quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Bravo, Manuela!

Uma extraordinária entrevista de Manuela Ferreira Leite.
TSU reduz, sem sentido de justiça, os vencimentos dos trabalhadores para aumentar, sem qualquer sentido, os lucros do que temos de chamar o "grande capital".
Erro colossal, entre outros relativamente menores, mas também graves.
Adeus, Social democracia!


terça-feira, 11 de setembro de 2012

CV resumido


CV RESUMIDO

MARIA MANUELA AGUIAR DIAS MOREIRA
E-mail:mariamanuelaaguiar@gmail.com

Formação académica:
É licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra. Pós-graduação em Direito (Diplôme Supérieur d' Études et de Recherche en Droit) pela Faculdade de Direito e Ciências Económicas do Instituto Católico de Paris.
Foi bolseira da Fundação Gulbenkian, em Paris, e das Nações Unidas, da OCDE, e da OIT em estágios realizados em vários países da Europa. (1968/1976)

Actividade Profissional:
Advogada(1967/1972); Assistente do "Centro de Estudos" do Ministério das Corporações e Segurança Social - Direito do Trabalho (1967-1974); Assistente da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa - Sociologia - (1971/72); Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra - Direito Civil, Teoria Geral do Direito, regeu o curso de "Introdução ao Estudo do Direito" (1974/1976); Docente da Universidade Aberta, Mestrado de Relações Interculturais, regeu a cadeira de "Políticas e Estratégias para as Comunidades Portuguesa" (1992/1995); Assessor do Provedor de Justiça (1976/2002)

Actividade Política:
Secretária de Estado do Trabalho (1978/1979); Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas (1980); Idem (1981); Deputada eleita pelo Círculo de Emigração Fora da Europa (1980/1985, em efectividade de funções entre Agosto de 1981 e Junho de 1983); Secretária de Estado da Emigração (1983/1985); Deputada Eleita pelo Círculo da Europa (1985/1987); Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas (1985/1987); Deputada eleita pelo Círculo do Porto (1987/1991); Vice-presidente da Assembleia da República(1987/1991); Presidente do Conselho de Administração da Assembleia da República (por inerência); Presidente da Comissão Parlamentar da Condição Feminina (1987/1989); Deputada eleita pelo Círculo de Aveiro (1991/1995); Representante de Portugal na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (APCE) e na Assembleia da UEO (1992/2005); Presidente da Sub-Comissão das Migrações da APCE (1994/1995); Presidente da Comissão das Migrações, Refugiados e Demografia da APCE (1995/1997); Vice- Presidente do Grupo Liberal e reformista na Assembleia do Conselho da Europa; Deputada eleita pelo Círculo de Emigração Fora da Europa (1995/1999;1999/2002; 2002/2005); Presidente da Delegação Portuguesa à APCE e UEO (2002/2005); Vice -Presidente da Assembleia da UEO; Vice-Presidente do PPE na APCE; Presidente da Subcomissão para a Igualdade (APCE);
Membro do "Gabinete sombra" de José Manuel Durão Barroso (pelouro das Comunidades Portuguesas).
Membro honorário da Assembleia da UEO e da APCE.
Em 1980, presidiu à Delegação Portuguesa à Meia Década das Nações Unidas para a Igualdade da Mulher (Copenhague).
Em 1985, presidiu â Delegação Portuguesa e foi eleita Vice-Presidente da 2ª Conferência de Ministro do Conselho da Europa para as Migrações (Roma).
Em 1984, presidiu à Delegação Portuguesa à 1ª reunião de Ministros do Conselho da Europa para a Igualdade de Mulheres e Homens (Estrasburgo).
Em 1987, presidiu à Delegação Portuguesa e foi eleita presidente da 3ª Conferência de Ministros do Conselho da Europa para as Migrações (Porto).
Entre 1987 e 1991, foi a primeira mulher a presidir aos plenários da Assembleia da Repúblicae a chefiar delegações parlamentares, a primeira das quais se dirigiu ao Japão.


