quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A AVÓ MARIA in "Avós, Raízes e Nós"


A AVÓ MARIA 

in "AVÓS, RAÍZES E NÓS"

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A Avó Maria Aguiar era figura pública proeminente em Gondomar, vila antiga, na fronteira sudeste do Porto. Os seus sete filhos, incluindo minha mãe, e todos os netos eram referidos, falados e considerados em função dela, para sempre umbilicalmente ligados à aura e ao nome da matriarca, quase sem luz própria, por mais brilhantes que fossem. 
Nasci na sua casa, cercada de jardins murados, com um mirante florido na frente de rua e pomares e vinhedos a perder de vista, por detrás da mansão grande de "brasileiro", de cor rosada e venezianas verde-escuro. A Vila Maria. Aí, com ela e meus Pais, fui tão feliz quanto se pode desejar, nos primeiros anos de vida. Com ela, aprendi a gostar de histórias, (e mais de narrativas engraçadas sobre si e a família do que de contos infantis), a declamar poemas de Guerra Junqueiro, exercitando a memória em alguns dos que parecem intermináveis ("O melro, eu conheci-o, era preto, brilhante e luzidio... ), a bordar pequenos quadrados de linho a ponto de cruz, com o mínimo possível de habilidade inata. E a comportar-me surpreendentemente bem, tanto em procissões e novenas de Igreja, como nos lanches das confeitarias portuenses, a Villares ou a Ateneia, onde lhe fazia boa companhia. Criança rebelde, com reputação de indomável, várias vezes, emboscada atrás de um móvel, ou de uma porta, ouvi a Avó levantar a voz para me defender, dizendo: "Ninguém compreende esta menina! É preciso explicar-lhe a razão das coisas. Se ela perceber, aceita tudo muito bem". Na verdade, eu gostava de satisfazer expetativas, era sempre  muito capaz de corresponder, na ação imediata, ao pior ou melhor que esperavam de mim...
A esta persuasiva pedagoga e querida Avó devo algumas das mais extraordinárias alegrias da infância, entre as quais se contam: a compra de uma carteirinha de verniz vermelho, usada a tiracolo, (a contragosto dos pais, naturalmente...), a oferta de um grande boneco pretinho, por muito tempo mirado e namorado na montra do bazar de Sá da Bandeira, e o traje de anjo amarelo, de grandes asas brancas, com que desfilei pelas ruas de São Cosme, em procissão, depois de vencida, uma vez mais, pela avó a relutância de mãe e pai em satisfazer tão ardente e desvalorizada ambição infantil. 
Todavia, à Avó devo, igualmente, a remota origem do meu feminismo - o que não era, de todo, resultado que ela desejasse. De uma família de mulheres fortes, as mais heterodoxas das quais pareciam saídas de romances de Agustina, herdeira da sua fibra, era, porém, ela própria, um assumido expoente de conservadorismo e da prática das virtudes consideradas femininas, primeiro durante um casamento de dezasseis  felizes anos, e, depois, ao longo de uma sofrida viuvez de mais de meio século. A sua influência na "res publica", crescera circunscrita ao pequeno círculo bem frequentado e bem visto das obras paroquiais, onde debutou, e extravasou, numa dinâmica natural, para o da comunidade, como um todo, do campo da assistência e do atendimento de casos sociais, ao da cultura, organizando peregrinações, a par de récitas e concertos beneficentes, cujos ensaios, muitas vezes, decorriam na sua sala do piano (piano que era emprestado para os espetáculos, fazendo, entre a Vila Maria e o Cine Teatro Nun' Álvares, uma curta e improvável viagem em carros de bois, necessariamente seguida de intervenção de um afinador). Outras vezes, as arcadas e a espaçosa adega do piso térreo transformavam-se em estaleiros de produção de carros alegóricos, enfeitados de flores de papel, confecionadas, aos milhares, por ruidosos bandos de meninas, a que as netas tinham licença de se juntar. 
Para tudo havia regras, naquele mundo que se movia, sob o impulso de Maria Aguiar, a intransigente defensora do recato e das "boas maneiras" feminis, ao serviço das quais, tantas vezes, brandamente, me repreendia: "as meninas não fazem isso!".
 Isso sendo o que era permitido aos primos da minha idade, como subir às árvores do jardim, ou até aos telhados, saltar de carros eléctricos em andamento, jogar à bola com os garotos da rua...  Enfeitar altares ou colar florinhas de papel colorido em painéis, ao som de canções populares, sim, eram tarefas de  meninas... O plural "as meninas" intrigava-me... A argumentação da Avó, neste capítulo, não me soava convincentemente, não respondia aos meus "porquês"... Achei por bem provar, a mim mesma e aos outros, pela "praxis", que "as meninas" podiam tornar-se, com o continuado exercitar, tão aptas como os rapazes a cumprir objetivos nos muitos domínios interditos. E assim me converti, a partir dos seis ou sete anos, ainda que sem consciência clara da existência das questões de género, em feminista praticante... Por sinal, os homens da família, o pai e o avô paterno, o inesquecível Avô Manuel, cedo me iniciaram na paixão pelo cinema, pelo teatro e pelo futebol, não mostrando partilhar as preocupações da avós, ambas a Avó Maria e a Avó Olívia, em completa sintonia nas suas teses sobre a construção cultural do feminino... .
Numa altura em que tanto já ressentia, em causa própria, as discriminações de sexo, não me ocorreu, nunca, indagar o porquê da posição singular que a Avó Maria ocupava na sociedade local, a tal ponto a via como decorrente de uma autoridade natural, de um estatuto seu, inquestionável. Só muito mais tarde me apercebi de que o ganhara num trabalho incansável, e interminável, que, mais do que vocação, fora destino, fatalidade de se ver mulher só, ter de encontrar os modos de se realizar numa outra vida. Ela e a “sua circunstância”…
