Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
terça-feira, 1 de fevereiro de 2022
ENTREVISTA de A DEFESA DE ESPINHO dez 2020
1 – O Natal está a aproximar-se e a o coronavírus não se vai embora. Tem vivências de outros tempos tão difíceis e delicados?
- Estamos a viver nesta quadra do Natal uma realidade de que não existe memória - nem mesmo há um século, durante a "gripe espanhola", no que respeita à mobilidade e paralisia da vida societária. Parece-nos irreal, como se estivéssemos dentro de um filme de ficção científica, não é? E o filme ainda vai a meio, não temos saída para breve e não podemos fazer, a meio, um pequeno intervalo, para conviver à volta de uma mesa. Se o fizéssemos, para gozar o Natal do costume em família alargada, as consequências seriam terríveis. Os responsáveis têm de dizer isto, sem titubear, em vez do discurso facilitista que faz de nós patetas ou crianças grandes - acenando com a miragem de livres celebrações natalícias se nos "portarmos bem" e baixarmos o número de contágios até ao fim da semana anterior. Melhor seria pensar no que vai acontecer na semana ou semanas seguintes, com mais um provável pico de contaminação! É preciso falar claro aos Portugueses, que têm sabido, bem melhor do que as autoridades, tomar as medidas que o bom senso recomenda. Acho que se pode confiar neles, que não é preciso impor as limitações pela força e controle policial, mas que se deve alertar para os perigos. Se me permite, aqui deixo votos de Feliz Natal para todos os espinhenses, este ano vivido mais em espírito do que em abraços...
2 – Ano velho, ano novo! O ano de 2020 será o fantasma de 2021? A pandemia (com maior ou menor dificuldade) será superada? Ou não será assim tão linear…
- Infelizmente, já podemos ter uma certeza: uma parte significativa de 2021 será igual a 2020, com máscaras e distanciamento físico. A vacinação em massa é motivo de esperança, se correr pelo melhor. Um "se" complexo... De qualquer modo, como agora todos estamos convertidos em virologistas amadores, eu permito-me avançar a minha previsão: 2021 será dividido a meio, o primeiro semestre igual a este 2020 e o segundo a anunciar a normalização total de 2022! Que bom poder ir a estádios cheios de gente, a lançamento de livros e a exposições, ao cinema Trindade e aos alfarrabistas do Porto, andar sem máscara na rua e sem álcool-gel na carteira, pegar em criancinhas ao colo e viajar para Lisboa, Londres ou Toronto... A "grande vida", a liberdade!
3 – A culpa é do vírus ou é das pessoas?
- Olhando o que se passou ao longo destes últimos 10 meses, eu diria que há culpas repartidas. Não somos culpados pelo súbito aparecimento do vírus (ao menos fora do país onde nasceu e cresceu), mas sê-lo-emos, em parte, pela sua persistência. Para já, ele está aí. Veio para ficar. Quando erguemos barreiras, não consegue espalhar-se. Quando baixamos a guarda , multiplica-se vertiginosamente. Culpa dos governos, em primeira linha, por terem tomado medidas ziguezagueantes e dado sinais confusos, como aconteceu em toda a Europa, e não só cá, mas também dos cidadãos, quando se descuidam, por cansaço e impaciência. As chamadas "vagas" da pandemia não se devem ao vaivém do vírus (que permanece, sem mutações de vulto), mas à alternância dos "confinamentos" e "desconfinamentos" apressados... Nada justificou a excessiva abertura no verão, porque o número de casos continuava muito alto.
4 – Tem saudades dos contactos com os emigrantes? A diáspora lusa ainda é o que era?
- É verdade que tenho muitas saudades. Desde o início do meu trabalho na emigração, iniciado há exatamente 40 anos, por dever de ofício, no governo e no parlamento, e continuado, até hoje, em "voluntariado", este foi o primeiro ano em que não pude fazer uma só visita a comunidades da emigração! Ia partir, em março, para participar no Dia Internacional da Mulher, organizado pelo jornal "Luso-presse" de Montreal e tive de cancelar a viagem, no último momento. Vou mantendo contactos em debates e entrevistas por "zoom", "facebook", "skype"... São estas novas tecnologias que nos vão valendo!
5 – O que é “ganhou” enquanto secretária de Estado das Comunidades Portuguesas? E o que é ficou por fazer?
- Ganhei uma outra visão do nosso País, da nossa gente, do modo como recria espaços de vivência e cultura nos cinco continentes do mundo. Quando dizemos que somos uma "Nação de comunidades", mais Povo do que território, estamos a fazer o retrato de uma realidade, que anda muito esquecida no nosso dia-a-dia, dentro de fronteiras. Raras vezes olhamos esta dimensão, o que ela nos acrescenta e engrandece. Os emigrantes, pelo contrário, são de uma dedicação e solidariedade sem limites para com a terra de origem, e é por isso que a transportam consigo e a recriam, visivelmente, no meio associativo, em manifestações coletivas ... A Diáspora não é uma estatística. Pouco importa, de facto, a quantidade, a mera soma de portugueses radicados numa determinada cidade ou região, o que mais conta é a capacidade de criar estruturas, instituições, e, através delas, assegurar o convívio, as festas, os rituais, os valores identitários, legados aos mais novos. Uma comunidade em sentido sociológico é isto. Não são números, são sentimentos e gestos concretos.
Ficou muito por fazer nas ajudas concretas (os meios foram sempre poucos), na mobilização, no estabelecimento de redes de contacto e convívio entre comunidades que se ergueram por si, sem apoio do Estado... Este ano comemora-se o 40º aniversário da criação do Conselho das Comunidades (um projeto de Sá Carneiro, que me coube executar no seu Governo), que prossegue esse objetivo fundamental - promover o reencontro dos emigrantes entre si e com o País.
6 – Ser “portuga” por esse mundo fora enche a alma e dá alento para quem vai à procura de uma vida melhor?
- Sim, dá, quase sempre, uma vida melhor! O sucesso dos que partiram incita os outros, família, vizinhos, a seguirem o seu exemplo. Esta é, em síntese, a história da nossa emigração! Os portugueses, aos milhões, ganharam essa aposta, individualmente, o País ganhou uma inesperada e espantosa componente extra-territorial, para além das esperadas e astronómicas remessas, mas continua na cauda da Europa, ao menos no que respeita a desigualdades, baixos salários, trabalho precário, inferiores expetativas de carreira - desfasamentos que são a causa mais eficaz da expatriação secular, imparável, até hoje...
Já tenho dito, e repetido, que a revolução de 74 foi a única verdadeira revolução da Liberdade, aquela que veio , enfim, conceder o direito de emigrar, incondicionalmente, e, todavia, mais de quatro décadas depois, os governos ainda não conseguiram dar aos cidadãos o "direito de não emigrar", ou seja, de viver confortavelmente na sua terra...
7 – Já ninguém parte com uma mala de cartão… E nem todos cantam…
- Não sei se estou inteiramente de acordo com a afirmação. De facto, embora o que mais chame a atenção seja a chamada "nova emigração" de jovens altamente qualificados (um autêntico "brain drain", que devia arrepiar os nossos governantes...), a maioria ainda é muito parecida à do passado longínquo, a tal da "mala de cartão", símbolo de pobreza e falta de bagagem académica e profissional. Em muitos casos, é apenas um movimento sazonal, como revelam as estatísticas oficiais. A presente crise vai ter consequências neste setor, mas não é fácil prever quais. Pode, suponho, travar, conjunturalmente, novos movimentos, sobretudo nas migrações de perfil tradicional, mas, depois, vai depender do ritmo de recuperação no nosso e nos outros países. Certo é, sim, que os candidatos mais qualificados, os médicos e enfermeiros que agora faltam no SNS, os engenheiros, ou os cientistas, encontrarão sempre menos obstáculos...