Legislação e instituições cuja criação ou reforma impulsionou:

Comissão para a Igualdade no Trabalho e Empresa (CITE), 1979; Instituto de Apoio à Emigração e Comunidades Portuguesas (IAECP), 1980; Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), 1980; Lei da Nacionalidade, 1981; Centro de Estudo do IAECP e "Fundo Documental e Iconográfico das Comunidades Portuguesas" (1984); "Regionalização" do CCP (1984); Comissão Interministerial para as Comunidades Portuguesas (1987). Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres entre Portugueses e Brasileiros (reciprocidade), 1989-2001; Lei da Nacionalidade (recuperação automática), 2004; Direito de voto generalizado nas eleições para o Parlamento Europeu (fora do espaço da UE), 2004.

Participação Associativa.
Presidente da Assembleia Geral da Associação de Estudos "Mulher Migrante".
Membro do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Brasileira.
Membro do Conselho de Delegações e Filiais do FCP.


Publicações
Política para a Emigração e as Comunidades Portuguesas (1986);
 Portugal - País das Migrações sem Fim (1999);
 Círculo de Emigraçâo (2002);
 Comunidades Portuguesas - Os Direitos e os Afectos (2005);
 Migrações - Iniciativas para a Igualdade de Género (2007) coord.;
 Problemas Sociais da Nova Emigração (2009) coord.   
 Cidadãs da Diáspora, Encontro em Espinho (2009) coord
Mulher Migrante . o Congresso on line (2009) Manuela Aguiar e Teresa Aguiar(coord)
Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora (2012) Maria Manuela Aguiar e Graça Guedes (org)

Relatórios apresentados nas Assembleias do Conselho da Europa e UEO ( publicação em preparação) e artigos publicados em revistas da especialidade sobre Direitos Humanos, Igualdade de Direitos, Direito do Trabalho, Migrações. Colaboração regular em jornais


Condecorações
Nacional: Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique
Estrangeiras - Grã Cruz: Ordem do Cruzeiro do Sul, Ordem do Rio Branco (Brasil); Ordem do Império Britânico (Honorary Dame); Ordem de Mérito (Itália); Ordem de Mérito (Alemanha); Ordem de Mérito (Luxemburgo); Ordem de Leopoldo II (Bélgica); Ordem Fénix (Grécia); Ordem Francisco Miranda (Venezuela);
Grande Oficial: Ordem de Mérito (França); Ordem da Estrela Polar (Suécia), e outras.

Títulos Honorários
Membro Honorário da Assembleia da União da Europa Ocidental e Associada Honorária da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa
Cidadão do Estado do Rio de Janeiro
Medalha de Honra da Cidade de Espinho


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Breve testemunho sobre as Academias do Bacalhau

