar dano sem outro proveito que não fosse a "bagarre" pela "bagarre". Mas, do ponto de vista deles, isso era pertinente, pois o CCP sempre foi visto e utilizado como arma para bombardear o inimigo (ou seja, o governo, "hélas", com o meu rosto muito concreto...). Convertidos em arautos de uma interpretação restritiva da letra da lei, ei-los a recusar a reunião regional, antes de consagrada legislativamente. Se bem me lembro, aceitavam comparecer em La Rochelle, apenas enquanto encontro informal. Estava numa sala VIP de aeroporto, em Paris, quando da Embaixada, me deram essa notícia. Falei de imediato com o Ministro Jaime Gama, que concordou plenamente com o adiamento "sine die" da reunião regional da Europa, Dito e feito - ao chegar a Lisboa lavrei o despacho. A reunião não chegou a acontecer, ao contrário das da América do Norte em Danbury e da América do Sul/África/Oceânia em Fortaleza (Brasil), que foram um sucesso. Entretanto, a lei fora publicada e o grupo de Paris processara judicialmente o governo português. Perderam o processo, é claro, com decisão dada um ou dois anos depois. A sentença aceitou plenamente a argumentação do Governo. Voltando aos nossos parceiros insulares: como os "radicais"ligados ao PCP eram todos continentais, nunca eles foram molestados por campanhas de imprensa, ou quaisquer outras... Todavia, em Toronto, coincidindo com o encontro do CCP, mas sem nada ter a ver com ele, pretextos houve que serviram para pôr em palco a questão regional - no caso, tratando-se dos Açores, nada de novo, só mais um episódio da "guerra de bandeiras" . Estava o Presidente Mota Amaral alojado num dos muito bons hotéis da cidade, que, para homenagear o seu mais ilustre hóspede, hasteou na frontaria a bandeira azul e branca, pontuada de açores alados (esteticamente uma beleza!). Levantou-se, de imediato, em Lisboa, um coro de protestos, insinuações de separatismo, o habitual... Não contaram comigo. Pareceu-me muito bem que um líder regional fosse saudado com a bandeira da Região... No CCP falámos de outros temas mais importantes.
O CONGRESSO DAS COMUNIDADES AÇORIANAS (Angra do Heroísmo) Em fins de 1986, estava eu em vias de sair de vez, do governo minoritário de Cavaco Silva, coisa que já adivinhava, sem saber a data precisa, quando fiz a que seria a minha última viagem a Angra e aos Açores, na qualidade de Secretária de Estado. Se não havia guerra de bandeiras, literaimente, havia, porém, guerras. A mais óbvia decorria, em episódios,vários, tendo por principais contendores o Ministro da República, General Rocha Vieira, e o Governo regional do Dr Mota Amaral. No continente as relações entre o Presidente Soares e o Primeiro Ministro Cavaco eram apenas marginalmente melhores. Todavia, por qualquer estranha razão, que para mim permanece misteriosa, tanto Mário Soares como Cavaco Silva tinham uma especial predileção pelo General! A de Cavaco ía ao extremo de obrigar todos os membros do seu governo a contactarem o Governo Regional sempre através do Ministro da República. Absolutamente inédito! Não tendo recebido a ordem direta de Cavaco, mas, com era natural, por intermédio do MNE, desconheço se foi bem transmitida ou se este, criativamente, a converteu em determinação rígida. Sei o que me foi imposto e considerei um "diktat" impossível de cumprir, Logo eu, que, há anos, tratava de qualquer assunto, facil e informalmente pelo telefone - com amigos, aliados, preciosos colaboradores, Assim continuei a fazer. A tal ponto esquecera a existência do Ministro da República que, quando convidada a participar no Congresso, aceitei prontamente e nem me ocorreu informar o General da minha visita à Ilha Terceira... Neste caso, deveria, como é evidente tê-lo feito - e nem foi por vontade de afrontamento, foi por distração No aeroporto, esperava-me o Costa Neves, que era o Secretário regional com o pelouro das Comunidades e o Duarte Mendes. Com eles andei até ao fim do dia, à hora da abertura do Congresso. Só aí encontrei o General, que me me cumprimentou e perguntou, de imediato: - "Então, como veio?..." Ao que, pressentindo a ironia, respondi; - "No avião da TAP, naturalmente". A partir daí, tudo correu muito bem. Nos trabalhos, participei de princípio a fim, sem mais presença do Senhor General, contra o qual, devo dizê-lo nada me movia, Um prestigiado e competente militar