Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
sábado, 8 de outubro de 2016
Por fim, no Governo CAVACO SILVA
IV GOVERNO CAVACO SILVA (1985/87) Arrumar os papéis, quando cessei funções no meu 4º governo, foi uma mera formalidade. pois sabia que iria reocupar o gabinete. Mudava de ministro, não de programa, nem de "staff". Os princípios fundamentais eram ainda os da primeira experiência na SEECP, que agora, perdera a referência à emigração, a sigla perdera um "E". O CCP continuava no centro de um projeto de co-participação nas políticas para as comunidades do estrangeiro. A sua reunião mundial estava convocada para Porto Santo e Funchal numa data (11/17 de novembro), que mal me deu tempo de tomar posse. fazer as malas e partir para a Região Autónoma da Madeira. Alberto João Jardim presidiu à sessão de abertura, onde começou a agitação que marcaria esta reunião mais do que qualquer, sem, contudo, perturbar o cumprimento da sua agenda, dos debates, recomendações. A contestação vinha sempre do mesmo pequeno grupo de França, próximo do Partido Comunista. Desta vez, abandonaram os trabalhos, tomaram o avião de regresso e deram conferência de imprensa em Lisboa, contra o Governo. O Governo, fosse ele do "bloco central" ou do PSD minoritário, era o alvo, muito personalizado no Secretário de Estado - invariavelmente eu. Nenhum dos outros assinaria a convocatória do Conselho... até a ùltima seria assinada por mim, na 25.ª hora deste Executivo, embora já presidida pelo meu sucessor no segundo Governo de Cavaco Silva, que não ousou cancelar o processo em andamento. Correia de Jesus limitou-se a uma breve aparição e a um discurso a anunciar o fim próximo daquele "forum" ruidoso - o que teve por efeito pôr todos os conselheiros do mesmo lado, a tentar, em vão, salvar um CCP condenado à morte. A mim, o ruído da minoria nunca me preocupou, nem me atingiu pessoal ou politicamente (bem pelo contrário, levou a que o PSD de Cavaco Silva me indigitasse para concorrer a eleições para a Vice-presidência da AR, o que me permitiu ser a primeira mulher a dirigir as sessões parlamentares - porque todos achavam que o plenário da AR era coisa bem mais fácil de dirigir do que o plenário do CCP). O excessivo ruído atingiu, sim, o próprio CCP. Tanto o Primeiro Ministro Soares, em 1985, como o Primeiro Ministro Cavaco foram alvo da desenfreada agressividade desse grupo radical, eminentemente parisiense, e não acharam graça nenhuma. Eu até via o aspeto lúdico da "bagarre"... Como diria Pinheiro de Azevedo era "só fumaça". O certo é que mal eu deixei o comando, a totalidade pagou pela pequena parcela de agitadores. Cavaco terá dado luz verde a Correia de Jesus para extinguir a instituição.
No que me respeita, outras foram os relacionamentos que correram realmente mal e me fizeram perder a paciência e deixar, em Agosto de 87, não só o governo, mas também os círculos de emigração, pelos quais tinha sido eleita em 80, 83 e 85. Não com Cavaco, que fora próximo, dentro do núcleo dos críticos, distante no Executivo, e que acabou sobrevivendo depois. Quando surgiram os problemas - muitos - não o procurei, nunca, para lhe dar pedir apoio. Nem sequer o fizera, antes, com o Doutor Mota Pinto, um amigo de longa data, durante as peripécias do .1º governo. julgo que um Primeiro -ministro não se incomoda com questões menores, questões pessoais. Só falaria com eles em caso extremo, por exemplo, para justificar um pedido de demissão irrevogável (irrevogável, mesmo...).
