sexta-feira, 21 de maio de 2021

DANÇA DE CADEIRAS EM ANKARA in ETC E TAL

DANÇA DE CADEIRAS EM ANKARA Uma questão de género, de protocolo e de boa educação 1 - Estas três questões não andam necessariamente entrelaçadas, mas, quando isso acontece, a mistura pode tornar-se explosiva... O chamado "sofagate" é exemplo dessa confluência, que provocou uma tempestade política perfeita. Envolveu, como é universalmente sabido, dois homens e uma mulher - um triângulo formado por Erdogan, muçulmano retrógrado, que, a partir de Ankara, lidera hordas de assalto aos direitos das mulheres (e a outros direitos democráticos), Charles Michel, o Presidente do Conselho Europeu, ex-primeiro ministro belga, (que a ele se aliou, infringindo os tríplices cânones), e Ursula von der Leyen, a primeira mulher a presidir à Comissão Europeia, uma conservadora do PPE, vinda do governo de Angela Merkel. Pormenores relevantes: a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu, têm, precisamente, a mesma categoria protocolar:e, em visitas anteriores, quando os dois altos dirigentes da UE eram do sexo masculino, sempre houve, na sala de reunião, três vistosos cadeirões dourados para os três presidentes da cimeira, e dois modestos sofás paralelos para figuras menores, discretos acompanhantes. Desta feita, o Protocolo de Estado providenciou apenas duas cadeiras de honra, que o sultão turco e o liberal belga se apressaram a ocupar, como fazem os contendores numa dança de cadeiras, deixando Von der Leyen ignorada, solitária, em pé, por alguns momentos, que pareceram uma eternidade e foram difundidos no mundo inteiro. Entre abandonar o encontro, pela porta grande, ou remeter-se a um lugarzinho secundário, ela escolheu acantonar-se no sofá, que, assim, entrou para a história, pelo menos para a "petite histoire".. Nas conversações, talvez muito estivesse em causa, pesando na decisão da senhora - em foco ou na sombra, nomeadamente o tenebroso acordo para a retenção de refugiados do Médio Oriente e Norte de África, em solo turco, pago, a peso de ouro, pela UE, contra a letra e o espírito do Direito humanitário, do Direito de asilo... Coisa inédita, a Presidente Von der Leyen, dirigiu-se, dias depois, aos deputados do Parlamento Europeu e denunciou a discriminação sexista de que tinha sido alvo. Erdogan, tendo atingido, em pleno, os seus objetivos, planeia os próximos passos, numa imparável escalada ditatorial, enquanto o Senhor Michel, aliado de ocasião, se desfez em desculpas esfarrapadas, receando perder a reeleição em 2022 , talvez, como já se aventa para um proeminente socialista português... 2 - O Protocolo lida, em princípio, com a hierarquização institucional - ou, como no caso de Ankara, com a paridade. Por isso, a infração às suas regras ofende, em primeira linha, as instituições, não tanto os seus representantes. Todavia, numa conjuntura marcada pela rompimento turco da Convenção destinada a proteger as mulheres contra todas as formas de violência - j um convite de Erdogan à violência contra as mulheres do seu país - a grosseira discriminação da Drª Von der Leyen assumiu um caráter eminentemente político, misógino e pessoal. Foi um recado para dentro, e um manifesto para fora. E foi, igualmente, um atentado aos nossos valores conviviais e aos princípios da boa educação, que nos mandam dar precedência cerimonial aos mais velhos, às senhoras, a trajetos de vida especiais. Neste plano, o belga conseguiu descer tão baixo quanto o seu parceiro do "sofagate". Um comportamento sem perdão, porque infringiu o protocolo no pior sentido. Um homem muito civilizado é aquele que faz precisamente o contrário, permitindo-se inverter a gradação hierárquica, em benefício das boas maneiras. Há feministas que encaram mal quaisquer gestos de cortesia e, em nome da igualdade, preferem ver um homem passar à sua frente em todo o lado, ou ocupar um assento, enquanto elas aguardam a sua vez, a pé firme. Não perfilho essa doutrina, admitindo, de bom grado, o relacionamento cerimonioso de homens para