Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
terça-feira, 20 de outubro de 2020
HERNÃNI SOBRE OS FERREIRA RAMOS
Maria Manuela Aguiar
sábado, 25/07, 16:24
para mariamanuelabarbara, Eduarda, Carlos
lá, Manuela,
Muito obrigado por mais esta achega, que já incluí no meu texto. Infelizmente o livro paroquial de Gondalães para o ano em que o teu tio casou não existe online, pelo que fiquei sem possibilidade de obter informação até do sobrenome da tua Tia Hermínia.
Estive a ler com grande prazer os textos que me enviaste sobre este teu tio e, também, sobre Manuel Guedes, teu tio bisavô.
Sem desprimor para o primeiro, o último seria uma personagem fascinante e merecedora de dar o nome à praça do município. Para mim é sempre um fascínio tentar compreender as razão dos nomes das pessoas e este caso foi excepcional. Assim, a sua filha mais velha, Joana, foi afilhada de D. Joana Flávia da Cunha Guedes e Vasconcelos e de um dos seus filhos, moradores no Porto. O irmão que se seguiu, António, foi afilhado desta senhora e do mesmo filho, ainda moradores no Porto. Esta aristocrata era filha do proprietário da Quinta de Bouça Cova e casada com João Bernardo de Meireles Guedes, Fidalgo-Cavaleiro da Casa Real. Quando o pai faleceu ela herdou a quinta e foi viver para lá, em São Cosme. Quando a seguir nasceu outra menina, Rosa, ela ficou afilhada de dois vizinhos de Quintã. Entretanto, Joana tinha falecido, possivelmente pouco depois do baptismo, pelo que se seguiu outra Joana, que foi novamente afilhada desta D. Joana e doutro dos seus filhos, desta vez já a residirem em São Cosme. A seguir nasceu Manuel (Ferreira Ramos), que foi afilhado dum casal do Porto, Manuel Pinto da Silva e D. Inácia da Silva Pinto. Com excepção dos vizinhos que foram padrinhos de Rosa, os demais padrinhos, mesmo quando já residiam em São Cosme, nunca estiveram presentes, pois sempre se fizeram representar, ocasionalmente pelos avôs das crianças.
Encontrei apenas quatro filhos para Manuel Ferreira Ramos: António (1850), Joaquim (1852), João (1854) e Amélia (1857), todos nascidos em São Cosme… e não encontrei mais. Em 1877, com 20 anos e o nome Amélia da Silva Ramos, este última filha de Manuel Ferreira Ramos foi madrinha do teu Tio Alexandre, tendo então ficado registado que nessa data a madrinha morava no Porto, mais precisamente no Largo Camarão da freguesia do Bonfim. Isto permitiu-me investigar se por acaso não teria casado ali e tive sorte, pois encontrei o casamento um ano depois, 1878, no mesmo endereço, com João Pinto da Costa Lobão; foram testemunhas Manuel Guedes Ferreira Ramos e Maria da Silva Ramos, pais da nubente. Pela primeira vez vi a associação do sobrenome Guedes. Aquando do casamento da filha, Manuel Guedes Ferreira Ramos tinha 49 anos. Ainda que não os tivesse conhecido, ele saberia que os seus padrinhos eram do Porto, como eram os padrinhos dos irmãos mais velhos; assim, terá talvez concluído que também ele fora afilhado desta D. Joana Flávia da Cunha Guedes e Vasconcelos e decidiu adoptar este sobrenome desta suposta madrinha. Em 1813, isto é, 16 anos antes de Manuel Ferreira Ramos ter nascido, esta aristocrata fizera uma doação de 100 mii reis para uma qualquer obra social quando a maior parte das demais doações não ultrapassava os 50 mil reis; isto denota que, além de ser muito rica, em 1813 esta senhora já tinha independência (e idade) suficiente para fazer uma doação tão avultada. Quando Amélia casou já tinham passado 65 anos sobre esta doação, pelo que possivelmente a evocada e suposta madrinha já teria falecido há muito tempo.
