sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O admirável mundo novo da Internet - ler uma reportagem, 8 anos depois...


MANUELA AGUIAR:

NO CÍRCULO DA EMIGRAÇÃO

Reportagem de
Vitália Rodrigues

Manuela Aguiar, deputada pelo círculo da Emigração e Carlos Oliveira, cônsul-geral de Portugal em Montreal

Círculo de livros ao centro da mesa. Livros que Manuela Aguiar ofereceu aos presentes.



Francisco Salvador, Conselheiro das Comunidades Portuguesas no Canadá, ladeado por Manuela Aguiar e Corinne Descombes

Manuela Aguiar autografa o seu último livro


Dr. Carlos Oliveira em amena cavaqueira com o docente do Instituto Camões, dr. Luís Aguilar


Mário Conde e Corine Descombes ladeiam o representante de Portugal em Montreal, dr.Carlos Oliveira, retribuindo-lhe a visita que o diplomata fez aos Estudos Portugueses da Universidade de Montreal
Vitália Rodrigues e Manuela Aguiar
Luís Aguilar com alguns dos Representantes da Comunicação Social de Montreal presentes: Luís Tavares Belo, Conseição Rosário e Sylvio Martins

É difícil, numa figura humana, política, social, artística, económica e, até literária, como é vista Manuela Aguiar por aqueles que tiveram o privilégio de com ela contactar, acreditar na sua partida da vida política activa. Um retiro, local para onde os descendentes de Viriato, muitas vezes querem remeter figuras incómodas, que configuram uma postura independente, não-alinhada e, sacrilégio maior, pensam pela sua própria cabeça, descarrilando vezes de mais, das correias de transmissão do partido a que pertencem.
É quase consensual ter sido Manuela Aguiar a conseguir a mais significativa actuação, quer como Secretária de Estado da Emigração, quer como deputada pelo círculo da emigração, nas várias localidades deste país da América do Norte, em particular e por todo o reino da Emigrolândia, em geral.