Maria da Conceição Barboza Ramos era a mais nova de oito filhos de Carolina Ferreira Ramos, (de uma família enraizada, há séculos, em Gondomar) e de Joaquim Mendes Barboza, o tabelião, que viera do norte (Bitarães, Paredes), para nunca mais deixar a terra de adoção. Em tudo fora  menina do seu tempo e condição social. Depois da escola primária, recebeu, em casa, os ensinamentos dos pais e professores, à espera de encontrar noivo. Das três raparigas, só uma, Glória, se formou na Escola do Magistério, no Porto, e nunca exerceu. A tuberculose levou-as aos 21 anos. O curso, pela raridade, bastou para que fosse uma das poucas mulheres biografadas na monografia “O Concelho de Gondomar”, ao lado do pai, irmãos e vários parentes masculinos, com largo “curriculum” de intervenção cívica e política.
A Maria, jovem inteligente, prendada, e lindíssima, não faltaram pretendentes. A sua escolha recaiu num conterrâneo emigrado no Brasil. António Carlos Pereira de Aguiar, nas suas próprias palavras, pessoa “muito ilustrada”, homem bonito, com enormes e expressivos olhos verdes, como nunca vira outros. O Avô António partira para o Rio de Janeiro em 1996, com 16 anos, levado por um dos seus quinze irmãos,  João, bastante mais velho, quase com idade para ser seu pai, e, por essa altura, já um próspero joalheiro. O jovem António Carlos, revelando-se exemplar discípulo do melhor mestre, numa época áurea de desenvolvimento do país, como foi, para o Brasil, o início de novecentos, fez fortuna rápida e honesta, e era, então, o dono de uma joalharia da moda, na rua do Ouvidor. Sendo a Avó Maria uma incondicional entusiasta de viagens e excursões, de muita movimentação e convívio social, até aos seus últimos dias dos seus mais de noventa anos, é possível que a perspetiva de viver, por uns anos, no mundo novo brasileiro, com frequentes visitas à sua terra, a bordo de esplêndidos paquetes, tenha sido fator de peso na aceitação daquele pedido de namoro, logo depois convertido em pedido de casamento. Da parte do Avô Aguiar, fora o "coup de foudre", "amor à primeira vista" e até que a morte os separou... No mais clássico modelo de papéis conjugais, com rígida divisão de tarefas, uma união perfeita! Dos oito filhos, só três nasceram no Rio. Maria preferia ter os meninos em São Cosme, no conforto da casa materna... Vinha o marido, de bom grado, trazê-la e buscá-la e, durante o tempo de separação, escrevia-lhe extensas cartas de amor, em tudo idênticas às dos tempos idos de noivado...O noivado durou dois anos e está documentado por uma preciosa sucessão de postais ilustrados, com breves mensagens, que diríamos uma espécie de “tweets” do início do século passado, que serviam para troca de saudações amorosas e anúncio do próximo envio de longas cartas, infelizmente, quase todas desaparecidas.
A Gondomar regressaram em 1920, e viveram, por breves anos, na terra e na casa dos seus sonhos. A morte súbita do Avô António, aos 46 anos, deixou a viúva num estado de depressão profunda, que ameaçava eternizar-se. A senhora elegante e mundana das salas de festas transformou-se em vulto negro e austero (não menos elegante) dos salões paroquiais... Os retratos contam, sem necessidade de palavras, a tragédia da sua vida, pela forma e colorido dos chapéus, das abas imensas das capelines floridas da senhora casada aos pequenos chapéus de viúva, rentes à testa, enfeitados por uma simples "aigrette" (a que chamávamos, na sua ausência, "os quicos da Avó"). O momento da grande mutação foi o da perda do papel de esposa perfeita, em que teve de se assumir como mãe e o pai de sete crianças (difíceis e desafiantes...), com idades entre os dois meses e os catorze anos. Do torpor de muitos, muitos meses saiu, buscando orientação na fé, nas crenças e práticas religiosas, fonte inesgotável de novas energias, e razão de viver, intensamente, para a família e para os outros.   
Fora a mulher do empresário António Aguiar, que o seu caráter extrovertido e generoso, tornara tão estimado e popular no Rio de Janeiro, como em Gondomar. Enquanto a sua memória permanecia entre os daquela geração, foi a sua respeitabilissima  viúva. E, por fim, ela própria, Maria Aguiar, líder no feminino, universalmente querida e  admirada. Protetora dos pobres, confidente e conselheira nas horas difíceis. Do seu apostolado de leiga, da organização de peditórios, peregrinações, festividades religiosas, passara aos domínios adjacentes da cultura, organização de concertos beneficentes, deixando, vir, de novo, à superfície o seu gosto pela música, poesia e teatro, num mesmo quadro de voluntariado socialmente aprovado para as senhoras. Latente, sempre, o culto do marido, simbolizado na sobriedade dos trajes escuros (em que se permitia o roxo e o cinza), ou no cuidado com que podava, por suas mãos, as rosas, com as quais ele se apresentava em exposições,  (nunca filhos e netos, nem os criados (alguns ex- reclusos, pequenos ladrões mais ou menos regenerados) lhes puderam tocar). E no uso do seu apelido Aguiar… O nome que, hoje, descendentes de quarta e quinta geração continuam a usar, preterindo outros, do ramo materno e paterno, apenas por ser o dela.  E não só por ter sido essa notável cidadã. Mais ainda, por ter sido a nossa Avô, a prodigiosa contadora de histórias, a grande matriarca, a força que reunia à volta da mesa na casa, que, sendo dela, era de todos, a família inteira, na intimidade das ceias de Natal ou nas festivas visitas do compasso pascal, em casamento e batizados e em todas as festas que se inventavam para estarmos juntos. Na mais completa fragmentação familiar, que se seguiu ao seu tempo, é ainda, afinal, a memória da Avó Maria Aguiar, que nos reúne, à volta do seu nome, numa árvore genealógica de afetos.



