terça-feira, 21 de setembro de 2021

CONVITE ERA UMA VEZ Viagem à roda da África com Maria Archer O que levou uma escritora e jornalista famosa pela qualidade literária da sua prosa, realismo das suas personagens, pendor para o observação etnográfica e ousadia na defesa de causas fraturantes a empreender uma incursão no universo encantatório da literatura para crianças? Partindo do seu "romance de aventuras infantis" e das motivações que ela nos revelou para o oferecer a pequenos leitores, vamos refletir, com Ester de Sousa e Sá e José Vaz sobre as sua prórpias experiências e pontos de vista. O "Círculo de Culturas Lusófonas Maria Archer" agradece a sua participação na 6ª feira, dia 24 de setembro, das 18.15 às 19.15 . Tópico: Zoom meeting invitation - Reunião Zoom de Maria Manuela Aguiar Hora: 24 set. 2021 06:15 da tarde Londres Entrar na reunião Zoom https://us02web.zoom.us/j/82284434416?pwd=K3U2Q1poOS9RQWZ6REM5MHcrWFl5UT09 ID da reunião: 822 8443 4416 Senha de acesso: 672848

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Conheci o Mestre António Joaquim no início dos anos 80, durante uma visita a Santa Maria da Feira, já ele era um pintor muito famoso. A sua simplicidade, o feitio comunicativo e, ao mesmo tempo, discreto, cativaram-me desde esse primeiro dia. Era amável, gostava tanto das pessoas como da Natureza e, por isso, as retratava tão maravilhosamente nos seus quadros. Ao longo de anos, não foram muitos os encontros que nos permitiram diferentes percursos - o meu largamente passado em lugares distantes - mas considero um privilégio todos os momentos de convívio animado pela sua inteligência e vivacidade, pelas histórias que contava da sua juventude, quando a vocação que adivinhava em si lhe traçou um outro destino. Admirava-o pela forma improvável, e quase se diria milagrosa, como rompera os limites do círculo em que as circunstâncias de nascimento e profissão pareciam querer confina-lo, para dar amplos horizontes ao génio inato de artista que, ao longo da vida, se aperfeiçoou em estudo e evolução constantes. Em todas as idades - porque o seu espírito nunca envelheceu - foi, sempre capaz de nos surpreender pela originalidade, pela ousadia da recriação da realidade em incessante procura da Beleza, que capta em cada traço, nas cores e sombras de uma paisagem, na perspetiva nova de uma cidade, onde tantas vezes andamos sem a ver assim, numa velha porta, que, num toque de magia, restitui a tanta vida que por ali correu, no permanente vaivém de passagens, apelando à nossa imaginação, sem revelar o seu mistério. Não sei dizer o que mais me encanta - se a obra, se o pintor. Na verdade, ele está, inteiro, no mundo de arte que nos legou, tão intrinsecamente luminoso como a sua própria personalidade. António Joaquim irradiava simpatia, era espontâneo, amigo e generoso - qualidades de que deu prova, quando num encontro ocasional, durante uma sua exposição na cidade do Porto, o desafiei a fazer uma retrospetiva de décadas de pintura na inauguração das galerias geminadas do Museu de Espinho. Disse-me imediatamente que sim. Foi um evento histórico! Até aí, só uma das galerias estava aberta a eventos, invariavelmente, pouco concorridos. Recuperada a dimensão do plano de arquitetura originária, o amplíssimo espaço agradou plenamente ao Mestre, que não hesitou em organizar a grande mostra num curto espaço de tempo (para tal sendo, em boa hora, adiada uma outra, que chegara a estar prevista). Que sucesso! Da Feira, do Porto, e de outros pontos do país chegaram visitantes, em número que jamais se havia visto, dia após dia, nesses meses de setembro e outubro de 2010... Inesquecível, para todos os que puderam contemplar, como escrevi na altura, "aquelas paredes longas, transfiguradas em deslumbrante mural de obras primas". E eu tive, então, o raro privilégio de poder recomeçar a visita, quotidianamente, em diálogo continuado, não só com as telas, mas também com o Autor ali presente, aprofundando laços de respeito e de afeto que se converteram, depois que partiu, numa imensa Saudade.