mulheres, ou dos mais novos para com os mais velhos... É certo que, em atos oficiais, é normal ver reis ou presidentes deixarem as esposas em segundo plano, na sua condição de ungidos ou eleitos. E, neste século XXI, ano 21, ainda causa espanto, se não desconforto, a inversão dos papéis, quando os consortes são do sexo masculino - e isso foi trazido à ribalta, recentemente, por altura do falecimento do Príncipe Filipe (matéria que mereceria comentário desenvolvido, pois, a meu ver, ele desempenhou o papel, de forma, a todos os títulos, paradigmática). Uma admirável exceção à regra de deixar na retaguarda as consortes femininas, a que eu mesma assisti, no hemiciclo do Conselho da Europa, teve por protagonista o Rei Hussein da Jordânia. Era deveras surpreendente, que um monarca daquela região do mundo, para um discurso e debate com deputados da Assembleia, se fizesse acompanhar de sua mulher, a belíssima Rainha Noor. Foi brilhante o discurso que proferiu, mas ler um bom texto está ao alcance de qualquer um... Responder, de improviso, com mestria e profundidade, a perguntas que livremente lhe foram colocadas, já não era para qualquer um... O Rei Hussein foi o melhor orador que ouvi, no Palácio da Europa, ao longo de treze anos de sucessivos mandatos. E mais impressionada do que com o debate, fiquei ainda com o facto de, ao sair do hemiciclo, ter dado precedência à sua Rainha e caminhar um passo atrás dela. 3 - Andou bem Ursula von der Leyen, quando suportou ser destratada pelo protocolo turco? Talvez sim, talvez não... Para avaliar a sua atitude, seria, como disse, necessário saber exatamente o que estava a tratar, em conjunto com o Sr Michel. Falo por experiência própria, porque já me vi numa situação, que, embora sem a mesma visibilidade, teve contornos algo semelhantes... O incidente de que fui vítima aconteceu na capital da Austrália, no ano de 1996. Ali me encontrava como deputada eleita pela emigração, a visitar comunidades portuguesas. Era Embaixador um excelente e amável diplomata de origem goesa, Zózimo da Silva, e estava na ordem do dia a problemática dos refugiados timorenses, recém-chegados a Darwin, e espalhados pelo país, às dezenas de milhares. Português de origens orientais, o Embaixador tinha uma especial sensibilidade para os dramas humanos de uma descolonização, que foi, de todas, a mais sangrenta, (não às mãos do colonizador multissecular, mas do invasor indonésio, reconhecido, como nova potência colonial pelos EUA, pela Austrália e outros países ditos democráticos, que, assim, pactuaram com o verdadeiro genocídio dos resistentes timorenses). Transmitiu-me o Dr Zózimo o convite do Ministro do Interior, que insistia em reunir comigo sobre um bizarro plano seu de reencaminhar para Portugal todos os refugiados, a pretexto de lhes ser, por nós, reconhecida a nacionalidade portuguesa. O Ministro chamava-se Ruddock e era um conhecido líder religioso - se não fanático, pelo menos devoto cristão, não católico. Sempre pronta a bater-me por este povo irmão (tendo sido já peticionária no Comité de Descolonização da ONU, a pedido de uma organização timorense), aceitei o repto. O Embaixador, que mantinha com o Ministro Ruddock um relacionamento difícil, colocou-me a alternativa de ir, ou não, comigo. Ambos concluímos que a sua presença não facilitaria o encontro, para o qual avancei com o nº 2 da Embaixada. Entrei na sala e deparei com o Senhor Ministro, ostensivamente sentado, "grudado" na sua cadeira! Nunca tal me tinha sucedido. Senti a afronta, mais ainda por ser mulher, embora convencida de que aquele australiano rude, ao contrário do déspota turco, faria precisamente o mesmo a um deputado homem... (do mal, o menos!). Em qualquer caso, grande foi a tentação de virar costas e bater com a porta... Por segundos hesitei, mas logo senti que era melhor ficar, dizer o que queria dizer sobre Timor-Leste... e dizê-lo com uma raiva fria e controlada. Aparentemente, Ruddock esperava tudo menos o tipo de agressividade polida e, ainda por cima, feminina, com que