quarta-feira, 1 de abril de 2026

2021 A PINTURA DE BALBINA MENDES – O LUGAR DAS MULHERES NAS ARTES Balbina Mendes ocupa um lugar de primeiro plano na Arte pictórica em Portugal, através de um trajetória feita de originalidade e de inovação, numa constante travessia de fronteiras artísticas - sempre em movimento, numa viagem de procura sem fim, pelo gosto de lançar a si própria desafios, um depois de outro, através da experimentação de ideias, de temáticas, de técnicas, de materiais, com a ousadia de sempre, a segurança dada pela maturidade, e a invariável insatisfação, essência de uma obra em que o talento inato se expressa, reinventando-se. Um percurso raro nos vários ângulos em que o podemos considerar, desde logo porque começou numa pintura de matriz etnológica, que recuperava arquétipos primordiais emergindo, revistos e recriados em toda a sua magia, em telas de grande dimensão e impacto. A Natureza, as vivências, os costumes da sua terra são, assim, transpostos, num universo de interlocução que foi crescendo, à medida que a própria Balbina ganhou notoriedade e reconhecimento, em exposições individuais nas mais prestigiadas Galerias. As suas espantosas “Máscaras Rituais do Douro e de Trás-os-Montes “ fizeram história, simultaneamente a do lugar da sua infância, a das suas gentes e tradições, perdidas e achadas no tempo, e a dela própria, inconfundível intérprete e narradora de memórias e rituais identitários. Não menos importante é sublinhar a sua capacidade de se impor em grande mostras individuais, o que é, por ora, entre nós, coisa que só está ao alcance de um escol de mulheres pintoras. Embora a perceção comum não o reconheça mantém-se, ao nível de mega exposições com um só nome no cartaz, um largo predomínio masculino, enquanto nas coletivas, ou nas que são exibidas, mais modestamente, em pequenos redutos, elas ultrapassam já os homens, num avançar gradual, como se estivessem, ainda, em difícil transição do espaço privado para o público… É um exemplo que poderemos extrapolar, em muitas outras áreas, a nível nacional e internacional, constatação eficazmente determinante na criação do movimento pela Arte no Feminino, que, no último quartel do século XX, teve uma das suas líderes mais insignes e arrojadas em Paula Rego, símbolo máximo da nossa pintura, cujo recente passamento foi ocasião de a enaltecer e entronizar no panteão dos imortais. Nas suas próprias palavras: "As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra?". [...] "Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com aquilo em que jamais se tocou-as experiências de mulheres". Uma tomada de consciência e um discurso com que a vanguarda feminista dessa época incorporou o plano da expressão artística na globalidade da sua luta - discurso que, diga-se, neste como em qualquer outro campo, é tudo menos pacífico. Mais consensual será, certamente, a exortação de Gisele Breitling em favor de "uma nova e verdadeira universalidade em que o feminino assuma o seu lugar de direito e o masculino as suas verdadeiras proporções". Guardo-me, aqui, de entrar na complexa questão do modo como o "género" se exprime, (com caraterísticas próprias ou comuns e indistintas), ficando-me pelo que não pode ser contestado: o masculino avulta, desde tempos imemoriais e permanece como autêntico "padrão", enquanto o feminino é visto como "alteridade". Por outro lado, o sucesso das "mulheres-exceção" não deve deixar no esquecimento a persistente desigualdade de uma maioria, que as estatísticas, na fria linguagem dos números, denunciam. Como escrevia Armando Bouçon, no catálogo da 1ª Exposição de “Mulheres d’ Artes”: "Uma análise correta de toda a história da Arte dá-nos uma perceção muito transparente de como o campo das artes plásticas foi ocupado durante muitos séculos pelo género masculino". Foi. E, se atentarmos nas diferenças de visibilidade, segundo o sexo, continuará a ser, ao menos na medida de uma persistente desproporção. É um desequilíbrio que pode debelar-se de muitas e diversas maneiras… No panorama português, Balbina Mendes tem, a meu ver, contribuído, poderosamente, para que as mulheres acedam, na vida cultural do país, ao seu "lugar de direito". Fá- lo, ocupando, simplesmente, esse lugar, com força anímica e qualidade de sobra, sem em nada se julgar discriminada, sem se sentir diferente, isto é, do lado de lá de uma linha de separação... É um caso a seguir, no campo das exceções, que, na minha ótica, tão devagar se vai alargando. Balbina faz parte das mulheres que, à partida, se sentem consideradas como iguais, e cuja atitude de despreocupação com disparidades de género, contém, implícita, a intransigente exigência de tratamento igualitário! À margem de manifestos reivindicativos, alcançaram, por si, as metas que o movimento se propôs e propõe, e, assim, afinal, o reforçam. E será que a proclamação da especificidade de género, pode, no limite, paradoxalmente, dar azo à persistência de formas larvadas de discriminação?. É uma dúvida pertinente. A "arte com género" de que fala Paula Rego, pode, ou não, abaixo do patamar do génio universal a que ela subiu, transformar-se , de facto, não em sinal vanguardista de contracultura, mas em âncora de estereótipos de género, conotando o feminino com características convencionais que são, em sociedades ancestralmente misóginas, uma menos valia? O ponto de interrogação vale para qualquer