Na verdade, o único Chefe de governo com quem falei, vezes sem conta, ao telefone, foi com Sá Carneiro, mas foi sempre ele a tomar a iniciativa, para me encorajar numa determinada direção, para me felicitar por uma ação concreta. para me dar ânimo. Creio que compreendia a situação em que eu me via, pouco vocacionada para tanto palco político, se sentia responsável por mim. Foi espaçando as chamadas à medida que me via sempre aguerrida e muito mais segura. Quanto a Cavaco Silva é sabido que é um institucionalista, muito respeitador das hierarquias, e, para ele, Ministro era Ministro, e Secretário de Estado um mero adjunto. Vi-me, assim, no Palácio das Necessidades, isolada pelo parceiros do lado de lá do corredor, o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Azevedo Soares e o Ministro Pires de Miranda. Começaram, de comum acordo, por me esvaziar o orçamento (em mais de 200.000 contos (um milhâo de euros), ao que respondi apresentando ao MNE um ultimato: ou a pronta restituição de, pelo menos, 100.00 contos ou a minha demissão. Na verdade, um corte dessa magna dimensão não permitia sequer o normal funcionamento dos serviços e deixava zero para ações de apoio cultural e social. Miranda, o hábil negociador de petróleo, percebeu que eu não estava a fazer "bluff", e os 500.000 euros vieram, atempadamente, das verbas do seu gabinete. Para compensar o "buraco" restante, cortei a contribuição da SECP nos protocolos com a RTP, que suportavam as emissões para a emigração (e que passou a recair sobre a tutela) e outras redistribuição de vultosos encargos (só com a RTP e os noticiários da NP destinados aos "media" das comunidades se gastava, então, quase metade do orçamento para ações). Os colegas que tutelavam esses departamentos queixavam-se, mas eu não tinha alternativa (Fernando Nogueira e Marques Mendes, os principais prejudicados pela repercussão da minha crise orçamental nos orçamentos deles) foram mais solidários do que a equipa do MNE. Durante o período que durou o Executivo, o panorama, neste aspeto, foi negro, tornou tudo mais difícil, mas conseguimos, mesmo assim, cumprir as prioridades, nomeadamente o funcionamento do Conselho, que não é barato - o mesmo se podendo dizer de outros custos da democracia, caso dos processos eleitorais, da vida do parlamento ...
Em 86, ano de reunião mundial parcelada por regiões, todas correram de uma forma dinâmica e construtiva, incluindo a da Europa, realizada na Alemanha. Sem cisões nem confusões. As outras - a da África em Capetown, a da América do Sul no Brasil, em Maringá, Estado do Paraná, e a da América do Norte, em Toronto, no Canadá, - pode dizer-se que corresponderam a expetativas bastante altas, e contaram, por todo o lado, com uma calorosa receção das autoridades locais, Governadores de Estado, Presidentes de Câmaras, Ministros... O Canadá não foi exceção e é de notar que aí, precisamente nesse ano, haviam sido proibidas as eleições e reuniões das Comissões de Emigrantes italianos, por serem consideradas órgãos oficiais de um governo estrangeiro. Na verdade, os seus membros eram eleitos por sufrágio universal dos recenseados nos consulados. Embora com funções consultivas semelhantes às do nosso Conselho, havia uma diferença fundamental, que jogava a nosso favor: o CCP era composto por representantes de associações, todas elas, como eu tive o cuidado de salientar nas conversas com às autoridades do País, pessoas coletivas de direito canadiano. E, assim, pudemos contar não só com a sua simpatia e compreensão, mas até com honras de receção oficial, um grande banquete de encerramento oferecido pelo Ministro da Imigração do Ontário, Tony Ruprecht. Na altura já um amigo. Tinha visitado Portugal, a meu convite, na companhia do dinâmico Cônsul de Portugal, António Tânger.
