domingo, 1 de março de 2015

EM MOVIMENTO

O gosto da vida e o gosto do movimento, para mim, foram sempre a mesma coisa.
Não importa tanto a distância, como a atitude.
Um astrólogo diria –“está nos astros – o seu signo é gémeos”. Um conhecedor da história da família diria antes: "está nos genes – sai à Avó Maria”.
Mas mesmo essa mítica Avó Aguiar, poderosa matriarca, mãe de 8 filhos -  4 nascidos em Gondomar, quatro nascidos no Rio de Janeiro - , de muitos mais netos e bisnetos, que cuidou ao longo dos 91 anos sobre o planeta terra, se inquietava com a pequena descendente que, aos 3 ou 4 anos, já corria por escadas e corredores longos ou pelo jardim, e, caso único entre tantas crianças da família, não parava nunca...
A Avó comprava-lhe cadeiras interessantes e diferentes, alentejanos, de cores garridas, de madeira, de verga... Agradecia, expansiva, fazia à volta delas uma festa, experimentava-as de imediato, naturalmente, mas não ficava muito tempo sentada. Só com um livro na mão, alguns anos depois... 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

CRATO e JUSTINO


 A minha divisa é: "de exames e chumbos, o menos possível".
Estou, pois, nas antípodas do actual Ministro da Educação, que, ao que parece, acredita na multiplicação dos exames, a todos os níveis, como a grande panaceia para a melhoria do nível do ensino...Acho esta perspectiva completamente errada. Os exames não acrescentam nada a ninguém. A melhor avaliação é a que os professores fazem de forma continuada, atentos ao progresso dos alunos. A qualidade do ensino é a qualidade das pessoas - de quem ensina e de quem aprende.
Os exames nacionais são apenas uma prova de desconfiança nas escolas, nos professores...
E chumbar não pode ser visto como um castigo, mas antes como um privilégio. Assim se pensava já na Suécia, em finais da década de 60. Na altura, isso para mim foi uma surpresa, porque nunca tinha imaginado que fosse possível criar um sistema em que os chumbos fossem uma anomalia, mas logo aderi àquela escola de pensamento (estava num curso organizado para francófonos pelo Instituto da Informação em Estocolmo - "Connaissance de Suéde"). Um verdadeiro achado: só repetia o ano um aluno, que por razões excepcionais, não tivesse conseguido acompanhar os outros - caso em que era objecto de atenção e apoio especial. Era a social -democracia, no seu melhor!
Em Portugal não havia, então, sequer democracia, quanto mais social-democracia... Mas seria o modelo praticável no Portugal depois de 1974? Nunca um Ministro de Educação ousou propo-lo... Parecia-me que não...
De repente, em 2015, um antigo Ministro da Educação e actual Presidente do CNE veio abrir caminho a considerar esta opção. Já era coisa de causar espanto, neste país conservador, de tradição patriarcal e autoritária! Fantástico descobrir que, na nossa "inteligentsia", ao lado dos Cratos existem Justinos - mesmo que os Cratos sejam muitíssimos e os Justinos poucos...
Porém, mais fantástica ainda é a notícia que vem na 1ª página do Expresso: o Agrupamento de Escolas  de Carcavelos aplica este modelo "nórdico", com sucesso, há já 12 anos!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

"BOYHOOD" (o filme) EM ESPINHO

Uma bela iniciativa, esta de organizar um mini ciclo de cinema com filmes candidatos a óscares,
Na verdade, os óscares são o que menos me interessa - o que me interessa são mesmo estes 3 filmes. O Grande Hotel Budapest, que vi quase por inteiro no Dolce Vita Porto - tive de sair antes do fim- Que prazer  voltar ao princípio e chegar até ao último fascinante momento...
Comecei, hoje por Boyhood... excelente... não tem altos e baixos, é sempre, sempre excelente. True to life , in USA.
E aquela verdade universal: the moment seizes you...
Pelo meio, há ainda Birdman.
Tempos houve em que em Espinho se podia ver 60 filmes por mês, um por dia em dois cinemas, o do Teatro S Pedro e o do Casino... depois fomos dos 60 aos 2 - ou menos.
Agora poder ver 1 filme por dia durante 3 dias no Multimeios é uma festa!!! 
  .

COM JC JUNKER

Conheco-o há muitos anos - ainda ele era um jovem Secretário de Estado, responsável pelas questões do trabalho e da imigração. Um bom aliado dos trabalhadores portugieses.
 As suas afirmações sobre a torika não me surpreendem.
Sempre gostei dele. Continuo a gostar e, como se vê, tenho boas razões para isso

ICH BIN ( nicht) EIN BERLINER

Asssim falaria, provavelmente, Kennedy hoje... É mais ou menos isto o que tem dito Obama sobre a nova Alemanha -  pós queda do muro e reunificação - e as suas políticas de austeridade, a troika, a Grécia, o futuro de uma Eurpa subjugada pelo egocentrismo germânico, .
É o que digo com crescente sentimento de revolta, apenas alterando "ein" para "eine"  - "um" para "uma".
Já não somos berlinenses. Berlim, capital da Alemanha é agora a capital da Europa, contra a Europa... Teremos de ser cada vez mais gregos. para sermos europeus em liberdade...

