Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quinta-feira, 2 de julho de 2026
IMAGINAR O MUNDO COM KAMALA HARRIS
1 – Nas últimas presidenciais nos EUA, o país dividiu-se ao meio, entre um homem já sentenciado por diversos crimes infamantes (um “fora de lei”), e uma mulher que estava nas antípodas, tendo-se dedicado a velar pelo cumprimento da Constituição e da lei e a fazer justiça - ela, Kamala, antiga Procuradora- Geral da Califórnia, Senadora e Vice-Presidente dos EUA. Ele, Donald, um ex-Presidente, com cadastro, que entre outros crimes, recusara aceitar a derrota na sua não reeleição e instigara o destruidor e mortífero assalto ao Capitólio, como, pouco depois, faria, no Brasil, outro vencido, mas não convencido, o seu seguidor Jair Bolsonaro. É extraordinário que, por crime da mesma gravidade, o populista de extrema direita sul americano habite uma cadeia, pela duração de uma pena de mais de 27 anos, e o norte americano more na Casa Branca, a cumprir um mandato presidencial de quatro anos e a disseminar, universalmente, as sementes da discórdia e da violência.
Ao contrário da “perceção” generalizada, Trump ganhou por apenas alguns milhares de votos, e tem uma escassa, embora fiel e fanática, maioria nas duas Câmaras, que talvez perca nas eleições de meio mandato, em novembro próximo.
E se ela tivesse vencido, ainda que por pequena margem? Imaginemos a América da Presidente Harris! Não é um exercício inútil, é um convite à tomada de consciência da importância do voto de cada um e dos custos que pode acarretar a má escolha.
Na presidência Harris, o planeta não estaria, como está, à beira da crise e do caos. Não haveria quotidianamente fanfarronices, insultos, palavrões, ameaças, “bulling”, cortes nos programas de ajuda humanitária, rutura de velhas alianças, total desrespeito pelo Direito interno e internacional, a traição à Ucrânia, os pactos com Putin, as tarifas arbitrárias, que abalam o comércio global, as perseguições de imigrantes por agentes do ICE, com ordem para matar, assaltos piratas a riquíssimas reservas de petróleo (consumados na Venezuela, planeados, muito provavelmente, para o Irão), tentativas de anexação da Gronelândia, e (loucura das loucuras!) dos grandes países vizinhos, Canadá, México e por aí adiante, sem excluir os mais pequenos, como Cuba, (a próxima prioridade na “agenda Trump” de invasão e conquista). Não haveria, agora, a guerra do Golfo, a alastrar pelo Médio Oriente, nem o fecho do estreito de Ormuz, a abrir, se não uma 3ª guerra mundial, a maior das crises, petrolífera e alimentar, à escala do planeta Terra…
Insólito foi que metade da América, a mais poderosa democracia do mundo, tenha votado num psicopata, com amplas provas dadas da doença, exibindo, despudoradamente, um ego monstruoso, que traz ao presente o eco longo da história dos Césares doidos do império romano. Por cá, em eleições que afetam os destinos de todos os povos (como estamos vendo...), o insólito foi ouvir o Secretário-Geral do PSD confessar a sua equidistância de Harris e de Trump...
2 – Nas recentes eleições presidenciais, em Portugal, constatamos idêntica tomada de posição da parte do líder do PSD e do Governo, mas não da parte do Povo, que nos deu uma verdadeira lição de maturidade democrática. De facto, mais de dois terços dos portugueses deram a vitória ao representante dos valores civilizacionais vividos no último meio século, contra o líder do partido da intolerância e da cizania, o candidato que propõe a ressurreição do salazarismo, a República distópica dos “três Salazares”.
A esmagadora maioria de eleitores, disse, pelo voto livre e lúcido, aos dirigentes máximos da AD.2, que não há uma linha divisória entre democratas, sejam eles de direita ou de esquerda, mas sim um fosso intransponível a separar os militantes da Liberdade e do Humanismo dos arautos de novos totalitarismos, em qualquer das extremidades do espetro político.
É curioso constatar que, nos primórdios da construção da nossa arquitetura democrática, os programas e as lideranças dos partidos fundadores estavam à esquerda das suas bases. O CDS, a direita cristã-democrata, considerava-se centrista (“rigorosamente ao centro”). O PPD/PSD afirmava-se de esquerda (sendo social-democrata, nem outra coisa se poderia declarar…), apesar das suas hostes se repartirem do centro-direita ao centro esquerda. E o PS gritava nos comícios e marchas cívicas: “Partido Socialista, partido marxista”, muito embora o grosso do seu eleitorado fosse reformista.