8 – Foi também um privilégio ter sido vereadora da Cultura de Espinho? Cidade que lhe diz tanto e que adotou para viver…
- Foi uma experiência surpreendente. E eu gosto de surpresas - das boas surpresas, é claro... Nunca imaginei que o "governo local" revelasse potencialidades, que não ficavam atrás do governo central - mesmo para quem, como eu, vinha de um pelouro com ação "planetária", sem fronteiras. Não esperava encontrar tanta competência e tanto entusiasmo nos meus colaboradores - os melhores que tive, depois de ter estado em funções em cinco governos da República. Fiquei, contudo, com a ideia de que não será nada fácil encontrar funcionários de tanta qualidade humana e profissional em serviços municipais similares, de norte a sul do País... Aqui em Espinho, sei que me saiu a sorte grande! Era um verdadeiro prazer reunir com as chefias e pensar, em conjunto, o desenvolvimento dos programas culturais, dando continuidade ao que vinha de trás (não eliminei nada, era tudo válido e de qualidade) e preparando novos projetos, exigidos, desde logo, pela comemoração do centenário da República. Não tínhamos dinheiro para nada, mas não nos faltavam ideias e boa vontade . É incrível o que se conseguiu levar a cabo nessas condições, em 18 meses... Sentávamo-nos à volta da mesa redonda, o debate fluía, quando chegávamos ao fim, os projetos estavam totalmente reformulados e eram de todos -já nem sabíamos quem tinha proposto o quê... Dramático foi, porém, neste ambiente tão caloroso, a morte da Drª Isabel e, depois, da Drª Beatriz, duas grandes senhoras - inesquecíveis! Desse quarteto admirável, só a Drª Idalina e o Dr Bouçon continuam em plena atividade na Câmara. Naquele belo edifício da antiga conserveira, que eu sonhava ocupar com uma diversidade de núcleos de animação, como um museu do violino (o Engª Capela propunha-se montar ali uma autêntica oficina de "luthier"), um clube de jazz (com um grande nome à frente), um café, com vista para o mar... Falo do que não aconteceu. O que aconteceu é sabido. Gostei particularmente de dar uma contribuição para pôr "nomes às coisas", às Galerias Souza Cardoso, à Biblioteca José Marmelo e Silva... Se tivesse estado na Junta de Freguesia, lá teria sugerido que a bela galeria do 1º andar, se chamasse "Conde de Ferreira". Nada mais justo, pois o edifício foi doado por ele (para a escola primária) à cidade de Espinho... Compreende-se a reconversão dos edifícios a outras finalidades, mas não o esquecimento dos beneméritos, que em Portugal é a regra, não a exceção.
9 – Mas também tem orgulho em ser da dita terra do nabo e das nozes? Ainda lá estão as origens…
- É verdade que sim. Até nisso me sinto identificada com os emigrantes, no duplo sentimento de pertença à terra de origem, Gondomar (onde morei apenas dez anos, mas onde a família materna remonta, nuns ramos, ao século XVI e, noutros, ao século XVIII), e a Espinho, que foi o meu paraíso de férias, desde a infância, e que escolhi para viver há mais de 45 anos. No verão de 1950, meus pais prolongaram a estadia na pequena casa de férias da Rua 7, que, há muito, pertencia aos meus bisavós, e eu cheguei a frequentar, ao longo do 1º trimestre, a Escola da Rua 23 .
10 – Em Gondomar não andaria tanto... e tanto a pé como em Espinho… Tem rio mas não tem mar. E o mar de Espinho o que é que lhe diz?
- Em Gondomar, nem sequer tinha o Douro à vista, porque sou do centro de São Cosme... Mas nasci e vivi com os meus Pais em casa da Avó materna, um casarão, cercado de dezenas de árvores, de todas as formas e feitios, e com um extenso terreno nas traseiras, onde podíamos correr e brincar à vontade. Éramos terríveis, trepavamos às árvores, como se estivéssemos na nossa "selva" privativa, saltávamos das janelas do 1º andar, por cima de roseiras altas... Milagrosamente, nunca nos magoamos.
Mas confesso que o mar me fazia falta. Era sempre uma alegria vir para Espinho no verão, os mergulhos nas ondas altas da praia azul, a natação na piscina, o vaivém na Avenida, os cinemas (60 filmes por mês, com a programação do S. Pedro e do Casino)... Que saudades!
11 – Sendo uma fervorosa adepta do Futebol Clube do Porto, já alguma vez sentiu uma indómita vontade de descer da bancada do antigo estádio das Antas ou do novo estádio do Dragão para entrar no relvado e mudar o “o jogo” ou rematar à baliza?
- Como me compreende!... Fui uma fanática do futebol, desde pequena. De todos os desportos, mas mais do futebol e do ciclismo, por sinal, os mais populares. Agora, sou mais do género "treinador de bancada" e, em vez de querer entrar em campo, o que me apetecia era mandar para lá alguns dos "imortais" que não têm sucessor, como Baía na baliza, Gomes nos remates certeiros, ou Deco a jogar e a fazer jogar... Ou, se fosse um pouco mais atrás, Pedroto, depois Pavão, a darem jogo, e Jaburu a marcar golos. Jaburu, brasileiro de Minas Gerais, como Yustrich, era uma espécie de cruzamento entre Hulk e Jardel - mais Hulk, porque corria, velozmente, o campo todo...
12 – Jogava à bola quando era mais nova? Era tecnicista ou era bola para a frente?
- A partir da 3ª classe, tornei-me aluna do Colégio do Sardão, que parecia um colégio inglês, cheio de recintos desportivos, ginásio,"court" de ténis, campos de basquete, volei, andebol. Pertenci às equipas de todas as modalidades (embora sem atingir o escalão da Graça Guedes que viria, depois, a ser campeã nacional de voleibol em Espinho). Só o futebol era proibido às meninas, mas eu organizava jogos clandestinos. Uma ve, fui apanhada e chamada à Mestra.Geral, com muito receio de apanhar o castigo máximo. Mas não, com muita graça, a normalmente severa e temida senhora disse-me;" Não é jogo próprio de meninas, mas como eu sei que és uma apaixonada, vou abrir uma exceção: tu podes jogar futebol, as outras não"..
Como organizadora dos torneios proibidos, eu escolhia a minha posição de "avançado-centro" e marcava muitos golos, As minhas colegas ainda hoje dizem que era ótima, mas eu sei que não. Muita energia e velocidade,tinha!. Técnica ou visão do jogo em campo, não... Era, como diz, "bola para a frente". Às vezes, até me perdia e saía com bola pelo retângulo fora.. Note: não me limitava a adiantar a bola, saia, eu também, com a bola no pé... No andebol, o nosso treinador, Edgar Tamegão (o único homem, para além dos padres, admitido, em funções naquele colégio de Doroteias) fez um teste para guarda-redes, e mandou-me logo para a baliza. Aí, era surpreendentemente eficaz, tinha nascido para aquilo, mas não gostava nada... Sentia-me "confinada", na minha área.
Para além de jogar, também fazia relatos imaginários, que entusiasmavam as minhas companheiras nos recreios. Nesses relatos, o FCP ganhava sempre, com inúmeros golos, tão gritados, que a pretensa locutora ficava rouca...
E é tão feminista?!
- Continuo igual ao que fui, sempre. Sabe, a minha avó materna, Maria Aguiar, cidadã e paroquiana muito interventiva e influente, mas extremamente conservadora, passava o tempo a interditar atividades: "uma menina não faz isso!". Não trepa às árvores, não joga a bola na rua, não anda pendurada nos elétricos... E eu pensava: "Mas porque não? Sou tão capaz como os primos, em qualquer dessas brincadeiras". Assim nasceu o meu feminismo. Não é nada contra os homens, é contra os preconceitos. Pela igualdade.
13 – A igualdade do género ainda conversa de treta nos tempos de hoje?
- Para mim, é uma causa pela qual vale a pena lutar, num tempo em que não só tantas discriminações permanecem, como até se começa a negar a sua existência, ou, ainda pior, num verdadeiro retrocesso civilizacional, a justificá-las como sendo boas. Esse discurso de uma extrema direita agressiva e brutal, que grassa nos EUA de Trump e em outras partes do mundo, e já chegou cá, ainda em miniatura, constitui a maior ameaça ao futuro da democracia. Hoje, na Europa, o perigo vem da extrema direita.
Antifeminismo, racismo e xenofobia andam a par, como se constata pelo discurso dessa extrema-direita. E têm de ser combatidos com as mesmas respostas, com os mesmos valores humanistas. O feminismo, como eu o vejo, é uma componente do humanismo perfeito, não é um machismo ao contrário. Apela ao bom entendimento e solidariedade entre os sexos, como entre nacionais e estrangeiros. Com esta visão das coisas, depressa compreendi os problemas centrais da emigração, porque defender os excluídos, os marginalizados, sejam as mulheres, os estrangeiros ou os negros, é missão da mesma natureza.