E ela cá esteve, de novo, desta feita, para lançar um livro que reúne documentos que testemunham a sua permanente batalha em prol das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo: No Círculo da Emigração. Na última quinta-feira, dia 6 de Janeiro de 2005, na sala multiusos do Consulado-Geral de Portugal em Montreal, no círculo restrito dos órgãos de informação deste círculo da emigração portuguesa que acaba de comemorar o seu cinquentenário. Incansável, com uma energia bastante superior à que demonstrou na anterior visita a Montreal, Manuela Aguiar foi questionada sobre a sua
anunciada retirada. Uma resposta simples e imediata: - Não, eu não me retiro de coisa nenhuma. Eu apenas saio do Parlamento, o que, afinal, é muito pouca coisa.
Manuela Aguiar decide, fazer perguntas que ninguém colocou, apesar do bombardeamento de questões a que foi submetida pelos jornalistas da diáspora:
- O que falta para que se consiga fazer uma Federação Internacional das Comunidades Portuguesas Espalhadas pelo Mundo? Se ninguém perguntou, naturalmente, ninguém se mobilizou para responder a este apelo à unidade, cooperação e solidariedade.
É uma iniciativa que muitas comunidades de polacos, italianos, romenos, gregos, etc., têm levado a cabo, estranhando-se que as associações portuguesas não sigam a ideia de criar uma Federação Internacional que tanta falta faria para articular iniciativas, desenvolver projectos de cooperação, etc. Mas é a trica política - lá como cá- que mobiliza os lusos para o debate. É que Manuela Aguiar, com as questões que coloca, politicamente incorrectas, insiste numa série de medidas ameaçadoras para alguns reumatismos que habitam a comunidade portuguesa de Montreal em particular e as comunidades portuguesas, na sua generalidade.
Manuela Aguiar demonstra uma certa incompreensão, ou mesmo desespero, pelo abandono de mulheres de todos os partidos que muito ajudaram à construção de uma estranha forma de fazer política e intervir socialmente. Sente-se, por ventura, incompreendida quando olha para cada um dos presentes e percebe o desfile de olhares que se escondem por detrás de cada cumplicidade com aqueles que julgam que a diferença que marcou (e esperamos que continue ainda a marcar) um outro modo de ver as coisas, foi derrotado pela cartilha de compressão de obediências, que o politicamente correcto quis e quer impor. Com efeito, Manuela Aguiar tem um pensamento límpido, obsessivo e grávido de coerência que compagina dificilmente com o alinhamento que se espera de um político, geralmente, o oposto disso mesmo.
Respira-se outro ambiente na sala multiusos do Consulado-Geral de Portugal, ambiente a que não será alheia a postura discreta, mas empenhada, disponível, experiente e humorada do novo cônsul-geral de Portugal, cuja curiosidade pelas pequenas e grandes coisas também não cessa de espantar quem a tal não está habituado na diplomacia portuguesa. Faz-nos falta, a dinâmica presença da Maria Luísa Fernandes que, temos a certeza de que, num contexto destes, se sentiria como peixe na água.
Admiramos a extrema paciência que detém, a nossa deputada e Secretária de Estado, como muita gente de todos os quadrantes políticos gosta de chamar-lhe aqui em Montreal, para, com a pinderiquice lamecha de alguns representantes de um Portugal queixinhas, trajado de pobreza franciscana, que se esgueiram da varanda da hipocrisia, sempre a verter lágrimas de crocodilo, penduradas da algibeira oportunista.
Manuela Aguiar, entende Portugal como uma nação de comunidades e, quanto a nós, entende aquilo que, afinal, de Portugal, se espera, porque, foi esse sempre o grandioso, misterioso e glorioso significado que tem e que sempre teve como Nação do V Império visionário de Pessoa ou religioso do Padre António Vieira ou mesmo profético do sapateiro Bandarra. Isso mesmo leva um número crescente de estudantes universitários, luso-descendentes ou estrangeiros a estudar a língua de Camões e a cultura lusitana.
Foi nesse sentido que dois estudantes do programa de Mineur en langue portugaise et cultures lusophones da Universidade de Montreal, acompanharam o docente de língua portuguesa, Luís Aguilar, a este encontro: o Mário Conde, de origem galega e a Corinne Descombes uma gaulesa da Haute-Savoie que ficaram fascinados, tanto com a deputada Manuela Aguiar como com o dr. Carlos Oliveira. Foram acolhidos com simpatia os estudantes de Português, pelos dois políticos, num encontro que ficou pautado pela espontaneidade, por uma dinâmica de troca, de curiosidade e até por um certo carinho por serem eles aprendentes da nossa cultura e magna língua.
Nenhum dos dois representantes de Portugal correspondeu à imagem que eles têm dos políticos e diplomatas, pois a deputada manteve um discurso frontal e desprovido de superioridade e snobismo e o cônsul-geral, constantemente à procura da novidade e a não faltar a uma possibilidade de dois dedos de conversa que lhe apeteça.
O livro de Manuela Aguiar, cujo lançamento serviu de pretexto para este Encontro informal, mais parecido com uma tertúlia do que uma conferência de imprensa como foi alcunhado, apresenta documentos escritos na primeira ou na terceira pessoas, a actividade parlamentar da deputada e os percursos percorridos nos tempos de exercício de funções e de avidez de comunicação. Nele podemos encontrar o que escrevíamos na edição do jornal LusoPresse do dia 1 de Janeiro de 2000, a propoósito do lançamento do seu livro anterior, Manuela Aguiar. Migrações sem Fim ( Manuela Aguiar, cita-nos na página 168 deste seu novo livro):
]...[ Os temas abordados durante cerca de duas horas foram variados, mas com vincada insistência sobre o problema da nacionalidade. Manuela Aguiar voltou a esclarecer a importância da lei de