domingo, 28 de dezembro de 2014

CARLOS CORREIA

A memória é um mundo em que vivem connosco os amigos que já não estão entre nós… Ninguém o disse melhor do que Pascoais: “Existir não é pensar, é ser lembrado”.
Lembro uma última e muito longa conversa que tive com o Dr Carlos Correia, sobre o Pai, que tinha falecido pouco antes. Falámos, quase exclusivamente sobre os nossos Pais, o que significavam para nós. Sobre a forma de superar a sua perda, de os trazer connosco na caminhada pela vida fora, tentando adivinhar o conselho que nos dariam em situações difíceis, sentindo a sua presença nos momentos de festa e de alegria.
Encontrei-o, logo depois, a 26 de Março, nos salões do protocolo do Palácio das Necessidades, durante o colóquio com que a AEMM abria as comemorações da Revolução de Abril no domínio das migrações. Como muitas vezes acontece nestes eventos, saudamo-nos cordialmente, sem tempo para mais nada. Coincidimos em fotos de grupo, que seriam as suas últimas fotografias. .Estou a vê-lo, na primeira fila, na cadeira mais distante, de onde, discretamente, se levantou duas ou três vezes, com toda a certeza para atender questões de serviço. Era o chefe de gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, e assumia essas funções, como as outras que desempenhou, nesta área das migraçõe (Técnico, Assessor, Vice presidente do Instituto de Apoio à Emigração e Comunidades Portuguesas, Conselheiro Social nas Embaixada de França e do Luxemburgo), com uma dedicação total, com muita inteligência com um conhecimento completo dos “dossiers”. E sempre, também, com um grande sentido das responsabilidades, com preocupação de ser.perfeito.E era! Eu sei, porque na meia década de oitenta, o Dr. Carlos Correia foi meu Chefe de Gabinete no mesmo pelouro. Trinta anos mais jovem, mas igual… Não falhou no mais pequeno pormenor… Tê-lo à frente daquela máquina complexa, daquela torrente de papéis quotidiana, dando solução a tantos problemas, que, de outro modo, recairiam sobre mim, foi, sem dúvida, uma absoluta segurança, um sossego. Tinha, porém, a consciência de que me podia despreocupar, na exacta medida em que ele se preocupava. Até demais, na minha opinião! De todos os colaboradores próximos (e tantos foram...), o Dr. Carlos Correia foi o único de quem só discordei, por julgar que trabalhava em excesso e que se preocupava demasiado! “Despache alguns desses processos para os outros, por favor!” – dizia-lhe quase todos os dias, sem sucesso. Mas, em tudo o resto (e até naquela atitude também!) o considerava admirável. Era de uma gentileza e bondade infinitas…Impossível não gostar muito dele!
Mas, curiosamente, as minhas primeiras recordações do Dr Carlos Correio são de um colectivo em que o integrava, o grupo dos “jovens”do chamado “Centro de estudos” – oficialmente esse título não existia em nenhum organograma da Secretaria de Estado da Emigração, mas correspondia ao que faziam, excepcionalmente bem, sob a direcção da Dr.ª Rita Gomes. Eram a "nova vaga",mas já com larga experiência e especialização na matéria – intelectualmente brilhantes, muito unidos, e muito simpáticos: Carlos Correia, Victor Gil, Bento Coelho e, entre homens, uma mulher invulgar, que tratavam como igual – a Maria do Céu Cunha Rego. Havia outros, mas eles foram sempre os que considerei mais próximos. O que não quer dizer que se apercebessem disso, isto é, que eu evidenciasse sentimentos de tanto apreço. As vezes, com a minha pressa e impaciência, bem pelo contrário… Algumas histórias que, muitos anos depois, me contaram desse nosso relacionamento laboral foram, para mim, surpreendentemente hilariantes.
Há muito que estava combinado um jantar convívio para recordar esses tempos felizes. Acho que não devemos esperar mais, para levar por diante o planeado, agora para falar, sobretudo, do nosso amigo Carlos Correia

Maria Manuela Aguiar

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O DOUTOR ADRIANO SEABRA DA VEIGA - um amigo inesquecível