Todos os Conselhos consultivos existentes em países de emigração são instituições inspiradas no paradigma francês, que era inicialmente de natureza associativa, mas adotou o sufrágio universal na reforma de 1984, com isso influenciando os que foram criados posteriormente, o italiano, o espanhol e o português, na sua segunda vida, a partir de 1996/97... Na minha visão das coisas, para além da vertente consultiva, o CCP,era, também, um órgão representativo, um senado, uma assembleia onde os expatriados tinham voz e interlocutor (o governo), um instrumento insubstituível para o diálogo democrático, para políticas co-participadas. E por pensar assim, indiferente à turbulência , geográfica e partidariamente localizada, de que já falei, reconheci sempre ao Conselho o seu lugar central. E, não sei se bem ou se mal, procurei que fosse o que queria ser, por vontade dos Conselheiros, mais do que o que eu, como Governo, queria que fosse, um forum voltado, em primeira linha, para a presença cultural lusófona, como originalmente concebido no programa da AD e 80, e não, como veio a ser, uma organização focada, sobretudo, nas questões sociais da emigração, e, consequentemente, muito partidarizada. É praticamente impossível ser uma coisa e a outra, e não era viável, por condicionantes orçamentais, suportar duas estruturas, cada qual com o seu universo e o seu denominador comum. Uma forma de alargar a interpenetração do Conselho a segmentos importantes da sociedade foi a criação de "conferências temáticas", a reunir na sua órbita - ensino e cultura, juventude, assuntos económicos. Um recomendação dos próprios membros, aceite, com aplauso, pelo governo, isto é, por mim, sem entraves ministeriais. Aproveitei para lhe acrescentar um outra, em que aquele "forum" de homens não pensaria: a conferência para a promoção da igualdade de género, que daria continuação ao Encontro Mundial de 1985 e seria um verdadeiro "Conselho no feminino". Por outro lado, para envolver todo o governo nas questões da emigração, foi instituída uma "Comissão Interministerial", olhada, em primeira linha, como um instrumento de apreciação e cumprimento das recomendações do CCP. Estávamos em 1987 e o governo caiu com um voto de censura na AR, e com ele, como disse, veio a cair o Conselho, as Conferências e muito do que tinham sido as políticas prosseguidas por governos de vários quadrantes, neste campo, a pretexto de que Portugal deixara de ser um país de emigração, para se converter em terra de imigração, logo depois da adesão à CEE. A instanteinidade, a ser verdadeira, subiria ao patamar do milagre. Não era. mesmo que tivesse cessado o movimento de saída, e apesar do número significativo de retornos, não desapareciam do mapa de todos os continentes milhões de portugueses. A emigração continuava a existir neles e com eles
O que aconteceu, com o ingresso na CEE, foi uma mudança qualitativa do estatuto de muitos dos portugueses residentes nos Estados membros. Com eles que, pragmaticamente, me preocupei ao longo dos meses que durou este governo. Era preciso informar, dar condições de aproveitamento do novo estatuto de cidadania. A campanha que desenvolvemos teve um caráter inédito, na medida em que solicitámos o apoio dos países de acolhimento para ações de divulgação conjunta. Com a chancela dos dois governos, ditámos pequenas publicações bilingues (ou multilingues). Serviam de orientação aos emigrantes e, quando necessário,, eram oponíveis a qualquer serviço local, menos atento às mudanças da sua situação jurídica. Coisa simples, embora antes de nós, nunca tivesse sido tentada.
Tudo o que não implicava gastos orçamentais, ia por diante, melhor do que antes - a experiência conta muito, assim como a proximidade, as relações de amizade com os homólogos. Na Europa, falei de Anita Gradin e Georgina, mas havia mais, do Luxemburgo ao Reino Unido, de Jean Claude Juncker a David Waddington. O mesmo posso dizer de organizações internacionais, Conselho da Europa, CIM, OCDE, OIT, das Regiões Autónomas (Virgílio Teixeira, AJ Jardim, Duarte Mendes, Costa Neves eram poderosos aliados), do mundo associativo, que o CCP tinha por objetivo principal representar, de inúmeros emigrantes e instituições Diáspora". Multiplicavam-se as ações de formação, no teatro, no folclore e jogos tradicionais, na música, nos cursos de verão para jovens, através de protocolos com universidades, com a Federação de Folclore, com a cooperativa "Árvore" (foram várias as parcerias em exposições itinerantes, que atravessaram mares e continentes), as publicações de estudos sobre emigração portuguesa.
Aprendi, certamente, a trabalhar mais com a força das solidariedades do que com dinheiro. Até as viagens às comunidades fazia com custos insignificantes, porque na TAP os membros do governo não pagavam bilhete, nem mesmo em 1.º classe. Bastava eliminar as comitivas, ou reduzi-las a um acompanhante, prescindir de despesas de representação e de hotéis de luxo. Luxo só na única viagem que realizei na comitiva do Primeiro Ministro Cavaco Silva, em visita oficial a Paris. Chirac foi a mais agradável surpresa desses dias diferentes. Não o apreciava nada e fiquei encantada, com a sua vivacidade, a sua simpatia, "bref", o seu "charme". Com ele, senti-me à vontade, tanto para apresentar reivindicações sérias como para fazer conversa amena. A certa altura, perguntou-me: "Qual é o maior problema para a emigração portuguesa em França? Quero resolvê-lo!"