terça-feira, 27 de julho de 2021

SUBITAMENTE, MEMÓRIAS DAQUELE DIA DE ABRIL... 1 . Com a morte de Otelo se revive, agora, intensamente, aquele 25 de abril já longínquo, com uma avalanche mediática de depoimentos, noticiários, imagens e entrevistas de época... Assim , de repente, e sem ser por decreto do governo, se iniciaram, verdadeiramente, as comemorações da revolução, que vai fazer o seu cinquentenário daqui a três anos. Para um governo que queria começar com grande antecedência a preparação da efeméride, fez-lhe, prematuramente e por uma triste razão, a vontade o destino... Só Salgueiro Maia, que partiu tão cedo e tão discretamente, (na sua opção de uma vida inteira de servir o País, com honra e sem vã glória), é um símbolo maior do movimento dos capitães, que fez a revolução e abriu caminho à democracia. A ambos estes, então, jovens militares - homens da minha geração, apenas alguns anos mais velhos do que eu... - não faltou a audácia e a coragem de afrontar o Poder e arriscar a vida pela liberdade. Isso lhes devemos, para sempre, como Povo, a eles e a todos os que estiveram juntos nessa grande aventura, tão espantosamente bem sucedida. E não vale dizer, como alguns ainda insistem em fazer-nos crer, que em causa estavam meros interesses corporativos. Não... A democratização do regime, na fase final da operação militar em preparação, era já a prioridade. O que começara com um mero caderno de reivindicações de caráter "sindical" de oficiais de carreira, convertera-se em autêntica luta ideológica de combate à ditadura, para pôr termo a uma guerra colonial, votada à derrota pelos ventos da história. Já não estava em causa a alteração de um diploma que gerara o mal-estar inicial num determinado setor, mas a discussão do programa de um movimento das forças armadas para o derrube do regime anacrónico, seguida da transição para a democracia plena. A solução para o mal-estar coletivo de múltiplos mundos, presos no mesmo impasse, na mesma ditadura. Um fim de ciclo. Um fim do império. A libertação simultânea de um Estado velho e de vários novos Estados, que iriam conhecer sorte muito diversa... Tempo de paz, no fim da transição, para Portugal e para Cabo Verde, que rapidamente se reconstroem, em democracia. Tempo de mais sangrentas guerras para outros países africanos, de invasão e genocídio para Timor-Leste... O que se faz demasiado tarde, tem tudo para correr tragicamente A exceção é do domínio do milagre. Na nossa descolonização, o único milagre foi obra dos cabo-verdianos. 2 - Conto-me entre os que olham com agrado uma comemoração do 25 de abril de 1974, que seja mais do que festas e discursos rituais, centrados num dado momento, desde que um período tão alargado se destine a reflexão e estudos sérios, envolvendo investigação académica, preservação de testemunhos e memórias, chamando interlocutores no universo do antigo império, da lusofonia. Missão ciclópica, diálogo que se adivinha difícil, se ousar afrontar dogmas e preconceitos, se ambicionar um enfoque diacrónico não só sobre este meio século, mas sobre o seu "antes" e o seu "depois". Tarefa que deverá congregar velhas e novas gerações, pôr o acento no intercâmbio de ideias, de solidariedades, sem esquecer as migrações, que neste espaço pluricontinental se continuam, e são verdadeiras pontes transnacionais entre as sociedades dos países a que pertencem. Escolha ideal, indiscutível, a do General Ramalho Eanes para a Presidência das comemorações, porque ninguém, como ele, representa não só o espírito da revolução militar que incorporava um projeto (necessariamente incerto) de democracia, mas a capacidade de viver o projeto no seu conseguimento concreto, com o voto dos portugueses. Nem todos queriam o mesmo, como o PREC mostrou, dia após dia, e, sobretudo, em dias que ficaram gravados no curso da história - 28 de setembro, 11 de março, 25 de novembro... - em que se inscreveram diferentes conceitos para a palavra democracia... Á partida, decepcionante é a entrega da coordenação do programa de celebrações a um jovem universitário, com notoriedade que lhe vem muito mais dos ecrãs de televisão do que de trabalhos científicos. Na TV, de onde o conheço, me parece, devo dizê-lo, um moderado e afável comentador, embora não uma fulgurante e carismática personalidade, um Soares, uma Maria Barroso, um Guterres, um António Vitorino - para me ater só ao quadrante socialista... Às vezes, não é mau partir de baixas expectativas... De qualquer modo, sentir-me-ia bem mais animada com um grande nome das Ciências ou das Letras, à frente de estrutura menos rígida, onerosa e pesada. 