Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quarta-feira, 21 de setembro de 2022
A RAINHA in "Defesa de Espinho"
2022 A RAINHA
1 - Rainhas há muitas, mas quando dizemos, simplesmente, “a Rainha” falamos sempre de Isabel II. A sua desaparição deixou muito poucos indiferentes, a nível planetário – monárquicos e republicanos, por igual. Sentimos a perda como se fosse nossa – do nosso país ou comunidade, ou até da nossa família. Quem não tem, entre os seus parentes, alguém que envelheceu bem, como ela?
As emissões televisivas ao longo dos últimos dias mostraram até que ponto a emoção e a tristeza são largamente partilhadas. Na hora da sua morte, objetivamente esperada, mas subjetivamente inesperada, o mundo parou para a homenagear num coro encomiástico, que abrangeu, entre inúmeros líderes de Estados de todas as geografias, Zelensky e Putin, Biden, Obama, Trump e até Bolsonaro (que decretou 3 dias de luto oficial no Brasil!). Em Londres, as duas Câmaras do Parlamento reuniram, prontamente, em sessão especial, para que todos os membros sobre ela dessem o seu testemunho, contando pequenos episódios pessoais, a que não faltou, em alguns casos, um toque de humor carinhoso - no que a antiga Primeira Ministra Theresa May foi, especialmente, exímia. É, afinal, o que é costume em qualquer velório, ou elogio fúnebre. E, tratando-se de uma figura enorme e ímpar, quem resiste à tentação de desfiar as suas próprias memórias de um encontro havido com ela, ou de um simples vislumbre da sua presença? Não serei exceção...
Precisamente como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, (sou da mesma geração), vi-a, pela primeira vez, em 1957, de relance, alinhada numa rua cheia de gente. No meu caso, não em Lisboa, mas ao fundo da Avenida de Gaia, que o cortejo de vistosas viaturas negras descia lentamente, a caminho da ponte sobre o Douro. Eu estava lá, no meio de dezenas de colegas do Colégio do Sardão, todas de uniforme de festa, formando uma longa mancha azul marinho na orla do passeio. Ensaiadas pela nossa professora de inglês, a muito britânica Madre Mary King, cantávamos, alto e bom som, o “God save the Queen”. Ouvindo o hino, a destinatária terá mandado parar o carro. Por uns segundos, olhou-nos, com simpatia, sorrindo e acenando, tal como o marido. Ele mesmo à nossa frente, a pouco mais de um metro de distância, pois, de comum acordo, tínhamos escolhido o lado da Avenida onde melhor o poderíamos ver. Estávamos, naturalmente, mais interessadas no formidável Duque de Edimburgo do que na sua discreta monarca.
Quase três décadas depois, na meia década de oitenta, a Rainha voltou ao nosso País, em visita oficial, e eu, então no Governo, tive várias oportunidades de a cumprimentar - nada mais do que breves e formais saudações. Não guardo recordação particularmente emotiva da sua postura sereníssima e hierática … Foi, de novo, o Príncipe Filipe, quem mais me impressionou. Com ele, sim, aconteceu, no Palácio da Ajuda, uma inesperada e divertida conversa a dois, a propósito da vistosa faixa da condecoração (a OBE), que cruzava a metade superior do meu vestido comprido...
2 – Sem mais contactos pessoais, fiz a minha “estrada de Damasco”, em relação à Rainha, nas últimas décadas, à medida que fui reconhecendo, não só a sua surpreendente disponibilidade para acompanhar os novos tempos e as novas gerações, (conciliando progresso e tradição, como só os mais velhos podem fazer, quando mantêm o espírito bem aberto), mas também a sua importância enquanto “Mulher de Estado”, ou seja, enquanto trunfo na argumentação em favor da igualdade de género. Redescobri Isabel II como verdadeiro ícone para causas que, há muito fiz minhas, na luta contra discriminações, que dominam as nossas sociedades, de forma clara ou larvada: o sexismo e o idadismo. De facto, a idade tornou-a mais sábia e verdadeiramente venerada e permitiu-lhe ir, a seu modo, revelando a pessoa por trás da "persona". No início do século XXI, era já a mais poderosa e consensual imagem de empoderamento no feminino.
E não se diga que o poder é meramente simbólico nas monarquias constitucionais, porque, tendo intrinsecamente essa componente, pode ir muito além dela, e, com Isabel II, foi! O seu poder era imaterial, derivado de um imenso prestígio e autoridade pessoal, exercido num plano superior ao da política partidária e das questões da governação concreta. E não cessava de crescer com o passar dos anos, e de irradiar no mundo sem fronteira dos afetos. Ela foi a perfeita representante, a grande diplomata ao serviço do Estado e do povo (ou povos). Soube encerrar o ciclo imperial e reerguer uma Commonwealth, animada pelo espírito dos novos tempos. Foi Rainha do Reino Unido pelo acaso do seu lugar numa linha de sucessão dinástica, mas líder da "Commonwealth", por mérito seu. Indiscutível, eleita e reeleita, enquanto aceitou sê-lo, por uma maioria de Chefes de Estado republicanos! A Commonwealth, refundada na época isabelina, no espaço de relacionamento do antigo império, é atualmente constituída por 56 países, que representam uma enorme fatia da população mundial. É um projeto voltado para o futuro, do domínio da cultura e dos afetos, muito orientado para a juventude, em programas de intercâmbio no campo da educação, da formação tecnológica e científica, do desporto e do convívio com a Natureza e da defesa do meio ambiente. É um aspeto que não tenho visto suficientemente salientado pelos nossos comentadores, apesar do relevo que lhe é atribuído na Grã-Bretanha, nos "media", na opinião pública, nas instituições políticas e, "last but not least", no discurso régio, como pudemos constatar nas primeiras declarações do Rei Carlos III (impossível comparar esta realidade com a de uma insignificante CPLP, que nunca "levantou voo", ainda à procura de uma identidade, de um "cimento", levando a que as relações de Portugal com as ex-colónias, e mais largamente, entre todos os países que a compõem, se vão processando, essencialmente, no eixo bilateral).