setor... Recordo o crítico literário João Gaspar Simões, que, ao elogiar a força imanente da prosa de Maria Archer, o realismo puro e duro com que ela aborda temáticas ousadas, a qualificava não como uma grande escritora, mas como "um grande escritor" ... E não é verdade que a poetisas consagradas, como Sophia de Mello Breyner, ou Ana Luísa Amaral, preferimos chamar poetas? Ambíguo cumprimento, a que subjaz a conceção da masculinidade intrínseca do cânone... Certo é que, para esta escola de pensamento, Balbina é uma das grandes pintoras que merece, por inteiro o cumprimento, ainda que, pessoalmente, se não queira rever na categoria de "grande pintor". A sua arte não procura rivalizar com quem quer que seja, nem obedece a ditames ou limitações de qualquer espécie, segue numa trajetória ascensional de inovação da estética e policromia, do ensaio de técnicas, da fusão de materiais...É genuína e livremente Ela, transmutando para a pintura a experiência ganha nos muitos espaços geográficos e culturais que a sua vivência atravessa e o seu olhar penetra. É única e inconfundível. Se me é permitida uma outra adjetivação, direi: carismática! Uma palavra que tão perfeitamente se ajusta a Autora como à globalidade da sua obra. Balbina é uma admirável contadora de histórias de vários tempos, do tempo presente a tornar-se passado, ou do passado em dinâmicas e impulsos que o trouxeram até nós, num rasto longo de evocações de festividade populares, rituais, crenças, valores revividos e reconfigurados em toda a sua magia e em todo o seu mistério. No percurso imparável de Balbina, para mim, no princípio era o rio... porque a conheci na exposição em que nos oferecia uma verdadeira crónica pictural do Douro, deslizando entre margens, da nascente até à foz, incorporado na beleza encantatória de paisagens, onde as gentes apenas se pressentiam, sem se verem... . Reencontrei-a, depois, em outro e surpreendente ciclo temático, na exposição das Máscaras Rituais do Douro e Trás os Montes, em que os homens se faziam presentes, mas ainda sem se verem... Era o início de um tropo narrativo em torno da máscara, incursão às raízes ancestrais, entrelaçamento telúrico de emoções e saberes, recriados nos traços dos seus pincéis, em explosões de cor... Não resistindo a voltar a uma perspetiva feminista sobre o ineditismo das suas escolhas -perspetiva que, não sendo certemente a de Balbina, me permito ousar - noto a esplêndida audácia com que se apodera, para a eternizar em arte, da tradição masculina da máscara, símbolo, por excelência, da superioridade e camaradagem de sexo, da festa e do cerimonial rigorosamente interditos à mulher... É um prenúncio, um sinal da força subversiva e libertária da sua aventura artística. Logo depois, vai ultrapassar uma última barreira, no momento em que a fragmentação ou transparência das máscaras põe a descoberto... rostos femininos! Uma definitiva ruptura com o interdito. Transgressão, que Paula Rego, sem dúvida, saudaria com “o gozo pela inversão e pelo desalojar da ordem estabelecida". Por isso, Balbina Mendes poderia estar, se quisesse, entre as referências do movimento emancipatório de contracultura feminina nas Artes, na senda da emblemática Paula sobre quem Ana Gabriela Macedo afirma: [...] ela questiona continuamente os chamados "corolários naturais" da diferença de sexos, bem assim como a suposta "ordem natural das coisas", que se traduz na passividade, dependência e submissão, desmistificando o discurso estético e desmascarando o seu papel eminentemente ideológico e as relações do poder, que aí se encontram camufladas [...]. Na sua mais recente exposição, intitulada "Segunda pele", o engenho narrativo de Balbina não nos revela, antes adensa o segredo dos jogos entre as faces desocultada e as suas máscaras, mas revela-a, definitivamente, como assombrosa retratista, do rosto, das suas metamorfoses, do tangível e do intangível. Confirma o seu incessante questionamento sobre o ser, as suas mutações e aparências. É, agora, na Literatura que busca inspiração, glosando, em enigmáticas efígies, motes Pessoanos. As respostas que encontra na tela são sempre fonte de sucessivas interrogações, de demandas inspiradas na heteronímia do Poeta, ou até, talvez, simplesmente na duplicidade do “eu” de cada um de nós . Como dizia Maria Anderson; "Qualquer pessoa ficciona a sua própria identidade, Não nos ficcionamos sempre da mesma maneira. Vamos mudando o guião". Ou, secundando Maria Velho da Costa, nos poderemos interpelar: "Quem sou? Talvez seja quem vou sendo..." A pessoa. A persona… Para onde vai, Balbina Mendes? Para onde nos levará , no ímpeto de romper limites, a grande cultora de saberes arcanos e enigmas do espírito, em diálogo introspectivo com as Artes, com a Vida, connosco, nas suas cada vez mais fascinantes mensagens visuais? Maria Manuela Aguiar Espinho, junho de 2022 Balbina Mendes sábado, 25/06/2022, 12:15 Muito obrigada minha querida amiga! O seu texto é belíssimo e vai enriquecer grandemente o meu livro. Um grande e carinhoso abraço Balbina Maria Manuela Aguiar sábado, 25/06/2022, 18:01 para Balbina Eu sei que não é feminista... mas Paula Rego, como feminista-mor, teria gostado de conhecer a obra da Balbina! Parece que a Ester não vai seguir com a expo Mª Archer. Os quadros já estão recolhidos na Galeria, ao que Ester diz, muito segura. O organizador, Aquilino (Ferreira?) , veio buscá ́-los, mas não parece com vontade de os trazer... Creio que a ideia é mandar pelo correio. É personagem que nem conheço... Interessante seria a tal mostra na Biblioteca Nacional, no outono, mas depende das negociações entabuladas pela Universidade Nova de Lisboa- Faces de Eva (mais feministas!) Beijinhos Manuela