Em Março de 1980, aquando da minha primeira visita aos EUA, partilhei com Adriano Seabra da Veiga e a mulher, Rita, que acabava de conhecer, e com o Deputado José Gama, já um “velho” amigo, um jantar festivo, calorosamente organizado pelos portugueses de Ludlow. No longo roteiro de cidades da costa leste, que então percorri, Waterbury era a que se seguia, e o Dr Veiga, Cônsul Honorário de Portugal no Estado de Connecticut, seria, nessa qualidade, meu anfitrião.
Sabia que ele era um eminente cirurgião, muito prestigiado no meio científico e na sociedade americana, uma verdadeira sumidade, que, nem por isso, deixava de atender, na sua clínica, todos os emigrantes portugueses, com a familiaridade de um médico de terra pequena, a quem todos recorrem, de quem todos dependem. Sabia também, pelo José Gama, ex-emigrante nos EUA, que na sua grande mansão, em Eastfield Road, tinha acolhido, sem olhar a cores políticas, o cantor José Afonso, exilados como o General Spínola, em breve passagem, e, em estadas mais prolongadas, Veiga Simão e Victor Crespo - seus colegas na Universidade de Coimbra– que, entre os amigos muito próximos se contavam Veiga Simão, Almeida Santos, António Maria Pereira, o Cardeal Medeiros, os Aldrich Rockefeller, Amália Rodrigues (a prima, casada com o Engº Seabra). Sá Carneiro também esteve em Eastfield Road (levado por AM Pereira) o tempo suficiente para converter o anfitrião ao PPD.
O Dr. Seabra da Veiga era, realmente, uma celebridade, movia-se no mundo americano e português, com igual naturalidade – um profissional de excepção, um cientista, um filantropo, um patriota, que serviu o país como Cônsul honorário, durante décadas. De Portugal, recebeu as mais altas condecorações, antes e depois do 25 de Abril, e nos EUA, a sua notoriedade era ainda maior.
Dados de conhecimento geral...Muito mais comecei a descobrir nessa viagem de carro, entre Ludlow e Waterbury - ou seja, a fantástica pessoa que dava vida a tão impressionante curriculum.
 É impossível retratar Adriano! Nem vou tentar…Direi apenas que ele tinha uma graça espontânea, um humor muito coimbrão, moderadamente irreverente (como mandam as boas maneiras, quando as senhoras estão presentes), uma energia inesgotável, que o tornavam divertidíssimo, imprevisível e imparável. Qualquer novo projecto o entusiasmava, e não poupava esforços para o realizar em tempo “record” – posso falar, sobretudo, dos que respeitavam à emigração… A seu lado, estava uma mulher encantadora, suave e fleumática, sempre pronta a colaborar com tudo e com todos, a abrir a sua casa a reuniões e a constantes visitas de gente lusa -  ela que é americana de origem canadiana francesa. Era, sem dúvida, a mulher ideal para Adriano e formaram uma família maravilhosa – três filhos (todos fluentes na língua pátria, tal como a Rita), e (anos mais tarde…) quatro netos. Ele adorava crianças e, também, como eu, cães e gatos – recordo-me de uma gata persa, muitos Yorkshire terriers, um São Bernardo. Tudo em paz, como no paraíso de que aquela casa parecia uma antevisão terrena
Para mim, a Rita e o Adriano tornaram-se família chegada, mais do que bons amigos - . Não sei quantas vezes estive com eles em Waterbury, em Lisboa, em Espinho…Em Waterbury, umas vezes como membro do governo ou deputada, outras em viagens privadas, mas com o indispensável envolvimento comunitário, porque havia sempre iniciativas para que me convocavam, através do dinâmico Cônsul Honorário. Antes do mais, para as festas do 10 de Junho, ano após ano…. Telefonava-me, peremptório: “Está convidada pela Comunidade e tem de vir, porque eles estão a contar consigo e eu já dei a notícia para os jornais”
Adriano não admitia recusas, quer se tratasse de projectos comunitários, quer de questões de saúde  dos amigos – assim, por exemplo, se a visita fosse no Outono, ninguém escapava à vacinação contra a gripe. Eu até sou contra, mas ali, não escapava… Recordo-me do dia em que, juntamente com a Presidente do Instituto de Emigração Maria Luísa Pinto, no final de um Encontro do CCP, regressava, com ele, a Waterbury. Antes de seguir para casa, informou-nos que íamos passar pela sua clínica, onde a vacina nos esperava, mas, entretanto, encontrou por lá um doente, quis resolver-lhe o problema e esqueceu-se do nosso caso. A Maria Luísa e eu ficámos felizes… mas por pouco mais de meia hora... Ele deu conta do lapso, chamou, de imediato, uma enfermeira que apareceu em Eastfield Road de bata branca …e, assim, embora a contra-gosto, viemos da América devidamente protegidas contra todas as epidemias invernais…
Adriano, além de generoso, extrovertido e super activo, era, também, muito impaciente.
A morosidade irritava-o por demais – uma vez, numa portagem de auto-estrada, arrancou, apressado, com o seu potente Mercedes e derrubou (involuntariamente, para nosso gáudio!) uma daquelas barreiras que, depois de accionada pela recepção de moedas, levanta, devagar, devagarinho...
Um episódio entre mil, daqueles com que o lembramos, a sorrir, como ele gostaria de ser lembrado.
Adriano Seabra da Veiga deixou-nos, subitamente, no apogeu dos seus mais de 90 anos.

Telefonei-lhe poucas semanas antes, para conversarmos – mantinha toda a alegria de viver, o ânimo, a preocupação com os amigos, o interesse por Portugal.