Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quinta-feira, 2 de maio de 2024
ANA DEL RIO Expo em Espinho
A inauguração da exposição individual de Ana del Rio nas galerias do FACE – o Fórum de Arte e Cultura de Espinho – é um acontecimento maior na vida de Espinho, no ano em que se comemora o cinquentenário da sua elevação a cidade. A Artista, com uma seletiva retrospetiva do seu percurso de mais de três décadas pelo universo encantatório da representação pictórica, vem dar-nos a visão evolutiva da sua obra tão esplendidamente multifacetada e, em simultâneo, enriquecer o registo cultural, o percurso do próprio FACE.
As galerias Amadeo Sousa Cardozo são, pela dimensão e harmonia arquitetónica dos seus dois longos e luminosos salões geminados, um dos mais convidativos espaços de exposição de Artes plásticas no nosso País. São, também, um dos mais prestigiados por grandes nomes nacionais e internacionais, que, como Ana del Rio, agora, com a marca do seu talento, fizeram e fazem a História ainda breve, mas já extraordinária, de uma instituição jovem. Uma história que pude acompanhar de perto, quase desde o início e, por isso, tanto me regozijo com mais este passo na sua ascendente caminhada cultural, como com a presença de uma artista tão querida e admirada pela força emotiva que, invariavelmente, emerge no seu trabalho, e por uma incansável procura de transcendência de limites, inerente ao seu inconformismo, carisma, vivacidade. Na tela, como na vida quotidiana, fala a Mulher, a cidadã, a feminista, a militante de causas.
Esperava, há muito, este momento, que é, para mim, o do retorno da pintora ao local onde a conheci, durante a 1ª Bienal de Mulheres D’Artes, realização inédita em Portugal, ao que cremos, na Europa, com que FACE escreveu um capítulo original nos anais do feminismo, no domínio particularmente relevante da sua expressão cultural e cívica. Ana del Rio foi, de entre essas pioneiras, uma das que mais me impressionou. Guardo na memória as imagens de três telas figurando mulheres que encarnavam, na perfeição, o espírito daquele projeto - personagens irradiantes de feminilidade e força anímica, que, ali, num movimento assertivo e gracioso, tomavam conta do lugar que lhes era destinado, humanizando-o, (ou seja, feminizando-o). Uma mensagem subtil e promissora, a significar que, no nosso tempo, a pintura pode converter-se numa outra maneira de dar às mulheres o reconhecimento que merecem, na afirmação pela Arte.
O FACE tem dado abundantes provas de compreensão do fenómeno e de vontade de contribuir para o aumento da participação feminina num campo onde, como nos demais, a igualdade de género não está ainda adquirida. Nas exposições coletivas, nas sucessivas Bienais, (atualmente abertas aos dois sexos), a paridade tem sido sempre conseguida. Não, porém, nas exposições individuais, onde escasseiam as mulheres com currículos e com telas à dimensão da (quase) desmesura das Galerias… Ana del Rio é uma das mais esperançosas e inspiradoras exceções a essa regra ou cânone misógino que atravessou os séculos e vai cedendo, tão devagar e, porventura, mais na aparência do que na realidade.
E, assim, o mundo de Ana del Rio se apropria e se expande na vastidão deste espaço, reconfigurando-o pela beleza estética e pela mensagem humanista. O mundo de Ana del Rio! De tudo o que ela ama e de tudo o que ela nos quer contar, no traço em que dá vida a flores e a pássaros, ´natureza, ao perfil das cidades, a rostos e a vultos que sobressaem ou quase se escondem em explosões de luz e de cor - ou em que a sua mão nos conduz à esfera onírica e enigmática do abstracionismo.
Um mundo, aqui e agora, partilhado connosco, para livremente recriarmos e revivermos nas nossas próprias emoções.