de alta patente, sem dúvida. Não gosto é da figura constitucional de Ministro da República . um misto de Governador Civil e Vice-rei das Índias. Os da Madeira sempre me pareceram mais aquela primeira e mais modesta componente, e os dos Açores, o desta última, mais majestática (com algumas exceções, entre as quais se não conta Rocha Vieira). Grandes intervenções neste grande fórum. Lembro a investigadora brasileira de Santa Catarina, que dizia: "Estou aqui a matar saudades, 300 anos depois!". E as conversa com o Prof Ramiro Dutra ... e os debates sobre a eventual votação dos emigrantes nas eleições regionais - questão ainda hoje por resolver... Todavia, em Lisboa, o eco dos acontecimentos da Terceira, chegou algo distorcido. Soube-o no discurso direto, muito direto, do Presidente Soares. Estávamos num amplo espaço,um numeroso grupo de entidades oficiais, à espera de entrar na Aula Magna da Faculdade de Direito, no Campo Grande, para uma sessão comemorativa - talvez, não tenho a certeza, os 10 anos das primeiras eleições autárquicas - e o Presidente dirigiu-se a mim. Como eu tinha, dependurado ao pescoço um vistoso rolo de raposas, o Doutor Soares, puxando as extremidades das raposas, a medida que ia falando, com pretensa severidade, indagou: - "O que andou a fazer nos Açores, num congresso separatista?" E eu, logo imaginando de onde viera tão estranha informação, afirmei, com a mais genuína das convicções - " Estive nos Açores, sim, mas num magnífico congresso entre muito bons portugueses. Alguém lhe fez um relato errado, Senhor Presidente" Não o convenci: - ":De modo nenhum, Senhora Doutora! Até porque não há comunidades açorianas, só há comunidades portuguesas". Enquanto, distraidamente, continuava a puxar as pontas do longo e lustroso rolo de raposa, eu mantive as minhas certezas e permiti-me discordar (achei sempre fácil quer discordar, quer concordar com o Dr Soares porque ele gostava de ouvir opiniões, eventualmente contrárias): - "Mas claro que há comunidades açorianas, minhotas, algarvias, madeirenses, etc etc... Portugal é um país unido, e simultâneamente multicultural e o que pode, realmente, fomentar o separatismo é negar esta realidade". Não sei se aceitou a minha argumentação. Em qualquer caso, mostrava-se muito bem disposto. A conversa ficou por ali, porque fomos chamados a entrar na sala - e nunca mais falámos no assunto. Creio que quis, sobretudo, ouvir a minha versão dos acontecimentos. Não assim Cavaco Silva, que nunca abordou o assunto comigo - era em tudo o oposto de Mário Soares, e, alem disso, para ele, os Secretários de Estado haviam sido reduzidos à condição de meros "ajudantes de ministros" (certamente, só pedia explicações a ministros!).. Convicta de que quem tinha encaminhado as novas sobre o Congresso de Angra ao Presidente também as teriam dado ao chefe do Executivo, aproveitei para contar a história, na primeira oportunidade, que foi uma ida a Paris na comitiva do Primeiro- ministro - a história pormenorizada da conversa com o Presidente, não do congresso propriamente dito, que assim, por via indireta, ilibava de suspeitas de independentismo. O único comentário do Prof Cavaco Silva não dizia respeita ao fundo da questão. Foi uma simples e inesperada pergunta: "O presidente puxou pelas raposas? Em público?" . Mais me surpreendeu o espanto do Professor que o facto do Dr Soares ter engraçado com as raposas, o que me pareceu um gesto divertido, que, aliás, aligeirava a pesada acusação de "separatismo"...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

FAÇO MINHAS AS PALAVRAS DE MANUELA FERREIRA LEITE Ditas hoje, no seu comentário na TVI24, contra as campanhas políticas à volta da CGD. Há um infinito campo aberto ao combate ao Governo pelo PSD e pelo CDS. Acho que todas as pessoas sensatas, em todos os quadrantes políticos, querem ver a nova gestão da CGD olhar o futuro e resolver problemas, que traz do passado (e para cuja resolução muito contribuíram o anterior presidente da Caixa, António Domingos e Centeno, o Ministro das Finanças. A negociação europeia para a recapitalização da Caixa foi um êxito deste Governo. O líder do PSD que, como primeiro-ministro, não conseguiu nada de semelhante, devia, nesta matéria, estar calado. E a líder do CDS, também. Fez parte do mesmo governo que deixou o setor da banca num estado lamentável.