Minha resposta imediata: "Agora que já somos parceiros na CEE, esperamos o fim dos pagamento dos abonos de família, feitos em Portugal, por montantes muito inferiores aos que são feitos aos portugueses no território francês". Logo ali, perante as delegações dos dois países às conversações, garantiu: "Vou resolver isso!"- Bernard Bosson, que era Ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros, e um grande amigo de Portugal, disse-me, quando tomávamos café, num recanto do grande salão da Embaixada, na rue de Noisiel: "Parece impossível, mas ele é bem capaz de cumprir a promessa, desde que o papel lhe chegue diretamente". Explicou-me como... Não foi possível, porque o gabinete do nosso Primeiro Ministro não o permitiu - tudo seguiu pelos canais costumeiros, onde encontrou os previsíveis obstáculos intransponíveis. Duvido que com Sá Carneiro e António Patrício Gouveia não tivessemos tido vitória total...
Apesar disso - um ganho não alcançado, mas que à partida, ninguém não estava em agenda - o pior foi o chamado" encontro com a comunidade", na Embaixada. Alguns conselheiros das Comunidades trataram o Primeiro Ministro de uma forma bastante rude e incililizada. No Governo anterior, o mesmo acontecera com Mário Soares, que ficou furioso e lhes respondeu, civilizadamente, com palavras duras. Cavaco não lhes deu conversa, eu dei, coube-me a tarefa e tentei o "down-grade do conflito, mas o mal estava feito e o futuro do CCP ficou selado, no futuro governo de Cavaco. no qual eu já não estava, para lembrar que aquela meia dúzia de "guerrilheiros" não representava o verdadeiro espírito da instituição.
O meu último mandato governamental terminou no dia 14 de agosto de 1987, num grande palco improvisado no feérico castelo de Santa Maria da Feira, para o que seria também o último e o melhor "Festival da Canção Migrante!. Entre canções e abraços
UM MANDATO EM IMAGENS
1 Maio 1997, III Conferência de Ministros do Conselho da Europa - receção do Presidente da República Mário Soares pela presidente da Conferência, eu própria
2 - Sessão da III Conferência no salão árabe do Palácio da Bolsa (Porto)
3 - Palácio de Belém - entrega de credenciais de um Embaixador ao Presidente Ramalho Eanes (eu, em representação do MNE)
4 - Amarante colóquio em parceria da SECP com a Câmara Municipal - oradora Agustina Bessa Luís
5 - Amarante - geminação com Amarante do Piauí, na presença do Embaixador do Brasil, Alberto da Costa e Silva e da SECP, co-promotores da iniciativa, em parceria com os municípios, português e brasileiro
6 - Receção à Ministra Georgina Dufois, minha convidade - com mulheres políticas
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Guterres - a vitória do melhor
Não tinha certezas de nada, mas achava improvável a vitória do melhor . Nestas grandes organizações internacionais, a escolha de medíocres tornou-se normal. É o jogo de interesses que comanda a escolha - um jogo que produz, de preferência, Ban Ki-moons. Os Guterres são a exceção.
Sabendo que em política falar de transparência não significa pratica-la. receava que todo o processo inovador de audições públicas, engendrado para a eleição do Secretário-Geral das Nações Unidas, fosse um simples "fazer de conta". Não foi - e isso talvez se fique a dever, unicamente, à abissal diferença de qualidade que, desde a primeira à última hora, separou Guterres de todos os outros ... e outras. Tão avassaladora que o impôs, em definitivo.
António Guterres é mais inteligente e mais culto do que qualquer dos políticos da sua geração, a nível planetário. E quem o conhece sabe que é também - coisa ainda mais rara, nos tempos de hoje e em todos os tempos - um homem de imenso idealismo e generosidade.
Por isso, me sinto tão feliz com esta vitória. Inesperada por ser justíssima!
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
BOAS TRADIÇÕES E MAUS COSTUMES (a propósito da "praxe" académica)
A minha opinião sobre a "praxe" é, devo dizê-lo, influenciada pela experiência vivida na Universidade de Coimbra (1960/65), há mais de meio século.