encetei a conversa. O meu fio da argumentação não diferia do do Embaixador Zózimo: Portugal, de braços abertos, receberia todos os timorenses, que estavam na Austrália, todos sem exceção, mas por livre vontade de cada um, não por ditames de um governo estrangeiro. A nacionalidade portuguesa não era imposta, antes incondicionalmente atribuída, a pedido, como frisei. Durante mais de meia hora, dissecamos factos históricos e conceitos jurídicos, e a cada minuto decorrido, eu sentia que ganhava pontos, porque a razão e a moral estavam do meu lado - do lado timorense! Não sei, ao certo, quando o ambiente pesado cedeu a uma gradual cordialidade, passando eu a apelar aos valores cristãos do cidadão Ruddock. (não tomei notas, infelizmente, nunca tomava... o jovem diplomata, a meu lado, sim, e essas existirão, ainda, nos arquivos da chancelaria de Camberra). Lembro-me de, à despedida, sorridente, exortando o devoto governante a "ganhar o céu, ajudando os timorenses"!.... Ele, não menos sorridente, levantou-se do seu assento e acompanhou-me à porta, como era sua obrigação.... Uma história com "happy end", sem contornos sexistas, em que um pecado protocolar foi revelado, pelo arrependimento do pecador, e a civilidade acabou por prevalecer. E, mais importante ainda, os direitos dos refugiados, também. Tudo, afinal, nas antípodas do "sofagate", e não só geograficamente!.

sábado, 10 de abril de 2021

DANIEL BASTOS sobre Menina e Moça me levaram

Menina e Moça me Levaram Os últimos anos têm sido pródigos na conceção e realização de obras de autoras nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro dedicadas às mundividências femininas no contexto migratório, umas das dimensões da emigração portuguesa que por via destes contributos literários começa a ser mais conhecida e estudada. Um desses contributos literários, intitulado Menina e Moça me Levaram, acabou recentemente de dar à estampa através do trabalho proficiente da professora Aida Baptista, que nos últimos anos de docência desempenhou o cargo de Leitora de Língua e Cultura Portuguesas no Estrangeiro, ao serviço do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP) e do Instituto Camões (IC). Colaboradora da imprensa de língua portuguesa no mundo, onde publica regularmente artigos ligados ao fenómeno migratório, e autora dos livros Passaporte Inconformado e Chão da Renúncia, Aida Baptista é a responsável pela organização de uma obra que demanda o seu título no evocativo de saudade que dá início ao prólogo do livro Saudades, mais conhecido por História de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro. Assente num conjunto de histórias, contadas na primeira pessoa, de mulheres das mais diversas origens, profissões e faixas etárias, que, levadas por escolhas alheias (salvo raras exceções), passaram por processos migratórios em diferentes contextos geográficos, a obra Menina e Moça me Levaram, com chancela da Editora Alma Letra, conta ainda com prefácio de Manuela Aguiar, antiga secretária de Estado da Emigração. O lançamento da coletânea, que nas palavras da prefaciadora encontra-se “cheia de ensinamentos, e experiências, comovente, intimista poética, pitoresca, factual, escrita a muitas mãos, muitos destinos. Com elas viajamos pelas memórias, por paisagens de alma e sentimentos, por roteiros que cruzaram todos os continentes e mares”, integra-se nas comemorações dos 25 anos de vida ativa da Associação Mulher Migrante (AMM). Uma associação de estudo, cooperação e solidariedade cuja principal missão passa pela análise da problemática das migrações femininas; pela cooperação com as mulheres profissionais e dirigentes de associações das comunidades portugueses no mundo e com imigrantes que vivem em território nacional; pelo combate ativo contra ideias e movimentos xenófobos; e pelo apoio à integração das mulheres na sociedade de acolhimento e defesa dos seus direitos de participação social, económica e política. Nesse sentido, a coletânea Menina e Moça me Levaram, enquanto repositório de um conjunto diverso de experiências e narrativas vivenciadas por mulheres assume-se como um relevante contributo no alumiamento da componente feminina no fenómeno migratório, que vai ao encontro do anelo da “dama da literatura brasileira” Lygia Fagundes Telles: “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos”.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