Meio século depois, ao menos no respeitante a esta segunda AD, são os dirigentes máximos que se colocam à direita das bases. Assim o revela, claramente, a expressiva votação do seu eleitorado no Presidente Seguro.
Foi uma primeira zurzidela na teoria da equidistância do PSD face ao PS e ao Chega, e, também, obviamente, no projeto “Passista” de uma grande coligação com o Chega – como se houvesse chão comum entre a direita salazarista/trumpista e a direita democrática! Por mim, não tenho dúvidas de que um regresso de Passos Coelho à presidência do PSD seria o fim do PSD, em definitivo rompimento com a sua designação e os seus fundadores.
A segunda e não menos forte machadada na obstrusa tese da equidistância veio pela mão de mestre de Cavaco Silva. Num artigo publicado no Expresso da semana passada, o mais prestigiado nome do atual PSD, situou o Chega fora do espaço da civilidade e dos possíveis consensos partidários, ao concluir que “não permite construir uma sociedade onde haja uma sã convivência entre todos”, e ao denunciar a sua “impreparação técnica para falar de políticas para o progresso do país”.
Assim o economista que governou Portugal durante a década de ouro da adesão à CEE, fala numa linguagem em simultâneo, rigorosa, contida e demolidora. Mas não se fica por essa sentença letal. Em palavras mais contundentes foi traçando o retrato realista dessa “estirpe” política, que, segundo ele, recorre: “ao insulto, à calúnia e à mentira”; a uma “retórica de confrontação”; a um “discurso teatral de ódio, de insulto, de calúnia e de mentira”. Olhando mais de perto o chefe do partido, (um partido praticamente unipessoal, sem existência para além do dono) diz, simplesmente: “O líder do Chega procura iludir e enganar os portugueses, através de uma gritaria de pretensas verdades sobre a situação do país, sem referência às políticas concretas que defende ou sugerindo falsas soluções para os problemas”.
A minha leitura subjetiva destas asserções, (que subscrevo por inteiro), leva-me em linha reta às questões da nacionalidade, da imigração, do reagrupamento familiar, ou da expulsão de portugueses naturalizados, como pena acessória (medida que, aliás, considero inconstitucional). Questões que o “trumpismo” e os partidos europeus da mesma estirpe põem na ordem do dia e que a AD.2 estranhamente fez suas, com absoluta prioridade. Num país obrigado a dar resposta à devastação do seu território pelas intempéries do inverno e tão carente de reformas, por exemplo, nas áreas da saúde, da educação, da administração pública, da habitação, da defesa, a que propósito gastar tempo e energias governamentais, em alianças com o "trumpismo à moda de Lisboa"?
Os portugueses, entre os equivalentes nacionais de K. Harris e D.Trump, escolheram Harris, seguiram a via proposta por Cavaco Silva, contra a de Passos.
3 – Neste contexto, o artigo do Prof. Cavaco Silva assume uma relevância muito especial. Mais uma vez, mostrou que sabe como e quando intervir, enquanto académico, enquanto político e personalidade de referência. É o futuro do país que o move, como apoiante de primeira hora de Luís Montenegro.
Mas não esqueceu o passado. Veio a público defender Sá Carneiro da vergonhosa apropriação do seu nome pelo líder do Chega, perante o incompreensível silêncio dos dirigentes do PSD.
Aqui deixo uma última citação deste histórico artigo, a que, naturalmente, mais me emociona:
“Tendo sido Ministro das Finanças e do Plano de Sá Carneiro e tendo estudado os seus textos sobre o exercício do poder em Portugal, estou absolutamente convencido que ele lutaria com todas as suas forças contra o discurso de ódio e as ideias do líder do Chega”.
Eu, que fui apenas Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas de Sá Carneiro, mas que também li os seus discursos na Assembleia Nacional, os “Vistos” do Expresso e acompanhei, como incondicional admiradora, as suas intervenções, após o 25 de Abril de 74, na oposição e no Governo, penso exatamente o mesmo.
E, por isso, posso proclamar que Sá Carneiro, um grande democrata, um lutador contra todas as formas de ditadura, um convicto social-democrata, teria, sem sombra de dúvida, votado em António José Seguro e jamais faria alianças com “trumpistas”.