DE MARIA RUTH DOS SANTOS A RUTH ESCOBAR Ruth Escobar foi, porventura, no Brasil, a mais destacada mulher portuguesa da sua geração. Nome célebre na cultura, na política - ativista de direitos humanos, voz indomável contra a ditadura, feminista tardia mas convicta, pioneira na vida política brasileira, primeira mulher eleita deputada, em dois sucessivos mandatos, à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Maria Ruth dos Santos, na pré-história de Ruth Escobar, foi uma emigrante comum. Aos 16 anos acompanhou a mãe numa partida, de onde não haveria retorno. Invulgar era, sim, o facto de ser uma aventura no feminino, de uma mulher solteira e pobre, e da sua filha única - a menina rebelde que estava destinada a convolar um modesto projeto de futuro, com o ímpeto da sua ambição e o fulgor da sua personalidade, num trajeto épico de permanentes rupturas e incríveis desafios, em rota da continuada transcendência do seu "eu", no cenário movente de novas fronteiras físicas e culturais. O seu saber é todo de experiência feito - as viagens pelo mundo e pelas alteridades culturais são fonte de um saber avidamente absorvido e inspirador de ação em que, ousada e vanguardista, fará dessa mundividência em constante progressão uma arma para mudar o mundo - e com ela haveria de revolucionar, como sempre há-de ser lembrado, a realidade e o devir do teatro brasileiro. Através de todas as metamorfoses, Maria Ruth será, porém, sempre a portuguesa do Porto, nascida em Campanhã, criada na rua do Bonjardim, no coração da cidade, que levou consigo em gratas recordações, A sua autobiografia, desde o primeiro parágrafo, é uma história portuense, começa num calcorrear de ruas e praças familiares, nas festas do São João, nas sessões de cinema do Rivoli, nas excursões de elétrico até à Foz, quando chegava o verão, até aos jardins do Palácio de Cristal, e nos longos dias de aulas no Carolina Michaellis, onde se inicia na arte dramática, a representar, ao som dos primeiros aplausos todos os diabos dos autos de Gil Vicente... Nas suas próprias palavras: "quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente". Na esteira dessa certeza, a sua vida avançará, vertiginosamente. Mal acabara de chegar e no "Roosevelt" , a sua graça em palco, encarnado, de novo, os diabos de Gil Vicente logo, lhe grangeia o título de "rainha" do colégio. Passa exames, mas troca os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias". É um sucesso, ganha mais do que a progenitora, mas depressa dá um passo em frente, angaria apoios na comunidade portuguesa para criar e vender a sua própria revista, "Ala Arriba". Tem apenas 18 anos. Na sua nova veste, apercebe-se das ameaças que se desenham sobre a presença portuguesa na Índia e propõe-se defende-la à volta do planeta. Corria o ano de 1954 e, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, a improvisada jornalista, ainda "teenager", vai ombrear com os melhores correspondentes de imprensa internacional, entrevista uma longa lista de celebridades, como Foster Dulles e Christian Pinaud, Bulganin e Krushev, o Principe Norodan Sihanouk, o presidente das Filipinas, os primeiros-ministros da Turquia e da Tailândia, o mítico Nasser (a única a ter esse privilégio, no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo!), e entre compatriotas, os governadores de Macau e da Índia e até Salazar. Os seus exclusivos são disputados por revistas como a "Life" e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, É um primeiro vislumbre de fama. Convidada a integrar a comitiva do Presidente Craveiro Lopes na visita oficial a Moçambique, acaba expulsa por ato considerado subversivo - a revelação perante os "media" nacionais e internacionais de um acidente aéreo, que a propaganda do regime queria ocultar. Será apenas o primeiro de muitos gritos de liberdade, pelos quais não hesitará nunca em arriscar tudo, Na casa dos seus vinte anos, fará a estreia como empresária e produtora teatral, depois como atriz, construirá um teatro com o seu nome na cidade de São Paulo e lançará uma iniciativa absolutamente inédita, com a fundação, em 1963, do Teatro Nacional Popular, que leva ao povo nas periferias do Estado, a muitos milhares de pessoas, espetáculos de ,qualidade (Martins Pera, Suassuna...) no palco instalado num velho autocarro. Não é menos arrebatadora é a sua vida fora de cena. com quatro filhos em três casamentos (o primeiro anterior a esta década, o segundo com o poeta e dramaturgo Escobar, o terceiro com o arquiteto Wladimir Cardoso, que viria a ser o cenógrafo das suas peças de enorme sucesso artístico (como "Cemitério de automóveis" de Arrabal com montagem do argentino Vitor Garcia e encenação de Ruth Escobar, uma dupla que, em 1969, com "O balcão" de Jean Genet, venceria todos os prémios, a nível nacional. Os trinta anos de Ruth são passados no tempo conturbado de repressão e de medo em que se afunda o Brasil, a partir de 1964. O seu teatro converte-se em palco de luta pela liberdade de expressão, Sucedem-se as ameaças, as pressões, os ataques de comandos para-militares, a