Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
terça-feira, 13 de outubro de 2026
MANTRAS DO COLISEU
Um debate sobre feminismo. No palco Ana Gomes, Assunção Cristas e eu. Foi muito divertido. Há muito conheço Ana Gomes e sei bem dos pontos de maior convergência com ela. E nunca me tinha cruzado com Assunção. Foi esplêndido descobrir tantas sintonias insuspeitadas com ela - neste especial matéria. A paridade levada muito a sério, na política, como na vida quotidiana.
GONDOMAR AS MEDALHAS DE MÉRITO
A meu ver, excelente a decisão da Câmara de Gondomar neste retomar da tradição interrompida de distinguir os concidadãos por altura das festas da cidade. E não só pelo destaque dado aos homenageados, como por ser, certamente, fator de reforço da coesão e do sentimento comunitário. O que é muito importante num concelho grande e populoso, onde o número de recém-chegados é muito superior ao dos descendentes das velhas famílias gondomaenses. E mais importante se torna quando tantos dos distinguidos são muito jovens e quase todos, os mais e menos jovens, ligados ao associativismo, sem o qual a identidade da terra se perde na mera cidade-dormitório... O palco encheu-se de jovens desportistas comtítulos nacionais, europeus e mundiais! Ou não fosse Gondomar uma "capital europeia da Cultura
Eu tive todo o gosto em receber a medalha de mérito (pensando, inevitavelmente, nos vários ramos da minha família radicados em Gondomar há gerações e gerações), mas sempre com a consciência do que representa coletivamente. E foi muito especial poder falar em nome ds companheiros de jornada, sobretudo naqueles que já não estavam connosco, Diogo J e o irmão André Silva.
Para mim, Diogo é o que de melhor nos deu o desporto, sobretudo o futebol, que hoje é mais negócio do que desporto e só merece ser considerado desporto por atletas com a dimensão humana de que Diogo sempre deu provas. Dentro e fora do campo! A grande estrela de Liverpool, que recusou o vedetismo.
Um orgulhos para Portugal, um orgulho para Gondomar! Eu sei que falei demais, mas tinha de falar, sobretudo, de DiogoJ...
FUTEBOL, MUNDO DE AFETOS E EMOÇÕES
FUTEBOL, MUNDO DE AFETOS E EMOÇÕES
1 – Passei o último fim de semana a ler uma fascinante publicação sobre futebol, da autoria da Javier Marías, o grande escritor espanhol nosso contemporâneo. Não falhei um só dos seus romances, faltava-se, porém, este pequeno livro, intitulado “Selvagens e Sentimentais – Histórias do Futebol”. Nem sequer é recente, mas reapareceu, agora, nos escaparates da Livraria Bertrand da Rua 19. Trata-se de um conjunto de artigos, publicados em “El País” (ou no suplemento “El Semanal”), entre 1992 e 2000, por este incondicional adepto do Real Madrid, que combina futebol e Letras, numa prosa cheia de humor e sabedoria. Recomendo-o vivamente! A data é irrelevante, os seus escritos são intemporais (pena não ser ainda o tempo de Mourinhos, Pepes, Ricardos e Ronaldos - o primeiro português, Secretário, é de 1999 e não entra nas crónicas, onde são nomes de referência e infinita reverência Di Stefano, Kubala, Puskas e outras lendas do Real).
Não precisamos de ser “madrilistas” para nos reconhecermos nas reações, confissões e máximas disseminadas, com mão de mestre, nas páginas de “Selvagens e sentimentais”. Nelas se recordam jogadas, protagonistas e episódios datados, mas, também, estados de alma, angústias e explosões de gozo - o belo-horrível de que se faz a vida, nos seus momentos mais intensos. E nelas se cruzam artes que raramente vemos associadas, futebol, literatura e cinema, que é termo de comparação recorrente nestes escritos de rara erudição e humor. Vai longe o tempo em que o futebol era universalmente mal visto pela intelectualidade e equiparado a “ópio laico” do povo e para a sua reabilitação muito contribuíram as exceções, os pioneiros, Camus e Nabokov, que foram guarda-redes dos seus clubes, e Javier Marías, que jogava a extremo-esquerdo.
2 – As minhas sintonias com este famoso madrileno, (que não era um Maradona nos relvados, mas merecia ter ganho o Nobel) são imensas, sendo a primeira o desejo de que a minha equipa ganhe, sempre, todos os anos, todas as semanas! Garantido esse objetivo constante e avassalador, emerge a segunda grande prioridade: que as nossas estrelas brilhem em lances inesquecíveis. Para mim, o futebol eximiamente executado em campo pela elegância, agilidade e sincronização de movimentos, equivalente a um ballet clássico, com o suplemento de mistério (sobre o desenlace do jogo) e com o sucedâneo musical dos cânticos rituais das bancadas. Eu digo “ballet”, Marías diz cinema, para ele há a “mão invisível” de um realizador, que através das épocas, mantem a identidade inconfundível das equipas. E assim distingue os três grandes“ de Espanha: O Atlético de Madrid parece-lhe um filme de Serge Leone (“muito tiroteio, e, no fim, tudo se afunda estrepitosamente”); “ O Barcelona influenciado pelas angústias vitais de Antonioni e de Bergman, até ter optado ultimamente pela euforia mortal de Rambo”; “Quanto ao Real Madrid, lembra Hitchcock, cujos filmes se veem com a alma em sobressalto, mas costumam acabar bem”.
Marías, na idade adulto, como em menino, privilegia os jogadores e os atores da sétima arte sobre os outros protagonistas, treinadores, realizadores, presidentes de clube, produtores. Como nos seus tempos de criança, em que todos colecionavam os cromos das estrelas, do cinema e do desporto, e ninguém queria saber quem era o presidente do clube. Agora, anda tudo às avessas, em Espanha, e por cá, também. Eu até já dei por mim, de vez em quando, a detestar mais o SCP do que o SLB (que está para o FCP como o Barça para o Real), só por achar de baixíssimo nível o Frederico Varandas e bastante mais tratável o Rui Costa. Uso, note-se, linguagem branda, ao contrário de Javier Marías, que zurze os seus alvos de crítica sem dó nem piedade, por exemplo, adjetivando de “tontos demagógicos” Blatter e Havelange. Imaginem o que chamaria, hoje, a Infantino…
O futebol permite-nos esta inteira genuinidade e franqueza e até o seu excesso. É o mundo de infância, que permanece em nós. Para Javier Marías, a violência que, por vezes, irrompe na modalidade não tem a ver com o facto de ser jogada com os pés, com uma suposta dureza intrínseca. É, sim, desencadeada pelas emoções. O clube que aprendemos a amar em pequeninos é espaço mágico de pertença e partilha da mesma vontade de vencer, vencer, vencer. Sempre! O que conta não são as vitórias de ontem, é a vitória de amanhã. Um eterno recomeço, tal como, diz-nos Marías, no mito de Sísifo, que os gregos viam como castigo e nós como um dever de glória.
É por isso que ele quer o seu Real composto por um “núcleo duro” de atletas formados no clube, no meio afetivo em que se geram os adeptos vitalícios e incondicionais. “Só com o profissionalismo e a técnica não se joga um jogo tão passional como o futebol”, escreve, defendendo o ideal de “reforçar a equipa com bons jogadores, que se vão integrando, pouco a pouco, e que os adeptos vão chamando seus, individualmente”. Com imensa graça, queixa-se do arquirrival Barcelona nas épocas de Van Gaal, que trouxera consigo grande parte da equipa do Ajax, com a qual fora campeão nos Países Baixos. Porquê? Porque não lhe dava gozo ganhar a um Barça descaraterizado, uma espécie de Ajax da Catalunha. Porém, um Real Madrid descaraterizado seria desgraça ainda maior.
3 - Como eu o compreendo! Penso, nostalgicamente, no FCP da minha infância, onde era invariável a preponderância de vedetas nascidas no clube. Recordo o exemplo do herói portista, que me permitiu festejar o meu primeiro campeonato, Yustrich. Veio de Minas Gerais e trouxe consigo apenas dois reforços: Gastão, um médio de alta craveira, e Jaburú, um super Jardel, que era imparável, com a bola nos pés. No século XXI, uma equipa de “portistas natos” tornou-se, praticamente, uma utopia, mas houve, sobretudo, dois treinadores, que conseguiram brilhar com a “prata da casa” (já não inteiramente coincidente com a “formação da casa”): Mourinho e Sérgio Conceição. Confesso que não acreditei em Mourinho, com o seu ar de galã de cinema, a gabar-se de que seria campeão no ano seguinte com um modestíssimo investimento em três desconhecidos, Derlei, Nuno Valente e Paulo Ferreira. Dois do Leiria e um do Vitória de Setúbal. Felizmente, enganei-me e fomos mesmo campeões, em Portugal, na Europa, e, depois, (já sem ele, mas ainda graças a ele) no mundo.
Em época de “vacas magras”, Sérgio Conceição não foi tão longe, mas fez milagres logo no 1º ano, não só ao dar-nos o título, como ao interromper a marcha do SLB para o penta. E sem um só reforço sonante. Motivou os que lá estavam, chamou algumas “promessas” das camadas jovens, foi buscar os que andavam emprestados por esse mundo fora – entre outros, Marega, Aboubakar e Sérgio Oliveira. Depois, sem nunca ter o que queria, foi somando títulos, e, na esteira de Mourinho, mostrou verdadeira classe internacional, pela forma como o “team, em regra, se exibia na “Champions”.
No extremo contrário coloco dois treinadores que estão na minha lista negra: Co Adriaanse e Julen Lopetegui. Adriaanse, entre outras coisas, por perseguir os meus favoritos Vítor Baía, símbolo vivo do “portismo”, e o empolgante Diego, que, depois, levaria às costas o Werder Bremen o o Atlético de Madrid de Simeone. Lopetegui por ser, no meu tempo de vida, o maior erro de “casting” da história do clube. Desgraçadamente, sobre o fracasso, que eu, na altura, profetizava em angustiados escritos, despejaram dinheiro à farta. Reforços de luxo foram mais de uma vintena (alguns, note-se, por empréstimo). Um recorde de investimento no plantel, que só foi batido agora!
Eu sei que, com Farioli, fomos campeões no ano passado e temos esperança no “bis”, mas não gosto da sua opção por um plantel que cumpre, em termos de jogadores nacionais e da formação, pouco mais do que os mínimos impostos de fora. São[U1] cerca de vinte os estrangeiros que podem alinhar na equipa principal ou sentar-se no banco (e já se foram Thiago Silva e Luuk de Jong), e três ou quatro os nacionais vindos de outros clubes. Não quero azarar, quero vencer, seja com quem for. E quem sabe se um, ou mais, daqueles rapazes que têm nomes difíceis de pronunciar vão ficar connosco e fazer história? Tal como acontece no Real Madrid, são, afinal, estrangeiros algumas das lendas eternas do FCP: Madger, Deco, Hulk, Falcão…
Do melhor Porto que vi jogar neste século ainda não falei: foi o de Villas Boas. Maravilha das maravilhas, não só pelos resultados (campeonato sem derrotas, vitória por 5-0 ao SLB, Liga Europa, Taça, Supertaça), mas, também, pela fulgurante beleza do seu jogo de ataque. Alcançou o equilíbrio perfeito entre os craques que aqui encontrou - Hulk e Facão num coletivo poderoso em todos os setores - e as aquisições cirúrgicas, como James Rodriguez, Otamendi ou Moutinho. Originalidade nossa, esta de ter um presidente que faz falta como treinador (gerir tanta qualidade, não foi coisa fácil, foi obra-prima!).
No Porto haverá sempre lugar para os grandes executantes da arte do futebol, para os recém-chegados, venham de onde vierem, e para os que partiram cedo demais, e estão nos nossos corações, os Moras, os Vitinhas, os Quaresmas, os Diegos. Tem toda a razão Javier Marías - o futebol é, acima de tudo, um mundo de afetos.
