quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A VER "A VOLTA" PASSAR


A VER A " VOLTA" PASSAR

1 - Uma das melhores recordações da minha infância é a de ver a "Volta" passar, umas vezes, em pelotão compacto e rápido, que logo desaparecia na primeira curva, outras em que o espetáculo se prolongava, graças a fugas individuais ou de pequenos grupos, sempre muito saudadas, quaisquer que fossem as cores das suas camisolas. Nos anos cinquenta, já os três grandes clubes do futebol português se defrontavam também na estrada, o que dava à corrida mais paixão e mais impacto mediático. Era o acontecimento- rei do mês de agosto!. Um desporto de resistentes, de"heróis",  todos e qualquer um, mereciam do público, (composto por homens, mulheres, famílias inteiras), alinhado nas bermas dos caminhos e amontoado em pontos estratégicos, os mais entusiásticos aplausos e  incitamento, quando não, também, uma garrafinha de água...  E ali ficávamos, num ambiente de romaria, quase invariavelmente sob um sol tórrido, até que a aproximação do "carro vassoura" desse o sinal de retirada, fechando o cortejo.
O Porto, então, não vencia sempre, como  tem acontecido, desde o seu feliz regresso à modalidade, em 2016, mas ganhava muito mais do que no futebol. A luta norte/sul era equilibrada. O norte não se circunscrevia ao FCP, que tinha a companhia de Leixões, Boavista, Académico, Maia, ou, mais ao centro, Sangalhos... O sul não se reduzia aos dois colossos da capital, era, igualmente, Campo de Ourique, Carcavelos ou CUF, e estendia-se ao Algarve, com destaque para Tavira e Loulé.
Na primeira Volta, em 1927, foram, por sinal, homens do Carcavelos, Leixões e Campo de Ourique as figuras principais, que inscreveram o nome no topo da classificação geral.
A regularidade da competição só se conseguiu a partir de 1931, com raras interrupções provocadas, no início da década de quarenta, pela Grande Guerra, por razões que desconheço  em 53/54, e, em 1975, pelo PREC.
Ainda eu não era nascida quando os míticos José Nicolau (Benfica) e José Trindade ( Rio de Janeiro e, depois, Sporting) comemoraram vitórias individuais e ofereceram aos companheiros a coletiva.
O FCP fez a fulgurante estreia em triunfos, coletivo e individual, com Fernando Moreira, em 1948, e repetiu o feito com Dias dos Santos, em 1949 e 1950, quando eu aprendia as primeiras letras e já teimava em soletrar as notícias da "Volta" no Janeiro e no Comércio. Dias dos Santos foi o primeiro que vi, de perto, e nunca esqueci a receção apoteótica com que a cidade do Porto o recebeu, nem o seu sintético e pragmático discurso, quando lhe foi pedido para falar à multidão: "Ena, pá, limpámos o sebo à malta de Lisboa!". É difícil dizer mais em menos palavras! Foi um delírio!
A década de 50 começou com a segunda vitória de Dias dos Santos, e foi mais"nortista" do que propriamente "portista", com a ascensão imparável de Alves Barbosa (Sangalhos) e de Ribeiro da Silva (Académico). O  FCP somava mais títulos de equipa do que individuais. Um destes, em 1952, foi o de Moreira de Sá, atleta de eleição. Não posso precisar a data em que emigrou para a Venezuela na veste de empresário, mas sei que aí deixou fama mais duradouramente - a ele se deve a introdução do ciclismo de competição naquele País! Um pioneiro, de quem muito se orgulham as comunidades portuguesas.
Só em 1959 o FCP voltou a um triunfo individual, com Carlos Carvalho, que repetiria nos anos seguintes com Sousa Cardoso,José Pacheco e Joaquim Leão.,
A década de 70 foi indelevelmente marcada por outro "imortal": Joaquim Agostinho, com as cores do Sporting, Apenas em 1979, o "meu" FCP voltou a vencer, por equipas e individualmente, com Joaquim Sousa Santos e os anos 80 começaram em pleno, no pódio em três anos sucessivos, com Manuel Zeferino (1981) e Marco Chagas (1982 e 1983), mas, afinal,seguir-se-ia um longo interregno de mais de três décadas..
O Sporting desapareceu da história gloriosa da Volta, pouco depois, com um último êxito de Marcos Chagas, em 1985. O Benfica ganhou a sua derradeira "Volta" anos mais tarde, em 1999, mas ainda não retornou ao contrário dos rivais - que são rivais, sobretudo, no futebol.

2 - Quando sumiram do pelotão as camisolas clubistas azuis e brancas, verdes e brancas e vermelhas, a magia do ciclismo não se perdeu, de todo, embora, mesmo com o envolvimento de tantas e tantas marcas comerciais, com a chegada de concorrentes estrangeiros, e com os êxitos internacionais dos nossos ciclistas de elite, algum entusiasmo andasse perdido.... É esse, pelo menos, o muito subjetivo sentimento, que me leva a olhar nostalgicamente as corridas do passado, mais amadoras, sim, mas mais apaixonantes, e não menos duras, pois se prolongavam por três semanas e atravessavam, de facto, o país, de lés a lés -  não, apenas, percursos salteados por pura conveniência e em apenas dez  "episódios", como numa telenovela curta. Espinho, por exemplo, esteve, muitas vezes nesses roteiros e chegou a acolher chegadas e  partida de etapas.
Apesar de assim abreviada, a Volta a Portugal dá sinais de ressurgimento e, depois do "Tour", da "Vuelta" e do "Giro", parece ser mesmo a melhor, a nível europeu. O duelo Porto - Sporting/Tavira, e o despique com outras equipas de antigos pergaminhos, como o  Boavista.e o Louletano, (ficando ainda a faltar o SLB), ajudam a reconciliar a competição com as suas tradições e a trazer mais e mais gente de volta à Volta.
Em 2019, Gaia e Porto  chamaram a si o final da competição e foram amplamente compensados. O vereador da Câmara de Gaia, Guilherme Aguiar, fez título de jornal, afirmando: "Eventos destes são rentáveis na nossa promoção" (no plano nacional e internacional) e o administrador da "Porto Lazer" foi também claro, ao dizer: "Faltava-nos recuperar esta aposta na Volta", querendo com isso significar que, depois de "grandes eventos com automóveis, barcos e aviões", chegara a vez do ciclismo. Em boa hora, porque a tripla vitória do FCP, na etapa e na classificação individual, com o jovem João Rodrigues, e na coletiva, ajudou a juntar uma multidão imensa, fantástica e ordeira, como é habitual nas festas do Porto, que são sempre mais um São João, antes ou depois do que se celebra a 24 de junho. 
Os números, a quantidade e a qualidade da participação popular, (tal como as audiências da RTP...), vieram comprovar que, afinal, os portugueses continuam fiéis aos seus desportos favoritos, o futebol e o ciclismo  (a que poderemos acrescentar o hóquei em patins, pois não sendo jogo de atrair multidões desta ordem, tem lugar cativo no coração dos portugueses).

