Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quinta-feira, 2 de julho de 2026
UMA IDEIA PARA ESPINHO
Uma ideia para Espinho
1 – A recente entrevista do Presidente Jorge Ratola à “Defesa de Espinho” fala-nos das agruras e dos compromissos de governar a autarquia, traçando o retrato de uma cidade que, na transição de século XX para o século XXI, apostou em significativo número de equipamentos de vulto, os quais estão hoje, não só subutilizados, mas em estado de degradação acelerada. Nas palavras claras e contundentes do atual Presidente não oferecem “condições mínimas de dignidade” todos aqueles que lista: “o edifício da Câmara, Piscina Municipal, Balneário Marinho, Solário Atlântico, Multimeios, Nave Desportiva, FACE e parque de campismo”. Uma situação de estarrecer, a que poderemos acrescentar, por exemplo, o deplorável estado de conservação dos passeios e das ruas, e, embora sem diretas responsabilidades da Autarquia, a estação do caminho de ferro, com aquele longo túnel escuro, feio e sujo.
É óbvio que Espinho não chegou a este estado da noite para o dia, mas devido à inação acumulada em vários mandatos autárquicos (doze anos de PSD, quatro de PS, estes tumultuados por uma crise, que levou à barra dos tribunais políticos e funcionários camarários e precipitou o afastamento do Presidente e do Vice-Presidente, com a ascensão à chefia de uma mulher corajosa, cujo partido a veio a “descartar”, talvez por
ser mulher).
Sobre os equipamentos que frequento com alguma regularidade, (o Multimeios, o FACE, a piscina Solário Atlântico), faço minhas as palavras do nosso Presidente da Câmara e saúdo a sua pragmática decisão de “começar pelo princípio”, cuidando dessas estruturas.
O espetáculo dado pelo exterior do FACE é, talvez, o caso mais extremo, a desfigurar um edifício belíssimo, infelizmente, ainda pouco visitado, quer por espinhenses, quer por turistas. O que se deve a razões muito diversas, algumas das quais são fáceis de resolver. De facto, quem passa à beira-mar, nas traseiras do edifício, não adivinha que se trata de um Fórum de Artes e Cultura, com o seu Museu, as suas Galerias de Arte, o seu Auditório, etc. etc. E circula muito mais gente nessa parte, virada ao mar, do que na parte da frente, numa rua estreita que praticamente só serve o trânsito automóvel. Para atrair visitantes, conviria sinalizar o Fórum, por exemplo, através de um simples cartaz ou de umas bandeiras a flutuar ao vento. Ajudaria, também, a crescer o seu público, a abertura de uma cafeteria, como a que existe na Biblioteca e, em regra, nos museus de qualquer país do mundo. Sugeri essas medidas ao Executivo, em 2009/ 2010, quando era vereadora da Cultura. Recordo-me de que, nessa altura, já chovia no FACE, aqui e ali, nomeadamente nas Galerias...
A exceção a este triste panorama geral parece ser a Biblioteca, frequentada, por gente de todas as idades na sua programação cultural, com aquele significativo espaço dedicado a José Marmelo e Silva e ao seu valioso espólio, com o tranquilo jardim das oliveiras, entre as duas salas de leitura, e com a pequena
cafetaria, onde se almoça saudavelmente e os doces são deliciosos.
2 – Nestes últimos tempos, em Espinho, na verdade, nem tudo, mas várias coisas correram mal… » cabeça, o enterramento da linha férrea, desejado por quase todos (não por mim, membro de uma escassa minoria), foi uma oportunidade perdida, porque incumpriu o objetivo de libertar espaço urbano, eliminar uma barreira física e devolver continuidade à malha da cidade: o túnel deixou de fora extensas zonas a norte e a sul... E o que libertou é apenas uma vulgar avenida, não uma nova “Avenida 8”, cheia de encanto e movimento. Não gerou a revolução económica e turística que muitos imaginavam. A cidade ganhou espaço, mas o espaço não recuperou centralidade.
Afinal, o maior problema da terra não era ferroviário, mas identitário. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, Espinho era uma das mais famosas estâncias balneares portuguesas, pela rara combinação de praia, caminho-de-ferro, (que aproximava o interior de Portugal e Espanha), casinos, e todas as demais trações da moda: cinemas, teatros, festivais, esplanadas, cafés, dinâmico comércio, recintos desportivos, piscinas, golfe…. Era a "rainha da Costa Verde" respondia às exigências do paradigma da “Côte d’ Azur”!