3 - Otelo é, por sinal, o exemplo mais do que perfeito para exemplificar a diferença que faz entregar uma missão à pessoa certa ou pessoa errada. No 25 de abril, a coordenação do plano estratégico e da sua operacionalidade, converteu-o em herói nacional. Aí, como o "cérebro" de uma revolução sem sangue, vitoriosa e popular, ganhou o seu lugar num pedestal de fama, de onde ninguém jamais o retirará. E, todavia, não era, de todo, talhado para "o dia seguinte". Ou seja, para nenhuma das altas funções que veio a exercer... Não avanço prognósticos sobre o julgamento final que lhe está reservado na história pátria, mas tenho o meu, subjetivo e naturalmente irrelevante. Para mim, há, para além da sua inconstância ideológica, da sua adesão a todos os excessos revolucionários, que fizeram perigar a implantação da democracia, (tal como eu a entendo), uma surpreendente constância na procura do "bem comum" e não de proveito pessoal, que me leva olhá-lo benignamente. Desde o PREC, estive sempre do lado contrário da barricada, olhando a sua radicalização, sem nenhuma condescendência no que respeita às suas ações, enquanto figura pública, mas, estranhamente, com bastante complacência em relação ao Homem. É alguém que eu gostava de ter conhecido pessoalmente, cuja voz faz falta na comemoração que se aproxima, cuja partida lamento.
CONVITE Caríssimas/os No âmbito dos colóquios organizados pelo Círculo Maria Archer, vimos informar que no próximo dia 10 de julho (sábado), às 18 h (hora de Portugal Continental), inserida na iniciativa “As Letras na Diáspora”, será realizada uma homenagem ao Professor Eduardo Mayonne Dias (1927-2021), que recentemente nos deixou, silenciando-se uma das mais importantes vozes da Língua Portuguesa na Diáspora Americana. Subordinada ao tema “Homenagem d’Além Mar”, será oradora a Professora Doutora Rosa Simas, da Universidade dos Açores, cuja vida académica ficou indelevelmente marcada por este docente, quando teve o privilégio de ser sua aluna na Universidade da Califórnia, Los Angeles e Santa Bárbara. Considerem-se todas/os convidadas/os através do link: https://us02web.zoom.us/j/7531842887?pwd=VTdDVFRySkgva2wyUXRJekhFSXA2dz09 ID da reunião: 753 184 2887 Senha de acesso: xK2LNF

terça-feira, 20 de julho de 2021

CONVITE ERA UMA VEZ. - CICLO DE COLÓQUIOS SOBRE O CONTO INFANTIL.. O Círculo de Culturas Lusófonas Maria Archer leva a efeito na segunda feira, dia 26 de julho, o 2º colóquio sobre o conto infantil, em que procuramos divulgar obras de autores da Lusofonia, de dentro e de fora de Portugal. Desta vez, no dia dedicado aos Avós, é Manuela Marujo quem nos apresenta o seu livro "A primeira vez que eu vi neve" - um retorno ao mundo das crianças inspirada na sua própria infância. Manuela Marujo é professora emérita da Universidade de Toronto, onde, durante muito anos, exerceu o cargo de "Associate Chair” do Departamento de Espanhol e Português. Para além da sua faceta académica, é uma personalidade marcante na comunidade portuguesa de Toronto e no universo da nossa Diáspora, Co- fundadora dos movimentos internacionais designados por "A vez e a voz das Mulheres" e "A voz dos Avós", com ela poderemos abordar o significado da sua narrativa, o que a levou a escreve-la, e, também, a sua visão e experiência de diálogo intergeracional num contexto migratório. Com este ciclo de colóquios queremos lembrar Maria Archer, na sua veste de grande contadora de histórias, oralmente - como sabemos pelo testemunha dos que tiveram o privilégio de a ouvir - e através de uma ou outra incursão na literatura infantil e juvenil, como tantos outros escritores, jornalistas e professores, em que se incluem Ana de Castro Osório, Natália Correia, Érico Veríssimo, Luís Sepúlveda e Vargas Liosa.. Tópico: Zoom meeting invitation - Reunião Zoom de Maria Manuela Aguiar Hora: 26 jul. 2021 06:00 da tarde Londres Entrar na reunião Zoom https://us02web.zoom.us/j/87365561790?pwd=aUd5Q0Z3aW1XTUNCNmcySjFaNzliQT09 ID da reunião: 873 6556 1790 Senha de acesso: 925203 A sessão será integralmente gravada