As Academias de Bacalhau estão hoje espalhadas no mundo, cumprindo a  vocação matricial de convivialidade, 
que vem marcando o seu trajecto  de várias décadas, sempre a irradiar alegria, a expandir a nossa cultura
e os nossos costumes e a oferecer solidariedade a quem precisa.
A ideia que lhes deu origem é, em si mesma, uma ideia felicíssima e singular: partir de uma simples tertúlia de amigos, reunidos num almoço habitual, e juntar-lhe - numa fórmula que faz toda a diferença - as componentes essenciais da cultura e da beneficência.
Mas por muito interessante que fosse este "achado", ao colocar uma forma de associativismo lúdico ao serviço
 dos mais altos objectivos da sociedade, os seus autores não terão, com certeza, imaginado a assombrosa aventura humana em que haveria de se traduzir!
O mundo da Diáspora portuguesa era formado por um sem número de comunidades engendradas pela mesma vontade de preservar a identidade nacional e de conservar os laços afectivos de ligação à Pátria, mas que, não obstante o que as unia, permaneciam distantes e incomunicáveis entre si.
Era preciso dar um passo em frente para formas mais englobantes de cooperação entre  instituições congéneres, entre Portugueses dispersos no espaço geográfico dos cinco continentes. Uma meta que, face à experiência do passado, se julgava praticamente inatingível. Pareciam os portugueses, ao invés de tantos outros povos europeus
 da emigração, definitivamente, avessos ao envolvimento num amplo movimento de convergência... As Academias 
do Bacalhau  vieram  provar que não. Ao longo de mais  de quatro décadas, mostraram tanto uma enorme capacidade plástica de se moldarem à situação e características das sociedades em que se inseriam, como uma surpreendente facilidade de vencer as distâncias geográficas, estabelecendo a ligação permanente entre todas, pontuada por congressos mundiais, que juntam centenas e centenas de "compadres", em sessões de trabalho e em convívio. Do acolhimento se encarrega, com invariável eficiência, a Academia anfitriã.
Este movimento converteu-se, assim, em paradigma de diálogo e articulação de projectos a nível intercontinental, e é também o único actuante, em simultâneo, com o mesmo espírito e as mesmas regras, na Diáspora e em Portugal.
E pensar que tudo começou, em Março de 1968, num restaurante de Joanesburgo, durante um almoço oferecido por quatro amigos a Manuel Dias, o mítico jornalista portuense!
 Aí surgiu a ideia, segundo nos conta o fundador e presidente honorário das Academias, Dr. Durval Marques. Depois, os quatro (Dr. Durval Marques, Eng.º José Ataíde, Ivo Cordeiro e Rui Pericão) suscitaram adesões e trabalharam em
conjunto para dar configuração ao projecto, definindo os princípios informadores, as particularidades e formato original da futura agremiação. A Academia do Bacalhau de Joanesburgo seria  lançada logo a 10 de Junho desse ano, durante a primeira grande comemoração do Dia Nacional na capital do Gauteng. Estava bem gizada e pronta a dinamizar acções mobilizadoras em seu redor, com o seu exemplo, promovendo,  a disseminação das Academias em outras cidades.
A designação "Academia"  não tem conotações elitistas - as regras  de tratamento no seu interior excluem, aliás, o uso de quaisquer títulos universitários ou profissionais - antes apela à camaradagem e à união, sem excluir a dose certa de irreverência, que quadra na perfeição com as praxes e rituais adoptados, a fazerem lembrar os das nossas
organizações académicas, sobretudo as do Porto, do Orfeão Universitário,  de onde vem o "gavião de penacho", 
que se canta em coro, nos momentos altos.
A "Academia-tertúlia" não tem sede, o seu património são as pessoas, que podem  reunir em qualquer lugar, à volta de uma mesa de restaurante, em frente a um prato de bacalhau, "o fiel amigo". A focagem na amizade revela-se, igualmente,  na denominação de cada um dos seus membros: " compadre",  sinónimo de "melhor amigo", aquele que se convida para padrinho dos filhos. Ali não há "doutores" todos se tratam, familiarmente, por "compadres". As suas mulheres, as chamadas "comadres", desde sempre, estiveram presentes nas festas especiais, como convidadas,
não inicialmente como sócias.
Este é um aspecto que não gostaria de omitir, e que, do meu ponto de vista, deve ser situado no seu contexto histórico. A génese da tertúlia de Joanesburgo explica o "porquê" da estrutura ser, na origem, exclusivamente  masculina, e afasta a hipótese de qualquer intenção deliberadamente discriminatória: eram os homens que
conviviam, entre si, na pausa de trabalho, ao almoço. As mulheres, simplesmente, não estavam lá, não
partilhavam o mesmo círculo de actividades ou de camaradagem profissional.  Por isso, quando essa factualidade
 se alterou, com as mulheres a surgirem, lado a lado, com os homens no campo profissional ou associativo, foram sendo admitidas, em muitas das Academias, como filiadas de pleno direito, e logo as vimos em lugares de direcção ou  mesmo na presidência, por exemplo, em Toronto, na Nova Inglaterra, em Brasília.  O que não tem paralelo em outros ramos do nosso associativismo mais antigo e tradicionalista.
Refiro-me ao acesso em massa das mulheres, que aconteceu, primeiramente,  em países, onde a igualdade de género era mais conseguida. Mas, de facto, a título excepcional, algumas senhoras haviam sido, muito antes, admitidas, como membros da Academia Mãe de Joanesburgo, mulheres de Artes, de Letras, como Amália
Rodrigues (a primeira de todas), Vera Lagoa, Graça Sousa Guedes, ou oriundas da política, como eu mesma. Aceitei, com entusiasmo, esse estatuto por um lado, porque estava ciente da importância de abrir precedentes e confiava  na capacidade de ajustamento daquele modelo organizacional a uma realidade em evolução, (não só,
mas também, no que respeita à colaboração igualitária de mulheres e homens) e, por outro lado, porque  admirava as Academias e acreditava nas suas virtualidades de fazerem coisas cada vez mais extraordinárias.