Entretanto, foi evoluindo o conceito de turismo balnear, surgiram centenas de praias, sobretudo a sul, e o Algarve de águas mais quentes e sol abrasador tornou-se destino dominante para todas as classes sociais. Espinho tratou de se dotar de novas atrações, de equipamentos grandiosos. Infelizmente, não se
encontram em muito bom estado, como revela o Presidente. Acredito na sua vontade e capacidade de os recuperar. Porém, depois, o pleno aproveitamento das diversas estruturas vai depender, não só, mas também, de novos projetos para Espinho. Ainda não sabemos quais e não é questão que quero abordar neste texto. Deixo apenas uma ideia que me parece viável, tendo olhado em volta, para outra “cidade-casino” à beira-mar – a Póvoa, nossa eterna rival!
3 - O casino desempenhou na “Belle époque” de ambas as distintas urbes um papel fundamental. Agora, no novo século, como avaliar esse papel, no que respeita à sua inserção no tecido social e cultural de cada uma das cidades?
O Casino de Espinho é um mundo em si, voltado para o turismo e o entretenimento. Está aqui, como podia estar em Miami. Fornece concertos, revistas, espetáculos internacionais e jantares-espetáculo em salas magníficas, mas encerrou, há muito, um último espaço de convívio quotidiano para gente menos endinheirada: a esplêndida sala de cinema, uma das mais bonitas, se não a melhor, de todo o Portugal. O Casino da Póvoa seguiu via oposta: conservou o seu belo e antigo edifício, verdadeiro “ex-libris”, e, embora também organize espetáculos de variedades, singularizou-se, pelo envolvimento profundo na criação cultural e literária da cidade, como espaço cultural poveiro e polo cultural regional, com uma agenda artística contínua no Teatro, incluindo peças e concertos de música popular. A Póvoa conseguiu, com essa opção do Casino, tornar-se uma marca cultural de alto prestígio, através das “Correntes d'Escrita” e do
prémio literário, que é um dos mais importantes do país.
Passando dos Casinos ao poder local, a análise permitirá conclusões análogas. Espinho (terra onde a sociedade civil, através da programação do Auditório de Música, Cinanima, FEST, dá esplêndidos contributos), procurou a afirmação em edificações importantes, em festivais, de âmbito local, em eventos dispersos. A Póvoa, para além de financiar esse tipo de programação, associou-se a uma iniciativa identitária e continuada, criando uma marca intelectual reconhecida, a nível nacional e até internacional.
A Póvoa tem as “Correntes”, o Porto a sua “Babel”, projetos com os quais rompem a medianiae se afirmam para o exterior por uma imagem de qualidade. O que não resolve os problemas todos, mas cria oportunidades, desenvolve a autoconfiança e o espírito que ajudam à resolução. E Espinho?
A meu ver, a cidade precisa de iniciativas que a relacem para além das suas fronteiras e combatam o subaproveitamento de vasto património (mais ainda depois de recuperado), dando-lhes um caráter de atividade constante, não meramente pontual e, se possível, pondo o foco na história que queremos continuar e que bem merece ser conhecida por portugueses e estrangeiros.
Para mim, o projeto ideal seria a criação de um museu imersivo, a partir dos nossos preciosos arquivos fotográficos, acordando a memória da improvável caminhada da pequena urbe piscatória primordial para a estância balnear cosmopolita dos anos vinte, com os seus casinos, tertúlias, festivais e a sua mítica e movimentada Avenida, até à cidade atual e sua perspetivas de futuro.
Façamos algo, que “ainda ninguém fez”, nem da mesma forma poderá fazer, porque é única e inconfundível a matéria prima de que se tece: o nosso próprio passado.
Um museu vanguardista e singular, não necessariamente muito grande, comportável no orçamento municipal (custando, numa dimensão inicial, apenas cifrões equivalentes a quatro ou cinco concertos com chamativos nomes da música popular). Não é uma utopia. Pensei em exemplos concretos, no “Perlan”, da Islândia - país onde há muitos outros centros interpretativos deste tipo, que são enorme atração turística, e onde alguns, por sinal, nasceram em infraestruturas já existentes.
A Islândia não tentou competir com Paris ou Berlim, através de museus universais, antes exibe o que a torna única - os seus fenómenos naturais, que transforma numa experiência maravilhosa para os visitantes, de qualquer idade ou formação. Precisamente como Espinho não precisa de competir com a Póvoa, com o Porto, ou com qualquer outra cidade. A ideia é converter a sua própria história numa narrativa contemporânea, que transporte o pioneirismo do passado para o futuro, como um verdadeiro traço identitário.
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