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OS PIONEIROS DO CONSELHO DAS COMUNIDADES (1981)
Os representantes eleitos pelas Comunidades na 1ª Reunião Mundial do CCP
AFRICA- Afonso Henriques Ferreira (S TOMÉ E PRÍNCIPE), Álvaro do Nascimento Chaves (ZAIRE),
ÁFRICA DO SUL (RAS) - Comendador Álvaro, de Campo Amorim, C D Barbosa, Comendador José Bernardo, Gaspar da Silva Cardoso, Comendador Santos Gomes, Dr. Luís Leal, Jaime Margarido, Filipe Marques, Jorge de Sousa
ALEMANHA (RFA) - António Cláudio, José Mendes
ARGENTINA - Armando Antunes, Paulino Lopes
AUSTRÁLIA – Padre Artur Sardo
BÉLGICA – Luís Peres Ferreira
BRASIL – Dr. Amadeu Pinto da Rocha, Ângelo Viegas, António de Andrade e Moura, Dr. António Gomes da Costa, Carlos Carvalho, Germano Augusto Tomé, Comendador Henrique Dias Ferreira, Dr. Joaquim de Matos Pinheiro. Joaquim Marques dos Reis, João Pereira da Silva, Júlio Portugal Nave Bizarro, Dr. Manuel António Mónica, Manuel Romão dos Santos, Paulino Romeira de Sá Ferreira, Rui Lopes dos Santos
CANADÁ – Alexandre da Silva, Padre António Pires, Arlindo Frazão Vieira, Fernando Cruz Gomes
ESPANHA – Fernando Veloso Rodrigues
EUA – Dr. Fernando da Silva, Padre José Alves Cachadinha, Eng.º Lourenço Aguiar, Sebastião Tavares da Silva, Eng.º Victor Cardoso
FRANÇA – António Manuel Garcia, António Mota Ribeiro, Belmiro Ramos, Carlos Duarte de Morais, Dr. Francisco Ribeirinho, João Paulo da Fonseca, José Bernardino, José Coutinho da Silva, Luís Filipe Rios, Manuel da Silva Fernandes, Manuel Vaz Dias
INGLATERRA - Padre José Salgueiro da Costa
LUXEMBURGO – Carlos Moura Bernardino
URUGUAI – Luís Viriato Caetano Panasco
VENEZUELA – J Carlos de Sousa Correia, Dr. Mário Gonçalves Bento, José Costa Castanho
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
FÉRIAS EM ESPINHO
Férias em Espinho - a marcha do tempo
1 - O mês de agosto é de "férias gerais" como impõe, antes de mais, a agenda escolar, que determina a de várias gerações de cada família e a do mundo do trabalho. Já assim acontecia no final dos anos sessenta, por exemplo, em Paris, (onde eu fazia estudos de pós-graduação), quando em Espinho, a "saison" estival ainda se prolongava ao longo de três meses, de julho a fins de setembro, com vagas de turistas que se revezavam a arrendar as casas de praia, e a encher as esplanadas, os cafés e restaurantes, a piscina, os cinemas (o Cine teatro São Pedro e o Casino, com programação diária, num total de sessenta filmes por mês), os salões de dança (da Piscina, do Casino...), e as ruas de um comércio tão ativo e diversificado quanto o de hoje - ou mais. É certo que agosto já ganhara, para os veraneantes, o estatuto de mês mais procurado e mais caro, mas não o único.
Eu vinha com a família no início da época, às vezes em junho, e ficava até ao começo das aulas, em
outubro, na pequena casa de verão dos meus bisavós, na rua 7. Que tempo maravilhoso!... Manhãs na praia azul, ou na piscina, tardes divididas entre sessões de cinema, corridas de bicicleta, jogos de damas e de dominó no café Palácio, no Costa Verde. A Avenida das imponentes palmeiras, luzes e música ambiente, tinha ainda mais encanto à noite, com as esplanadas frequentadas por gente vestida a preceito, e o alegre vaivém de velhos e novos, entre a estação do comboio e a rua 23. O programa alternativo era um salão de dança, de longe a longe, e, quase sempre, o cinema. Quando passavam dois filmes imperdíveis, íamos à tarde a um, à noite ao outro. Havia dois intervalos, aproveitados, no São Pedro, para tomar café e deambular entre os enormes quadros de vedetas de Hollywood, pendurados nas paredes, e no Casino, para vir às varandas olhar a multidão em lento e prazeroso movimento na Avenida. Duas vezes por semana, o
Casino oferecia, ao intervalo, variedades em palco - grandes artistas como Simone ou Tony de Matos, no auge da fama - com um acréscimo de preço insignificante. Na verdade, era através da sua sala de cinema que o Casino participava na nossa vida e faz hoje parte das minhas saudosas memórias da alma da cidade.
Outra época, outro mundo... Tudo mudou, e, contudo, eu não mudei a minha relação com Espinho durante o ano inteiro, agosto inclusive. É aqui que faço praia, ao contrário de muitos espinhenses, que rumam ao Algarve, em busca de sol tórrido e mar (incertamente...) morno.
2 - Estranhamente, para a generalidade das pessoas "bom tempo" é sinónimo de sol e calor - calor sem limites. A minha definição é mais exigente, excluindo os excessos, para mais e para menos. E começo a admitir que, com o fenómeno do aquecimento global, esta opinião minoritária vá recolhendo crescentes adesões. Se a evolução de tendências for nesse sentido, é uma boa notícia para Espinho, onde as famosas
nortadas criam uma espécie de microclima temperado, quando o resto do país sofre com perto de 40º à sombra. O fenómeno beneficia o litoral norte e centro, da Póvoa do Varzim e Espinho à Figueira da Foz, praias que estavam "trés à la mode" no século passado e que, se a minha profecia se realizar, virão a estar, de novo. A brisa (ou ventania), fonte desta singularidade, não parece estar em risco de se esbater, devendo-se, ao que julgo, à depressão provocada pela dramática diferença de temperatura entre o interior da península e o atlântico. Quem na nortada via incómodo, terá de se ir convertendo à tese de que constitui, afinal, um ativo importante, responsável pela existência de agradáveis "estâncias climáticas atlânticas".
Falando de ativos, um outro é, certamente, a “praia da baía”, hoje banhada por uma “quase piscina” natural. Na mesma categoria, entram a talassoterapia (o balneário marinho) e a emblemática “Piscina Solário Atlântico", que é absolutamente prioritário restituir à cidade. E, também, a antiga animação noturna
que, há muito, vem definhando. Sinal positivo, neste domínio e neste ano, é a programação musical de agosto, à beira-mar, num polo sazonal de diversão, que está, devemos reconhecer, bem publicitado em cartazes espetaculares!
3 - E, por fim, no capítulo dos ativos existentes com um potencial de imediato aproveitamento, menção aos passadiços sobre a areia, numa faixa marítima de mais de trinta e cinco quilómetros, que se pode percorrer, a atravessar as praias de Gaia, desde a foz do Douro, e as de Espinho, continuando, a sul, até à bela Barrinha de Esmoriz. Assim se unem três concelhos e dois distritos, através de algumas das mais formosas paisagens atlânticas: extensos areais, antiga e moderna arquitetura balnear, sobrevivência de aldeias
piscatórias e da arte xávega, património religioso, fascinantes paisagens de dunas, de caniçais e a maior lagoa costeira do Norte de Portugal! Um percurso que se apresenta aos caminhantes em cenários cinematográficos, de uma fantástica diversidade.
Pensando no exemplo dos “Passadiços do Paiva”, grande cartaz turístico nacional e internacional, temos de reconhecer que não seria coisa impossível converter estes congéneres numa atração algo semelhante. O que têm em comum? Obviamente, tratar-se de um recurso natural, que Arouca soube transformar em valiosíssima “marca” da terra, muito para além de fronteiras da região e do país. Recurso que, no nosso caso, está, simplesmente, ao serviço dos residentes e, mesmo em relação a eles, ao que julgo, em estado de subaproveitamento.
Falamos de projetos e paisagens completamente distintos - num caso o interior, o rio, a famosa ponte, um circuito de oito quilómetros, construído com um determinado destino, no outro o litoral, um extenso corredor de madeira, que convida residentes e veraneantes, de todas as idades, a passeios saudáveis, ao ritmo e na distância preferida, sempre a ver o mar, nas suas infinitas transformações, mais as praias e as bonitas estâncias balneares que se sucedem ao longo da costa.
É excelente que os passadiços tenham sido pensados para melhorar a qualidade de vida dos residentes de cada concelho e dos visitantes que o descobrem, ocasionalmente. Mas porque não dá-los, também, a
conhecer ao mundo? Torná-los, "de per si", um polo de atração turística, que traga os caminhantes a descobrir as vilas e cidades que vão cruzando ao andar? Podem, a todo o tempo, aqui e ali, sair para almoçar, tomar um café, um banho de mar ou de sol, retomando a marcha, mais adiante decidindo onde pernoitar ou ficar por uns dias. (quando não venha já com tudo programado, num pacote turístico).
Estou, é claro, a apontar a um projeto intermunicipal. Promover os passadiços à escala de atração nacional e internacional passa pela diversidade que só a três (ou, pelo menos, a dois) é conseguida plenamente, somando-se a outras condições que os tornam únicos no país e no espaço atlântico: a mobilidade suave, a
segurança, a amenidade de clima, a abertura ao longo de todo o ano, e, "last but not least", a facilidade de acesso, em qualquer ponto do percurso, usando meios individuais ou as múltiplas estações de uma linha ferroviária paralela ao mar.
Penso que todas as vilas e cidades ganhariam, por igual, sem perda, antes com reforço, da sua identidade, pela valorização do próprio património e oferta cultural - porque, como salientei, a primeira
aposta de um tal projeto seria na diversidade.
O investimento poderia, certamente, beneficiar de fundos europeus, mas está ao alcance dos orçamentos municipais - não é nada de muito oneroso. As infraestruturas existem, a sua manutenção e melhoramento impõe-se, em qualquer caso, e o preço a pagar seria, sobretudo, o da promoção turística. Essencial é uma designação sonante, ligada à ideia de que constitui uma experiência única em Portugal, (um grande trilho
atlântico). E, como é evidente, uma ampla programação anual - caminhadas temáticas (história, ambiente, arte xávega, observação da fauna, das aves, da flora dunar), desporto, corridas, concursos de fotografia e pintura, roteiros gastronómicos, etc. etc. Hoteis, empresas, escolas, instituições para seniores, escolas, a CP poderiam ser alguns dos parceiros da aventura de tornar os passadiços um destino de referência.
E Espinho poderia ver-se como a sua melhor "porta de entrada", pela grande proximidade da estação ferroviária à praia, por ser a "cidade do meio", pela sua tradição piscatória, fazendo a transição entre as praias urbanas de Gaia e a beleza natural das dunas de Paramos e da Barrinha de Esmoriz.
Talvez, um dia, este sonho se realize,
segunda-feira, 6 de julho de 2026
A IDADE É UMA COISA RELATIVA - também no futebol, é claro
Portugal fora do mundial. Nada de surpreendente. Uma questão de troca de quarentões: faltou PEPE, sobrou RONALDO.
Pior não podia ser, mas, mesmo assim, há um ponto positivo: estamos livres de Martinez (e de Ronaldo?).
quinta-feira, 2 de julho de 2026
VÁRIOS
IMAGINAR O MUNDO COM KAMALA HARRIS
1 – Nas últimas presidenciais nos EUA, o país dividiu-se ao meio, entre um homem já sentenciado por diversos crimes infamantes (um “fora de lei”), e uma mulher que estava nas antípodas, tendo-se dedicado a velar pelo cumprimento da Constituição e da lei e a fazer justiça - ela, Kamala, antiga Procuradora- Geral da Califórnia, Senadora e Vice-Presidente dos EUA. Ele, Donald, um ex-Presidente, com cadastro, que entre outros crimes, recusara aceitar a derrota na sua não reeleição e instigara o destruidor e mortífero assalto ao Capitólio, como, pouco depois, faria, no Brasil, outro vencido, mas não convencido, o seu seguidor Jair Bolsonaro. É extraordinário que, por crime da mesma gravidade, o populista de extrema direita sul americano habite uma cadeia, pela duração de uma pena de mais de 27 anos, e o norte americano more na Casa Branca, a cumprir um mandato presidencial de quatro anos e a disseminar, universalmente, as sementes da discórdia e da violência.
Ao contrário da “perceção” generalizada, Trump ganhou por apenas alguns milhares de votos, e tem uma escassa, embora fiel e fanática, maioria nas duas Câmaras, que talvez perca nas eleições de meio mandato, em novembro próximo.
E se ela tivesse vencido, ainda que por pequena margem? Imaginemos a América da Presidente Harris! Não é um exercício inútil, é um convite à tomada de consciência da importância do voto de cada um e dos custos que pode acarretar a má escolha.