Maria Manuela Aguiar
MARIA ARCHER - UMA LEITURA FEMINISTA in Jornal de Letras
MARIA ARCHER – UMA LEITURA FEMINISTA
1 –Maria Archer, nascida no último ano do século XIX, era ainda criança, quando o movimento feminista e republicano dava os primeiros passos, e uma jovem, ausente nas terras do império, quando o seu ímpeto esmorecia, e o cerco da ditadura apressava a sua desagregação. Contudo, estava destinada a continuar, solitária e audaciosamente, esse legado de luta contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina à incultura, ao enclausuramento doméstico, à subserviência. Ela própria cumpriu a utopia feminista da “libertação da mulher” pela Cultura e pela autonomia económica, ao fazer da escrita profissão e instrumento de denúncia da situação das suas contemporâneas numa sociedade anacrónica, desumanizada, misógina. Feminista assumida e praticante, ousou romper com o conservadorismo da família aristocrática, por fim a um casamento infeliz, e viver, sobre si, do jornalismo e das Letras - mulher livre num país sem liberdade!
Em Portugal, como na Suécia, a atividade literária e jornalística foi um meio privilegiado de combate contra os preconceitos e desigualdades de sexo. Entre nós, teve a pré-história em oitocentos, a fulgurante afirmação coletiva na 1ª República, e um inesperado apogeu com Maria Archer durante o salazarismo.
Ninguém melhor do que ela soube recriar, de uma forma realista, crua e eficaz, a atmosfera social e política que moldava o mundo segregado das mulheres. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante”.
Ninguém melhor do que ela escrutinou e denunciou a violência velada dos brandos costumes da sociedade portuguesa, do relacionamento de sexo ou de classe, homens e mulheres imersos na nebulosa de estereótipos, dogmas e falso moralismo, de prepotência e submissão...
Ninguém melhor do que ela desconstruiu a imagem da "fada do lar", laboriosamente erguida sobre a falácia da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia do regime corporativo), e dos apregoados bons costumes, assentes no autoritarismo e subjugação ao "pater familias" no pequeno universo caseiro, e ao ditador no círculo alargado do País.
O rigor e a qualidade literária destes retratos de mulheres (e da sua circunstância), a densidade humana das personagens, potenciavam a força subversiva dos romances e contos de Maria Archer, e desencadearam o furor censório do regime…De todas as mulheres resistentes que a ditadura perseguiu, nenhuma pagou um preço tão alto como esta Maria, verdadeira precursora das “três Marias” da década de setenta. É Maria Teresa Horta quem no-lo diz, em 2001, no prefácio da reedição de “Ela é apenas Mulher”: “Com Maria Archer, a tática foi diferente: Apagaram-.na […] arrancaram o seu nome, pura e simplesmente, da História da Literatura Contemporânea Portuguesa”.
Acusação de misoginia, que visando o regime, não deixa de abranger todos quantos não perdoavam à romancista o ter ultrapassado os limites que a própria História Literária, dominada por homens, reservava às mulheres escritoras…
Maria Archer foi forçada a partir para um longo exílio em São Paulo, de onde retornaria, envelhecida e doente, para morrer, em Lisboa, no esquecimento geral, sem, todavia, ter perdido a esperança na “justiça do tempo”.
Esse tempo chegou! E a justiça fez-se, primeiramente, pela via de uma leitura feminista da sua obra, que em nada prejudicou a descoberta da pura qualidade literária da sua escrita, aberta a uma pluralidade de abordagens.
No ano do seu 125º aniversário, a segunda vida de Maria Archer desabrocha em comemorações que se cruzam com as do cinquentenário da revolução de Abril. Ela emerge, agora, como figura ímpar para contar a história de um passado opressivo, pautado por regras viciadas de jogo social e político – jogo que ela desvendou e se recusou a jogar. Dessa época nos dá, nas palavras de Maria Teresa Horta, “o único retrato autêntico, de corpo inteiro”, e, na nossa, ressurge como mulher de todos os tempos. De facto, escreveu história do feminismo com a própria vida: o seu exemplo vale para sempre e a história é interminável.
