terça-feira, 13 de outubro de 2026

FUTEBOL, MUNDO DE AFETOS E EMOÇÕES

FUTEBOL, MUNDO DE AFETOS E EMOÇÕES 1 – Passei o último fim de semana a ler uma fascinante publicação sobre futebol, da autoria da Javier Marías, o grande escritor espanhol nosso contemporâneo. Não falhei um só dos seus romances, faltava-se, porém, este pequeno livro, intitulado “Selvagens e Sentimentais – Histórias do Futebol”. Nem sequer é recente, mas reapareceu, agora, nos escaparates da Livraria Bertrand da Rua 19. Trata-se de um conjunto de artigos, publicados em “El País” (ou no suplemento “El Semanal”), entre 1992 e 2000, por este incondicional adepto do Real Madrid, que combina futebol e Letras, numa prosa cheia de humor e sabedoria. Recomendo-o vivamente! A data é irrelevante, os seus escritos são intemporais (pena não ser ainda o tempo de Mourinhos, Pepes, Ricardos e Ronaldos - o primeiro português, Secretário, é de 1999 e não entra nas crónicas, onde são nomes de referência e infinita reverência Di Stefano, Kubala, Puskas e outras lendas do Real). Não precisamos de ser “madrilistas” para nos reconhecermos nas reações, confissões e máximas disseminadas, com mão de mestre, nas páginas de “Selvagens e sentimentais”. Nelas se recordam jogadas, protagonistas e episódios datados, mas, também, estados de alma, angústias e explosões de gozo - o belo-horrível de que se faz a vida, nos seus momentos mais intensos. E nelas se cruzam artes que raramente vemos associadas, futebol, literatura e cinema, que é termo de comparação recorrente nestes escritos de rara erudição e humor. Vai longe o tempo em que o futebol era universalmente mal visto pela intelectualidade e equiparado a “ópio laico” do povo e para a sua reabilitação muito contribuíram as exceções, os pioneiros, Camus e Nabokov, que foram guarda-redes dos seus clubes, e Javier Marías, que jogava a extremo-esquerdo. 2 – As minhas sintonias com este famoso madrileno, (que não era um Maradona nos relvados, mas merecia ter ganho o Nobel) são imensas, sendo a primeira o desejo de que a minha equipa ganhe, sempre, todos os anos, todas as semanas! Garantido esse objetivo constante e avassalador, emerge a segunda grande prioridade: que as nossas estrelas brilhem em lances inesquecíveis. Para mim, o futebol eximiamente executado em campo pela elegância, agilidade e sincronização de movimentos, equivalente a um ballet clássico, com o suplemento de mistério (sobre o desenlace do jogo) e com o sucedâneo musical dos cânticos rituais das bancadas. Eu digo “ballet”, Marías diz cinema, para ele há a “mão invisível” de um realizador, que através das épocas, mantem a identidade inconfundível das equipas. E assim distingue os três grandes“ de Espanha: O Atlético de Madrid parece-lhe um filme de Serge Leone (“muito tiroteio, e, no fim, tudo se afunda estrepitosamente”); “ O Barcelona influenciado pelas angústias vitais de Antonioni e de Bergman, até ter optado ultimamente pela euforia mortal de Rambo”; “Quanto ao Real Madrid, lembra Hitchcock, cujos filmes se veem com a alma em sobressalto, mas costumam acabar bem”. Marías, na idade adulto, como em menino, privilegia os jogadores e os atores da sétima arte sobre os outros protagonistas, treinadores, realizadores, presidentes de clube, produtores. Como nos seus tempos de criança, em que todos colecionavam os cromos das estrelas, do cinema e do desporto, e ninguém queria saber quem era o presidente do clube. Agora, anda tudo às avessas, em Espanha, e por cá, também. Eu até já dei por mim, de vez em quando, a detestar mais o SCP do que o SLB (que está para o FCP como o Barça para o Real), só por achar de baixíssimo nível o Frederico Varandas e bastante mais tratável o Rui Costa. Uso, note-se, linguagem branda, ao contrário de Javier Marías, que zurze os seus alvos de crítica sem dó nem piedade, por exemplo, adjetivando de “tontos demagógicos” Blatter e Havelange. Imaginem o que chamaria, hoje, a Infantino… O futebol permite-nos esta inteira genuinidade e franqueza e até o seu excesso. É o mundo de infância, que permanece em nós. Para Javier Marías, a violência que, por vezes, irrompe na modalidade não tem a ver com o facto de ser jogada com os pés, com uma suposta dureza intrínseca. É, sim, desencadeada pelas emoções. O clube que aprendemos a amar em pequeninos é espaço mágico de pertença e partilha da mesma vontade de vencer, vencer, vencer. Sempre! O que conta não são as vitórias de ontem, é a vitória de amanhã. Um eterno recomeço, tal como, diz-nos Marías, no mito de Sísifo, que os gregos viam como castigo e nós como um dever de glória. É por isso que ele quer o seu Real composto por um “núcleo duro” de atletas formados no clube, no meio afetivo em que se geram os adeptos vitalícios e incondicionais. “Só com o profissionalismo e a técnica não se joga um jogo tão passional como o futebol”, escreve, defendendo o ideal de “reforçar a equipa com bons jogadores, que se vão integrando, pouco a pouco, e que os adeptos vão chamando seus, individualmente”. Com imensa graça, queixa-se do arquirrival Barcelona nas épocas de Van Gaal, que trouxera consigo grande parte da equipa do Ajax, com a qual fora campeão nos Países Baixos. Porquê? Porque não lhe dava gozo ganhar a um Barça descaraterizado, uma espécie de Ajax da Catalunha. Porém, um Real Madrid descaraterizado seria desgraça ainda maior. 