A PANDEMIA NO ESPELHO DO FUTEBOL 1 - Portugal começou bem e acabou mal o Euro - eliminado, no "mata-mata" (como dizia Scolari, o homem que deixou uma herança de bandeiras verde-rubras nas janelas e a má memória da perseguição a Vítor Baía). Desta vez, perdemos para a Bélgica, que só mesmo no "ranking" é a nº 1, tendo na partida de Sevilha posto em prática esquemas táticos, que mais se esperariam de Fernando Santos. Noutra perspetiva, em termos de "jogo jogado", a equipa começou mal e acabou bem. Na última oportunidade mostramos do que somos capazes, merecíamos ganhar, ir em frente para os quartos de final. O futebol é isto: um desporto pontuado por momentos de sorte e azar, de resultado sempre incerto, como a própria vida humana. O factor "suspense" faz parte da sua magia. A perda do ceptro europeu deixou o País de luto e de regresso à normalidade, ou seja, a falar da 4ª vaga COVID, da variante nepalesa, da cerca sanitária de Lisboa, em regime de "part-time", dos desastres de Cabrita, do certificado digital para acesso a restaurantes, dos ritmo da vacinação e do pandemónio de filas de espera - dispensável desorganização civil sob a batuta de um ilustre militar. Já pertencem ao passado os dias de delírio coletivo, a ver na TV o futebol, nosso e alheio, em estádios repletos de público, de cor e de abraços, Já estamos caídos no reino português da burocracia paralisante, que tudo proíbe ou condiciona, sem explicar porquê. Tal como Sísifo, condenado, eternamente, a andar acima e abaixo do caminho da montanha, carregando o seu fardo de pedra, nós, num sobe e desce permanente de horários do comércio e da restauração e do "ranking sanitário" da nossa cidade, confinamos e desconfinamos, enquanto cresce o número de descrentes nestes castigos de deuses menores - sobretudo entre a juventude não vacinada, não mascarada (como diria Ferro Rodrigues), nem fisicamente distanciada.. Há dias, passava eu no Largo da Graciosa e ouvi um fragmento de conversa de três adolescentes sobre este tema do quotidiano espinhense. Um deles bradava, desconsoladamente: "Estou farto da Covid 19. Antes queria um apocalipse zombie!". A pressa que levava não me permitiu ouvir o resto do lamento, que teria valido a pena. Ali estava quem exprimia, numa síntese lapidar, o sentir de uma geração inteira... 2 - O futebol tem sido, desde o início deste interregno "zombie" na história da Humanidade, o espelho fiel de erros, incoerência e arbitrariedade de quem manda na gestão da crise. De entre todos os domínios em que podemos, a meio do 2º ano da pandemia, traçar um balanço negro, este é certamente o "primus inter pares". Logo na primeira avaliação de risco comportamental, recebeu nota máxima, com o consequente encerramento ao público de todos os recintos desportivos (incluindo a pais de meninos pequenos, em jogos de formação!). Assim se demonizava todo e qualquer adepto, dado como incapaz de controlar paixões clubistas ou nacionalistas. A mesma pessoa que assiste civilizadamente a um concerto ou a um cinema, vira selvagem mal se senta num estádio, segundo esta escola de pensamento. Quod erat demonstrandum... Para calar as raras vozes que se levantavam contra o fundamentalismo da medida, os poderes públicos promoveram dois ou três ensaios de abertura ao público, em emocionantes jogos internacionais, esperando um dilúvio de desordem e de caos. Porém, a realidade desmentiu os preconceitos, ancorada na enorme experiência organizativa dos clubes e no caráter ordeiro da maioria das assistências. Tudo correu às mil maravilhas, no acesso, no interior e na saída dos estádios, do Porto e de Lisboa à lonjura dos Açores! Nem por isso, quem, pelo visto, não estava de boa fé, suspendeu a interdição total, mesmo depois de permitir a abertura de portas a espetáculos em espaços fechados. Foi preciso esperarmos vários meses até