Manuela Aguiar
in JORNAL DE LETRAS, 27 de dezembro de 2023
HISTÓRIA E "ESTÓRIAS" DESTE CINQUENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO in Defesa de Espinho (abril 2024)
HISTÓRIA E "ESTÓRIAS" DESTE CINQUENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO
1 - OS RURAIS DE ESPINHO
Muito coisa aconteceu, ao longo de toda a semana do cinquentenário do 25 de abril de 1974. Nos "dias antes", correram as "estórias", e o contista-mór foi o Senhor Presidente da República, com declarações insólitas, a mostrar a força das palavras e o perigo de a usar mal. Nada foi mais comentado no espaço público ou privado, do que o indiscreto convívio do PR com jornalistas da imprensa estrangeira, onde se permitiu traçar, nada mais nada menos, do que o retrato psicomotor dos últimos Primeiros-Ministros, o anterior e o atual, ambos caracterizados como "lentos"... Conhecida a invulgar agilidade mental de um e do outro, e, pelo menos no caso de Luís Montenegro, também a física, (tratando-se de um praticante de várias modalidades desportivas), a adjetivação deixou o país boquiaberto de espanto, sobretudo pelo facto de conotar a lentidão de Costa com a sua ancestralidade oriental, e a de Montenegro com origens rurais!
O estereótipo racializado do "oriental" é de tal forma desajustado e absurdo, que nem merece comentário - apenas um lamento... Já a atribuída ruralidade espinhense do nosso conterrâneo pode bem ser objeto de interpretação política, muito política, sobretudo, dentro do PSD.
O PPD, partido interclassista, nasceu no centro esquerda, com as suas alas esquerda e direita, e as suas assimetrias regionais, entre as quais avultava uma: a linha de separação do cosmopolitismo lisboeta e do provincianismo do resto do País, considerado, do litoral ao interior, "país profundo" (e, por isso, Espinho, cidade marítima e turística, a dois passos do Porto, se situa, nas profundezas do mapa marcelista). "Rural" é, pois, um simpático sinónimo de “provinciano”. Nós, os nortenhos, somos todos vistos assim pelos lisboetas. Mais precisamente, pelos “snobes” da linha Lisboa-Cascais. Não levamos a mal. Estamos, historicamente, bem acompanhados – pelo próprio Dr. Sá Carneiro, por Eurico de Melo e os demais militantes do PPD/PSD, fora daquele seleto círculo geográfico. Veja-se como o Prof. Marcelo fez questão de lembrar o berço rústico do partido laranja… No entanto, o termo não era de uso corrente dentro do partido até aos tempos da sucessão de Francisco Sá Carneiro, em 1981. As clivagens, desde o início existentes, acentuaram-se, então, entre os fiéis do novo Primeiro-Ministro Francisco Balsemão (oriundo da mais pura linhagem Lisboa/Cascais) e os “críticos” (que haviam sido mais próximos de Sá Carneiro, caso do Eng.º Eurico de Melo e do Prof. Cavaco Silva). O outro nome dos “críticos” passou a ser , precisamente, o de “rurais do Norte”, pouco importando que Cavaco, Cabrita Neto, e muitos mais, fossem sulistas. Eu própria, com imenso orgulho, me afirmei, nesse sentido, vezes sem conta, “rural do Norte”. Luís Montenegro, na altura, ainda não tinha idade para fazer parte dessa ala, mas é benvindo agora!
Felizmente, o PR Marcelo disse mais. Disse, por exemplo, que o novo Primeiro-Ministro o “surpreende” com os seus “improvisos” – ou seja, com decisões e escolhas, sobre as quais consegue manter absoluto secretismo até à hora exata. Uma maçada para o PR , que vê reduzida a margem de interferência na governação e já não pode dar notícias no lugar do porta-voz do Executivo. Daí a sua irritação... A análise lúdico-política de Ricardo Araújo Pereira vai neste sentido, e eu assino por baixo. A rir, se dizem verdades...