DE VEZ EM QUANDO - A 1ª Town Hall de BIDEN in Jornal ETC e TAL

A PRIMEIRA "TOWN HALL" DE BIDEN 1- O Presidente Joe Biden, que, aos 78 anos, foi, nos EUA, o mais velho a tomar posse nesse cargo e se revelou, em pouco mais de um mês, o mais rápido a tomar medidas governativas, participou, há dias, na sua primeira "Town Hall", transmitida pela CNN para o mundo. Para quem não sabe exatamente o que isto é - como eu não sabia, antes de me converter em telespetadora constante da CNN - começo por dizer que não é o que parece. Também se pode designar, mais explicitamente, por "town hall meeting", mas o sentido americano dessa realidade continuará a escapar-nos se traduzirmos por "reunião de Câmara". Não é isso... Por curiosidade, pesquisei no "google" a pluralidade de sentidos de "Town Hall". Os mais comuns são Câmara Municipal - ou Prefeitura, no Brasil - salão da Câmara, Assembleia, serviços camarários. Mas logo outros significados nos levam para longe da sede do Município, ao englobar qualquer reunião para discutir assuntos importantes, que pode ter um determinado círculo de participação, por exemplo, o interior de uma empresa, de uma instituição, ou constituir um conselho, um meio de comunicação e formação interna, ou alargar-se ao exterior, a públicos, que se quer sondar, atrair, convencer, informar. Nos EUA, tem um significado mais preciso e inequívoco: é uma reunião interna ou pública, em que um dirigente, um responsável político responde a questões, que livremente lhe são postas. É sinónimo de diálogo democrático, lembra, porventura, a sua origem na "civitas", porém, o lugar concreto da "Town Hall /reunião", há muito, perdeu a sua ligação umbilical com a cidade. Tanto pode realizar-se num salão municipal, como num auditório universitário, no ginásio de um liceu, num teatro, num hotel. Aquelas a que tenho assistido, na CNN, são, naturalmente, vistas não só nesse auditório, ao vivo, mas por milhões no ecrã da televisão, em muitas partes do planeta. As personalidades mais poderosas e influentes são ali interrogadas pelo cidadão comum, em perguntas quase sempre oportunas, que nós próprios gostaríamos de colocar em agenda. Um exercício democrático que se converteu num dos meus programas televisivos preferidos, talvez porque não seja um modelo familiar na nossa cultura. 2 - Em Portugal, há, claro, aproximações a este "happening", as mais interessantes das quais se terão conseguido com as "presidências abertas" do Doutor Mário Soares. Também se poderão considerar, nesta categoria de "sucedâneos", as "sessões de esclarecimento", que estiveram em voga no período pós revolução, mas que, com o decurso do tempo, se foram rarefazendo, como se o diálogo sobre políticas ou medidas concretas, (apenas pensadas, já em execução ou executadas), à medida que avançava a democracia, se tornasse mais e mais supérfluo. Em sua substituição, aumentaram conferências de imprensa, por vezes, sem período de perguntas e respostas, entrevistas de jornalistas, mais ou menos independentes, debates entre políticos (que sobem em flecha quando se aproximam eleições), mesas redondas de comentadores, muitas e semanais, ou uma mistura destas modalidades, em fórmula original de um programa de rádio ou televisão. Os governantes preferem responder, não diretamente ao povo, mas aos seus representantes eleitos, os deputados. E respondem o menos possível. Dá bem a noção do estado da nossa democracia, e do nosso parlamento, a decisão conjunta do partido no poder e do maior partido da oposição, de diminuir enormemente, a periodicidade desse tipo de sessão parlamentar (decisão que só tem paralelo noutra bizarra aliança dos mesmos dois partidos