 O  lugar ímpar e cimeiro a que as Academias ascenderam no universo da emigração,  ficou, evidentemente, a dever-se à qualidade dos seus dirigentes. Tanto os pioneiros, como os que lhes sucederam eram (são!) líderes de larga visão, conhecedores da importância de conjugar esforços para consolidar e engrandecer verdadeiras comunidades em terra estrangeira. Sabiam bem que estas podem datar o seu nascimento e formação do início do associativismo.  Podem mesmo, a meu ver, sintetizar a sua história  numa glosa lapidar: 
"Associo-me, logo existo".  
 Este poder criador e estruturante de comunidades, em sentido orgânico, está, de há muito, estudado e definido
  e é corrente distinguir,  de acordo com as finalidades principais, as instituições de assistência e solidariedade, as agremiações de fins culturais, os clubes e centros  e recreativos. Todavia, as Academias do Bacalhau escapam a essa divisão clássica, devido ao ecletismo e pluralidade dos seus fins e à singularidade dos meios utilizados para lhes dar cumprimento. Conseguem ser, do lado da Diáspora, um elo de ligação à Pátria, e, também, a partir das Academias existentes no nosso país, um meio de compreensão  e de convivência ecuménica  com a Diáspora.
 Há, entre os seus membros muitos emigrantes ou ex-emigrantes, considerados, justamente, “gente de sucesso”.
 É excelente lembrar o percurso individual de cada um,  mas sem esquecer o que tende a ser mais subestimado: as suas realizações colectivas.
 Um longo relacionamento com as comunidades, leva-me a acreditar no papel insubstituível do associativismo, em que vejo," um ímpeto de Portugal", de que falava Pessoa - o ímpeto que despertou para a acção concreta  os fundadores das Academias, no sul da África, e, depois, um pouco por todo o lado, em instituições que avançaram  e
cresceram à medida dos desafios com que foram deparando.
Julgo que o processo de descolonização de Moçambique e Angola, e, com ele, a necessidade de valer a dezenas de milhares de refugiados na RAS, foi um dos factores decisivos de  uma rápida evolução para patamares  de actuação cada vez mais elevados, com a criação da Sociedade de Beneficência de Joanesburgo e do Lar Santa Isabel,  na
segunda metade da década de 70. Um passo de gigante, que centrou a acção das Academias, definitivamente,
na acção humanitária.
E o regresso, em grande número, da África do Sul, anos mais tarde, terá sido determinante na constituição de novas Academias no nosso próprio País. Os "compadres" retornados trouxeram consigo a saudade de África e a determinação de retomar a convívência e o trabalho beneficente, em terras portuguesas.
O Porto foi uma das primeiras cidades do país em que isso aconteceu - como não poderia deixar de ser,  já que, através de ilustres portuenses, havia  estado presente em Joanesburgo, no momento verdadeiramente genesíaco, e em todo o processo em que tão grande aventura se veio a desenvolver. E bem pode dizer-se que a imagem de marca da cidade - força de trabalho, poder de iniciativa, extroversão  da alegria de viver - se evidencia, hoje, na
dimensão e no dinamismo da sua Academia.
A fase seguinte foi a de expansão em novos destinos  da Diáspora, o que nos leva a perguntar:  e agora, que futuro para as "Academias"?
 Em tempo de crise sem  fim à vista, num ponto de partida de grandes vagas migratórias - a chamada "nova emigração", fenómeno recorrente em Portugal, em ciclos que se encadearam, imparavelmente, nos últimos cinco séculos - quantos desafios vemos pela frente!
É o momento de pormos nas Academias do Bacalhau muitas esperanças, apostando na sua experiência para enfrentar conjunturas difíceis e, como é da sua natureza, para fazer história em gestos de solidariedade e simpatia.
Afirmação que avançamos, de caso pensado, com segurança, pois estamos a falar, afinal, naquele que se transformou no mais moderno e dinâmico movimento de união dos Portugueses do mundo inteiro.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Mensagem para a Academia da Bacalhau de Paris