NA ÚLTIMA CAMPANHA DE MÁRIO SOARES

1 - Fui surpreendida com a última candidatura de Mário Soares à presidência, como toda a gente, porque festejara, há pouco os 80 anos, com o anúncio público de uma definitiva retirada da vida política. Evidentemente, como patriota que era, com a clausula "rebus sic stantibus"... Ainda o comum dos cidadão, assim como o comum dos políticos, não pressentia o período negro do advento da "troika", mas o Dr Mário Soares, sim. A meu ver, foi por isso, que acionou a dita calusula, aceitando tão extraordinária aventura (houvesse ele ganho e não tenho a menor dúvida de que a "troika" teria sido menos "troika", Passos menos Passos e o País mais País - com Cavaco petrificado no seu trono republicano foi o que se viu). O maior óbice que eu, desde a primeira hora adivinhei na caminhada para Belém não era, porém a idade, mas o preconceito em razão da idade, que em Portugal é muito mais radical do que nas demais sociedades europeias, para já nem falar na norte-americana, onde a idade média dos políticos é bem mais elevada do que na Europa. Depois surgiu, na figura de Manuel Alegre, mais um obstáculo, escusado, tardio mas de peso. Entrou na corrida como pseudo independente, com um discurso populista anti-sistema, sempre tão fácil e rentável, qualquer que seja o quadrante político - neste caso o mesmo do Dr Soares. Ao dividir, assim inexplicavelmente, as hostes do PS fez eleger Cavaco Silva à primeira volta. Metade do partido, da máquina, das concelhias espalhadas pelo retângulo esteve contra o Fundador e com ele, pelo visto muito agradada com as diatribes anti-partidárias e aquela "pós verdade" de um independente de ocasião, que, durante décadas, fora governante e deputado pela mão do PS e ao PS voltou prontamente, aureolado com o seu milhão de votantes... Concorrência fraticida, inexplicável ou só explicável por egocentrismo ou motivação não menos edificante, devo dizê-lo, por muito que goste do cidadão Manuel Alegre, que conheci na Coimbra dos anos 60, como um grande orador, com a mais bela voz do mundo). Ao contrário de muitos portugueses de vários partidos, idades e profissões, não me importo nada de apoiar o candidato ideal, sabendo, embora que as suas hipóteses de vitória não são enormes e, por isso, aceitei, sem hesitação o convite para uma daquelas numerosas Comissões de honra, que merecia o qualificativo, porque era, de facto, uma honra estar ao lado do Candidato. Sentia-me bem com a perpetiva de, por fim, votar no Dr Soares. Digo "por fim", porque pertencia ao imenso, mas não quantificável, grupo dos seus admiradores, que nunca o tinham sufragado nas urnas, fosse para que cargo fosse. Uma oportunidade na 25ª hora, um apoio subjetivamente gratificante, e objetivamente justificado - em causa estava a presidência da República, para a qual se deve escolher o cidadão que melhores atributos tenha para representar o Povo e o Estado. E Mário Soares tinha-os, pela experiência do seu passado, pelo prestígio internacional do seu nome - neste nosso tempo, maior do que o do País... - e pela "pujança da sua velhice", que, em existindo, é sempre mais sábia e pode ser mais vigorosa e criativa do que a pujança da juventude, e no seu caso era. 2- Desde a primeira sessão em que estive, em Lisboa, os jornalistas de mim queriam, antes de mais, saber se me tinha demitido do PSD e, quando afirmava que não, se estava em vias de ser expulsa, ao que respondia que não acreditava que isso fosse acontecer, porque, não se tratando de uma eleição partidária, o PSD iria respeitar a liberdade de opção dos seus militantes. Foi exatamente o que aconteceu, porque os partidos, em cada momento falam pela voz dos seus líderes, e o líder era, então, Marques Mendes, mais preocupado com combater a corrupção do que o livre pensamento. Eu sabia que em anteriores processos os "heréticos do PSD" tinham sido alvo de medidas de expulsão e estava pronta a enfrenta-las, se necessário, mas não achava que isso fosse necessário, desta vez. Não foi. 3 - No meu caso, havia uma circunstância agravante - era, precisamente nessa altura, candidata