3 - No dia seguinte, procurei na imprensa o eco daquela esplêndida manifestação desportiva. Para surpresa minha, (ou talvez não...), a melhor reportagem não pertencia a nenhum dos três diários especializados que lhe davam uma modesta entrada num cantinho da primeira página e parcos comentários no interior. O destaque merecido surgiu apenas no DN, que lhe dedica as primeiras páginas da secção de desporto, antes do inevitável futebol, bem como chamada de capa, com uma grande e belíssima imagem de Gustavo Veloso (o veterano galego, já por duas vezes vencedor da Volta, a quem só uma queda terá tirado a enorme probabilidade de repetir a proeza), levando aos ombros João Rodrigues, com o povo eufórico em fundo. 
Imagem duplamente  simbólica, tanto de admirável companheirismo num desporto em que tem de imperar a generosidade e a capacidade de sacrifício, como de uma aliança entre gerações, reunindo a classe do mais velho e a impetuosidade do mais jovem. Imagem que, afinal, documenta, na perfeição, o segredo de uma vitória  do Porto clube no Porto cidade.

terça-feira, 2 de julho de 2019

EXPOSIÇÃO "MULHERES E CIDADANIA" na 3ª BIENAL de GAIA



A criação artística, como expressão cultural da cidadania tem, assumidamente, o seu lugar no mundo da 3º Bienal Internacional de Arte de Gaia. Com esta exposição temática, "Mulheres e Cidadania", e o colóquio sobre o mesmo tema, procuramos, em diálogo, mundividências de migrantes, de estrangeiras, ou seja, diferentes olhares de mulheres de outros países e culturas sobre si mesmas, as suas sociedades, a particularidade das suas vivências, enquanto parte emergente da Humanidade, após um silenciamento milenar, do qual tão poucas lograram libertar-se.
As Mulheres chegaram, na nossa época, a este como a outros domínios, para ocupar o vazio da sua própria ausência, ou relativa ausência, num universo dominado por padrões masculinos. Desde sempre artífices de múltiplas formas de produção artística - artesãs, cultoras anónimas do esteticamente belo na esfera privada, das máscaras primitivas aos trajes, à decoração ou à pintura -  só com a entrada na esfera pública, começaram a ser reconhecidas. Porém, com que dificuldade, com que suplemento de esforço, de audácia e de talento, conseguem fazer caminho? E de que modo essa vontade de transcendência, a par de outras especificidades, se reflete no trabalho artístico? Pode ele constituir-se, não só em instrumento de construção do "eu", de auto-afirmação, mas, também, de reconstrução social? Será um meio, por excelência, de representação do feminino e da intervenção cívica? E há, verdadeiramente, uma  "Arte no feminino" -  um modo diferente de estar no terreno das Artes e das Letras, da Música, tal como do Desporto, ou da Ciência? Ou nada é de resposta fácil e evidente no processo que se desenha entre a natureza invariável do sexo e as condicionantes essencialmente mutáveis de género? 
Visível e incontornável é, ainda, a discriminação, que marginaliza, em todos os campos, o "feminino". Certa é a importância da sua inclusão progressiva no "Todo", significando duplicação de contributos, de criatividade, de génio, uma dinâmica nova, em absoluto, um "avanço civilizacional", como dizia Emmeline Pankhurst.Se a Arte quer ascender a uma dimensão universal não pode prescindir da presença e da interlocução entre géneros, bem como entre povos e suas variadas e fascinantes heranças culturais, que o fenómeno histórico de infindáveis  migrações serviu para pôr  em contacto e progresso.
 Uma mostra simbólica de obras de mulheres migrantes ou estrangeiras (e estrangeiras foram, tradicionalmente, todas no seu próprio País, que lhes negava direitos e pública aceitação...) pretende, antes de mais, no espaço e no tempo da Bienal, dar livre curso ao questionamento do presente e às possíveis reconfigurações do futuro

Maria Manuela Aguiar, Comissária
(in Catálogo da Bienal)

CCP PARIDADE


Sobre a proposta das Conselheiras do CCP para o reforço da Paridade no "Conselho
2 de junho de 2019

Senhora Conselheira Luísa Semedo

Agradeço a informação recebida e muito me regozijo com esta histórica iniciativa das Conselheiras do CCP,  
 Estou inteiramente de acordo com as propostas avançadas e quero felicitá-las pela forma tão objetiva e tão convincente como a defendem, pondo o acento na incompatibilidade entre a própria definição de democracia e a situação de discriminação de género subsistente no CCP, quase 40 anos depois de ter sido instituído.
 Tive o privilégio de acompanhar de perto o seu nascimento e evolução, enquanto membro do Governo e Deputada da emigração, desde a a feitura da lei em 1980 e a realização da reunião plenária inaugural, em abril de 1981. Nesse primeiro encontro mundial, não havia uma única mulher eleita pelo colégio eleitoral formado, então, por dirigentes associativos das Comunidades. o que não podia deixar de prejudicar a imagem, credibilidade  democrática e eficácia de um Órgão de representação e consulta tão importante. Essa inadmissível discriminação espelhava, porém, a realidade de um movimento associativo caraterizado pela absoluta predominância masculina e tornava-se, por isso, extremamente difícil de combater. Nas eleições de 1983, apenas duas mulheres ganharam acesso ao Conselho, ambas jornalistas, uma de Paris, outra de Toronto e só em 1985 surgiram as primeiras conselheiras oriundas do movimento associativo, notáveis pioneiras de reconhecida competência, apesar da qual nunca foram escolhidas pelos seus pares para qualquer cargo de direção. 
Após um longo interregno, que se estendeu de 1988 a 1996, a adoção, nesse ano, de um novo modelo de Conselho, a eleger por sufrágio directo e universal, parecia abrir perspetivas ao maior equilíbrio de sexo, logo frustradas, pois a componente feminina manteve-se diminuta e afastada das lideranças, por mais qualificada e influente que fosse  -  e era!
 Só a imposição de quotas, (de que, há muito, sou adepta declarada), tanto nas eleições nacionais e autárquicas como no CCP, se revelou decisiva para os progressos registados na última década, ficando embora ainda aquém das metas da paridade. E, infelizmente muito mais no Conselho das Comunidades  do que, por exemplo, na Assembleia da República. Ora quanto maior for a continuada resistência a uma intervenção feminina igualitária, mais necessário é reforçar a eficácia da aplicação das regras da paridade, procurando detetar, denunciar e impedir os desvios concretos ao espírito e aos ditâmes da lei. É exatamente o que, em relação ao caso particular do CCP, vêm propor, com rigorosa argumentação, as Senhoras Conselheiras,
Acredito que conseguirão alcançar os objetivos e, com isso, dignificar a Instituição, dar-lhe a sua verdadeira dimensão representativa, e contribuir, em simultâneo, para um novo fôlego, na Diáspora, das políticas públicas para a igualdade, que constituem, nos termos da Constituição, "tarefa fundamental" da Estado. No passado, o CCP  teve já, por sinal, um papel relevante na génese das políticas para a igualdade, graças à recomendação de uma Conselheira de Toronto, Maria Alice Ribeiro, que levou, em linha reta, à convocatória, pelo Governo, do "1º Encontro de Mulheres no Associativismo e no Jornalismo", em 1985. Uma reunião inédita, em que grandes mulheres das Comunidades de todo o mundo mostraram o seu conhecimento das problemáticas da emigração, capacidades de diálogo e criação de consensos, comprovando, assim, a medida exata da falta que a sua voz fazia no Conselho,.
Permitam-me, por último, felicitá-las pelos resultados já atingidos, sobretudo a nível regional, redobrando fundadas esperanças no futuro Conselho, no impacte que nele terá, certamente, a sequência desta tomada de posição conjunta das Conselheiras.  
Para todas envio cordiais saudações, com a minha inteira solidariedade e muito apreço