14 – A violência doméstica é sinal primitivo ou da sociedade que vive de aparências, silenciosa e inativa quando o problema é dos outros e de quem sofre?
- Certamente que é um sinal primitivo, embora subsista em sociedades que se consideram avançadas. É sempre um sinal de cobardia exercer a violência sobre os fisicamente mais fracos. E é um comportamento inqualificável, qualquer forma de descaso ou a condescendência da parte de quem pode e deve intervir - o Poder. Quer se trate de mulheres ou homens, crianças ou velhos. O mais chocante e recente caso, em Portugal, foi o assassinato de Ihor, um indefeso estrangeiro por agentes do SEF. Chocante, o silêncio das autoridades neste caso, e a demissão da Diretora Geral só agora, dez meses depois. Não foi violência doméstica, mas foi um crime infame no interior de uma sala escondida e fechada, como são os espaços em que, quase sempre, se exerce a violência doméstica.
15 – A política faz parte da sua vida, ou a sua vida é que faz parte da política?
- Vou mais pela primeira, no sentido de que a política pode e deve fazer parte da vida de todos nós - a política enquanto atividade cívica, exercício da cidadania... Tenho uma especial admiração pelos que se envolvem na sua comunidade, quer através de partidos, quer pelo trabalho nas instituições da chamada sociedade civil - dirigentes associativos, bombeiros, voluntários das mais diversas formas de solidariedade, seja na emigração, seja dentro do País.
16 – Era uma deputada respeitada por todas as bancadas na Assembleia da República, fosse à direita, ao centro ou à esquerda. E também havia “fait-divers” e momentos de convivência com outros quadrantes partidários?
- Fui educada assim, na minha família, onde sempre conviveram os opostos, primeiro monárquicos e republicanos, depois, democratas e salazaristas, anglófilos e germanófilos durante a guerra, filiados ou simpatizantes de vários partidos, após o 25 de Abril. Depois, estudei em Coimbra, onde era normal a convivência entre colegas de esquerda e direita. Eu tinha quadrante ideológico, era Social democrata "à sueca", como Sá Carneiro, e PPD, desde 74, mas independente, sem filiação partidária. E foi isso que, paradoxalmente, em 1978, me levou a um governo de "independentes", chefiado pelo Doutor Mota Pinto. Por isso, depois de aderir ao PSD, em 1980, mantive, esontaneamente, esse tipo de comportamento, quer no governo, quer na Assembleia da República. Sei que não era muito comum, por exemplo, ser mais amiga de Miguel Urbano Rodrigues, do PCP, ou de Carlos Luíz, do PS-emigração, de Paulo Portas e Anacoreta Correia, do CDS, ou de Natália, do PRD, do que da maioria dos colegas de bancada.
No hemiciclo de São Bento, em 1981, os meus primeiros debates foram com um especialista de emigração do PCP, Custódio Gingão, que era extremamente aguerrido. Eu respondia no mesmo tom e os nossos despiques eram tremendos! Até que um dia me lembrei de lhe agradecer, a meio de uma intervenção, dizendo que ele me estava a ajudar imenso no meu "tirocínio parlamentar". Era verdade... A partir daí, ficamos amigos, as discordâncias de fundo mantiveram-se, é óbvio, mas o tom esmoreceu bastante, de parte a parte... Histórias não faltam, falta-me o tempo para as contar...
17 – O filme “Snu” trouxe-lhe gratas recordações?
- Vi-o mais do que uma vez, na sala de cinema e, depois, na televisão, Como filme é "assim-assim", não fica na história do cinema português, mas a intenção foi boa, é uma merecida homenagem a Snu, bem interpretada por uma excelente atriz e bem retratada (tanto quanto sei, só estive com ela em encontros breves). Já o Dr. Sá Carneiro é, no capítulo político, sem culpas para o ator, muito mal apresentado... Homem firme, capaz de rupturas, como se sabe, reagia, invariavelmente, como mandava uma esmerada educação: sem levantar a voz, com um perfeito controle de si, em qualquer situação. O tom podia ser frio e cortante, mas era, sobretudo, muito civilizado. Ver no ecrã um Sá Carneiro aos gritos, ou a bater com as portas, é inverossímil, é um disparate! Dele é, assim, dada uma imagem completamente distorcida, e ao gosto dos seus maiores inimigos. Estranhei que ninguém do PSD oficial o dissesse.
18 – Para além de Sá Carneiro, também nutria simpatia pessoal por Mário Soares e por Mota Pinto… E era uma das “mães” de Paulo Portas…
- Sim, e, para completar o quadro, pode acrescentar o General Ramalho Eanes. Sei que todos estes grandes políticos, que tanto admiro, não se admiravam, necessariamente, entre si... Todos democratas, mas trilhando caminhos diferentes, com diferentes programas, estratégias e "timings" para atingir o mesmo fim - frequentemente, em oposição frontal, uns aos outros. Sá Carneiro tinha mais o sentido da urgência, queria uma democracia "à europeia", no imediato, acreditava na capacidade do Povo para a viver livremente, sem a tutela militar do "Conselho da Revolução". O General Eanes, como Presidente, estava à frente do Estado, das Forças Armadas e do Conselho da Revolução, cuja ação via como fundamental na construção progressiva da arquitetura democrática. Estive convictamente com Sá Carneiro e considero que a História lhe deu razão, porque o Povo estava preparado para a democracia, então tanto como hoje... Mas a História, quatro décadas depois, também mostra o General Eanes como um Português exemplar, que, afinal, queria tudo para o País, não para ele próprio. Não agia com um projeto de poder pessoal. Tivemos muita sorte com a qualidade destes "pais fundadores" da nossa democracia (não esquecendo Freitas do Amaral e Amaro da Costa, no quadrante da democracia cristã, centrista e soidária). Já não há políticos com essa estatura! E talvez nunca mais haja tantos, num mesmo cenário temporal. Foi um autêntico "milagre português".
Pessoalmente, sentia por Sá Carneiro verdadeira fascinação, considerava Mota Pinto um homem de inteligência fulgurante e de uma imensa generosidade, e Mário Soares um político perfeito. E todos, incluindo o General, tinham uma virtude, para mim muito importante: o sentido de humor! Muito pessoal, em cambiantes muito diversos, mas no mesmo grau elevadíssimo! Com todos mantive um relacionamento amigo e tão descontraído quanto possível, tratando-se de altas figuras da Pátria e sendo todos mais velhos do que eu...
Paulo Portas é outro caso, no sentido de que não é um pai, mas sim um filho, muito precoce, da democracia. Conheci-o, em reuniões do PSD, com 14 ou 15 anos, e logo o achei-o um rapaz super inteligente, vivíssimo, encantador. Não era a única das militantes do partido a pensar assim, e, por isso e, quando fui apresentada à Mãe, a Drª Helena Sacadura, não fiquei admirada com essa frase tão divertida: "Sei muito bem quem é. É uma das mães do Paulo!". Tal como o filho, é encantadora.
20 – Qual era o presente que gostaria de receber no Natal?
No Natal confesso que prefiro dar presentes a recebê-los. Este ano, espero oferecer a toda a família e a alguns amigos um livro que está a ser ultimado na gráfica - um blogue, com histórias soltas de várias gerações de Aguiares. Um blogue transposto da internet para o papel...
21 – Figuras nacionais que mais admirou e/ou admira? E estrangeiras?
- No campo político, as personalidades estrangeiras que mais me marcaram foram John Kennedy, Mandela, Trudeau (o pai do atual). Mais recentemente, Hillary Clinton... Portugueses, os que conheci de perto e de que já falei. Fora da política, onde é mais fácil encontrar grandes mulheres, Agustina, Amália, Natália Correia, Maria Barroso (que foi política também, mas não só). E as nossas feministas de novecentos, como Ana de Castro Osório, Maria Archer, Maria Lamas e as "sufragettes" inglesas, lideradas por Mrs Pankhurst (que nunca conseguiu ser eleita deputada, mas tem a sua estátua em frente ao Parlamento mais famoso da Europa).
22 – Quais são os livros preferidos? E os autores que mais aprecia ou quem melhor se identifica?