Na presidência Harris, o planeta não estaria, como está, à beira da crise e do caos. Não haveria quotidianamente fanfarronices, insultos, palavrões, ameaças, “bulling”, cortes nos programas de ajuda humanitária, rutura de velhas alianças, total desrespeito pelo Direito interno e internacional, a traição à Ucrânia, os pactos com Putin, as tarifas arbitrárias, que abalam o comércio global, as perseguições de imigrantes por agentes do ICE, com ordem para matar, assaltos piratas a riquíssimas reservas de petróleo (consumados na Venezuela, planeados, muito provavelmente, para o Irão), tentativas de anexação da Gronelândia, e (loucura das loucuras!) dos grandes países vizinhos, Canadá, México e por aí adiante, sem excluir os mais pequenos, como Cuba, (a próxima prioridade na “agenda Trump” de invasão e conquista). Não haveria, agora, a guerra do Golfo, a alastrar pelo Médio Oriente, nem o fecho do estreito de Ormuz, a abrir, se não uma 3ª guerra mundial, a maior das crises, petrolífera e alimentar, à escala do planeta Terra…
Insólito foi que metade da América, a mais poderosa democracia do mundo, tenha votado num psicopata, com amplas provas dadas da doença, exibindo, despudoradamente, um ego monstruoso, que traz ao presente o eco longo da história dos Césares doidos do império romano. Por cá, em eleições que afetam os destinos de todos os povos (como estamos vendo...), o insólito foi ouvir o Secretário-Geral do PSD confessar a sua equidistância de Harris e de Trump...
2 – Nas recentes eleições presidenciais, em Portugal, constatamos idêntica tomada de posição da parte do líder do PSD e do Governo, mas não da parte do Povo, que nos deu uma verdadeira lição de maturidade democrática. De facto, mais de dois terços dos portugueses deram a vitória ao representante dos valores civilizacionais vividos no último meio século, contra o líder do partido da intolerância e da cizania, o candidato que propõe a ressurreição do salazarismo, a República distópica dos “três Salazares”.
A esmagadora maioria de eleitores, disse, pelo voto livre e lúcido, aos dirigentes máximos da AD.2, que não há uma linha divisória entre democratas, sejam eles de direita ou de esquerda, mas sim um fosso intransponível a separar os militantes da Liberdade e do Humanismo dos arautos de novos totalitarismos, em qualquer das extremidades do espetro político.
É curioso constatar que, nos primórdios da construção da nossa arquitetura democrática, os programas e as lideranças dos partidos fundadores estavam à esquerda das suas bases. O CDS, a direita cristã-democrata, considerava-se centrista (“rigorosamente ao centro”). O PPD/PSD afirmava-se de esquerda (sendo social-democrata, nem outra coisa se poderia declarar…), apesar das suas hostes se repartirem do centro-direita ao centro esquerda. E o PS gritava nos comícios e marchas cívicas: “Partido Socialista, partido marxista”, muito embora o grosso do seu eleitorado fosse reformista.
Meio século depois, ao menos no respeitante a esta segunda AD, são os dirigentes máximos que se colocam à direita das bases. Assim o revela, claramente, a expressiva votação do seu eleitorado no Presidente Seguro.
Foi uma primeira zurzidela na teoria da equidistância do PSD face ao PS e ao Chega, e, também, obviamente, no projeto “Passista” de uma grande coligação com o Chega – como se houvesse chão comum entre a direita salazarista/trumpista e a direita democrática! Por mim, não tenho dúvidas de que um regresso de Passos Coelho à presidência do PSD seria o fim do PSD, em definitivo rompimento com a sua designação e os seus fundadores.
A segunda e não menos forte machadada na obstrusa tese da equidistância veio pela mão de mestre de Cavaco Silva. Num artigo publicado no Expresso da semana passada, o mais prestigiado nome do atual PSD, situou o Chega fora do espaço da civilidade e dos possíveis consensos partidários, ao concluir que “não permite construir uma sociedade onde haja uma sã convivência entre todos”, e ao denunciar a sua “impreparação técnica para falar de políticas para o progresso do país”.
Assim o economista que governou Portugal durante a década de ouro da adesão à CEE, fala numa linguagem em simultâneo, rigorosa, contida e demolidora. Mas não se fica por essa sentença letal. Em palavras mais contundentes foi traçando o retrato realista dessa “estirpe” política, que, segundo ele, recorre: “ao insulto, à calúnia e à mentira”; a uma “retórica de confrontação”; a um “discurso teatral de ódio, de insulto, de calúnia e de mentira”. Olhando mais de perto o chefe do partido, (um partido praticamente unipessoal, sem existência para além do dono) diz, simplesmente: “O líder do Chega procura iludir e enganar os portugueses, através de uma gritaria de pretensas verdades sobre a situação do país, sem referência às políticas concretas que defende ou sugerindo falsas soluções para os problemas”.
A minha leitura subjetiva destas asserções, (que subscrevo por inteiro), leva-me em linha reta às questões da nacionalidade, da imigração, do reagrupamento familiar, ou da expulsão de portugueses naturalizados, como pena acessória (medida que, aliás, considero inconstitucional). Questões que o “trumpismo” e os partidos europeus da mesma estirpe põem na ordem do dia e que a AD.2 estranhamente fez suas, com absoluta prioridade. Num país obrigado a dar resposta à devastação do seu território pelas intempéries do inverno e tão carente de reformas, por exemplo, nas áreas da saúde, da educação, da administração pública, da habitação, da defesa, a que propósito gastar tempo e energias governamentais, em alianças com o "trumpismo à moda de Lisboa"?
Os portugueses, entre os equivalentes nacionais de K. Harris e D.Trump, escolheram Harris, seguiram a via proposta por Cavaco Silva, contra a de Passos.
3 – Neste contexto, o artigo do Prof. Cavaco Silva assume uma relevância muito especial. Mais uma vez, mostrou que sabe como e quando intervir, enquanto académico, enquanto político e personalidade de referência. É o futuro do país que o move, como apoiante de primeira hora de Luís Montenegro.
Mas não esqueceu o passado. Veio a público defender Sá Carneiro da vergonhosa apropriação do seu nome pelo líder do Chega, perante o incompreensível silêncio dos dirigentes do PSD.
Aqui deixo uma última citação deste histórico artigo, a que, naturalmente, mais me emociona:
“Tendo sido Ministro das Finanças e do Plano de Sá Carneiro e tendo estudado os seus textos sobre o exercício do poder em Portugal, estou absolutamente convencido que ele lutaria com todas as suas forças contra o discurso de ódio e as ideias do líder do Chega”.
Eu, que fui apenas Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas de Sá Carneiro, mas que também li os seus discursos na Assembleia Nacional, os “Vistos” do Expresso e acompanhei, como incondicional admiradora, as suas intervenções, após o 25 de Abril de 74, na oposição e no Governo, penso exatamente o mesmo.
E, por isso, posso proclamar que Sá Carneiro, um grande democrata, um lutador contra todas as formas de ditadura, um convicto social-democrata, teria, sem sombra de dúvida, votado em António José Seguro e jamais faria alianças com “trumpistas”.
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CAMPANHA ELEITORAL SUBMERSA, MAS ABSTENÇÃO CONTIDA
1 –O ato cívico da votação foi um momento de bonança entre tempestades. Os ventos ciclónicos que arrasaram Leiria e grande parte da região centro, submergiram a campanha eleitoral na última semana, secundarizando a presença e o discurso dos dois candidatos, remetidos a uma relativa invisibilidade. Não obstante isso, revelaram, tanto ou mais do que em normalidade de circunstância, as suas diferenças de qualidade humana e política. Um criando ruído e falsas "perceções", no circo mediático em que medrou e existe. O outro, agindo já como o excelente presidente que, certamente, vai ser, ouvindo e apoiando as vítimas no mundo real em que sobrevivem, e lembrando-as nas primeiras palavras do sereno discurso de vitória.
Nunca, em meio século de democracia, a escolha entre dois contendores foi tão fácil, entre democracia e humanismo e o seu contrário. Estranhamente, os líderes da AD não tomaram posição, invocando a sua equidistância entre uma soi-disant “direita” e o “socialismo”. Que absurdo! Há muitas esquerdas e muitas direitas. As direitas e as esquerdas democráticas têm afinidades de valores que as agregam, naturalmente, contra os extremismos, porque, como diz o ditado popular, “os extremos tocam-se”.
Felizmente, os mais proeminentes rostos do PSD e do CDS, de Cavaco Silva, a Leonor Beleza e Marques Mendes, de Paulo Portas a Lobo Xavier, vieram dar o seu apoio inequívoco ao representante da civilidade e da decência contra o profeta do ódio e da cizânia. E o Povo mostrou que estava com eles e deu a António José Seguro a maior vitória eleitoral de sempre, em números absolutos.
Para mim, na noite eleitoral, umas das maiores alegrias foi constatar que, em termos percentuais, no concelho de Espinho, Seguro teve uma votação superior à das três grandes cidades, onde ultrapassou os 70& - Coimbra, Lisboa e Porto. Do mesmo modo, destacarei o “voto Seguro” das mulheres portuguesas, que excedeu, largamente, o do outro sexo.
Um sinal dos tempos - em começos do século XX, eram vistas como forças reacionárias, inimigas da democracia. o que foi, como é sabido, o principal argumento para a República lhes negar, até ao fim, os seus direitos politicos.
2 - A declaração do "estado de calamidade", em parte do território, foi pretexto para o demagogo da direita iliberal e desordeira. reclamar o adiamento das eleições. Pouco lhe importava a lei que não permitisse um adiamento global (cumprir a lei é só para ciganos, não é para Ventura).
Antecipando a derrota anunciada em todas as sondagens, lançou mão da clássica receita trumpista de desmobilizar e descredibilizar a eleição que estava perdida, agitando o fantasma de uma enorme abstenção. Ponca sorte a dele! O povo derrotou-o duas vezes - primeiro pela participação em massa nas urnas de voto, depois, nos números e percentagens da estrondosa vitória do adversário.
Tal como durante a epidemia de covid, os portugueses cumpriram, de forma exemplar, o seu dever cívico. E, na realidade, quer em 2021, quer em 2026, a abstenção, em território nacional, foi muito inferior à que os números finais indicam. Estes números são empolados pela colossal abstenção dos círculos de emigração, abstenção essa que é intrínseca ao modo de votação (presencial) dos emigrantes.
Os emigrantes votaram, pela primeira vez, presencialmente, nos consulados, em 2001 (reeleição de Jorge Sampaio), mas constituíam um universo limitado, e, por isso, provocavam na taxa de abstenção aumento pouco significativo.
Quando a lei consagrou o recenseamento automático de todos os portugueses com cartão de cidadão, os votantes nos dois círculos de Emigração (Europa e Fora da Europa), passou (se bem me lembro) de cerca de 250.000 para mais de um milhão e, atualmente, para 1 777 019. Contudo, a lei dá aos emigrantes com uma mão, o que lhes tira com a outra, ao não facilitar a multiplicação das mesas de voto, obrigando a maioria a deslocações de muitas dezenas, centenas ou milhares de quilómetros.
Neste processo eleitoral, a abstenção, na 1ª volta, foi de cerca de 96%, na segunda, desceu ligeiramente, para um pouco mais de 95% (em números exatos: 85 854 votantes, 1,692 164 abstencionistas - na sua maioria, forçados pela distância entre a residência e o local de voto. Se, dentro do território nacional, obrigassem os portugueses do país inteiro a ir, por exemplo, votar a Lisboa, as taxas de abstenção também subiriam em flecha…
A votação postal, que é permitida nas eleições legislativas, facilita, obviamente, a participação (nas últimas legislativas votaram cerca de 350 000 expatriados) mas, como é evidente, só o voto eletrónico, idealmente combinado com o postal e o presencial, poderá colocar os emigrantes em condições de igualdade com os residentes no território.
Enquanto se mantiver este estado de coisas, melhor será informar corretamente o país sobre a participação eleitoral dentro e fora do território nacional.
Se fizerem contas da abstenção relativas a 9 262 653 cidadãos residentes dentro de fronteiras, (e não ao total de11 milhões), e verão como ela desce.
3 - Em países de dimensão populacional imensamente superior à nossa, como o Brasil ou os EUA, há muito se introduziu o voto eletrónico, mas por cá, apesar de tão justamente reclamado pelos emigrantes, não deverá ser aceite no futuro próximo. É muito ousado para os burocratas da Administração Pública e muito arriscado para os políticos que, no íntimo, temem o voto dos expatriados – mais uns dos que outros.
Espero que, um dia, não muito longínquo, algum jovem académico empreenda o estudo que falta sobre a história do “sufragismo emigrante”, que tem algumas semelhanças com o sufragismo feminista). Aqui direi, “en passant”, que o PSD foi, durante décadas, ( e quero acreditar que ainda é) o mais favorável às reivindicações dos emigrantes. Na revisão de 1997, Marques Mendes condicionou mesmo o acordo interpartidário com o PS, (então parceiro obrigatório de maioria constitucional), à aprovação do voto dos emigrantes na eleição do Presidente da República. O PS foi fazendo, lentamente, a sua “estrada de Damasco”, até avançar (pela iniciativa de José Luís Carneiro) para o grande salto qualitativo do recenseamento automático.