Fui, desde a primeira hora, uma incondicional admiradora das Academias
de Bacalhau. Ou seja, desde a tomada de conhecimento do modelo
associativo que representam e do primeiro contacto com  os Fundadores
da Academia "mãe de todas as outras", que é a de Joanesburgo. Foi o
próprio Dr Durval Marques quem me explicou o modo de funcionamento, os
grandes objectivos e as grandes realizações que, já então, numa fase
ainda inicial, levavam a cabo os auto denominados "Compadres".
Estava, sem sombra de dúvida, perante um desenvolvimento absolutamente
original e extraordinário do movimento associativo português na
Diáspora. A ideia era genial: partir do convívio de amigos, festivo e
informal, enquadrado, porém, em rituais inspirados em divertidas
"praxes" de inspiração académica, para recolher fundos que permitissem
responder a projectos culturais e a necessidades e problemas sociais
sentidos na comunidade. Mas, claro, não bastava a "ideia" - para lhe
dar vida eram necessários os "idealistas". Ora, felizmente, desde o
momento da criação da primeira Academia até aos nossos dias, foi o que
nunca faltou!
As Academias não precisam ,para funcionar, de sedes de pedra e cal -
elas estão onde está a sua gente, actuante e dinâmica, pronta a reunir
em encontros que podem acontecer em qualquer lugar  - à imagem do
próprio País, que é mais a sua Cultura, a coesão de um projecto
nacional, o seu Povo, a sua Diáspora, do que o seu pequeno
território...
Achando o esquema perfeito, não podia, porém, nessa época, adivinhar o
crescimento e a dimensão universal que este paradigma associativo
assumiria no futuro. Uma feliz evolução, que se iniciou, de uma forma
espontânea e natural, quando emigrantes regressados da África do Sul
trouxeram consigo a boa tradição convivial e benemerente das
Academias, que logo se espalharam pelo País. E, nesse "élan", não
pararam nas nossas fronteiras geográficas, depressa chegaram às
comunidades da Diáspora. E aqui assumiram um papel singular e
verdadeiramente único no domínio do movimento associativo português,
que é forte por todo o lado, grandioso, mesmo, em vários países e
continentes, mas ao qual faltava, o que existe nos outros países
europeus de emigração: a vertente de diálogo e de ligação
internacional entre comunidades dispersas no mundo inteiro.
Hoje, os Congressos das Academias do Bacalhau são verdadeiros
congressos universais de Portugalidade, de afirmação da cultura e da
solidariedade.
Que fantástica história de sucesso!
E como mostra virtualidades de responder aos desafios dos novos
tempos, em França, na Europa e em outros continentes, agora que emerge
uma emigração portuguesa tão diferente da que marcou o século XX!  Uma
emigração inesperada (pelo menos para alguns, para os mais desatentos)
nas características, no volume, na forma de de relacionar com a
sociedade de destino e com a terra de origem.
O associativismo tradicional tem o seu lugar, com um património
histórico e uma capacidade demonstrada de estruturação da vivência
colectiva de muitos, mas novas fórmulas são essenciais para trazer
outros, também muitos e cada vez mais, para a vida comunitária. A
Academia da Bacalhau de Paris está numa verdadeira "linha da frente"
para atrair e congregar uma nova geração de mulheres e homens, capazes
de grandes empreendimentos pessoais e, também, colectivos, se tiverem
ao dispor os instrumentos adequados.
Foram momentos inesquecíveis, os que passei, com os Compadres e
Comadres da Academia de Paris numa dessas belas Associações, que chamo
"tradicionais", em Puteaux, e espero que encontros nas "casas
portuguesas" da Diáspora possam, assim, prosseguir - em boa harmonia e
cooperação.
Agradeço essa oportunidade de convívio inesquecível, e também, a de
lhes poder dar a minha visão pessoal da importância de todas as
"Academias" e da de Paris em particular.
Celebrar alegria de viver, num círculo de amigos, e fazer beneficência
e progresso no círculo alargado dos que de nós precisam, é um belo
projecto, que convosco partilho.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dona Benvinda - força e carisma de uma líder nata