2 – A REPARAÇÃO DE DANOS...
Outra inconfidência do PR, que causou ainda maior brado, numa linha definitivamente "woke" foi sobre a reparação dos danos do colonialismo… A meu ver, com a sua tirada mediática, nas vésperas do dia 25, vai o Prof. Marcelo fazer mais "estória" do que "História", por ter errado no “quando”, e por não explicitar o “como” da dita reparação. Ora o “como” é o que mais interessa...
Para mim, "reparar" é cooperar, em diálogo, em vivência, continuando interações em curso, no clima de entendimento que tem imperado, nas últimas décadas. Ao contrário dos extremistas de direita e de outros nacionalistas de variada extração, sou uma crente no “ecumenismo lusófono”, num projeto coletivo de reencontro de povos que pode chamar-se CPLP, ou outra coisa qualquer. Não esqueçamos o passado, mas olhemos, sobretudo o futuro, os jovens! Todas as formas de cooperação existentes, o acolhimento de estudantes, a abertura à imigração, a criação de estatutos de cidadania (do qual o velho e renovado "Tratado de Igualdade de Direitos e Deveres entre Portugueses e Brasileiros" é já um inigualável paradigma), a restituição da nacionalidade (à semelhança da concedido a descendentes de judeus portugueses) são dados positivos no balanço do cinquentenário da Revolução de 1974. Há que prosseguir no domínio da cooperação económica, cultural e científica, (partilha de arquivos, de obras de arte, de saberes) ou qualquer outra. Estamos no bom caminho, há que avançar.
3 - UM DIA PARA A HISTÓRIA: O 25 DE ABRIL
Nestas comemorações do 25 de Abril, foi imenso o contraste entre as esplendorosas manifestações populares, e os monótonos rituais de iniciativa estatal, os do Parlamento, assim como a discreta sessão dos ilustres convidados do PR no CCB - os Chefes de Estados lusófonos, herdeiros da mesma revolução que trouxe a Portugal a liberdade e a democracia. Foi uma espécie de réplica da comemoração parlamentar, com um rateio de tempos - uns escassos 10 minutos - para cada um dos oradores, tendo o anfitrião feito a mais pequena e pobre intervenção da sua vida. Que grande oportunidade perdida de marcar a data, com algo de grandioso, festivo, portador de ideias e propostas de colaboração mútua, tendo no centro a própria CPLP!
Era o momento de fazer o balanço da sua ação, de mostrar as suas potencialidades, de apelar à participação dos migrantes de toda a lusofonia, que bem merecem um estatuto jurídico de fraternidade realmente praticado. O evento merecia outro eco nos "media", outro reconhecimento público e popular. Que pena, tão significativa presença do mundo lusófono, representado a nível presidencial, nas comemorações ter sido quase ignorada! Que pena não termos visto mais imigração a descer connosco a Avenida da Liberdade.
Em compensação, que fantástico foi ver nessa gigantesca manifestação popular, espontânea, exuberante, um sinal da interiorização coletiva dos valores democráticos! De todos, e de tantos jovens, tantas mulheres. Mulheres, sobretudo mulheres, que tinham razões de sobra para isso: a revolução libertou todo um povo, mas libertou muito mais os que tinham menos direitos. E elas, antes de Abril, na chamada” família tradicional”, sofriam de uma “capitis diminutio”, com um estatuto de eterna menoridade (numa expressão mais forte, de verdadeira escravatura). A mulher devia obediência ao marido, como os filhos ao pai - não á mãe, porque era ele que detinha o poder parental, o poder de administrar os bens do casal, incluindo os bens próprios da mulher, o poder de decidir tudo, o domicílio conjugal, onde viver e como viver... De algum modo, a mulher casada, sendo súbdita do homem, era sua “colónia”. No 25 de Abril, também se deu a “descolonização” da mulher... E essa foi a nossa única descolonização exemplar.