Muito resta por fazer. Os quase 1 8000 000 recenseados no estrangeiro elegem apenas quatro deputados para o Parlamento e estão excluídos das eleições autárquicas e das autonómicas (ao contrário do que acontece, por exemplo, na vizinha Espanha).
Estou convencida de que o verdadeiro travão à consagração da igualdade de direitos políticos para os emigrantes, foi o medo do seu sentido de voto (mais inclinado para o centro e a direita, considerava a esquerda…).
Agora que se verifica um crescimento da extrema direita em ambos os círculos da emigração (venceram as últimas legislativas e, também, embora por pouco, estas presidenciais), será ainda mais difícil lutar pela plenitude dos seus direitos de cidadania?
Espero que não! Há que acreditar nas pessoas e na Democracia. Os portugueses da Diáspora são eleitores tão conscienciosos como os residentes.
A facilitação do seu exercício do voto não favorecerá o extremismo. Em condições muito adversas, são os mais militantes, os mais fanáticos que resistem. Em condições normais (sobretudo com a admissibilidade do voto digital), virá, ao de cima, a grande vaga dos moderados.
Note-se que, na emigração, Ventura venceu, mas por pouco. Num total de cerca de 85 000 votos, a diferença para Seguro foi apenas de 1 366.
Na primeira volta, Ventura liderava com 40, 93% contra 23,69% de Seguro, na 2ª volta acabaram quase empatados.
Ventura ganhou nas comunidades da “velha guarda”, (na Suíça, na França), mas perdeu na Alemanha e em mais 23 países da Europa, em todos os Palop, no Oriente – ou seja, na "nova emigração" mais qualificada. O perfil de eleitor Ventura/Chega é, afinal, semelhante no país e no estrangeiro. E recolhe, ainda, o “voto do descontentamento” – e razões de protesto não faltaram nunca aos portugueses que se sentem tão discriminados.
A sua insatisfação não se combate tirando-lhes direitos, mas sim fazendo-lhes justiça.
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UMA IDEIA PARA ESPINHO
Uma ideia para Espinho
1 – A recente entrevista do Presidente Jorge Ratola à “Defesa de Espinho” fala-nos das agruras e dos compromissos de governar a autarquia, traçando o retrato de uma cidade que, na transição de século XX para o século XXI, apostou em significativo número de equipamentos de vulto, os quais estão hoje, não só subutilizados, mas em estado de degradação acelerada. Nas palavras claras e contundentes do atual Presidente não oferecem “condições mínimas de dignidade” todos aqueles que lista: “o edifício da Câmara, Piscina Municipal, Balneário Marinho, Solário Atlântico, Multimeios, Nave Desportiva, FACE e parque de campismo”. Uma situação de estarrecer, a que poderemos acrescentar, por exemplo, o deplorável estado de conservação dos passeios e das ruas, e, embora sem diretas responsabilidades da Autarquia, a estação do caminho de ferro, com aquele longo túnel escuro, feio e sujo.
É óbvio que Espinho não chegou a este estado da noite para o dia, mas devido à inação acumulada em vários mandatos autárquicos (doze anos de PSD, quatro de PS, estes tumultuados por uma crise, que levou à barra dos tribunais políticos e funcionários camarários e precipitou o afastamento do Presidente e do Vice-Presidente, com a ascensão à chefia de uma mulher corajosa, cujo partido a veio a “descartar”, talvez por
ser mulher).
Sobre os equipamentos que frequento com alguma regularidade, (o Multimeios, o FACE, a piscina Solário Atlântico), faço minhas as palavras do nosso Presidente da Câmara e saúdo a sua pragmática decisão de “começar pelo princípio”, cuidando dessas estruturas.
O espetáculo dado pelo exterior do FACE é, talvez, o caso mais extremo, a desfigurar um edifício belíssimo, infelizmente, ainda pouco visitado, quer por espinhenses, quer por turistas. O que se deve a razões muito diversas, algumas das quais são fáceis de resolver. De facto, quem passa à beira-mar, nas traseiras do edifício, não adivinha que se trata de um Fórum de Artes e Cultura, com o seu Museu, as suas Galerias de Arte, o seu Auditório, etc. etc. E circula muito mais gente nessa parte, virada ao mar, do que na parte da frente, numa rua estreita que praticamente só serve o trânsito automóvel. Para atrair visitantes, conviria sinalizar o Fórum, por exemplo, através de um simples cartaz ou de umas bandeiras a flutuar ao vento. Ajudaria, também, a crescer o seu público, a abertura de uma cafeteria, como a que existe na Biblioteca e, em regra, nos museus de qualquer país do mundo. Sugeri essas medidas ao Executivo, em 2009/ 2010, quando era vereadora da Cultura. Recordo-me de que, nessa altura, já chovia no FACE, aqui e ali, nomeadamente nas Galerias...
A exceção a este triste panorama geral parece ser a Biblioteca, frequentada, por gente de todas as idades na sua programação cultural, com aquele significativo espaço dedicado a José Marmelo e Silva e ao seu valioso espólio, com o tranquilo jardim das oliveiras, entre as duas salas de leitura, e com a pequena
cafetaria, onde se almoça saudavelmente e os doces são deliciosos.
2 – Nestes últimos tempos, em Espinho, na verdade, nem tudo, mas várias coisas correram mal… » cabeça, o enterramento da linha férrea, desejado por quase todos (não por mim, membro de uma escassa minoria), foi uma oportunidade perdida, porque incumpriu o objetivo de libertar espaço urbano, eliminar uma barreira física e devolver continuidade à malha da cidade: o túnel deixou de fora extensas zonas a norte e a sul... E o que libertou é apenas uma vulgar avenida, não uma nova “Avenida 8”, cheia de encanto e movimento. Não gerou a revolução económica e turística que muitos imaginavam. A cidade ganhou espaço, mas o espaço não recuperou centralidade.
Afinal, o maior problema da terra não era ferroviário, mas identitário. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, Espinho era uma das mais famosas estâncias balneares portuguesas, pela rara combinação de praia, caminho-de-ferro, (que aproximava o interior de Portugal e Espanha), casinos, e todas as demais trações da moda: cinemas, teatros, festivais, esplanadas, cafés, dinâmico comércio, recintos desportivos, piscinas, golfe…. Era a "rainha da Costa Verde" respondia às exigências do paradigma da “Côte d’ Azur”!
Entretanto, foi evoluindo o conceito de turismo balnear, surgiram centenas de praias, sobretudo a sul, e o Algarve de águas mais quentes e sol abrasador tornou-se destino dominante para todas as classes sociais. Espinho tratou de se dotar de novas atrações, de equipamentos grandiosos. Infelizmente, não se
encontram em muito bom estado, como revela o Presidente. Acredito na sua vontade e capacidade de os recuperar. Porém, depois, o pleno aproveitamento das diversas estruturas vai depender, não só, mas também, de novos projetos para Espinho. Ainda não sabemos quais e não é questão que quero abordar neste texto. Deixo apenas uma ideia que me parece viável, tendo olhado em volta, para outra “cidade-casino” à beira-mar – a Póvoa, nossa eterna rival!
3 - O casino desempenhou na “Belle époque” de ambas as distintas urbes um papel fundamental. Agora, no novo século, como avaliar esse papel, no que respeita à sua inserção no tecido social e cultural de cada uma das cidades?
O Casino de Espinho é um mundo em si, voltado para o turismo e o entretenimento. Está aqui, como podia estar em Miami. Fornece concertos, revistas, espetáculos internacionais e jantares-espetáculo em salas magníficas, mas encerrou, há muito, um último espaço de convívio quotidiano para gente menos endinheirada: a esplêndida sala de cinema, uma das mais bonitas, se não a melhor, de todo o Portugal. O Casino da Póvoa seguiu via oposta: conservou o seu belo e antigo edifício, verdadeiro “ex-libris”, e, embora também organize espetáculos de variedades, singularizou-se, pelo envolvimento profundo na criação cultural e literária da cidade, como espaço cultural poveiro e polo cultural regional, com uma agenda artística contínua no Teatro, incluindo peças e concertos de música popular. A Póvoa conseguiu, com essa opção do Casino, tornar-se uma marca cultural de alto prestígio, através das “Correntes d'Escrita” e do
prémio literário, que é um dos mais importantes do país.
Passando dos Casinos ao poder local, a análise permitirá conclusões análogas. Espinho (terra onde a sociedade civil, através da programação do Auditório de Música, Cinanima, FEST, dá esplêndidos contributos), procurou a afirmação em edificações importantes, em festivais, de âmbito local, em eventos dispersos. A Póvoa, para além de financiar esse tipo de programação, associou-se a uma iniciativa identitária e continuada, criando uma marca intelectual reconhecida, a nível nacional e até internacional.
A Póvoa tem as “Correntes”, o Porto a sua “Babel”, projetos com os quais rompem a medianiae se afirmam para o exterior por uma imagem de qualidade. O que não resolve os problemas todos, mas cria oportunidades, desenvolve a autoconfiança e o espírito que ajudam à resolução. E Espinho?
A meu ver, a cidade precisa de iniciativas que a relacem para além das suas fronteiras e combatam o subaproveitamento de vasto património (mais ainda depois de recuperado), dando-lhes um caráter de atividade constante, não meramente pontual e, se possível, pondo o foco na história que queremos continuar e que bem merece ser conhecida por portugueses e estrangeiros.
Para mim, o projeto ideal seria a criação de um museu imersivo, a partir dos nossos preciosos arquivos fotográficos, acordando a memória da improvável caminhada da pequena urbe piscatória primordial para a estância balnear cosmopolita dos anos vinte, com os seus casinos, tertúlias, festivais e a sua mítica e movimentada Avenida, até à cidade atual e sua perspetivas de futuro.
Façamos algo, que “ainda ninguém fez”, nem da mesma forma poderá fazer, porque é única e inconfundível a matéria prima de que se tece: o nosso próprio passado.
Um museu vanguardista e singular, não necessariamente muito grande, comportável no orçamento municipal (custando, numa dimensão inicial, apenas cifrões equivalentes a quatro ou cinco concertos com chamativos nomes da música popular). Não é uma utopia. Pensei em exemplos concretos, no “Perlan”, da Islândia - país onde há muitos outros centros interpretativos deste tipo, que são enorme atração turística, e onde alguns, por sinal, nasceram em infraestruturas já existentes.
A Islândia não tentou competir com Paris ou Berlim, através de museus universais, antes exibe o que a torna única - os seus fenómenos naturais, que transforma numa experiência maravilhosa para os visitantes, de qualquer idade ou formação. Precisamente como Espinho não precisa de competir com a Póvoa, com o Porto, ou com qualquer outra cidade. A ideia é converter a sua própria história numa narrativa contemporânea, que transporte o pioneirismo do passado para o futuro, como um verdadeiro traço identitário.
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domingo, 24 de maio de 2026
CCP Europa tem nova Direção
Um dos momentos centrais dos trabalhos foi a eleição da nova Direção do Conselho Regional da Europa, realizada por voto secreto. A lista apresentada foi eleita por unanimidade, confirmando um amplo consenso interno. A nova Direção passa a ser composta por Inês Rodrigues Peixoto (Luxemburgo) como Presidente, Manuel Cardia Lima (França, Lyon) como Vice-Presidente, Duarte Manuel de Sousa Fernandes (Grã-Bretanha, Jersey) como Secretário, António Oliveira (França, Paris) como Relator, e ainda os vogais João de Carvalho Figueiredo (Suíça, Genebra), Maria Cândida Pereira de Melo (Alemanha, Estugarda) e Sílvia Maria Paredes Prada (Andorra).
quinta-feira, 21 de maio de 2026
FCP - A ARTE DE SABER GANHAR
1 – A vitória do FCP, no campeonato de 2026, foi indiscutível, com um começo fantástico, em força, (à Farioli), depois, com a capacidade de se manter na frente e de superar o abrandamento final (também à Farioli). Em suma, foi sempre a melhor equipa, deu ao jovem treinador, formado em Filosofia por Florença, o seu primeiro grande troféu e, do mesmo passo, a todos os portistas, mais uma taça para o Museu e a certeza de que, no novo ciclo de Villas Boas, retomavam o seu percurso como estrela maior do futebol português, seu paradigma de qualidade, sua bandeira a nível internacional. A bandeira azul e branca, cores originais de Portugal, que foram adotadas, desde a primeira hora, pelo clube portuense, nascido ainda sob o regime monárquico.