violência sobre os próprios atores. Na sua autobiografia, Ruth Escobar confessa que perdeu a conta ao número de ameaças, de prisões e interrogatórios, aos quais ia respondendo sempre com desafios a rondar o excessivo (como até ela reconhecerá, retrospetivamente). De uma das vezes, é Cacilda Becker, sua referência, mentora e amiga, que intervém junto do prefeito de São Paulo para conseguir a sua libertação: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou... É nesta sua década que traz a Portugal alguns dos maiores sucessos, como "Missa leiga" e "Cemitério de automóveis" , que é objeto de proibição, exceto em Cascais, onde, pelo visto, a censura supunha ser inacessível a camadas populares... É então que conhece as três Marias, que lê "As cartas", lê Simone de Beauvoir, e se converte ao feminismo, uma metamorfose que contribuirá para a conduzir a novas arenas, ao hemiciclo da intervenção parlamentar, onde fez história como pioneira, no universo masculino e fechado da política brasileira (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, visto que nunca teve outra nacionalidade além da portuguesa). Como feminista assumida, torna-se a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e, durante muitos anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das mulheres. Entretanto casara, uma última vez, e tivera o seu quinto filho. Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro. Ela que, aos 19 anos, fora de São Paulo explorar as riquezas culturais mundo, traz, então, a São Paulo, o mundo das artes cénicas, o que de melhor se fazia nas grandes capitais. Em 1976, igual iniciativa tem o mesma força renovadora no panorama e na história da arte dramática brasileira. Depois de quase uma década no palco político de um Brasil democrático, volta, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como atriz e como empresária e, também, como promotora de festivais, em novos moldes, porventura menos elitistas, mas mais abrangentes de outras artes , Conheci-a em 82, num jantar na residência do nosso Cônsul- Geral, em que estávamos lado a lado e, como toda a gente, não fiquei imune ao seu carisma, que era feito de espontaneidade e de extroversão, de inteligência e de humor, de uma graça natural. Do que falámos? Do Porto, é claro, da sua e da minha cidade, que nos uniu em afinidades imediatas. Era evidente que ela permanecera uma portuguesa do Porto, ainda que sempre se tenha sentido parte de São Paulo e do Brasil. Por isso, deixa uma herança teatral, enraizada no Gil Vicente da sua juventude, e no vanguardismo em que projetou o seu talento ao longo de décadas, mudando a face do moderno teatro brasileiro . A sua última produção - a que, por sorte, pude assistir - pôs em cena "Os Lusíadas" , bem no centro de São Paulo, e, depois, em Portugal. Ruth recebeu, ao longo do seu trajeto de realizações cívicas e artísticas, as mais altas condecorações brasileiras. a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França, onde estudou arte dramática, e até Portugal a distinguiu com a Ordem do Infante D Henrique.. Fica a faltar o Porto. Mas, talvez, agora que ela nos deixou, neste último 5 de outubro, o Porto a queira reclamar, bem viva na sua memória e na toponímia da cidade.
PELA “COLIGAÇÃO DE VONTADES” CONTRA TRUMP E PUTIN 1 – A Ucrânia e toda a Europa democrática estão hoje entre Putin, o inimigo russo, e Trump, o inimigo americano. É uma situação inteiramente nova, mas não improvável ou imprevisível, para qual a Europa não estava preparada. E devia ter estado. A lentidão da máquina judicial dos EUA deixava adivinhar que Trump podia escapar às malhas da justiça pelos seus piores crimes, ser condenado apenas pelos menores, candidatar-se à presidência, e, eventualmente, ganhar. Foi o que aconteceu, após uma campanha miserável de trapaças e mentiras, face à imprevidência do Partido Democrata, num processo em só a postura e a coragem de Kamala Harris se destacam pela positiva. Não foi uma vitória esmagadora, como se diz por cá, o país está dividido a meio, deu aos Republicanos uma pequena maioria nas duas Câmaras do Congresso, suficiente para permitir a brutal tentativa de tomada de poder absoluto, que está em curso, contra a Constituição, o Estado de Direito, a independência do Poder Judicial, os mais elementares Direitos Humanos, o Direito Internacional e os aliados de sempre dos EUA. Trump mudou de campo, para o campo dos mais sinistros ditadores do mundo atual, homens que ele confessadamente admira, como Kim.Jong-un e Vladimir Putin. Está lá a quebrar todas as regras e a lançar o caos, a nível interno e universal, num visível estado de absoluta embriaguez do seu ego, do “Quero, posso e mando”. Ou como alguns já vão dizendo, está simplesmente em estado avançado de senilidade e loucura galopante. Os menos de três meses passados desde o seu regresso, já nos parecem mais de três anos... Em rigor, o mais poderoso país do mundo já não é uma democracia. Crimes contra pessoas (imigrantes tratados como terroristas), e instituições são cometidos quotidianamente, os tribunais desrespeitados, a liberdade de expressão cerceada. A NATO, com o esvaziamento do art.º 5º do Tratado de Washington, de facto, deixou de existir, quando o próprio Presidente dos EUA ameaçou a independência do Canadá ou a integridade territorial da Dinamarca, dois parceiros da NATO. A Ucrânia, que, durante três anos resistiu ao exército russo, (que Putin julgava capaz de tomar Kiev em três dias!), está agora em risco de ser derrotada por um mero decreto da Casa Branca. Ou seja, ela traição americana! 