Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
FÉRIAS EM ESPINHO
Férias em Espinho - a marcha do tempo
1 - O mês de agosto é de "férias gerais" como impõe, antes de mais, a agenda escolar, que determina a de várias gerações de cada família e a do mundo do trabalho. Já assim acontecia no final dos anos sessenta, por exemplo, em Paris, (onde eu fazia estudos de pós-graduação), quando em Espinho, a "saison" estival ainda se prolongava ao longo de três meses, de julho a fins de setembro, com vagas de turistas que se revezavam a arrendar as casas de praia, e a encher as esplanadas, os cafés e restaurantes, a piscina, os cinemas (o Cine teatro São Pedro e o Casino, com programação diária, num total de sessenta filmes por mês), os salões de dança (da Piscina, do Casino...), e as ruas de um comércio tão ativo e diversificado quanto o de hoje - ou mais. É certo que agosto já ganhara, para os veraneantes, o estatuto de mês mais procurado e mais caro, mas não o único.
Eu vinha com a família no início da época, às vezes em junho, e ficava até ao começo das aulas, em
outubro, na pequena casa de verão dos meus bisavós, na rua 7. Que tempo maravilhoso!... Manhãs na praia azul, ou na piscina, tardes divididas entre sessões de cinema, corridas de bicicleta, jogos de damas e de dominó no café Palácio, no Costa Verde. A Avenida das imponentes palmeiras, luzes e música ambiente, tinha ainda mais encanto à noite, com as esplanadas frequentadas por gente vestida a preceito, e o alegre vaivém de velhos e novos, entre a estação do comboio e a rua 23. O programa alternativo era um salão de dança, de longe a longe, e, quase sempre, o cinema. Quando passavam dois filmes imperdíveis, íamos à tarde a um, à noite ao outro. Havia dois intervalos, aproveitados, no São Pedro, para tomar café e deambular entre os enormes quadros de vedetas de Hollywood, pendurados nas paredes, e no Casino, para vir às varandas olhar a multidão em lento e prazeroso movimento na Avenida. Duas vezes por semana, o
Casino oferecia, ao intervalo, variedades em palco - grandes artistas como Simone ou Tony de Matos, no auge da fama - com um acréscimo de preço insignificante. Na verdade, era através da sua sala de cinema que o Casino participava na nossa vida e faz hoje parte das minhas saudosas memórias da alma da cidade.
Outra época, outro mundo... Tudo mudou, e, contudo, eu não mudei a minha relação com Espinho durante o ano inteiro, agosto inclusive. É aqui que faço praia, ao contrário de muitos espinhenses, que rumam ao Algarve, em busca de sol tórrido e mar (incertamente...) morno.
2 - Estranhamente, para a generalidade das pessoas "bom tempo" é sinónimo de sol e calor - calor sem limites. A minha definição é mais exigente, excluindo os excessos, para mais e para menos. E começo a admitir que, com o fenómeno do aquecimento global, esta opinião minoritária vá recolhendo crescentes adesões. Se a evolução de tendências for nesse sentido, é uma boa notícia para Espinho, onde as famosas
nortadas criam uma espécie de microclima temperado, quando o resto do país sofre com perto de 40º à sombra. O fenómeno beneficia o litoral norte e centro, da Póvoa do Varzim e Espinho à Figueira da Foz, praias que estavam "trés à la mode" no século passado e que, se a minha profecia se realizar, virão a estar, de novo. A brisa (ou ventania), fonte desta singularidade, não parece estar em risco de se esbater, devendo-se, ao que julgo, à depressão provocada pela dramática diferença de temperatura entre o interior da península e o atlântico. Quem na nortada via incómodo, terá de se ir convertendo à tese de que constitui, afinal, um ativo importante, responsável pela existência de agradáveis "estâncias climáticas atlânticas".
Falando de ativos, um outro é, certamente, a “praia da baía”, hoje banhada por uma “quase piscina” natural. Na mesma categoria, entram a talassoterapia (o balneário marinho) e a emblemática “Piscina Solário Atlântico", que é absolutamente prioritário restituir à cidade. E, também, a antiga animação noturna
que, há muito, vem definhando. Sinal positivo, neste domínio e neste ano, é a programação musical de agosto, à beira-mar, num polo sazonal de diversão, que está, devemos reconhecer, bem publicitado em cartazes espetaculares!