autárquica, em Espinho, na lista de Luís Montenegro, o primeiro que preveni da minha decisão pró-Soarista. A idade aqui terá jogado a meu favor - porque, na verdade,, pessoalmente, pouco ganhava em qualquer dos atos eleitorais, estava a trabalhar para candidatos ou causas em que acreditava, não para mim própria. Se fosse uma jovem de 30 anos, talvez ficasse sob suspeita de colher benefícios a médio prazo - aos sessenta e muitos, já não... Não quer isto dizer que todos achassem excelente a minha dupla escolha. mas a maioria, sobretudo na classe política, não se manifestava. Na verdade só me lembro dos comentários de um grupo numeroso de deputados, ex-colegas da bancada do PSD, com que deparei, por acaso, no bar da Assembleia. e que me confessavam, alegremente, que tal como eu, nenhum deles votaria em Cavaco, embora eles e eu não coincidissemos num mesmo nome. Mais críticos foram alguns militantes do PSD, irremediavelmente "clubistas" ou sectários, que me interpelavam em lojas e nas ruas de Espinho, onde toda a gente se encontra. Não compreendiam porquê e eu explicava gostosamente: Maria Barroso e Soares sabiam "estar", social e politicamente, falar de igual para igual com os mais poderosos líderes do mundo, cabeças coroadas incluídas, tanto como com o "Povo-Povo". Tinham "mundo", prestígio internacional e não só caseiro. Apelavam à sensibilidade de monárquicos e republicanos. om todo o seu "charme"e "savoir.faire", estavam, neste aspeto nas antípodas da família Cavaco (não me lembro de um só militante que não ficasse conformado, ou mesmo cabisbaixo, perante a argumentação, em linguagem bem humorada e com ampla exemplificação em episódios da vida real. terminava sempre com um quadro negro de eventuais sarilhos e imbróglios políticos, Soares daria muito mais garantias do que Cavaco - e os sarilhos vieram e Cavaco "ensarilhou-se" entre Passos e Portas, Passos e Seguro e, finalmente, até entre Costa e Passos. a inédita situação com a qual Marcelo - muito mais ao jeito de Soares do que de Cavaco - .lida na perfeição.., 4 - Em contrapartida, dos lados do PS, o contrário aconteceu, quer no convívio com as vareiras de Espinho, após a minha intervenção num mini-comício no bairro piscatória, quer nas hostes da emigração em SP e no Rio de Janeiro, onde fui apresentar um livro que dedicara a Mário Soares (sobre a questão da Igualdade de direitos entre Brasileiros e Portugueses - a memorável e arrastada questão da reciprocidade, que só Soares conseguira resolver, pela força da palavra e da autoridade moral)... Em SP. o PS era chefiado pelo célebre Capitão Verdasca, um respeitado oposicionista ao Salazarismo e um intelectual, escritor e pedagogo muito ativo na comunidade, Foi sempre um democrata dialogante, e, por isso, se tornou um amigo, Era mais o que nos unia do que o que nos separava. Idêntica - o que acontecia, felizmente, na maior parte das comunidades transoceânicas, a começar ali ao lado, em Santos, continuando por Toronto, ou Montreal, ou Montevideo. O Rio, porém, era outra coisa, com outros protagonistas, que não ficavam, em termos de incivilidade, atrás dos luso parisienses mais extremados, antes pelo contrário.. Não todos, evidentemente, mas o número suficiente para fazer a diferença. Distinguia-se, entre todos, um empresário, a quem chamarei, simplesmente, Fernando. Uma espécie de precursor de Trump e do trumpismo, com amplo acesso aos media, que usava para o insultar, em termos fortes e feios, com laivos de misoginia. Além de me mimosear com os seus "tweets"( avant la lettre" ) na imprensa portuguesa local, deu em me mandar, onde quer que fosse fazer intervenção pública, enormes coroas funerárias - a profetizar o meu funeral no mundo político, que não no mundo dos vivos, suponho... As coroas nunca chegavam ao destino, porque eram sempre intercetadas pelos organizadores das sessões, mas causavam nervosismo, de que, por vezes me apercebia. A exceção foi uma grande reunião na "Casa das Beiras", onde Fernando contava, ao que julgo, com parceiros partidários, que lhe facilitaram a golpada macabra, antes invariavelmente falhada, Estava