para limitar, abusivamente, a concorrência de listas de independentes a Câmaras e Juntas de Freguesia). A nível autárquico, a situação não é muito diferente - os executivos são, periodicamente, questionados pelos eleitos nas assembleias municipais, mas os cidadãos dispõem de limitadas oportunidades de lhes fazer perguntas. Em Espinho, isso acontece num período antes da ordem do dia, com exigência de inscrição prévia, e, nos anos em que assisti, por dever de ofício, a assembleias, posso asseverar que não aconteceu muito, e o impacto foi assaz diminuto. Sessões públicas com membros do Executivo, como oradores? Só em comícios de campanha, para propaganda. É para o que servem, de igual modo, quase invariavelmente, as entrevistas de jornais, rádios ou televisões, (se no concelho as houver). Contraditório? É na Assembleia, e por obrigatoriedade. Referendos? Nem pensar... O único de que, de momento, me recordo foi uma corajosa iniciativa de João Soares, em Lisboa (a família Soares, talvez não por acaso, aparece nas exceções à regra, que, neste domínio me ocorrem...). O referendo era sobre a construção de uma espécie de funicular para acesso ao castelo de São Jorge. Foi derrotada, naturalmente, pelo sufrágio popular. Eu, se, naquele tempo, fosse munícipe em Lisboa, também teria votado contra, mas com todo o apreço pelo gesto do Presidente de Câmara. Com outro qualquer, lá estava, hoje, o funicular... 3 - O espírito de "town hall" - de diálogo aberto e basista, com tempos precisos de pergunta e resposta, impostos por um moderador - nada tem a ver, também, com populares convívios em festivos ajuntamentos, "selfies", conversas de rua, sorrisos e abraços (pré pandemia), que mais parecem rituais de campanha eleitoral, fora de época. Nada contra - acho até estimável e divertido, mas não é a mesma coisa que um debate sério e direto. Foi este tipo de debate que Joe Biden e a CNN nos ofereceram, na semana passada, a partir de Milwaukee. Ao satisfazer indagações dos presentes no auditório - todos a distância recomendável, uns dos outros, e de máscara - ele respondia às perguntas de um mundo, onde as preocupações andam globalizadas. Para quando a normalização da vida? Talvez no Natal, talvez para o ano, por esta altura... mas os especialistas não têm certezas. E as vacinas? Triplicaram as aplicações, na América pós Trump (nome que evitou mencionar). E é no ato de vacinação, mais do que na quantidade de vacinas, que reside o obstáculo maior. Estão a recorrer a médicos e enfermeiros reformados, à Guarda Nacional, ao Exército e, sobretudo, às farmácias, como postos de vacinação de proximidade. Reabertura das escolas? Sim, começando pelos primeiros anos (que socializam menos fora das aulas), e só depois de planificar a divisão de turmas, em grupos mais pequenos, e de assegurar o transporte em perfeitas condições sanitárias. A vacinação dos professores de classes em funcionamento efetivo, como grupo de risco? Está em estudo (se fosse em Portugal, alta era a probabilidade que toda a corporação fosse vacinada "à boleia" dos que efetivamente trabalham - é o que se tem visto em serviços e instituições várias, em detrimento dos velhos, que são, de facto, os mais ameaçados pelo vírus). Apoios à economia? Sim, e em força. "Now is the time to be spending", segundo Biden - na Europa da Senhora von der Leyen, tarda a "bazuca", e tardam as vacinas. Este novo (ainda que velho na idade) Presidente revela-se um comunicador nato e uma simpatia! Momento alto da reunião foi a conversa com uma menina de oito anos. A mãe, explicando que a filha andava assustada com a pandemia, quis saber: "Para quando a vacinação das crianças?". Biden respondeu diretamente à criança, como um avô fala à neta, tranquilizando-a com informação científica, em linguagem acessível.("não precisas de vacina, pertences ao grupo de menor risco, estás segura"). Não disse coisas extraordinárias, mostrou-se, sim, um ser humano extraordinário. Conseguiu, a meu ver, o que queria: falar claramente, partilhar, sem euforia nem temores, o estado atual do seu conhecimento sobre assuntos do maior relevo. Com ele, tudo pareceu simples, mas talvez não seja, a avaliar pelo discurso de tantos outros políticos. A esmagadora maioria.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A LIBERDADE DE SER AMÁLIA in "Defesa de Espinho"