quarta-feira, 29 de maio de 2019

UM MILHÃO DE NOVOS VOTOS DA EMIGRAÇÃO


UM MILHÃO DE  NOVOS VOTOS PARA A ABSTENÇÃO

1 - Em democracia, a abstenção nunca é uma vitória, mas atingir, entre nós, nas Europeias, os quase 70%  torna-a em algo de semelhante, ou seja, na faceta mais extraordinária deste processo eleitoral e num novo record português, dando-lhe um lugar cimeiro no conjunto dos países da UE.
É certo que, para isso, uma contribuição poderosa e inédita veio do recenseamento automático de mais de um milhão de portugueses residentes no estrangeiro, a quem foi garantido, (bem!), em condições de igualdade, o direito de voto, sem que lhes fosse (mal...) dada, em condições de igualdade, as mesmas oportunidades concretas de exercício do direito..
Na verdade, por força da lei, sem serem ouvidos nem achados, viram,-se os emigrantes todos, incluídos nos cadernos eleitorais, desde que estivessem identificados com o seu cartão de cidadão - como acontece dentro de fronteiras. 
Eliminada uma discriminação, viram-se, assim, sem poderem levantar a voz, vítimas de uma outra discriminação, que os impede de aceder. efetivamente, ao local de voto. Enquanto no país dispomos, todos, do nosso a dois confortáveis passos de casa, eles têm de se deslocar a um consulado, que para a maioria fica a dezenas, a centenas, quando não a milhares de quilómetros da residência.
 Claro que podiam ter sido criadas outras assembleias ou secções de voto de proximidade, coisa que,no discurso político é fáceis de prometer,, mas na prática, muito difícil de operacionalizar e muito oneroso, As que existiram foram a gota de água no oceano, e, como era de esperar, a abstenção fora de fronteiras, ultrapassou os 99%, Quer isto dizer que aquele milhão de votos novos  foi, em massa, alimentar o monstro da abstenção.

2 - A multiplicação das mesas de voto não era , aliás, o única meio de facilitar o exercício do sufrágio na emigração, Uma outra teria sido reconhecer a livre opção pelo voto por correspondência (que é o praticado nas eleições legislativas, sempre mais concorridas do que as presidenciais. justamente porque estas, como as europeias, obrigam ao voto presencial).  E, talvez também tivesse sido possível, fazer as primeiras experiências do voto eletrónico em Paris ou São Paulo, em vez de Évora, ou em simultâneo com Évora...
Como decorreu a campanha lá fora?. É o que não se sabe, pois das especificidades da emigração não se curou... E muitas há! A começar por um relacionamento extremamente heterogéneo com a terra de origem, que.para uns, sobretudo da primeira geração, passa por laços de toda a ordem, incluindo a política, enquanto para outros se centra, essencialmente, no campo da cultura e dos afetos, como acontece com a maioria dos luso-descendentes, mesmo que possuam cartão de cidadão e passaporte e se orgulhem das suas raízes e tradições. Não acompanham, contudo, de perto as vicissitudes da vida partidária, parlamentar, eleitoral e só uma parte desse vastíssimo grupo pode, de facto, ser atraído à participação por um esforço de esclarecimento e incentivo dos candidatos, e,  também, do Estado, através do rede diplomática - esforço que não me parece ter, como regra geral, existido. Um tão fantástico gesto revolucionário do legislador, promovendo a enorme expansão. do universo eleitoral devia ter sido precedida de medidas concretas que permitissem a sua repercussão eleitoral, que, como se viu, foi quase nula. E hoje, com novas tecnologias, com as redes sociais, a missão torna-se menos impossível ou utópica...  
Não significa isto que os media tradicionais, não tenham, também, um papel a jogar. Ficaram-se, porém, por escassas alusões, algumas, por sinal,  alertando, como era curial, para os obstáculos à efetivação do sufrágio. No final, apenas 12.136 dos 1431.825 eleitores (menos de 1%!), conseguiram  superar  as dificuldades, em primeira linha, a distância física. Nas europeias de 2014 eram somente 244.986 e o número de participantes foi apenas um pouco menor, pelo que a abstenção  foi muitíssimo inferior. 
Note-se que  no espaço da União Europeia nem todos os não votantes são abstencionistas, pois há que que optam pela intervenção no país de acolhimento, ou os que nem podem optar, se estiverem inscritos no recenseamento eleitoral local. O que é comum, por exemplo, no maior país da emigração portuguesa, a França, onde se envolvem, crescentemente, nas autárquicas. Assim, em vez de assinalarem  os Pedros ou Paulos de Portugal, têm de escolher entre Macron  e Le Pen... O que explica o facto de ser ainda mais elevada a abstenção no círculo da Europa no que no círculo Fora da Europa.
3 - Falo de Paulos e Pedros, porque foram eles os vencedores na nossa emigração, Embora não conheça, ainda, todos os resultados, por área consular e país, sei que na Europa ganhou, folgadamente,
o PS de Pedro e Fora da Europa o PSD de Paulo. 
A imensa dilatação do universo eleitoral, não alterou tendências e equilíbrios preexistentes, coisa natural, até porque também  foram, praticamente os mesmo que se manifestaram nas urnas. A Europa  está sempre mais sintonizada com as maiorias que se afirmam no país, os outros continentes mais resistentes a afirmações conjunturais. Mas cada vez menos... veremos o que acontece nas Legislativas, onde a ponderação de voto surge, doravante, como escandalosamente discriminatória. Na verdade, a Lei impõe um teto à representação parlamentar dos emigrantes, o baixíssimo teto de quatro deputados, dois no círculo da Europa e dois no círculo Fora da Europa. Se já era de menos para cerca de 300.000 eleitores, para 1 400.000  é insignificante. Mas os emigrantes só ganharão força para exigir o aumento do número dos seus representantes se aumentarem significativamente a votação, ou seja, com eleitores reais não na sombra fantasmagórica dos abstencionistas

domingo, 26 de maio de 2019

UMA DÉCADA PRODIGIOSA

UMA DÉCADA PRODIGIOSA

 O jornal "As Artes entre as Letras" é, antes de mais,  um movimento cultural, uma obra de Autores que cresce, de quinzena em quinzena, ano a ano, sem deixar de ser, afinal, uma obra de Autora, com a assinatura de Nassalete Miranda.
Ninguém melhor do que ela sabe falar de empreendedorismo cultural, ninguém melhor do que ela pode falar com um saber de experiência feito.
Dura há uma década esta grande aventura no espaço infinito das Letras e das Artes, que tem o Porto como seu "porto de partida" para uma viagem sem fronteiras. nem limites - pois estes são sempre para transcender.... "O Porto é uma Nação", sim, mas  a mais aberta a todas as Nações à pluralidade das Lusofonias, no jogo de interinfluências com outras línguas.e modos de expressão artística.
O Jornal é, também, uma comunidade em diálogo pela leitura e pela emoção estética, que começa, verdadeiramente, sempre, na primeira página, nas capas, que perseguem  a perfeição e teimam em a atingir..Depois, página e página, nele convivemos com a memória e a reinterpretação de obras das várias geografias e épocas, (e, não só da contemporânea),  quantas vezes, redescobrindo a sua modernidade, numa visão ampla, e cosmopolita, como a própria cidade, hoje percorrida e amada por gente vinda de todos os lados. E nele encontramos, igualmente, um precioso e insubstituível registo de realizações quotidianas, de invulgares dinâmicas com que a sociedade e o poder local servem a expansão destes domínios no Portugal nortenho.
Parabéns, Nassalete, uma "Mulher de armas" -  as armas da Cultura, da inteligência e da convivialidade!. 
Uma década na caminhada  de um projeto tão ousado  é uma "prova de vida", uma promessa de futuro e a certeza, já conquistada. do seu lugar na história do grande jornalismo português.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