Com que orgulho, nós, as mais velhas, olhamos o Portugal onde as raparigas são 60% dos licenciados do País, onde as jovens acedem, com mais ou menos dificuldade, e brilham, em profissões que, até 1974, lhes eram vedadas. E, embora mais vagarosamente, vão ascendendo na política a todos os níveis, na vida partidária, reduto onde os partidos do poder ainda têm rosto masculino.
Como as gaivotas metafóricas do líder do IL, no seu discurso em São Bento, as mulheres não querem voltar para trás… 25 de Abril sempre!
in "DEFESA DE ESPINHO", 2 de maio de 2024
quinta-feira, 28 de março de 2024
VAMOS FALAR DOS VOTOS DA EMIGRAÇÃO in Defesa de espinho (março 2024)
VAMOS FALAR DOS VOTOS DA EMIGRAÇÃO
1 - Esta ano falou-se muito dos votos da emigração, quer nos "media" generalistas, pouco preocupados em aprofundar a matéria, quer pela voz dos mais distintos comentaristas, de quem se pode dizer mais ou menos o mesmo. Só foi tema porque os escassos quatro deputados da emigração podiam decidir a contagem final, e porque o Chega ganhou dois deputados, um deles no lugar de Santos Silva. Na verdade, o Presidente da Assembleia fora derrotado no interior do PS, pelos seus correligionários, que não lhe perdoaram ter apoiado José Luís Carneiro, abandonando-o à sua sorte num círculo demasiado ingrato. Na presente conjuntura, qualquer outro socialista sofreria o mesmo destino.
É um erro (comum e repetido) desvalorizar a conjuntura na análise das tendências de voto na emigração, como se não acompanhassem as tendências que se desenham no país. Admito que haja, aqui e ali, fatores internos que influenciam escolhas, mas as diferenças, de comunidade para comunidade, dentro e fora da Europa, são comparáveis às que existem de região para região, no continente e nas ilhas atlânticas.
Vejamos o historial de votações, nos círculos da Europa e de Fora da Europa, no último meio século.
Na Europa, a regra foi a divisão de deputados entre PS e PSD, com o PS a contabilizar o maior número de vitórias. Contudo, as maiorias de Cavaco e Silva, no país, repercutiram, de imediato, nas comunidades, deixando, ao menos uma vez, o PSD a escassos votos de ganhar os dois deputados. E a última grande maioria (de António Costa) deu, efetivamente, ao PS o pleno de deputados. Era, por isso, expectável a enorme quebra da votação no PS e o substancial aumento do Chega, a prejudicar a recuperação do PSD, mas surpreendeu o seu 1º lugar na Suíça e no Luxemburgo. O que distingue a emigração nestes dois países? Essencialmente, o muito menor grau de integração na sociedade local, revelado pela intenção de regresso, pelo envio de remessas (proporcionalmente muito superior ao da França), pela maior sensibilidade ao abandono pelas autoridades nacionais. A retirada de direitos adquiridos pelo Governo Costa, nomeadamente, no setor da Saúde, (restrições, impostas no acesso ao SNS...) teve um efeito tremendo! Tal como no Algarve, a votação maciça na extrema-direita foi uma forma de protesto.
Fora da Europa, à semelhança da Madeira, e de certas zonas do norte e centro do continente, o PSD venceu sempre - e agora, também. De início, repartia os deputados com o CDS, destinatário dos votos da direita. Com o declínio deste partido, esse voto passou, como “mal menor” para o PSD, e acaba de “descobrir” o Chega, (aliás, numa lista encabeçada por um ex-PSD de São Paulo…). O PS tinha fraquíssima adesão, correspondente a franjas ideológicas de esquerda. No Governo, contudo, surgiu com uma face de moderação e pragmatismo e foi crescendo, graças a Secretários de Estado das Comunidades, mais pró-emigrantes do que o próprio partido (penso em José Lello, em José Luís Carneiro). Pela primeira vez, em fins do século XX, e, por duas vezes, recentemente, conquistou um deputado neste círculo, (no 2º lugar, onde dantes ficava o CDS).