No Círculo da Emigração
1981, que veio acabar definitivamente com a lei salazarista e fascista de 1959, a qual retirava automaticamente a nacionalidade portuguesa a qualquer indivíduo que optasse por outra. Com esta nova lei, velha de 18 anos, é possível através de um processo burocrático, infelizmente moroso, reaver a nacionalidade portuguesa e manter a dupla nacionalidade. Lei libertadora, mas não menos discriminatória para todos os portugueses que se naturalizaram Canadianos entre 1959-1981. Antes de partir a deputada prometeu fazer tudo o que estivesse ao seu alcance a fim de facilitar e diminuir este processo burocrático. Esperemos que consiga obter a aprovação de um decreto, de uma alínea, de algo que permita restabelecer de uma forma simples e rápida a nacionalidade portuguesa. Boa sorte.
Hoje, aqui estamos a anunciar e a render homenagem a quem soube levar a bom porto, uma batalha de Bom Senso e Bom Gosto, mas nem por isso fácil. Cinco anos depois.
Aplica-se a Manuela Aguiar o que o povo muitas vezes diz: Água mole em pedra dura tanto dá até que fura. Furou! As pedras duras que são a burocracia lusa e a ociosa e sonolenta actividade parlamentar portuguesa.
E à Manuela Aguiar dizemos, como habitualmente, até à próxima e Boa Sorte com o seu No Círculo da Emigração, e com o novo Círculo da Emigração por e para onde não concorre desta vez, mas que, nem por isso, estamos certa, deixará de marcar o caminho desta emigrolândia, onde muito se ressona, pouco se inova, muito se grita, quase nunca se reconhece e, permanentemente se insiste em agir de costas voltados uns para os outros. Uns porque são do Benfica e outros do Sporting, uns porque são de São Miguel e outros da Terceira, uns porque são da Voz de Portugal e outros do LusoPresse, uns porque são da Escola Portuguesa do Atlântico e outros porque são da Escola de Santa Cruz, etc. Enquanto, paralelamente, todos se queixam da falta de meios e de recursos humanos. Não parece.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Colóquio em Recife