OBSERVA MAGAZINE 2 ENTREVISTA


 OBSERVA MAGAZINE Grande entrevista com Maria Manuela Aguiar

Quem é Manuela Aguiar? Uma Senhora ainda recordada como exemplo de vida na notoriedade que conferiu à Diáspora portuguesa. Assumiu a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, no VII Governo Constitucional liderado por Pinto Balsemão, em 1981. Encontrava-se a assumir a pasta do Ministério dos negócios estrangeiros, André Gonçalves Pereira.
OM:  Muito agradecidos por nos conceder a honra desta entrevista

M A: Eu é que tenho de agradecer a possibilidade de partilhar com todos os leitores de Observa Magazine recordações de tempos e acontecimentos que vivi, há tantos anos!.

Assumi a SEECP, a convite do Dr Francisco Sá Carneiro, nos primeiros dias de janeiro de 1980. Era Ministro dos Negócios Estrangeiros o Prof Freitas do Amaral. Não os conhecia pessoalmente até esse dia, em que que reuni com eles, na Rua Gomes Teixeira, na altura em que preparavam a formação do VI Governo Constitucional. Conversámos como amigos de longa data, de um modo informal e descontraído. Foi o início de uma caminhada vertiginosa, em que Sá Carneiro impunha o ritmo e todos dávamos o máximo, num ambiente de coesão e de solidariedade, que nunca mais reencontrei na vida pública. Até 4 de dezembro, 1980 seria o meu melhor ano de sempre, até hoje!
 Intervir na política, não estava no meu horizonte. Sentia-me bem em trabalho de gabinete, como assessora do Provedor de Justiça. Antes tinha sido assistente de um Centro de Estudo Sociais e de várias Universidades. E fizera, em 1978/79, uma passagem por um breve governo de independentes presidido pelo Prof Mota Pinto - na pasta do Trabalho. Tinha quadrante ideológico - era "social-democrata à sueca" - mas não filiação partidária. Não fui pressionada a inscrever-me no partido, mas fi-lo, impulsivamente, devido à minha perfeita sintonia com as posições de Sá Carneiro . E com isso, me tornei a primeira mulher do PSD a ocupar um cargo governamental. Depois, acabei por perfazer o total de 5 governos, e por ficar na Assembleia da República quase duas décadas e na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa por cerca de 14 anos.

OM: Estando interessados em tentar escrever a história e as histórias desta importante e nobre função de quem assume uma secretaria que permite e fomenta o contacto com as comunidades portuguesas espalhadas pela Diáspora portuguesa, conte-nos qual o primeiro impacto com essa realidade.

M A - Foi, antes de mais, a verdadeira descoberta de um "outro Portugal", que os portugueses recriam no estrangeiro e que é largamente ignorado, dentro do País. Tive, a preocupação de fazer viagens em que circulava, de cidade em cidade, entre comunidades, com o objetivo de conseguir, mais depressa e melhor, uma perspetiva ampla do universo da emigração, estabelecendo comparações, e podendo transmitir experiências de umas para as outras. Queria estabelecer as singularidades e as constantes, no que respeitava a realizações, problemas  carências, para definição de prioridades, e procura de formas de articulação e parcerias viáveis,  .

 Na primeira visita, em 20 dias, corri os EUA e o Canadá, de costa a costa. Na segunda, o Brasil - da Amazónia, do Pará e de Pernambuco ao Rio Grande do Sul. E, depois, os muitos países onde está a nossa emigração. Como os programa de visitas se centravam nas associações, igrejas, escolas portuguesas, clubes, no pujante movimento associativo, quase não via as cidades, as paisagens circundantes, e voltava com a espantosa sensação de não ter saído da minha terra, apesar de ter feito tantos milhares de quilómetros. Era como se Portugal fosse imenso! E, de facto, é,  se olharmos a sua gente para al+em do seu território..

O M : o que mais a comoveu nesse contacto direto?

 M A: O genuíno portuguesismo das pessoas! A paixão por manter tudo o que consideravam identitário, que lhes permitia unirem-se e criarem espaços culturais de presença nacional, com os seus modos de estar, as suas tradições de convivialidade. Encantou-me, desde esses primeiros contactos, a hospitalidade com que era recebida, tanto em salas modestas, como em grandiosos salões, que pareciam  transplantados das várias regiões de Portugal, com o seu ambiente de tertúlia, a sua gastronomia, dança, música, celebrações religiosas... Ver isto com os meus próprios olhos foi uma revelação poderosa, inspiradora. Afinal, o que eles faziam pelo país era infinitamente mais do que o que País jamais fizera por eles, como exigiaJF Ken nedy. Assim pensei e, décadas depois, continuo a pensar.
 OM:   Como definiria um traço ou uma característica inerente (de todas as comunidades espalhadas por todos os continentes) à vontade/ necessidade de emigrar no período em que exerceu funções?
 MA: Julgo que mais a necessidade do que a vontade. O êxodo migratório do século XX deveu-se, sobretudo, à pobreza, ao desemprego, aos baixos salários. Foi, em percentagens muito elevadas, clandestino - sobretudo na segunda metade do século, quando de dirigiu, sobretudo para a Europa (a emigração "ilegal" passou a média de um terço, que vinha de épocas recuadas e chegou a ultrapassar os 50%). A melhoria das condições de vida dos que haviam partido contribuía enormemente para familiares e vizinhos verem na fuga para o estrangeiro a única solução de futuro. Como hoje, os que atravessam o mediterrâneo, arriscando a vida! A situação não é tão diferente como poderá parecer. É apenas ainda pior, mais difícil, porque, no pós guerra mundial, o ciclo de desenvolvimento económico permitia uma rápida legalização e integração. Os Portugueses, depois de um início difícil, ganharam, quase todos, a aposta na aventura da emigração. Eduardo Lourenço disse dos protagonistas do "salto", nas décadas de 50 e 60, que foram "uma geração de triunfadores". É uma citação que uso, muitas vezes, porque é, globalmente, verdadeira e, além disso, expressa a homenagem, que o país se esquece, tantas vezes, de lhes prestar. .
OM: Qual a faixa etária que emigrava? Quais as suas qualificações académicas e profissionais?
M A: Jovens do sexo masculino, pouco qualificados. Era esse o perfil da nossa emigração tradicional. Mas não a dos governos a que pertenci. Quando, a partir de 1974, as leis e a Constituição Portuguesas vieram, por fim, consagrar plenamente o direito à emigrar, os outros países fecharam as fronteiras, após a crise petrolífera.... Na década de oitenta, registámos os mais baixos números de saídas de todo o século XX. (e deste começo de Século XXI). Os países desenvolvidos praticamente só permitiam a entrada para reunificação familiar às mulheres e filhos dos trabalhadores. Falava-se, e bem, de "feminização da emigração". Foi, por sinal, um movimento da maior importância, porque quase todas as portuguesas conseguiram aceder ao mercado de trabalho, ganharam uma autonomia profissional, que não tinham nos meios rurais de onde provinham, e deram um impulso fundamental aos projetos migratórios, do ponto de vista económico (pois contribuíam com um segundo salário) e social, (porque se converteram, de facto, com inesperado êxito, em mediadoras da inserção do núcleo familiar). Estavam, maioritariamente, inseridas no setor dos serviços, com contactos mais próximos na sociedade local e isso deu-lhes a compreensão das suas especificidades, tal como da necessidade de proporcionarem aos filhos as vantagens da educação e formação, que eles não tinham. A emigração feminina influenciou, assim, decisivamente,a reconversão cultural e o sucesso económico dos projetos migratórios de 50 e 60. Na altura, ninguém o podia prever. Hoje essa avaliação está cientificamente demonstrada (vejam-se os trabalhos pioneiros da Profª Engrácia Leandro, na década de noventa, na região de Paris).