O percurso de Isabel II foi verdadeiramente admirável, e permitiu-lhe contribuir poderosamente para o moderno reposicionamento do seu Reino (ou dos seus Reinos) no concerto das Nações. Em meados do século XX, ela era apenas uma jovem feliz no seu casamento e maternidade recente, que se via "obrigada" a entrar num mundo de homens, repentinamente, pela morte prematura do pai, sem ter preparação e experiência da coisa pública. Contudo, o seu desempenho, do primeiro ao último dia, foi uma extraordinária mostra da capacidade (feminina) para responder aos maiores desafios, para exercer, de forma superlativa, as mais exigentes funções e para as articular com a vida de família. Deste ponto de vista, o seu legado é precioso e inspirador, porque nos deixa a certeza, ou, pelo menos, uma pertinente interrogação sobre o que todos os Estados e todas as sociedades ganhariam se dessem às mulheres, mesmo àquela que parecem pessoas comuns, como de início parecia ser Elizabeth Alexandra Mary Windsor - que, ainda por cima, teve uma oportunidade que nem sequer desejava…
3 – Nesta leitura das lições do reinado de Isabel II , que alguns verão como"feminista", é particularmente interessante a forma como conjugou as esferas pública e privada em teve de repartir o seu múnus. O primeiro sinal da sua fortíssima personalidade, que a postura suave não deixava pressentir, foi o fazer, contra tudo e contra todos, um casamento de paixão, com um jovem e belo oficial da Marinha e príncipe grego no exílio, Filipe, um primo afastado, trineto da Rainha Vitória, que por ela abdicou dos seus títulos das Casas Reais da Grécia e da Dinamarca. Contrariando presságios e vaticínios, a união duraria 73 anos de esplêndida cumplicidade, apesar de subverter a tradicional divisão de papéis conjugais: ela era a chefe de Estado, e reinava sozinha, com um poder indivisível, e punha o interesse do Estado à frente do seu, enquanto ele assumia plenamente as responsabilidade familiares, sacrificava uma muito promissora carreira militar, e ficava publicamente “desempregado”. Em suma, assumia a condição de "grande homem atrás de uma grande mulher". Teve de reinventar ocupações e fê-lo, inteligentemente, em iniciativas e tarefas de enorme importância, embora, as mais das vezes, quase invisíveis, porque nunca quis tirar o palco à sua Rainha. Em anos recentes, com a autoconfiança que a idade permite, ela veio desvendar, publicamente, o seu contributo, por tanto tempo escondido na sombra, mas não é certo que a História lhe dê semelhante reconhecimento... Assim aconteceu com as mulheres consortes, ao longo dos tempos. Só agora, começa a repetir-se com alguns, ainda raros, homens. A injustiça é da mesma ordem e deve mover-nos, do mesmo modo, a denunciá-la...
Ninguém fez o elogio fúnebre de Filipe Mountbatten sem o relacionar com a sua mulher - e, a meu ver, bem. Por isso, nessa lógica, eu não gostaria de escrever sobre Isabel II, sem lembrar o papel do marido, a seu lado. Sabe-se hoje (mas talvez isso seja esquecido amanhã), que ele foi o seu principal conselheiro, e até o seu "ghost writer" e, seguramente, não por complacência. Isabel II sabia ouvir, a fim de julgar e decidir depois. Tinha boas razões para confiar em Filipe, na sua mundivisão e audácia, que temperava com o filtro da sua proverbial sensatez e prudência. A ele se deve, por exemplo, a abertura a um novo relacionamento com os “media”, que começou pela inédita transmissão em direto da cerimónia da coroação da Rainha (vencendo um braço de ferro com Churchill, que era absolutamente contra), a modernização da monarquia (ele não acreditava, no que o acompanho inteiramente, que a realeza se banaliza se perder o seu "mistério" e se aproximar do "povo") e, note-se, a própria reconfiguração da “Commonwealth”, que reflete as suas causas culturais e ambientalistas, a sua aposta na força da convivialidade. A presença, as visitas da Rainha (muitas, que ele sempre acompanhou, e completou com as suas, a solo, que foram muitíssimas mais) constituíram as bases da sua construção e consolidação.
O "fenómeno Isabel II" não teria, sem os extraordinários e constantes aportes do seu consorte, a dimensão universal, que celebramos em breves dias deste setembro de 2022, lembrando sete esplêndidas décadas de reinado. Penso, muito em especial, na mediatização da sua imagem de grande Rainha, que, muito para além das fronteiras da Grã-Bretanha, valorizou, nomeadamente, as virtualidades de todas as monarquias modernas, de todas as Mulheres, que conciliam carreira e família, de todos os idosos, a quem é permitido o bom uso societal da sua experiência e saberes até ao fim da vida. Thank you, Madam!
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
AS INGLESAS QUE CONQUISTARAM O FUTURO DO FUTEBOL
1 - A final do Euro de futebol feminino levou a Wembley 87192 espectadores e teve 18 milhões de telespectadores em todo o mundo. Foi a maior assistência de sempre numa final europeia de futebol, masculina ou feminina. Não foi por acaso - a Inglaterra é a terra matricial de um desporto destinado a ultrapassar os demais em popularidade, a nível planetário. Mas, na verdade, parece que, ainda hoje, os seus inventores o amam mais do que todos os outros, e, por isso, não fazem questão de quem está em campo, homens ou mulheres, desde que o saibam jogar bem. Nem sempre foi assim. O "foot-bal", que é agora de toda a gente, no seu berço inglês, como nos países para onde ia sendo exportado, o “foot-ball” era privilégio de classe social e de homens de raça branca… Uma das glórias do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, fundado por imigrantes portugueses, foi a de ter sido o primeiro clube do Brasil a integrar atletas negros no seu plantel. Negros, sim, mujlheres, não! Estas teriam de esperar ainda largas décadas de rigorosa segregação, até serem admitidas num retângulo de jogo. Sei.o por experiência própria, Em meados do século XX, no Colégio do Sardão, que oferecia condições excecionais para a prática de todas as modalidades consideradas “próprias para meninas” – ginástica, ténis, ping-pong, patinagem, andebol, voleibol, basquete… - o futebol era, em absoluto, proibido. Nós jogávamos, mas clandestinamente, sob ameaça de pesados castigos, a que, com muita sorte, fomos escapando. Na única vez em que nos denunciaram, eu, como suspeita de ser a organizadora (e efetivamente era…), fui chamada à presença da “Mestra Geral”. Esperava o castigo máximo, todavia a nossa "abadessa" revelou um inesperado sentido de humor. Depois do sermão (“o futebol não é jogo apropriado para meninas”, etc. etc.), terminou, dizendo: “Bem, Manuela, como sei que gosta muito de futebol, a si, dou-lhe uma autorização especial para jogar, às outras, não…”. E ficou tudo como dantes – continuamos a transgredir, de bola no pé, em vez de bola na mão… É, todavia, justo reconhecer que as Doroteias do meu Colégio não estavam isoladas nos seus paradigmas de “desporto feminino”, antes partilhavam a mentalidade do tempo , a nível nacional e internacional. Longa era, então, por exemplo, a lista de desportos interditos ao sexo feminino nos Jogos Olímpicos. Agora, nem sequer se pode consagrar uma nova modalidade olímpica, se não for aberta aos dois sexos! O futebol há muito captou as mulheres e países há, onde é mais popular entre raparigas do que entre rapazes, como é o caso da América do Norte.