para mim
Estamos a partilhar momentos históricos neste admirável salão nobre do Gabinete Português de Leitura de Recife, porque falar de "expressões femininas da cidadania" numa grande e tradicional instituição das comunidades portuguesas do Brasil é coisa absolutamente inédita. Estamos, certamente, a abrir um caminho longo, a que não vão faltar os caminhantes. E é excelente que o possamos fazer em conjunto, em reunião de representantes do Estado e da sociedade civil, brasileiros e portugueses, mulheres e homens de várias idades, todos olhando a realidade das migrações, das mulheres na sociedade de hoje, com uma mesma vontade de reinventar as formas de lhes assegurar, concreta e individualmente, o seu " direito de cidade".
O Brasil é um dos países do mundo onde, nas últimas duas décadas, as cidadãs, mais rapidamente e com mais naturalidade, ascenderam a altos cargos políticos, mas nem por isso podemos dizer que, aqui, como no resto do planeta, a questão de género está resolvida. Na verdade, não está.
Mas que o Brasil se tornou um paradigma de abertura da política às mulheres, também é verdade!
E, por isso, se torna particularmente anacrónica a falta de participação feminina nas diretorias das mais prestigiadas organizações da comunidade portuguesa, como salienta. na sua mensagem, o deputado Carlos Páscoa..
 Sabemos bem que o movimento associativo dos portugueses no Brasil é, no universo da emigração nacional, não só o primeiro, mas também o mais grandioso. Como tantas vezes disse, por todo o lado onde deveres de ofício me levaram, reconheço o mérito de tantos emigrantes portugueses, que se destacaram pela sua obra individual, mas maior é ainda, embora seja bem menos referenciada e reconhecida, a sua obra coletiva - exemplificada nas instituições luso brasileiras, Gabinetes de Leitura, Beneficências , Hospitais, Clubes. Uma obra monumental!
No novo século, marcado por um recomeço das correntes migratórias para o Brasil, queremos vê-lo sobreviver, numa ponte de afetos entre as certezas do passado  e as transformações que o futuro exigirá. O que não será possível sem o envolvimento das mulheres e dos jovens.  Por isso,  o Secretário de Estado Dr José Cesário nos vem lembrar, nas palavras de saudação que nos enviou, o papel das mulheres, qualificando-o como "absolutamente decisivo".
Serão várias as razões que explicam um quadro geral de exclusão feminina na cúpula do nosso associativismo no Brasil, a que quase só escapam a organização Elista e algumas Câmaras de Comércio, talvez porque sejam luso-brasileiras. Ao que parece, uma ativa componente brasileira vai sempre num sentido mais inclusivo e igualitário, à imagem da própria estrutura política do país.
Uma das razões para explicar um tal panorama associativo será o caracter masculino da emigração portuguesa, até  meados do século XX,  precisamente quando cessa o êxodo para o Brasil - muito embora a proporção de mulheres viesse a crescer significativamente desde o começo do século, contrariando as políticas limitativas com que os governos, até então, sempre haviam procurado proibi-las de sair (sabe-se porquê: a presença feminina transforma o projeto de emigração, facilita a integração familiar e dificulta o regresso à terra...)
Em meados de novecentos, quando termina o ciclo das partidas para o Brasil, principia o da Europa  - e não só. Porém, os outros destinos tiveram menor visibilidade, apesar da sua  importância, o Canadá, a Venezuela, a África do Sul, a Austrália ( de novo, a dispersão universal...) e, por isso, tornou-se é um lugar comum dizer que a  França se converteu no "novo Brasil".
Por todo o lado, o movimento associativo dessas comunidades emergentes, tal como o das antigas, fortíssimo e multifacetado na sua vocação - e necessidade -  de se substituir à ausência de ação do Estado português,  mantém a sua feição masculina...
Nesta fase mais marcadamente europeia, o inesperado iria aconteceu, sobretudo no que respeita à "metade feminina" (metade mesmo, matematicamente, ainda que , em regra, elas tenham seguido os maridos, à distância de algum tempo) . Os primeiros estudos sociológicos realizados em Paris sobre as portuguesas, em 70 e 80, revelam um quadro muito diverso do que se antevira - as emigrantes, vindas de meios rurais para grandes cidades, haviam conseguido adaptar-se melhor do alguém poderia imaginar, haviam sido o esteio da  integração familiar e alcaçado um novo estatuto dentro e fora de casa. O acesso a trabalho remunerado, regra geral no setor dos serviços, o melhor domínio da língua, e com ele, a capacidade de melhor interagir na sociedade de acolhimento, explicam o fenómeno. A verdade é que a emigração foi para toda uma geração de emigrantes portuguesas - mesmo para as mais pobres, as menos qualificadas profissionalmente - uma via de emancipação. Nesse ciclo migratório, quase todos ganharam, e as mulheres ganharam mais ainda. Eduardo Lourenço, ele próprio emigrante em França e um dos nossos mais prestigiados e queridos intelectuais, chama-lhes "uma geração de triunfadores". Podemos, com segurança, escrever a frase no feminino.
Na geração seguinte, é espantoso o número de luso-francesas envolvidas na política, para já sobretudo a nível municipal, e as ligações que mantêm com o nosso país. No Brasil, ao pensar em exemplos semelhantes, logo me ocorre o nome de Ruth Escobar, a portuguesa que, ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos, se candidatou e foi a 1ª Mulher eleita à AL do Estado de SP. No Rio de Janeiro, igual pioneirismo protagonizou, como Secretária do Governo do Estado, a médica Manuela Santos, que, mais tarde, seria a primeira representante eleita no Brasil ao Conselho das Comunidades Portuguesas
 Constatamos, assim, que, no Brasil como  em França, tem sido mais conseguida a ascensão das emigrantes na sociedade de acolhimento do que no mundo conservador e masculino do associativismo.
A AEMM, consciente desta evolução assimétrica, na generalidade dos países, tem concentrado os seus esforços na mobilização das mulheres para uma participação de vanguarda nas comunidade portuguesas, a fim de que se convertam em espaço de expressão da cidadania e se expandam com a inclusão de grupos marginalizados, invertendo a tendência para o seu declínio, que tantos profetizam e justamente  receiam.
Vemos o associativismo feminino, essencialmente, como um instrumento para viabilizar, a prazo, a participação paritária nas organizações das comunidades da diáspora.
E encorajamos as novas formas, criativas, que vem assumindo. Penso, sobretudo, em iniciativas que se projetam na internet , com o grupo das "Marias, corações de Portugal" ( a partir da Alemanha), ou nas tertúlias, que combinam a vertente lúdica com a beneficente ou cultural, caso das Universidades ou Academias Seniores, (que se multiplicam do Canadá à Argentina,, da Alemanha à África do Sul), ou das Academias da Espetada, em  grande crescimento nas comunidades madeirenses da Venezuela e África do Sul ( a "espetada é um prato típico madeirense).
 Julgo que nesta corrente inovadora se inclui, com toda a originalidade, e um jeito bem tropical,  a  "Folia das Deusas". justamente porque tão bem concilia o tempo de festa, e o tempo de ação solidária.
 A parceria que agora iniciamos com  a "Folia das Deusas" vai, certamente, continuar. Foi a
  