No período de transição de liderança isso não fora, de início, coisa que pudéssemos ter por segura na era pós- Pinto da Costa (o mítico Presidente mais titulado do mundo), que fizera de um clube aguerrido, mas “regional”, uma superpotência, a nível interno, e em rápida ascensão na alta roda do futebol mundial. Para os portistas, a não participação do clube na “UEFA Champions League” só pode atualmente ser vista como uma anormalidade, com foros de escândalo. Ora a última participação do FCP na Liga dos Campeões datava de 2023/24 (quando foi eliminado pelo Arsenal, nos oitavos de final, por grandes penalidades), e o título de campeão fugia-lhe há quatro longos anos. À perda dos milhões daquela competição europeia juntava-se o anúncio (felizmente exagerado) do estado de falência do clube em 2024. Para mim, de qualquer modo, o desnorte no campo de jogo era mais inquietante do que no campo das finanças, onde, num ápice, havendo pilares de sustentação, “se dá a volta por cima”. De facto, lembrava-me de diversos períodos altos e baixos nas contas do FCP, e, sobretudo, do pitoresco episódio da penhora de seu património, incluindo a retrete do árbitro do estádio das Antas, pelo tristemente célebre Ministro Catroga, que não logrou atrapalhar esplêndidas vitórias desportivas, nem vultosos investimentos em jogadores. Tal como eu esperava, a história repetiu-se, e, apenas um escasso ano após a anunciada “falência”, eis que o FCP se reforça com o seu mais caro plantel de sempre, o atual. Milagre? Não, nem milagre, nem perdão bancário das dívidas, que é privilégio de um certo clube de Lisboa. Foi, simplesmente, muito boa gestão de sólida riqueza institucional herdada, inclusive, o potencial de vendas de passes de jogadores. E eis o Porto de regresso ao seu lugar cimeiro, retomando o fio da sua história “contra tudo, contra todos”!.
2 - Assim foi e assim vai ser, provavelmente por muito tempo ainda. Somos o país mais centralizado da Europa (razão primordial do nosso atraso, gerador de pobreza relativa e de emigração de jovens talentos), e os maiores clubes da capital gozam das vantagens da sua proximidade do Terreiro do Paço e do favorecimento geral dos “média”, nomeadamente, das televisões privadas e, por vezes, também da pública. Quando um dos emblemas da capital é o vencedor, todos os canais se centram nos festejos, durante dias e dias, comentando as imagens, os feitos e os heróis, em infindável “replay”. Quem não se lembra, por exemplo, daquele desfile sportinguista, pela madrugada dentro, atravessando quilómetros de ruas de uma Lisboa, até então, enclausurada pela pandemia de Covid (em completo e tolerado desrespeito de rigorosos ditames)? Tudo religiosamente filmado e transmitido ao minuto, até os incidentes desagradáveis, que, por lá, fazem parte integrante de rituais guerreiros. Com exceção das desordens (que, por cá, não fazem parte dos programas de festas), esperava que, ao menos naquela noite especial, o FCP estivesse em foco nos vários canais televisivos, que abundantemente se ocupam do futebol.
Passei a tarde na cidade do Porto, mas foi em Espinho, que fiquei e ver a festa do título na televisão, maravilhada com um espetáculo “jamais vu”, mas estupefacta com a parca cobertura que lhe era dedicada, da SIC Notícias e CNN à CM e à Sport TV, ressalvado o caso da RTP Notícias, serviço público, a demonstrar a que, nestas alturas, faz a diferença e é imprescindível. Circunstância agravante: aqueles quatro canais estavam devidamente debruçados sobre o futebol, mas com o epicentro noutros protagonistas do dia final do campeonato. O clube nº 1, sendo do Norte, interessava-lhes menos do que o 2º e o 3º classificados! Quando muito, aqui e ali, tripartiam o ecrã, com imagens da festa do campeão num cantinho, enquanto os comentadores falavam, não tanto do segundo e do seu acesso aos milhões da UEFA, mas antes de um nome singular, por ironia do destino, o maior derrotado da noite: Mourinho! Curioso fenómeno mediático, um só homem a ocupar o lugar que, no inverno, fora o das inundações, no verão é, desgraçadamente, o dos incêndios, e, nos intervalos, o das guerras que grassam num mundo assustador. Desde que chegou a Portugal, o “Special One” (de quem devo dizer que gosto muito), ocupou a cena mediática, mesmo para além das fronteiras do desporto. Curiosamente, o mais prejudicado com isso, a meu ver, foi o Trump à portuguesa, que diga o que disser, monopoliza os “media”, e, graças a eles, vem medrando, desmesuradamente, na política. Mourinho “secou” Ventura em tempo de antena! Mais uma boa razão para eu lamentar a sua anunciada partida para Madrid…
3 – Voltemos à festa do campeão, a que assisti, alternando as belas reportagens da RTP Notícias e do Porto Canal (ignorando os outros, que só transmitiram, na íntegra, a parte final do programa, os discursos na Câmara e o desfile dos “craques” no palco da Avenida.
Foi um espetáculo de que nos devemos orgulhar tanto quanto do próprio título. Uma mostra do que eu considero “a arte de saber ganhar”. Junto-me aos que afirmam que nunca se viu, em parte alguma do planeta azul, festejo comparável! Foi a mais perfeita conjugação da paisagem natural (o fabuloso rio Douro, revestido de mil luzes azuis, as pontes rendilhadas a ferro, da escola de Eifel, a nossa Ribeira, património arquitetónico mundial, com “patine” de séculos) e da paisagem humana (a maior multidão jamais vista, avaliada, nos vários lugares da cidade, em mais de 600 000 pessoas, uma imensa multidão unida, fraternalmente, no sentimento alegria). E, é claro, a organização que esteve por trás de tudo isto, a criatividade, a combinação do tradicional fogo de artifício e do recurso à tecnologia para desenhar mensagem nos céus, com “drones” ao serviço da arte e do tributo a Jorge Costa, eterno capitão.
Penso que tanto nos devemos orgulhar da realização desportiva do FCP, como desta sua forma ímpar de partilhar o triunfo em sã e jubilosa convivência e de um modo tão esplendoroso, tão imaginativo. Campeões há muitos, festejos como os nossos, não há.
É, em particular, impressionante a comparação com o que, (quase) sempre, acontece em Lisboa (os desacatos). A que se deverá a nossa singularidade? Eu tinha, e mantenho, uma tese, a este propósito, mas decidi consultar um observador supostamente neutro: o Chat GPT (uma estreia absoluta, confesso). Para os da minha idade, ou de outras idades, que nunca o tentaram, aqui fica, resumidamente, a minha primeira experiência. Segundo o “Chat” três fatores favorecem o Porto versus Lisboa:
- a geografia urbana, a Avenida, espaço amplo, aberto e linear, ao contrário da Rotunda, com múltiplas artérias de escoamento e barreiras, como estátuas e canteiros, o que facilita pequenos desacatos, que escalam mais facilmente em violência;
- o policiamento de proximidade, em cordões periféricos e equipas de intervenção posicionadas fora da vista da multidão, para evitar o sentimento de confrontação, por um lado, e, por outro, uma cultura de forte união regional.
- a sociologia da Identidade: as festas do FCP assumem um caráter de afirmação regional “nortenha contra o centralismo. Existe uma forte autorregulação entre as claques (como os Super Dragões) e os adeptos comuns para manter a ordem e proteger a imagem da cidade. Em Lisboa, a rivalidade partilhada na mesma cidade (Benfica e Sporting) eleva a tensão prévia das celebrações.
Não entrei em debate com o “chat” (está na hora de eu enviar o texto para a redação…). Resta-me manifestar as minhas humanas discordâncias. Descarto os fatores geografia urbana, polícia escondida nas sombras, ou ausência de rivalidades clubistas, que, por sinal, não nos faltam, as do Porto (Boavista, etc) e as de Lisboa, que aqui têm adeptos de sobra… A festa dos campeões portistas é simplesmente um São João antecipado, e, tal como o São João, acontece por todas as ruas, becos e vielas, sem vigilância e sem desordem. O Chat só se aproxima da verdade, como eu a vejo e sinto, quando fala de solidariedades “regionais”. Corrijo: mais precisamente, “portuenses”. A verdade é que o Porto Clube e o Porto Cidade se unem na celebração das vitórias, para sair à rua, numa noite mágica, animados pelo espírito comunitário e pela alegria de viver. O espírito do nosso São João.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
MARIA LAMAS
A HUMANISTA PRATICANTE
Maria Lamas é uma mulher verdadeiramente intemporal, que tem um lugar ímpar na história portuguesa do jornalismo e das Letras, do movimento feminista em meados de novecentos, e da luta contra a violência de uma longa ditadura. Foi protagonista maior, em todos estes domínios, senhora de um destino extraordinário, num dado tempo, particularmente ingrato, que, sobretudo por ser mulher, a obrigou a vencer mil obstáculos, preconceitos misóginos e perseguições da polícia política. Figura intemporal, antes de mais, como paradigma de cidadania vivida audaciosa e apaixonadamente, com uma visão clara do devir português, uma crença na força criativa e subversiva das mulheres para mudar o velha Ordem, e o velho mundo anacrónico do chamado “Estado Novo”, sempre numa atitude coerente de generosidade.
Nascida ainda no século XIX, foi aluna do “Colégio das Teresianas Jesus, Maria e José”, estudando num ambiente religioso, onde se sentia bem, e onde cedo terá despontado o sentido de missão, que, mais tarde, alargando horizontes com projetos de carreira profissional e de intervenção cívica, se consumou no humanismo laico e fraternalista com que fez percurso, num combate sem fim pela justiça, pela igualdade e pela paz.
Casou aos 18 anos, com um republicano, Oficial de Cavalaria, e com ele viveu três anos em Angola. No regresso a Torres Novas, ainda muito jovem, já vislumbramos, na suas iniciativas solidárias, a militante de ideias e causas que não tardaria a revelar-se plenamente: é voluntária da Cruz Vermelha, organiza saraus de beneficência para ajudar famílias dos soldados, publica na imprensa local artigos sobre a guerra. Aos 26 anos, depois do divórcio – à época, era visto como um ato de rebeldia ou de afrontamento dos "bons costumes",e do dever de submissão feminina – fixa-se em Lisboa e torna-se pioneira no jornalismo, que era ofício de homens. Trabalha, primeiro, numa agência de notícias, e em “A Capital”, depois no grupo editorial de “O Século”, dirigindo, durante muitos anos, a revista feminina “Modas e Bordados”. A revista, muito popular entre a metade feminina, supostamente conservadora e fútil, era o mais improvável dos instrumentos para o empreendimento que ousou: promover a revolução de mentalidades, a mobilização das mulheres de todas as idades para a vivência cidadã, a independência de espírito, a valorização do seu papel. Usa, habilmente para aconselhamento, um “correio de leitoras”, que, para ela se converteu em posto de observação e de tomada de consciência dos problemas e dilemas do mundo (ou do gueto) feminino.. A sua obra mais emblemática, que podemos classificar como “monumental”, " As Mulheres do meu País”, terá tido aí a sua pré-história.
É nesta sua forma de dar concretização pragmática e eficiente aos valores e ideais que a norteiam, e numa rara capacidade de realizar coisas grandes com meios parcos e banais, que Maria Lamas me parece singularmente inspiradora, hoje e em qualquer época. O “correio” da popularíssima revista feminina teve um enorme impacto, o mesmo se podendo dizer das conferências e das grandiosas exposições que, sob o patrocínio de “O Século”, com incomparável brilho, levou a cabo, para dar do papel mulher sua contemporânea, em diversas sociedades, domínios e circunstâncias, uma visão pedagógica e dignificante confirmada por factos e por feitos, com que desmentia, categoricamente, a ideologia misógina e opressiva do salazarismo - a última das quais, organizada na qualidade de Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), e em que exibia obras de mulheres escritoras de todo o mundo, lhe custou o emprego, uma sólida carreira e, até, a segurança pessoal. O Conselho foi eliminado, e, a partir daí ela seria alvo de repetidos atos persecutórios do regime, que quis cortar-lhe os meios de subsistência e bani-la, implacavelmente, do espaço público. Em tempo de repressão e declínio do primeiro movimento feminista português,Maria Lamas foi uma verdadeira sobrevivente, a última a presidir ao CNMP, expressão máxima desse associativismo revolucionário, que começara com Adelaide Cabete, nos primórdios da República. O Decreto do Governador Civil de Lisboa extinguiu o CNMP, mas não conseguiu silencia-la, ou erradicar os seus ideais de igualdade.