Outra questão interessante a propósito dos nome refere-se ao caso da mulher de Manuel Ferreira Ramos, que, em solteira e quando casou, se chamava Maria Pereira (Pereira, de Agostinho Pereira de França, o pai) e era filha de Maria de Sousa neta de Manuel Alves Pinto e de Catarina de Sousa. Por casamento, mudou os sobrenomes de tal modo que, quando os dois primeiros filhos, António e Joaquim, foram baptizados, lhe foi dado o nome Maria de Sousa, como a mãe; porém, quando nasceram os dois últimos, João e Amélia, o nome já era Maria de Sousa e Silva. Finalmente, quando a filha Amélia casou, já não usava nem Pereira nem Sousa, mas Maria da Silva Ramos. O aparecimento de Silva ou da Silva é um mistério, pois para trás não aparece nem sequer nos padrinhos. Por razões qua nunca consegui entender, em muitas famílias o nome Silva ou da Silva surge sem explicação, parecendo surgir quando se verificava uma ascensão social, uma espécie de sinal de modernidade. O meu Silva vem de dois lados diferentes e eu não consigo explicar por que razão ele surgiu em qualquer dos casos.
Fora isto, já encontrei o baptismo dos dois primeiros filhos de Amélia; João (1879) e Raul (1880). Em solteira a mãe chamava-se Amélia da Silva Ramos mas por casamento passou a usar Amélia Guedes da Costa Lobão em que Silva Ramos foi trocado por Guedes, que vinha da suposta madrinha do pai, sendo Costa Lobão do marido. Ainda há pelo menos mais dois filhos para encontrar, o que é muito trabalhoso não se sabendo em que ano é que nasceram; de facto, na freguesia do Bonfim eram registadas cerca de 650 crianças por ano — agulha em palheiro.
Toda esta investigação tem sido bastante estimulante.
Com um abraço agradecido pelas ajuda
UM OLHAR (subjectivo) SOBRE FEMINISMO E DIÁSPORA
Longe e perto de 1910...
1- O movimento feminista e republicano do começo de novecentos não teve
um grande impacto nas comunidades do estrangeiro, nem mesmoglobalmente nas colónias portuguesas - embora em
algumas cidades ,como é o caso de Luanda, ou de São Paulo haja
registo de actividades da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas ou
da Associação de Propaganda Feminista (a Liga com estreitas relações
partidárias, a APF aberta a todos os credos e autenticamente sufragista, criada
quando se tornou evidente o incumprimento pelo Partido Republicano das
promessas de voto para as mulheres, em 1911. As conhecidas ligações
da APF ao Brasil devem-se à presença nesse país, entre 1911 e 1914, de Ana de Castro Osório, a grande impulsionadora e ideóloga da Associação, que, todavia,logo depois da sua fundação, "emigrou" para S Paulo, onde deixaria
o seu nome na memória e na toponímia da cidade
Mas a regra foi, naturalmente, a oposta… As singularidades daquele
movimento, a sua matriz republicana, maçónica, revolucionária, anti-clerical,
tornavam-no irrepetível na emigração. Não se poderia esperar uma aproximação entre mulheres separadas não só pela distância, como pelas condições de luta
cívica e política, numa época em que não existia tradição de diálogo com as instituições das comunidades - aliás, círculos masculinos, tanto ou mais fechados do que a sociedade local ,
À absoluta exclusão do movimento associativo, responderam as mulheres com
organizações próprias. A primeira terá sido uma sociedade fraternal na Califórnia, em fins do século XIX – a Sociedade Portuguesa Rainha Santa Isabel, nascida no interior de uma igreja católica, logo seguida da União Portuguesa Protectora do
Estado da Califórnia. Ambas cresceram espantosamente, desenvolvendo, a par da sua vocação mutualista, um papel cimeiro na comunidade portuguesa, sobretudo na área cultural e beneficente. Há registo de mútuas femininas oitocentistas em Portugal, mas sem atingirem a mesma grandiosa dimensão e longevidade...
No domínio social se centram outras grandes organizações da segunda
metade do século, como a Sociedade Beneficente das Damas Portuguesas
de Caracas, a Liga da Mulher da África do Sul ou, já no alvorecer do
século XXI, a Associação Mulher Migrante Portuguesa da Argentina.
2 - À primeira vista, são mais evidentes as diferenças do que as sintonias
entre estas organizações que queremos comparar. Falta no nosso associativismo
da Diáspora uma forte reivindicação pública da igualdade – o equivalente actual do sufragismo de então....De facto, a sua expressão nos "fora" do “congressismo” vem sendo mais suscitada do exterior do que de dentro das comunidades: o 1º Encontro Mundial de Mulheres no Associativismo e no Jornalismo, foi convocado pelo Governo. em 1985. Já neste século, os “Encontros para a Cidadania” (2005-2009) e os congressos mundiais de 2011 e 2013 foram iniciativas de ONG's, como a Mulher Migrante, com sede no País, e em parceria com a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.