3 - Como eu o compreendo! Penso, nostalgicamente, no FCP da minha infância, onde era invariável a preponderância de vedetas nascidas no clube. Recordo o exemplo do herói portista, que me permitiu festejar o meu primeiro campeonato, Yustrich. Veio de Minas Gerais e trouxe consigo apenas dois reforços: Gastão, um médio de alta craveira, e Jaburú, um super Jardel, que era imparável, com a bola nos pés. No século XXI, uma equipa de “portistas natos” tornou-se, praticamente, uma utopia, mas houve, sobretudo, dois treinadores, que conseguiram brilhar com a “prata da casa” (já não inteiramente coincidente com a “formação da casa”): Mourinho e Sérgio Conceição. Confesso que não acreditei em Mourinho, com o seu ar de galã de cinema, a gabar-se de que seria campeão no ano seguinte com um modestíssimo investimento em três desconhecidos, Derlei, Nuno Valente e Paulo Ferreira. Dois do Leiria e um do Vitória de Setúbal. Felizmente, enganei-me e fomos mesmo campeões, em Portugal, na Europa, e, depois, (já sem ele, mas ainda graças a ele) no mundo. Em época de “vacas magras”, Sérgio Conceição não foi tão longe, mas fez milagres logo no 1º ano, não só ao dar-nos o título, como ao interromper a marcha do SLB para o penta. E sem um só reforço sonante. Motivou os que lá estavam, chamou algumas “promessas” das camadas jovens, foi buscar os que andavam emprestados por esse mundo fora – entre outros, Marega, Aboubakar e Sérgio Oliveira. Depois, sem nunca ter o que queria, foi somando títulos, e, na esteira de Mourinho, mostrou verdadeira classe internacional, pela forma como o “team, em regra, se exibia na “Champions”. No extremo contrário coloco dois treinadores que estão na minha lista negra: Co Adriaanse e Julen Lopetegui. Adriaanse, entre outras coisas, por perseguir os meus favoritos Vítor Baía, símbolo vivo do “portismo”, e o empolgante Diego, que, depois, levaria às costas o Werder Bremen o o Atlético de Madrid de Simeone. Lopetegui por ser, no meu tempo de vida, o maior erro de “casting” da história do clube. Desgraçadamente, sobre o fracasso, que eu, na altura, profetizava em angustiados escritos, despejaram dinheiro à farta. Reforços de luxo foram mais de uma vintena (alguns, note-se, por empréstimo). Um recorde de investimento no plantel, que só foi batido agora! Eu sei que, com Farioli, fomos campeões no ano passado e temos esperança no “bis”, mas não gosto da sua opção por um plantel que cumpre, em termos de jogadores nacionais e da formação, pouco mais do que os mínimos impostos de fora. São[U1] cerca de vinte os estrangeiros que podem alinhar na equipa principal ou sentar-se no banco (e já se foram Thiago Silva e Luuk de Jong), e três ou quatro os nacionais vindos de outros clubes. Não quero azarar, quero vencer, seja com quem for. E quem sabe se um, ou mais, daqueles rapazes que têm nomes difíceis de pronunciar vão ficar connosco e fazer história? Tal como acontece no Real Madrid, são, afinal, estrangeiros algumas das lendas eternas do FCP: Madger, Deco, Hulk, Falcão… Do melhor Porto que vi jogar neste século ainda não falei: foi o de Villas Boas. Maravilha das maravilhas, não só pelos resultados (campeonato sem derrotas, vitória por 5-0 ao SLB, Liga Europa, Taça, Supertaça), mas, também, pela fulgurante beleza do seu jogo de ataque. Alcançou o equilíbrio perfeito entre os craques que aqui encontrou - Hulk e Facão num coletivo poderoso em todos os setores - e as aquisições cirúrgicas, como James Rodriguez, Otamendi ou Moutinho. Originalidade nossa, esta de ter um presidente que faz falta como treinador (gerir tanta qualidade, não foi coisa fácil, foi obra-prima!). No Porto haverá sempre lugar para os grandes executantes da arte do futebol, para os recém-chegados, venham de onde vierem, e para os que partiram cedo demais, e estão nos nossos corações, os Moras, os Vitinhas, os Quaresmas, os Diegos. Tem toda a razão Javier Marías - o futebol é, acima de tudo, um mundo de afetos. .

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