Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
sexta-feira, 13 de março de 2026
30 Mulheres de S Paulo PREFÁCIO
Este livro vem revolucionar a história das mulheres nas comunidades portuguesas, a perceção do seu papel nas instituições que as compõem, e a sua influência no entrelaçamento das culturas dos dois países, que têm sabido unir pelo afeto e aprofundar pela vivência. E com isso, entra, também, na história da emigração no feminino, ainda hoje mal estudada e conhecida.
O fenómeno da exclusão da metade feminina da história da Humanidade, escrita pelos homens, tem nesse particular domínio um claro reflexo, mas, na verdade, estende-se aos demais. Recordo, a propósito, uma frase certeira de Maria Barroso: “A nossa História, como a dos outros povos, nunca pôs suficientemente em relevo o papel das mulheres que a ajudaram a tecer". E sem elas, "a história fica pela metade", como afirma a feminista Júlia Navarro.
As mulheres tendem a proceder diferentemente, quando tomam a palavra para desocultar experiências, realizações. Contam os factos por inteiro, não deixam ninguém de fora - eles estão lá: os pais, os filhos, os maridos, os parceiros de projetos, de trabalho, de vitórias.
Justamente por isso, as deveremos considerar verdadeiras continuadoras de um "feminismo integral", na luta pela democracia e os direitos humanos, sem exclusão do sexo feminino, como queria Ana de Castro Osório - a grande ideóloga do sufragismo, que, após a implantação da República, viveu no Brasil, com o marido (Cônsul em São Paulo), e aí fez, em simultâneo, a apologia da emancipação das imigrantes portuguesas e da sua especial apetência para servirem de ponte na aproximação culturas, no aprofundamento da luso-brasilidade. Duas finalidades, que, no mesmo espírito, um século depois, norteiam esta antologia de significativas e inspiradoras autobiografias. Uma esplêndida aventura literária, inserida num género que desperta crescente interesse, entre nós - o biográfico - talvez por rivalizar com a melhor ficção, na acentuação intimista, através de autênticos "romances da vida real".
No campo da emigração portuguesa, em especial a feminina, os registos de um conjunto de depoimentos sobre trajetos e destinos, convertem-se, quase sempre, em mirantes de observação e contemplação de uma infinita diversidade de casos, apontando, contudo, para uma caraterística predominante que as religa: a melhor compreensão da alteridade, a mais fácil vivência da dupla pertença nacional, tão bem evidenciada nesta obra. Obra que, contudo, se singulariza e salienta ao assumir-se como "um ato de empoderamento", ao mostrar quem e como o protagoniza: as extraordinárias pioneiras que, num determinado espaço (a cidade e o Estado de São Paulo) e num certo tempo, (da última grande vaga migratória para o Brasil â atualidade), irromperam no círculo hermeticamente masculino da liderança institucional e desfizeram preconceitos, com tanto de audácia e autoconfiança, como de competência.
Ao revelarem-se uma mais-valia, abriram a porta a outras mulheres, e conseguiram impor um "novo normal" de partilha de poder no movimento associativo. Um efeito que, através da publicação, pode ser potenciado, muito para além de uma comunidade concreta e da sua geografia, que, aliás, não é de somenos, em se tratando do vanguardista Estado de São Paulo. A escrita torna-se, "de per si" um instrumento de mobilização, ao pôr em foco o modo e o engenho com que as mulheres aqui retratadas, pela sua própria mão, chegaram onde chegaram.
Para bem avaliar o seu mérito individual e coletivo, é preciso olhar retrospetivamente um longo e penoso passado de discriminação no associativismo. É sabido que as mulheres estiveram presentes na criação das coletividades com as quais, lá fora, se recriavam os ambientes e costumes da terra natal - o gosto do convívio à volta da mesa, a música e a dança, as tradições populares, a comemoração dos rituais da saudade e da alegria. Famílias inteiras participaram no desenvolvimento de admiráveis comunidades que se converteram em extensões culturais de uma Nação que transcende o território. Todavia, às mulheres era reservado na "casa comum" o papel que pelos costumes lhes cabia na sua própria casa - uma divisão de trabalho que as reduzia ao anonimato dos bastidores, enquanto os homens se arrogavam o mando, as decisões que moldavam o futuro, a representação externa. Acontecia isso por todo o lado, no universo da nossa emigração mais antiga, (no Brasil, EUA, Argentina), ou recente, (na França, Venezuela, Canadá, sul da África, Oceânia...). É certo que, em países como o Brasil, se adivinhava a existência da mulher atrás do “grande homem", na figura da esposa do presidente - chamada "primeira-dama" - ou nas iniciativas permitidas, "a latere", em dinâmicos Departamentos Femininos.
A partir de 1974, a consolidação da Democracia em Portugal, não veio provocar, na Diáspora - pura sociedade civil - um "sobressalto cívico", facilitador do acesso das mulheres ao dirigismo comunitário, nem teve repercussão nas políticas públicas para a igualdade, que ficaram circunscritas no território.