sábado, 25 de julho de 2020

ADELAIDE VILELA no LUSOPRESSE - sobre Manuela Aguiar




A história de hoje versa sobre a vida de uma Senhora que se deu ao luxo de fazer um percurso memorável. Nesta viagem com vida, por caminhos que fazem história, Portugal ganhou a primeira mulher Secretária de Estado, em domínios até aí reservados a homens, para gáudio de alguns e desgosto de outros. Maria Manuela Aguiar Dias Moreira nasceu no dia 9 de junho de 1942, na casa da avó Maria, avó materna, em São Cosme de Gondomar. Maria Antónia, ao dar à luz a pequena Manuela traz alegria aos familiares e energias boas a cada aposento da casa grande, uma das chamadas “casas de brasileiros”.  
Naquela moradia, viveu, cresceu, brincou, sonhou e foi feliz a bela Manuela.
 Depois de ler e analisar uma quantidade industrial de informação e muitos comentários contidos no Blog da Dra. Manuela Aguiar, deixei que a emoção me traísse. As coisas do passado provocam-se insónias mas trazem-me cheia de encantos. Assim, de imediato senti ternura imensa nas palavras desta querida amiga que tanto estimo e admiro, e nas respostas de seus primos e amigos, de todos quantos conhecem, privaram ou privam com Manuela Aguiar. O certo é que me vieram as lágrimas aos olhos: “Aí vivi os anos felizes da infância, num ambiente em que a cultura brasileira estava realmente presente, e mais nas narrativas, nas memórias, na música, na gastronomia do que propriamente na traça do edifício, ao gosto dos anos 20 do século XX”. 
Manuela Aguiar desde muito cedo deu provas de grande maturidade e de uma inteligência fora do comum. Tinha apenas treze anos escreveu um soneto no qual emprega uma linguagem literária fora do comum, e surpreende os grandes poetas da época. O poema foi publicado no suplemento do Diário de Notícias, por muitos anos dirigido por Maria Lamas (Modas e Bordados), com honras de bravura à menina e a seus pais e avós. Agora entendo porque aceitou prefaciar o meu livro “Olhos nas Letras”, pois, sei ao certo que gosta de poesia!  Pelo que lemos Manuela Aguiar foi sempre estudiosa. Para isso teve que ir à luta porque sabia de antemão que era necessário um bom quadro de formação, estudos e experiências.
E como a vida e as histórias se constroem dia a dia, Manuela ingressa na escola pública durante dois anos, mais sete no Colégio do Sardão, e dois no Liceu Rainha Santa Isabel do Porto, qualificando-se com 18 valores no ano de 1960. Às vezes não é fácil, no entanto Maria Manuela sabia o que a esperava. Vieram tempos difíceis e de muito trabalho, mas valeu a pena todo o esforço. Completou o curso de Direito na Universidade de Coimbra com 17 valores, corria o ano de 1965. E ganhou o título de aluna brilhante e estudiosa.
Claro que para ela as oportunidades são únicas, por isso volta a desafiar-se, ao regressar aos bancos da escola, desta vez como bolseira da Fundação Gulbenkian. Os estudos eram o seu forte, ainda que fosse fora de Portugal, e lá vai ela para Paris, entre os anos 1968 e 1970. Se o Direito a tinha convencido, as Terras de Molière viriam a ser o paraíso certo para fortalecer os seus conhecimentos em Sociologia, e naqueles tempos a França estava na moda. Ainda bem que hoje é Portugal que anda na boca do mundo. E foi estimulante saber que Maria Manuela concluiu o ano de titularização na “École Pratique des Hautes Études”, com Alain Touraine, vários certificados avulsos na "revolucionária" Universidade de Vincennes, entre eles o de "Sociologia Americana" e o "Diplôme Supérieur d' Études et de Recherche en Droit", na Faculdade de Direito do Instituto Católico de Paris (única instituição onde os ventos da revolução não tinham alterado o quadro de ensino).
Maria Manuela Aguiar teve ao longo da sua vida muitos mundos dentro do seu coração, assim podemos afirmar que tinha vários países na mira do seu pensamento, com o Canadá e as suas políticas democráticas no alto. Mas sobre as cidades onde viveu ainda hoje declama desta forma tão peculiar:   “Em muitos lados fiz boas amizades que ficaram para sempre: O que António Vitorino de Almeida diz de Viena, posso eu dizer desta outra geografia: "A França  não é o meu país, mas Paris é a minha cidade". (A par de Coimbra, e só perdendo para o Porto).
Percebe-se que já naquela altura, antes e depois do 25 de Abril, Maria Manuela Aguiar era uma mulher que gostava de avançar no tempo, pelo que, com rebeldia ou não, desenvolveu, dinamizou e conseguir uma série de conquistas demonstrando que, quando é necessário, muda-se o que está errado tornando cómodo quaisquer níveis de desenvolvimento úteis para a sociedade.
Durante os tempos de migração em França foi assistente do Centro de Estudos do Ministério das Corporações e Segurança Social (1967/74), onde granjeou grandes amizades e teve excelentes diretores, e que sempre lhe deram liberdade de expressão e de circulação (com bolsas da OIT, da OCDE, das  Nações Unidas…). Um homem do regime (Cortez Pinto), o outro progressista e genialmente inteligente (António  da Silva Leal).
Como professora universitária, Manuela Aguiar - a convite de Álvaro de Melo e Silva – foi docente na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa (1972/73). Logo foi surpreendida com outro convite que a levou à Faculdade de Economia de Coimbra, e como as condições do passado a poucos interessava a Sra. Dra. foi uma sortuda ao encetar o novo e brilhante cargo no derradeiro dia da ditadura, no dia 24 de abril de 1974. Ainda no mesmo ano académico, na Faculdade de Direito, torna-se assistente de Rui Alarcão, futuro Reitor, e Mota Pinto, futuro Primeiro Ministro, vindo a reger o curso  de Introdução ao Estudo de Direito, integrando a linha de investigação de Direito de Família do Prof Pereira Coelho. Tempos felizes em que a jovem docente colocava em evidência, perante os seus alunos, a temática sobre o respeito pela lei a como o maior apelo ao desenvolvimento numa nova realidade, sendo a liberdade, e a igualdade, de baixo para cima, um pilar fundamental para uma sociedade livre.
Em 1976, deixa a Faculdade para ser assessora do Provedor de Justiça, instituição inspirada no “Ombudsman” sueco, que acabava de abrir as portas:
“Aí trabalhei com o primeiro Provedor, um dos grandes “militares de Abril”, Coronel Costa Braz e, poucos meses depois, com o segundo, o mais admirável de todos os notáveis dirigentes com quem colaborei - o Dr José Magalhães Godinho". No início de 1990 Manuela Aguiar regressa ao ensino, como docente convidada da Universidade Aberta, e dirige os estudantes de mestrado em Relações Interculturais, curso de "Políticas e Estratégias para as Comunidades Portuguesas".
Em Portugal, foi interveniente no Governo e no Parlamento, incentivada pelo Doutor Mota Pinto e, depois, por Sá Carneiro,  a fazer carreira política. E estava encontrada a primeira mulher Secretária de Estado da Emigração, que viria a conquistar a simpatia dos emigrantes espalhados pelo Mundo. No seu executivo conseguiu um feito jamais visto, do qual ainda hoje se fala com maior carinho e gratidão. Como podemos analisar muitos foram as viagens e as negociações que a Secretária de Estado teve que empreender para que os emigrantes lusos no Canadá pudessem reaver a nacionalidade portuguesa, pois aqueles que se tinham adquirido a nacionalidade canadiana perdiam automaticamente a portuguesa, isto na década de 70.
Não nos podemos esquecer que Manuela Aguiar foi uma das mulheres mais influentes na política nacional e internacional. Esteve na política em cinco governos e no parlamento durante cerca de 25 anos, sempre amarrada, de alma e coração, à problemática das migrações, dos Direitos Humanos, da igualdade. Fez igualmente parte do Governo de Mário Soares e de Cavaco Silva e foi a primeira mulher Vice Presidente da Assembleia da República, a dirigir Plenários e delegações Parlamentares