2 - Em 2024, o PSD ganhou o Círculo Fora da Europa, tendo por cabeça de lista, um antigo Secretário de Estado de boa memória, José Cesário. Conseguiu resultados esmagadores em Macau e em Israel, e amplas vitórias nos EUA, no Canadá e em toda a África. No Brasil, porém, só ganhou em São Paulo… Em certa medida, esta perda para o Chega é culpa do PSD, que promoveu Ventura na famigerada candidatura à Câmara de Loures, tal como o novel Deputado daquele partido. Um foi acalentado por Passos Coelho, outro por Rui Rio, (como nº 2 da lista anteriormente encabeçada por Maló de Abreu). Digamos que, das últimas lideranças do PSD, só se salva Montenegro, com o seu já histórico "não é não" à extrema-direita...
A nata dos comentaristas políticos não destaca esta evidência, prefere fantasiosas explicações da adesão dos nossos emigrantes a cultos evangélicos, que sustentam o bolsonarismo. Que ideia! Muitos portugueses pertencem, por razões ideológicas, às hostes de Bolsonaro, não por causa do sustentáculo evangélico, mas apesar dele. Constituem, certamente, a mais católica, apostólica e romana ala desse movimento extremista. E são, fundamentalmente, anti- Lula! Por isso, o vergonhoso ataque do Chega ao Presidente Lula da Silva na Assembleia, em 2023, transformou-se, ali, em 2024, no seu mais eficaz ato de campanha eleitoral. O vídeo da pavorosa cena parlamentar passou, constantemente, nos meios de comunicação e propaganda, que os bolsonaristas puseram ao serviço do partido irmão. E se houve coisa prejudicial a Santos Silva, na campanha que "virou brasileira", foi o seu (louvável) papel nesse incidente de dimensão internacional.
Nos EUA, ao contrário do que alguns temiam, o "trumpismo" pouco pesou no voto emigrante, porque os portugueses separaram as águas, e não "americanizaram" o sufrágio.
3 - Somos um país de emigração tradicional, que teima em abordar este fenómeno de modo ligeiro e estereotipado. Poucos foram os comentaristas que denunciaram outros aspetos do processo eleitoral, designadamente a chocante sub-representação parlamentar dos emigrantes. Marques Mendes foi exceção ao salientar que, nas comunidades do estrangeiro, 334.000 votos elegeram quatro deputados, enquanto, por exemplo, em Leiria 274.000 têm direito a dez, e em Coimbra, 242.000 a nove....
O problema vem de trás, e agravou-se desde que o recenseamento foi, (e bem!), alargado a cerca de um milhão e meio de expatriados, os que têm cartão de cidadão atualizado. Foi um passo na direção certa, mas a exigir outros ajustes. Com caráter urgente, destacarei três:
- O aumento do número de deputados da emigração
- A eliminação, no voto postal, da exigência de junção da fotocópia do BI ou do CC, em envelope separado. Em alguns países, mais da metade, e, no conjunto, cerca de 40% dos votos expressos foram anulados por incumprimento deste prescindível requisito. Inaceitável!
- A facilitação do voto, conjugando as diferentes modalidades possíveis, voto presencial, por correspondência e eletrónico (solução que eu já defendia enquanto deputada, há mais de duas décadas...). .