- Tenho muita dificuldade em responder a esta questão, porque não há, para mim, uma predileção por um género literário que exclua os outros... Gosto de biografias e autobiografias, políticas ou não (li há pouco a de Woody Allen, vou começar a de Obama, sobre a sua presidência, e tenho em lista de espera a de Virginia Woolf, 1927/41). Também sou fã de livros policiais - Agatha Christie, Ruth Rendell, Sara Paretsky e outras -falo, assim, no feminino, porque é uma área hoje, surpreendentemente, dominada pelas mulheres... E de romancistas, os do passado, mais Eça do que Camilo, mais Marmelo e Silva do que Vergílio Ferreira, e os mais recentes, como Mário Cláudio ou a incomparável Agustina. Brasileiros como Luís Montello e Érico Veríssimo, e os da língua inglesa, a minha língua estrangeira favorita. São tantos! Ultimamente, ando entretida a ler Alice Munro, Julian Barnes, Philip Roth... Desde que abriu a Bertrand em Espinho, tenho os cantos da casa cheia de livros novos, em fila, à espera de vez... Comprar também é um prazer!
23 – E quais são os filmes da sua vida? E ainda vai ao cinema, mas sem pipocas…
- A minha geração, como a dos meus pais e avós, ainda tem a paixão pelo cinema (e sem pipocas ...). Sou, aqui em Espinho, uma das pessoas mais assíduas nas sessões da tarde do Multimeios. Para dar uma resposta breve, direi que vejo tudo, só evito ficção científica e terror. Tenho muitos"filmes da minha vida"... de Orson Welles, de Ingmar Bergman, da "Nouvelle Vague" da minha juventude, Godard, Truffaut, Agnès Varda... Italianos, também. Revi agora, há pouco, os de Fellini na televisão. Mas o meu género preferido é, definitivamente, a comédia e o realizador Woody Allen...
24 – Quem é ou foi (ou é) o melhor treinador e o melhor futebolista?
- Esta é uma pergunta de resposta mais fácil no que respeita a treinador do que a jogadores. Treinador: Yustrich! Venceu o primeiro campeonato da minha vida, em 1956, contra tudo e contra todos, e ficou para sempre no coração dos portistas dessa geração. Eu estava nas Antas, com o meu Pai (éramos ambos sócios), no jogo final e decisivo contra a Académica, que "pôs o autocarro em frente da baliza"! Tinha quase 14 anos... Sofri muitos desgostos, na fase anterior a Pinto da Costa.
Jogadores fantásticos, são tantos! Se tenho de indicar um, só pode ser o DECO, o nosso Maradona. Genial...
NATAL COM TESTE in Defesa de Espinho dez 2022
1 - O Natal de 2021 vai ficar na memória como aquele em que milhões de familiares ofereceram, uns aos outros, um presente que não terá faltado em nenhuma casa portuguesa - o cuidado e a solidariedade de um teste anti-Covid!
As longas filas para compras de última hora, desta vez, não aconteceram tanto nos centros comerciais como nas farmácias de bairro... Quatro ou cinco horas de espera à porta da botica constituíram ritual que chegou aos telejornais (nada de surpreendente num país, onde conseguem fazer intermináveis reportagens a propósito seja do que for, de uma banalidade simétrica em todos os canais, à mesma hora). Não me lembro de em algum momento terem particularmente assinalado o que me parece ser a perfeita singularidade deste gesto, milhões de vezes repetido: a preocupação altruísta, porque o teste é quase sempre feito mais a pensar na família e nos amigos do que na própria pessoa - assim é, muito em especial, no caso dos jovens na sua relação com os idosos.
A cadeia geracional ganha visibilidade numa girândola de afetos, no reencontro feliz, preparado com alguns sacrifícios e não apenas com o que aquilo que o dinheiro pode facilmente comprar numa loja, entre o cintilar das luzes e o som da música. E assim, por vias travessas, nesta atitude de responsabilidade e civismo no vai-vém de uma perturbante peste dos tempos modernos, se redescobre, de algum modo, o significado, que andava um pouco perdido, do
Natal cristão.
A celebração do Natal há muito se tornou apenas festa da família, de cada família, no seu círculo estreito. E esse enfoque lúdico, com a tradição dos presentes, há muito divorciada da saga dos Reis Magos, da condição do nascimento de Jesus e do seu destino na Terra, levou o Natal muito para além das fronteiras do cristianismo. Os tons de ouro e de prata cruzam-se com o vermelho vivo nas montras das lojas e nos enfeites das ruas, sejam as de Espinho, de Paris, de Nova Iorque, ou as de Tóquio. A árvore de Natal, a música, os reclames, os postais de Boas Festas, na forma digital ou física, de papel colorido, são iguais em quase todo o mundo. O papel de embrulho dos presentes, também, e até os presentes - os que os amigos trocam entre si, os que as empresas oferecem aos colaboradores e clientes, os que as crianças pedem aos pais (creio que já não ao Menino Jesus - ou cada vez menos...), a partir de catálogos e de anúncios de TV...
2 - A mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, obsessivamente centrada na Covid 19, foi coisa para esquecer. Ou talvez não... Se a temática da pandemia vier a ser dominante no discurso de campanha eleitoral das legislativas, como é previsível, poderemos dizer, que a apagada tristeza da comunicação natalícia foi, afinal, o hábil lançamento de uma campanha, a colocar, em alternativa, "nós ou o caos".
Curiosamente, nas eleições autárquicas, o Primeiro Ministro andou de terra em terra a anunciar o próximo advento da "bazuca" europeia, prometendo mundos e fundos aos candidatos do seu partido. Agora, pelo Natal, em vésperas de legislativas, adota a tão contrastante estratégia de falar de combates (ao vírus), agitando. Nem parece ser, mas é o mesmo político que, há apenas algumas semanas, proclamou o "dia da libertação" pandémica e levantou medidas restritivas de direitos e liberdades, que agora reintroduz em dose reforçada... e com o despropósito e irracionalidade, a que a DGS, desde o início nos habituou.
Um exemplo: estamos todos lembrados do critério do distanciamento. Primeiro era um metro, mais tarde, dois metros, com x pessoas por metro quadrado. Nos estádios, ao fim de muitos meses, uma escassa percentagem da lotação total, que se foi alargando até aos 50% até que o dia da libertação permitiu "casa cheia". Concomitantemente, o "certificado de vacinação" dava livre acesso aos estádios e aos espetáculos que movem multidões. Agora, tudo mudou, e, mais uma vez, sem razão aparente - a vacinação, mesmo com 3ª dose, tornou-se, para este nobre fim, irrelevante e, em seu lugar, fica o "teste certificado",obrigatório: o antigénio, com validade de 48h, prestes, ao que consta, a ser reduzida a 24h (e depois se verá...talvez 12h , ou menos) e o PCR, válido por 72 h - para já.
O cúmulo dos cúmulos é ser exigido um destes testes para uma ida ao cinema! Onde, antes do "dia da libertação", o problema se solucionava com simples restrições de lotação, deixando cadeiras ou filas de intervalo, agora não - a sala pode encher, porque todos estão testados, logo, supostamente, "covid free"... É uma certeza política, não científica. No tempo em que a Senhora DGS era anti - máscaras, alegava, que, entre as suas imperfeições, se contava o facto de darem uma "falsa sensação de segurança" . Não era, como se sabe, verdade no que respeita à proteção assegurada pela máscara, mas é-o, sem dúvida, quando aplicado aos testes, que são falíveis, sobretudo os de antigénio. Pelo menos os negativos - ou porque o infetado tem ainda uma baixa carga viral, ou porque veio a sofrer o contágio nas horas seguintes...E nesse estado vão conviver, muito mais despreocupadamente do que se não estivessem testados.
3 - Voltando à temática do teste obrigatório para ir ao cinema, direi que é o perfeito exemplo de uma medida nociva e insensata. Priva os cidadãos de um bem cultural a que têm direito e prejudica, gravemente, as salas de espetáculos, que ainda resistem à crise, ignorando o contexto atual em que, na sua maioria, funcionam - sobretudo as que não servem cartuxos de pipocas. É o caso daqueles que mais frequento: o Multimeios de Espinho e o Trindade, no Porto. À entrada, antes de comprar o bilhete, pergunto sempre quantas pessoas estão na sala e só concretizo a compra se tiver baixa ocupação. (não por causa da Ómicron, ou dos conselhos da DGS, mas por minha própria iniciativa, desde o início desta praga). Até hoje, tive de desistir... Aqui em Espinho, raramente estão mais de dez pessoas num espaço com capacidade para 280!