Maria Lamas estava, então, divorciada do segundo marido, o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, tinha as três filhas a cargo, dependia de si e do seu trabalho... Não se deixou abater - pelo contrário, recomeçou, com redobrado ânimo, um solitário e fecundo exercício de jornalismo de investigação, abraçando desafios cada vez maiores. Munida de uma máquina fotográfica, papel e caneta foi, pelo país adentro, em toda a espécie de incertos e deficientes meios detransporte, recolher depoimentos e testemunhos de mulheres de todos os misteres e condições, até às aldeias mais remotas e inacessíveis. Deu-lhes inédito protagonismo e visibilidade num impressionante retrato coletivo, de alta precisão, de incomensurável valor humano, literário e científico. Uma obra prima do jornalismo português, que é também, um grito de revolta contra a exploração económica, a pobreza, quando não miséria, o confinamento de horizontes, num todo em que a metade feminina era duplamente vítima de subjugação.
Maria Lamas atravessou, assim, corajosamente, as décadas seguintes, cumprindo o seu destino de ativista dos Direitos Humanos, tão eficaz a usar a escrita, como a recorrer à ação concreta.
E não menos admirável foi na sua veste privada! Sozinha educou as filhas, influenciou e cativou as netas, os netos, através de cujos testemunhos sobre a “Avó Maria”, ficamos a conhecer melhor o seu encanto como pessoa, a sua irradiante beleza de rosto e de espírito, de espírito jovem, aberto a novas ideias e formas de luta, o seu temperamento, a um tempo, impetuoso e afável, a dedicação aos que tratava como família, num círculo que se foi alargando sempre. Durante os anos de exílio, em Paris, tornou-se a "Avó Maria" de um sem número de expatriados, que nela encontravam, invariavelmente, amizade e apoio.
À terra voltou, em 1969, durante a efémera "primavera política" para participar nos dias da revolução e gozar os seus últimos anos na democracia que ajudou a refundar. Vêmo-la, ainda combativa, fulgurante e carismática, à frente do Movimento Democrático de Mulheres e a dirigir a sua Revista.
Ao Estado coube atribuir-lhe, como não podia deixar de ser, a Ordem da Liberdade. Aos Portugueses, em cada nova geração, cumpre guardar a memória do exemplo de vida que legou às "Mulheres (e aos Homens) do seu País".
Maria Manuela Aguiar
Jurista. Ex Deputada e Secretária de Estado da Emigração e Comunidades Portuguesas
Cidalia Vargas
terça, 28/06/2022, 14:02
para mim
Está mais do que perfeito.
Fico super feliz com a onda de sororidade que se está a criar entre as mulheres que colaboram nesta obra.
Bem haja!
Quando estiver paginado, envio-lhe, e será um prazer contar com a sua presença no lançamento.
Um abraço,
2021 A PINTURA DE BALBINA MENDES – O LUGAR DAS MULHERES NAS ARTES
Balbina Mendes ocupa um lugar de primeiro plano na Arte pictórica em Portugal, através de um trajetória feita de originalidade e de inovação, numa constante travessia de fronteiras artísticas - sempre em movimento, numa viagem de procura sem fim, pelo gosto de lançar a si própria desafios, um depois de outro, através da experimentação de ideias, de temáticas, de técnicas, de materiais, com a ousadia de sempre, a segurança dada pela maturidade, e a invariável insatisfação, essência de uma obra em que o talento inato se expressa, reinventando-se.
Um percurso raro nos vários ângulos em que o podemos considerar, desde logo porque começou numa pintura de matriz etnológica, que recuperava arquétipos primordiais emergindo, revistos e recriados em toda a sua magia, em telas de grande dimensão e impacto. A Natureza, as vivências, os costumes da sua terra são, assim, transpostos, num universo de interlocução que foi crescendo, à medida que a própria Balbina ganhou notoriedade e reconhecimento, em exposições individuais nas mais prestigiadas Galerias. As suas espantosas “Máscaras Rituais do Douro e de Trás-os-Montes “ fizeram história, simultaneamente a do lugar da sua infância, a das suas gentes e tradições, perdidas e achadas no tempo, e a dela própria, inconfundível intérprete e narradora de memórias e rituais identitários.
Não menos importante é sublinhar a sua capacidade de se impor em grande mostras individuais, o que é, por ora, entre nós, coisa que só está ao alcance de um escol de mulheres pintoras. Embora a perceção comum não o reconheça mantém-se, ao nível de mega exposições com um só nome no cartaz, um largo predomínio masculino, enquanto nas coletivas, ou nas que são exibidas, mais modestamente, em pequenos redutos, elas ultrapassam já os homens, num avançar gradual, como se estivessem, ainda, em difícil transição do espaço privado para o público… É um exemplo que poderemos extrapolar, em muitas outras áreas, a nível nacional e internacional, constatação eficazmente determinante na criação do movimento pela Arte no Feminino, que, no último quartel do século XX, teve uma das suas líderes mais insignes e arrojadas em Paula Rego, símbolo máximo da nossa pintura, cujo recente passamento foi ocasião de a enaltecer e entronizar no panteão dos imortais. Nas suas próprias palavras: "As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra?". [...] "Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com aquilo em que jamais se tocou-as experiências de mulheres".
Uma tomada de consciência e um discurso com que a vanguarda feminista dessa época incorporou o plano da expressão artística na globalidade da sua luta - discurso que, diga-se, neste como em qualquer outro campo, é tudo menos pacífico. Mais consensual será, certamente, a exortação de Gisele Breitling em favor de "uma nova e verdadeira universalidade em que o feminino assuma o seu lugar de direito e o masculino as suas verdadeiras proporções".
Guardo-me, aqui, de entrar na complexa questão do modo como o "género" se exprime, (com caraterísticas próprias ou comuns e indistintas), ficando-me pelo que não pode ser contestado: o masculino avulta, desde tempos imemoriais e permanece como autêntico "padrão", enquanto o feminino é visto como "alteridade". Por outro lado, o sucesso das "mulheres-exceção" não deve deixar no esquecimento a persistente desigualdade de uma maioria, que as estatísticas, na fria linguagem dos números, denunciam. Como escrevia Armando Bouçon, no catálogo da 1ª Exposição de “Mulheres d’ Artes”: "Uma análise correta de toda a história da Arte dá-nos uma perceção muito transparente de como o campo das artes plásticas foi ocupado durante muitos séculos pelo género masculino". Foi. E, se atentarmos nas diferenças de visibilidade, segundo o sexo, continuará a ser, ao menos na medida de uma persistente desproporção. É um desequilíbrio que pode debelar-se de muitas e diversas maneiras…
No panorama português, Balbina Mendes tem, a meu ver, contribuído, poderosamente, para que as mulheres acedam, na vida cultural do país, ao seu "lugar de direito". Fá- lo, ocupando, simplesmente, esse lugar, com força anímica e qualidade de sobra, sem em nada se julgar discriminada, sem se sentir diferente, isto é, do lado de lá de uma linha de separação... É um caso a seguir, no campo das exceções, que, na minha ótica, tão devagar se vai alargando. Balbina faz parte das mulheres que, à partida, se sentem consideradas como iguais, e cuja atitude de despreocupação com disparidades de género, contém, implícita, a intransigente exigência de tratamento igualitário! À margem de manifestos reivindicativos, alcançaram, por si, as metas que o movimento se propôs e propõe, e, assim, afinal, o reforçam.
E será que a proclamação da especificidade de género, pode, no limite, paradoxalmente, dar azo à persistência de formas larvadas de discriminação?. É uma dúvida pertinente. A "arte com género" de que fala Paula Rego, pode, ou não, abaixo do patamar do génio universal a que ela subiu, transformar-se , de facto, não em sinal vanguardista de contracultura, mas em âncora de estereótipos de género, conotando o feminino com características convencionais que são, em sociedades ancestralmente misóginas, uma menos valia? O ponto de interrogação vale para qualquer setor... Recordo o crítico literário João Gaspar Simões, que, ao elogiar a força imanente da prosa de Maria Archer, o realismo puro e duro com que ela aborda temáticas ousadas, a qualificava não como uma grande escritora, mas como "um grande escritor" ... E não é verdade que a poetisas consagradas, como Sophia de Mello Breyner, ou Ana Luísa Amaral, preferimos chamar poetas? Ambíguo cumprimento, a que subjaz a conceção da masculinidade intrínseca do cânone... Certo é que, para esta escola de pensamento, Balbina é uma das grandes pintoras que merece, por inteiro o cumprimento, ainda que, pessoalmente, se não queira rever na categoria de "grande pintor".
A sua arte não procura rivalizar com quem quer que seja, nem obedece a ditames ou limitações de qualquer espécie, segue numa trajetória ascensional de inovação da estética e policromia, do ensaio de técnicas, da fusão de materiais...É genuína e livremente Ela, transmutando para a pintura a experiência ganha nos muitos espaços geográficos e culturais que a sua vivência atravessa e o seu olhar penetra. É única e inconfundível. Se me é permitida uma outra adjetivação, direi: carismática! Uma palavra que tão perfeitamente se ajusta a Autora como à globalidade da sua obra.
Balbina é uma admirável contadora de histórias de vários tempos, do tempo presente a tornar-se passado, ou do passado em dinâmicas e impulsos que o trouxeram até nós, num rasto longo de evocações de festividade populares, rituais, crenças, valores revividos e reconfigurados em toda a sua magia e em todo o seu mistério.
No percurso imparável de Balbina, para mim, no princípio era o rio... porque a conheci na exposição em que nos oferecia uma verdadeira crónica pictural do Douro, deslizando entre margens, da nascente até à foz, incorporado na beleza encantatória de paisagens, onde as gentes apenas se pressentiam, sem se verem... . Reencontrei-a, depois, em outro e surpreendente ciclo temático, na exposição das Máscaras Rituais do Douro e Trás os Montes, em que os homens se faziam presentes, mas ainda sem se verem... Era o início de um tropo narrativo em torno da máscara, incursão às raízes ancestrais, entrelaçamento telúrico de emoções e saberes, recriados nos traços dos seus pincéis, em explosões de cor...
Não resistindo a voltar a uma perspetiva feminista sobre o ineditismo das suas escolhas -perspetiva que, não sendo certemente a de Balbina, me permito ousar - noto a esplêndida audácia com que se apodera, para a eternizar em arte, da tradição masculina da máscara, símbolo, por excelência, da superioridade e camaradagem de sexo, da festa e do cerimonial rigorosamente interditos à mulher... É um prenúncio, um sinal da força subversiva e libertária da sua aventura artística. Logo depois, vai ultrapassar uma última barreira, no momento em que a fragmentação ou transparência das máscaras põe a descoberto... rostos femininos! Uma definitiva ruptura com o interdito. Transgressão, que Paula Rego, sem dúvida, saudaria com “o gozo pela inversão e pelo desalojar da ordem estabelecida". Por isso, Balbina Mendes poderia estar, se quisesse, entre as referências do movimento emancipatório de contracultura feminina nas Artes, na senda da emblemática Paula sobre quem Ana Gabriela Macedo afirma: [...] ela questiona continuamente os chamados "corolários naturais" da diferença de sexos, bem assim como a suposta "ordem natural das coisas", que se traduz na passividade, dependência e submissão, desmistificando o discurso estético e desmascarando o seu papel eminentemente ideológico e as relações do poder, que aí se encontram camufladas [...].
Na sua mais recente exposição, intitulada "Segunda pele", o engenho narrativo de Balbina não nos revela, antes adensa o segredo dos jogos entre as faces desocultada e as suas máscaras, mas revela-a, definitivamente, como assombrosa retratista, do rosto, das suas metamorfoses, do tangível e do intangível. Confirma o seu incessante questionamento sobre o ser, as suas mutações e aparências. É, agora, na Literatura que busca inspiração, glosando, em enigmáticas efígies, motes Pessoanos. As respostas que encontra na tela são sempre fonte de sucessivas interrogações, de demandas inspiradas na heteronímia do Poeta, ou até, talvez, simplesmente na duplicidade do “eu” de cada um de nós . Como dizia Maria Anderson; "Qualquer pessoa ficciona a sua própria identidade, Não nos ficcionamos sempre da mesma maneira. Vamos mudando o guião". Ou, secundando Maria Velho da Costa, nos poderemos interpelar: "Quem sou? Talvez seja quem vou sendo..."
A pessoa. A persona…
Para onde vai, Balbina Mendes? Para onde nos levará , no ímpeto de romper limites, a grande cultora de saberes arcanos e enigmas do espírito, em diálogo introspectivo com as Artes, com a Vida, connosco, nas suas cada vez mais fascinantes mensagens visuais?
Maria Manuela Aguiar
Espinho, junho de 2022
Balbina Mendes
sábado, 25/06/2022, 12:15
Muito obrigada minha querida amiga! O seu texto é belíssimo e vai enriquecer grandemente o meu livro. Um grande e carinhoso abraço Balbina
Maria Manuela Aguiar
sábado, 25/06/2022, 18:01
para Balbina
Eu sei que não é feminista... mas Paula Rego, como feminista-mor, teria gostado de conhecer a obra da Balbina!