UMA IDEIA PARA ESPINHO
Uma ideia para Espinho
1 – A recente entrevista do Presidente Jorge Ratola à “Defesa de Espinho” fala-nos das agruras e dos compromissos de governar a autarquia, traçando o retrato de uma cidade que, na transição de século XX para o século XXI, apostou em significativo número de equipamentos de vulto, os quais estão hoje, não só subutilizados, mas em estado de degradação acelerada. Nas palavras claras e contundentes do atual Presidente não oferecem “condições mínimas de dignidade” todos aqueles que lista: “o edifício da Câmara, Piscina Municipal, Balneário Marinho, Solário Atlântico, Multimeios, Nave Desportiva, FACE e parque de campismo”. Uma situação de estarrecer, a que poderemos acrescentar, por exemplo, o deplorável estado de conservação dos passeios e das ruas, e, embora sem diretas responsabilidades da Autarquia, a estação do caminho de ferro, com aquele longo túnel escuro, feio e sujo.
É óbvio que Espinho não chegou a este estado da noite para o dia, mas devido à inação acumulada em vários mandatos autárquicos (doze anos de PSD, quatro de PS, estes tumultuados por uma crise, que levou à barra dos tribunais políticos e funcionários camarários e precipitou o afastamento do Presidente e do Vice-Presidente, com a ascensão à chefia de uma mulher corajosa, cujo partido a veio a “descartar”, talvez por
ser mulher).
Sobre os equipamentos que frequento com alguma regularidade, (o Multimeios, o FACE, a piscina Solário Atlântico), faço minhas as palavras do nosso Presidente da Câmara e saúdo a sua pragmática decisão de “começar pelo princípio”, cuidando dessas estruturas.
O espetáculo dado pelo exterior do FACE é, talvez, o caso mais extremo, a desfigurar um edifício belíssimo, infelizmente, ainda pouco visitado, quer por espinhenses, quer por turistas. O que se deve a razões muito diversas, algumas das quais são fáceis de resolver. De facto, quem passa à beira-mar, nas traseiras do edifício, não adivinha que se trata de um Fórum de Artes e Cultura, com o seu Museu, as suas Galerias de Arte, o seu Auditório, etc. etc. E circula muito mais gente nessa parte, virada ao mar, do que na parte da frente, numa rua estreita que praticamente só serve o trânsito automóvel. Para atrair visitantes, conviria sinalizar o Fórum, por exemplo, através de um simples cartaz ou de umas bandeiras a flutuar ao vento. Ajudaria, também, a crescer o seu público, a abertura de uma cafeteria, como a que existe na Biblioteca e, em regra, nos museus de qualquer país do mundo. Sugeri essas medidas ao Executivo, em 2009/ 2010, quando era vereadora da Cultura. Recordo-me de que, nessa altura, já chovia no FACE, aqui e ali, nomeadamente nas Galerias...
A exceção a este triste panorama geral parece ser a Biblioteca, frequentada, por gente de todas as idades na sua programação cultural, com aquele significativo espaço dedicado a José Marmelo e Silva e ao seu valioso espólio, com o tranquilo jardim das oliveiras, entre as duas salas de leitura, e com a pequena
cafetaria, onde se almoça saudavelmente e os doces são deliciosos.
2 – Nestes últimos tempos, em Espinho, na verdade, nem tudo, mas várias coisas correram mal… » cabeça, o enterramento da linha férrea, desejado por quase todos (não por mim, membro de uma escassa minoria), foi uma oportunidade perdida, porque incumpriu o objetivo de libertar espaço urbano, eliminar uma barreira física e devolver continuidade à malha da cidade: o túnel deixou de fora extensas zonas a norte e a sul... E o que libertou é apenas uma vulgar avenida, não uma nova “Avenida 8”, cheia de encanto e movimento. Não gerou a revolução económica e turística que muitos imaginavam. A cidade ganhou espaço, mas o espaço não recuperou centralidade.
Afinal, o maior problema da terra não era ferroviário, mas identitário. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, Espinho era uma das mais famosas estâncias balneares portuguesas, pela rara combinação de praia, caminho-de-ferro, (que aproximava o interior de Portugal e Espanha), casinos, e todas as demais trações da moda: cinemas, teatros, festivais, esplanadas, cafés, dinâmico comércio, recintos desportivos, piscinas, golfe…. Era a "rainha da Costa Verde" respondia às exigências do paradigma da “Côte d’ Azur”!