OM :  quais eram os países eleitos pelos portugueses para se emigrar?

MA: A Suiça foi, a partir de 80/81, uma exceção no panorama europeu. Nesses e nos anos seguintes, recrutou dezenas de milhares de trabalhadores portugueses ,maioritariamente, homens, para a agricultura, construção civil, a hotelaria... Novos destinos, que geraram expetativas, (depois não confirmadas), foram alguns países do sul do Mediterrâneo e do Médio Oriente. Os números nunca viriam a ser elevados e corresponderam a contratos bem remunerados, mas temporários.
Outra situação nova, com que me vi confrontada foi o enorme afluxo de regressos, em média 30.000 a 40.000 por ano. O retorno dramático dos portugueses de Angola e de outras colónias estava ainda bem presente na memória coletiva e este segundo retorno provocava nos "media",na opinião pública, e até na classe política uma inquietação indisfarçável. Vi-me muitas vezes isolada, e mal compreendida, ao explicar que se tratava de um processo radicalmente diferente, um movimento voluntário, planeado pelos próprios emigrantes, dirigido, sobretudo, para as regiões de origem e, por isso, desejável, essencial mesmo, para o repovoamento e progresso do interior (desertificado pelo êxodo migratório das décadas anteriores). Os apoios à reinserção, (medidas fiscais, isenções, empréstimos a juro bonificado). foram utilizados habilmente, e o País ganhou muito com os que vieram (mais de meio milhão só nessa década de que tratámos) sem perder os que se que fixaram lá fora, formando as comunidades extra-territoriais, que corporizam a nossa "Diáspora".
 O M:  No seu entender quais foram os países que mais se esforçaram por justamente atribuírem a lusodescendentes cargos decisores, nomeadamente de responsabilidade política
 MA: O Brasil, sem dúvida. É um país tão próximo, que os portugueses na sociedade brasileira tendem a ser tratados como nacionais. Desde 1971, o Tratado de Igualdade de Direitos e Deveres entre Portuguese e Brasileiros concedeu direitos políticos aos imigrantes do outro País. a nível nacional, enquanto, por exemplo, o estatuto de cidadania europeia, ainda hoje, limita a capacidade eleitora e ativa e passiva, ao nível local. Em 1989, os Constituintes brasileiros foram ainda mais longe, atribuindo aos portugueses, sob condição de reciprocidade, todos os direitos da nacionalidade brasileira, equiparando-os a brasileiros por naturalização. A luta pela dação da reciprocidade por parte de Portugal foi a minha " causa maior", enquanto deputada e prolongou-se por cerca de 13 anos. Foi conseguida numa revisão extraordinária da Constituição em 2001 - e graças ao apoio de Políticos sensíveis às particularidades do universo da lusofonia - caso  de Durão Barroso e de Mário Soares, que foi absolutamente decisivo. Desde essa data, o estatuto de cidadania luso-brasileira consolidou-se como o mais avançado nível universal, atualmentel! E, se, entre nós, ainda não vemos os imigrantes brasileiros em lugares de destaque, no Brasil são muitos os Portugueses que ocupam altos cargos na Magistratura judicial e na política, a todos os níveis, local, estadual e nacional. Uma ascensão que vem de trás e em que as mulheres fizeram história. No século XX, a médica Manuela Santos foi a primeira Secretária de Estado no Rio de Janeiro e a atriz Ruth Escobar a primeira mulher eleita à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e a primeira representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento de Convenção contra todas as formas de discriminação das Mulheres. Uma e outra, eleitas ou nomeadas ao abrigo do "Tratado", isto é, apenas com a nacionalidade portuguesa. Hoje , na Europa, com a França  em destaque, e também no Canadá, EUA e outros países, a participação política vem crescendo, gradualmente.
OM:  Que actividades económicas e que tipos de trabalho procuravam os portugueses que emigravam? Com o mesmo (baixo) nível de formação, os portugueses que emigravam para países economicamente desenvolvidos encontravam trabalho não qualificado nos setores que referi (construção civil, a agricultura, os serviços, nomeadamente, no caso das mulheres), enquanto nos países "em desenvolvimento" muitos se transformavam, rapidamente, em pequenos empresários, quando não, no fim do percurso, em investidores de topo. No século XX, são inúmeros os que atingiram esse estatuto- no Brasil, obviamente, mas também na Venezuela ou em diversos países de África.Um exemplo histórico: nos EUA, no começo do século passado, foi muito mais rápido o enriquecimento dos nossos imigrantes no Hawai ou na Califórnia do que na costa leste, então com índices de industrialização mais elevados. É um contexto em que a ascensão é sempre mais lenta, mas não impossível. Veja-se o que aconteceu na França, onde a partir da adesão de Portugal à CCE, com o direito de estabelecimento, se multiplicou, de forma impressionante, o acesso dos nossos compatriotas a segmento do pequeno comércio e da restauração. E, em casos mais invulgares, a grandes negócios e lendárias fortunas, semelhantes às do Brasil ou África..