Acredito que, num futuro próximo, haverá forte pressão sobre os clubes profissionais para se dedicarem ao futebol feminino. Já há seis anos, em 2016/17, a FPF instou os participantes da Liga principal a formarem equipas de ambos os géneros, tendo tido resposta positiva do SCP, SC Braga, Estoril Praia, Os Belenenses e Boavista, a que, depois, se juntaria o SLB. Hoje, três dos “quatro grandes”, SLB, SCP e Braga, curiosamente, repartem entre si os troféus no feminino. Só o FCP permanece de fora (é o meu clube, com muita pena o digo...). Cabe a honra de representar a cidade do Porto ao Boavista, a segunda equipa mais titulada de sempre do nosso futebol feminino, com 11 campeonatos (dez consecutivos, entre 1985 e 1995!). Perdido este ascendente no século XXI, o Boavista optou, recentemente, por apostar nos escalões de formação, para, a prazo, voltar ao topo. O SCP tem dois títulos, tal como o SLB (atual campeão), o Braga um... No ranking da UEFA, Portugal ocupa um modestíssimo 23º lugar, logo atrás da Ucrânia, mas a seleção esteve no Euro e bateu-se bem com as melhores.
2 – Qualquer que seja o domínio considerado, é sempre mais fácil proclamar a igualdade no campo jurídico do que vivê-la na realidade. É especialmente assim na área do desporto, e, em particular, do desporto-rei, porque, além de grande espetáculo é poderosíssimo negócio internacional, de perfil masculino (como todos os grandes negócios). E, para além dos talibãs e dos aiatolás, são ainda inúmeros os homens que, por todo o lado, consideram o futebol jogado por mulheres “contranatura”, desvirtuação do fenómeno original e autêntico, para eles intrinsecamente másculo, ao contrário de, por exemplo, o ténis, a natação, o andebol, ou o bilhar. Mas onde reside, de facto, a suposta especificidade do futebol? Sabe-se lá... Certo é que se consubstancia em preconceitos enraizados, inelutáveis, no curto e médio prazo. Os progressos são muito mais visíveis na qualidade de jogo interpretado por mulheres, do que em matéria de preconceitos sexistas... Mas eis que, se súbito, assistimos a uma espécie de milagre, que pode apressar a longa caminhada para a meta da igualdade. Refiro-me, é claro, à vitória inglesa no Euro 2022, numa final espetacularmente disputada com a Alemanha. Passo a explicar porque considero que o êxito das alemãs não teria o mesmo efeito.
No futebol masculino é costume dizer: "são onze contra onze e, no fim, ganha a Alemanha". Ora, na esfera feminina, o mesmo se pode afirmar: até 2022, as alemãs tinham ganho todas as oito finais que disputaram! Na nona, eram as grandes favoritas. Se o favoritismo se confirmasse, o que mudava? Não muito, à semelhança do que aconteceu nos anteriores oito campeonatos do avassalador domínio germânico. O país está demasiado habituado a vencer e valoriza, naturalmente, mais os sucessos masculinos. A Inglaterra, pelo contrário, perseguia um título europeu ou mundial de futebol há 56 anos - o seu último troféu fora erguido precisamente contra a Alemanha,e por coincidência no mesmo estádio, em 1966. Olharam a oportunidade do Euro 2022 em ambiente de verdadeira loucura coletiva, com multidões nos cafés, nos bares e nas ruas, desde a cidade de Londres à mais remota aldeia. E, como o sonho comanda a vida, gritavam todos, convictamente: "o futebol está de volta a casa". Num só dia de glória, a perfeita igualdade ao nível dos festejos, do delírio popular, do reconhecimento e orgulho nacional foi fulminantemente alcançada. A igualdade nos demais aspetos não é para já! Contudo, ao menos no universo de cultura anglosaxónica, que é imensamente mais vasto do que a Inglaterra, o ritmo vai, de imediato, acelerar, onde é crucial: nos escalões de formação dos clubes, na escola, no investimento do Estado (já está prometido pelo governo de Boris Johnson um primeiro reforço de 230 milhões de libras...).
Na sua saudação, a Rainha Isabel II (conhecida adepta de futebol) apontava ao futuro: "O vosso sucesso vai muito além do troféu que tão merecidamente recebestes. Vós acabais de dar um exemplo que vai ser uma inspiração para as outras raparigas e mulheres". Exatamente o sentimento que exprimiu uma antiga campeã, Grace Vella, em entrevista à Sky News: "milhões de jovens vão agora querer jogar".
Nos "media" a retumbância do feito foi extraordinária (coisa impossível por cá, em futebol feminino, como se prova pelo facto de um jogo com este impacte internacional ter sido transmitido na RTP 2 e ter, nos restantes canais, merecido pouco mais do que notícia de rodapé). A Sky News, a CNN Internacional ou a France 24 deram grande cobertura ao post match, em particular às celebrações. Na imprensa inglesa, este título europeu fez manchetes gigantes de primeira página inteira, tanto nos tablóides como nos mais prestigiados jornais. Nunca se vira nada de semelhante! O "Times", por exemplo, escreveu em letras garrafais: "Leoas trazem-no para casa" e no artigo de fundo "Mulheres que emocionaram a Nação". O "Guardian"salientava, do mesmo modo, o "momento de viragem" ("Game changers").
3 - Vi a emocionante final, a torcer pela Inglaterra, porque antevi as consequências da uma vitória das "leoas" - embora não esperasse tanto, tinha plena consciência de que o seu contributo para a história do futuro do futebol feminino seria incomparável. Elas não seriam as melhores do mundo, mas representavam a pátria-mãe da modalidade e do "fair-play", a nível de clubes, uma superpotência, e, no plano das seleções, um país cronicamente derrotado, cheio de fome de títulos. A final, com a equipa da casa, batia recordes na assistência presencial, e contava com uma impressionante audiência televisiva - fantástico cartaz de propaganda da arte feminina de desenhar jogadas no retângulo. Este meio de propaganda
tem sido vital para o reconhecimento da sua qualidade, das suas virtualidades. Uma imagem vale mais do que mil palavras, não é verdade? Contra a evidência das imagens não há argumentos... há homens que fazem a sua estrada de Damasco. Homens e mulheres. É o meu caso: confesso que nunca assisti a um desafio ao vivo entre mulheres. Ao ver a televisão me converti, há já muitos anos.
O Inglaterra-Alemanha não foi, evidentemente, o mais deslumbrante jogo do século- as finais, quer femininas, quer masculinas, em regra, não o são - não o aconselha a prudência, não o permite o espartilho tático. Mas a mestria esteve lá... o fabuloso golo de Toone (fuga em velocidade e "chapéu" à guarda redes) e, depois, o golo do desespero das alemãs, marcado, numa insistência, por Chloe Kelly, e menos notório, mas não menos decisivo, o precioso corte da luso-britânica Lucy Bronze ao minuto 111, a impedir o empate (Bronze, a nº 2, é considerada uma das melhores jogadoras do mundo).