maio e junho deste ano II pandémico para termos a prova de que, afinal, os desequilibrados, os irracionais, os "loucos" do futebol não são os cidadãos anónimos, mas os próprios detentores de altos cargos do Poder (os autores, materiais ou morais, de leis e regras e minudências absurdas, em que Portugal bate recordes). A desgraça que nos relegou da linha da frente para a cauda da Europa é filha dos monumentais festejos de rua de um campeonato nacional, (todo ele disputado em estádio vazio...), com o "nihil obstat" da DGS e da Câmara de Lisboa. Seguiu-se a polémica autorização para a disputa da final da Champions no Estádio do Dragão, enfim aberto, mas só a um público britânico (desta vez sem funestas consequências, dado o prudente distanciamento físico a que a população do Porto se manteve dos forasteiros). E, logo depois, as mais altas figuras do Estado acompanharam o desenrolar do Euro, febrilmente, tomados por ímpetos juvenis, e, a partir de uma Lisboa em "estado de cerca" parcial", incitaram à deslocação em massa de lisboetas e dos restantes portugueses ao estádio de Sevilha, outra cidade situada em "zona vermelha". Este encadeamento de incidentes com o futebol como pano de fundo, teve, contudo, muito pouco a ver com a realidade e a gente do futebol, e com os interesses do desporto. Tratou-se, em todos os casos, de mero aproveitamento do futebol pelos políticos que nos governam. Quando falam de fãs emotivos e descontrolados, põem um cachecol ao pescoço e olham-se ao espelho... 3 - Quanto à seleção, apenas um diagnóstico breve: sofre de dois males cumulativos: a usura (lenta...) do poder absoluto de Fernando Santos e o endeusamento de Ronaldo, o melhor jogador do mundo por definição, pouco importando que esteja em boa ou em má forma, Santos, ao chegar, fez um saudável contraste com dois antecessores, que, enclausurados nos seus enormes "egos", montavam "equipas de autor" (Queiroz e Bento). Chamou os proscritos de Bento e com eles e outros montou um conjunto em que vedetas e operários, de várias gerações, se uniram harmoniosamente. Foi bonito de ver e, sem produzir maravilhas no relvado - exceto a espaços, com a genialidade de um ou outro predestinado a grandes cometimentos - atingiu o topo da Europa no Euro 2016 e, de seguida, na primeira Taça das Nações. Prestigiado e adulado, a torto e a direito, também Santos, anos volvidos, converte a seleção nacional no "clube do Fernando". Abundam os nomes com lugares cativos, mesmo quando os jogadores que lhes correspondem estão esgotados, Viu-se... Por outro lado, a idolatria de Ronaldo não ajuda o coletivo, sem culpas para o ídolo, vítima e não vilão, (o fenómeno que, aos 36 anos, dá nome a um aeroporto internacional e um museu e é, nas redes sociais, o rosto mais conhecido do seu País). A lenda não vai envelhecer, o homem sim (a menos que Pepe lhe desvende o segredo da sua eterna juventude). E as seleções jovens mostram, constantemente, num futebol de luxo e de ataque, que não nos faltam heróis em lista de espera.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

ESTADO DE CALAMIDADE NA DEMOCRACIA

ESTADO DE CALAMIDADE NA DEMOCRACIA Ainda somos um Estado de Direito? Vivemos longos meses em "estado de emergência", demasiadas vezes renovado, do qual passamos, sem respirar os ventos das liberdades constitucionais, para o chamado "estado de calamidade", que, em bom português, parece coisa pior, mas juridicamente não é. A fundamentação para, deste modo, "suspender" a democracia plena era "salvar vidas" e impedir o colapso dos serviços de saúde. Segundo as nossas autoridades, nenhuma dessas fatalidades é hoje provável. E, aliás, mesmo quando o risco era visível, (e ressurgente, ao sabor de confinamentos radicais e desconfinamentos levianos), as restrições só podiam ser as ajustadas, estritamente, ao objetivo. A fronteira entre o uso e o abuso do poder de cercear a liberdade, os direitos e garantias dos cidadãos assentava na racionalidade das medidas, na adequação dos meios ao escopo, em suma, na procura de uma rigorosa proporção, com ela assegurando a igualdade de tratamento das pessoas e das situações. Apesar de um sem número de exemplos de