Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quarta-feira, 1 de abril de 2026
PELA “COLIGAÇÃO DE VONTADES” CONTRA TRUMP E PUTIN
1 – A Ucrânia e toda a Europa democrática estão hoje entre Putin, o inimigo russo, e Trump, o inimigo americano. É uma situação inteiramente nova, mas não improvável ou imprevisível, para qual a Europa não estava preparada. E devia ter estado. A lentidão da máquina judicial dos EUA deixava adivinhar que Trump podia escapar às malhas da justiça pelos seus piores crimes, ser condenado apenas pelos menores, candidatar-se à presidência, e, eventualmente, ganhar. Foi o que aconteceu, após uma campanha miserável de trapaças e mentiras, face à imprevidência do Partido Democrata, num processo em só a postura e a coragem de Kamala Harris se destacam pela positiva.
Não foi uma vitória esmagadora, como se diz por cá, o país está dividido a meio, deu aos Republicanos uma pequena maioria nas duas Câmaras do Congresso, suficiente para permitir a brutal tentativa de tomada de poder absoluto, que está em curso, contra a Constituição, o Estado de Direito, a independência do Poder Judicial, os mais elementares Direitos Humanos, o Direito Internacional e os aliados de sempre dos EUA.
Trump mudou de campo, para o campo dos mais sinistros ditadores do mundo atual, homens que ele confessadamente admira, como Kim.Jong-un e Vladimir Putin. Está lá a quebrar todas as regras e a lançar o caos, a nível interno e universal, num visível estado de absoluta embriaguez do seu ego, do “Quero, posso e mando”. Ou como alguns já vão dizendo, está simplesmente em estado avançado de senilidade e loucura galopante. Os menos de três meses passados desde o seu regresso, já nos parecem mais de três anos... Em rigor, o mais poderoso país do mundo já não é uma democracia. Crimes contra pessoas (imigrantes tratados como terroristas), e instituições são cometidos quotidianamente, os tribunais desrespeitados, a liberdade de expressão cerceada. A NATO, com o esvaziamento do art.º 5º do Tratado de Washington, de facto, deixou de existir, quando o próprio Presidente dos EUA ameaçou a independência do Canadá ou a integridade territorial da Dinamarca, dois parceiros da NATO. A Ucrânia, que, durante três anos resistiu ao exército russo, (que Putin julgava capaz de tomar Kiev em três dias!), está agora em risco de ser derrotada por um mero decreto da Casa Branca. Ou seja, ela traição americana!
2- Nos próximos quatro anos, a cooperação estratégica com os EUA está irremediavelmente minada, mesmo que a dependência europeia não lhe permita assumir publicamente ruturas imediatas: na verdade, fornecer informação secreta a Trump ou a Putin vai, provavelmente, dar ao mesmo…
Não sabemos se a perda, cada vez mais provável, das eleições do meio de mandato (e da maioria do Republicanos em uma ou nas duas Câmaras), poderá travar o vendável de insanidade a que assistimos. Não sabemos se a América vai ser recuperável para o diálogo e a convivência democrática dos seus velhos aliados. Em qualquer caso, os países europeus, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, (e todos os outros que pertencem ao que chamávamos “o mundo ocidental”), têm de olhar para além de 2029, sem esquecer 1929, preparando-se, individual e coletivamente, para o que aí vem, com ou sem Trump e o seu pavoroso legado.
3 - A meu ver, mesmo na melhor das hipóteses, nada voltará a ser como dantes. Chegámos ao fim de uma era, que durava desde o termo da II Guerra Mundial, há 80 longos e pacíficos anos. Ao fim da “pax americana” e da NATO sob chapéu nuclear americano. A Europa vê-se obrigada a investir na defesa e na segurança, como garante da sua própria independência. Chegou a hora da “descolonização militar” face aos EUA! Cooperação, sim, mas com uma pluralidade de aliados e falando de igual para igual.
À falta de um novo Churchill e de um novo De Gaulle, que muito antes teriam lido os sinais de desinteresse dos Democratas, ou da hostilidade dos Republicanos trumpistas no seu relacionamento com a Europa, Keir Starmer, na recente cimeira de Londres, veio redefinir, magistralmente, a “Europa da Defesa” como “a coalition of the willing”. A coligação de vontades daqueles Estados que estão prontos a assumir o compromisso de defesa mútua. Tal como já no início do século acontecia, esta coligação extravasa as fronteiras da União Europeia - estão lá o Reino Unido, a Noruega e o Canadá, desejavelmente a Turquia. E não podem estar os governos putinistas ou trumpistas da União Europeia, os Órbans de hoje e de amanhã.
Os desafios maiores que se colocam à coligação, que reúne Starmer e Macron, e com eles, o potencial de dissuasão nuclear da Europa, são escolher um modelo institucional, que possa funcionar de forma inteligente, rápida e eficaz (ao contrário do que acontece com a UE, limitada pela regra da unanimidade e por quezílias internas) e escolher os aliados capazes de assumirem, lealmente, o compromisso da defesa mútua, livre de limitações do “bulling” trumpista.
É inútil lamentar o tempo perdido, mas vale sempre a pena reconhecer os erros do passado, os erros dos políticos da UE que extinguiram, já neste século, a União da Europa Ocidental (UEO), instituição pioneira da cooperação intereuropeia no domínio de Defesa e Segurança, com vocação e capacidade para se tornar no “pilar europeu” da NATO. Insensatamente a UE, (já então pouco homogénea e solidária neste particular domínio…) não descansou até neutraliza a UEO, como, aliás, desejavam os americanos…
A “coligação de vontades” emergente da cimeira de Londres, é, afinal, a herdeira do espírito da UEO. Surge tardiamente, precisa de tempo para atingir os objetivos últimos, mas aqui está, esperançosamente voltada para o futuro!
Maria Manuela Aguiar
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