eu no uso da palavra, quando entra e atravessa o salão um jovem portador de uma gigantesca coroa de lindíssimas flores brancas (gladíolos?). Estende-me um papel para assinar "em como recebi". O silêncio era absoluto., até eu recomeçar o discurso exatamente onde o deixara. Aquilo divertira-me, como um pequeno interlúdio teatral. Logo, porém, se aproximaram duas senhoras (com certeza dirigentes da "secção feminina" da instituição - quase todas as "casas regionais" portuguesas assim dão uma pálida representação às mulheres...) para remover a maligna oferenda, ao que me opus: "As flores são magníficas - enfeitam imenso, Por fazer, deixem ficar!". E elas, deixaram, saíram. e logo voltaram e, com umas tesouras cortaram, o mais discretamente que era possível - isto é, não muito... - os panejamentos pretos que enfeitavam, a preceito, a majestosa coroa fúnebre, que, assim, se converteu uma roda florida, muito decorativa. Era o ponto em que se situava, concretamente, o direito à manifestação política, por aquelas bandas. Eis que eu volto, já desligada do meu velho círculo parlamentar, e em campanha por Soares, que, no Rio, era entusiasticamente apoiado por todo o PS. No lançamento do livro, a sala do Arouca Barra Clube (onde por várias vezes a coroa do Fernando havia ido parar ao lixo sem ser vista em público), estava o Fernando, sem ramos de flores, mas muito sorridente, entre os correlegionários que sempre me tinham evitado e, ali e então. me saudavam festivamente. E lá estavam também muitos PSD's, que eram pela reciprocidade e por mim... Vim embora contente, porque fiquei a saber que, "negócios" (ou "partidos") aparte, eram todos meus amigos! 5 - A campanha no distrito de Aveiro, em que acompanhei o Dr Soares, foi uma alegria, com comício por todo o lado, uma roda viva, só interrompida depois do almoço para o nosso candidato fazer a sua sesta num hotel. Quando jovem os meus pais, grandes aficionados do desporto automóvel falavam muito do campioníssimo Fangio, e contavam que antes de cada corrida, dormitava uns minutos e, depois, entrava em competição com imensa energia . Talvez fosse verdade. O certo é que as pequenas sestas do Dr Soares, me lembravam sempre essa velha história, como um traço de união entre ambos estes imortais, com uma imortalidade ganha em domínios muito diferentes, mas de alto risco e a exigir a mais alta qualidade humana... Recordo-me também de uma viagem de comboio, absolutamente extraordinária, só com apoiantes de Soares, quase todos jovens, uma espécie de viagem-comício, viagem-tertúlia...Creio que parava aqui e ali, para um comício em terra, nas estações. Eu compareci na de Espinho, e na hora da arrancada, aceitei convite para seguir para norte e fui até Gaia, onde fiz o meu mini discurso no largo em frente à estação das Devesas, em cima de uma plataforma improvisada. Sempre que saio ali, na mesma plataforma - e acontece com alguma frequência - lembro-me, nostalgicamente, desse esfuziante fim de tarde. .Creio que foi nessa noite o grande comício de encerramento da campanha no Porto, no pavilhão Rosa Mota cheio de gente e de entusiasmo, onde estive num ambiente ainda de esperança, naturalmente. 6 - No domingo seguinte, mal soube o resultado das sondagens de mau augúrio, não para só para o Dr Mário Soares, mas para o País, fui de comboio para Lisboa dar-lhe um abraço, e outro à Dr.ª Maria Barroso, Se os números tivessem sido melhores, festejaria no Porto. Quem mais perdeu foi este Povo que coloca a juventude, mesmo que relativa. acima da experiência e da qualidade. E não só. Outro factor que jogou contra Soares, foi, justamente o que deveria ter sido decisivo na sua eleição: o ter já estado uma década (uma década de ouro!) naquelas funções. Em vez de valorizar a certeza do seu perfil para o cargo invocava-se que já lá tinha estado, agora devia dar lugar aos outros. Como se o estar em Belém não devesse ser visto puramente como serviço a Portugal A não continuidade vitalícia no posto cimeiro compreende-se, até para distinguir o regime republicano do monárquico, mas a própria Constituição se abre a um