quinta-feira, 21 de maio de 2026

FCP - A ARTE DE SABER GANHAR 1 – A vitória do FCP, no campeonato de 2026, foi indiscutível, com um começo fantástico, em força, (à Farioli), depois, com a capacidade de se manter na frente e de superar o abrandamento final (também à Farioli). Em suma, foi sempre a melhor equipa, deu ao jovem treinador, formado em Filosofia por Florença, o seu primeiro grande troféu e, do mesmo passo, a todos os portistas, mais uma taça para o Museu e a certeza de que, no novo ciclo de Villas Boas, retomavam o seu percurso como estrela maior do futebol português, seu paradigma de qualidade, sua bandeira a nível internacional. A bandeira azul e branca, cores originais de Portugal, que foram adotadas, desde a primeira hora, pelo clube portuense, nascido ainda sob o regime monárquico. No período de transição de liderança isso não fora, de início, coisa que pudéssemos ter por segura na era pós- Pinto da Costa (o mítico Presidente mais titulado do mundo), que fizera de um clube aguerrido, mas “regional”, uma superpotência, a nível interno, e em rápida ascensão na alta roda do futebol mundial. Para os portistas, a não participação do clube na “UEFA Champions League” só pode atualmente ser vista como uma anormalidade, com foros de escândalo. Ora a última participação do FCP na Liga dos Campeões datava de 2023/24 (quando foi eliminado pelo Arsenal, nos oitavos de final, por grandes penalidades), e o título de campeão fugia-lhe há quatro longos anos. À perda dos milhões daquela competição europeia juntava-se o anúncio (felizmente exagerado) do estado de falência do clube em 2024. Para mim, de qualquer modo, o desnorte no campo de jogo era mais inquietante do que no campo das finanças, onde, num ápice, havendo pilares de sustentação, “se dá a volta por cima”. De facto, lembrava-me de diversos períodos altos e baixos nas contas do FCP, e, sobretudo, do pitoresco episódio da penhora de seu património, incluindo a retrete do árbitro do estádio das Antas, pelo tristemente célebre Ministro Catroga, que não logrou atrapalhar esplêndidas vitórias desportivas, nem vultosos investimentos em jogadores. Tal como eu esperava, a história repetiu-se, e, apenas um escasso ano após a anunciada “falência”, eis que o FCP se reforça com o seu mais caro plantel de sempre, o atual. Milagre? Não, nem milagre, nem perdão bancário das dívidas, que é privilégio de um certo clube de Lisboa. Foi, simplesmente, muito boa gestão de sólida riqueza institucional herdada, inclusive, o potencial de vendas de passes de jogadores. E eis o Porto de regresso ao seu lugar cimeiro, retomando o fio da sua história “contra tudo, contra todos”!. 2 - Assim foi e assim vai ser, provavelmente por muito tempo ainda. Somos o país mais centralizado da Europa (razão primordial do nosso atraso, gerador de pobreza relativa e de emigração de jovens talentos), e os maiores clubes da capital gozam das vantagens da sua proximidade do Terreiro do Paço e do favorecimento geral dos “média”, nomeadamente, das televisões privadas e, por vezes, também da pública. Quando um dos emblemas da capital é o vencedor, todos os canais se centram nos festejos, durante dias e dias, comentando as imagens, os feitos e os heróis, em infindável “replay”. Quem não se lembra, por exemplo, daquele desfile sportinguista, pela madrugada dentro, atravessando quilómetros de ruas de uma Lisboa, até então, enclausurada pela pandemia de Covid (em completo e tolerado desrespeito de rigorosos ditames)? Tudo religiosamente filmado e transmitido ao minuto, até os incidentes desagradáveis, que, por lá, fazem parte integrante de rituais guerreiros. Com exceção das desordens (que, por cá, não fazem parte dos programas de festas), esperava que, ao menos naquela noite especial, o FCP estivesse em foco nos vários canais televisivos, que abundantemente se ocupam do futebol. Passei a tarde na cidade do Porto, mas foi em Espinho, que fiquei e ver a festa do título na televisão, maravilhada com um espetáculo “jamais vu”, mas estupefacta com a parca cobertura que lhe era dedicada, da SIC Notícias e CNN à CM e à Sport TV, ressalvado o caso da RTP Notícias, serviço público, a demonstrar a que, nestas alturas, faz a diferença e é imprescindível. Circunstância agravante: aqueles quatro canais estavam devidamente debruçados sobre o futebol, mas com o epicentro noutros protagonistas do dia final do campeonato. O clube nº 1, sendo do Norte, interessava-lhes menos do que o 2º e o 3º classificados! Quando muito, aqui e ali, tripartiam o ecrã, com imagens da festa do