Os últimos dois anos foram, neste domínio, anos perdidos, por inércia de um Governo largamente maioritário. Esperamos que o futuro Governo, apesar da sua escassa maioria, se empenhe em alcançar os consensos para soluções que são uma exigência democrática. Obstaculizar estas reformas equivale a retirar, na prática, o direito de voto reconhecido, na letra da lei, aos portugueses de estrangeiro. Equivale a manter o seu tratamento desigual, a sua "capitis diminutio", uma cidadania de segunda, cinquenta anos depois do 25 de Abril de 1974.
terça-feira, 26 de março de 2024
DANÇA DE EMOÇÕES – UM PAR IMPROVÁVEL
DANÇA DE EMOÇÕES – UM PAR IMPROVÁVEL
Maria Antónia Jardim consegue surpreender-nos, em cada nova criação que nos oferece… Agora com “A Dança das Emoções – Um par improvável” , pequeno conto, que a ousadia da imaginação e a mestria de tornar simples uma escrita vertiginosa transformam em grande aventura literária.
Parte a Autora da contemplação de um quadro, “A dança”, quadro maior, (e não só pela sua dimensão física), de Paula Rego, génio da pintura universal e admirável narradora de enredos traçados a pincel… “estórias” de vivência feminina de que se faz a” História das Mulheres”, trazidas das margens para o centro do mundo, com todo o seu poder subversivo da velha ordem opressiva e misógina.
A “Dança” na praia, à luz do luar, converte-se em cenário de uma narração fantástica, que poderia ter servido de mote para uma outra tela de Paula Rego, que, por sua vez, a imaginação cúmplice da escritora recriaria, no seu estilo gracioso e rápido… Uma dança entre duas artes em que o feminino visivelmente se exprime! Nas palavras sobre papel de Antónia Jardim vemos corroborada a mensagem pictórica de Paula Rego, que ela própria definia, sem rodeios: "O que é isso de uma arte sem género? De uma arte neutra? Há histórias à espera de serem contadas e que nunca o foram antes. Têm a ver com aquilo em que jamais se tocou: a experiência das mulheres."
Sim, as personagens deste conto encantatório entram na dança de Paula Rego, entram e saem, muitas vezes, com a marca inconfundível da autoria feminina. Numa dança de emoções, (do sentir e desejar, dança de idade e de gerações, de realidade e ficção), no romance como na tela, a Mulher tem o papel dominante. Chama-se Kristal, vagueia pela Londres de Paula Rego, à procura de um destino, e vai tocar a lua com a sua mão jovem. A lua cheia, lua/mulher, lua de mel… com Raul, o “alter ego”, homem/luar.
Ler um livro (precisamente como olhar uma tela), é um exercício de plena liberdade, uma apropriação consentida de sensações, que, finalmente, são só nossas. Na gostosa leitura da “Dança de Emoções”, deixei-me envolver no ritmo da música, andei redopiando de página em página, e entrevi no enlace de Kristal e David, o de Tom Baxter e a Cecília, de “A Rosa Púrpura do Cairo”. Depois, ao táxi em que Kristal é transportada a cenários de pinturas célebres, associei o táxi da “Meia noite em Paris”, que leva Gil a viajar no tempo, até à cidade de outras eras, ao encontro de Cocteau, Gertrud Stein, Zelda e Scott, Picasso, Braque, Dali, Buñuel…
E, assim, Maria Antónia, Paula e Woody, na minha feérica triangulação, se reúnem, em Londres, num improvável e fabuloso “Candlelight Concert”…
Maria Manuela Aguiar
domingo, 25 de fevereiro de 2024
8 de março LEMBRAR MARIA ARCHER E MARIA LAMAS
Mulheres que lutaram, pela palavra e pela ação no tempo em que em Portugal não podíamos comemorar o Dia Internacional da Mulher
Uma excelente iniciativa dos nossos amigos franceses.