regresso após um hiato de, pelo menos os cinco anos de um mandato.. E, assim, no terceiro resgate sofrido em democracia. Portugal já não teve por si a força do grande Homem de Estado, no curso das negociações, onde esteve sempre de cabeça curvada, com a tomada de decisão entregue a uma mocidade (de quarentões, embora,) verde, verde... Também já não havia Hernâni, sábio e firme, e o responsável das Finanças portou-se, não como um ministro desta República, mais como mais um funcionário de um dos vértices da troika, de onde vinha para a qual voltou, ainda antes do fim do governo recompensado com uma promoção na carreira. Sucedeu-lhe uma senhora bem falante, que vinha do mundo onde se acordam "swaps"ruinosas e outras manobras aparentadas e para ele também voltou, acumulando com um lugarzinho de deputada e aspirante a líder do partido (o que, a acontecer, me levará do partido para fora - desse e de qualquer outro partido, para todo o sempre...). 7 - E se Mário Soares se não tivesse candidatado? É um "se" de fácil resposta. Entre Cavaco e Manuel Alegre, simpatia e sentimento coimbrão à parte, teria estado com o meu correlegionário de longa data. O seu curriculum político, como primeiro-ministro, embora um pouco embotado por tanto cimento no balanço final,( e por frases que me arrepiavam, tais como "estamos no pelotão da frente" e, muito pior ainda, "somos o bom aluno da Europa"), a isso conduzia em linha reta. Mas eis que irrompe do esplêndido passado para um, talvez, esplêndido futuro, esse novo -velho nome. Ao qual, além de muito mais, eu devia o desenlace feliz do processo de reciprocidade ao espantoso estatuto de direitos políticos consagrado na Constituição Brasileira dos anos 80 Ao Prof. Cavaco Silva escrevi uma longa e detalhada carta em que explicava as razões da minha adesão à candidatura do seu adversário, sintetizando "in fine" com uma conclusão que não foi tida na devida conta... Qualquer coisa como: "posso dizer que apoio o Dr Mário Soares por uma questão de reciprocidade".(guardei cópia da missiva, está algures no meio de um caos de papelada, pelo que cito de memória). O Senhor Professor nunca respondeu, Durante os seus mandatos, só o vi uma vez, em Espinho - era eu vereadora da Cultura. O cumprimento foi, como tinha de ser, formalíssimo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TURISMO SENIOR, TURISMO NOVO 1 - Sou a terceira geração da família, que tendo nascido a curta distância de Espinho, passava o verão, desde o ano em que ensaiou os primeiros passos, nesta alegre estância balnear, e que, chegada à idade da reforma, a ela se acolheu para viver numa casa de férias convertida, com pequenas obras e redecoração, em residência permanente - na Rua 7, Rua Nova d' El-Rei no tempo dos bisavós. Escolha natural, pois era - e é - a cidade ideal para viver essa idade (sem excluir as outras), com o seu traçado plano e retilínio, a dimensão que facilita o convívio, a sociabilidade num quotidiano em simultâneo tranquilo e animado, a proximidade não só dos amigos, que encontramos a deambular pelas ruas, nas mesas de café, nas esplanadas ou no passadiço da beira mar, mas também de tudo o que fica longe em qualquer outra cidade: mil e uma pequenas lojas, serviços públicos, salas de espetáculos municipais e privadas, biblioteca, casino, "courts" de ténis, campo de golfe, ginásios, clínicas e consultórios médicos (com os melhores nomes em quaisquer especialidades, entre os residentes e os que aqui vêm dar consulta, regularmente), piscinas e as esplanadas do "nosso mar". O mar, que aqui é mais belo e multifacetado, ora no ímpeto de grandes vagas, fascinantes para deleitarmos a vista sobre o mar sem fim de uma história mítica e esplêndidas, como para as escolas de "surf", (e para a pesca do peixe mais fresco e saboroso, vendido nas peixarias quando não, com pregões tradicionais, na esquina de uma rua, ou servido num sem número de restaurantes para uma multiplicidades de gostos e de bolsas), ora na relativa quietude das águas (quase sempre) tranquilas da "baía", nascida por mão humana, como que amansadas no abraço dos esporões de defesa da costa, Os "paredões" que nos convidam a gravar na memória ou a guardar numa fotografia o mais abrangente dos postais do centro de Espinho, para além de nos darem sensação de estarmos, em comunhão com o oceano, no convés de um navio, ali aportado para sempre - ou, se nos deixarmos levar nas asas da imaginação, numa jangada de pedra, prestes a lançar-se contra ondas do Atlântico.... 