As conferências periódicas sobre “A vez e a voz da Mulher”, cuja principal
dinamizadora é Manuela Marujo, professora da Universidade de Toronto, são
uma das excepções que confirmam a regra..
Todavia, há também convergências no associativismo das mulheres portuguesas em diferentes épocas e regiões do mundo:
Um feminismo muito feminino ("feminismo" no preciso sentido em que Ana
de Castro Osório falava de "verdadeiro feminismo" - um humanismo partilhado com o outro sexo, com companheirismo e cumplicidade ).
Um activismo que nasceu, frequentemente, dantes como nos novos tempos, dentro da família, numa cooperação entre cônjuges, mães e filhos, irmãs e irmãos - realidade que se adivinhava nos apelidos comuns de republicanos de ambos os sexos e que é bem visível no associativismo da emigração – são as mulheres de dirigentes que, nos bastidores, com eles colaboram, discretamente. E, quando elas decidem militar nas suas próprias organizações, são eles, em muitos casos, os seus primeiros apoiantes.
Mulheres desenquadradas do grupo familiar activo, também existem, evidentemente, mas são, sobretudo professoras primárias, jornalistas, escritoras… – tanto na República portuguesa de 1910 , como nessass “pequenas repúblicas de homens”, que são os clubes e centros comunitários no estrangeiro.
Proporcionar o ensino da língua, a vivência cultural portuguesa aos
mais jovens são as prioridades que mais atraiem as mulheres à liderança
associativa. ainda hoje. A relembrar a luta pela educação e instrução feminina, que foi o máximo denominador comum, dentro do movimento feminista e republicano, que a reivindicação do sufrágio dividiria irremediavelmente.
Mulheres desenquadradas do grupo familiar activo, também existem, evidentemente, mas são, sobretudo professoras primárias, jornalistas, escritoras… – tanto na República portuguesa de 1910 , como nessass “pequenas repúblicas de homens”, que são os clubes e centros comunitários no estrangeiro.
Proporcionar o ensino da língua, a vivência cultural portuguesa aos
mais jovens são as prioridades que mais atraiem as mulheres à liderança
associativa. ainda hoje. A relembrar a luta pela educação e instrução feminina, que foi o máximo denominador comum, dentro do movimento feminista e republicano, que a reivindicação do sufrágio dividiria irremediavelmente.
De um século ao outro, e mesma mundivisão, a mesma crença de que a mulher se emancipa pelo trabalho, ao lado do homem, e que quer direitos individuais para melhor servir não apenas, restritamente, a família, mas a comunidade e o País..
Sobra a busca da paridade em harmonia, onde falta o afrontamento de sexos. Até a APF, a mais sugragista de todas, se envolveu enormemente na vertente humanitária e beneficente do associativismo. Foi assim . É assim... Se mais resultados teria obtido uma postura mais radical é coisa que não saberemos nunca..
Sobra a busca da paridade em harmonia, onde falta o afrontamento de sexos. Até a APF, a mais sugragista de todas, se envolveu enormemente na vertente humanitária e beneficente do associativismo. Foi assim . É assim... Se mais resultados teria obtido uma postura mais radical é coisa que não saberemos nunca..
terça-feira, 13 de outubro de 2020
GRUPO PARLAMENTAR
Grupo Parlamentar do PSD apresenta Voto de Congratulação pelos 40 anos do Conselho das Comunidades Portuguesas
PROJETO DE VOTO N.º …. /XIV/1.ª DE CONGRATULAÇÃO
PELO 40.º ANIVERSÁRIO DA CRIAÇÃO DO CONSELHO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS
Ao longo das últimas quatro décadas, o Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) assumiu um papel central no plano da representação e da organização das comunidades portuguesas no estrangeiro.
Embora a sua estrutura tenha evoluído profundamente, passando de um órgão representativo do movimento associativo para uma espécie de parlamento, com os seus membros eleitos diretamente pelos cidadãos eleitores, a verdade é que o CCP soube ser absolutamente central no domínio do debate das grandes questões que afetaram as nossas Comunidades.
Faz assim pleno sentido, assinalar de forma especial, o momento em que, há 40 anos, por iniciativa de Manuela Aguiar, a então Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas do Governo liderado por Francisco Sá Carneiro, se realizou o Congresso que deu origem a este Conselho.
Assim, a Assembleia da República, reunida em Sessão Plenária, assinala os 40 anos do Conselho das Comunidades Portuguesas, felicitando muito especialmente a Dra. Manuela Aguiar e todos os representantes das mais diversas Comunidades, que participaram na sua criação.
