Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quarta-feira, 1 de abril de 2026
DE MARIA RUTH DOS SANTOS A RUTH ESCOBAR
Ruth Escobar foi, porventura, no Brasil, a mais destacada mulher portuguesa da sua geração. Nome célebre na cultura, na política - ativista de direitos humanos, voz indomável contra a ditadura, feminista tardia mas convicta, pioneira na vida política brasileira, primeira mulher eleita deputada, em dois sucessivos mandatos, à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo,
Maria Ruth dos Santos, na pré-história de Ruth Escobar, foi uma emigrante comum. Aos 16 anos acompanhou a mãe numa partida, de onde não haveria retorno. Invulgar era, sim, o facto de ser uma aventura no feminino, de uma mulher solteira e pobre, e da sua filha única - a menina rebelde que estava destinada a convolar um modesto projeto de futuro, com o ímpeto da sua ambição e o fulgor da sua personalidade, num trajeto épico de permanentes rupturas e incríveis desafios, em rota da continuada transcendência do seu "eu", no cenário movente de novas fronteiras físicas e culturais. O seu saber é todo de experiência feito - as viagens pelo mundo e pelas alteridades culturais são fonte de um saber avidamente absorvido e inspirador de ação em que, ousada e vanguardista, fará dessa mundividência em constante progressão uma arma para mudar o mundo - e com ela haveria de revolucionar, como sempre há-de ser lembrado, a realidade e o devir do teatro brasileiro.
Através de todas as metamorfoses, Maria Ruth será, porém, sempre a portuguesa do Porto, nascida em Campanhã, criada na rua do Bonjardim, no coração da cidade, que levou consigo em gratas recordações, A sua autobiografia, desde o primeiro parágrafo, é uma história portuense, começa num calcorrear de ruas e praças familiares, nas festas do São João, nas sessões de cinema do Rivoli, nas excursões de elétrico até à Foz, quando chegava o verão, até aos jardins do Palácio de Cristal, e nos longos dias de aulas no Carolina Michaellis, onde se inicia na arte dramática, a representar, ao som dos primeiros aplausos
todos os diabos dos autos de Gil Vicente...
Nas suas próprias palavras: "quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente".
Na esteira dessa certeza, a sua vida avançará, vertiginosamente.
Mal acabara de chegar e no "Roosevelt" , a sua graça em palco, encarnado, de novo, os diabos de Gil Vicente logo, lhe grangeia o título de "rainha" do colégio. Passa exames, mas troca os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias". É um sucesso, ganha mais do que a progenitora, mas depressa dá um passo em frente, angaria apoios na comunidade portuguesa para criar e vender a sua própria revista, "Ala Arriba". Tem apenas 18 anos. Na sua nova veste, apercebe-se das ameaças que se desenham sobre a presença portuguesa na Índia e propõe-se defende-la à volta do planeta.
Corria o ano de 1954 e, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, a improvisada jornalista, ainda "teenager", vai ombrear com os melhores correspondentes de imprensa internacional, entrevista uma longa lista de celebridades, como Foster Dulles e Christian Pinaud, Bulganin e Krushev, o Principe Norodan Sihanouk, o presidente das Filipinas, os primeiros-ministros da Turquia e da Tailândia, o mítico Nasser (a única a ter esse privilégio, no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo!), e entre compatriotas, os governadores de Macau e da Índia e até Salazar. Os seus exclusivos são disputados por revistas como a "Life" e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, É um primeiro vislumbre de fama. Convidada a integrar a comitiva do Presidente Craveiro Lopes na visita oficial a Moçambique, acaba expulsa por ato considerado subversivo - a revelação perante os "media" nacionais e internacionais de um acidente aéreo, que a propaganda do regime queria ocultar. Será apenas o primeiro de muitos gritos de liberdade, pelos quais não hesitará nunca em arriscar tudo,
Na casa dos seus vinte anos, fará a estreia como empresária e produtora teatral, depois como atriz, construirá um teatro com o seu nome na cidade de São Paulo e lançará uma iniciativa absolutamente inédita, com a fundação, em 1963, do Teatro Nacional Popular, que leva ao povo nas periferias do Estado, a muitos milhares de pessoas, espetáculos de ,qualidade (Martins Pera, Suassuna...) no palco instalado num velho autocarro. Não é menos arrebatadora é a sua vida fora de cena. com quatro filhos em três casamentos (o primeiro anterior a esta década, o segundo com o poeta e dramaturgo Escobar, o terceiro com o arquiteto Wladimir Cardoso, que viria a ser o cenógrafo das suas peças de enorme sucesso artístico (como "Cemitério de automóveis" de Arrabal com montagem do argentino Vitor Garcia e encenação de Ruth Escobar, uma dupla que, em 1969, com "O balcão" de Jean Genet, venceria todos os prémios, a nível nacional.