O dia em que conheci Dona Benvinda não pode ser adiado. Eu bem quis, mas ela não deixou...
Era o verão de 1980 e o dia em que o rancho Folclórico Português do Rio de Janeiro estava de passagem por Lisboa, com almoço marcado num restaurante próximo do elevador que Eifel construiu para subir da Rossio ao Carmo. Era eu Secretária de Estado da Emigração, tinha aceite o convite para estar presente e foi em vão que tentei fazer-me substituir pelo Chefe de Gabinete, Luís Garcez Palha. Dona Benvinda deixou bem claro que não aceitava representações. Ou eu ou ninguém!
Estava ainda a meio caminho entre as capitais do norte e do país, atrasado pelo alongamento do programa da manhã. Percebi que o atraso era irrelevante, ao contrário da ausência, que não seria perdoada. O motorista voou, positivamente, pela estrada nacional nº1, ao volante do velho Citroen, para que eu chegasse antes do café.
Fui recebida em festa, com os meninos a cantar e a bater palmas (ai de mim, se quisesse passar despercebida...). Dona Benvinda sorria, ao lado do marido, o Comendador Marques Mendes, e da grande artista brasileira Neuza Amaral, que, na altura, era a actriz principal da telenovela da Globo, que todo o Portugal via ao serão.
Foi um encontro feliz, de começo de amizade, que não teria fim.
Gostei logo na primeira impressão de Dona Benvinda - ali estava uma líder nata, em pleno exercício da liderança no feminino. Coisa ainda pouco comum hoje, mas raríssima então.
Tinha ideias e sabia executa-las pragmaticamente, como se via no próprio exemplo de trazer a Portugal um grupo de danças composto por jovens escolhidos nos ranchos folclóricos das muitas "casas regionais" do Rio. Cada par com o seu traje e a sua bandeira. Bailando folclore português na 1ª parte dos espectáculos e samba, com cor e fantasia tropicais,  depois do intervalo. Um achado! Ano após ano, esta iniciativa trouxe a Portugal cerca de um milhar de jovens.
E foi uma entre tantas, promovidas a partir da plataforma que era o seu jornal - o Mundo Português, mais tarde, o "Portugal em Foco". O jornal tinha a sua marca inconfundível, procurava, como ela própria, a proximidade e interacção com o associativismo, com a comunidade, retratando-a, dinamizando-a,  na sua relação com Portugal e Brasil.
Era, por isso, mais do que uma directora de jornal, ou uma jornalista talentosa. Era uma protagonista de 1º plano nos destinos da  sua comunidade. Tinha voz, tinha influência, e uma formidável capacidade de mobilizar colaborações, de fazer amigos  e de realizar projectos. Uma energia inesgotável. uma força imparável, uma inteligência viva, uma sabedoria conseguida na universidade da experiência da vida.
E muita espontaneidade, muito à vontade, com os ricos e poderosos e com o povo, povo, por igual. Lembro.me de ter participado, uma vez num programa de rádio, que manteve enquanto quis, com altas audiências. Um programa de porta aberta, em que entrava e saía gente, em redopio, contando histórias, dando recados, falando das coisas mais diversas, e mais divertidas, sem que o fio da meada escapasse da mão de Dona Benvinda. Ninguém mais conseguiria orquestrar assim a multidão das vozes que se cruzavam nas conversas. Nunca mais veria nada se semelhante em parte alguma do mundo. Era o mundo de Dona Benvinda, era Dona Benvinda mudando o mundo!