Como as regras vinham dos tempos em que a Academia era integralmente masculina, quando as primeiras mulheres ingressaram nas Faculdades houve que as integrar - embora tão marginalmente quanto possível. Antes do mais, trataram da feminização do traje. O equivalente encontrado à capa e batina foi a capa e um sóbrio mas feminino fato de saia e casaco. A única sanção a que as estudantes estavam sujeitas, na prática, tinha a ver com o uso incorreto desse traje - por exemplo, ousar uma blusa às riscas, ou uns sapatos brancos, coisa que não lembrava a ninguém. Uma outra significativa adaptação se impunha no dia da formatura: à saída do último exame, o novo doutor era cercado pelos amigos que, no meio de festiva algazarra, lhe rasgavam a batina. À nova doutora, se estivesse trajada a preceito, apenas cortavam, gentilmente, a gravata preta. Galantes formas de sexismo! A menos amável de que me recordo aconteceu no ano em que pus fitas. A pasta com as fitas só podia usar-se com capa e batina (ou fato). Contudo, sempre se abrira uma exceção para o baile de gala da "Queima", permitindo às (quase) doutoras comparecerem de vestido comprido e a pasta na mão. Nesse ano, porém, o todo poderoso "Conselho de veteranos" decidiu acabar com o privilégio e as estudantes tiveram de ir à gala sem as insígnias... Todas, menos uma: eu. Fui ao baile com a capa e o fato de todos os dias, e a pasta com as fitas vermelhas. A trupe de veteranos, que vigiava a porta principal (qual "polícia de costumes" do Irão ou da Arábia Saudita), quis, em vão barrar-me a entrada, assim evidenciando que estava em curso uma golpada misógina, mais do que a pura defesa da ortodoxia do traje. Não esperavam que uma só colega teimasse em aparecer com o fato praxisticamente certo, embora socialmente incorreto. Claro que eu destoava no salão de festas, entre as sedas e as rendas das minhas amigas, mas sentia-me bem na veste da feminista que resistira ao "diktat" dos "veteranos".
Globalmente, aliás, nem tudo era mau na vivência das tradições coimbrãs: gostava do fado, das serenatas, das "latadas", dos cortejos da "Queima", do sobe e desce das ruelas mediavais da cidade. E divertia-me com os rituais que via como essencialmente lúdicos, com a irreverência, a graça e o entusiasmo de viver os anos de juventude, em alegre companhia, na senda dos feitos que Trindade Coelho registou na melhor crónica que jamais se escreveu sobre Coimbra ( "In illo tempore"). Gostava da minha capa (tão confortável, salvo num salão de dança) como símbolo de pertença a um universo de sã camaradagem e amizade. E, para tanto, não precisei de percorrer a via iniciática de praxes, contra as quais me revoltava, mesmo contra aquelas que teriam um sentido pedagógico - caso da proibição dos caloiros andaram sozinhos, à noite, pela cidade, que, supostamente, visava protegê-los da vida boémia e obrigá-los a estudar. A partir do sol posto, começava a caça aos caloiros... As "trupes" escondiam-se nas sombras das vielas e, de repente, cercavam as vítimas, num círculo de vultos negros do qual não escapavam sem tesouradas fatais nas cabeleiras (a única solução era irem, depois, ao barbeiro rapar o cabelo, uniformemente...) . Escapavam, porém, se tivessem "proteção" de uma senhora, com quem andassem de braço dado. A senhora podia, curiosamente, ser uma caloira! Eu própria "salvei" muitos colegas, dando-lhes, momentaneamente, o braço, mal pressentia a movimentação das sinistras trupes ...
2 - Voltei a Coimbra, para dar aulas na Faculdade de Direito, na década seguinte, em 1974, nas vésperas do 25 de abril, e lá fiquei durante dois anos de boa memória. Agitação havia bastante, no interior e exterior da universidade, mas não relacionada com a praxe, que fora totalmente abolida pelos ventos da Revolução, como vestígio do fascismo. Sei que o epíteto de "fascista" foi, então, utilizado a torto e a direito, mas neste domínio, por sinal, com alguma propriedade, porque há, nas hierarquias em que a praxe se organiza como corporação, nos ritos de obediência que impõe, cegamente, afinidades com o "ancien régime".
O pós revolução era a altura ideal para repensar a praxe antiga, para separar o que ela continha de trigo e de joio. Infelizmente, veio a ser reinstalada com facetas incomparavelmente mais malignas, um pouco por todo o lado, em universidades sem passado, sem tradições próprias, onde constituem meros jogos de imitação - e jogos perigosos, reinventados com uma brutalidade sádica que fazem mortos e feridos. Se a prática continuada os converte em costumes, são certamente, maus costumes, quando não crimes.
A proibição das praxes violentas é, a meu ver, um imperativo numa sociedade democrática. Muito bem anda o Ministro do Ensino Superior ao tomar posição neste sentido.
