Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR
2025 BRASIL/ PORTUGAL - À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR
1 – A descoberta do Brasil pela expedição de Pedro Álvares Cabral ocorreu há exatamente 525 anos, em tempo pascal. No dia 22 de abril de 1500 alguns dos homens pisaram terra, para um primeiro encontro amigável dos povos de dois continentes separados por um oceano. Ao lugar deram o nome de Porto Seguro, hoje cidade turística do Estado da Bahia, especialmente vocacionada a receber os festejos da celebração dessa data matricial. Data que se tornou, oficialmente, o dia da Comunidade Luso-brasileira por força da Lei nº 5270 de 22 de abril de 1967, (a chamada “Lei da Amizade” da iniciativa do Senador Vasconcelos Tavares), a que Portugal deu pronta reciprocidade.
Porém, como sabemos o Direito só tem a força que lhe dão os seus destinatários e, neste caso, o Dia da Comunidade Luso-brasileira foi sendo esquecido pelos dois Estados e tornou-se uma festa da sociedade civil, dos imigrantes de origem lusa no Brasil, com significativo apoio em alguns municípios e Assembleias Estaduais. Entre nós, a data tem sido, regra geral, pura e simplesmente ignorada. Enquanto Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, na meia década de oitenta, tentei remar contra a maré, organizei comemorações oficiais em cidades como Guimarães, Ponte do Lima, Belmonte, mas, que depois que deixei o Governo, há quase quatro décadas, não mais houve interesse governamental em continuar esse legado. E, por isso, deste lado do Atlântico, o 22 de abril, vem sendo, quando muito, festejado num pequeno círculo associativo…
2 – Em 2025, a Associação Mulher Migrante (AMM) promoveu a comemoração do dia desta comunidade no auditório do FACE, com o patrocínio da Câmara Municipal e a ativa participação da Presidente Maria Manuel Cruz. A iniciativa tornou Espinho um caso singular, um exemplo a ser seguido, nomeadamente, nos Concelhos onde já existe grande número de imigrantes brasileiros – trabalhadores, empresários, estudantes - quase todos aparentemente bem integrados. Este é, também, o dia deles, o dia de publicamente lhes darmos voz e visibilidade, de manifestarmos a alegria de os vermos felizes na nossa sociedade.
A AMM vem celebrando a efeméride transnacional há vários anos, em Espinho e em outras cidades, sob o título “Brasil- Portugal, a descoberta continua”. Ou seja, pondo o foco na necessidade de combater a enormidade do desconhecimento mútuo do património material e imaterial comum. Com tal propósito, perante uma audiência de dezenas de estudantes, decidi falar sobre uma mulher portuguesa, Ruth Escobar, completamente ignorada na sua e nossa terra, muito embora tenha feito história no Brasil. Antes do início da sessão, em conversa com muitos dos jovens fiquei com duas certezas: o nome Ruth Escobar, às 15.00, não lhes dizia nada; às 16.00 sairiam todos daquele auditório a saber mais sobre ela do que o resto dos jovens deste país…
3 – Foi um verdadeiro prazer “pôr em palco”, (uma vez mais!), a grande atriz e produtora teatral, pioneira política, feminista e revolucionária, a emigrante portuense imortalizada com o nome artístico Ruth Escobar.
Maria Ruth dos Santos nasceu no Porto, em Campanhã, viveu na rua do Bonjardim, e foi aluna do Liceu Carolina Michaelis, onde se distinguiu a representar todos os diabos de Gil Vicente. Tinha 16 anos quando a mãe a levou, a bordo do Serpa Pinto, numa viagem sem retorno para o Brasil. Lá, no Colégio Roosevelt, como antes no liceu português, o seu talento em palco deu-lhe prestígio e popularidade, a ponto de conquistar o título de "rainha" do colégio. Mas, como vivia pobremente com a mãe, trocou os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias", com o que ganhava mais do que a progenitora. E, ainda antes de fazer 18 anos, deu um passo em frente e angariou apoios da comunidade portuguesa para lançar a sua própria revista, "Ala Arriba". Na veste de jornalista e diretora de jornal, apercebeu-se das ameaças à presença portuguesa na Índia e propôs-se defende-la, a nível planetário. Tinha 19 anos quando, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, partiu numa volta ao mundo, com essa missão – Nova Yorque, Los Angeles (entrevista o ator Jack Lemon), Hawai, Tóquio, Manilha (entrevista o Presidente) Hong Kong, Macau, Karachi, (onde, a cobrir a Conferência Internacional sobre o Sudeste Asiático, a sua lista de entrevistados célebres cresce enormemente, com Foster Dulles, Christian Pinaud, Bulganin, Kruschev e outros,) Camboja, onde dialoga com o Principe Norodan Sihanouk (e dele recebe uma mensagem e uma fotografia para Salazar), Tailândia e da Turquia (entrevista com os primeiros –ministros), e, por fim, o mítico Nasser, durante a crise do canal de Suez - no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo, foi a única a quem ele acetou responder! No mundo português foi recebida pelos governadores de Macau e da Índia e, em Lisboa, pelo ditador Salazar.