Em 1981, no Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), o primeiro fórum de audição democrática dos emigrantes, não havia uma única mulher entre mais de sessenta membros escolhidos por um colégio eleitoral formado por líderes associativos e por jornalistas (situação que se repetiria nos posteriores mandatos). As primeiras duas mulheres que tiveram voz no CCP provinham do pequeno núcleo da comunicação social, não das agremiações das comunidades.
A jornalista Alice Ribeiro, fez, de imediato, a diferença, ao propor à Secretaria de Estado da Emigração a convocatória de um " Encontro mundial de mulheres no associativismo e no jornalismo" - Encontro prontamente organizado, em junho de 1985, com o alto patrocínio da UNESCO Por sinal, constituiu uma iniciativa precursora a nível europeu e mundial - Improvável originalidade de um país, que, com esse passo, parecia querer redimir-se de quinhentos anos de políticas de emigração reconhecidamente misóginas.
As congressistas não desperdiçaram a ocasião, não se limitaram a falar estritamente de si, de questões especificamente suas, escolheram analisar as grandes linhas da evolução das comunidades, frisando a marca cultural que elas lhe imprimiram e traçar as estratégias para o futuro. Desmentiram a ideia feita de que, na nova sociedade, se sentiam duplamente discriminadas, como mulheres e como estrangeiras. Pelo contrário, para a maioria o projeto migratório fora uma via de libertação, porque se integraram tão bem ou melhor do que os homens, ganharam independência económica, estatuto profissional e centralidade num modelo de família mais igualitário. Paradoxalmente, onde se viam confinadas a um papel secundário era nas organizações das comunidades portuguesas, como mandavam usos antigos, velhos preconceitos.
Daí que, em pleno século XXI, as políticas públicas de emigração, para igualdade de sexos, tenham abordado prioritariamente o magno problema da sub- representação feminina no mundo associativo, tanto "Encontros para a cidadania", impulsionados por António Braga (2005-2009), como, com nova ênfase e dimensão, nos Congressos Mundiais de Mulheres da Diáspora convocados por José Cesário (2011-2015). Os Governos cumpriam, deste modo, o dever constitucional de promover a igualdade, visando grandes e difíceis transformações sociais, porventura morosas. A resposta, porém, só poderia ser dada pelas pessoas, por dentro das comunidades, que gozam da inteira liberdade de serem sociedade civil, " a Nação sem Estado".
E eis que, apenas uma década volvida, Carina Teixeira Rodrigues, a idealizadora deste esplêndido projeto editorial, vem dar a mais inequívoca resposta, dizendo simplesmente: "falar de associativismo é inevitavelmente falar de empoderamento feminino"
É assim, agora, em São Paulo! Num amanhã não muito distante, será assim em toda a Diáspora. Talvez, aqui e ali, até já seja, sem uma visibilidade comparável à que nos é oferecida nesta compilação de capítulos da crónica de um novo estado de coisas. ...
As minhas últimas palavras são para as coautoras, cujas narrações, numa linguagem direta, encantatória pela genuinidade, desvendam trajetórias e destinos extraordinários, nos seus momentos mais significativos, dos mais jubilosos aos mais trágicos - amores, romances, sucessos, rupturas, doenças, perdas, superação... e, em fundo, a invariável capacidade feminina de viver muitas vidas numa só, num vaivém entre mundos paralelos, conciliando responsabilidades familiares, profissionais, exercício da cidadania, e serviço de causas, pessoas, instituições. Ao contextualizarem a linha de rumo, com enfoque na transição do espaço privado ao público, no meio cultural luso-brasileiro, enriquecem o livro, assim aberto a várias leituras, a feminista, a sociológica, a política, a etnológica... Rememoram a saga de pais e avós, homens que vieram de uma infinidade de pequenas aldeias, sozinhos e, depois, chamaram a família para junto de si. Reescrevem a história do associativismo, e, em particular do folclore, expoente da paixão pela "traditio", que é a alma da Diáspora. Retratam a sociedade paulista, os ramos de negócio em que muitos emigrantes prosperavam, e onde algumas mulheres venceram tabus e singraram como iguais. Destacam a sua valorização pelo estudo, pelo empreendimento, pelo prestígio profissional granjeado, e, por fim, também, pela ascensão ao dirigismo associativo, que, em tantos casos, se iniciou com o envolvimento nos grupos folclóricos. A dança é, por natureza, o mais paritária e o mais lúdico dos rituais da cultura popular. Da dança com o seu par, algumas ousam vencer tabus, ao tocarem concertina, ao comandarem a tocata, ao serem ensaiadoras e diretoras dos Ranchos. Consigo levaram filhos, como os pais as haviam levado em meninas. Algumas famílias já vão na quarta geração de folcloristas.
A fundação ou direção do rancho foi para muitas das coautoras o teste que as qualificou para a diretoria das associações. Todas estão, justamente, no primeiro plano de uma grande comunidade .
Na data em que comemoramos o cinquentenário da Constituição da República Portuguesa, os seus valores humanistas, a proclamação jurídica da igualdade dos sexos, as trinta mulheres de São Paulo mostram como se faz a passagem da utopia de 1976 à realidade de 2026.
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