Palácio de São Bento, 23 de setembro de 2020
domingo, 4 de outubro de 2020
O ANTI-JOGO NO FUTEBOL COMO NA POLÍTICA
O jogo de ontem entre o FCP e o Marítimo de Lito Vidigal foi, afinal, no futebol o equivalente ao debate Trump - Biden... Uma vergonha! Extraordinário que haja quem possa elogiar semelhante paradigma desportivo, o que equivale a "normalizar" o anti-jogo, o "vale tudo".
Já o auto-elogio de Vidigal não surpreende quem, como eu, o vê como o Trump da bola...
COMO SE VIVE UMA DISTOPIA in Defesa de Espinhomarço 2020
COMO SE VIVE UMA DISTOPIA
1 - Vivemos hoje em clima de guerra, a "grande guerra 2020", com uma única certeza: a de que a mais macabra das distopias se concretizou, e veio para ficar, por prazo indeterminado, na realidade de um quotidiano subitamente desestruturado. Guerra em que o exército somos todos nós, e em que, por muito disciplinados que nos mostremos, dirigir as operações no teatro bélico, contra um inimigo omnipresente e invisível, não é para qualquer um. É para políticos de grande visão e envergadura.. Esta é a hora de revelação dos verdadeiros estadistas - previsivelmente muito poucos!
O gradualismo na tomada de medidas limitativas essenciais, que vem imperando na Europa, tem de ser olhado, creio, como sintoma de improviso e impreparação.
Num quadro em que o aumento exponencial de contágios é um dado seguro, mal se compreende o anúncio de mais e mais restrições avulsas, em cada novo dia ou em cada conferência de imprensa. Essas medidas deviam ter sido bem pensadas e codificadas, integradas numa estratégia coerente e gizada para constituir resposta o mais lata possível a riscos e a danos.
Em Portugal, um dos últimos países europeus a ser atingido, e, por isso, beneficiário da lição de erros alheios, mal se compreende a não reposição rápida do controlo das fronteiras terrestres ou a opção pela absoluta falta de rastreio sanitário nos aeroportos, ao contrário do que aconteceu em vários outros Estados da UE. Não procede o argumento de que aquele tipo de vigilância não é 100% eficaz, porque, mesmo que leve à deteção de pequena percentagem de portadores do virus, vale bem o esforço, pois com cada um dos portadores logo isolados se evita um foco de infeção comunitária. Só agora, já o mês de março vai a meio, nos convertemos a esta tese...
Mal se compreende, pelas mesmas razões, a incúria em garantir o acesso generalizado a máscaras de proteção, que nem nos hospitais foi adequadamente cuidado Vimos e ouvimos, vezes sem conta, a Diretora-Geral da Saúde, negar as vantagens do seu uso individual, a pretexto de que não protegiam de contágio os utilizadores. Evitavam, sim, segundo ela, que os infetados contagiassem os outros. Ótimo! Enquanto potenciais portadores assintomáticos do "COVID 19" não queremos contagiar ninguém. Haverá melhor meio de entreajuda?
Outro estranho procedimento foi o de não realizarem testes, nas urgências e enfermarias hospitalares, a doentes com dificuldades respiratórias, ou pneumonias, a menos que tivessem permanecido em países "de risco" ou convivido diretamente com quem de lá chegara. Assim mandavam as regras sancionadas superiormente, o "protocolo" aplicável, cujo conteúdo, entretanto, já mudou, para abranger qualquer paciente em tal situação.
Por outro lado, tem havido inércia e laxismo face à especulação e ao açambarcamento de bens! Em Espinho, como por todo o lado, desapareceram, há semanas, de farmácias, lojas e supermercados, o álcool e o gel desinfetante. E, igualmente, as máscaras de proteção, mesmo depois dos preços terem disparado - de cinco a seis euros, (por pacote de uma centena), para mais de cem euros! Foi ou vai ser, agora, finalmente, feita uma encomenda de mais de um milhão de máscaras para os hospitais públicos - sinal de que estavam em falta...
Um outro negócio rentável, e, provavelmente, também especulativo, é o dos testes de deteção do virus em laboratórios privados, cujo custo, para quem os possa e queira pagar, varia entre os 100 os 200 euros. - salvo na cidade do Porto, como referiremos.