3 - E, por fim, no capítulo dos ativos existentes com um potencial de imediato aproveitamento, menção aos passadiços sobre a areia, numa faixa marítima de mais de trinta e cinco quilómetros, que se pode percorrer, a atravessar as praias de Gaia, desde a foz do Douro, e as de Espinho, continuando, a sul, até à bela Barrinha de Esmoriz. Assim se unem três concelhos e dois distritos, através de algumas das mais formosas paisagens atlânticas: extensos areais, antiga e moderna arquitetura balnear, sobrevivência de aldeias
piscatórias e da arte xávega, património religioso, fascinantes paisagens de dunas, de caniçais e a maior lagoa costeira do Norte de Portugal! Um percurso que se apresenta aos caminhantes em cenários cinematográficos, de uma fantástica diversidade.
Pensando no exemplo dos “Passadiços do Paiva”, grande cartaz turístico nacional e internacional, temos de reconhecer que não seria coisa impossível converter estes congéneres numa atração algo semelhante. O que têm em comum? Obviamente, tratar-se de um recurso natural, que Arouca soube transformar em valiosíssima “marca” da terra, muito para além de fronteiras da região e do país. Recurso que, no nosso caso, está, simplesmente, ao serviço dos residentes e, mesmo em relação a eles, ao que julgo, em estado de subaproveitamento.
Falamos de projetos e paisagens completamente distintos - num caso o interior, o rio, a famosa ponte, um circuito de oito quilómetros, construído com um determinado destino, no outro o litoral, um extenso corredor de madeira, que convida residentes e veraneantes, de todas as idades, a passeios saudáveis, ao ritmo e na distância preferida, sempre a ver o mar, nas suas infinitas transformações, mais as praias e as bonitas estâncias balneares que se sucedem ao longo da costa.
É excelente que os passadiços tenham sido pensados para melhorar a qualidade de vida dos residentes de cada concelho e dos visitantes que o descobrem, ocasionalmente. Mas porque não dá-los, também, a
conhecer ao mundo? Torná-los, "de per si", um polo de atração turística, que traga os caminhantes a descobrir as vilas e cidades que vão cruzando ao andar? Podem, a todo o tempo, aqui e ali, sair para almoçar, tomar um café, um banho de mar ou de sol, retomando a marcha, mais adiante decidindo onde pernoitar ou ficar por uns dias. (quando não venha já com tudo programado, num pacote turístico).
Estou, é claro, a apontar a um projeto intermunicipal. Promover os passadiços à escala de atração nacional e internacional passa pela diversidade que só a três (ou, pelo menos, a dois) é conseguida plenamente, somando-se a outras condições que os tornam únicos no país e no espaço atlântico: a mobilidade suave, a
segurança, a amenidade de clima, a abertura ao longo de todo o ano, e, "last but not least", a facilidade de acesso, em qualquer ponto do percurso, usando meios individuais ou as múltiplas estações de uma linha ferroviária paralela ao mar.
Penso que todas as vilas e cidades ganhariam, por igual, sem perda, antes com reforço, da sua identidade, pela valorização do próprio património e oferta cultural - porque, como salientei, a primeira
aposta de um tal projeto seria na diversidade.
O investimento poderia, certamente, beneficiar de fundos europeus, mas está ao alcance dos orçamentos municipais - não é nada de muito oneroso. As infraestruturas existem, a sua manutenção e melhoramento impõe-se, em qualquer caso, e o preço a pagar seria, sobretudo, o da promoção turística. Essencial é uma designação sonante, ligada à ideia de que constitui uma experiência única em Portugal, (um grande trilho
atlântico). E, como é evidente, uma ampla programação anual - caminhadas temáticas (história, ambiente, arte xávega, observação da fauna, das aves, da flora dunar), desporto, corridas, concursos de fotografia e pintura, roteiros gastronómicos, etc. etc. Hoteis, empresas, escolas, instituições para seniores, escolas, a CP poderiam ser alguns dos parceiros da aventura de tornar os passadiços um destino de referência.
E Espinho poderia ver-se como a sua melhor "porta de entrada", pela grande proximidade da estação ferroviária à praia, por ser a "cidade do meio", pela sua tradição piscatória, fazendo a transição entre as praias urbanas de Gaia e a beleza natural das dunas de Paramos e da Barrinha de Esmoriz.
Talvez, um dia, este sonho se realize,
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