 Drª Berta Guedes Santana quem nos convidou a vir ao Recife. Depois do sucesso desta iniciativa, somos nós que a vamos convidar a ser  a nossa representante em Pernambuco, a participar nos nossos projetos - a criação de Academias Séniores de Artes e Saberes, a recolha de narrativas de vida,  as tertúlias literárias, as mostras  artísticas, as várias modalidades de "congressismo"  em que  denunciamos discriminações, a mobilizamos mulheres e homens para a vivência paritária da cidadania, no associativismo e na política. 
De tudo isto se falou neste dia inesquecível, com Mulheres Brasileiras e Portuguesas do Recife, que em diversos campos, (até no do associativismo tradicional, como o provam as dirigentes do Hospital Português que integram o painel de oradores) são admiráveis expressões da cidadania no feminino.
A todos os amigos aqui presente, o meu "bem-hajam"
Não vamos dizer adeus uns aos outros, mas sim "até logo".

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Com o Papa Francisco

Este é o Papa que vive, seguindo o exemplo de Jesus Cristo... que exerce a sua missão, com simplicidade e alegria. E muita coragem,  Não hesita em dizer o nome das coisas,  fala de capitalismo como a nova tirania...
Nós, Portugueses, não somos os únicos a sentir o peso deste capitalismo selvagem, desta tirania...mas que sentimos, sentimos!

Nova tirania económica gera violência

Quem proclamou esta verdade não foi o Dr Mário Soares, mas o Papa Francisco
Aguarda-se que aqueles estouvados rapazes do PSD e do CDS-PP. que rasgam as vestes da indignação perante os avisos do Dr Soares, se atrevam a criticar o Papa, que afinal vem dizer o mesmo, com meridiana clareza...

DE LOS ANGELES, EDMUNDO MACEDO


              O NOSSO BEETHOVEN FOI À SUÉCIA DAR RECITAL DE PIANO

 

Às tantas foi como se no centro do estádio houvesse um piano e Beethoven tocasse um excerto sublime.

 Às tantas foi como se pelo estádio sibilasse súbita ventania, tempestade de granizo, trovoada carregada de mil raios e coriscos, um pandemónio.

 Às tantas foi que por um estádio da Europa setentrional passara um artista impar, que inapelavelmente deixou em cada sueco um sueco maravilhado perante absoluta elegância futebolistica, perante insuperável destreza.

 Às tantas foi que Cristiano Ronaldo montara inesquecível clínica de futebol, em 19 de Novembro de 2013, na Friends Arena em Solna.

 E no fim  -- as contas feitas, caso arrumado, estádio a esvaziar, frio de iceberg, silêncio de túmulo, almas torturadas --  a indelével imagem de Cristiano Ronaldo de braço dado com cada sueco, acompanhando-os

calorosamente às suas casas, suando neles a lembrança indesejável do desaire mas repondo neles a recordação de uma peça desportiva de grande espectáculo  -- verdadeiramente uma peça difícil de tragar para suecos e afinal,  bem vistas as coisas, exibição preciosa, gratíssima até, pois nem sempre aparece por ali um Cristiano Ronaldo todo inclinado a oferecer o seu 'produto-para-sonhar', todo propenso a dar show!