 MA: eram defraudadas relativamente ao que esperavam do país de acolhimento?
M A: De início, em muitos casos, sim. Eram enganados por redes de engajadores, explorados como trabalhadores indocumentados. moravam nos tristemente célebres bairros de lata dos arredores de Paris. Um quadro assustador!. Mas, progressivamente, a sua situação foi mudando. A legalização era facilitada (penso em primeira linha na França, que representava mais de 80% do total), e empregos não faltavam. Eduardo Lourenço, testemunha presencial desse período negro fez, como disse, lapidarmente, o balanço final. Nenhuma outra imigração foi aí tão bem sucedida como a nossa.
Desde a crise de 2008 e, mais ainda, nos anos de intervenção externa (da "troyka") , a emigração em massa não só recomeçou, como bateu todos os recordes. Nesses quatro anos, cerca de meio milhão abandonou o País... Fala-se de uma "nova emigração", de jovens altamente qualificados, quadros, cientistas, mulheres e homens. Nunca tal acontecera no passado, em números significativos, em massa, mas, na verdade, no total, são ainda uma minoria (nem por isso a situação de "braindrain" imparável deixa de ser uma constatação tremenda!). Contudo, a maioria da nossa emigração continua a ser predominantemente masculina, pouco qualificada e envolvida em contratos temporários.. Uma questão que agora se coloca é a de saber se haverá mais riscos de insucesso (relativo) para a "nova emigração". Creio que em algumas profissões - engenheiros, médicos, enfermeiros - o êxito estará, quase sempre, garantido, em termos de promoção na carreira, de vencimentos. O risco, a meu ver, é o de não regressarem. Porém, em outros setores, por falta de reconhecimento e aproveitamento dos seus títulos académicos, poderão acabar acantonados a empregos precários ou insatisfatórios. Face a expetativas mais ambiciosas, podem ver-se num percurso descendente - ao contrário da geração de 50/60. Esperemos que sejam poucos os perdedores!. E esperemos, também que sejam muitos os que decidam voltar. Isso vai depender muito do País, das condições que saiba reunir para o seu regresso e para pôr fim às partidas maciças. Até hoje, como tenho dito muitas vezes, Portugal já conseguiu garantir aos cidadãos o direito de emigrar, mas não ainda o "direito de não emigrar"...
 OM:   Qual a sua experiência no contacto com associações ou outro tipo de organizações em que os portugueses se uniam e reuniam?
 MA: Há pouco, ao referir primeiro contacto com emigrantes, logo o centrei nas associações, porque foi aí que encontrei, desde o primeiro momento, os portugueses. Quer se chamem assim, ou não, são verdadeiras "Casas de Portugal". Foram criadas, algumas há mais de 150 anos, para preservação da língua e da cultura e para defesa e proteção dos compatriotas, que se viam completamente abandonados pelo Estado, mal transpunham as fronteiras do país. A nossa única política de emigração, ao longo de séculos, foi a regulação dos fluxos de saída, quase sempre no sentido de os limitar! Os próprios emigrantes colmataram as omissões do Estado, um pouco por todo o lado, unindo-se em coletividades para a entreajuda (sociedades fraternais, caixas de socorros mútuos, hospitais), para a valorização cultural (Gabinetes de Leitura, grémios literários, centros culturais) e para o convívio (clubes recreativos e desportivos). Até aos fins do século passado, em todos os ciclos migratórios, em todas as latitudes, deparámos com formas de organização semelhantes para atingir os mesmos objetivos (a tipologia "beneficência, cultura, recreio"). Com notável eficácia, diga-se, em diferentes contextos e com meios maiores ou menores. O governo de 1980 não foi, certamente, o primeiro a ter em atenção os méritos do associativismo, mas foi pioneiro no enfoque que deu ao desenvolvimento sistemático de formas de parceria, de co-participação na definição e execução de medidas e programas para a emigração e as comunidades. O Estado não pode alhear-se dos problemas deste Portugal fora de fronteiras, mas tem de respeitar a autonomia da "sociedade civil", que se soube substituir à sua antiga e costumeira inércia. É um equilíbrio que é fundamental conseguir nas políticas públicas neste domínio!.
Nos governos a que pertenci, o principal instrumento dessas políticas foi uma assembleia consultiva, formada por representantes eleitos no universo associativo, o Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP). Entre 1981 e 1987 (data em que deixei definitivamente o governo), o Conselho funcionava a nível de cada país e em reuniões mundiais e regionais. Procurava ser  um grande "forum" do movimento associativo português, que era muito forte dentro de cada sociedade de acolhimento, mas não tinha uma estrutura internacional, ao contrário de todos os outros países europeus de emigração. E ainda hoje não tem! O CCP é atualmente eleito por sufrágio direto, tendo perdido, assim, a sua essencial faceta interassociativa..

A minha ligação afetiva ao associativismo que dá corpo e alma às comunidades, enquanto comunidades orgânicas, vem dum tempo em que estava no auge. Sempre vi nele a generosa marca do "percurso coletivo" dos portugueses, tão importante para o País como o sucesso individual, a que costuma dar muito mais atenção. E por isso me preocupa o seu futuro num mundo em espantosa mudança, com as novas tecnologias, a economia e a cultura digitais, formas de relacionamento, de trabalho e de diversão inimagináveis há apenas algumas décadas. Como resistirá o associativismo tradicional e o seu património às infinitas transformações a que assistimos ? .
 OM: Existe um número, ainda que aproximado, que nos possa adiantar de portugueses emigrados em 1981?
 M A: As médias de saídas eram baixíssimas, em comparação com as do passado recente e com as do presente. Talvez, uns 8000, (não sei exatamente os números, mas são dessa ordem de grandeza). Atualmente estão acima dos 100.000. Uma diferença abissal.Vivemos, atualmente, um recomeço de ciclo, de èxodo.
 OM: A Língua portuguesa significava um entrave à integração dos portugueses nas diferentes comunidades?

MA: O conhecimento de um idioma, nunca é entrave à aprendizagem de outro. Pelo contrário! Esse é um erro em que caíram alguns pais portugueses, que consideravam necessário que os filhos falassem apenas a língua local, que eles tinham dificuldade em aprender. Não compreendiam que o bilinguismo, para além de manter os laços à cultura pátria é sempre um enriquecimento, e mais ainda numa das línguas mais ricas e mais espalhadas no mundo. Mas esta visão nunca foi predominante. Mesmo pessoas com baixa escolarização, souberam, em regra, valorizar a preservação da língua-mãe, ensiná-la em casa, na escola pública, ou a partir do movimento associativo..
 OM: Quais as medidas que foram implementadas para que os emigrantes e os lusodescendentes, nomeadamente de segunda geração tivessem acesso em contexto escolar ao idioma de Camões?

 MA: Perante a multi-secular indiferença do Estado Português foram as associações e as paróquias católicas que criarem escolas ou cursos de português, com os seus´próprios meios, como disse. De facto, a preocupação dos governos com a aprendizagem do português só se manifestou, quando a emigração passou a dirigir.se para o nosso continente. Por largas décadas, manteve-se a dualidade, com uma rede oficial de professores na Europa, articulada, ou não, com os governos dos países europeus, em contraste com a não concessão de apoios às escolas comunitárias da emigração transoceânica. Nunca aceitei esta discriminação, mas tive dificuldade em a combater, porque, nessa altura a política do ensino para as comunidades estava sediada no Ministério da Educação e não no Ministério dos Negócios Estrangeiros 8MNE). Durante os governo a que pertenci. só na África do Sul foi possível estender, de algum modo, a rede oficial, com aulas extra-curriculares, gratuitas e dadas por professores do nooso ensino oficial nas escolas sul-africanas
 A transição do Instituto Camões para o MNE é coisa relativamente recente. Hoje há mais equilíbrio, mais rateio de meios entre as comunidades, de "àquém e além mar", mas a situação está longe do ideal e as escolas associativas continuam a desempenhar, em muitas comunidades., um papel de primeiro plano. Dar cursos de língua e cultura, continua a ser o obetivo de um sem número de organizações - e o que mais atrai as mulheres à intervenção na vida coletiva! É de realçar que em muitos casos tem resultado o esforço do nosso governo junto de outros, para conseguir a integração curricular do português. A meu ver, a multiplicação e a conjugação de várias ofertas de ensino é de incentivar. Nunca será demais.....