desnorte e arbitrariedade da parte da DGS e da Ministra da Saúde, os portugueses tudo iam suportando, com infinita paciência. O principal partido da oposição, por seu lado, escusava-se a denunciar erros e omissões, ou a apontar alternativas, e a elite dos nossos constitucionalistas assistia, impávida, à "radicalização" da DGS, sem nela vislumbrar ameaça à democracia. Talvez por melhor conhecer a matéria e melhor distinguir o essencial e o supérfluo no combate à crise pandémica, foi um médico especialista, Adalberto Campos Fernandes, antigo Ministro da Saúde de António Costa, e não um homem de Leis, o que primeiro ouvi a alertar para o desgoverno neste domínio, para a ultrapassagem dos limites de razoabilidade, pondo em cheque o "Estado de Direito", porque o "Estado de Direito" exige a igualdade de tratamento e a justificação dos normativos e ditames, assente numa base científica. Um condicionalismo que as autoridades se mostram incapazes de cumprir. No estado a que chegámos, é crucial, como diz aquele ilustre ex-Ministro, simplificar medidas, que as pessoas compreendam, e sair de uma espiral de contradições - lembremos as contantes e absurdas alterações dos horários de lojas, restaurantes, espetáculos, a inexplicável discriminação de uns setores face a outros, quando não de cidadãos nacionais perante estrangeiros..Na memória dos desmandos do ano louco de 2021 fica uma senhora que foi multada pela polícia por comer uma sanduíche dentro do seu próprio carro, a proibição de beber água no espaço público, de enfeitar janelas, portas ou montras com flores de papel, e de vender vasos de manjerico por altura dos Santos Populares... Por sorte para os responsáveis por tudo isto, o ridículo não mata!... Joana Amaral Dias é outra não jurista que se mostra chocada com a experiência governativa destes últimos meses, dizendo que nem Salazar teve tanto poder de condicionar as vidas dos portugueses. De facto, para além de nos terem confinado, vigiado, vedado o acesso às igrejas, aos funerais, aos cemitérios, aos cafés, aos recintos desportivos, às areias das praias e à vista do mar (em tempo invernoso!), ou aos bancos dos jardins públicos, tentam, sistematicamente, intimidar quem ouse pôr em dúvida a bondade das suas delirantes decisões - o que a senhora DGS fez até na AR, perante os deputados, como se estivesse ainda na antiga Assembleia Nacional... Neste capítulo, nem o Primeiro Ministro, insuspeito democrata, se salva, pois não resiste a zurzir qualquer crítico, como se fosse um inimigo da Pátria.. Anda mal habituado, pela notória falta de oposição política. Porém, afortunadamente, de repente, foi a gente anónima que se fartou de tanto desacerto. A revolução mental do 29 de maio O povo acordou no dia em que mais de 16.000 ingleses foram autorizados a assistir à final da Champions nas bancadas do Dragão, e 500 portugueses proibidos de entrar no Estádio do Jamor, para uma final de râguebi (depois de idêntica interdição ter atingido a final da Taça de Portugal de futebol, em Coimbra). Foi a gota de água... Já acontecera a noite verde e branca, que tumultuou as ruas da capital - prenúncio da viragem, ímpeto de retorno às antigas liberdades. Na esfuziante festa do SCP fora, por sinal, muitíssima mais compacta a multidão, mais numerosos os desacatos, mais violenta a repressão policial, (brigas de bêbados são rituais lisboetas de celebrações de campeonatos, ao contrário do Porto, onde a festa é sempre um São João convivial, que dispensa a vigilância das forças da ordem). O escândalo de Lisboa assumiu, porém, contornos de coisa menor, caseira, benevolentemente olhada, com o próprio Presidente da Câmara a encorajar a festança rija, pretextando ter perdido um email em que a Polícia se manifestava contra. Pela primeira vez, calou-se a voz da DGS, que saiu de cena e deixou o papel de vilão a um solitário Ministro Cabrita. O evento constituiu, em pandemia, um autêntico teste sanitário com desmesurada amostragem (digno de figurar no Guiness), e veio comprovar que o número de internamentos hospitalares não disparou, e menos ainda o de mortes por Covid 19, provocando, contudo, um "super contágio" (para usar a expressão