2- Nos próximos quatro anos, a cooperação estratégica com os EUA está irremediavelmente minada, mesmo que a dependência europeia não lhe permita assumir publicamente ruturas imediatas: na verdade, fornecer informação secreta a Trump ou a Putin vai, provavelmente, dar ao mesmo… Não sabemos se a perda, cada vez mais provável, das eleições do meio de mandato (e da maioria do Republicanos em uma ou nas duas Câmaras), poderá travar o vendável de insanidade a que assistimos. Não sabemos se a América vai ser recuperável para o diálogo e a convivência democrática dos seus velhos aliados. Em qualquer caso, os países europeus, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, (e todos os outros que pertencem ao que chamávamos “o mundo ocidental”), têm de olhar para além de 2029, sem esquecer 1929, preparando-se, individual e coletivamente, para o que aí vem, com ou sem Trump e o seu pavoroso legado. 3 - A meu ver, mesmo na melhor das hipóteses, nada voltará a ser como dantes. Chegámos ao fim de uma era, que durava desde o termo da II Guerra Mundial, há 80 longos e pacíficos anos. Ao fim da “pax americana” e da NATO sob chapéu nuclear americano. A Europa vê-se obrigada a investir na defesa e na segurança, como garante da sua própria independência. Chegou a hora da “descolonização militar” face aos EUA! Cooperação, sim, mas com uma pluralidade de aliados e falando de igual para igual. À falta de um novo Churchill e de um novo De Gaulle, que muito antes teriam lido os sinais de desinteresse dos Democratas, ou da hostilidade dos Republicanos trumpistas no seu relacionamento com a Europa, Keir Starmer, na recente cimeira de Londres, veio redefinir, magistralmente, a “Europa da Defesa” como “a coalition of the willing”. A coligação de vontades daqueles Estados que estão prontos a assumir o compromisso de defesa mútua. Tal como já no início do século acontecia, esta coligação extravasa as fronteiras da União Europeia - estão lá o Reino Unido, a Noruega e o Canadá, desejavelmente a Turquia. E não podem estar os governos putinistas ou trumpistas da União Europeia, os Órbans de hoje e de amanhã. Os desafios maiores que se colocam à coligação, que reúne Starmer e Macron, e com eles, o potencial de dissuasão nuclear da Europa, são escolher um modelo institucional, que possa funcionar de forma inteligente, rápida e eficaz (ao contrário do que acontece com a UE, limitada pela regra da unanimidade e por quezílias internas) e escolher os aliados capazes de assumirem, lealmente, o compromisso da defesa mútua, livre de limitações do “bulling” trumpista. É inútil lamentar o tempo perdido, mas vale sempre a pena reconhecer os erros do passado, os erros dos políticos da UE que extinguiram, já neste século, a União da Europa Ocidental (UEO), instituição pioneira da cooperação intereuropeia no domínio de Defesa e Segurança, com vocação e capacidade para se tornar no “pilar europeu” da NATO. Insensatamente a UE, (já então pouco homogénea e solidária neste particular domínio…) não descansou até neutraliza a UEO, como, aliás, desejavam os americanos… A “coligação de vontades” emergente da cimeira de Londres, é, afinal, a herdeira do espírito da UEO. Surge tardiamente, precisa de tempo para atingir os objetivos últimos, mas aqui está, esperançosamente voltada para o futuro! Maria Manuela Aguiar

ESPINHO 2050

Espinho 2050 As singularidades de Espinho são uma invariável da sua trajetória desde as origens mais remotas. Na verdade, atravessam todos os seus tempos, os de ascensão vertiginosa como estância balnear moderna e cosmopolita e os de declínio e de perda de estatuto turístico nacional e internacional para outras geografias. Uma dessas particularidades é, claramente, a coexistência de contrastes, a mescla harmoniosa de comunidades que se reconhecem no todo. E isso vale igualmente para a confraternização dos naturais ou residentes de longa data, com a gente de fora, as vagas de “nómadas” em férias, tão essenciais à sua natureza como as vagas do mar. Em fins do século XX e durante o primeiro quartel deste século ninguém parecia adivinhar a segunda vida de Espinho no palco do mundo num amanhã não muito distante. A esta distância temporal, numa breve análise do fenómeno e das suas causas, eu diria que o movimento começou na aposta em outros destinatários para uma antiga vocação de atrair os de fora: aposta no turismo sénior através de cadeias de residências seniores, com uma forte componente internacional, quer no segmento mais abastado, quer no das classes médias. Investir na solução de um problema maior de sociedades em envelhecimento rápido era estratégia inteligente, mas quem esperava que Espinho se colocasse na vanguarda desse nicho de mercado? A meu ver, tudo começou “a latere”, com a modernização do balneário marinho e da piscina Solário Atlântico. Sobretudo do “Balneário”. A fama dos tratamentos de talassoterapia estendeu-se a nível nacional e rapidamente ultrapassou fronteiras. A qualidade e a beleza arquitetónica e ambiental do complexo balnear tornaram-no em verdadeiro “ex-libris” da cidade, que, assim, retornava a uma tradição de pioneirismo, ao mesmo tempo que alavancava um turismo cosmopolita há décadas perdido (voltaram, em