OM:  Quais as dificuldades da Lei eleitoral à data se refletiam no voto por parte das comunidades, nas diversas eleições portuguesas?

M A: Tudo hoje é mais fácil e mais consensual entre partidos da direita à esquerda. Em 80, não. Até a dilatação do período de recenseamento de um para dois meses foi polémica e inviabilizada no parlamento! A votação era limitada à eleição de 4 deputados para a Assembleia da República e o voto por correspondência perdia-se, frequentemente, sobretudo em países onde os correios eram lentos e pouco fiáveis, ao contrário dos nossos. Infelizmente o número de deputados não se alterou, mas o voto alargou-se às eleições presidencial e europeias e a alguns "referenda". E o universo eleitoral, independentemente de recenseamento, passou a abranger todos os emigrantes que possuem cartão de eleitor.
OM: Tem algum episódio que nos queira contar do contacto com alguma «Mãe ou Pai da Saudade"

M A: São tantos os que já partiram, deixando saudades... O mundo das comunidades era, então, a nível de dirigentes, de interlocutores, quase 100% masculino, e, por isso, o meu círculo dos amigos e aliados homens era imenso, tornando a escolha complicada, ao contrário do que acontece com as raríssimas mulheres, que lideravam associações, "media", ou grandes movimentos cívicos. Matriarcas como a mítica Dona Benvinda Maria, diretora do jornal "Portugal em Foco" do Rio de Janeiro, Maria Alice Ribeiro, fundadora e diretora do "Correio Português" de Toronto (aí, o mais antigo jornal na nossa língua), Mary Giglitto, presidente do Festival Cabrilho em São Diego (Festival de homenagem ao descobridor da Califórnia, que sem nossa Mary seria, provavelmente, considerado castelhano...), a Fernanda Ramos, de Minas Gerais, empresária e primeira presidente do Elos Clube Internacional, a Manuela da Luz Chaplin, advogada dos indefesos, em Newark...  Todas foram vozes fortes, arrebatadoras, que mobilizaram os compatriotas e engrandeceram as suas comunidades. Contar episódios passados com elas ou com eles, dava outra grande entrevista! Mas há um, que acaba de me ocorrer agora mesmo, talvez por ter trazido à conversa a desigualdade de género na emigração dessa altura. Estava, um dia, a almoçar com um jornalista de rádio de San Diego, Paulo Goulart, e ele disse-me que, entre os muitos políticos que visitavam a Califórnia, só dois tinham a simpatia da comunidade, o Dr João Lima e eu (assim se vê que ele era meu amigo - nem todos seriam dessa opinião.é claro...). Fez uma pausa, com ar de quem está a refletir e acrescentou: "Pensando bem o João Lima até tem mais valor, porque para ele é muito mais difícil, por ser homem e socialista". De facto, a América tinha, então, fortes preconceitos anti-socialistas. Essa parte era óbvia. Não assim o facto de ter vantagem como mulher! A frase, a que achei imensa graça, dita com evidente franqueza e sinceridade, constituiu a pista que me faltava para compreender o enigma de me ver bem aceite em comunidades, no seu conjunto, tão conservadoras. Creio que Paulo Goulart me terá convencido de que é mais difícil a uma mulher chegar ao cargo, do que, depois, exercê-lo. Aqui deixo a hipótese, para futuro estudo  

; OM:   Deseja fazer alguma saudação especial dirigida aos milhões que a vão ler?

 MA: Sim, com muito prazer, aproveito para mandar um abraço a todos os emigrantes que deixaram o seu país , mas o levaram consigo, em espírito e , assim, apesar da ausência física, são uma presença cultural.~

OM: A OBSERVA Magazine agradece-lhe novamente a honra desta entrevista

"VIAGENS DA CHINA" e "UM ADEUS PORTUGUÊS" in Defesa de Espinho (16 de maio)


VISITAS DA CHINA

1 - A auspiciosa visita do PR Marcelo Rebelo de Sousa à China (todas as suas viagens vêm sendo auspiciosas), trouxe-me à memória o meu primeiro contacto com altos dignitários chineses.
Aconteceu em 1988, estava eu há pouco tempo no exercício de  funções de Vice- Presidente da Assembleia da República. A minha primeira tarefa protocolar consistiu em acompanhar o programa da visita oficial, ao nosso País, de uma Delegação da Assembleia Popular da China. Visita pioneira na história multissecular das relações sino-portuguesas (em 2017, o "Público" noticiava a chegada a Portugal, numa visita "inédita", do  Presidente da mesma Assembleia, a convite do Presidente da AR  Ferro Rodrigues - a  iniciativa teve, com certeza, aspetos inéditos, sobretudo um acento "inédito" mas questões económicas, que hoje comandam o relacionamento dos dois Países, ainda que, como convite de um Presidente da AR ao homólogo chinês. fosse, de facto, o segundo, depois do de Victor Crespo, mais de 30 anos antes). Imprecisões históricas, a que já estamos habituados, num patamar diferente das "fake news", porque se devem exclusivamente a ignorância..
Voltemos, pois, a 1988 e a esses três dias intensos de conversações, passeios por Lisboa, Sintra e Porto, receções não só na Assembleia e na Embaixada da China, como  nos municípios, e," last but not least", de audiências com o Primeiro Ministro (Cavaco Silva) e o Presidente da República (Mário Soares).
À época,  a Assembleia Nacional Popular era não só o maior parlamento do planeta, como tinha, certamente, os mais velhos dirigentes  de entre todos os parlamento do mundo. O Chefe da Delegação, um Vice.Presidente, andaria pelos 80 anos e a média de idade do restantes  membros não estaria muito longe dessa idade ("grosso modo", o dobro da minha e da dos deputados portugueses, que me acompanhavam). Não obstante a diferença geracional e as especificidades culturais, estabelecemos fácil convívio a conversas fluia naturalmente. As paisagens e monumentos, a gastronomia ou a música, agradavam visivelmente aos nossos hóspedes. De qualquer modo, tudo era feito "by the book" segundo os canônes da diplomacia parlamentar.