Para quem não se lembra, deixou como legado, aos parceiros sociais, a Comissão para a Igualdade no  Trabalho e Emprego (CITE).
Foi também eleita, em sucessivas legislaturas, como representante de Portugal na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e na Assembleia da União da Europa Ocidental e a primeira mulher a Chefiar a Delegação portuguesa nessas organizações, isto a partir de 2002.
Foi Presidente da Comissão das Migrações, Refugiados e Demografia e Presidente da Subcomissão da Igualdade da Assembleia e Parlamentar do Conselho da Europa, escolhendo para intervir, também a nível internacional, a causa dos marginalizados, migrantes, refugiados, mulheres...
Na política a nível local, foi deputada na Assembleia Municipal do Porto, nos anos noventa, e vereadora da Cultura da Câmara de Espinho (2005/2011).

Em todos os projetos desenvolvidos como docente ou através da sua carreira política, o projeto de valorização da mulher na sociedade, foi o mais valioso que lhe conhecemos e que na Diáspora Portuguesa desenvolveu, sobretudo entre 2005 e 2010, com a inesquecível  Drª Maria Barroso, com ela percorrendo as "sete partidas do mundo". E aqui reconhecemos o quanto a Dra. Manuela Aguiar fez, no plano nacional como internacional, tendo dado prioridade a múltiplas ações na luta pelos Direitos dos Migrantes em todas os países de acolhimento por onde passou. 