Em suma, mais do que ganharem um campeonato para o seu país, as (chamadas) "leoas" inglesas terão dado um novo futuro ao futebol feminino no mundo
domingo, 17 de julho de 2022
UM RIO DE SANGUE E DE LÁGRIMAS in Defesa de Espinho
UM RIO DE SANGUE E DE LÁGRIMAS
1 – De um dia para o outro, esquecemos todos a pandemia, a repetição de eleições no Círculo da Europa, a formação do novo Governo, a liderança da oposição - assuntos que desapareceram dos noticiários e desapareceram das nossas vidas… Pela força e o poder dos “media” que regem, mais do que nos apercebemos, o que pensamos e sentimos… No lugar que era o de coisas presentemente vistas como menores está uma guerra! A guerra que entra, continuamente, noite e dia, em nossa casa num ecrã de televisão, como um imenso e trágico “reality show”. Portugal acordou para o horror sem limites, que não pode conter, com uma angústia sincera, de coração aberto. Não se via nada de comparável desde que as imagens sangrentas do cemitério de Santa Cruz nos trouxeram aquele momento paradigmático da vivência de Timor Leste, sob o jugo de um Putin asiático – um povo vítima do verdadeiro crime de genocídio que agora se repete, ante os nossos olhos em solo europeu.
Hoje é domingo. Em Mariupol os cadáveres juncam as ruas, as casas ardem, não há água, nem comida, nem luz. Não sabemos se na próxima 5ª feira, quando estivermos a ler o jornal, o mesmo se poderá dizer de Odessa ou de Kiev…
É o inferno, minuto a minuto, visto por dentro, como nunca antes acontecera. “Um rio de sangue e de lágrimas”, nas palavras do Papa Francisco. Um êxodo bíblico através das fronteiras abertas da Polónia, da Hungria, da Roménia, da Moldova e da Europa inteira. Como num filme histórico de atrocidades, que conotamos com tempos remotos e a uma moral bélica desconhecedora dos rudimentos do Direito Humanitário, mas que, na verdade se passa em 2022, com gente vestida como nós, a contar dramas pessoais num inglês, que falam como nós… São quase somente mulheres, com os filhos pequenos pela mão, e, pormenor comovente, em muitos casos, também o cão, ou o gato, que trazem consigo em vez de uma mala com bens materiais. Para trás deixaram tudo, a vida de família, de trabalho, de convívio, a vida igual à nossa, que tinham na semana anterior… Subitamente, ocorre-nos a pergunta: e se fossemos nós? A resposta é dada numa mobilização geral da sociedade civil, multiplicada numa infinidade de gestos concretos de apoio e cooperação com quem está no terreno e de manifestações de pública solidariedade. São as pessoas a título individual, as organizações humanitárias, as internacionais do desporto, ou as grandes empresas, secundando as sanções, sem precedentes de uma comunidade de Estados que, de imediato, isolaram esta Rússia abusivamente imperial e a transformaram de um dia (o dia da invasão), para o outro (o dia seguinte) num Estado pária. É uma constatação que tem tanto de surpreendente, como a própria aventura Putinista de anexar pela força das armas, e através de banhos de sangue, do verdadeiro genocídio, que já se adivinha, uma grande Nação independente e pacífica.
2 - Países que, ou ergueram muros arame farpado aos infelizes refugiados do Médio Oriente, igualmente sobreviventes de uma guerra dantesca, ou os aprisionaram em miseráveis campos de internamento, estão hoje na primeira linha do acolhimento generoso e exemplar a todos os que escapam à barbárie russa.
Temos tendência a ver neste fenómeno a pura emergência de uma fraternidade europeia que há muito andava adormecida. É isso, e é muito mais do que isso. Uma agressão desta natureza, perpetrada por uma potência nuclear, representa uma ameaça que muda o nosso mundo para sempre. É uma ameaça civilizacional – e, consequentemente, suscita reação planetária! A Europa está muito perto da fonte do perigo, que se chama Putin, e em particular naquela zona de fronteira com a guerra atual, conhece bem demais o “czarismo soviético” que a dominou, e a uma maior distância temporal, a intimidatória vizinhança do czarismo propriamente dito…
Putin, visando obviamente o contrário, promoveu a unidade europeia e ressuscitou a NATO – dizê-lo já lugar comum. Essa foi a primeira a batalha que perdeu. A segunda e a definitiva será a da frente económica. Os milhares de corruptos bilionários que sustentam a Rússia capitalista vão sofrer um pouco o efeito das sanções, mas muito mais sofrerá o povo, condenado à miséria pelo sonho imperialista de um déspota enlouquecido. Mas, pelo meio, o que restará da Ucrânia, para além da Diáspora?
3 - A Europa acreditou, sempre, na racionalidade de Putin. Porém, ao ter pactuado com ele, em demasiados crimes e desmandos, ao ter aceite o dinheiro sujo dos seus oligarcas, ao submeter-se à sua dependência no campo energético, deu-lhe a falsa sensação de não haver limites ao que poderia suportar. Enganou Putin na sua eventual racionalidade…
A invasão da Ucrânia não começou há dias, mas há oito anos… Primeiro, com muitos milhares de mortos, tomou a Crimeia, Donetsk, Donbass, perante a passividade europeia e norte-americana. Agora preparava-se para anexar o resto da Ucrânia, sem significativa resistência interna e externa. Enganou-se – ou foi enganado pelas facilidades do passado - e deparou com uma gigantesca onda de reação, tanto no quadro das relações internacionais, como no terreno militar. A possível vitória militar na Ucrânia não se fará sem a derrota financeira na Rússia. E um governo fantoche em Kiev , a prazo, será derrubado, porque o maior engano de Putin é pensar, se é que pensa, que a identidade ucraniana não existe. Existe e é europeia. Basta ver onde procuram refúgio os ucranianos: não é nos braços da Rússia, é no Ocidente. Nós, na UE, vamos também pagar um preço elevado para resistir pela economia, para afrontar a chantagem de Putin, hoje, ou a de um outro Trump, amanhã. Ou seja, para garantir a nossa própria defesa, enquanto pilar europeu da NATO. É o preço do Estado de Direito, da Liberdade, da nossa Civilização
quinta-feira, 30 de junho de 2022
2021 A PINTURA DE BALBINA MENDES – O LUGAR DAS MULHERES NAS ARTES
Balbina Mendes ocupa um lugar de primeiro plano na Arte pictórica em Portugal, através de um trajetória feita de originalidade e de inovação, numa constante travessia de fronteiras artísticas - sempre em movimento, numa viagem de procura sem fim, pelo gosto de lançar a si própria desafios, um depois de outro, através da experimentação de ideias, de temáticas, de técnicas, de materiais, com a ousadia de sempre, a segurança dada pela maturidade, e a invariável insatisfação, essência de uma obra em que o talento inato se expressa, reinventando-se.