grande número, os espanhóis, e não só...). Um turismo maioritariamente sénior! De facto, os mais idosos preponderavam, tendo descoberto, para além das benesses do tratamento, as facetas de uma cidade que parecia pensada primeiramente para eles, com o seu centro quase plano, o traçado geométrico de ruas, uma infinidade de lojas e “boutiques”, cafés e restaurantes, o casino, os parques e as deslumbrantes vistas de mar das esplanadas e dos passadiços, que puseram no mapa o Rio Largo. Essa foi a fase 1, logo seguida pela fase 2: a crescente fixação desses novos "descobridores" de Espinho. De princípio, por iniciativas individuais e esporádicas, logo enquadradas num plano de apoio municipal à expansão de residências séniores – algumas construções de raiz, outras reconstruções de velhas casas e mansões. Residências que evoluíram para habitats adaptativos, equipados com robôs de assistência social e plataformas de telemedicina baseadas em IA, permitindo um envelhecimento ativo e mais saudável, com espaços de coworking cultural. A "revolução grisalha" foi para a cidade o início de uma segunda vida de enorme prosperidade. “Dinheiro faz dinheiro”, diz a sabedoria popular. A Câmara de Espinho é uma das mais ricas do país e eu considero que vem utilizando os seus consideráveis meios de uma forma hábil, jogando na intergeracionalidade, realizando o sonho antigo de atrair e integrar os jovens, com os seus projetos de habitação acessível e com o acento no desporto, (que nos dá campeões em tantas modalidades e o direito a ser uma das capitais do “surf”), na investigação (o centro de ciências do mar), na crescente atração de “startups”. Cientistas e “nómadas digitais” já fazem parte da comunidade, tal como músicos, artistas, cineastas… Há movimento todo o ano e em todo o espaço do concelho, onde se diversificaram as centralidades e os eventos culturais. Espinho é a terra dos concertos ao ar livre ou nos seus vários auditórios, dos congressos e conferências, dos festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura... O centro histórico ainda mantém a animação das ruas, hoje impecavelmente pavimentadas, mais floridas, mais bonitas. As emblemáticas esplanadas de mar integram redes de sensores IoT que monitorizam a qualidade ambiental e acolhem dispositivos de realidade aumentada, projetando reconstruções holográficas do vaivém da antiga “Avenida”, da arte Xávega, (da pesca que Unamuno eternizou na literatura) e narrativas interativas do Castro de Ovil – um convite a que o visitem “in loco”, no seu fantástico cenário paisagístico. O espaço da antiga linha de comboio, após a sua extensão para além do Rio Largo e do Bairro Piscatório, converteu-se num longo corredor verde com mobilidade autónoma partilhada, ligando o centro histórico ao polo das “startups”, ao laboratório de ciências do mar e ao FACE. As Galerias Amadeo de Souza Cardoso, foram enriquecidas com uma coleção permanente de obras do seu patrono captadas em 3D (uma coleção protocolada com outras instituições). O novo Museu da Memória adota as tecnologias digitais que, através de aplicações cívicas, envolvem os cidadãos em processos colaborativos de planeamento urbano, traduzindo dados abertos em políticas participativas e reforçando a identidade de Espinho como capital de vanguarda no e-Society. A estação de comboio é, agora, considerada uma das mais espetaculares do mundo, convertida em mostra da geografia e da história de Espinho, sobres as paredes do túnel outrora tão sombrio. E o verão ainda é o verão da enchente de visitantes. Os que vêm gozar o mar e os que chegam nas correntes de “turismo cultural”, para o seu banho de imersão na cidade revivalista, na cidade museu, na cidade onde se faz Futuro. Luís Costa 13/06/2025, 15:24 (há 8 dias) para Mario, mim Muito, muito obrigado! Por mim "está fechado", como costuma dizer o Mário Augusto. E bem fechado! O texto é imaginativo e desafiador! Bem-haja, forte abraço e bom fim-de-semana, Espinho 2050 As singularidades de Espinho são uma invariável da sua trajetória desde as origens mais remotas. Na verdade, atravessam todos os seus tempos, os de ascensão vertiginosa como estância balnear moderna e cosmopolita e os de declínio e de perda de estatuto turístico nacional e internacional para outras geografias. Uma dessas particularidades é, claramente, a coexistência de contrastes, a mescla harmoniosa de comunidades que se reconhecem no todo. E isso vale igualmente para a confraternização dos naturais ou residentes de longa data, com a gente de fora, as vagas de “nómadas” em férias, tão essenciais à sua natureza como as vagas do mar. Em fins do século XX e durante o primeiro quartel deste século ninguém parecia adivinhar a segunda vida de Espinho no palco do mundo num amanhã não muito distante. A esta distância temporal, numa breve análise do fenómeno e das suas causas, eu diria que o movimento começou na aposta em outros destinatários para uma antiga vocação de atrair os de fora: aposta no turismo sénior através de cadeias de residências seniores, com uma forte componente internacional, quer no segmento mais abastado, quer no das classes médias. Investir na solução de um problema maior de sociedades em envelhecimento rápido era estratégia inteligente, mas quem esperava que Espinho se colocasse na vanguarda desse nicho de mercado A meu ver, tudo começou “a latere”, com a modernização do balneário