Para terminar este trabalho lembramos algumas da múltiplas condecorações e distinções que recebeu Maria Manuela Aguiar: a Grã- Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, atribuída pelo Presidente Jorge Sampaio, a Grã Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul e a da Ordem do Rio Branco (Brasil), a Grã-Cruz da Ordem do Império Britânico (OBE), a Grã Cruz de Francisco Miranda (Venezuela) ou o grande oficialato da Ordem da Estrela Polar (Suécia), e da Ordem de Mérito (França), o Título de "Cidadão do Rio de Janeiro", Medalha Tiradentes (Brasil). Recebeu ainda a Medalha de Mérito Cívico da Câmara de Gaia (classe ouro) e a Medalha de honra da Câmara de Espinho. Destacamos todas as condecorações que recebeu: “do significado que têm para mim, outras condecorações, e muitos títulos de sócia honorária de associações portuguesas, em Portugal e pelo Mundo”. Este ano Manuela Aguiar teria participado, no mês de março, nas celebrações do Dia da Mulher do Lusopresse, festividades canceladas derivado à pandemia que assolou o Mundo. É mais um prémio que vai arrecadar, assim que as linhas aéreas sejam normalmente abertas. Maria Manuela Aguiar tem apoiado o Jornal Lusopresse, através suas brilhantes atuações, e a cada vez que participa nos eventos como convidada especial. Também agradecemos o facto de ter apreciado e referido aos seus amigos e lugares o nosso jornal fazendo-nos acreditar que devemos continuar com a nossa missão de enaltecimento à língua e á cultura portuguesas.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

FUTEBOL 2020


FUTEBOL 2020
O futebol vê-se, e é visto, como um mundo à parte, com as suas Leis e a sua justiça... Um Estado dentro do Estado. E nem uma pandemia global altera esta realidade. A declaração do “estado de emergência”, que levou ao abrupto termo dos campeonatos desportivos, em todas as modalidades, masculinas e femininas, excecionou o futebol profissional masculino (só a1ª Liga...)! Poucos foram os países que fizeram o contrário, caso paradigmático da França, onde o Paris St Germain, 1º classificado nessa altura, foi, sem mais, declarado campeão. A alternativa mais comum foi, porém, não atribuir o título, valendo a classificação existente como critério de apuramento para competições internacionais. Qualquer dessas soluções é aceitável, e, a meu ver, mais realista do que o apressado e perigoso reatamento de jogos oficiais, após cerca de três meses de confinamento dos atletas, sem possibilidade de organizar uma fase de preparação. 
O recomeço, nestas condições, levanta, essencialmente, três ordens de questões: sanitárias, económicas e desportivas. Neste como em outros domínios, a difícil escolha entre as primeiras leva a uma gradação de soluções de compromisso para a abertura, tão segura quanto possível, das actividades do nosso anterior quotidiano. No futebol profissional, a economia falou mais alto, a bem da saúde financeira dos maiores clubes. Os riscos de contágio e os riscos de lesões graves dos atletas (algumas vão acontecendo, menos do que eu receava, graças, talvez, a um mais baixo ritmo de jogo…) foram subestimados pela DGS, que bem prega, mas aqui descura, o distanciamento social e a constante higiene das mãos, como fundamentais para impedir a propagação pandémica... Ora ambas – e, sendo a peleja realizada em espaço aberto, já nem falo das máscaras, aliás, muito úteis, mesmo ao ar livre, como os Orientais nos ensinam) – são impossíveis de respeitar num jogo de contacto físico intenso e constante, como é o futebol… Por isso, a coerência exigiria a proibição, sem apelo nem agravo, da retoma do campeonato nacional… Ao jogo, em si, acresce um outro factor de risco potencial: a mais do que provável movimentação de multidões à sua volta. E não para ouvir, placidamente, discursatas políticas, ou para marchar, a passo lento, num protesto de rua, mas para festejar a irrepetível vitória de um campeonato…. Na verdade, é muito fácil impor jogos à porta fechada, ou proibir a venda de manjericos em vésperas do S João, mas não o será a contenção do ímpeto dos eufóricos adeptos do novo campeão, por muito ordeiros que sejam (na Avenida dos Aliados costumam ser, no Marquês de Pombal, não tanto …). Tendo na memória imagens de Liverpool, esperamos,na melhor das hipóteses, uma massa compacta de gente abraçada a cantar e a gritar, sem máscaras nem viseiras!
Uma terceira, e não secundária questão, é a da “verdade desportiva” – ao menos para quem, como eu, admite a inevitabilidade do futebol profissional ser negócio”, sem, contudo, deixar de ser “desporto”! E a verdade é que, este ano,  o campeonato nacional, prova de resistência, com as equipas no desenvolvimento pleno das suas capacidades e talentos, num percurso, que o público acompanhou e motivou, chegou ao seu termo em março... Teve princípio, meio e fim, ainda que prematuro.   Após três meses de hibernação, em clausura, não há reinício possível! Há, sim, início de coisa de outra natureza: uma espécie de pré-época antecipada, ou de “pré-época da pré-época", onde os últimos podem derrotar facilmente os primeiros, porque, por força das circunstâncias, todos estão nivelados por baixo, a jogar igualmente mal - ainda que uns menos mal do que outros… Para mim, o campeão foi o FCP 2020 e apenas por um ponto apenas de vantagem. Mesmo que este arremedo de futebol estival lhe desse, porventura, maior vantagem, (ou que outro tivesse sido o vencedor) a minha opinião não sofreria mudança. Para a degradação qualitativa a que se assiste muito contribui a falta do público! O futebol genuíno é um diálogo constante entre os atletas, os apoiantes, as claques, emoção colectiva que faz jogar e, nessa medida, "joga!. Proibi-lo é um contra senso… e mais uma forma de discriminação, em que a DGS tem sido tão fértil. Se as primeiras figuras do Estado dão o exemplo da bondade de participação num espetáculo em espaço fechado, com mais de 2000 pessoas, porque têm de estar completamente vazios estádios com lotação de vinte, cinquenta, setenta mil pessoas? (ao ar livre). Porque não se permite um número limitado de convidados, ao menos, nos camarotes das direções dos clubes? Porque não se admite, nas bancadas, escassos milhares de adeptos (experimentalmente, digamos, somente 10% da lotação total), que sejam "a voz" de todos os demais? Muito mais complicado será, previsivelmente, lidar com a “loucura” da vitória final, do que com uma assistência limitada, jogo a jogo...
O "futebol 2020" vai ainda ser lembrado por outra nota chocante: a decisão da FPF de discriminar, ainda mais, o futebol feminino, impondo a este universo, menor e menorizado, tetos salariais , arbitrariedade impensável no futebol macho... Pela primeira vez, na esteira das indómitas  campeãs do mundo norte - americanas, também as portuguesas ergueram a voz e exigiram "futebol sem género"! Mais um momento para a história do futebol global!