2 - A singularidade de Espinho está neste jogo de contrastes em domínios muito diversos, que a tornaram da génese à atualidade, uma "terra de todos", dos mais ou menos ricos, dos mais ou menos intelectuais. dos mais ou menos jovens. Cidade de cultura, de lazer e de variadíssimo comércio (verdadeiro "shopping center" ao ar livre, como tem sido chamada, onde não falta nada, onde joalharias e "boutiques" elegantes estão, lado a lado, com "outlets" e lojas de roupa barata, cafés, bancos, padarias, mercados, quiosques...). Buliçosa (embora menos do que já foi e pode voltar a ser) e acolhedora, num sentido afetivo e cívico, porque nos permite sermos mais livres, no à vontade e na segurança, com que, sós ou em grupo, ocupamos os seus espaços públicos, de dia e de noite. Cidade com infinitas possibilidades de crescimento, a partir de um passado grandioso, que, embora pareça distante e inatingível no presente, pode, a meu ver, inspirar o seu futuro, mesmo no setor que lhe deu projeção e renome nacional e internacional: o turismo. É certo que a cidade se deixou ultrapassar como cartaz turístico de vanguarda - se o quisesse ser. ainda hoje, não poderia permitir-se o triste espetáculo que inflinge aos visitantes, há anos (desde o enterramento da linha férrea), no preciso lugar que foi o seu "ex libris" - a Avenida 8, a sul da velha estação de comboio - convertido num deserto de cimento sobre os subterrâneos, onde os comboios desapareceram da nossa vista e como que mandam sinais de presença em vários respiradouros em forma de chaminés gigantes, grotescamente pousadas no solo. Um autêntico pesadelo urbano a pedir, enquanto não arrancam as prometidas obras de requalificação, ao menos, uma intervenção de "artistas de rua" sobre aquelas medonhas protuberâncias! 3 - Pode Espinho volver-se, de novo, em cartaz turístico, sabendo-se que os banhistas preferem, agora, águas mornas e sol tórrido, e a "classe política" também? O que aponta, internamente, ao Algarve e à Madeira, ou, em alternativa, a praias "exclusivas", como é, por exemplo, a norte, Moledo do Minho.. Espinho não pode competir os primeiros, em termos de clima, nem tem a vocação elitista da Granja de outrora ou dos Moledos hoje Mas há, no nosso tempo, inúmeras outras formas de turismo que despontam, em Portugal, e nos recolocam no cimo da Europa - o turismo de festivais, de congressos, o turismo cultural, o religioso, o etnográfico, o paisagístico... E há, ainda o dos "vistos gold" para milionários e o dos reformados estrangeiros, medianamente prósperos, atraídos pela isenção de impostos (turismo altamente rentável e de longa duração.). E, dentro de portas, há uma população envelhecida, que em muito ultrapassa a problemática da "peste grisalha", na expressão imortalizada por um jovem (pouco) social-democrata para designar os pobres, dependentes e alquebrados . Na verdade, sem negar que aumenta o número de idosos carenciados, convém lembrar que aumenta igualmente o contingente dos que têm cada vez mais anos de vida saudável para gozar e mais poupanças e rendimentos do que filhos e netos para gastar, como consumidores, quando não como investidores. E, ainda, o que é de decisiva importância, uma mentalidade moderna, que os leva a procurar a independência em lares e apartamentos residenciais de luxo, ou de bom nível, em locais aprazíveis. Espinho poderia bem candidatar-se a este "nicho de mercado", enquanto terra singularmente aprazível! O que a tornaria, note-se, mais "intergeracional", pois o influxo dos mais velhos criaria, bem vistas as coisas, muitos empregos para jovens. Assim, com um saber de experiência feito, com o exemplo da minha própria família, lanço a ideia. Utopia, ou talvez não..