marítimo e da piscina Solário Atlântico. Sobretudo do “Balneário”. A fama dos tratamentos de talassoterapia estendeu-se a nível nacional e rapidamente ultrapassou fronteiras. A qualidade e a beleza arquitetónica e ambiental do complexo balnear tornaram-no em verdadeiro “ex-libris” da cidade, que, assim, retornava a uma tradição de pioneirismo, ao mesmo tempo que alavancava um turismo cosmopolita há décadas perdido (voltaram, em grande número, os espanhóis, e não só...). Um turismo maioritariamente sénior! De facto, os mais idosos preponderavam, tendo descoberto, para além das benesses do tratamento, as facetas de uma cidade que parecia pensada primeiramente para eles, com o seu centro quase plano, o traçado geométrico de ruas, uma infinidade de lojas e “boutiques”, cafés e restaurantes, o casino, os parques e as deslumbrantes vistas de mar das esplanadas e dos passadiços, que puseram no mapa o Rio Largo. Essa foi a fase 1, logo seguida pela fase 2: a crescente fixação desses novos "descobridores" de Espinho. De princípio, por iniciativas individuais e esporádicas, logo enquadradas num plano de apoio municipal à expansão de residências séniores – algumas construções de raiz, outras reconstruções de velhas casas e mansões. Essas residências evoluíram para habitats adaptativos, equipados com robôs de assistência social e plataformas de telemedicina baseadas em IA, permitindo um envelhecimento ativo e mais saudável, com espaços de coworking cultural. Essa "revolução grisalha" foi para a cidade o início de uma segunda vida de enorme prosperidade. “Dinheiro faz dinheiro”, diz a sabedoria popular. A Câmara de Espinho é uma das mais ricas do país e eu considero que vem utilizando os seus consideráveis meios de uma forma hábil, jogando na intergeracionalidade, realizando o sonho antigo de atrair e integrar os jovens, com os seus projetos de habitação acessível e o acento no desporto, (que nos dá campeões em tantas modalidades e o direito a ser uma das capitais do “surf”), na investigação (o centro de ciências do mar), na crescente atração de “startups”. Cientistas e “nómadas digitais” já fazem parte da comunidade, tal como músicos, artistas, cineastas Há movimento todo o ano e em todo o espaço do concelho, onde se diversificaram as centralidades e os eventos culturais. Espinho é a terra dos concertos ao ar livre ou nos seus vários auditórios, dos congressos e conferências, dos festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura... O centro histórico ainda mantém a animação das ruas, hoje impecavelmente pavimentadas, mais floridas, mais bonitas. As emblemáticas esplanadas de mar integram redes de sensores IoT que monitorizam a qualidade ambiental e acolhem dispositivos de realidade aumentada, projetando reconstruções holográficas do vaivém da antiga “Avenida”, da arte Xávega, (da pesca que Unamuno eternizou na literatura) e narrativas interativas do Castro de Ovil – um convite a que o visitem “in loco”, no seu fantástico cenário paisagístico. O espaço da antiga linha de comboio, após a sua extensão para além do Rio Largo e do Bairro Piscatório, converteu-se num longo corredor verde com mobilidade autónoma partilhada, ligando o centro histórico ao polo das “startups”, ao laboratório de ciências do mar e ao FACE. As Galerias Amadeo de Souza Cardoso, foram enriquecidas com uma coleção permanente de obras do seu patrono captadas em 3D (uma coleção protocolada com outras instituições). O novo Museu da Memória adota as tecnologias digitais que, através de aplicações cívicas, envolvem os cidadãos em processos colaborativos de planeamento urbano, traduzindo dados abertos em políticas participativas e reforçando a identidade de Espinho como capital de vanguarda no e-Society. A estação de comboio é, agora, considerada uma das mais espetaculares do mundo, convertida em mostra da geografia e da história de Espinho, sobres as paredes do túnel outrora tão sombrio. E o verão ainda é o verão da enchente de visitantes. Os que vêm gozar o mar e os que chegam nas correntes de “turismo cultural”, para o seu banho de imersão na cidade revivalista, na cidade museu, na cidade onde se faz Futuro. Luís Costa
O LEGADO FEMINISTA DE MARIA BARROSO Foi lançado, há dias, um livro sobre "Maria Barroso - Os legados", em que são analisados o seu percurso, o seu pensamento, as suas causas, no ano em que se comemora o seu centenário. A iniciativa partiu de um grupo de cinco mulheres, na sua maioria académicas, e contou com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Universidade Nova. O prefácio é do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e um dos testemunhos do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres. A primeira apresentação, em Lisboa, na Fundação Maria Soares Maria Barroso, foi antecedida por um colóquio sobre a mesma temática, organizado pela Fundação, que teve momentos altos na abertura nas intervenções dos filhos de Maria Barroso, Isabel e João Soares. Um dia memorável de saudade e de reflexão que, na realidade, não terminou ali, pois, ao longo deste ano comemorativo, a publicação vai ser divulgada em diversas regiões e cidades do país, numa multiplicidade de colóquios, o primeiro dos colóquios ocorreu em Loulé, com intervenções da escritora Lídia Jorge e de alguns dos coautores do livro. Espero que Espinho, onde veio tantas vezes, esteja presente nesse roteiro de homenagens. Na