2 - Estamos a falar de ações e omissões, não de negacionistas patéticos, como Trump e Bolsonaro, mas de políticos respeitáveis, mulheres e homens de bem, que estão a dar o seu melhor, só sendo de pôr em dúvida se o seu melhor é suficiente. Veja-se o inacreditável ziguezaguear do Presidente Macron, que, num domingo, convocou os franceses a deixarem as suas casas para para votarem num ato eleitoral desnecessário, por ser de fácil adiamento, e, no dia seguinte, decretou quarentena obrigatória, com milhares de polícias a patrulhar as ruas desertas, no país inteiro...
Na Europa, prevejo que vá sobressair, como é costume, Angela Merkl, mulher de armas para combates ciclópicos. Não é do meu quadrante ideológico, mas o que importa isso? A questão não é ideológica, estamos unidos contra o mesmo inimigo.
Entre nós, inesperadamente, são autoridades regionais, as que mais se salientam pela inteligência estratégica e pela coragem. de atuar prontamente. Refiro-me a Rui Moreira, o autarca do Porto, e aos líderes dos Governos das Regiões Autónomas. Rui Moreira foi o primeiro a tomar consciência da crucial importância quer do encerramento de serviços não essenciais e do convite ao resguardo de contactos no espaço público, quer do rastreio massivo, contratando com uma empresa privada, na falta de iniciativa e oferta pública, a efetivação de testes para deteção do virus, que poderão atingir os 400, diariamente. Acabo de ouvir o responsável pela OMS recomendar precisamente isso: "testing, testing, testing". Na mesma linha está Cuomo, o Governador de Nova York, cuja proposta é: "massive testing, massive quarentine". Por cá, Rui Moreira está sozinho , em boa companhia internacional.
Os executivos da Madeira e o dos Açores antes mesmo de terem deparado com o primeiro teste positivo, e apesar da evidente relutância do poder central, decretaram, e puseram em pratica, a quarentena de 14 dias para quem quer que chegue, de fora, aos seus aeroportos. E mais longe teriam ido, encerrando, logo, o espaço aéreo regional ao tráfego regular de passageiros, se isso fosse da sua competência.
No continente, destaquemos, nesta histórica quinzena de março, sobretudo, a sociedade civil, que soube impor-se, nos mais diversos domínios. Pensemos, por exemplo, nos pais dos alunos a lutarem pelo encerramento das escolas, nos jogadores de futebol profissional a exigirem a suspensão dos campeonatos, na opinião pública a forçar a vigilância da fronteira terrestre com a Espanha. E, aqui, em Espinho, no voluntário encerramento de um grande número de restaurantes, cafés e lojas, no generalizado respeito pelo distanciamento aconselhável dos clientes do pequeno comércio alimentar, na quase desertificação espontânea das ruas da cidade, e nos gestos de solidariedade, como os da Paróquia, que já tem disponível um grupo de voluntários para ajudar os que estão retidos em casa, pela idade ou por pertencerem a um grupo de risco.
Em suma, e lembrando, igualmente, os profissionais de saúde e todos os que permanecem nos seus postos, servindo o público, poderemos, dizer que, no nosso País, a nota máxima vai para estas múltiplas expressões de espírito cívico, de cidadania!.
Espinho, 16 de março de 2020.
CAMINHOS DA POESIA LUSO-GALAICO
CAMINHOS DA POESIA LUSO GALAICA QUE PASSAM POR ESPINHO
1 - A Galiza celebrou, no passado sábado, 25 de julho, o Dia da Pátria Galega. Entre nós, o acontecimento passou, sem o merecido destaque. E, no entanto, na sua origem simbólica, aquela celebração tem muito a ver conosco, porque o seu o foco é posto na matriz cultural identitária e não em feitos bélicos, conquistas, glorificação de heróis guerreiros, como acontece por esse mundo fora. Com outra exceção, a portuguesa! No dia nacional, tembém nós, evocamos o Poeta maior e convocamos para a festa, a Diáspora, ou, seja, todo o espaço em que se ouve a língua, O da Dia da Galiza é o do seu santo patroeiro, o Apóstolo Santiago, unindo crentes e não.crentes numa ideia de espiritualidade, de afirmação da cultura ancestral, a que se associam, o nome de Rosalía, a grande Poeta que cantou a sua terra..