3 - A dificuldade maior, no que respeita à proibição, é traçar a fronteira entre ações livremente consentidas e lícitas, de caráter lúdico e o que é "bullying", comportamento degradante, indigno, criminoso.
Por isso, para além da corajosa e lúcida intervenção do Ministro, uma outra boa notícia é o anúncio de uma investigação científica sobre a realidade atual do universo das praxes , no seio de uma universidade, em Lisboa. Espero que uma tal análise interdisciplinar, ampla e rigorosa, possa lançar nova luz sobre as sombras que envolvem a evolução do fenómeno.
(em "A Defesa de Espinho", 29 de setembro)
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
O SISTEMA DE QUOTAS PARA A IGUALDADE - GÉNESE E LIMITES
(a propósito do "caso Guterres")
1 - O sistema de quotas, como instrumento para a igualdade de género, nasceu nos países nórdicos, em meados do século passado - concretamente no interior do Partido Social Democrata sueco, por iniciativa de um grupo de mulheres, com Anita Gradin como porta-voz.
Sou, há muitos anos, amiga da Embaixadora Anita Gradin, que foi Ministra dos governos de Olaf Palme, Presidente da Internacional Socialista de Mulheres, Comissária da União Europeia e ocupou um extenso rol de outros cargos cimeiros. Conhecia-a quando fomos, conjuntamente, eleitas Vice- Presidentes da Conferência dos Ministros do Conselho da Europa responsáveis pelas migrações, na cidade de Roma, em 1983. A nossa sintonia de posições no campo da igualdade, quer para os imigrantes quer para as mulheres, cimentou, de imediato, uma aliança em torno de causas comuns e uma amizade duradoura.
Anos mais tarde, quando presidi, em Lisboa, à Comissão Parlamentar da Condição Feminina, convidei Anita para ir a São Bento falar do processo de implementação da paridade de género no seu país e, seguidamente, em muitos outros, à volta da Terra. Como aí nos contou, essa história não se fez sem resistência, dentro do seu partido, onde a coutada masculina das listas eleitorais para o parlamento era preservada com o argumento, ainda hoje corrente em Portugal, de que não havia mulheres interessadas, com o necessário "curriculum". A jovem Gradin levou à reunião decisiva, em Estocolmo, um "dossier", com dezenas de nomes de candidatas, todas detentoras de elevadas qualificações. Na realidade, mais qualificadas do que a maioria dos homens presentes. Surpreendidos, vencidos e convencidos, os líderes partidários tiveram de as aceitar e nunca mais houve um passo atrás.
As regras da paridade, que visam garantir representatividade política equivalente às duas metades da Humanidade, mulheres e homens, continuam, porém, a ser, entre nós, objeto de suspeições e polémicas, por parte dos que não se apercebem que imposições semelhantes existem em outros domínios, desde tempos imemoriais, vistas como coisa natural e, por isso, tão invisíveis como o ar que se respira. Dois exemplos: a distribuição de deputados por círculos territoriais, em função do número de habitantes de cada círculo, ou a alternância da chefia das Forças Armadas, entre o Exército, a Marinha, a Força Aérea.
Dentro do meu partido há quotas para comissões concelhias ou distritais, há quotas para jovens, há quotas para sindicalistas, mas para mulheres, nem pensar! Raríssimos eram os militantes que, até recentemente, as defendiam - Marcelo Rebelo de Sousa, Leonor Beleza, José Miguel Júdice, eu própria... Agora suponho que haverá mais, mas, para a maioria, as "quotas femininas" ainda são depreciadas como uma forma de promoção forçada, apressada e imerecida.
2 - Bem pelo contrário, eu julgo que se fundamentam na procura de uma legítima partilha do poder (entre os sexos, exatamente como entre as diversas regiões, ou entre ramos das Forças Armadas). Ou seja, na procura de um equilíbrio, mais moroso e difícil de atingir por outras vias. Inadmissível é, obviamente, a aplicação de um sistema de quotas, onde quer que, através de testes ou exames, com critérios justos e objetivos, se possa proceder à seleção dos melhores - como acontece no acesso à universidade, ao emprego, assim como à progressão na carreira, através de prestação de provas.