Durante o longo périplo, os seus “exclusivos” eram disputados por jornais de referência no Brasil, em Portugal e, no caso de Nasser, até nos EUA. Vaticinava-se futuro à jovem jornalista, mas a sua união com o dramaturgo, filósofo e poeta Carlos Escobar leva-a a Paris, onde estuda arte dramática. Aos 20 vinte anos, de volta a São Paulo, estreou-se como empresária, produtora teatral e atriz. Poucos anos depois, construiu na cidade, no bairro residencial da Bela Vista, um teatro com o seu nome, onde os autos vicentinos se cruzavam com as peças mais vanguardistas. Na década de sessenta fundou o Teatro Nacional Popular para levar ao interior da Estado espetáculos de qualidade, montados num autocarro aberto (Martins Pera, Suassuna, montados num autocarro aberto …
Não era menos exuberante a sua vida fora de cena, (somaria cinco casamentos, cinco filhos) O terceiro marido, arquiteto Wladimir Cardoso, viria a ser o cenógrafo das suas peças de maior sucesso, com o " O cemitério de automóveis" de Arrabal ou "O balcão" de Jean Genet, que, em fins de sessenta, venceu os maiores prémios do teatro brasileiro.
A partir de 1964, Ruth, com trinta, trinta e tal anos) afrontou a ditadura em que o Brasil se afundava, convertendo o seu teatro em arena de luta pela liberdade, resistindo a ameaças, ataques de comandos paramilitares, violência sobre os atores, interrogatórios e prisões. De uma das vezes, foi Cacilda Becker, sua mentora e amiga, que interveio junto do Prefeito de São Paulo: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou...
No começo da década de setenta, a emigrante sem medo trouxe a Portugal "Missa leiga", "Cemitério de automóveis”, que a Censura proibiu em Lisboa, mas autorizou na elitista Cascais, longe das massas populares... Aí Ruth conheceu as três Marias, leu "As novas cartas portuguesas", Simone de Beauvoir, e converteu-se ao feminismo. A nova causa abriu-lhe outros palcos, os da política. Ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros (nunca se naturalizou brasileira), em oitenta, candidatou-se e foi a primeira mulher eleita e reeleita Deputada à Assembleia do Estado de São Paulo, depois, a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e a primeira Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres.
Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro, que levou a São Paulo, o que de melhor se fazia nas grandes capitais do mundo, feito que repetiu em 1976, vendo-se reconhecida como grande renovadora da arte dramática brasileira.
Depois de deixar o cargo de Deputada, em 1988, voltou aos palcos e à organização de novos festivais paulistas, sempre em espírito de renovação, tornando-os inclusivos de outros terrenos e saberes – os Festivais de Artes e Ciências dos anos noventa. A Ruth, a caminho dos 70 anos não está disposta a parar… Já neste século, tive a sorte de assistir ao seu lado, em São Paulo, a uma última produção, tão audaciosa como as primeiras: uma original encenação de "Os Lusíadas".
E assim Ruth Escobar deixou uma fantástica herança cívica, intelectual e artística, enraizada no Gil Vicente da sua juventude (segundo ela, o “Shakespeare português”) e no modernismo com que mudou a face do teatro em São Paulo e no Brasil. Por isso, recebeu as mais altas condecorações brasileiras, a nossa Ordem do Infante D Henrique, a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França.
É um nome lendário no Brasil, mas está, ainda, por descobrir em Portugal.
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