A comemoração começou há apenas um século, em 1920, como projeto das "Irmandades da Fala", instituições criadas para a defesa do património histórico e imaterial mais precioso, a língua-mãe. Durante o franquismo, o "Dia da Pátria Galega" esteve proibido e a comemoração manteve-se somente onde não chegava a autoridade repressiva da Ditadura, na Diáspora Galega, que tem vida própria, estruturas e dimensão comparável à nossa (embora mais concentrada em países do sul da América). A proibição ficou de pé, alguns anos após a democratização, sendo, depois, convolada numa permissividade ambígua, na envolvente política em que se afrontam o centralismo castelhano e o nacionalismo ou autonomismo galego. A partir da década de oitenta, o Governo Autonómico fez sua a comemoação, integrando-a no calendário oficial, embora, conforme o quadrante político, esta ora seja assumida no seu significado mais amplo, ora reconduzida à vertente religiosa, sem que falte, o ritual de uma missa por Rosalia.
Pena é que, em 2020, ano do centenário da própria instituição do Dia da Galiza, os festejos tenham sido tão parcos - por causa da pandemia, mas. igualmente da subsistência de querelas partidárias e ideológicas. Em qualquer caso, enquanto o Rei Filipe VI de Espanha, (ou das Espanhas...), e o Poder Autonómico participavam em ofícios religiosos na Catedral de Santiago, muitos foram os cidadãos que, nas ruas, apesar da COVID, se manifestaram.
2 - Na relação da Galiza com Portugal, temos de saber contornar os escolhos desta realidade, sobrepondo ao imediatismo da conflitualidade política do presente (a vivência da autonomia lá, o regionalismo adiado, cá), aquilo que é perene e vem de tempos imemoriais, a língua originária, o galaico.português, e as afinidades antigas que hibernam em nós.
Já algumas vezes publicamente contei como fui, eu própria, individualmente cimentando, o meu sentir, a minha consciência de uma identidade luso-galaica. Era menina, mas já queria conhecer mundo, ver o estrangeiro e, um dia, no início da década de cinquenta, finalmente, os pais fizeram-me a vontade, levaram-me com eles até Vigo, pela fronteira de Tuy. Gostei do passeio, do que vi, mas voltei desapontada. Tudo me pareceu "pouco estrangeiro" - as casas de pedra, a convivência das pessoas nas esplanada e cafés, os rostos das pessoas e até o falar, que entendia sem dificuldade de maior..Alguns anos mais tarde, já depois muitas idas a Vigo e de conhecer cidades como Paris, Londres ou Ceuta, passei férias no Alentejo e no Algarve, férias magníficas, cheias de sol e de surpresas... a cor ocre das fragas, paisagens áridas e amplas, a placidez dos camponeses, e o seu sotaque, as casas caiadas, com barras coloridas azuis e amarelas, a geometria do casario branco, de pátios e açoteias... Em suma: terras exóticas, onde chegava sem cruzar fronteiras guardadas pela polícia! E, assim, com um simples olhar em volta, compreendi que o meu país, tal qual a Espanha (e não ao contrário da Espanha, como pretende o nosso ortodoxo centralismo) é multicultural, com tradições comunitárias e regionais as mais diversas. E logo vi nesta diversidade uma riqueza, e um fator de coesão e não de deslace, no contexto português de unidade política milenar.da Nação organizade em Estado.
.
. 3 - Por outro lado, reconhecendo que mil anos de separação política não conseguiram desfazer as sintonias naturais do Norte português com a Galiza, ou do Algarve com a Andaluzia, faço da valorização deste fenómeno uma causa minha.. Deixemos ao Estado o que é de César, as suas fronteiras terrestres e as sua leis, e sigamos o sentir dos Povos! O domínio em que queremos mover-nos é o da Cultura, máximo denominador comum, não o da políticaque divide..
Nas zonas fronteiriças, sabemos que é denso e frutífero o interrelacionamento dos dois lados do rio Minho, quer da parte dos autarcas, quer das sociedades locais, pessoas e instituições. Contudo, quando nos afastamos da raia, a presença da Galiza parece esvair-se na distância....Surge, por isso, como paradigmática e rara a iniciativa nascida em Espinho, pela mão de uma Espinhense: Ester de Sousa e Sá, escritora, poeta e artista plástica, que vem trazendo a Galiza, a sua veia literária até nós, em simultâneo, pondo a nossa cidade no mapa da Cultura galega. Ao longo dos últimos três anos, o movimento, ao qual ela deu o impulso pioneiro, não parou de crescer - movimento de Poetas das duas línguas em que se prolonga a antiquíssima fala comum. A divulgação da sua obra poética processa-se, assim, a um ritmo anual: a primeira Coletânea de Poesia Luso Galaica, teve o seu lançamento em Espinho, na Biblioteca José Marmelo e Silva, a 13 de Outubro de 2018, a segunda (Coletânea de Poesia Galaico-Lusa - Poetas do Reencontro), em Chantada, a 26 de Outubro de 2019, a terceira (Coletânea Luso Galaica - Caminhos da Poesia) está agendada para Espinho, já a 5 de estembro deste ano. A organização das recolhas de inéditos, sua edição e lançamento cabem alternadamente, a Portugal e à Galiza. E como cada Coletânea tem apresentação, cá e lá, as "Bienais de Poesia" ocorridas, alternadamente, na Galiza e em Espinho, dão lugar a uma multiplicidade de confraternizações de poetas, de músicos, e cultores de outras artes, que vão ganhando contornos de institucionalização. Os Poetas assumem-se, deste forma, lucida e eficientemente, como mediadores na aproximação das suas comunidades, num universo cultural em expansão. Juntos caminham, tendo por lema, e cito, "a Poesia dunha matria sen fronteiras"..