campeão num cantinho, enquanto os comentadores falavam, não tanto do segundo e do seu acesso aos milhões da UEFA, mas antes de um nome singular, por ironia do destino, o maior derrotado da noite: Mourinho! Curioso fenómeno mediático, um só homem a ocupar o lugar que, no inverno, fora o das inundações, no verão é, desgraçadamente, o dos incêndios, e, nos intervalos, o das guerras que grassam num mundo assustador. Desde que chegou a Portugal, o “Special One” (de quem devo dizer que gosto muito), ocupou a cena mediática, mesmo para além das fronteiras do desporto. Curiosamente, o mais prejudicado com isso, a meu ver, foi o Trump à portuguesa, que diga o que disser, monopoliza os “media”, e, graças a eles, vem medrando, desmesuradamente, na política. Mourinho “secou” Ventura em tempo de antena! Mais uma boa razão para eu lamentar a sua anunciada partida para Madrid… 3 – Voltemos à festa do campeão, a que assisti, alternando as belas reportagens da RTP Notícias e do Porto Canal (ignorando os outros, que só transmitiram, na íntegra, a parte final do programa, os discursos na Câmara e o desfile dos “craques” no palco da Avenida. Foi um espetáculo de que nos devemos orgulhar tanto quanto do próprio título. Uma mostra do que eu considero “a arte de saber ganhar”. Junto-me aos que afirmam que nunca se viu, em parte alguma do planeta azul, festejo comparável! Foi a mais perfeita conjugação da paisagem natural (o fabuloso rio Douro, revestido de mil luzes azuis, as pontes rendilhadas a ferro, da escola de Eifel, a nossa Ribeira, património arquitetónico mundial, com “patine” de séculos) e da paisagem humana (a maior multidão jamais vista, avaliada, nos vários lugares da cidade, em mais de 600 000 pessoas, uma imensa multidão unida, fraternalmente, no sentimento alegria). E, é claro, a organização que esteve por trás de tudo isto, a criatividade, a combinação do tradicional fogo de artifício e do recurso à tecnologia para desenhar mensagem nos céus, com “drones” ao serviço da arte e do tributo a Jorge Costa, eterno capitão. Penso que tanto nos devemos orgulhar da realização desportiva do FCP, como desta sua forma ímpar de partilhar o triunfo em sã e jubilosa convivência e de um modo tão esplendoroso, tão imaginativo. Campeões há muitos, festejos como os nossos, não há. É, em particular, impressionante a comparação com o que, (quase) sempre, acontece em Lisboa (os desacatos). A que se deverá a nossa singularidade? Eu tinha, e mantenho, uma tese, a este propósito, mas decidi consultar um observador supostamente neutro: o Chat GPT (uma estreia absoluta, confesso). Para os da minha idade, ou de outras idades, que nunca o tentaram, aqui fica, resumidamente, a minha primeira experiência. Segundo o “Chat” três fatores favorecem o Porto versus Lisboa: - a geografia urbana, a Avenida, espaço amplo, aberto e linear, ao contrário da Rotunda, com múltiplas artérias de escoamento e barreiras, como estátuas e canteiros, o que facilita pequenos desacatos, que escalam mais facilmente em violência; - o policiamento de proximidade, em cordões periféricos e equipas de intervenção posicionadas fora da vista da multidão, para evitar o sentimento de confrontação, por um lado, e, por outro, uma cultura de forte união regional. - a sociologia da Identidade: as festas do FCP assumem um caráter de afirmação regional “nortenha contra o centralismo. Existe uma forte autorregulação entre as claques (como os Super Dragões) e os adeptos comuns para manter a ordem e proteger a imagem da cidade. Em Lisboa, a rivalidade partilhada na mesma cidade (Benfica e Sporting) eleva a tensão prévia das celebrações. Não entrei em debate com o “chat” (está na hora de eu enviar o texto para a redação…). Resta-me manifestar as minhas humanas discordâncias. Descarto os fatores geografia urbana, polícia escondida nas sombras, ou ausência de rivalidades clubistas, que, por sinal, não nos faltam, as do Porto (Boavista, etc) e as de Lisboa, que aqui têm adeptos de sobra… A festa dos campeões portistas é simplesmente um São João antecipado, e, tal como o São João, acontece por todas as ruas, becos e vielas, sem vigilância e sem desordem. O Chat só se aproxima da verdade, como eu a vejo e sinto, quando fala de solidariedades “regionais”. Corrijo: mais precisamente, “portuenses”. A verdade é que o Porto Clube e o Porto Cidade se unem na celebração das vitórias, para sair à rua, numa noite mágica, animados pelo espírito comunitário e pela alegria de viver. O espírito do nosso São João.

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