Um percurso raro nos vários ângulos em que o podemos considerar, desde logo porque começou numa pintura de matriz etnológica, que recuperava arquétipos primordiais emergindo, revistos e recriados em toda a sua magia, em telas de grande dimensão e impacto. A Natureza, as vivências, os costumes da sua terra são, assim, transpostos, num universo de interlocução que foi crescendo, à medida que a própria Balbina ganhou notoriedade e reconhecimento, em exposições individuais nas mais prestigiadas Galerias. As suas espantosas “Máscaras Rituais do Douro e de Trás-os-Montes “ fizeram história, simultaneamente a do lugar da sua infância, a das suas gentes e tradições, perdidas e achadas no tempo, e a dela própria, inconfundível intérprete e narradora de memórias e rituais identitários.
Não menos importante é sublinhar a sua capacidade de se impor em grande mostras individuais, o que é, por ora, entre nós, coisa que só está ao alcance de um escol de mulheres pintoras. Embora a perceção comum não o reconheça mantém-se, ao nível de mega exposições com um só nome no cartaz, um largo predomínio masculino, enquanto nas coletivas, ou nas que são exibidas, mais modestamente, em pequenos redutos, elas ultrapassam já os homens, num avançar gradual, como se estivessem, ainda, em difícil transição do espaço privado para o público… É um exemplo que poderemos extrapolar, em muitas outras áreas, a nível nacional e internacional, constatação eficazmente determinante na criação do movimento pela Arte no Feminino, que, no último quartel do século XX, teve uma das suas líderes mais insignes e arrojadas em Paula Rego, símbolo máximo da nossa pintura, cujo recente passamento foi ocasião de a enaltecer e entronizar no panteão dos imortais. Nas suas próprias palavras: "As minhas pinturas são pinturas feitas por uma artista mulher. As histórias que eu conto são histórias que as mulheres contam. O que é isso de uma arte sem género? Uma arte neutra?". [...] "Há histórias à espera de serem contadas, e que nunca o foram antes. Têm a ver com aquilo em que jamais se tocou-as experiências de mulheres".
Uma tomada de consciência e um discurso com que a vanguarda feminista dessa época incorporou o plano da expressão artística na globalidade da sua luta - discurso que, diga-se, neste como em qualquer outro campo, é tudo menos pacífico. Mais consensual será, certamente, a exortação de Gisele Breitling em favor de "uma nova e verdadeira universalidade em que o feminino assuma o seu lugar de direito e o masculino as suas verdadeiras proporções".
Guardo-me, aqui, de entrar na complexa questão do modo como o "género" se exprime, (com caraterísticas próprias ou comuns e indistintas), ficando-me pelo que não pode ser contestado: o masculino avulta, desde tempos imemoriais e permanece como autêntico "padrão", enquanto o feminino é visto como "alteridade". Por outro lado, o sucesso das "mulheres-exceção" não deve deixar no esquecimento a persistente desigualdade de uma maioria, que as estatísticas, na fria linguagem dos números, denunciam. Como escrevia Armando Bouçon, no catálogo da 1ª Exposição de “Mulheres d’ Artes”: "Uma análise correta de toda a história da Arte dá-nos uma perceção muito transparente de como o campo das artes plásticas foi ocupado durante muitos séculos pelo género masculino". Foi. E, se atentarmos nas diferenças de visibilidade, segundo o sexo, continuará a ser, ao menos na medida de uma persistente desproporção. É um desequilíbrio que pode debelar-se de muitas e diversas maneiras…
No panorama português, Balbina Mendes tem, a meu ver, contribuído, poderosamente, para que as mulheres acedam, na vida cultural do país, ao seu "lugar de direito". Fá- lo, ocupando, simplesmente, esse lugar, com força anímica e qualidade de sobra, sem em nada se julgar discriminada, sem se sentir diferente, isto é, do lado de lá de uma linha de separação... É um caso a seguir, no campo das exceções, que, na minha ótica, tão devagar se vai alargando. Balbina faz parte das mulheres que, à partida, se sentem consideradas como iguais, e cuja atitude de despreocupação com disparidades de género, contém, implícita, a intransigente exigência de tratamento igualitário! À margem de manifestos reivindicativos, alcançaram, por si, as metas que o movimento se propôs e propõe, e, assim, afinal, o reforçam.
E será que a proclamação da especificidade de género, pode, no limite, paradoxalmente, dar azo à persistência de formas larvadas de discriminação?. É uma dúvida pertinente. A "arte com género" de que fala Paula Rego, pode, ou não, abaixo do patamar do génio universal a que ela subiu, transformar-se , de facto, não em sinal vanguardista de contracultura, mas em âncora de estereótipos de género, conotando o feminino com características convencionais que são, em sociedades ancestralmente misóginas, uma menos valia? O ponto de interrogação vale para qualquer setor... Recordo o crítico literário João Gaspar Simões, que, ao elogiar a força imanente da prosa de Maria Archer, o realismo puro e duro com que ela aborda temáticas ousadas, a qualificava não como uma grande escritora, mas como "um grande escritor" ... E não é verdade que a poetisas consagradas, como Sophia de Mello Breyner, ou Ana Luísa Amaral, preferimos chamar poetas? Ambíguo cumprimento, a que subjaz a conceção da masculinidade intrínseca do cânone... Certo é que, para esta escola de pensamento, Balbina é uma das grandes pintoras que merece, por inteiro o cumprimento, ainda que, pessoalmente, se não queira rever na categoria de "grande pintor".
A sua arte não procura rivalizar com quem quer que seja, nem obedece a ditames ou limitações de qualquer espécie, segue numa trajetória ascensional de inovação da estética e policromia, do ensaio de técnicas, da fusão de materiais...É genuína e livremente Ela, transmutando para a pintura a experiência ganha nos muitos espaços geográficos e culturais que a sua vivência atravessa e o seu olhar penetra. É única e inconfundível. Se me é permitida uma outra adjetivação, direi: carismática! Uma palavra que tão perfeitamente se ajusta a Autora como à globalidade da sua obra.
Balbina é uma admirável contadora de histórias de vários tempos, do tempo presente a tornar-se passado, ou do passado em dinâmicas e impulsos que o trouxeram até nós, num rasto longo de evocações de festividade populares, rituais, crenças, valores revividos e reconfigurados em toda a sua magia e em todo o seu mistério.
No percurso imparável de Balbina, para mim, no princípio era o rio... porque a conheci na exposição em que nos oferecia uma verdadeira crónica pictural do Douro, deslizando entre margens, da nascente até à foz, incorporado na beleza encantatória de paisagens, onde as gentes apenas se pressentiam, sem se verem... . Reencontrei-a, depois, em outro e surpreendente ciclo temático, na exposição das Máscaras Rituais do Douro e Trás os Montes, em que os homens se faziam presentes, mas ainda sem se verem... Era o início de um tropo narrativo em torno da máscara, incursão às raízes ancestrais, entrelaçamento telúrico de emoções e saberes, recriados nos traços dos seus pincéis, em explosões de cor...