Ora, havendo, em geral, tão escassa assistência, os limites impostos não eram atingidos, pelo que ficavam salvaguardados tanto os interesses do negócio, como a saúde dos espectadores. A que propósito mudar o bom critério, que valeu anteriormente? Quem estará disponível para gastar mais horas na fila de espera dos testes do que no espetáculo que pode sempre ver mais tarde? Um filme não é um "happening" único e irrepetível como um jogo de futebol ou um concerto musical...
Estes ziguezagues não ajudam a manter a credibilidade que resta à DGS". Não dá para esquecer que, primeiramente, nos dizia não haver contágios nas escolas e agora, para convencer os pais a vacinar as criancinhas, já coloca as escolas no "ranking" dos maiores focos de contágio". Ao lado das discotecas...Estranhamente fora da lista de perigo continua tudo o que é da responsabilidade direta do Estado - caso dos transportes públicos...
Por favor, deixem-nos, ao menos, ir ao cinema, para esquecer desgraças... No dia de Natal, seguindo o conselho de Isabel II, fiquei em casa a ver um filme antigo. Gostei, mas não é a mesma coisa..
IRRITAÇÕES E INDIGNAÇÕES in Defesa de Espinho 2022 jan
IRRITAÇÕES E INDIGNAÇÕES
1 - Fui buscar o título "Irritações"a um programa de televisão muito divertido, que costumo ver, à sexta.feira, porque tinha planeado falar daquilo que, em dias ainda recentes, mais me exasperou... Mas, à medida que alinhava uns tópicos, constatava como alguns me despertavam sentimentos mais fortes, na medida em que, na minha ótica, iam muito além da mera incoerência ou estupidez toleráveis. E acrescentei uma outra palavra, mais forte – indignações! Um plural vasto.. Tive de deixar de fora muitas "indignações" que poderão dar azo a futuros comentários.
Para começar brandamente e prosseguir em crescendo, direi que me irritaram as pré-campanhas eleitorais, sobretudo, as de Costa, Rio e Rangel (Ventura pertence ao capítulo das indignações permanentes, Chicão é demasiadamente desinteressante e os outros líderes partidários deixam-me indiferente).
Costa (de quem pessoalmente gosto por ser feminista e aberto à aceitação de refugiados e imigrantes, causas em que colaborámos num já distante passado parlamentar), desaguizou-se com os parceiros da defunta geringonça, viu o orçamento chumbado por eles e o governo derrubado e quer, agora, apresentar-se a eleições com a mesma estratégia, o mesmo orçamento, o mesmo programa, os mesmos "compagnons de route"! E, ainda por cima, (nova irritação!), depois de ter proclamado, repetidamente, durante seis anos, que preferia a queda do governo à sua possível manutenção com a ajuda do PSD, mudou de opinião, num ápice, e veio confidenciar ao País que esse eventual apoio da “direita” ascendeu às alturas de uma admissível, embora indesejada e improvável, alternativa…Mas porquê? O que justifica o volte-face? Mistério...
Rio tem vindo a ser um provocador de não menor irritação. Prosélito da sua própria badalada honestidade política e coerência, enreda-se, no dia a dia, em objetivas contradições –tal como criticar, só agora, o processo de resposta à pandemia, a que assistiu passiva ou silenciosamente, quando
não lhe deu expressa concordância, tornando-se conivente com todas as medidas, muitas delas incongruentes, ora excessivas, ora levianamente laxistas de Graça Freitas e da sua “entourage” de burocratas da saúde, durante cerca de dois anos de confinamentos de duvidosa eficácia e desconfinamentos apressados (oscilando, sempre, entre o oito e o oitenta). Desfiar, tarde e a más horas, um rosário de críticas, em tom de pura propaganda eleitoral, não se pode considerar nem convincente, nem dignificante da imagem da política e dos políticos.
Também me irrita bastante o seu despropositado uso da língua alemã, quando lhe faltam não tanto as palavras em português, como os argumentos (qualquer que seja o idioma falado). Um snobismo provinciano, que tem tido, ao longo dos anos, manifestações ainda piores, nomeadamente a sua sanha contra o futebol, desporto do povo, a par de uma (estimável, ainda que elitista) paixão pelas corridas de automóvel.
Em Rangel, (militante social-democrata que, tal como Rio, conheço superficialmente), irrita-me a estratégia anti-Costa, embora “tipo Costa”. Ambos são “negacionistas” de acordos ao centro ( ou de Bloco Central), que, como se tem visto, redundam em alianças contra natura, deslocando o arco da governação muito para a direita, no caso do PSD, e muito para a esquerda, no do PS. E, com isso, o país se torna ingovernável ou mal governado, incapaz de empreender as reformas de fundo de que precisamos para sair do patamar mais baixo da União Europeia. Poucos são, como é evidente, os que sonham com governos de "Bloco Central", como o que existiu em 1983/85, numa conjuntura irrepetível. O que muitos, como eu,
desejam é o entendimento daqueles que, em Portugal, partilham uma visão do Estado de Direito, da Democracia, da Europa, da NATO... Ou seja, a larga "maioria constitucional", que vem do tempo de Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Mota Pinto, de partidos moderados, não revolucionários, que o povo português sufragou, e continua a sufragar, em cerca de 80%.
Apesar do seu aparente "anti socialismo primário", votarei em Rangel nas eleições internas do partido. Estou cansada das bizarrias de Rio, uma das quais é a recusa, completamente imprópria de um democrata, de comparecer a debates com o adversário. E considero Rangel um centrista, que, se for imprescindível, mais depressa se aproximará do PS do que do Chega. Não esqueço que Ventura nasceu e desabrochou no seio da “facção passista” do PSD, que apoia este candidato à liderança, mas não o confundo com eles, É um político inteligente e cosmopolita demais para navegar nas mesmas águas - o Parlamento Europeu apura a sensibilidade democrática neste domínio... Acredito que não vai “descentrar” o partido, pelo contrário, manterá o equilíbrio entre uma direita mais ruidosa e uma esquerda, que ainda existe, ou resiste, e onde me situo (social-democrata "à sueca", como Sá Carneiro).
2 – Numa categoria híbrida, metade irritação/metade indignação, incluo o anúncio oficial da “libertação” da pandemia, acompanhado de um rol de medidas de apressado alívio de restrições e de cautelas. Na realidade, nada distinguia esse “dia D”, artificialmente inventado, do dia anterior e do seguinte – não havia chegada em massa, de reforços, de meios decisivos para pôr fim à guerra, que não tem fim à vista, pois o vírus, quer se considere ainda pandémico ou já endémico, anda por aí, à solta …A ideia era alcançar um (efémero) brilharete político, mas teve um efeito psicológico nefasto para o conjunto da população. Trouxe um falso sentimento de segurança, desmobilizou o esforço individual na luta contra o vírus - esforço individual que é, neste momento, a mais inteligente e legítima arma de combate. Com a nossa elevadíssima taxa de vacinação (obrigada, Almirante!), o número de mortos e internados em cuidados intensivos desceu enormemente e parece, por isso, desproporcionado - e, nessa medida, atentatório dos nossos Direitos Constitucionais - voltar às soluções de recolher obrigatório, de restrições à circulação, de encerramento de setores da economia, de comércios, serviços públicos, espetáculos. Temos de nos concentrar, sim, nos cuidados de que cada um de nós é capaz, apelar à consciência dos cidadãos, aconselhar o uso generalizado da máscara, o distanciamento físico. São pequenos incómodos, face àqueles outros remédios radicais, que paralisaram a vida económica, social e cultural do nosso e de tantos outros países, em todo o mundo. Que ninguém mais promova a “libertação” de cautelas e cuidados, como o Governo tão insensatamente fez, para logo desfazer, em clima de ameaças e temores… Estamos cansados de ilusões, inverdades, demagogia. Um exemplo muito"irritante": quem não se lembra de nos garantirem que a escola era segura, que não havia riscos de contágio na faixa etária dos alunos mais pequenos? Agora, está provado o contrário, e até aventam a possibilidade de vacinar as criancinhas, a partir dos cinco anos…
3 – Da minha longa lista de indignações, aqui deixo algumas que particularmente me chocaram, em matéria de Justiça. Penso num recente julgamento de um pedófilo condenado por abuso sexual de uma menina de quatro anos. Circunstância agravante: o criminoso era o próprio pai da vítima. A sentença foi de três anos de pena suspensa. O pedófilo saiu em liberdade!