referida publicação abordei um dos legados de Maria Barroso, que, a meu ver, não tem sido suficientemente destacado: o seu feminismo. Um feminismo vivido! A vida de Maria Barroso foi uma admirável aventura cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e às injustiças moldaram a humanista, e a inteligência, a determinação e o espírito prático fizeram a mulher de ação em variados domínios - a atriz, a pedagoga, a diretora de um grande colégio, a mulher apaixonada e mãe de família, a corajosa oposicionista política, a ativa construtora da nossa democracia, a Deputada, a “primeira dama” da República, a primeira mulher presidente da Cruz Vermelha, a líder de movimentos para o defesa dos Direitos Humanos, da paz e do aprofundamento dos laços no mundo lusófono. E, também, a feminista, que soube continuar, em novos tempos, a antiga tradição de luta pela liberdade e emancipação da mulher, recusando a guerra de sexos e toda e qualquer forma de supremacismo. A ausência de radicalismo constituiu, como é sabido, uma singularidade da primeira vaga do feminismo português, muito influenciada pelo contexto revolucionário em que emergiu, com homens e mulheres (famílias inteiras!) irmanados nos ideais republicanos. Na geração seguinte, Maria Barroso formou-se em meio não muito diverso, conviveu desde a infância com a resistência dos pais à ditadura, numa família solidária e tolerante e começou um imparável percurso cívico e político a lutar por uma nova revolução democrática capaz de erradicar as injustiças e desequilíbrios económicos e sociais, incluindo os de género. Nesse combate, Maria Barroso usou as armas ao seu alcance: as da cultura! Do palco do teatro fez palco de cidadania, pondo o talento e a fama ao serviço dos seus ideais, na forma como representava e como declamava a palavra revolucionária dos poetas… O regime perseguiu-a implacavelmente, cortou cerce a sua fulgurante carreira de atriz no Teatro Nacional, interditou-lhe o exercício da profissão no ensino, vigiou os seus passos, mas nunca calou a sua voz. A jovem Maria de Jesus enfrentou, sem vacilar, os interrogatórios da polícia política, a prisão do marido, como, antes, sofrera a de seu pai. Após a Revolução de 1974 foi uma notável participante na vida cultural e política do país, uma figura pública de referência, que não perderia nunca a sua individualidade, ao lado de Mário Soares. Em Belém, na missão onde mais arriscava a subalternização política, face ao estatuto do marido, o Presidente da República, revelou-se uma mais valia, a perfeita diplomata, um ícone de elegância e distinção. Sobre esse novo recomeço de vida, disse, simplesmente: "Ganhei um novo espaço para me reinventar". E ganhou, sem dúvida, mais mundo, mais experiências, mais contactos de proximidade com tanta gente, dos poderosos, que governam Estados, aos marginalizados, que estão no centro de tantas das suas inúmeras declarações públicas - as crianças, as vítimas de guerras e violência, os timorenses, os refugiados, os imigrantes, as mulheres… Sim, ainda e sempre, as mulheres, porque a igualdade jurídica fora rapidamente consagrada na Constituição e nas leis da República, mas, duas décadas depois da Revolução, as mudanças tardavam na sociedade, na política, no mundo do trabalho. O impasse acordou o feminismo intrínseco de Maria Barroso. Ela própria o revelou numa entrevista, afirmando: "Não sou feminista "à outrance", sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre homens e mulheres”. Na sua visão das coisas, a igualdade é inerente à condição humana, já que "a humanidade está dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina, com dons e virtualidades semelhantes". A “humanidade é uma família” salientava, inspirada, certamente, no paradigma da sua própria família. Porém, a resistência das estruturas (das máquinas partidárias, das corporações económicas…), assim como das mentalidades, à afirmação da “paridade natural”, levou- a denunciar a imperfeição da nossa democracia, por manter, no século XXI, “o modelo masculino do poder” e a reconhecer a importância do sistema de quotas no processo de “empoderamento” das mulheres. Pela palavra e pela ação, empenhou-se, incessantemente, na causa da igualdade de género. É de toda a justiça equiparar o “feminismo natural” de Maria Barroso ao "verdadeiro feminismo" de Ana de Castro Osório, (um “humanismo integral”, que deve ser partilhado por ambos os sexos), ao “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, e ao “feminismo tácito” de Maria Lamas. Foi, por sinal, nos caminhos do feminismo que nos encontramos, há quase meio século, numa sintonia espontânea, apesar de virmos de direções opostas, eu do feminismo “à outrance”, Maria Barroso da constatação de persistentes resistências à intervenção das mulheres na esfera pública, que a levava a um crescente envolvimento. Entre 2005 e 2009, com mais de oitenta anos, aceitou “correr mundo”, presidir a múltiplos “Encontros para a cidadania”, ser o rosto de uma intensa e eficaz campanha de mobilização das mulheres da Diáspora para a intervenção cívica, em que tive o privilégio de a acompanhar. No ano do seu centenário, é assim que prefiro lembrá-la, com uma mensagem humanista, solidária, intemporal, e um incomparável exemplo de vida. Na verdade, nenhuma figura pública do nosso país e do nosso tempo foi tão consensual, tão agregadora e tão amada pelo povo português.