A este respeito, parece-me paradigmática a legislação que criou (dessa vez, por iniciativa de um partido conservador), na sempre pioneira Suécia , o "Ombudsman para a Igualdade" , o "Provedor de Igualdade", na tradução portuguesa. Trata-se de um normativo baseado na ideia de combater a segmentação sexista do mercado de trabalho, dando preferência ao sexo subrepresentado em cada uma das profissões, em condições de igualdade de competência. Só nesse condicionalismo, há lugar à precedência de mulheres nas profissões masculinas e de homens naquelas que são predominantemente femininas.
No campo da política, isto não é viável - não há barreiras que se vençam por realização de exames ou pela apresentação de currículos, de obra feita - manda, acima de tudo, a subjetividade, o espírito de grupo, o companheirismo, para não dizer o compadrio masculino. Na verdade, os partidos nunca se abriram espontaneamente às mulheres. Elas permaneceram de fora, excluídas da participação igualitária, mesmo depois de terem dado amplas provas das suas capacidades em quaisquer outros domínios, na vida académica e cultural, nas mais diversas atividades e empregos. A disparidade dos níveis de participação feminina na política face à registada nesses outros setores da vida em sociedade era um índice seguro de discriminação e deu aso a que o legislador interviesse, impondo regras vinculativas para a sua inclusão. As quotas foram e são, neste contexto, a meu ver, legitimadas por uma presunção jurídica de discriminação, que não admite prova em contrário.
3- A aplicação das quotas não é, pois, incompatível com a exigência de mérito, antes o pressupõe. E é, também, compatível com provas de seleção, onde elas sejam possíveis, desde que respeitem, em absoluto, o critério da primazia ou da igualdade de competências - como o comprova a experiência de muitas décadas do Ombudsman sueco, de que falámos..
A ver vamos se a ONU saberá, como deve, cumprir aquele critério fundamental no preenchimento do cargo de Secretário- Geral da Organização... Tendo o cargo sido invariavelmente ocupado por homens, estamos de acordo que a escolha de uma mulher seria o ideal - desde que ela se apresentasse em condições de igualdade, quando não de superioridade, em relação aos concorrentes masculinos. Mas isso, neste ano de 2016, de facto, não acontecerá! O melhor, muito melhor do que todos os outros, chama-se António Guterres, um homem nascido no sul da Europa, em Portugal. Demonstrou-o já, sem deixar margem para dúvidas, de uma forma brilhante e convincente, em três sucessivas audições para avaliação das candidatas e dos candidatos. Se viesse a ser preterido, teria sido discriminado em função do sexo, ou da origem geográfica ou de um qualquer obscuro e ilegítimo interesse, vítima de uma autêntica desvirtuação ou transmutação do sistema de "quotas da igualdade" em "quotas da desigualdade"... Seria uma vergonha para o ONU,e uma perda para o mundo.
Em "A DEFESA DE ESPINHO"
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
3 golos em ROMA
Roma virou um paraíso de Dragões! Quem poderia prever os 3-0 de Roma? Milagre, milagre!
Três golos magníficos - de Felipe (na baliza certa), Layún (que veio do banco, para marcar, com toda a serenidade e virtuosismo) e Corona (um "tiro" monumental).
Estamos na Champions e o Maxi Pereira no hospital
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
DOIS GOLOS NO DRAGÃO
O FCP-ROMA acabou em empate a 1-1, mas os dois golos foram marcados por jogadores do Porto, um para cada lado.
Já é o segundo que Felipe (com "e") introduz na baliza errada. Porque não experimentá-lo lá à frente, e contratar dois centrais de grande classe para a retaguarda? Não seriam mais necessários do que o Rafa?
Com um Ricardo Carvalho, muito possivelmente, hoje, o FCP teria vencido a partida e chegaria a Roma com mais hipóteses de não sofrer golos. Uma diferença que valeria muitos milhões...
LOPETEGUI e ESPÍRITO SANTO
No futebol não há impossíveis - como, por exemplo, Portugal ganhar um "Europeu" à base de empates. Mas não se prevê, à partida, que o FCP, depois do 1-1 no estádio do Dragão, ganhe a eliminatória, empatando a 2-2, ou vencendo o jogo em Roma. Oxalá isso aconteça!
Hoje, custou-me mais ver a forma chocante como RÚBEN NEVES foi tratado pelo treinador, do que qualquer outra coisa.
Quando Lopetegui entrou a maltratar QUARESMA, eu escrevi, preto no branco, que avaliaria o basco pelo evoluir do seu relacionamento com aquele fantástico génio do futebol. Digo, hoje, exatamente o mesmo de Espírito Santo face a Rúben Neves.
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