Não resistindo a voltar a uma perspetiva feminista sobre o ineditismo das suas escolhas -perspetiva que, não sendo certemente a de Balbina, me permito ousar - noto a esplêndida audácia com que se apodera, para a eternizar em arte, da tradição masculina da máscara, símbolo, por excelência, da superioridade e camaradagem de sexo, da festa e do cerimonial rigorosamente interditos à mulher... É um prenúncio, um sinal da força subversiva e libertária da sua aventura artística. Logo depois, vai ultrapassar uma última barreira, no momento em que a fragmentação ou transparência das máscaras põe a descoberto... rostos femininos! Uma definitiva ruptura com o interdito. Transgressão, que Paula Rego, sem dúvida, saudaria com “o gozo pela inversão e pelo desalojar da ordem estabelecida". Por isso, Balbina Mendes poderia estar, se quisesse, entre as referências do movimento emancipatório de contracultura feminina nas Artes, na senda da emblemática Paula sobre quem Ana Gabriela Macedo afirma: [...] ela questiona continuamente os chamados "corolários naturais" da diferença de sexos, bem assim como a suposta "ordem natural das coisas", que se traduz na passividade, dependência e submissão, desmistificando o discurso estético e desmascarando o seu papel eminentemente ideológico e as relações do poder, que aí se encontram camufladas [...].
Na sua mais recente exposição, intitulada "Segunda pele", o engenho narrativo de Balbina não nos revela, antes adensa o segredo dos jogos entre as faces desocultada e as suas máscaras, mas revela-a, definitivamente, como assombrosa retratista, do rosto, das suas metamorfoses, do tangível e do intangível. Confirma o seu incessante questionamento sobre o ser, as suas mutações e aparências. É, agora, na Literatura que busca inspiração, glosando, em enigmáticas efígies, motes Pessoanos. As respostas que encontra na tela são sempre fonte de sucessivas interrogações, de demandas inspiradas na heteronímia do Poeta, ou até, talvez, simplesmente na duplicidade do “eu” de cada um de nós . Como dizia Maria Anderson; "Qualquer pessoa ficciona a sua própria identidade, Não nos ficcionamos sempre da mesma maneira. Vamos mudando o guião". Ou, secundando Maria Velho da Costa, nos poderemos interpelar: "Quem sou? Talvez seja quem vou sendo..."
A pessoa. A persona…
Para onde vai, Balbina Mendes? Para onde nos levará , no ímpeto de romper limites, a grande cultora de saberes arcanos e enigmas do espírito, em diálogo introspectivo com as Artes, com a Vida, connosco, nas suas cada vez mais fascinantes mensagens visuais?
Maria Manuela Aguiar
Espinho, junho de 2022
O MEU VERÃO EM ESPINHO
O MEU VERÃO EM ESPINHO
1 - Tenho saudades do verão em Espinho, nos anos da minha infância. Esse verão, essa cidade (que ainda não o era), tinha a sua mítica Avenida bordejada de palmeiras gigantes, sempre cheia de multidões cosmopolitas, nos seus trajes de passeio, sentadas em mesas coloridas nas esplanada dos cafés, ou desfilando num vaivém infindável, vagaroso, quase solene. Tinha quiosques graciosos - daqueles que Maluda gostava de pintar - , e onde eu, desde que aprendi as primeiras letras, comprava, às terças e sextas, "O Mosquito", e mais a sul, diariamente, chocolates. Chocolates sorteados...Éramos convidadas a perfurar a superfície de papelão de bonitas caixas retangulares, libertando bolinhas de cores, que tombavam, em baixo, num mostrador de vidro. A cada cor correspondia um diferente tamanho da mesma marca. Uma espécie de máquinas de jogo para crianças - o nosso doce casino... Minha irmã acertava, muitas vezes, no prémio maior, que correspondia à pequena esfera dourada. Eu jamais! Ao Casino, é claro, só íamos ver cinema, alternando com as sessões do Teatro São Pedro. Ambas as salas de espetáculos eram enormes, esplêndidas, e ofereciam um filme por dia - o que elevava a programação mensal a uns fabulosos 60 títulos! O cartaz era divulgado quinzenalmente, em mini- livrinhos colecionáveis, que se desfolhavam como livros de contos - com sínteses de guiões muito chamativas. Ainda tenho vários, guardados como relíquias.
Felizmente, os pais e os avós eram cinéfilos declarados, pelo que, em Espinho, raro era o dia em que, ou uns ou outros, não nos levavam ao seu e nosso entretimento favorito.
Semanalmente, pelo menos uma vez (talvez à 4ª ou 5ª-feira, já não tenho a certeza), o Casino oferecia um bónus extraordinário, num dos dois intervalos mediante um ligeiro aumento do preço do bilhete: a exibição de um cantor ou cantora dos mais famosos do País - dos que, habitualmente, davam concertos nos seus salões. Recordo-me bem, por exemplo, de Tony de Matos ou das rivais Madalena Iglésias e Simone de Oliveira, ainda em início de carreira, mas já famosos e com vozes fantásticas...
Os intervalos eram obrigatórios, para ir ao barzinho tomar uma bebida, comer um bolo, porque os baldes de pipocas ainda não tinham sido inventados. E, no casino - que era um edifício claro, luminoso, de bela traça, luminoso - - até podíamos vir às varandas gozar a maresia e olhar, do alto, o movimento da Avenida..
2 - No que respeita à cronologia da minha agenda de férias espinhenses, devo dizer que comecei pelo meio, ou mesmo pelo fim, porque tanto os passeios no que alguns chamavam “o picadeiro” (termo que em minha casa não se usava). como as sessões da Sétima Arte ou eram noturnas, ou, quando muito, as “matinées” das 15.00. A alternativa era uma corrida de bicicletas ou um jogo de dominó ou damas nos cafés – o Café Palácio, ou o Costa Verde, os nossos favoritos. O Chinês já não existia – era ainda do tempo de juventude dos pais, não do nossa. Mas a tradição das tertúlias e do jogo no café, estavam bem vivas! Pedíamos uma limonada e uns pasteis, mais um tabuleiro de damas…nada de Coca-cola, note-se, que fora banida pelo “Estado Novo” salazarista…
De manhãzinha, com bom ou mau tempo, o destino era a Praia Azul, com as barracas de riscas azuis e brancas, à FCP. Ainda mantenho o prazer de nadar com sol ou chuva - tanto me faz. Água por baixo, e água caindo do céu ligam bem – cedo aprendi isso com meu pai. Não que chuva fosse coisa frequente, em agosto ou setembro. A ventania, sim, todavia, as mais das vezes, só levantava a partir do princípio da tarde. E o “nosso mar” nem sempre se mostrava hospitaleiro, mas quando se encrespava em vagas altas, e a corrente arrastava demais, à hora do banho íamos à piscina, que era a quinta essência da modernidade. Para os frequentadores habituais, com preços convidativos (lembro-me de comprar senhas de entrada em pacotes), e, em qualquer caso, nunca lhe faltava uma abundante e sofisticada clientela. Não tinha, ainda, a concorrência da verdadeira “piscina natural”, que é a praia da baía, formada mais tarde pelo novo paredão, um mais eficiente quebra-mar…
No plano atmosférico, Espinho continua obviamente na mesma – com um clima que é, para mim, uma das suas simpáticas invariáveis, porque detesto o excessivo calor estival do nosso interior - e, neste aspeto, o interior começa a poucos quilómetros da costa.