do sportinguista Paulo Portas) e levando a juventude a perder o medo, e a animar a noite dos bairros populares, em confraternizações fora de horas e de regras, à maneira dos "hooligans" ingleses, sem precisar da adrenalina do futebol. E assim o vírus se multiplica, imparavelmente.. A nível interno, parece não haver consequências de maior - apenas se mudam, à pressa, os dogmas da DGS, de modo a não confinar a capital... mas não se mudam, com tanta facilidade, os critérios estabelecidos a nível internacional. A catástrofe abateu.se já sobre o nosso turismo, começando com o governo britânico a banir-nos da sua "lista verde", e podendo vir a ser seguida outros. O Algarve e os emigrantes portugueses do Reino Unido pagam, assim, o preço dos folguedos consentidos em Lisboa! E falta ainda saber se "Champions" agravou, ou não, o "panorama Covid" na região do Porto, após o previsível falhanço da "bolha sanitária" que o governo, com tanta ligeireza, nos prometera.. A verdadeira barreira que isolou os ingleses na Ribeira, na Avenida dos Aliados, na cidade inteira, foi uma "bolha cívica", espontaneamente criada pela população do Porto, que não se misturou com eles, nem participou em bebedeiras e desacatos. Em vão, o "Expresso", jornal sulista e elitista e, de vez em quando, sensacionalista, fazia nas vésperas do jogo, notícia com foto grande e manchete de 1ª página, profetizando "confrontos entre "adeptos ingleses e do FCPorto". No interior, dedicava, quase integralmente, a sua página 5 a uma crónica, cujo título sintetiza bem o conteúdo: "Alerta para confrontos entre "casuals" do FCP e hooligans antissemitas". Na edição seguinte, o Expresso esqueceu-se de referir o exemplar comportamento dos portistas, tal como o dos espectadores britânicos, que emolduravam o retângulo de jogo na final. Fora do estádio, a história foi outra, semelhante à da Albufeira e mais ajuntamentos algarvios - ou seja, muita cerveja na via pública, nada de máscaras, pequenas escaramuças de fãs bastante ébrios. Quanto a antissemistismo, manifestações de extrema direita e outras pragas anunciadas, felizmente, nada!... Proibir, sem mais, ou permitir, com regras, eis a questão... O que mais chocou os portugueses e desacreditou a autoridade irracional e despótica a que temos estado sujeitos, foi o a discriminação dos portugueses, tratados abaixo de estrangeiros no seu próprio país. Este despertar de consciências, ou sobressalto cívico, foi o que de positivo nos trouxe a aberrante dualidade de critérios, que se sentira, ao longo do ano e de toda a época competitiva, discriminando o desporto ao ar livre, e, em especial, o futebol (profissional, amador - e até o de formação!) se comparado com eventos culturais programados em espaços fechados. A desobediência em massa, e quase sempre pacífica, às regras draconianas em vigor, perante a passividade da polícia, tanto em Lisboa como no Porto, estimulou resistências e gerou novos comportamentos (que têm de passar pela liberdade de movimentos, plasmada em normas simples que já interiorizamos - uso de máscara, distância física, desinfeção das mãos). E deixou uma lição, (mais uma...) aos responsáveis máximos, no plano nacional ou local: não vão pelo caminho mais cómodo de proibir, proibir, proibir... Esse pode ser o último recurso, não deve nunca ser o primeiro! É preciso esclarecer as pessoas e confiar na sua racionalidade, na sua colaboração voluntária. Vejam o que aconteceu no futebol, o setor mais diabolizado pela senhora DGS: dentro dos estádios, a capacidade de organização daqueles clubes, onde foi, a título excecional, permitida a presença do público, revelou-se, invariavelmente, perfeita. O que correu mal, em Lisboa e no Porto, aconteceu fora, desafiando proibições. Do futebol bem podemos extrapolar para outros domínios (que gozam, imerecidamente embora, de melhor reputação). Vejamos o exemplo, as festas populares. Entre a proibição, pura e dura, de Medina e a iniciativa de Rui Moreira, ao criar espaços de diversão, com entradas controladas, não tenho dúvidas em recomendar o paradigma portuense, esperando que possa inspirar não só outros municípios, mas, também, o Terreiro do Paço!