Parece que a Ester não vai seguir com a expo Mª Archer. Os quadros já estão recolhidos na Galeria, ao que Ester diz, muito segura. O organizador, Aquilino (Ferreira?) , veio buscá ́-los, mas não parece com vontade de os trazer... Creio que a ideia é mandar pelo correio. É personagem que nem conheço...
Interessante seria a tal mostra na Biblioteca Nacional, no outono, mas depende das negociações entabuladas pela Universidade Nova de Lisboa- Faces de Eva (mais feministas!)
Beijinhos
Manuela
DE MARIA RUTH DOS SANTOS A RUTH ESCOBAR
Ruth Escobar foi, porventura, no Brasil, a mais destacada mulher portuguesa da sua geração. Nome célebre na cultura, na política - ativista de direitos humanos, voz indomável contra a ditadura, feminista tardia mas convicta, pioneira na vida política brasileira, primeira mulher eleita deputada, em dois sucessivos mandatos, à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo,
Maria Ruth dos Santos, na pré-história de Ruth Escobar, foi uma emigrante comum. Aos 16 anos acompanhou a mãe numa partida, de onde não haveria retorno. Invulgar era, sim, o facto de ser uma aventura no feminino, de uma mulher solteira e pobre, e da sua filha única - a menina rebelde que estava destinada a convolar um modesto projeto de futuro, com o ímpeto da sua ambição e o fulgor da sua personalidade, num trajeto épico de permanentes rupturas e incríveis desafios, em rota da continuada transcendência do seu "eu", no cenário movente de novas fronteiras físicas e culturais. O seu saber é todo de experiência feito - as viagens pelo mundo e pelas alteridades culturais são fonte de um saber avidamente absorvido e inspirador de ação em que, ousada e vanguardista, fará dessa mundividência em constante progressão uma arma para mudar o mundo - e com ela haveria de revolucionar, como sempre há-de ser lembrado, a realidade e o devir do teatro brasileiro.
Através de todas as metamorfoses, Maria Ruth será, porém, sempre a portuguesa do Porto, nascida em Campanhã, criada na rua do Bonjardim, no coração da cidade, que levou consigo em gratas recordações, A sua autobiografia, desde o primeiro parágrafo, é uma história portuense, começa num calcorrear de ruas e praças familiares, nas festas do São João, nas sessões de cinema do Rivoli, nas excursões de elétrico até à Foz, quando chegava o verão, até aos jardins do Palácio de Cristal, e nos longos dias de aulas no Carolina Michaellis, onde se inicia na arte dramática, a representar, ao som dos primeiros aplausos
todos os diabos dos autos de Gil Vicente...
Nas suas próprias palavras: "quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente".
Na esteira dessa certeza, a sua vida avançará, vertiginosamente.
Mal acabara de chegar e no "Roosevelt" , a sua graça em palco, encarnado, de novo, os diabos de Gil Vicente logo, lhe grangeia o título de "rainha" do colégio. Passa exames, mas troca os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias". É um sucesso, ganha mais do que a progenitora, mas depressa dá um passo em frente, angaria apoios na comunidade portuguesa para criar e vender a sua própria revista, "Ala Arriba". Tem apenas 18 anos. Na sua nova veste, apercebe-se das ameaças que se desenham sobre a presença portuguesa na Índia e propõe-se defende-la à volta do planeta.
Corria o ano de 1954 e, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, a improvisada jornalista, ainda "teenager", vai ombrear com os melhores correspondentes de imprensa internacional, entrevista uma longa lista de celebridades, como Foster Dulles e Christian Pinaud, Bulganin e Krushev, o Principe Norodan Sihanouk, o presidente das Filipinas, os primeiros-ministros da Turquia e da Tailândia, o mítico Nasser (a única a ter esse privilégio, no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo!), e entre compatriotas, os governadores de Macau e da Índia e até Salazar. Os seus exclusivos são disputados por revistas como a "Life" e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, É um primeiro vislumbre de fama. Convidada a integrar a comitiva do Presidente Craveiro Lopes na visita oficial a Moçambique, acaba expulsa por ato considerado subversivo - a revelação perante os "media" nacionais e internacionais de um acidente aéreo, que a propaganda do regime queria ocultar. Será apenas o primeiro de muitos gritos de liberdade, pelos quais não hesitará nunca em arriscar tudo,
Na casa dos seus vinte anos, fará a estreia como empresária e produtora teatral, depois como atriz, construirá um teatro com o seu nome na cidade de São Paulo e lançará uma iniciativa absolutamente inédita, com a fundação, em 1963, do Teatro Nacional Popular, que leva ao povo nas periferias do Estado, a muitos milhares de pessoas, espetáculos de ,qualidade (Martins Pera, Suassuna...) no palco instalado num velho autocarro. Não é menos arrebatadora é a sua vida fora de cena. com quatro filhos em três casamentos (o primeiro anterior a esta década, o segundo com o poeta e dramaturgo Escobar, o terceiro com o arquiteto Wladimir Cardoso, que viria a ser o cenógrafo das suas peças de enorme sucesso artístico (como "Cemitério de automóveis" de Arrabal com montagem do argentino Vitor Garcia e encenação de Ruth Escobar, uma dupla que, em 1969, com "O balcão" de Jean Genet, venceria todos os prémios, a nível nacional.
Os trinta anos de Ruth são passados no tempo conturbado de repressão e de medo em que se afunda o Brasil, a partir de 1964. O seu teatro converte-se em palco de luta pela liberdade de expressão, Sucedem-se as ameaças, as pressões, os ataques de comandos para-militares, a violência sobre os próprios atores. Na sua autobiografia, Ruth Escobar confessa que perdeu a conta ao número de ameaças, de prisões e interrogatórios, aos quais ia respondendo sempre com desafios a rondar o excessivo (como até ela reconhecerá, retrospetivamente). De uma das vezes, é Cacilda Becker, sua referência, mentora e amiga, que intervém junto do prefeito de São Paulo para conseguir a sua libertação: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou...
É nesta sua década que traz a Portugal alguns dos maiores sucessos, como "Missa leiga" e "Cemitério de automóveis" , que é objeto de proibição, exceto em Cascais, onde, pelo visto, a censura supunha ser inacessível a camadas populares...
É então que conhece as três Marias, que lê "As cartas", lê Simone de Beauvoir, e se converte ao feminismo, uma metamorfose que contribuirá para a conduzir a novas arenas, ao hemiciclo da intervenção parlamentar, onde fez história como pioneira, no universo masculino e fechado da política brasileira (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, visto que nunca teve outra nacionalidade além da portuguesa). Como feminista assumida, torna-se a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e, durante muitos anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das mulheres.
Entretanto casara, uma última vez, e tivera o seu quinto filho.
Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro. Ela que, aos 19 anos, fora de São Paulo explorar as riquezas culturais mundo, traz, então, a São Paulo, o mundo das artes cénicas, o que de melhor se fazia nas grandes capitais. Em 1976, igual iniciativa tem o mesma força renovadora no panorama e na história da arte dramática brasileira.
Depois de quase uma década no palco político de um Brasil democrático, volta, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como atriz e como empresária e, também, como promotora de festivais, em novos moldes, porventura menos elitistas, mas mais abrangentes de outras artes ,
Conheci-a em 82, num jantar na residência do nosso Cônsul- Geral, em que estávamos lado a lado e, como toda a gente, não fiquei imune ao seu carisma, que era feito de espontaneidade e de extroversão, de inteligência e de humor, de uma graça natural. Do que falámos? Do Porto, é claro, da sua e da minha cidade, que nos uniu em afinidades imediatas. Era evidente que ela permanecera uma portuguesa do Porto, ainda que sempre se tenha sentido parte de São Paulo e do Brasil. Por isso, deixa uma herança teatral, enraizada no Gil Vicente da sua juventude, e no vanguardismo em que projetou o seu talento ao longo de décadas, mudando a face do moderno teatro brasileiro . A sua última produção - a que, por sorte, pude assistir - pôs em cena "Os Lusíadas" , bem no centro de São Paulo, e, depois, em Portugal.
Ruth recebeu, ao longo do seu trajeto de realizações cívicas e artísticas, as mais altas condecorações brasileiras. a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França, onde estudou arte dramática, e até Portugal a distinguiu com a Ordem do Infante D Henrique..
Fica a faltar o Porto. Mas, talvez, agora que ela nos deixou, neste último 5 de outubro, o Porto a queira reclamar, bem viva na sua memória e na toponímia da cidade.
PELA “COLIGAÇÃO DE VONTADES” CONTRA TRUMP E PUTIN
1 – A Ucrânia e toda a Europa democrática estão hoje entre Putin, o inimigo russo, e Trump, o inimigo americano. É uma situação inteiramente nova, mas não improvável ou imprevisível, para qual a Europa não estava preparada. E devia ter estado. A lentidão da máquina judicial dos EUA deixava adivinhar que Trump podia escapar às malhas da justiça pelos seus piores crimes, ser condenado apenas pelos menores, candidatar-se à presidência, e, eventualmente, ganhar. Foi o que aconteceu, após uma campanha miserável de trapaças e mentiras, face à imprevidência do Partido Democrata, num processo em só a postura e a coragem de Kamala Harris se destacam pela positiva.
Não foi uma vitória esmagadora, como se diz por cá, o país está dividido a meio, deu aos Republicanos uma pequena maioria nas duas Câmaras do Congresso, suficiente para permitir a brutal tentativa de tomada de poder absoluto, que está em curso, contra a Constituição, o Estado de Direito, a independência do Poder Judicial, os mais elementares Direitos Humanos, o Direito Internacional e os aliados de sempre dos EUA.
Trump mudou de campo, para o campo dos mais sinistros ditadores do mundo atual, homens que ele confessadamente admira, como Kim.Jong-un e Vladimir Putin. Está lá a quebrar todas as regras e a lançar o caos, a nível interno e universal, num visível estado de absoluta embriaguez do seu ego, do “Quero, posso e mando”. Ou como alguns já vão dizendo, está simplesmente em estado avançado de senilidade e loucura galopante. Os menos de três meses passados desde o seu regresso, já nos parecem mais de três anos... Em rigor, o mais poderoso país do mundo já não é uma democracia. Crimes contra pessoas (imigrantes tratados como terroristas), e instituições são cometidos quotidianamente, os tribunais desrespeitados, a liberdade de expressão cerceada. A NATO, com o esvaziamento do art.º 5º do Tratado de Washington, de facto, deixou de existir, quando o próprio Presidente dos EUA ameaçou a independência do Canadá ou a integridade territorial da Dinamarca, dois parceiros da NATO. A Ucrânia, que, durante três anos resistiu ao exército russo, (que Putin julgava capaz de tomar Kiev em três dias!), está agora em risco de ser derrotada por um mero decreto da Casa Branca. Ou seja, ela traição americana!
2- Nos próximos quatro anos, a cooperação estratégica com os EUA está irremediavelmente minada, mesmo que a dependência europeia não lhe permita assumir publicamente ruturas imediatas: na verdade, fornecer informação secreta a Trump ou a Putin vai, provavelmente, dar ao mesmo…
Não sabemos se a perda, cada vez mais provável, das eleições do meio de mandato (e da maioria do Republicanos em uma ou nas duas Câmaras), poderá travar o vendável de insanidade a que assistimos. Não sabemos se a América vai ser recuperável para o diálogo e a convivência democrática dos seus velhos aliados. Em qualquer caso, os países europeus, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, (e todos os outros que pertencem ao que chamávamos “o mundo ocidental”), têm de olhar para além de 2029, sem esquecer 1929, preparando-se, individual e coletivamente, para o que aí vem, com ou sem Trump e o seu pavoroso legado.
3 - A meu ver, mesmo na melhor das hipóteses, nada voltará a ser como dantes. Chegámos ao fim de uma era, que durava desde o termo da II Guerra Mundial, há 80 longos e pacíficos anos. Ao fim da “pax americana” e da NATO sob chapéu nuclear americano. A Europa vê-se obrigada a investir na defesa e na segurança, como garante da sua própria independência. Chegou a hora da “descolonização militar” face aos EUA! Cooperação, sim, mas com uma pluralidade de aliados e falando de igual para igual.