sábado, 24 de fevereiro de 2024
Maria ARCHER - COMEMORAÇÕES 2024
MARIA ARCHER – UMA LEITURA FEMINISTA in "Jornal de Letras"
1 –Maria Archer, nascida no último ano do século XIX, era ainda criança, quando o movimento feminista e republicano dava os primeiros passos, e uma jovem, ausente nas terras do império, quando o seu ímpeto esmorecia, e o cerco da ditadura apressava a sua desagregação. Contudo, estava destinada a continuar, solitária e audaciosamente, esse legado de luta contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina à incultura, ao enclausuramento doméstico, à subserviência. Ela própria cumpriu a utopia feminista da “libertação da mulher” pela Cultura e pela autonomia económica, ao fazer da escrita profissão e instrumento de denúncia da situação das suas contemporâneas numa sociedade anacrónica, desumanizada, misógina. Feminista assumida e praticante, ousou romper com o conservadorismo da família aristocrática, por fim a um casamento infeliz, e viver, sobre si, do jornalismo e das Letras - mulher livre num país sem liberdade!
Em Portugal, como na Suécia, a atividade literária e jornalística foi um meio privilegiado de combate contra os preconceitos e desigualdades de sexo. Entre nós, teve a pré-história em oitocentos, a fulgurante afirmação coletiva na 1ª República, e um inesperado apogeu com Maria Archer durante o salazarismo.
Ninguém melhor do que ela soube recriar, de uma forma realista, crua e eficaz, a atmosfera social e política que moldava o mundo segregado das mulheres. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante”.
Ninguém melhor do que ela escrutinou e denunciou a violência velada dos brandos costumes da sociedade portuguesa, do relacionamento de sexo ou de classe, homens e mulheres imersos na nebulosa de estereótipos, dogmas e falso moralismo, de prepotência e submissão...
Ninguém melhor do que ela desconstruiu a imagem da "fada do lar", laboriosamente erguida sobre a falácia da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia do regime corporativo), e dos apregoados bons costumes, assentes no autoritarismo e subjugação ao "pater familias" no pequeno universo caseiro, e ao ditador no círculo alargado do País.
O rigor e a qualidade literária destes retratos de mulheres (e da sua circunstância), a densidade humana das personagens, potenciavam a força subversiva dos romances e contos de Maria Archer, e desencadearam o furor censório do regime…De todas as mulheres resistentes que a ditadura perseguiu, nenhuma pagou um preço tão alto como esta Maria, verdadeira precursora das “três Marias” da década de setenta. É Maria Teresa Horta quem no-lo diz, em 2001, no prefácio da reedição de “Ela é apenas Mulher”: “Com Maria Archer, a tática foi diferente: Apagaram-.na […] arrancaram o seu nome, pura e simplesmente, da História da Literatura Contemporânea Portuguesa”.
Acusação de misoginia, que visando o regime, não deixa de abranger todos quantos não perdoavam à romancista o ter ultrapassado os limites que a própria História Literária, dominada por homens, reservava às mulheres escritoras…
Maria Archer foi forçada a partir para um longo exílio em São Paulo, de onde retornaria, envelhecida e doente, para morrer, em Lisboa, no esquecimento geral, sem, todavia, ter perdido a esperança na “justiça do tempo”.
Esse tempo chegou! E a justiça fez-se, primeiramente, pela via de uma leitura feminista da sua obra, que em nada prejudicou a descoberta da pura qualidade literária da sua escrita, aberta a uma pluralidade de abordagens.
No ano do seu 125º aniversário, a segunda vida de Maria Archer desabrocha em comemorações que se cruzam com as do cinquentenário da revolução de Abril. Ela emerge, agora, como figura ímpar para contar a história de um passado opressivo, pautado por regras viciadas de jogo social e político – jogo que ela desvendou e se recusou a jogar. Dessa época nos dá, nas palavras de Maria Teresa Horta, “o único retrato autêntico, de corpo inteiro”, e, na nossa, ressurge como mulher de todos os tempos. De facto, escreveu história do feminismo com a própria vida: o seu exemplo vale para sempre e a história é interminável.
Manuela Aguiar
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