NÓS O POVO
NÓS O POVO
1 - "We the people" são as primeiras palavras da Constituição Americana. E, também aquelas que o candidato nas eleições presidenciais, Joe Biden, escolheu como lema de candidatura. interessante e significativa escolha... A mensagem que transmite é clara: a América precisa de voltar a ser um Estado de Direito, uma sociedade unida por valores humanistas, respeitando princípios que foram inscritos na Constituição pelos "Pais Fundadores". É tempo de viver nas leis e nas práticas do quotidiano, esses valores, esses princípios. Com Trump, isso é uma impossibilidade. No seu mandato insano de mentiras, escândalos, perseguições e incitamento ao ódio racial, os seus mais diretos colaboradores tendem a dividir-se em duas categorias - os que estão a contas com a justiça, presos ou em vias de o ser, (o último dos quais, até à data, é Steve Bannon, ideólogo da sua campanha de ódio) e os que, uns atrás de outros, se demitiram ou foram demitidos, formando já uma longa lista.
Na Casa Branca está um aspirante a tirano, que não governa e se considera acima da lei (e até agora, tem conseguido estar). Brinca no Twitter, como um adolescente, usa o tempo restante, para negócios inconfessáveis ou, como um velho reformado, para gozar o prazer dos seus campos de golfe, caminhando por sobre ruínas de cidades destruídas por motins e sepulturas de dezenas de milhares de mortos da pandemia, cuja dimensão desvalorizou, até ser tarde demais.
Só o Povo o pode retirar da Casa Branca e restituir a América á normalidade democrática. Vai ser difícil. Ele move-se bem num sistema anquilosado, e tentará, como aconteceu da primeira vez, (agora, porventura, já sem a ativa ajuda dos serviços secretos) viciar o jogo a seu favor. Tudo está em aberto - é cedo para anunciar a vitória de Joe Biden, apesar da vantagem que leva nas sondagens... Sabemos, pela história recente que não basta vencer por mais de três milhões de votos, como aconteceu na eleição anterior, que Hillary Clinton, sob ataque de poderes internos ("maxime", o diretor do FBI) e externos (com a Rússia de Putin, à cabeça) perdeu, ganhando, por larga margem no voto popular... Trump não foi o eleito do Povo, nesta América, que nos parece um lugar estranho... Mas nem por isso o que lá se passa não diz respeito ao resto da Humanidade, porque, apesar dos sinais de decadência, estamos a falar da maior potência do mundo, Desde o fim da guerra de 1939/45 a "pax americana",protegeu os aliados democratas, vencedores do nazismo, através das fórmulas diversas, que cada presidência imprimiu à busca de um equilíbrio entre interesses próprios, alianças antigas e solidariedade internacional, até que Trump se voltou para um diálogo de ditadores, em política externa, e pela sementeira de ódios, no plano interno. É, pois, também, o nosso futuro que está em cheque, neste voto americano, tão decisivo quanto incerto .