quarta-feira, 3 de junho de 2020

TEMPOS DE DESIGUALDADE, EXCESSOS E CONTRADIÇÕES

TEMPOS DE DESIGUALDADE,  EXCESSOS E CONTRADIÇÕES 
 
1 - Fique em casa! Saia, faça turismo! Máscaras não! Máscaras sim!  Hospitais seguros, vá às consultas! Praias não! Praias sim, com lotação limitada!  Cafés, esplanadas ou restaurantes, com restrições! Aviões cheios, sem restrições! Festivais de música não! Festa do Avante, comício e música (talvez) sim! Futebol 1ª Liga, sim! Outro futebol, outras Ligas, não! Controlo nos aeroportos do Continente, não! Controlo nos aeroportos das Ilhas, sim, e com imposição de quarentena" (exceto para equipas de futebol de visita à Madeira para jogar com o Marítimo...). 
Exemplos de uma densa rede de regras e de exceções "à la carte". Algumas das "palavras de ordem" vão sendo ilustradas pelo exemplo dos maiorais: Sua Excelência o Presidente Marcelo (entre o povo, sempre de máscara, honra lhe seja feita) a comprar postas de bacalhau e verduras no mercado da Ericieira; o Senhor Primeiro Ministro António Costa almoçando, "tête à.tête", com Sua Excelência Ferro Rodrigues, num restaurante muito "cozy", sem máscara e sem guardar a distância protocolarmente imposta pela DGS Graça Freitas ao cidadão comum e até aos infantes das creches... 
 Assim vão sendo feito os primeiros convites ao desconfinamento, que se revelam mais difíceis de aceitar, do que foi o recolhimento doméstico em que o prudente português comum se refugiou, antes de decretado o "estado de emergência" e,  depois, o "estado de calamidade". Este último, ao invés das aparências, ainda está em vigor... Enfim, está e não está!
Interiorizados foram sendo outros estados concomitantes e mais persistentes, como o "estado de medo", e o " estado de depressão",  o "estado de pobreza e necessidade" para um galopante número de desempregados e de trabalhadores em "lay-off", e, para uma minoria, na qual me conto, o "estado de ceticismo", a caminho do "estado de inconformismo". A tal ponto levam os excessos de burocracia e de propaganda, avidamente ampliada pelos "media nacionais"... Está criado um clima de unanimismo, que exorcisa qualquer crítica construtiva, como ato de transgressão tão grave como era, em março/ abril, um idoso sair de casa... Eu confesso que passeei, quotidianamente, por Espinho/Norte, a bem da minha saúde mental e física, cumprindo todas as regras que fazem sentido (máscara, distância de dois metros dos transeúntes sem máscara, que são ainda muitos, desinfeção das mãos, troca de sapatos à entrada de casa). A idade não me assusta! Os seniores que morreram, em massa, não foram tanto os que andavam na rua, mas, sobretudo, infelizmente, os que estavam internados nos lares (coisa que a DGS nunca se preocupou em destacar - sendo pelos "media" que ficámos a saber que, cá, como na maioria dos países ditos civilizados, metade, ou muito mais de metade, dos mortos da pandemia eram idosos institucionalizados. Aconteceu em Portugal, no Canadá, Grã-Bretanha, Espanha, Itália, França, Suécia, etc etc....
...
2 - O "Big Brother" de Geoge Orwell voltou à atualidade... Estamos, de facto, localizados, ao minuto e ao centímetro, pelo nosso telemóvel, sujeitos a mensagens subliminais, condicionados  por toda a espécie de normas e protocolos, em que, pelo ridículo, se destacam alguns dos emitidos pela Senhora DGS .. 
A lembrar outro livro de Orwell,  "A quinta dos animais", fábula genial sobre uma revolução fraterna, seguida da fatal ascensão de uma nova casta dominante. No início, os revolucionários, que da "quinta" expulsaram o explorador humano, proclamaram a igualdade entre todos os animais. Por fim, o princípio é lapidarmente reescrito: Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros" .
Comprei ambos os livros, (lidos outrora, há mais de meio século...), na Livraria Bertrand,  inaugurada recentemente na rua 19.  Boa notícia e bom preságio para Espinho esta aposta num belo espaço de convívio com as novidades literárias, que há tantos anos nos faltava! Com saudade, recordo o último que nos foi dado frequentar, na rua 62, autêntica instituição da cidade, lugar de tertúlias e de exposições artísticas. A uma Bertrand não se pede tanto, mas, para quem gosta de deambular por entre estantes de livros é um pequeno  paraíso!
Voltando ao tema da fábula orwelliana, direi que chegou a hora de silenciar incongruências e desigualdades. Os "mais iguais".crescem em sociedades amedrontadas e conformistas, onde as críticas construtivas esmorecem. Não deixemos que pensem por nós. Colaboremos na prevenção da epidemia, com o civismo em que a maioria dos portugueses tem sido pródiga, mas não nos deixemos apanhar nas teias de oportunismo, que queiram tecer à nossa volta. Olhemos os  sintomas e os factos e ousemos  manifestar indignação. 
Indignificante foi, certamente, o contraste entre o privilegiado ajuntamento de um milhar de sindicalistas, que puderam ir, de todo o país, em camionetes, para a jornada do 1º de Maio em Lisboa, em pleno "estado de emergência", e a implacável expulsão pela polícia, à mesma hora, de uns quantos passageiros do metro, que iam de São Bento a Santo Ovídio, que fica a dois passos. A imagem, fornecida pela televisão, de homens fardados a banirem humildes trabalhadores do Porto e de Gaia de uma carruagem de  metro, enquanto os trabalhadores "mais iguais do que os outros", festejavam nas praças do Porto e de Lisboa, é coisa que me recuso a esquecer 
Também Inesquecível, e pela positiva, é a resposta à interpelação de uma repórter da TV  dada por um velho sindicalista, de 92 anos, que celebrava o seu 1º de maio,  de grande bandeira na mão. A jovem verberava a presença do velho, no meio da multidão, por fazer parte de "um grupo de risco", com "dever especial de confinamento". Calou-a ele, dizendo que se sentia muito bem, saudável, e, se tivesse de morrer, é porque tinha chegado a sua hora, depois de uma longa vida.... Também o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, que vai nos 73 , foi interrogado sobre o excesso de idade para estar na Alameda, e não gostou da pergunta... Eu também não!  Preferia que a arrogante jornalista tivesse tido a coragem de pôr essa mesma questão ao  Presidente Marcelo, que tem, mais ou menos, a idade de Jerónimo, anda por todo o lado, e pondera recandidatar-se ao cargo, que poderá completar com 77 anos. Em matéria de idade, são todos iguais. Ou não?