Os trinta anos de Ruth são passados no tempo conturbado de repressão e de medo em que se afunda o Brasil, a partir de 1964. O seu teatro converte-se em palco de luta pela liberdade de expressão, Sucedem-se as ameaças, as pressões, os ataques de comandos para-militares, a violência sobre os próprios atores. Na sua autobiografia, Ruth Escobar confessa que perdeu a conta ao número de ameaças, de prisões e interrogatórios, aos quais ia respondendo sempre com desafios a rondar o excessivo (como até ela reconhecerá, retrospetivamente). De uma das vezes, é Cacilda Becker, sua referência, mentora e amiga, que intervém junto do prefeito de São Paulo para conseguir a sua libertação: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou...
É nesta sua década que traz a Portugal alguns dos maiores sucessos, como "Missa leiga" e "Cemitério de automóveis" , que é objeto de proibição, exceto em Cascais, onde, pelo visto, a censura supunha ser inacessível a camadas populares...
É então que conhece as três Marias, que lê "As cartas", lê Simone de Beauvoir, e se converte ao feminismo, uma metamorfose que contribuirá para a conduzir a novas arenas, ao hemiciclo da intervenção parlamentar, onde fez história como pioneira, no universo masculino e fechado da política brasileira (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, visto que nunca teve outra nacionalidade além da portuguesa). Como feminista assumida, torna-se a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e, durante muitos anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das mulheres.
Entretanto casara, uma última vez, e tivera o seu quinto filho.
Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro. Ela que, aos 19 anos, fora de São Paulo explorar as riquezas culturais mundo, traz, então, a São Paulo, o mundo das artes cénicas, o que de melhor se fazia nas grandes capitais. Em 1976, igual iniciativa tem o mesma força renovadora no panorama e na história da arte dramática brasileira.
Depois de quase uma década no palco político de um Brasil democrático, volta, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como atriz e como empresária e, também, como promotora de festivais, em novos moldes, porventura menos elitistas, mas mais abrangentes de outras artes ,
Conheci-a em 82, num jantar na residência do nosso Cônsul- Geral, em que estávamos lado a lado e, como toda a gente, não fiquei imune ao seu carisma, que era feito de espontaneidade e de extroversão, de inteligência e de humor, de uma graça natural. Do que falámos? Do Porto, é claro, da sua e da minha cidade, que nos uniu em afinidades imediatas. Era evidente que ela permanecera uma portuguesa do Porto, ainda que sempre se tenha sentido parte de São Paulo e do Brasil. Por isso, deixa uma herança teatral, enraizada no Gil Vicente da sua juventude, e no vanguardismo em que projetou o seu talento ao longo de décadas, mudando a face do moderno teatro brasileiro . A sua última produção - a que, por sorte, pude assistir - pôs em cena "Os Lusíadas" , bem no centro de São Paulo, e, depois, em Portugal.
Ruth recebeu, ao longo do seu trajeto de realizações cívicas e artísticas, as mais altas condecorações brasileiras. a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França, onde estudou arte dramática, e até Portugal a distinguiu com a Ordem do Infante D Henrique..
Fica a faltar o Porto. Mas, talvez, agora que ela nos deixou, neste último 5 de outubro, o Porto a queira reclamar, bem viva na sua memória e na toponímia da cidade.
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