E à vista, à superfície, havia o comboio, que chegava a apitar e atravessava o centro da vila com as suas máquinas negras, lançando nuvens de fumo para o ar. Os comboios de passageiros paravam, todos, na estação, e logo seguiam viagem, mas os comboios de mercadorias, não poucas vezes, sabe-se lá porquê, na Rua 7, suspendiam a marcha e bloqueavam a passagem para a praia por tempo indeterminado, o que nos levava, com juvenil imprudência, a atravessar as carruagens, pelo corredor de uma das extremidades, saltando em andamento, quando necessário.. Ponte sobre a linha férrea só havia na Rua 19 – e bem pitoresca!
Adorava os comboios, como quase todas as crianças e muitos adultos, entre os quais me conto ainda… Imaginava Espinho, com uma série se pontes, sobre a linha, entre o Rio Largo e o bairro piscatório – pontes de desenho variável, que poderiam tornar-se um original cartaz de paisagem urbana, fazendo da nossa cidade, digamos, uma Veneza ou uma Paris “ferroviária”. Por baixo, em vez do rio, corria o comboio… Um amigo arquiteto, a quem eu, já muito depois de consumado o fatal enterramento da linha, descrevia o meu projeto mirabolante, disse-me que não era tão mirabolante como eu julgava, e que teria, de facto, sido equacionado por uma minha alma gémea…
3 -Com o meu olhar nostálgico sobre outra época, não pretendo sequer esboçar um julgamento da evolução que nos trouxe ao presente. Compreendo que Espinho se transformou, em larga medida, como parte de um todo, (o país, o mundo...). Esteve na vanguarda do turismo balnear, quando oferecia tudo quanto o veraneante esperava dos areais, do mar, de distrações lúdicas. O próprio conceito entretanto mudou, deslocando geograficamente a massa de visitantes, os mais e menos ricos, por igual, para os “paraísos” de sol escaldante e águas tépidas. E, assim, até os mais bairristas dos espinhenses natos, no verão, rumam aos Algarves, tal como o comum dos nortenhos – coisa que eu só faria por penitência!.
Contudo, Espinho permanece uma terra perfeita para residir e não como “cidade-dormitório, mas como verdadeira comunidade, que mantém o seu caráter identitário, com os costumes populares, as tradições de convivialidade, o comércio, o admirável tecido associativo e institucional e, com ele, uma vida cultural invejável, que anima a rede de excelentes infraestruturas, públicas e privadas – de que são “ex-libris”, nomeadamente, a programação musical, os festivais de cinema, o ballet, o teatro, a Academia de Música, as Escolas, a Universidade Sénior, o desporto, que nos trazem outro perfil de visitantes…
Nesta vertente cultural devo, porém, apontar a mais estranha e injustificável das lacunas: a falta de sessões regulares de cinema, apesar da existência de duas salas, que são das melhores do país - a do Casino e a do Multimeios. Não se lhes pede que abram quotidianamente as portas para oferecer 60 filmes por mês… só o mínimo de quatro, um por semana!
Na verdade, da terra do Cinanima e do FEST, quase só tenho de sair para o Porto ou Gaia em demanda de cinema, em centros comerciais onde são exíguas as instalações e grandes as escolhas…
in DEFESA DE ESPINHO, 29 de junho
COMBATER O CENTRALISMO: O EXEMPLO DE PINTO DA COSTA
COMBATER O CENTRALISMO: O EXEMPLO DE PINTO DA COSTA
1 - Há um FCP antes e outro depois de Pinto da Costa. Como portista de nascença, aos 80 anos, posso dizer que vivi 40 com cada um deles...
O FCP, que vai da minha infância à meia idade, era um dos clubes grandes de um país pequeno no mundo do futebol. Tinha eu já uns 13 ou 14 anos quando, pela primeira vez, em 1956, vi o Porto ser campeão nacional. O Porto de Dorival Knipel, brasileiro de origem alemã, oriundo de Minas Gerais. O mítico Yustrich!
Quanto à Seleção Nacional, digamos que o seu forte, por essa altura, eram as chamadas "vitórias morais". A exceção, que confirma a regra, foi um 3º lugar no Mundial de 1966, sob o comando de um outro famoso treinador brasileiro, Otto Glória. Os escolhidos de Otto, entre eles o fantástico Eusébio (os "Magriços", como foram chamados, ou não fosse a fase final do torneio jogada na Inglaterra...) exemplificam bem a profunda desigualdade Norte/Sul, desejada e imposta no antigo regime: Dos 23 convocados, 19 eram do sul (mais exatamente,18 de Lisboa, que ainda se sentia capital do Império, e um dos arredores, de Setúbal) e só 4 eram do norte (3 do FCP e 1 do Leixões). E, na realidade, o fosso era ainda maior, pois desse quarteto nortenho, composto pelo guarda-redes Américo, por Custódio Pinto e Festa, do FCP, e por Manuel Duarte do Leixões, apenas o defesa Festa era titular. Para os mais jovens, há que dizer que, nessa remota época, não havia substituições de jogadores durante os noventa minutos, nem sequer por lesão, e que poucas alterações se registavam no onze base de qualquer equipa, ao longo de cada época.
E havia mais e pior: todos os cargos das instâncias dirigentes do futebol português eram repartidos, em exclusivo, entre os clubes dominantes da capital (Sporting, Benfica e Belenenses), que, assim, tinham de ser vistos como decisores e juízes em causa própria - com fama e proveito, jogando dentro e fora do campo. Lisboa tratava as colónias e as províncias, da mesma maneira, ou, pelo menos, com a mesma sobranceria - na política, na economia, no desporto, etc, etc, etc... Em suma, na capital estava o Poder absoluto, em todos os setores. Mandava, sem preocupação de equilíbrio, sem controle, sem oposição...
A Revolução de 1974 trouxe aos Portugueses a Liberdade e a Igualdade, deu-lhe direitos proclamados na letra da Constituição e das Leis. Os progressos, não seriam, porém,
alcançados, ao mesmo ritmo, por todo o lado, em todos os aspetos. Não basta declarar a igualdade, é sempre preciso conquistá-la contra o "status quo", contra interesses instalados. E em nenhum campo foi mais e melhor conseguido do que no futebol. Não porque fosse mais fácil, mas porque houve quem fizesse a revolução no terreno: Jorge Nuno Pinto da Costa.