A mesma reação me despertou, há alguns meses, a benigna sanção dos três inspetores do SEF, que assassinaram, no aeroporto de Lisboa, Yhor Homeniuk, cidadão ucraniano, que vinha simplesmente, como tantos milhões de portugueses, ao longo de séculos, procurar trabalho honesto no estrangeiro. Foram apenas nove anos de prisão para Duarte Loga e Luís Silva e sete para Bruno Sousa.
É neste contexto que se aguarda o desenrolar e desfecho de um processo, comparativamente menor, de um cidadão que, no final de uma partida de futebol, insultou e agrediu um operador de câmara de televisão, provocando-lhe ligeiras lesões e danificando o material. Ora, segundo os media – trata-se de um incidente muito mediático, é claro… - as penas por esta sucessão de atos delituosos poderão atingir doze anos! Isto é, uma sanção quatro vezes superior à de um ato repugnante de pedofilia parental e bastante mais elevada do que a aplicada numa história trágica e hedionda de tortura e de morte, em nome da autoridade do Estado. (Yhor, como sabemos, esteve dois dias confinado nas instalações/cárcere do SEF, e agonizou durante dez horas, falecendo de lenta asfixia).
Quem quer comparar esta barbaridade a uma indesculpável, mas essencialmente impulsiva e disparatada rixa de final de jogo? Passando da indignação à irritação, direi que, para já, pelo menos, um jornalista… A pena de doze anos é ainda apenas uma hipótese mirabolante, mas que essa hipótese possa ser tão naturalmente avançada por um profissional da comunicação social, é, em si, coisa estranha. Que mentalidade é esta, que, no campo da Justiça, impera no nosso Portugal, em fins de 2021?
MARIA ARCHER INTEMPORAL - Lisboa, 24 jan
Uma primeira palavra de agradecimento à organização deste colóquio, em especial à Profª Isabel Henriques de Jesus, pelo convite para participar numa grande jornada de reflexão em torno de Maria Archer, no 40º ano da sua morte
A celebração de uma efeméride é, por vezes, apenas cumprimento ritual de um calendário, mas também pode ser muito mais, se dela se faz um momento de salvaguarda da memória de figuras ou acontecimentos, um momento de reavaliação do seu papel, do seu significado no tempo presente. Assim sucedeu, por exemplo, na comemoração do 20º ano da convocatória do 1º Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Emigração, de que resultou o reinício ou o verdadeiro início de políticas públicas naquele domínio, ou do centenário da República, em cujo programa de eventos foi dada enorme e bem merecida visibilidade a grande vultos da 1ª vaga do nosso movimento feminista.
E assim poderá ser, e espero que seja, com as comemorações do cinquentenário da revolução de Abril, onde haverá lugar ao reencontro com a vida e a obra de grandes mulheres que a Ditadora e o chamado Estado Novo tentaram eliminar dos anais da República, do património imorredouro que é a memória coletiva.
Sei que não há uma ligação direta entre essa aguardada agenda, e a iniciativa que aqui nos convoca, mas atrevo-me a dizer que pressinto nas linhas de investigação voltadas para as escritoras que resistiram às pressões e perseguição do regime ditatorial, de algum modo, uma espontânea decorrência do ambiente criado em torno dessa data marcante, que, no lapso de um século, separa 50 anos de ditadura e 50 anos de democracia. Separa o Portugal em que Maria Archer combateu e Portugal pelo qual incansavelmente se bateu.
Maria Archer, essa portuguesa admirável, nascida num dia do último janeiro do século XIX, e, contudo, tão atual no pensamento e na mentalidade, que vem agora sendo redescoberta como exemplo inspirador de inconformismo e de coragem
Nela vejo, sempre, antes de mais, a cidadã - cidadã de muitas cidades, num percurso repartido pela geografia do universo lusófono, em convívio, curioso e expectante, com as suas culturas e particularidade, empenhada em aprendizagens e partilhas, observadora e interveniente em tão variados domínios, invariavelmente movida por valores humanistas que são ainda hoje os nossos.
Um destino de interminável itinerância, desde menina, poderia ter significado inadaptação e desenraizamento - mas não! Sendo quem era, bem pelo contrário, enraizou-a um pouco por todo o lado, com o seu olhar atento sobre a tudo o que era alteridade, fascinada pelo exotismo e pela beleza das pessoas, dos costumes e das paisagens..
Em estadas longas, que perfizeram 14 anos de África, a sua infância e a juventude decorreu numa sucessão de idas e voltas, de Lisboa para Bissau e Bolama, para a Ilha de Moçambique, com os pais, depois, já casada, para a mítica ilha de Ibo com o marido, e após o divórcio, ainda sob teto paterno, para Luanda.
Divorciar-se, no ano de 1931, foi um ato de enorme ousadia, com que encerrou um ciclo e começou outro, finalmente livre para transpor a fronteira do espaço privado, onde as jovens da burguesia se deixavam emparedar, em vitalícia dependência como filhas ou esposas, para o espaço público, onde se tornou verdadeiramente Maria Archer
Em 1935, em Luanda, fazia a sua estreia literária com uma obra sobre três mulheres, de seguida, publicava, em Lisboa, "África Selvagem", uma primeira e fulgurante incursão nos domínios da literatura colonial. Era o início da aventura solitária de subsistir pela escrita, como Autora reconhecida pela crítica e pelos leitores, que esgotavam edições e reedições dos seus romances e novelas, e como reputada articulista nas páginas de jornais e revistas de referência. Num breve relance sobre a sua trajetória de escritora, vemo-la por pouco mais de duas décadas, destacar-se nos meios intelectuais de Lisboa, onde se impôs pelo talento literário – como a grande revelação da década de trinta – encantou pela elegância do porte, pela cultura e pela vivacidade do espírito e desafiou os poderes constituídos usando a escrita como arma na luta pelas causas que a moviam. Causas que permanecem, tantas décadas depois, impressionantemente atuais: a criação literária e artística das mulheres como expressão de liberdade e dimensão de cidadania, o feminismo como humanismo, e a aproximação dos povos da lusofonia - ultrapassando a visão eurocêntrica tradicional, herdada da 1ª República, no policentrismo dos seus escritos mais tardios, da que podemos chamar a fase brasileira.
A ditadura assente na repressão das Liberdades e no conservadorismo misógino, não tolerava a subversão da sua ideologia e da sua Ordem e não podia, sobretudo, admitir a transgressão no feminino, que Maria Archer encarnava. Entre nós, ninguém levara tão longe, e tão militantemente, a denúncia pela recriação realista de uma atmosfera social e política do quotidiano num país anacrónico em que as mulheres eram confinadas pelas normas impostas no relacionamento dos sexos, pela educação para a desiguldade e pela censura dos costumes. É esse mundo segregado das mulheres que desoculta - mulheres são sempre as personagens principais nas suas obras... E fá-lo, com o implacável rigor de uma etnóloga por vocação e a arte consumada de manejar a língua, em toda a sua riqueza e plasticidade. Nas suas próprias palavras, "moldava o retrato sobre modelo vivo". Um retrato com muitos rostos, muitos enredos...
A Ditadura não gostou do retrato, que desconstruía, pelo ímpeto iconoclasta da sua obra, e pelo seu exemplo de independência , o ideal tipo feminino do salazarismo. E não lhe perdoou. Condenou-a ao ostracismo não só no seu espaço, como no no tempo. Quis, como disse Maria Teresa Horta, "deliberadamente apagá-la da história".
Maria Archer foi obrigada a partir para um exílio de 24 anos em São Paulo, de onde regressaria, em 1979, num regresso obscuramente, diminuída na debilidade física irreversível, desaparecida na memória do país, mas, no seu íntimo, confiante no julgamento do futuro. .
Esse futuro é agora, somos nós.
Estamos hoje aqui, a dizer, com a nossa presença e a nossa palavra, que queremos, deliberadamente, restituí-la à História. O movimento começou nos meios académicos do Brasil, com a plêiade de investigadores, que desde há alguns anos, vem cumprindo essa esperança, no reencontro a sua obra intemporal de escritora e jornalista - e o eco desses passos vem, desde data mais recente, repercutindo em Portugal. Cronista de uma época que, nos seus livros, pode ser estudada, numa perpetiva interdisciplinar, em múltiplas leituras, todas atuais. Protagonista histórica da luta pelo direito de pensar, de falar e de viver livremente em Portugal, pela aproximação dos povos de fala portuguesas, continuadora da 1ª vaga do feminismo português, a que a ditadura pôs termo, com a barreira da censura e da polícia, e antecessora da 2ª vaga, que nasceu e cresceu no declínio do Estado Novo, nas vésperas da revolução, que antecipou com o seu pensamento de mulher moderna – e moderna ainda por padrões atuais.