3 - Deixando para mais tarde algumas observações sobre o polémico relançamento do campeonato de futebol, domínio, por excelência, do improviso e de arbitrariedade, uma palavra sobre outra controversa reabertura: a das praias, que tão diretamente interessa a Espinho.
Começar por dizer que talvez nada me tenha chocado tanto, neste tempo pandémico, como a interdição do acesso ao mar, durante semanas, meses!. O mar é nosso, é das pessoas, é domínio público. Evitar grandes concentrações, previsíveis no verão, sim, certamente, mas com regras de "distanciamento social" semelhantes para ruas,  esplanadas, ou areais....
A diversidade de soluções é, para já, a nota dominante, mas, (cuidado!) falta saber ainda o que sairá da fértil imaginação da senhora DGS...
 Há quem queira criar divisórias de acrílico (em Itália), implantar quadrados de areia conglomerada (em Espanha), abolir guarda-sóis sol e barracas para melhor aproveitamento do espaço (em Cascais), ou demarcação por cordões... Também há quem queira uma separação entre "praias estáticas" e "praias dinâmicas". Originalíssima adjetivação! Traduzindo: as "estáticas" são reservadas a banhos de sol, as "dinâmicas" a banhos de mar... 
Olhando as caraterísticas próprias da nossa linha de  costa, que tal destinar a Baía, (uma  quase"piscina natural"), aos dinâmicos surfistas e  nadadores, ao menos numa considerável faixa próxima do mar? O que permitiria libertar as outras praias para o culto do sol, as estáticas toalhas estendidas na areia, para-ventos e barracas, obviamente sem proibição de ir à água, exceto com o içar da bandeira vermelha... Declaração de interesses: é uma sugestão de quem gosta, sobretudo, de nadar.

VAMOS INTERROMPER A LIGA! JÁ!

Finda a primeira jornada deste outro (pseudo) campeonato, há que o interromper, de vez. Para quê arriscar a saúde e a integridade física dos jogadores durante mais nove desafios, ao ritmo de dois por semana? Com o SLB no primeiro lugar, estão cumpridos todos os obetivos.