 O nosso Beethoven acabara de tocar sonatas magistrais na Suécia e o eco da rara proeza tão cedo não deixará de repercutir vivamente por aquela parte oriental da península escandinava, suas cidades e vilas, suas colinas e vales. 

 Sonatas que o mundo inteiro escutou deliciado!
 

Não houve equívoco quando trouxeram ao mundo Cristiano Ronaldo-para-o-futebol! Do mesmo modo, ninguém se equivocou quando, por exemplo, trouxeram ao mundo Muhammad Ali-para-o-box, Michael Jordan-para-o-basquetebol, Rosa Mota-para-coleccionar-maratonas.

Quatro predestinados desafiando os rigores da perfeição! 
 
 Cristiano Ronaldo marcou três golos contra a Suécia que teriam merecido pinceladas de Vincent Van Gogh e na origem desse monumental hat-trick estiveram João Moutinho e Hugo Almeida   -- que souberam entregar aos pés mágicos e à velocidade supersónica de Ronaldo três passes medidos a quilómetros de distância, embora de precisão milimétrica e de qualidade invulgar.
 Foi tão reconfortante o sucesso alcançado na Suécia na complicada eliminatória para o Brasil que se poupam críticas à seleção das cinco quinas quanto àquela barreira do arco-da-velha  -- esburacada, aflitivamente descuidada, que Ibrahimovic aproveitou chamando-lhe um figo e "fuzilando" Rui Patrício sem piedade, sem venda branca nem estaca! 
 Foi tão convincente a vitória portuguesa arrancada em Solna que se perdoa à defesa portuguesa o  desnorte e o seu andar-à-deriva em frente á baliza nacional, à procura de posição e de resposta à marcação de um canto  -- que o nosso velho conhecido Ibrahimovic converteu "à José Águas" com primoroso toque de cabeça.  
 Até ao Brasil e, depois, no Brasil, Paulo Bento irá trabalhar intensamente e incessantemente com os categorizados componentes da seleção nacional. Irá ocupar-se, particularmente, de tudo, sem omitir nada.
 Até ao Brasil e depois no Brasil irá recordando os nossos futebolistas  -- sorriso franco, nada de dramas, coração nas mãos, pão pão, queijo queijo --  que no Brasil, qualquer que seja o nosso grupo, quaisquer que sejam os nossos compromissos, Portugal pode ganhar o campeonato do mundo.
 
Irá recordando os futebolistas portugueses de que lhes será legítimo alimentar todas as esperanças desde que nunca desprezem todas as realidades. 
 
21 de Novembro de 2013
Edmundo Macedo
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em 19 de Novembro de 2013 a selecção nacional de futebol foi à Suécia conquistar acesso ao Mundial de 2014 no Brasil
 
viveu horas tao refrescantes como a agua que brota das fontes de Sintra
 

 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Aula Magna

Gostaria de ter estado lá, na 5ª feira... o eco do acontecimento chegou-me a milhares de quilómetros de distância.
Mário Soares salvou Portugal da catástrofe, em várias fases da nossa história. E ainda não desistiu de salvar a democracia ameaçada, uma vez mais. A democracia, o Estado de direito...

General Ramalho Eanes

Justa homenagem ao General Ramalho Eanes. Se pudesse ter ido a Lisboa neste 25 de Novembro de 2013, não faltaria à homenagem que lhe foi prestada.
Nos tempos dramáticos que atravessámos, sem políticos à altura dos desafios  que se colocam ao País, é preciso lembrar os que o conseguiram, em tempos igualmente difíceis.
Votei em Ramalho Eanes (apenas) na primeira eleição presidencial da nossa democracia. Reconheço, hoje, que foi o voto num Homem que é  exemplo de cidadania e de coragem.