Dona Benvinda Maria - A sua força movia montanhas...


Para ADÉ

Fico-lhe muito grata por me prevenir.
A última vez que conversei com Dona Benvinda, pelo telefone, foi há
cerca de um mês - não podia imaginar que não mais lhe poderia falar.
 Sempre a admirei imenso! Conheci-a em 1980, quando trouxe a Lisboa, e
a muitas outras cidades, o Rancho Folclórico do Rio de Janeiro, que
era formado por jovens escolhidos nos vários grupos folclóricos da
comunidade luso-brasileira. O que fez  até ao século XXI... Só nessa
acção trouxe  ao nosso País perto de um milhar de jovens!  Sinto uma
tristeza enorme de a ver partir, com a sua energia e o seu constante
envolvimento na comunidade.
 Era uma grande e leal amiga - uma amizade que eu retribuia.
Grande abraço

Manuela

No dia 11 de Julho de 2012 05:41, Ade Caldeira - Radio Arcoense
<adecaldeira@radioarcoense.com.ve> escreveu:
nao sabia rita?
ninguem lhe disse?
ninguem a avisou a si somente? ou a manuela tambem?
adpe

terça-feira, 10 de julho de 2012

MARIA ARCHER EM SÃO PAULO: de lá chegam notícias!

No dia 7 de Julho de 2012 00:55, Maria Manuela Aguiar
<mariamanuelaaguiar@gmail.com> escreveu:

Cara Doutora Blanche:

Foi com imensa satisfação que recebi o email, que acabo de ler. Vou
dar essa informação, de imediato, a investigadores e a familiares de
Maria Archer.
Eu sou uma admiradora da sua obra  e da sua personalidade. e, nos
últimos meses, consegui reunir mais de uma vintena dos seus livros em
alfarrabistas, ( apenas dois romances foram recentemente reeditados).
Considero-a uma grande escritora, perfeita retratista da mulher
portuguesa do seu tempo!
Uma associação a que pertenço (Mulher Migrante - Associação de Estudo,
Cooperação e Solidariedade) organizou já  várias sessões de homenagem
a Maria Archer, a última das quais no Teatro da Trindade em Lisboa,
com a presença do antigo Presidente da República Dr Mário Soares. Em
breve será editada uma acta dessa sessão, que poderei enviar - lhe,
com todo o gosto.
Há uma  tese de mestrado sobre Maria Archer em Portugal e uma outra de
doutoramento no Brasil (da Profª Elisabete Battista, que apresentou a
sua tese na USP). Espero que outras se sigam no futuro.
A vida de Maria Archer em Portugal está bem documentada e há ainda
muitos amigos e familiares que privaram com ela, mas o período em que
residiu no Brasil é praticamente desconhecido, para além dos escritos
que deixou. Por isso, o testemunho que nos dá, e outros que possa
acrescentar, são verdadeiramente preciosos!
Como eu gostaria de ter conhecido Maria Archer...
Com muito apreço, as saudações da

