quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

MARIA BARROSO in Luso Presse Montreal

MARIA BARROSO - os Legados Foi lançado, há dias, um livro sobre "Maria Barroso - Os legados", em que são analisados o seu percurso, o seu pensamento, as suas causas, no ano em que se comemora o seu centenário. A iniciativa partiu de um grupo de cinco mulheres, na sua maioria académicas, e contou com o apoio da Fundação Mário Soares Maria Barroso (FMSMB) e com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Universidade Nova. O prefácio é do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e um dos testemunhos do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres. A primeira apresentação, em Lisboa, na FMSMB, foi antecedida por um colóquio sobre a mesma temática, que teve momentos altos na abertura por Isabel Soares e no encerramento pelo irmão João. Um dia inesquecível!. Um dia de saudade e reflexão que, na realidade, não terminou ali, pois, ao longo deste ano comemorativo, (que se completa em maio de 2026), a publicação vai ser divulgada em diversas regiões e cidades do país, em moldes semelhantes de debate centrado na extraordinária personalidade da homenageada. O primeiro dos colóquios terá lugar a 3 de dezembro, em Loulé, com intervenções da escritora Lìdia Jorge e de alguns dos co-autores do livro. Na minha contribuição para esta iniciativa abordei um dos legados de Maria Barroso, que, a meu ver, não tem sido suficientemente destacado: o seu feminismo. Um feminismo vivido! A vida de Maria Barroso foi uma admirável aventura cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e às injustiças moldaram a humanista, e a inteligência, a determinação e o espírito prático fizeram a excecional mulher de ação em muitos e variados domínios. Recordamos a atriz,a pedagoga, a diretora de um grande colégio, a mulher apaixonada e mãe de família, a corajosa oposicionista política, e, depois, a ativa construtora da nossa democracia, como Deputada, “primeira dama” da República, primeira mulher presidente da Cruz Vermelha, líder de movimentos e organizações para o defesa dos Direitos Humanos, da paz, do aprofundamento dos laços no mundo lusófono. E, também, como feminista, que soube continuar, em novos tempos, a antiga tradição de luta pela liberdade e emancipação da mulher, recusando a guerra de sexos, toda e qualquer forma de supremacismo. A ausência de radicalismo constituiu, como é sabido, uma singularidade da primeira vaga do feminismo português, muito influenciada pelo contexto revolucionário em que emergiu, com homens e mulheres (famílias inteiras!) irmanados nos ideais republicanos. Na geração seguinte, Maria Barroso formou-se num meio não muito diverso, conviveu desde a infância com a resistência dos seus pais à opressão do salazarismo, numa família solidária e tolerante, e começou o seu percurso político, a sonhar com uma nova revolução, tal como a de 1910, portadora da esperança numa democracia capaz de erradicar todas os desequilíbrios e desigualdades económicas e sociais, incluindo as de género. Em tempo de ditadura, tornava-se praticamente inevitável a diluição do feminismo na resistência antifascista. Nesse combate, Maria Barroso usou as armas ao seu alcance: as da cultura! Do palco do teatro fez palco de cidadania, pondo o talento e a fama ao serviço das suas ideais, na forma como representava personagens e como declamava a palavra revolucionária dos poetas… O regime perseguiu-a implacavelmente, cortou cerce a sua fulgurante carreira de atriz no Teatro Nacional, interditou-lhe o exercício da profissão no ensino, vigiou os seus passos, mas nunca calou a sua voz. Sem transigência nem vacilação, a jovem Maria de Jesus enfrentou os interrogatórios da polícia política, a prisão do marido, como, antes, sofrera a de seu pai. Após a Revolução de 1974 vimo-la envolvida em comícios, sessões de esclarecimento, debates, no parlamento, como Deputada, no ensino, como pedagoga... Uma notável participante na vida cultural e política do país, uma figura pública de referência, que não perderia nunca a sua individualidade, ao lado de Mário Soares, investido nas mais altas funções do Estado, de Primeiro-Ministro e Presidente da República. Em Belém, na missão onde mais arriscava a subalternização política, face ao estatuto do marido, revelou-se uma mais valia, a perfeita diplomata, um ícone de elegância e distinção. Sobre esse novo recomeço de vida, disse, simplesmente: "Ganhei um novo espaço para me reinventar". E ganhou, sem dúvida, mais mundo, mais experiências, mais contactos de proximidade com tanta gente, dos poderosos, que governam Estados, aos marginalizados, que estão no centro de tantas das suas inúmeras declarações públicas - as crianças, as vítimas de guerras e violência, os timorenses, os refugiados, os imigrantes, as mulheres… Sim, ainda e sempre, as mulheres, porque a igualdade jurídica fora rapidamente consagrada na Constituição e nas leis da República, mas, duas décadas depois da Revolução, as mudanças tardavam no mundo político e social. E o impasse acordou o feminismo intrínseco de Maria Barroso. Ela própria o revelou numa entrevista dada por essa altura, afirmando: "Não sou feminista "à outrance", sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre homens e mulheres”. Na sua visão das coisas, a igualdade é inerente à condição humana, já que "a humanidade está dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina, com dons e virtualidades semelhantes". A “humanidade é uma família” proclamava, inspirada, certamente, no paradigma da sua própria família. Porém, a resistência das estruturas (sobretudo das máquinas partidárias, das corporações económicas), assim como das mentalidades, à consecução da “paridade natural”, levou- a a denunciar a imperfeição da nossa democracia, por manter, no século XXI, “o modelo masculino do poder”. E, consequentemente, acabou por reconhecer a importância do sistema de quotas como via necessária para acelerar o processo de “empoderamento” das mulheres e empenhou-se, pela palavra e pelo ação, incessantemente, na causa da igualdade de género.. Ao "verdadeiro feminismo" de Ana de Castro Osório, (um “humanismo integral”, que deve ser partilhado por ambos os sexos), ao “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, ao “feminismo tácito” de Maria Lamas considero de toda a justiça equiparar o "feminismo natural" de Maria Barroso. Foi, por sinal, nos caminhos do feminismo que nos encontramos, há quase meio século, numa sintonia espontânea, apesar de virmos de direções opostas, eu do feminismo “à outrance”, Maria Barroso da constatação de fortes e perniciosas resistências à plena intervenção das mulheres na esfera pública, assim como no mundo do trabalho. O seu envolvimento neste domínio foi convicto, profundo e crescente. Entre 2005 e 2009, com mais de oitenta anos, aceitou “correr mundo”, presidir a múltiplos “Encontros para a cidadania”, ser o rosto de uma grande e eficaz campanha de chamamento das mulheres à participação no quotidiano das nossas comunidades da Diáspora. Ao comemorar o seu centenário, é assim que prefiro lembrá-la, com uma mensagem fraterna, solidária, humanista e com o seu incomparável exemplo de vida. Na verdade, nenhuma figura pública do nosso país e do nosso tempo foi tão consensual, tão agregadora e tão amada pelo povo português.

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