A LIBERDADE DE SER AMÁLIA 1 - Amália, no ano do seu centenário, esteve presente em inúmeros programas de rádio e de televisão, na imprensa, na literatura, (através de alguns livros interessantes, de pendor biográfico, que procuram desvendar os seus "mistérios", fazer ou refazer a sua história), e, ainda, pelo enriquecimento da sua discografia, com edição de inéditos, incluindo alguns ensaios com Alain Oulman. Amália é e será, para sempre, fonte inesgotável de inspiração! Sobre ela nunca será escrito o livro definitivo, nem dita a última palavra, mesmo que essa palavra seja a sua. Os melhores programas de televisão, que vimos (ou melhor, revimos), foram espetáculos ao vivo, pequenos depoimentos pessoais. e o melhor livro é. aquele em é convidada a traçar um retrato intimista do seu trajeto. A transcrição integral da longuíssima entrevista concedida a Manuel da Fonseca, em 1973. é um documento espantoso, lançado 47 anos depois de decorridas as sessões de conversa entre o escritor e a Diva. Ela  recusara escrever uma autobiografia, em troca relutantemente aceitando falar de si para uma narrativa biográfica que teria a assinatura de Manuel da Fonseca, escritor de renome, militante (na altura forçadamente clandestino) do Partido Comunista. Amália está inteira nas respostas que dá ou, com mais frequência, não dá... Percorri as cerca de trezentas páginas de transcrições  -  fascinante leitura! -  sem vislumbrar que tipo de biografia poderia Manuel da Fonseca extrair do um diálogo que, tantas vezes, se espraia em divagações, se ramifica em novos encadeamentos, e em que ele, não raro, é levado a alongar-se sobre um e outro tema...Quase se poderia dizer que os dois ocupam, em rotação, os papéis de entrevistador e entrevistado, à medida em que, entre ambos, a cordialidade e genuína empatia se acentuam. Tudo isso, sendo esplêndido, explica que as cassetes tenham ficado, por quase meio século, arrumadas num canto... Resgatá-las do esquecimento assim, como "happening", é um fantástico achado, que carreia, porventura, mais do que a projetada biografia, pois nos abre portas a um encontro com Amália, tal qual era em convívio de amigos, informal, espontânea nas certezas, hesitações, estados de alma, dos quais emanava, quer quisesse, ou não (e não quereria...), a aura luminosa e enigmática da sua genialidade... "Amália nas suas próprias palavras" é um título perfeito para essa edição, que por si só teria bastado para assinalar, com brilho, a grande efeméride. .2 - Tive a sorte de estar com ela em ambientes semelhantes. Foi nos caminhos da emigração que a conheci. Se bem se lembram, Amália fora emigrante, depois que, para surpresa geral, casou com um Engº Seabra, português do Brasil, e anunciou que deixaria os palcos.  Custava a acreditar que trocasse pela felicidade dos seres comuns o dom divino de cantar. Felizmente aos palcos e à Pátria voltou, trazendo consigo o marido de quem só a morte a separou..Em 1980, quando iniciei um trabalho, ainda inacabado, com as comunidades do estrangeiro, conheci o Dr Adriano Seabra da Veiga, nosso Cônsul Honorário em Connecticut, prestigiado cirurgião e personalidade influente. Na sua magnífica mansão em Waterbury acolheu muitos compatriotas, como Zeca Afonso (em busca de tratamento), Spínola, Veiga Simão e Victor Crespo (exilados), Sá Carneiro (de passagem), e Amália, de quem havia fotos, na biblioteca da casa e no gabinete do Consulado, onde o seu retrato era maior do que o do Presidente da República. A dimensão simbólica de Amália, na Diáspora, justificava isso e muito mais e eu não imaginava que este Seabra, médico e filantropo, era primo direito e amicíssimo de Seabra, o engenheiro, consorte de Amália, ambos sobrinhos do falecido Comendador