Maria Manuela Aguiar

No dia 7 de Julho de 2012 00:27, Maria Manuela Aguiar
<mariamanuelaaguiar@gmail.com> escreveu:
> ---------- Mensagem encaminhada ----------
> De:  <blanche.de.bonneval@terra.com.br>
> Data: 3 de Julho de 2012 02:51
> Assunto: Dona Maria Archer
> Para: mariamanuelaaguiar@gmail.com
>
>
> Prezada senhora
>
> Boa noite, meu nome é Blanche de Bonneval e quero lhe falar um pouco
> de Maria Archer no Brasil.
>
> Minha irmã mais velha e eu éramos garotinhas (nascidas respectivamente
> em 1948 e 1949) quando a minha família, que era muito tradicional,
> pediu a Maria Archer de ser a nossa preceptora no Brasil nos anos
> 50/começos dos anos 60 se não me engano, pois queria que fossemos
> educadas em casa. Dona Maria, como nos a chamávamos, veio morar
> conosco e se esforçou muito em nos dar uma boa educação. Ela era
> considerada em casa como uma pessoa cultíssima, alegre e original que
> foi muito apreciada por todos. Lembro-me por exemplo como ela me
> incentivou quando começei a escrever poesias algumas das quais
> chegaram a ser publicadas graças a seu empenho.Também me recordo com
> certa emoção e divertimento o seu hábito de pintar suas roupas, bolsas
> e sapatos e de nos acordar de manhã abrindo a janela cantando canções
> portuguesas cujos refrões ainda lembro.
>
> Ela ficou conosco alguns anos até que a família do meu pai conversou
> com minha mãe e em 1965 fomos autorizadas finalmente a irmos para o
> colégio. Mas mesmo assim, como tínhamos muita amizade com Dona Maria,
> ficamos em contato com ela até ela voltar para Portugal.
>
> Creio que devo muito a ela. Ela sempre nos contava histórias africanas
> e nos falava da magia dos lugares onde vivera como Angola e
> Moçambique, pois foi sempre destes dois lugares que ela falava mais.
> Comecei a ficar curiosa e a querer ir conhecer a Africa, ou pelo menos
> esses dois países dos quais ela  falava com tamanha emoção. Acabei
> saindo do Brasil em 1976 para ir estudar na França onde fiz mestrado e
> doutoramento. Em 1982 - ano da morte de Maria Archer - (soube agora
> por um artigo que achei no computador por acaso que ela veio a óbito
> neste ano) comecei a trabalhar no sistema das Nações Unidas - mais
> especificamente no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento -
> o PNUD - . O meu primeiro primeiro posto foi Angola, que nesta altura
> estava em plena guerra civil e para onde ninguém queria ir. Lembrando
> sempre do que Maria Archer me falara daquele país, aceitei o desafio e
> lá vivi uma experiência de vida maravilhosa. Depois de algum tempo de
> estadia, pedi aos meus amigos angolanos se lembravam de Maria Archer e
> responderam positivamente. Falaram-me dela com carinho e me levaram
> até na casa onde ela havia morado, localizada perto do hospital de
> Luanda.
>
> Mais tarde em 1992 o PNUD me propos ir para Moçambique que também
> aceitei pelas mesmas razões e foi novamente um posto do qual gostei
> demais. Só que lá não achei rastros de Dona Maria. As pessoas
> lembravam do seu nome mas não sabiam onde vivera no país. E só é agora
> que descubro no mesmo artigo que ela viveu na Ilha de Moçambique e no
> Ibo e não na atual Maputo como eu acreditava. Foi graças a influência
> da minha preceptora que trabalhei em Angola e Moçambique, mas também
> em Madagascar e no Chade, o que representou um aprendizado
> extraordinário que durou 16 anos no total. Depois disso, fui enviada
> para Asia Central onde trabalhei até minha aposentadoria.
>
> Bem, é só isso de que queria lhe falar, disso e das minhas profundas
> gratidão e admiração por esta mulher pelo que ela foi assim como pela
> influência que teve na minha vida.
>
> Atenciosamente. Blanche..