Podemos pensar, como eu penso, que sem revolução democrática não teria havido Pinto da Costa, com o seu inigualável currículo de vitórias, em termos universais E sem Pinto da Costa não teria havido revolução no futebol português! Por tal entendo, antes de mais, a criação de todo um condicionalismo para a igualdade, que permitiu a afirmação pelo mérito, pela qualidade, em qualquer ponto do território onde houvesse o que era preciso para a desenvolver. Geograficamente, o país do futebol, que antes era Lisboa, ficou maior, mais rico e mais competitivo, descobriu novas formas de gestão, muitos talentos e capacidades, até então atrofiados. Significou, também, uma aproximação ao panorama dos outros campeonatos da Europa- uma "europeização" do nosso futebol. De facto, se olharmos em volta, constatamos que a França, (antigo
paradigma de centralismo político) não de limita ao Paris St Germain, conta com o Bordéus, o Lyon, o Marselha, o Mónaco... a Inglaterra não é só os clubes londrinos, pois também Liverpool, Manchester, Leicester, etc etc. podem ser a terra do campeão. Na Alemanha, a hegemonia tem estado, por acaso, bem longe de Berlim, na sulista Munique, com o Bayern a justificar, pelo seu jogo, títulos nacionais e internacionais. Dos nossos vizinhos espanhóis se pode dizer o mesmo - apesar de uma rivalidade maior entre os colossos de Barcelona e Madrid, há vida e campeões em outras cidades - como Valência ou Sevilha... E em Madrid, nem sempre é o Real, mas o Atlético, a levar o troféu para o museu. Uma situação, deste ponto de vista, algo semelhante entre os países peninsulares, se lembrarmos, entre nós, para além da alternância entre os grandes de Lisboa e o grande FCP, o título, relativamente recente, do Boavista e a existência de outros clubes muito competitivos a nível internacional, como vem sendo, sobretudo, o Braga. (o
senão é, ainda, a subrepresentação do interior, que nem só no futebol é desfavorecido...).
2 - Pinto da Costa lutou para alcançar, não só a igualdade teoricamente proclamada nos diplomas legais, mas a efetiva igualdade de oportunidades. E, em condições de abertura à competitividade, alcandorou o FCP ao topo do mundo do Desporto (do Desporto-Rei) e, por natural repercussão, levando o País, num segundo tempo, anos depois, a um protagonismo crescente. Portugal, os Portugueses: os nossos Mourinhos, (que hoje ganham títulos em todos os continentes do planeta); os Decos, os Ronaldos, os Pepes.. .as equipas técnicas, os gestores, os agentes das estrelas, os dirigentes federativos... A primorosa organização de competições internacionais... O que era, antes do 25 de Abril, uma impossibilidade, e, mesmo depois, coisa extremamente improvável Não estou com isto a dizer que tão extraordinária evolução se deva,
por inteiro e diretamente, ao Presidente do FCP. Não tenho, porém, dúvidas de que tudo se seguiu à dinâmica que por ele criada, através de uma verdadeira "regionalização" do futebol e do seu dirigismo. Ou seja, o equilíbrio de poder de "fazer vencedores", em qualquer cidade ou região do País, de acordo somente com a força, visão e vontade de
empreendimento dos cidadãos e das suas organizações.
Pinto da Costa foi eleito presidente do FCP em 23 de abril de 1982, exatamente oito anos depois da Revolução (ano, por sinal, tão importante no futebol como na política, por ser o ano da primeira Revisão Constitucional, que consagrou a democracia plena, com a extinção do Conselho da Revolução). O clube tinha ganho, até então, meia dúzia de campeonatos... Este ano festejou o seu 30º título de campeão. O Presidente cumpriu, ao longo das últimas quatro décadas, o nosso sonho de sermos os melhores do País.
E foi muito, muito mais longe, ao cumprir promessas, que, então, nos pareciam pura utopia: dar ao Clube notoriedade internacional, atingir o final das principais competições europeias. Cumpriu promessas muito para além dos nossos sonhos, e, talvez, até dos dele... Tornou o FCP campeão da Europa e campeão do mundo de futebol. Por duas vezes. Sete títulos internacionais só em futebol sénior... E é, ele mesmo, o presidente de clube mais titulado do mundo, um recordista absoluto e insaciável, à espera de mais e mais vitórias no futuro! O seu fabuloso legado inclui ainda um Estádio e um Pavilhão desportivo, que são obras de arte arquitetónicas, e um Museu como não há igual.
3 - Estou-lhe grata como portista, naturalmente, e, também, como portuense e portuguesa, por ter dado à Cidade e ao País a projeção internacional que lhes faltava, no domínio mediático, por excelência, do mais universal e popular desporto da atualidade. E não menos reconhecida lhe estou, por ter mostrado a Portugal como pode fazer a
regionalização, se souber extrapolar para a política os exemplos e os resultados rápidos e extraordinários conseguidos nesse outro campo.
Está provado que o centralismo, ao manter o contexto em que "uns mais iguais do que os outros", é sempre inimigo do progresso, favorece a ascensão dos medíocres, alimenta uma burocracia lenta e dispendiosa, distancia os decisores da realidade plural e diversa da vida das pessoas e instituições. A desigualdade gera desiguladade! Portugal é, porventura, hoje, o país mais desigual da Europa, porque é o mais centralizador. Vê-se, caso a caso, ultrapassado pelos diversos Estados que vão aderindo à UE...continua na cauda da Europa, de onde um emblemático "slogan" de Cavaco Silva prometia retirá-lo em 1985. Ai permanecemos, porém, ultrapassados por uns e por outros... Tal como estamos organizados, não temos saída. O ensaio de "descentralização" em curso é já um fracasso irremediável, porque mantém o poder de decisão sobre as políticas concretas, intacto, nas mãos dos homens da capital - na Saúde, como na Educação - transferindo para as autarquias pouco mais do que uma custosa gestão de equipamentos, qualquer que seja o setor. O nível municipal não tem, aliás, dimensão para protagonizar o projeto de mudança de que o País precisa. São muitas as Câmaras, como convém ao Poder constituído (dividir para reinar...), ainda por cima, representadas por uma liderança nacional autárquica da mesma cor partidária...
Só com a partilha real do Poder - com autonomia política à semelhança das Regiões dos Açores e da Madeira - poderemos, a meu ver, ultrapassar o impasse em que estamos quase meio século depois da revolução de 1974. É urgente afrontar o Terreiro do Paço, criar dinâmicas regionais, abrir caminho à vitória dos melhores, para que todo o País, com eles, se torne melhor. A política portuguesa, de norte a sul do retângulo continental, precisa, urgentemente, de clonar Pinto da Costa!...
in JORNAL ERC E TAL junho 2022
segunda-feira, 6 de junho de 2022
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