2 - Todos os extremismos são maus, Como diz o ditado, "os extremos tocam-se" . Assim pensei desde os bancos do Colégio do Sardão, do Liceu Rainha Santa e da Universidade de Coimbra, Não sei se o meu "reformismo", constante, desde tão jovem, é coisa boa ou não... A veemência com que debatia ideias pareceu, às vezes, revolucionária, e disso até fui acusada, por quem confundia o tom do discurso com o pensamento. Na verdade, já na adolescência, era, social-democrata "à sueca", feminista, em moldes nórdicos, e até, fundamentalmente pacifista, embora não muito pacífica por temperamento (aguerrida na forma, moderada no conteúdo...). Talvez por tido, desde cedo, a noção de que a luta pelo sufrágio de mulheres e negros foi contemporânea, sempre considerei que racismo e sexismo se combatem pelas mesmas razões, da mesma maneira. E considero o recrudescimento dos movimentos de extrema-direita na América de Trump, e até na Europa, uma ameaça real nos tempos que atravessamos, pondo em causa avanços civilizacionais, que considerávamos adquiridos... Nada de novo, afinal, sabido que, através dos tempos, o processo histórico foi feito de avanços e retrocessos, e que as discriminações em razão da nacionalidade, do sexo, da raça, da religião, da idade (e de tantos outros fatores) não foram, em sociedade alguma, à face da terra, completamente erradicados, A meu ver, escondê-lo equivale a desistir de eliminar preconceitos enraizados. Em Portugal, negar o sexismo, é coisa patentemente irrealista, E o mesmo se diga do racismo, que não tendo, entre nós, tradição, força e violência comparáveis, àquelas de que sofre a América, nem por isso devemos menorizar, desculpando o incitamento à violência racial por parte de movimentos, que, embora incipientes, já têm mortos no seu cadastro. Não é equivalente negociar acordos políticos com uma esquerda "constitucional" e com uma extrema-direita visceralmente racista. No dia em que o meu partido pagasse, para chegar ao poder, o preço político de um acordo com gente desta (os nossos prosélitos de Trump ou de Bannon), deixava. logo, de ser o meu partido. .
3 - Na original Convenção dos Democratas americanos, dois temas dominaram a agenda: COVID e racismo. Para a pandemia, procura-se vacina, que ainda não há, mas que Trump, aldrabando como um "vendedor de banha da cobra, à moda da América, promete, assertivamente, já para o corrente ano. Porém, como disse a candidata a Vice-Presidente Kamala Harris, "não há vacina contra o racismo!", que subsistirá muito depois de eliminado o mortífero vírus...
A "America first" de Donald Trump é, tragicamente, a "América primeiro" em mortes causadas pela pandemia, em caos sanitário provocado pela sua incompetência e desorientação, Falta tudo, no país mais rico e tecnologicamente mais avançado do planeta!... Não será mera coincidência o facto dos dois países mais afetados pela propagação do vírus serem, por esta ordem, os EUA e o Brasil, ambos dirigidos por fanáticos de extrema-direita, que renegam os saberes da ciência, da experiência clínica e do senso comum, opondo-se às medidas de prevenção reconhecidamente eficazes na redução do contágio - o despiste de casos por testes sistemáticos, o distanciamento social e o uso generalizado de máscara no espaço público, incluindo ao ar livre (insólito é, a meu ver, que alguns Estados só a imponham quando aumenta exponencialmente o número de infectados, sem sequer lançarem uma campanha intensa a favor da constante utilização da barreira individual ao contágio, que é a máscara! O slogan "Fique em casa", já desatualizado, há muito devia ter sido substituído por "Fique de máscara" - que não perderá atualidade, enquanto a COVID durar.
Neste aspeto, foi admirável a Convenção virtual, que entronizou Biden! Ele não hesitou em arriscar a perda de impacto eleitoral e de mobilização e de votos, para dar à América e ao mundo uma lição de civismo, de respeito pela vida e saúde dos cidadãos. Uma convenção com total ausência de público é como o 10 de junho de Marcelo, ou como o futebol à porta fechada....desprovida da energia, do entusiasmo e do calor humano, a que estamos habituados. A Convenção, com cada orador a falar sozinho foi morna e monótona e nem grandes oradores, como Hillary e Bill Clinton, ou Barack Obama conseguiram brilhar, por muito pertinentes que fossem os seus corajosos discursos. A excepção foi, para além da centelha da carismática Michelle Obama e da suave Kamala Harris, justamente, uma mesa redonda, de poucos minutos mas diálogo vivo, entre os ex- candidatos à corrida democrata... Por fim, sozinhos no palco, com muito mais bandeiras do que personagens, Joe e Kamala, e os seus cônjuges, todos de máscara e respeitando distâncias. "O poder do exemplo, não o exemplo de poder", nas palavras de Biden.
Uma grande lição! Bem pode aprender com ela o nosso Governo, que, tão demagogicamente, insiste em estabelecer, para situações de igual perigo de contágio, regras variáveis, conforme os fins a que se destinam os ajuntamento, privilegiando os políticos - em comícios, desfiles e, até, em festivais de música... E o mesmo se digna de todos os partidos e políticos que usam e abusam do privilégio.
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