terça-feira, 28 de abril de 2020

TODOS MASCARADOS



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TODOS MASCARADOS
1-  O Presidente da Assembleia da República, para além de algumas declarações "politicamente incorretas" (em prejuízo das comemorações
 do 25 de abril, que deveriam ter sido consensuais), foi mais longe ainda no campo do "cientificamente incorreto", com a sua indignada
 rejeição do uso de máscaras. Tal como Graça Freitas, ainda não percebeu que o sucesso do "desconfinamento" em segurança, ou com
 mais segurança, vai depender da insubstituível arma defensiva que é a máscara, cujo uso deverá ser obrigatório no espaço público,  e,
 aconselhado, igualmente, nas visitas a familiares e amigos. Eu fá-lo-ei, voluntariamente, consciente de que, com uma simples máscara 
protejo os outros. Deles espero reciprocidade.  
Sobre a COVID 19, crescem dúvidas e pavores, e as nossas raras certezas remontam, por sinal, aos primórdios da pandemia. A primeira é 
de que se trata de um vírus altamente contagioso, e, na esmagadora maioria de casos, escondido, como camaleão, numa ausência de 
sintomas ou na mansidão de sintomas ligeiros e enganadores.Outra certeza é a de que a taxa de contágio desce, substancialmente,  com o 
uso  de máscaras. A invisibilidade do vírus tem de se atacar, usando-as, realizando rastreios maciços, isolando os positivos, que os testes 
detetam. Não basta adesinfeção das mãos e o afastamento dos nossos semelhantes (um metro ou dois, ou mais -  aí já se penetra no terreno
 da incerteza). Por vezes, temos de nos aproximar dos outros, ao menos para  pagar uma compra, ou quando nos cruzamos num passeio 
estreito, e não é o ato de lavar as mãos, que nos livra (ou livra os nossos interlocutores) das gotículas potencialmente infetantes de um súbito
 espirro ou tossidela... A experiência dos países que sempre praticaram o confinamento seletivo ou melhor concretizaram o "desconfinamento"
 global está aí, em diversos continentes, para o provar. Negando as evidências, Graça Freitas caiu em descrédito, qualquer que tenha sido a 
razão da sua luta longa e quixotesca contra as máscaras (mera tentativa de encobrir impreparação, e falta de equipamento protetor nos
hospitais?). O Primeiro-ministro tem dado mostras de estar ciente de que não pode avançar para o "desconfinamento", sem, previamente, 
assegurar a abundância, no mercado, de material protetor. Enquanto aguardamos a sua decisão, aqui deixo um apelo: na rua, todos
 mascarados!

2 - Ao "estado de emergência", deve suceder o "estado de calamidade". Muda o nome, fica praticamente intacto o poder discricionário do
 executivo, apenas balizado, teoricamente, pela Constituição. Ao que consta, finda esta inédita ordália do emparedamento, seguir-se-á uma
 abertura gradual, privilegiando setores de atividade, e, eventualmente, grupos etários, cidades, regiões - segundo o critério do Governo.
 Para já, o debate público tem-se centrado, sobretudo, na necessidade de isolamento, até que seja operacionalizada uma vacina  (lá para 
2001 ou 2022...) não de todos os "grupos de risco", mas apenas dos maiores de 70 anos, muitos deles gozando de boa saúde, como o
 Presidente Marcelo. Está encontrada uma nova "peste grisalha"! Esquecidos andam, no debate, os diversos grupos de comprovado risco -
 diabéticos, (mais de um milhão) , cancerosos,  doentes renais, pulmonares, cardíacos…( que deverão tomar, eles próprios, tal como os
 seniores, as devidas cautelas).
No anos da troika e do governo de Passos Coelho, em cujo partido surgiu a designação de "peste grisalha", estava, supostamente, em causa
 a sustentabilidade do sistema de pensões. E, por isso, sobre os reformados foi lançado um aberrante imposto etário, denominado
 "contribuição extraordinária de solidariedade". Era inconstitucional, mas foi validado pelo TC, com alguns honrosos votos contra. Agora,
 para garantir a sustentabilidade do sistema de saúde, (debilitado por cortes insensatos), emerge a tentação de sacrificar os mesmos, os mais
 velhos, que, nos termos da declaração do estado de emergência, se viram sujeitos, tal como os cidadão de outros grupos de risco, a um
 "dever especial de confinamento". No futuro, se o governo mantiver esse dever de confinamento, estará, de facto, a condená-los a prisão
 domiciliária, atentando contra Liberdades e Direitos Fundamentais. Manuel Alegre, de imediato, levantou a voz para protestar. Não há limite
 de idade para defender a Liberdade!
3 - Traçar a fronteira etária do declínio físico e mental é coisa impossível. Não existe categoria mais heterogénea. É inegável que muitos 
idosos sofrem de patologias graves, e, é por isso e não pela idade cronológica, que estarão em situações de risco, altamente agravado no
 caso dos residentes em lares, legais ou clandestinos. Deles ninguém cuidou atempadamente! Aqui, como na Europa, de norte a sul, 
constituíram grosso das fatalidades da COVID 19. Bom será que os nossos políticos atentem na vergonhosa realidade de tais estatísticas.
 E que encontrem, também, explicação para o facto do enorme acréscimo de mortes (mais 3000) ocorridas no país, nestes dois últimos 
meses, em comparação com o mesmo período do ano passado, e atribuídas a outras causas, que não a pandemia. Talvez o medo de
 recorrer a um hospital, o medo de sair de casa...  Medo, solidão, desesperança vitimaram mais velhos do que o corona vírus! É a hora de
 ouvir uma voz que se levantou acima do ruído das banalidades, a do Cardeal Tolentino Mendonça: "Que os velhos se tenham tornado uma
 abandonada periferia - e os condicionamentos da pandemia podem ainda dramaticamente acentuá-la - diz muito da crise interior que mina
 o nosso tempo

sábado, 18 de abril de 2020

A COVID 19 - mais CINEMA e menos FUTEBOL

Entre as medidas que este preclaro Governo se prepara para tomar, na normalização possível no pós estado de emergência, decretado por Sua Excelência  o senhor Presidente da República, está a reabertura de cinemas, com lugar marcado e lotação limitada, e futebol à porta fechada.
Que me desculpem os senhores governantes, mas tenho de lhes dizer: não entendo!!!.
Então os estádios desportivos, ao ar livre, têm de estar de bancadas inteiramente vazias e as casas de espetáculos, pequenos retângulos fechados, acanhados, muitos deles subterrâneos, clautrofóbicos, podem ter público, de duas em duas filas e de três em três lugares?
It is a mad, mad, mad world (título de um filme hilariante que vi, há muitos anos).