No 40º ano da morte de Maria Archer, queremos celebrar o seu retorno definitivo do exílio, para preencher o lugar a que tem direito na história da literatura, da democracia e do feminismo em Portugal.
Falta contar é a história que escreveu dramaticamente com a sua própria vida. Talvez, por altura de outra efeméride, em 2024, nos 125 anos da escritora, haja quem queira e possa dar-lhe e dar-nos
essa biografia por presente. Valerá a pena, porque tão singular e extraordinária é a obra como a a sua Autora
Maria Archer podia ter sido personagem de um romance de Maria Archer
vida de Maria Archer.
sábado, 8 de janeiro de 2022
PEDRO RUPIO CCP Europa
Reproduzo com total concordância!
Opinião: Uma « Democracia » com 4 deputados para 5 milhões de portugueses
Em breve, os 5 milhões de portugueses e lusodescendentes residentes no estrangeiro estarão
envolvidos nas próximas eleições legislativas tendo em conta o elevado número de eleitores inscritos
nos círculos da emigração.
Assim, os portugueses da Diáspora darão também o seu contributo na democracia nacional.
Ou talvez não.
Isso porque, independentemente do número de votantes, os portugueses da emigração somente irão
eleger 4 deputados. Podemos ser mil a votar ou um milhão, o resultado será o mesmo: 4 deputados
eleitos pela emigração sobre um total de 230. Assim o fixa a Lei.
E citando o exemplo do círculo da Europa, já é possível antecipar o resultado habitual relativamente
aos partidos vencedores, a não ser que haja uma surpresa de peso. Desde 1976, ano em que se
começou a eleger dois deputados por esse círculo, decorreram 15 eleições legislativas e por 14 vezes
(só houve uma exceção em 1999), o resultado foi sempre o mesmo: um deputado eleito pelo PS, outro
pelo PSD. E assim será o “suspense” em futuros atos eleitorais legislativos enquanto não se elegerá
mais deputados nos círculos da emigração. É esta a nossa democracia.
Uma democracia que determina que 172.699 portugueses elegeram 9 deputados no distrito de Faro em
2019, ao mesmo tempo que 158.252 portugueses residentes no estrangeiro1
elegiam 4 nos círculos da
emigração.
É esta a nossa “democracia” que, com a cumplicidade do Legislador, não atualiza o número dos eleitos
na emigração desde 1976, quando a Diáspora tinha possivelmente metade, ou o terço da dimensão que
tem hoje.
Mas face a essas incoerências que dificilmente se entende lá fora, também é possível antecipar que
muita gente nas Comunidades Portuguesas continuará a apelar ao voto, até porque a implementação do
recenseamento automático na Diáspora foi um passo extremamente positivo no sentido de reaproximar
os emigrantes da vida política portuguesa.
Uma melhor e maior representação política na Assembleia da República é o passo que deveria seguir,
uma meta que seria simbolicamente relevante de se alcançar, sabendo que celebraremos meio-século
de Democracia em 2024
terça-feira, 21 de setembro de 2021
MEMÓRIAS MUITO POLÍTICAS DE FP BALSEMÃO
1 - Não conhecemos ainda qualquer esboço do programa das anunciadas comemorações dos 50 anos da revolução de 25 de Abril, que ocorrem em 2024. Bem à portuguesa, só sabemos, para já, dois nomes. O de quem preside, simbólica e honorificamente - o General Ramalho Eanes, que há muito devia ser o Marechal Ramalho Eanes, e é absolutamente indiscutível - e o de quem vai "presidir" ao Executivo, um jovem professor da área do PS, cuja notoriedade enquanto comentarista de vários "media" em muito suplanta o seu, para já, modesto currículo universitário. Apesar da sensatez e moderação com que sempre intervém, representa, face à escolha da personalidade do Presidente, o 8 perante o 80.
O perfil de académico é, a meu ver, o ideal para um coordenador da "comissão organizadora" das celebrações, se, como me parece fundamental para o seu êxito, se vierem a centrar em aprofundadas investigações interdisciplinares. Para fazer história e para "fazer futuro" - na linguagem de então, para "cumprir Abril", ou para dar a dimensão da modernidade às "conquistas da revolução". O que por tal se entende não é inequívoco ou consensual em todos os quadrantes, mas, da equidistância dos cientistas se espera que os considerem todos. Como escreveu Agostinho da Silva, o filósofo que adorava gatos, a história que mais interessa é a do futuro. Porém, não é menos verdade que o ponto de partida e a fonte de ensinamentos e de inspiração é a do passado...
Os trabalhos vão, suponho, começar em breve e prolongar-se por vários anos, antes e depois da efeméride nuclear. Nada tenho a opor a um tão extenso
período de preparação e de continuidade de esforços se eles envolverem abertura às diversas universidades e especialistas, (não se fechando em "lobbies"" ou capelinhas), se servirem a pesquisa académica rigorosa, a recolha de documentação, a reflexão e a divulgação da história, pensando, em particular, nos mais jovens, no diálogo intergeracional.
Eu atrever-me-ei, contudo, a afirmar que, num certo sentido, essa tarefa já teve o seu início num segmento particularmente importante da preservação da memória, com o testemunho direto de muitos dos protagonistas da revolução de 1974 e da edificação da democracia - ou seja, o seu "dia seguinte", na meia década de setenta e na de oitenta. Falo das autobiografias políticas, que não eram propriamente uma boa tradição nacional, mas que ganharam terreno entre os nossos contemporâneos. Cavaco Silva contribuiu com dois volumes, meticulosamente documentados, e mais os seus "diários" da presidência, na esteira de Jorge Sampaio. Mário Soares deixou-nos uma riquíssima coleção de publicações, tocando várias épocas e domínios, até o literário. Convidativos exemplos! As últimas publicações do género que tive a oportunidade de consultar, foram as de Diogo Freitas do Amaral, em 2019, - com o volume final de uma trilogia, "Mais de 35 anos de Democracia Um Percurso singular" Memórias Políticas III (1982-2017) - e de Francisco Pinto
Balsemão, intitulada, simplesmente, "Memórias".
Ambos nos oferecem a perspetiva diacrónica de uma fascinante e vertiginosa sucessão de eventos em duas décadas cruciais, tal como as atravessaram e marcaram, com um contributo individual para alicerçar a arquitetura do Estado democrático. E, não parando aí, trazem-nos com eles na viagem por mais um quarto de século de democracia estabilizada, até à atualidade. Para muitos, sobretudo os que que nunca souberam o que é o quotidiano de
gente comum ou dos ativos intervenientes sob a ditadura, é uma incursão num mundo desconhecido, norteado por normas estranhas, absurdas... Para outros tem o encanto de uma saga acompanhada de perto, ou, até, em alguns momentos, partilhada. Ao lado de Freitas do Amaral, no governo em que ele foi Vice-Primeiro Ministro de Sá Carneiro, como sua Secretária de Estado, vivi o melhor ano da minha vida, o de 1980, até ao dia 4 de dezembro. Lembrá-lo, página a página, torna-se, assim, uma espécie de romagem de saudade.
De Balsemão não posso dizer o mesmo, nunca fui amiga nem prosélita, mas, à distância de décadas, é um exercício estimulante constatar, com mais objetividade, não só divergências de análise sobre casos e pessoas, mas concordâncias e algumas bem relevantes, como a relativa à atual filiação do PSD, a nível europeu - o erro de trocar, em fins de século, a Internacional Liberal e Reformista por um PPE, cada vez mais conservador e menos cristão-democrata - ou a simpatia por um militar "presidenciável", que se chamava Mário Firmino Miguel.
2 - Embora abrangendo, no decorrer de um dado período, as vicissitudes da vida pública no mesmo espaço é muito distinta da de Balsemão a narrativa de
Diogo Freitas do Amaral - reflexo natural das diferenças de personalidade, de pensamento, de formação académica, de objetivos na profissão e na política, e de realização concreta nestes dois sectores.