Entretanto, foi evoluindo o conceito de turismo balnear, surgiram centenas de praias, sobretudo a sul, e o Algarve de águas mais quentes e sol abrasador tornou-se destino dominante para todas as classes sociais. Espinho tratou de se dotar de novas atrações, de equipamentos grandiosos. Infelizmente, não se
encontram em muito bom estado, como revela o Presidente. Acredito na sua vontade e capacidade de os recuperar. Porém, depois, o pleno aproveitamento das diversas estruturas vai depender, não só, mas também, de novos projetos para Espinho. Ainda não sabemos quais e não é questão que quero abordar neste texto. Deixo apenas uma ideia que me parece viável, tendo olhado em volta, para outra “cidade-casino” à beira-mar – a Póvoa, nossa eterna rival!
3 - O casino desempenhou na “Belle époque” de ambas as distintas urbes um papel fundamental. Agora, no novo século, como avaliar esse papel, no que respeita à sua inserção no tecido social e cultural de cada uma das cidades?
O Casino de Espinho é um mundo em si, voltado para o turismo e o entretenimento. Está aqui, como podia estar em Miami. Fornece concertos, revistas, espetáculos internacionais e jantares-espetáculo em salas magníficas, mas encerrou, há muito, um último espaço de convívio quotidiano para gente menos endinheirada: a esplêndida sala de cinema, uma das mais bonitas, se não a melhor, de todo o Portugal. O Casino da Póvoa seguiu via oposta: conservou o seu belo e antigo edifício, verdadeiro “ex-libris”, e, embora também organize espetáculos de variedades, singularizou-se, pelo envolvimento profundo na criação cultural e literária da cidade, como espaço cultural poveiro e polo cultural regional, com uma agenda artística contínua no Teatro, incluindo peças e concertos de música popular. A Póvoa conseguiu, com essa opção do Casino, tornar-se uma marca cultural de alto prestígio, através das “Correntes d'Escrita” e do
prémio literário, que é um dos mais importantes do país.
Passando dos Casinos ao poder local, a análise permitirá conclusões análogas. Espinho (terra onde a sociedade civil, através da programação do Auditório de Música, Cinanima, FEST, dá esplêndidos contributos), procurou a afirmação em edificações importantes, em festivais, de âmbito local, em eventos dispersos. A Póvoa, para além de financiar esse tipo de programação, associou-se a uma iniciativa identitária e continuada, criando uma marca intelectual reconhecida, a nível nacional e até internacional.
A Póvoa tem as “Correntes”, o Porto a sua “Babel”, projetos com os quais rompem a medianiae se afirmam para o exterior por uma imagem de qualidade. O que não resolve os problemas todos, mas cria oportunidades, desenvolve a autoconfiança e o espírito que ajudam à resolução. E Espinho?
A meu ver, a cidade precisa de iniciativas que a relacem para além das suas fronteiras e combatam o subaproveitamento de vasto património (mais ainda depois de recuperado), dando-lhes um caráter de atividade constante, não meramente pontual e, se possível, pondo o foco na história que queremos continuar e que bem merece ser conhecida por portugueses e estrangeiros.
Para mim, o projeto ideal seria a criação de um museu imersivo, a partir dos nossos preciosos arquivos fotográficos, acordando a memória da improvável caminhada da pequena urbe piscatória primordial para a estância balnear cosmopolita dos anos vinte, com os seus casinos, tertúlias, festivais e a sua mítica e movimentada Avenida, até à cidade atual e sua perspetivas de futuro.
Façamos algo, que “ainda ninguém fez”, nem da mesma forma poderá fazer, porque é única e inconfundível a matéria prima de que se tece: o nosso próprio passado.
Um museu vanguardista e singular, não necessariamente muito grande, comportável no orçamento municipal (custando, numa dimensão inicial, apenas cifrões equivalentes a quatro ou cinco concertos com chamativos nomes da música popular). Não é uma utopia. Pensei em exemplos concretos, no “Perlan”, da Islândia - país onde há muitos outros centros interpretativos deste tipo, que são enorme atração turística, e onde alguns, por sinal, nasceram em infraestruturas já existentes.
A Islândia não tentou competir com Paris ou Berlim, através de museus universais, antes exibe o que a torna única - os seus fenómenos naturais, que transforma numa experiência maravilhosa para os visitantes, de qualquer idade ou formação. Precisamente como Espinho não precisa de competir com a Póvoa, com o Porto, ou com qualquer outra cidade. A ideia é converter a sua própria história numa narrativa contemporânea, que transporte o pioneirismo do passado para o futuro, como um verdadeiro traço identitário.
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