À falta de um novo Churchill e de um novo De Gaulle, que muito antes teriam lido os sinais de desinteresse dos Democratas, ou da hostilidade dos Republicanos trumpistas no seu relacionamento com a Europa, Keir Starmer, na recente cimeira de Londres, veio redefinir, magistralmente, a “Europa da Defesa” como “a coalition of the willing”. A coligação de vontades daqueles Estados que estão prontos a assumir o compromisso de defesa mútua. Tal como já no início do século acontecia, esta coligação extravasa as fronteiras da União Europeia - estão lá o Reino Unido, a Noruega e o Canadá, desejavelmente a Turquia. E não podem estar os governos putinistas ou trumpistas da União Europeia, os Órbans de hoje e de amanhã.
Os desafios maiores que se colocam à coligação, que reúne Starmer e Macron, e com eles, o potencial de dissuasão nuclear da Europa, são escolher um modelo institucional, que possa funcionar de forma inteligente, rápida e eficaz (ao contrário do que acontece com a UE, limitada pela regra da unanimidade e por quezílias internas) e escolher os aliados capazes de assumirem, lealmente, o compromisso da defesa mútua, livre de limitações do “bulling” trumpista.
É inútil lamentar o tempo perdido, mas vale sempre a pena reconhecer os erros do passado, os erros dos políticos da UE que extinguiram, já neste século, a União da Europa Ocidental (UEO), instituição pioneira da cooperação intereuropeia no domínio de Defesa e Segurança, com vocação e capacidade para se tornar no “pilar europeu” da NATO. Insensatamente a UE, (já então pouco homogénea e solidária neste particular domínio…) não descansou até neutraliza a UEO, como, aliás, desejavam os americanos…
A “coligação de vontades” emergente da cimeira de Londres, é, afinal, a herdeira do espírito da UEO. Surge tardiamente, precisa de tempo para atingir os objetivos últimos, mas aqui está, esperançosamente voltada para o futuro!
Maria Manuela Aguiar
ESPINHO 2050
Espinho 2050
As singularidades de Espinho são uma invariável da sua trajetória desde as origens mais remotas. Na verdade, atravessam todos os seus tempos, os de ascensão vertiginosa como estância balnear moderna e cosmopolita e os de declínio e de perda de estatuto turístico nacional e internacional para outras geografias.
Uma dessas particularidades é, claramente, a coexistência de contrastes, a mescla harmoniosa de comunidades que se reconhecem no todo. E isso vale igualmente para a confraternização dos naturais ou residentes de longa data, com a gente de fora, as vagas de “nómadas” em férias, tão essenciais à sua natureza como as vagas do mar.
Em fins do século XX e durante o primeiro quartel deste século ninguém parecia adivinhar a segunda vida de Espinho no palco do mundo num amanhã não muito distante. A esta distância temporal, numa breve análise do fenómeno e das suas causas, eu diria que o movimento começou na aposta em outros destinatários para uma antiga vocação de atrair os de fora: aposta no turismo sénior através de cadeias de residências seniores, com uma forte componente internacional, quer no segmento mais abastado, quer no das classes médias. Investir na solução de um problema maior de sociedades em envelhecimento rápido era estratégia inteligente, mas quem esperava que Espinho se colocasse na vanguarda desse nicho de mercado?
A meu ver, tudo começou “a latere”, com a modernização do balneário marinho e da piscina Solário Atlântico. Sobretudo do “Balneário”. A fama dos tratamentos de talassoterapia estendeu-se a nível nacional e rapidamente ultrapassou fronteiras. A qualidade e a beleza arquitetónica e ambiental do complexo balnear tornaram-no em verdadeiro “ex-libris” da cidade, que, assim, retornava a uma tradição de pioneirismo, ao mesmo tempo que alavancava um turismo cosmopolita há décadas perdido (voltaram, em grande número, os espanhóis, e não só...). Um turismo maioritariamente sénior! De facto, os mais idosos preponderavam, tendo descoberto, para além das benesses do tratamento, as facetas de uma cidade que parecia pensada primeiramente para eles, com o seu centro quase plano, o traçado geométrico de ruas, uma infinidade de lojas e “boutiques”, cafés e restaurantes, o casino, os parques e as deslumbrantes vistas de mar das esplanadas e dos passadiços, que puseram no mapa o Rio Largo.
Essa foi a fase 1, logo seguida pela fase 2: a crescente fixação desses novos "descobridores" de Espinho. De princípio, por iniciativas individuais e esporádicas, logo enquadradas num plano de apoio municipal à expansão de residências séniores – algumas construções de raiz, outras reconstruções de velhas casas e mansões.
Residências que evoluíram para habitats adaptativos, equipados com robôs de assistência social e plataformas de telemedicina baseadas em IA, permitindo um envelhecimento ativo e mais saudável, com espaços de coworking cultural.
A "revolução grisalha" foi para a cidade o início de uma segunda vida de enorme prosperidade. “Dinheiro faz dinheiro”, diz a sabedoria popular. A Câmara de Espinho é uma das mais ricas do país e eu considero que vem utilizando os seus consideráveis meios de uma forma hábil, jogando na intergeracionalidade, realizando o sonho antigo de atrair e integrar os jovens, com os seus projetos de habitação acessível e com o acento no desporto, (que nos dá campeões em tantas modalidades e o direito a ser uma das capitais do “surf”), na investigação (o centro de ciências do mar), na crescente atração de “startups”. Cientistas e “nómadas digitais” já fazem parte da comunidade, tal como músicos, artistas, cineastas…
Há movimento todo o ano e em todo o espaço do concelho, onde se diversificaram as centralidades e os eventos culturais. Espinho é a terra dos concertos ao ar livre ou nos seus vários auditórios, dos congressos e conferências, dos festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura... O centro histórico ainda mantém a animação das ruas, hoje impecavelmente pavimentadas, mais floridas, mais bonitas. As emblemáticas esplanadas de mar integram redes de sensores IoT que monitorizam a qualidade ambiental e acolhem dispositivos de realidade aumentada, projetando reconstruções holográficas do vaivém da antiga “Avenida”, da arte Xávega, (da pesca que Unamuno eternizou na literatura) e narrativas interativas do Castro de Ovil – um convite a que o visitem “in loco”, no seu fantástico cenário paisagístico.
O espaço da antiga linha de comboio, após a sua extensão para além do Rio Largo e do Bairro Piscatório, converteu-se num longo corredor verde com mobilidade autónoma partilhada, ligando o centro histórico ao polo das “startups”, ao laboratório de ciências do mar e ao FACE. As Galerias Amadeo de Souza Cardoso, foram enriquecidas com uma coleção permanente de obras do seu patrono captadas em 3D (uma coleção protocolada com outras instituições). O novo Museu da Memória adota as tecnologias digitais que, através de aplicações cívicas, envolvem os cidadãos em processos colaborativos de planeamento urbano, traduzindo dados abertos em políticas participativas e reforçando a identidade de Espinho como capital de vanguarda no e-Society.
A estação de comboio é, agora, considerada uma das mais espetaculares do mundo, convertida em mostra da geografia e da história de Espinho, sobres as paredes do túnel outrora tão sombrio.
E o verão ainda é o verão da enchente de visitantes. Os que vêm gozar o mar e os que chegam nas correntes de “turismo cultural”, para o seu banho de imersão na cidade revivalista, na cidade museu, na cidade onde se faz Futuro.
Luís Costa
13/06/2025, 15:24 (há 8 dias)
para Mario, mim
Muito, muito obrigado!
Por mim "está fechado", como costuma dizer o Mário Augusto. E bem fechado! O texto é imaginativo e desafiador!
Bem-haja, forte abraço e bom fim-de-semana,
Espinho 2050
As singularidades de Espinho são uma invariável da sua trajetória desde as origens mais remotas. Na verdade, atravessam todos os seus tempos, os de ascensão vertiginosa como estância balnear moderna e cosmopolita e os de declínio e de perda de estatuto turístico nacional e internacional para outras geografias.
Uma dessas particularidades é, claramente, a coexistência de contrastes, a mescla harmoniosa de comunidades que se reconhecem no todo. E isso vale igualmente para a confraternização dos naturais ou residentes de longa data, com a gente de fora, as vagas de “nómadas” em férias, tão essenciais à sua natureza como as vagas do mar.
Em fins do século XX e durante o primeiro quartel deste século ninguém parecia adivinhar a segunda vida de Espinho no palco do mundo num amanhã não muito distante. A esta distância temporal, numa breve análise do fenómeno e das suas causas, eu diria que o movimento começou na aposta em outros destinatários para uma antiga vocação de atrair os de fora: aposta no turismo sénior através de cadeias de residências seniores, com uma forte componente internacional, quer no segmento mais abastado, quer no das classes médias. Investir na solução de um problema maior de sociedades em envelhecimento rápido era estratégia inteligente, mas quem esperava que Espinho se colocasse na vanguarda desse nicho de mercado
A meu ver, tudo começou “a latere”, com a modernização do balneário marítimo e da piscina Solário Atlântico. Sobretudo do “Balneário”. A fama dos tratamentos de talassoterapia estendeu-se a nível nacional e rapidamente ultrapassou fronteiras. A qualidade e a beleza arquitetónica e ambiental do complexo balnear tornaram-no em verdadeiro “ex-libris” da cidade, que, assim, retornava a uma tradição de pioneirismo, ao mesmo tempo que alavancava um turismo cosmopolita há décadas perdido (voltaram, em grande número, os espanhóis, e não só...). Um turismo maioritariamente sénior! De facto, os mais idosos preponderavam, tendo descoberto, para além das benesses do tratamento, as facetas de uma cidade que parecia pensada primeiramente para eles, com o seu centro quase plano, o traçado geométrico de ruas, uma infinidade de lojas e “boutiques”, cafés e restaurantes, o casino, os parques e as deslumbrantes vistas de mar das esplanadas e dos passadiços, que puseram no mapa o Rio Largo.
Essa foi a fase 1, logo seguida pela fase 2: a crescente fixação desses novos "descobridores" de Espinho. De princípio, por iniciativas individuais e esporádicas, logo enquadradas num plano de apoio municipal à expansão de residências séniores – algumas construções de raiz, outras reconstruções de velhas casas e mansões.
Essas residências evoluíram para habitats adaptativos, equipados com robôs de assistência social e plataformas de telemedicina baseadas em IA, permitindo um envelhecimento ativo e mais saudável, com espaços de coworking cultural.
Essa "revolução grisalha" foi para a cidade o início de uma segunda vida de enorme prosperidade. “Dinheiro faz dinheiro”, diz a sabedoria popular. A Câmara de Espinho é uma das mais ricas do país e eu considero que vem utilizando os seus consideráveis meios de uma forma hábil, jogando na intergeracionalidade, realizando o sonho antigo de atrair e integrar os jovens, com os seus projetos de habitação acessível e o acento no desporto, (que nos dá campeões em tantas modalidades e o direito a ser uma das capitais do “surf”), na investigação (o centro de ciências do mar), na crescente atração de “startups”. Cientistas e “nómadas digitais” já fazem parte da comunidade, tal como músicos, artistas, cineastas
Há movimento todo o ano e em todo o espaço do concelho, onde se diversificaram as centralidades e os eventos culturais. Espinho é a terra dos concertos ao ar livre ou nos seus vários auditórios, dos congressos e conferências, dos festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura... O centro histórico ainda mantém a animação das ruas, hoje impecavelmente pavimentadas, mais floridas, mais bonitas. As emblemáticas esplanadas de mar integram redes de sensores IoT que monitorizam a qualidade ambiental e acolhem dispositivos de realidade aumentada, projetando reconstruções holográficas do vaivém da antiga “Avenida”, da arte Xávega, (da pesca que Unamuno eternizou na literatura) e narrativas interativas do Castro de Ovil – um convite a que o visitem “in loco”, no seu fantástico cenário paisagístico.
O espaço da antiga linha de comboio, após a sua extensão para além do Rio Largo e do Bairro Piscatório, converteu-se num longo corredor verde com mobilidade autónoma partilhada, ligando o centro histórico ao polo das “startups”, ao laboratório de ciências do mar e ao FACE. As Galerias Amadeo de Souza Cardoso, foram enriquecidas com uma coleção permanente de obras do seu patrono captadas em 3D (uma coleção protocolada com outras instituições). O novo Museu da Memória adota as tecnologias digitais que, através de aplicações cívicas, envolvem os cidadãos em processos colaborativos de planeamento urbano, traduzindo dados abertos em políticas participativas e reforçando a identidade de Espinho como capital de vanguarda no e-Society.
A estação de comboio é, agora, considerada uma das mais espetaculares do mundo, convertida em mostra da geografia e da história de Espinho, sobres as paredes do túnel outrora tão sombrio.
E o verão ainda é o verão da enchente de visitantes. Os que vêm gozar o mar e os que chegam nas correntes de “turismo cultural”, para o seu banho de imersão na cidade revivalista, na cidade museu, na cidade onde se faz Futuro.
Luís Costa
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