2 - O imprevisto estava, porém, para acontecer onde menos se esperava - no Palácio de Belém..Para compreender o sucedido, é preciso dizer que o conjunto das delegações chinesa e portuguesa constituía um grupo alargado, uma vintena de pessoas,  somando intérpretes e secretários. Por isso, em São Bento, com o Primeiro Ministro, estivemos presentes nas conversações, os visitantes e, pela parte portuguesa, apenas eu. Os demais ficaram na sala de espera. O Prof Cavaco Silva, tinha vindo da China meses antes, e falou longamente dessa sua inesquecível experiência, sempre formal, não só porque esse é o seu estilo, mas também porque julgava que assim o exigia a etiqueta oriental. Notei que usava uma curiosa super abundância de adjetivos - possivelmente porque os considerava do agrado dos interlocutores, Em suma, esforçou-se bastante para ser o perfeito anfitrião, e, a meu ver, saiu-se bem.
Dali, o cortejo seguiu diretamente para Belém. Tal como na reunião anterior, atendendo a que o salão presidencial, em condições normais, não dispõe de assentos para tanta gente, os mesmos deputados aceitaram continuar de fora. Contudo, o Presidente Soares, especialista como era em praxes parlamentares, estranhou ver-me desacompanhada de colegas e perguntou : "Veio sozinha?"  Ao que tive de dizer: "Não, Senhor Presidente", explicando que os outros estavam na antecâmara, porque os serviços do protocolo entenderam ser impossível acomodá-los ali dentro. O Doutor Mário Soares, indignado, levantou-se, de imediato, exclamando que era um parlamentarista e não podia permitir que os nossos deputados não fossem recebidos na audiência. Mandou chamar os deputados, mandou vir mais cadeiras, começou ele próprio a trazer as que estavam arrumadas em recantos da sala. Uma incrível movimentação, um reboliço, homens transportando cadeiras, reorganização da ordem de precedências. Coisa rápida, à portuguesa... E só depois de todos estarmos devidamente enquadrados naquele salão elegante, mas relativamente pequeno, se iniciou uma conversa que o Presidente conduziu com a mestria e a cordialidade costumeiras, com o seu espontâneo à vontade, querendo saber as impressões dos visitantes sobre o que tinham visto até então. Eu só queria adivinhar a impressão que o extraordinário episódio suscitara neles, cerimoniosos orientais, segundo estereótipos aceites!..  

3 - Para o saber, não tive. afinal, de aguardar muito. À saída, esperava-nos um coletivo de jornalistas, uma multidão de microfones e câmaras de televisão para entrevistar o Chefe da Delegação chinesa. Ele, habitualmente calmo e pausado, fez uma intervenção viva e empolgante, para felicitar Portugal por ter um Presidente que era uma figura admirável, um grande humanista, etc etc. O  elogio  continuou por vários minutos! Por fim, um dos interlocutores lembrou que também fora recebido pelo Primeiro Ministro e perguntou-lhe como correra esse encontro. Ao que ele respondeu, em duas sonoras e breves palavras: "Correu bem".
 Fiquei elucidada...  Moral da história: qualquer que seja o público, a idade, a mentalidade, a etnia, o quadrante partidário ou quaisquer outras particularidades, o que é genuíno tem muita força, muito impacte. O Presidente  Marcelo é, como o Presidente Soares era, capaz de gerar uma grande proximidade  não só com o seu próprio povo, mas com todos os povos, em todos os pontos cardeais. Mário Soares  conseguia projetar Portugal com esse seu dom de simpatia e compreensão universais. Marcelo, ao que parece, também possui o dom! Ei-lo na China a somar sucessos.
O ADEUS PORTUGUÊS ao Mundial 1 - Muito poucos portugueses estiveram na Rússia a apoiar a nossa equipa. Um desses raros compatriotas, entrevistado pela Sport TV, antes do início do derradeiro "match", contou que estava a viver momentos emocionantes, e lançou um desafio aos que ficaram em casa: "saiam do sofá!". Do sofá, os portugueses até saíram, ocupando as praças de todas as cidades, em frente a ecrãs gigantes, sem, todavia, ultrapassarem a fronteira da sua terra. Os uruguaios, pelo contrário, estiveram, aos milhares, em Sochi, pintando as bancadas de azul. É certo que víamos, aqui e ali, camisolas vermelhas, mas, pelas numerosas entrevistas que um repórter da TVI24 tentou fazer-lhes, no final, fiquei a saber que eram, na sua esmagadora maioria, russos, possivelmente mais adeptos de CR7 do que de Portugal. O Uruguai tem uma população de apenas 3,5 milhões (4 milhões, com os imigrantes), face aos nossos 10 milhões (15 milhões, não esquecendo a "diáspora"). E, se Rússia é longe para nós, é muitíssimo mais longe para eles. Uma viagem intercontinental da América do Sul para os confins da Europa, ainda por cima, paga em moeda bem menos forte do que o euro! A que se deverá esta diferença de comportamento? Não sei. Uma hipótese, bastante deprimente, aponta causas económicas, a pobreza, ao menos, relativa. Serão as nossas classes médias mais frágeis do que as uruguaias? Outra hipótese, de ordem imaterial, não é de molde a deixar-nos menos insatisfeitos: a seleção não nos move? Prevalecerá, entre nós, irremediavelmente, a "cultura de clube" sobre a "cultura de seleção"? Numa interessante entrevista ao "Expresso", a Embaixadora do Uruguai em Lisboa, destacou o carater identitário que o seu País (duas vezes campeão olímpico, duas vezes campeão do mundo) reconhece ao futebol, que, segundo ela, o colocou no "mapa mundi". É este o sentimento que nos falta? (A propósito, recordemos que Scolari, homem nado e criado num Brasil confinante com o Uruguai, foi quem mais tentou motivar-nos a exteriorizar a pertença à seleção). Não tendo respostas para as questões que coloquei, resta-me sugerir análise aprofundada do tema, que falta, realmente, debater e explicar. 2 - O que não tem faltado, nos "media", é análise e comentário ao nosso abreviado percurso neste campeonato. Nada acrescento de novo, ao enfileirar ao lado daqueles para quem o nosso destino, ou fado, ficou traçado com um erro grosseiro do VAR, com um golo de "penalty" que não existiu, dando ao Irão o empate, no último minuto, e à Espanha o primeiro lugar no grupo. Assim nos coube defrontar, nos oitavos de final, a dupla atacante Cavani/Suarez, a que não resistimos, em vez de uma Rússia, em princípio, mais acessível, com a qual, neste campo, costumamos ter sorte. Não pode a Espanha dizer outro tanto. Contudo, o seu destino foi traçado por erros próprios, não pela arbitragem. 3 - Erros próprios, para além da má fortuna, também sobejaram para nós, designadamente no que respeita a "casting" - jogadores em baixo de forma, uns vindos de lesões, outros com escassa utilização nos clubes de origem... Sem chegar ao extremo de Bento, ao desastre que foi a participação no Mundial do Brasil, Fernando Santos tem-se aproximado do modelo do antecessor, ou seja, foi-se convertendo em treinador da "sua" equipa, " em vez de se manter como verdadeiro selecionador, que elege os melhores, em cada momento, (para o seu sistema de jogo, naturalmente). Guerreiro, João Mário, Adrien, André Silva, Ricardo, Guedes e, até, Bernardo Silva, foram apostas falhadas e Ruben Dias nem aposta foi, o que se aceita, porque a dupla de centrais esteve bem. Particularmente difícil de aceitar foio desfazer da fantástica dupla atacante Ronaldo/André Silva. Intenção que já se adivinhava, porque, nos três jogos de preparação, Santos não os deixara jogar juntos. O pressentimento, primeiro, e a certeza, depois, terão minado o ânimo do jovem André e deixaram mais só o mediático parceiro. E, talvez por isso, entre outras coisas estranhas, na Rússia, só brilharam seniores - Quaresma (tão sub-aproveitado!), Pepe, Patrício e Ronaldo. Ronaldo, que, em Sochi, começou bem e acabou mal, tal como a seleção Maria Manuela Aguiar maio 16, 2019