Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
A TRÊS DIAS DAS ELEIÇÕES
1 - Estamos a três dias da primeira volta das eleições, com a certeza de que haverá uma segunda volta, tal como em 1986. Para alguns é o momento de escolher, sem hesitação, convictamente, o seu favorito, para outros a preocupação será a de eliminar candidatos indesejáveis ou a de deixar em campo, como finalista, um nome da sua área política pela força do voto - o chamado voto útil.A atual situação assume contornos singulares, por ser, praticamente, impossível avaliar a posição relativa dos muitos protagonistas com expetativas de sucesso. As sondagens ganham, por isso, uma importância desmesurada. E o mesmo se pode afirmar dos comentadores (melhores, piores, mais pragmáticos, mais levianos) que intervêm, num turbilhão incessante, em canais de televisão, na rádio, na imprensa, nas redes sociais. Ai dos que não tenham crenças firmes! Ficam à mercê da dificuldade de cálculo que é enorme, e daí o risco de votar errado, querendo votar útil.É risco que não corro, tendo há muito tomado uma decisão firme e não me deixando impressionar pelas oscilações das “tracking polls”, nem pelo receio de não apostar no vencedor. Ao longo deste meio século de democracia foi sempre assim que alinhei com os meus candidatos, na vitória como na derrota. Em alguns casos, sabendo que era incerto o resultado (por exemplo, o do General Soares Carneiro, em 80, de Freitas do Amaral, em 86, de Cavaco Silva, em 96) ou extremamente remotas as hipóteses de alcançar a meta, caso de Mário Soares, em 2006.Num dos países mais idadista do mundo, previ que o regresso do Dr. Soares ao Palácio de Belém, aos oitenta e dois anos, (e, ainda por cima, sem o suporte oficial do partido que fundou) não aconteceria, mas considerei que tinha todas as condições para prestigiar o cargo e a República no presente e que merecia o nosso reconhecimento pelo seu passado. Foi uma opção ética e afetiva. Aceitei, com alegria, o convite para pertencer à sua “Comissão de honra” e participar, com ele, em comícios a arruadas. Momentos inesquecíveis!Nunca tinha sufragado o seu nome num boletim de voto, era a minha última oportunidade. Em 1986, aquando da sua primeira vitória, estava eu, de alma em coração, com o seu opositor, por quem tinha muita admiração e amizade. Na verdade, 1980 foi o ano mais feliz da minha vida, no Governo de Sá Carneiro e a trabalhar, diretamente, com o Vice-Primeiro Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros Freitas do Amaral, (como Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas). Antes mesmo do PSD o adotar como candidato, (por iniciativa de Cavaco Silva, que encontrou não poucas resistências internas), já o fizera eu. Sempre achei que a presidência da República é cargo suprapartidário, para o qual devemos eleger em consciência, em liberdade, sem obediência a agremiações. 2 – A eleição da meia década de oitenta vem sendo muito lembrada, porque constituiu a única experiência portuguesa de presidenciais a duas voltas. Certamente por isso, nos primeiros dias de janeiro, a RTP presenteou-nos com uma esplêndida série de reportagens sobre essa mítica eleição com as imagens de multidões radiosas, enchendo comícios e arruadas, num ambiente de confraternização, com muita juventude, muita música, muito júbilo, seguindo os líderes, que as arrebatavam pela palavra. Líderes que, diga-se, ombreavam, em qualidade, com os melhores do mundo. Quezílias, contundência, afrontamentos também os houve, como é inevitável, sendo o objetivo nada menos do que a chefia de Estado, mas nunca contaminaram o todo, não invadiam, como hoje invadem, o centro de debates, em substituição de argumentos sérios e politicamente válidos. Tenho saudades desse tempo áureo da democracia, em que as bandeiras da esperança davam cor e vida aos palcos e às ruas, ao ritmo de cânticos e s slogans que ficaram para a história como o “P´ra frente Portugal” de Freitas do Amaral e o “Soares é fixe”!Que lições podemos tirar, dessa experiência pioneira das duas voltas, que agora se repete? Diferenças e semelhantes não faltam.. Antes de mais, avulta a diferença da classe dos principais protagonistas todos notáveis, sem exceção: Soares, Freitas do Amaral, Maria de Lourdes Pintasilgo e Salgado Zenha. O que se refletiu no nível dos debates e na capacidade mobilizadora dos discursos. Outra diferença de peso: havia a possibilidade realista de uma decisão à primeira volta, na metade direita do espetro poitico. Um jovem e fantástico Freitas do Amaral fez o pleno nos simpatizantes