Seabra, que fora o português mais rico do Brasil. Tomei conhecimento do parentesco, por acaso, uma vez em mencionei Amália, a artista, com imensa admiração. Depois disso, quando visitava Lisboa, com a mulher, Rita, convidava-me sempre para os jantares de família com os primos, em que os mais extrovertidos, Amália, Adriano e eu tomávamos conta da conversa, e Rita e César Seabra ouviam e sorriam, divertidos. No primeiro encontro, Amália teria 65 anos, estava vestida de preto, discretamente chique, bem disposta, com uma grande vivacidade e um invariável toque de humor, qualquer que fosse o assunto em questão - a sua conhecida paixão pelos filmes de Fred Astaire, o Brasil polifacetado nas nossas tão diferentes vivências, uma certa América, sobretudo a de Adriano, cheia de peripécias extraordinárias... Encantada, com a sua versatilidade e simpatia, custava-me, a acreditar que aquela senhora, com uma postura tão simples e "familiar", fosse Amália Rodrigues... Parecia-me, sim, uma das minhas próprias tias, da mesma idade e quase tão bonitas e engraçadas como ela. Só estranhei que, antes de um qualquer comentário, repetisse "eu tenho pouca cultura", ou "eu sou muito ignorante", após o que se lançava em acutilantes observações, que revelavam ser precisamente o oposto. Porquê? Talvez porque conotasse classe política a snobismo... Como depois, não mais voltou a reivindicar a pretensa "incultura", concluí que tinha passado no teste... E continuei a conviver, ano após ano, com a Amália, não a Rodrigues, mas a do círculo Seabra.   Muitas faces ela tinha, mas, na sua tão original heteronímia, eram todas genuínas, todas refletindo a sua verdade. não mais do que expressões diversas, condizentes com cada mundo que atravessava e em que sabia estar perfeitamente, com intuitiva compreensão dos outros, usando a sua linguagem... O ambiente que partilhamos foi de risos e alegrias, não o das suas mágoas e melancolia - digamos que foi o das canções ligeiras de Alberto Janes, não o dos fados de Alain Oulman, com que alcançou a eternidade. Convivemos mais no país do que nas rotas da emigração, onde só recordo duas ocasiões em que estivemos juntas em Connecticut, na casa de Adriano, os festejos do Dia 10 de junho, em Newark, no ano em que, com a faixa de "Grand Marshal" encabeçou a parada, aplaudida por cerca de 100.000 pessoas na "Ferry Street"/Avenida de Portugal, e uma viagem transoceânica para o Brasil em que coincidimos numa executiva da TAP sem muitos passageiros, quase só para nós. Fomos conversando na longa travessia para que esquecesse estar longe de terra firme - detestava andar de avião, e de avião andou, constantemente, uma vida inteira. Ia atuar ao Canecão e convidou-me para assitir. Eu, que tantas vezes a ouvia, no gira-discos, desde que a conhecera, há uma década, ainda não a tinha visto em espetáculo público. Foi impressionante!. No palco do Canecão, entrou, mais alta do que na vida, num deslumbrante vestido negro. Aos 74 anos, cantava, transfigurada, para uma audiência em delírio. Era a outra, a Amália Rodrigues! Depois, no camarim, entre muitas flores, que adorava, e champanhe, que nos oferecia, reencontrei a Amália tangível, radiante, descontraída, à vontade no meio de amigos, de gente comum.   3 -Entre uma e outra Amália, está a que conversou com Manuel da Fonseca, retraída perante um gravador a girar, indiscreto, escolhendo o fugidio caminho de questionar mais do que assumir a singularidade e a grandeza do seu destino. Quando o escritor lhe  pede por fim, (na página 292) , "Diga lá agora coisas que queira dizer".ela afirma, com amaliana franqueza:: "Eu não quero dizer nada". Ao argumento de que não pode menorizar uma vida tão extraordinária, contra.argumenta: "Há trinta e tal anos que estou tão habituada a tanta coisa que me acontece, tanta, tanta, tanta, que deixei de marcar as coisas, Talvez seja por isso. No fundo é porque não me marcaram": Amália e a sua liberdade de se sentir mais pessoa do que mito.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020