Freitas do Amaral conjugou, na perfeição, uma fulgurante carreira universitária, (muito novo ascendendo a Professor Catedrático de Direito), e uma corajosa, determinada, e não menos brilhante trajetória cívica e política, ganhando o seu lugar entre os "pais fundadores" do regime nascido no do 25 de Abril - primeiro presidente do CDS, o "Homem de Estado", que, segundo Mário Soares, "ajudou a converter a direita portuguesa à democracia".
Escreveu muitas páginas de história, que é não apenas sua, mas do País, e, por isso, de leitura obrigatória. Uma obrigatoriedade que a leveza e a naturalidade com que se exprime, numa linguagem, em simultâneo, precisa, simples e acessível sobre os temas mais complexos, torna, afinal, muito grata e aliciante, não exclusivamente para especialistas em questões de política nacional e internacional, mas para qualquer um de nós.
Enquanto Balsemão nos apresenta a sua "narrativa de vida" de mais de oito décadas, Freitas do Amaral optou por se focar nas "memórias políticas", editadas ao longo de mais de 20 anos em três volumes - nos anos de 1995, 2008 e 2019. Neles vamos, fase a fase, seguindo o excecional trajeto de alguém que se preparou, com talento, rigor e dedicação, para ser o que foi. Numa expressão sua, lapidar. "Sonhei coisas grandes e, felizmente, vivi muitas"-
Bastante novo atingiu o topo da carreira académica, como professor catedrático de Direito, e muito novo se viu a liderar um dos quatros grandes partidos do pós 25 de Abril. Excecional se revelou, depois, em todos os cargos aos quais se candidatou e para os quais foi eleito, dentro e fora do país - Deputado, Vice Primeiro Ministro, Primeiro-Ministro interino, Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, Presidente da União Europeia das Democracias Cristãs (o primeiro português eleito para a presidência de uma grande "Internacional"), Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, candidato à presidência da República, numa eleição que ganhou na 1ª volta e perdeu na 2ª, para Mário Soares, por escassos 138.000 votos... Paradigmática é a
forma como analisa os vários factores determinantes dessa derrota, com uma objetividade de cientista político, e como aceita, democraticamente, o veredicto popular, não hesitando em afirmar: "O percurso e o currículo de Mário Soares eram nitidamente superiores aos meus".( Quase metade dos portugueses tinham mostrado, nas urnas, pensar o contrário...). Recusando contestar o resultado, o candidato vencido apressou-se a felicitar o vencedor. No dia seguinte, recebeu em casa "um enorme ramo de flores', com um cartão de cumprimentos, admiração e respeito do casal Maria Barroso e Mário Soares". Nas "Memórias", comenta: "Só o Mário Soares e a Maria de Jesus seriam capazes de fazer uma coisa destas". E eu acrescentarei: Só Freitas do Amaral seria capaz desta reação - a democracia portuguesa no seu melhor! Na era dos Trump e dos Bolsonaros, motivo, para nós, de renovado orgulho.
3 - Francisco Pinto Balsemão, em mil densas páginas, reúne, nos capítulos que sobre política se debruçam, um manancial de dados, desde os dias em que a revolução apenas se adivinhava, sem hora certa. Deputado da "ala liberal" na Assembleia Nacional, a convite de Marcelo Caetano,
fundador de um semanário que soube antecipar o tempo da democracia,( "O Expresso"), co-fundador de um partido político, que pesou decisivamente na mudança de regime, o PPD/PSD, Ministro, Primeiro Ministro por dois anos (e dois governos), deputado europeu por 11 dias. E muitas coisas mais: milionário nato (ou seja, de fortuna herdada, que não dilapidou), jornalista, advogado, empresário da comunicação social, não lhe falta matéria de interesse para levar a conhecimento público. Passados os 80 anos, bem gozada a vida, satisfeitas as ambições, as que teve e até as que nem tinha
sonhado (nomeadamente ser Primeiro-Ministro, o que somente aconteceu por um trágico acaso), fala sem reservas nem resguardos. É ele próprio, retrata muitas figuras da nossa "res publica", tal como as vê e, ao fazê-lo, retrata-se a si também. Poucos são os que se autobiografam assim, emitindo opiniões, com o à vontade, de quem está numa roda de amigos. O jornalista vem ao de cima", redige com desembaraço e espontaneidade, sem floreados, sem excessivas subtilezas, sem poupar os alvos, ainda que estes hajam ocupado, ou ocupem hoje os mais altos cargos de Estado. As passagens agrestes sobre Marcelo Rebelo de Sousa, não só no livro, mas em entrevistas laterais ao seu lançamento, fazem furor, e, talvez expliquem, pelo menos em parte, que a 1ª edição esteja, (ao que consta), já esgotada. Da Bertrand, em Espinho, trouxe comigo o último exemplar, que só terei conseguido, por estar ligeiramente amolgado - nada que afete o conteúdo.
Em jeito de recomendação, terminarei confessando que tenho ficado a lê-lo pela noite dentro, refrescando lembranças, algumas já vagas, e confrontado as minhas com as suas interpretações sobre o encadeamento de ocorrências, de conflitos, polémicas, pessoas que os protagonizaram - exercício tão grato quando aquelas vão no mesmo sentido como quando são dissonantes.
Em suma, mais um significativo subsídio para a história de uma então tão jovem e esperançosa democracia.
in Defesa de Espinho, 16 de setembro
Conheci o Mestre António Joaquim no início dos anos 80, durante uma visita a Santa Maria da Feira, já ele era um pintor muito famoso. A sua simplicidade, o feitio comunicativo e, ao mesmo tempo, discreto, cativaram-me desde esse primeiro dia. Era amável, gostava tanto das pessoas como da Natureza e, por isso, as retratava tão maravilhosamente nos seus quadros.
Ao longo de anos, não foram muitos os encontros que nos permitiram diferentes percursos - o meu largamente passado em lugares distantes - mas considero um privilégio todos os momentos de convívio animado pela sua inteligência e vivacidade, pelas histórias que contava da sua juventude, quando a vocação que adivinhava em si lhe traçou um outro destino. Admirava-o pela forma improvável, quase se diria milagrosa, como rompera os limites do círculo em que as circunstâncias de nascimento e profissão pareciam querer confiná-lo, para dar amplos horizontes ao génio inato de artista que se foi aperfeiçoando em estudo e evolução constantes. Em todas as idades - porque o seu espírito nunca envelheceu! - foi, sempre capaz de nos surpreender pela originalidade, pela ousadia na recriação da realidade em incessante procura da Beleza, que capta em cada traço, na luz e sombra de uma paisagem, na perspetiva nova de uma cidade, onde tantas vezes andamos sem a ver assim, numa velha porta, que, num toque de magia, restitui a tanta vida que por ali correu, no permanente vaivém de passagens, apelando à nossa imaginação, sem revelar o seu mistério.
Não sei dizer o que mais me encanta - se a obra, se o pintor. Na verdade, ele está, inteiro, no mundo de arte que nos legou, tão intrinsecamente luminoso como a sua própria personalidade. António Joaquim irradiava simpatia, era espontâneo, amigo e generoso - qualidades de que deu prova, quando num encontro ocasional, durante uma sua exposição na cidade do Porto, o desafiei a fazer uma retrospetiva de décadas de pintura na inauguração das galerias geminadas do Museu de Espinho. Disse-me imediatamente que sim.
Foi um evento histórico! Até aí, só uma das galerias estava aberta a eventos, invariavelmente, pouco concorridos. Recuperada a dimensão do plano de arquitetura originária, o amplíssimo espaço agradou plenamente ao Mestre, que não hesitou em organizar a grande mostra num curto espaço de tempo (para tal sendo, em boa hora, adiada uma outra, que chegara a estar prevista).
Que sucesso! Da Feira, do Porto, e de outros pontos do país chegaram visitantes, em número que jamais se havia visto, dia após dia, nesses meses de setembro e outubro de 2010. Inesquecível, para todos os que puderam contemplar, como escrevi na altura, "aquelas paredes longas, transfiguradas em deslumbrante mural de obras primas"!
E eu tive, então, o raro privilégio de poder recomeçar a visita, quotidianamente, em diálogo continuado, não só com as telas, mas também com o Autor ali presente, aprofundando laços de respeito e de afeto que se converteram, depois que partiu, numa imensa Saudade.
Maria Manuela Aguiar, ex-Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas e Vereadora da Cultura da Câmara de Espinho.
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