da AD, ultrapassou a votação dos três partidos que a formavam e esteve pertíssimo da presidência. A proliferação de candidaturas dividia, então, a esquerda como agora afeta, essencialmente, a direita. Mário Soares era, dos quatro grandes, o último nas sondagens iniciais, muito atrás de Pintasilgo e de Zenha, mas, pouco a pouco, com o seu carisma, recuperou terreno, palmo a palmo, passou à segunda volta com Freitas do Amaral e ganhou na 25ª hora, por uma margem mínima, unindo toda a esquerda em seu redor, num país que era maioritariamente de esquerda.,De facto, triunfou pela via de dois movimentos opostos: - O primeiro de dispersão em três correntes, encabeçadas por ele, Pintasilgo e Zenha. Se tivesse concorrido nesse espaço só com Pintasilgo ou apenas com Zenha (contando ela ou ele com parte do PS, Eanistas e comunistas) seria afastado da final, sem sombra de dúvida - O segundo de convergência, uma convergência que reunificou o PS e positivamente” obrigou” os deserdados de Zenha e os fiéis de Pintasilgo a pôr a cruz à frente do seu retrato no boletim de voto. Quarenta anos depois, regressamos à excessiva fartura de nomes em competição. Onze precisamente – creio que nunca se viu tantos, embora nem todos contem, por igual. Há os que nem aparecem nas sondagens, há as esquerdas bloquista, comunista e "livre" que, todas somados, ficam muito longe dos dois dígitos. (levantando, em todo o caso, a dúvida sobre se os seus parcos votos farão falta a Seguro, nesta fase)Restam os presidenciáveis, cinco homens, nenhuma mulher: Seguro, sozinho na casa do socialismo reformista, Gouveia e Melo, no centro ligeiramente inclinado à esquerda, Cotrim e Marques Mendes, à direita, e, na extrema direita, Ventura, o “Trumpezinho” à portuguesa, o arauto de uma IV República, que sonha com três Salazares (não lhe bastando um ditador, quer uma "troika de malfeitores!). Numa conjuntura favorável às diversas direitas, cujo eleitorado ultrapassa 50 %, é de estranhar que não tenham apostado num candidato comum, depois de se entenderem tão bem no Parlamento para aprovar as políticas e as leis mais emblemáticas e mais nefastas do Chega – como as Lei da Nacionalidade e da Imigração e as medidas anti-imigração.. E até se juntaram para fabricarem percepções sobre a perigosidade dos trabalhadores estrangeiros e sobre a sua culpa em tudo quanto corre mal.Note-se que eu não confundo teoricamente as direitas. Elas é que se confundem, na sua “praxis”, quando os alegadamente moderados subscrevem as piores propostas e falácias da direita antidemocrática, neo salazarista e aldrabona. (basta pensar na arrepiante tirada do Ministro Leitão Amaro “Portugal é mais Portugal com a nova Lei da Nacionalidade”, que aqui cito de memória e que poderia ter sido proferida por Ventura. 3 – Como disse, seleciono o meu candidato pelo seu perfil humano e ideológico. Se me focasse apenas nas qualidades pessoais na simpatia com que os olho, (em especial Marques Mendes, que é um amigo de longa data), só excluiria um: Ventura, (evidentemente). Porém, não posso associar-me a Marques Mende, que está associado a um Executivo, que está, por sua vez, associado a Ventura na governação e no parlamento (por mais que goste do Primeiro Ministro, como pessoa, não posso esquecer este facto).Quanto a Cotrim de Figueiredo, direi que tem feito uma campanha esplêndida, é um líder cosmopolita, moderno, com mundo, com à vontade, está bem em todos os ambientes, com jovens e com seniores de todos os escalões sociais. É um comunicador nato. Todavia, não é da minha área política. Não me escandalizei sequer por ter admitido que poderia apoiar qualquer um, sem excluir Ventura numa 2ª volta – foi uma pequena “gaffe” da qual, depois, se retratou. Mais me escandalizaram os dirigentes do PSD que foram os primeiros a “normalizar” Ventura, que o escolheram como parceiro preferencial para governar e agora, por muito menos, criticam Cotrim. Restam-me, assim, dois candidatos para uma escolha: Gouveia e Melo e António José Seguro. Escolhi, sem hesitação, Gouveia e Melo, porque é grande a minha consonância com as suas posições, sobretudo, em política internacional e em matéria de defesa. Nos próximos cinco anos, a sua experiência nestes domínios será preciosa na obtenção de consensos internos e na representação externa do país.O mundo mudou. É preciso saber lidar hábil, e inteligentemente com uma nova e assustadora realidade, que, de fora, nos ameaça. A minha escolha é não só, mas também, um gesto anti-Trump.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário