quarta-feira, 16 de outubro de 2019

AS COMUNIDADES PORTUGUESAS COMO REALIDADE INSTITUCIONAL

1 - Falar de comunidades portuguesas tornou-se uma outra maneira de dizer emigração. Dá-se -lhes, correntemente, um significado estatístico - a comunidade portuguesa de França conta um milhão de portugueses, a da Africa do Sul  meio milhão... E assim se vão somando milhões, por alto, porque ninguém sabe, com inteiro rigor, quantos são (e, quase sempre, ficam aquém da realidade, num universo em expansão, sempre que novos portugueses começam a ver-se como tal, reclamando a sua ascendência…)
Aprendi, logo na minha primeira visita "à comunidade da América", em 1980, que o que interessava, em termos de presença e influência portuguesa, era essencialmente de ordem qualitativa e não quantitativa - era a organização do grupo, não "a comunidade" abstrata, mas no plural, "as comunidades", num sentido orgânico e dinâmico.
Depois, em muitas outras visitas circulares, a correr de cidade em cidade, recebida nas associações, nas escolas, nas paróquias portuguesas (normalmente sem tempo para ver o resto da cidade) repetiu-se a extraordinária sensação de que regressava ao país, sem nunca dele ter saído... Tudo o que possamos ter lido e ouvido de terceiros não nos prepara, nunca, para o que vamos viver, na convivência com esses outro Portugal, mais emotivo e mais consciente de si, que é, nas palavras do Prof Adriano Moreira, a "Nação dos afetos" - um espaço extra territorial de saudade e presença lusófona, (em alguns casos já somente lusófila...), onde tem a sua sede um conjunto de instituições, que os cidadãos construíram para suprir a grande ausência do Estado Português, no plano social ou no da cultura.
Esses mundos, nossos, são criados não diretamente pelo movimento migratório -  que seria, como aliás à partida se esperava, fator de dispersão e perda certa -  mas, sim, por um poderoso movimento associativo,  pura "sociedade civil". De país para país, sem qualquer ligação entre si, em cada novo ciclo migratório, a reação dos Portugueses foi espantosamente idêntica. Com dimensão variável, porque são diferentes os meios postos ao serviço do projeto comunitário, por todo o lado encontramos associações de solidariedade, de defesa da língua e da cultura, centros recreativos e  clubes desportivos. A semelhança só pode vir de paradigmas de organização trazidos da terra de origem ("réplicas" de aldeias portuguesas, na expressão de alguns especialistas neste domínio). O orfeão, o rancho folclórico, o teatro de amadores, o clube de futebol... As beneficências (seguindo o modelo das " misericórdias"), as sociedades fraternais, as escolas, os lares de idosos... as Igrejas, as Sociedades do Divino Espírito Santo, que se espalham, às centenas, no mapa da Califórnia e noutros lugares de imigração açoriana...
Se a existência deste imenso património tivesse dependido do mais pequeno gesto do Estado Português, nem uma só dessas estruturas (algumas monumentais, como as do Brasil) teria conseguido erguer-se. Bem poderíamos parafrasear o Presidente Kennedy, mas usando o tempo pretérito: “não lhes perguntem o que o Pais fez por eles, perguntem-lhes o que eles fizeram pelo País”.
2 - A obra está por todo o lado, como os próprios portugueses. É uma obra que se deve à reconversão de uma tradicional emigração de homens sós (consentida e privilegiada pelo Estado, sempre sedento das remessas que nessa situação necessariamente mandavam para a terra...) em emigração familiar, com a sua metade feminina - quase invisível na direção das instituições mais antigas, mas determinante em termos de integração na sociedade estrangeira e na vida das organizações de cultura portuguesa,  que, aliás, se vão abrindo à sua participação igualitária,  pouco a pouco...
As organizações mais do que centenárias encontraram sempre continuadores, mas, tal como muitas outras da emigração mais recente, um pouco por todo o lado, começaram, há alguns anos, a questionar seriamente o seu futuro, visto como dependente da renovação dos fluxos migratórios .
O discurso oficial, no período posterior à adesão à CEE (esse “clube de ricos”), chegou a anunciar o fim dos tempos da nossa emigração! E os Portugueses acreditaram, durante cerca de 20 anos, porque o fenómeno migratório se devera, fundamentalmente, à pobreza, que parecia coisa do passado...
Ora a pobreza está, agora, de volta ao País, pela mão de um Governo, que, em tempo de crise, não hesita em levar a cabo um programa de empobrecimento geral, de completa destruição das classes médias. E, assim, um novo e dececionante ciclo de emigração se desenha, - emigração desmesurada como aquela que há precisamente um século, o Prof Fernando Emygdio da Silva denunciava chamando-lhe “emigração delirante”, Saem todos  os que podem sair -- os mais e os menos qualificados, os mais jovens e os mais velhos, os homens e as mulheres ( ainda uma minoria, é certo, mas, pela primeira vez, autonomamente)
Estará à vista a solução para uma segunda vida do associativismo, e, com ele, das comunidades da Diáspora, num novo equilíbrio de género e geração.? Ninguém pode ter certezas... Tudo vai depender da atitude dos que partem: como desistentes, deixando o País para trás, ou como resistentes, levando  Portugal consigo.

PROJETO ASAS NA DIÁSPORA


ACADEMIAS SENIORES DE ARTES E SABERES (ASAS)
ESPAÇO DE ANIMAÇÃO CULTURAL NAS ASSOCIAÇÕES PORTUGUESAS DO ESTRANGEIRO

1 - No ano europeu para o envelhecimento activo e o diálogo intergeracional, a Associação Mulher Migrante, com o apoio da SECP e acolaboração de vários parceiros, entre os quais a Universidade Aberta, propõe a criação de uma rede de "Academias" através da organização de cursos destinados a maiores de 55 anos, versando sobre uma diversidade
de matérias, da livre escolha de cada associação.

2 - Os cursos serão constituídos por aulas, palestras, seminários, viagens de estudo ou outras iniciativas, podendo os participantes seleccionar os que mais lhe interessem.
É desejável que a frequência seja aberta, por igual, a mulheres e homens, com a preocupação de assegurar a natural paridade (ao menos em termos de uma percentagem significativa de ambos os géneros) e que entre os monitores de cursos ou conferencistas se procure a componente intergeracional, apelando, quando se julgar, possível e vantajoso, à
colaboração dos mais jovens.

3 - Essas tarefas deverão ser desempenhadas, em princípio, em regime de voluntariado, embora cada Academia seja autónoma nas suas decisões, podendo optar por formas de remuneração simbólica dos docentes ou solicitar contribuição aos auditores para custear as despesas havidas com o seu funcionamento.

4 - Nada impede, também que os auditores de um curso sejam os mestres em outros, de sua especialidade, visto que a troca de experiências de vida e de saberes é uma dos objectivos principais do” projecto ASAS”.

5 - Um tema recomendado, ao longo de 2012 e 2013, a todas as Academias que venham a criar-se, neste contexto, é a recolha oral de narrativas de vida dos emigrantes e (ou) a escrita das suas  autobiografias. Para o desenvolvimento de actividades neste domínio, as academias contarão com a cooperação pedagógica e científica da Doutora Joana Miranda, da Universidade Aberta de Lisboa e, eventualmente, de docentes de outras universidades que se disponibilizem a colaborar.

6 - Exemplificação de outras disciplinas susceptíveis de comporem os “curricula”das Academias: Dança, Folclore, Teatro, Canto, Artes Plásticas, Culinária, Nutrição, Jogos e Desporto para todos, História, Línguas, e Literaturas,
Direitos Humanos, Migrações Internacionais, Informática, Redes Sociais, Escrita Criativa, Associativismo

7 - Inspiradas nos moldes de funcionamento das chamadas "universidades Seniores" - que conhecem um grande sucesso e desenvolvimento em Portugal - as “Academias” são à partida mais simples  de implementar,
por poderem facilmente integrar-se na programação cultural das instituições aderentes.
A inserção associativa será particularmente aconselhável em colectividade que promovam “Lares de Dia”, instituições geriátricas, ou Centros de cultura, lazer e desporto, onde se constate o afastamento das primeiras gerações de emigrantes.

8 - Considera-se, igualmente, importante encorajar o nascimento de "Universidades Seniores", semelhantes às existentes no País, dotadas de autonomia institucional, como vem a ser tentado desde 2009, nos termos das recomendações do Encontro de Mulheres da Diáspora, promovido pela Associação Mulher Migrante, (estando em vias de lançamento, as de Joanesburgo e Buenos Aires).

9 - Nas “Academias Seniores” como nas Universidades Seniores, em princípio ,não há testes ou avaliações, mas é solicitada aos participantes uma atitude interventiva e a regularidade de atendimento nas iniciativas programadas. No final  de cada ano, poderá ser oferecido um diploma de participação mas não títulos académicos.

10 - Igualmente se prevê a possibilidade de edição das melhores”narrativas de vida” , que sejam recolhidas pelas Academias e enviadas à Associação "Mulher Migrante".

11 de Junho de 2012

RESPOSTA AO Questionário da Dr.ª Luísa DESMET

1 – Em que data (ano civil) iniciou a sua profissão nos serviços ligados à
      Emigração? E qual a função que exercia?
2 – Que função desempenhou ou tem vindo a desempenhar?
4 – Qual a natureza e forma que revestia o apoio do Estado Português dado aos Emigrantes na altura em que iniciou as suas funções (a nível individual e a nível das Associações)?
5- Quais os critérios de selecção dos pedidos de apoio e que tipos de apoio eram dados?
 6- Que tipo de apoio é dado actualmente aos Emigrantes (a nível individual a nível das Associações)?
7- Que legislação entrou em vigor durante o tempo que exerceu / em exercício das suas funções que considerou/a ser importante tanto na auscultação do Estado português das necessidades dos Emigrantes, como nos Apoios socioeconómicos que lhes são oferecidos ?
8- Acha que a forma de difusão das informações e/ou da criação de novos serviços destinados aos emigrantes é eficaz junto dos emigrantes?
9 – Trabalham ou trabalhavam Assistentes Sociais nos Consulados?
      (Se respondeu negativamente à questão anterior, responda à questão 9 a)
 9a) - Que técnico executava o trabalho social de apoio aos Emigrantes?
10 – Entende ser necessária a intervenção de um Assistente Social junto das Comunidades de Emigrantes Portugueses? Porquê?
Maria Manuela Aguiar Dias Moreira
Gondomar - Porto
9 de Junho de 1942
Antiga Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, ex deputada da emigração pelos círculos de Fora da Europa e da Europa, ex presidente da Comissão de migrações, refugiados e demografia da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Actualmente membro de ONG’s voltadas para as temáticas da emigração – Presidente da Assembleia-geral da Associação de Estudos Mulher Migrante, Membro do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Brasileira, membro da Academia do Bacalhau de Joanesburgo e do Porto, Membro do Conselho de Filiais e Delegações do FCP. Sócia honorária de diversas Associações das comunidades portuguesas do estrangeiro. Membro honorário da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa
1 - Em 1980, Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas
2 - Membro de quatro Governos Constitucionais nesta pasta (VI, VII, IX e X)
Deputada da emigração Fora da Europa eleita em 1980, 1981, 1983, da Europa, em 1985, (Porto e Aveiro em 1987 e 1991), Fora da Europa em 1995, 1999,1 2002. (até 2005)
3 ? (sem pergunta)
4 - Através dos serviços da SEECP, do IAECP,e suas delegações, dentro e fora do País, eram dadas informações a emigrantes e candidatos à emigração, apoiados processos concreto de emigração (nomeadamente para a Suiça, em negociação com o CIM, depois, OIM),emitidos passaportes, negociados acordos bilaterais de emigração ou segurança social, promovidas reuniões bilaterais para seu acompanhamento, assegurada a participação em organizações internacionais, como o Conselho da Europa ou a OCDE, elaborados os estudos para o SOPEMI, acompanhados os portugueses nas diversas fases do ciclo migratório, apoiado o regresso com facilidades de crédito (juros bonificados  de contas bancárias,, empréstimos para aquisição de casas ou investimentos) e de registo de automóveis com facilidades aduaneiras, repatriamentos...
Por meio de uma parceria com a RTP era assegurada a produção de programas de televisão para os emigrantes na França e Alemanha - programas que, a partir da década de 80, foram igualmente cedidos para os EUA, Canadá outros países onde fossem dadas facilidades de emissão em língua portuguesa. Para os media genericamente passaram a ser enviadas (para terminais de telex ou via telex dos consulados) notícias sobre o País, elaboradas pelas agências noticiosas e postas à disposição de todos gratuitamente.
Os apoios às Associações eram inicialmente dados de preferência a olhar os mais jovens, para actividades desportivas, para o folclore, e para o ensino (nomeadamente com oferta de Pequenas bibliotecas).
Em !980/81 foi criado um Conselho das Comunidades Portuguesas de origem associativa - com funções consultivas, para a co-participação nas políticas de emigração e para a colaboração nos programas sociais e culturais do movimento associativo. - que assim se foi desenvolvendo e abrangendo novas formas de cooperação.
 5 - Os subsídios às associações eram inicialmente canalizados para a emigração europeia - França e Alemanha, em primeira linha - e objecto de parecer de comissões de análise. Centravam-se sobretudo, como disse, no estímulo à actividade de grupos folclóricos e desportivos - oferta de trajes e equipamentos, o que podemos considerar uma política cultural para as comunidades algum tanto  redutora, face ao que deveria ser, em resposta aos próprios anseios e capacidades dos portugueses
A partir de 80, com a institucionalização do CCP, a SECP apresentava ao próprio “Conselho” um "programa cultural", inspirado essencialmente nos pedidos (ou nos programas culturais das Associações), com mais ambição, embora não com meios compatíveis com uma grande mudança de um estado de coisas, isto é, do que poderia ser um investimento mais forte e reprodutivo do Estado em defesa da língua e cultura. De qualquer forma, os governos a que pertenci reconheciam que o associativismo levara a cabo, no domínio cultural, como social, acções com grande capacidade e eficácia, nesse como em anteriores ciclos de emigração, substituindo-se à tradicional indiferença e inércia do Estado português. E se o Estado queria começar a fazer mais e melhor, devia essencialmente, com os meios disponíveis, secundar e potenciar a actividade do movimento associativo e até organizar em colaboração com este movimento aquelas medidas que se destinavam em primeira linha aos indivíduos e não às próprias colectividades. O CCP composto por dirigentes eleitos no universo associativo inseria-se nesta visão do mundo da "Diáspora" e do relacionamento Estado-Sociedade civil. Nesta perspectiva, o CCP era um órgão de enorme importância política, com carácter representativo, embora com funções consultivas. Funcionou regularmente entre 81 e 87/88, apesar de clivagens de ordem política no seu interior (nomeadamente entre Europa e os outros continentes), acabando por ser vítima do seu perfil "reivindicativo", a partir de 1988. O preço dessa postura acabou por se, com governantes menos conhecedores da sua história e percurso, globalmente muito positivos, a extinção pura e simples. Houve, posteriormente, no início de 90, legislação que reformulou o Conselho – mas que não chegou a ser verdadeiramente implementada. Na sua segunda vida, a partir de 96/97, rompeu - se com o modelo associativo original, passando o CCP a ser eleito por sufrágio directo e universal. Perdeu, assim, a força do enraizamento associativo, apesar de ganhar a força de uma nova legitimidade democrática. Poder-se-ia, a meu ver, como acontece no paradigma italiano, combinar as duas formas de legitimidade. Foi a proposta que apresentei na AR, em 1996, mas não teve suporte maioritário, num tempo em que o meu partido era oposição parlamentar.
6 - Em anos mais recentes, diminuiu o impacte dos apoios ao regresso (juros bonificados, incentivos ao investimento em casas e negócios).
 Criou-se, na década de 90, a RTP- Internacional  - uma iniciativa de inegável importância estratégica no relacionamento com o mundo lusófono – CPLP e Diáspora -  no aspecto cultural e informativo. –
 No início do século foi instituído o ASIC (Apoio Social a Idosos Carenciados), que, sendo uma medida que ia ao encontro das reivindicações dos portugueses, sobretudo na América do Sul e na África, ficou longe de constituir, como se esperava, uma verdadeira pensão mínima, semelhante à praticada pela Itália e, também, em moldes diferentes, pela Espanha.
Actualmente, encontra-se em fase de reestruturação profunda o sistema de ensino, e os moldes de actuação do Instituto Camões (sedeado no MNE, contrariando o sistema tradicional, que mantinha a condução da política de ensino no ministério da Educação). É cedo ainda para avaliar as vantagens e inconvenientes desta opção.
De salientar, também, pela negativa, a extinção, na década de 90, do IAECP e a integração dos seus serviços na DGACCP - uma irremediável perda de autonomia e  de especialização no tratamento das questões da emigração
7 - Entre a legislação mais importante referirei
A criação do IAECP (englobando o Instituto de Emigração e a Direcção Geral da Emigração)
Alteração da Lei da Nacionalidade que permitiu a dupla nacionalidade (1981)
A criação do CCP (lei de 1980, 1ª reunião em 1981)
A convocatória do CCP por regiões
A facilitação do recenseamento eleitoral no estrangeiro
A criação da Comissão Interministerial para a Emigração (1987)
As alterações da revisão constitucional que permitiram a votação na eleição presidencial (sendo Jorge Sampaio o 1º presidente eleito pelos portugueses da emigração)
A criação da RTP Internacional
A criação de Delegações regionais da emigração
A alteração constitucional de 2001 que permitiu o aprofundamento do Tratado de igualdade de direitos e deveres entre Portugueses e brasileiros (estatuto de direitos Políticos) - uma cidadania Luso Brasileira, com um conteúdo de direitos políticos muito mais avançado do que os da cidadania europeia (incluindo votação e eleição para órgãos de soberania)
A concessão de retroactividade à recuperação da nacionalidade portuguesa perdida ex legge antes de 1981
A concessão do direito de voto nas eleições para o Parlamento Europeu fora do espaço da EU
Só mais uma referência a reformas ou inovações que não careceram de medidas legislativas para sua execução e que nem por isso terão sido menos relevantes. Por exemplo, a criação, na primeira metade da década de 80, do Fundo Documental e Iconográfico das Comunidades Portuguesas, de uma linha editorial (com dezenas de publicações de carácter científico, literário, outras menos ambiciosas, de recolha de imagens e outros dados informativos), de um Centro de Estudos (que coordenava linhas de investigação e publicações), de parcerias com universidades, de uma Comissão Interdepartamental para apoio ao regresso de emigrantes, funcionando a nível regional, (que conseguiu excelentes resultados na articulação entre serviços da área económica, empresarial, e social, sobretudo no norte e no centro do País): a descentralização de serviços, em delegações abertas por protocolos com Câmaras municipais ou com sede em Governos civis.
8 - As novas tecnologias, se bem aproveitadas, podem introduzir enormes alterações qualitativas na prestação de informação e serviços aos cidadãos do estrangeiro.
Há deste ponto de vista um enorme potencial de melhorias e de progresso - mas não pode ser pretexto para a redução das formas de prestação de serviços tradicional, enquanto não houver condições para a generalidade dos emigrantes aceder a esse novo mundo de informação e relacionamento.
9 - As primeiras Delegações para acompanhamento da situação dos portugueses no estrangeiro são anteriores a 1974 - ficam a dever-se ao Secretariado Nacional da Emigração -  e tinham como primeira finalidade o apoio social  Alguns dos funcionários que as compunham eram precisamente assistentes sociais. Depois da democratização do regime, a partir de 1974, e, designadamente, na década de 80, estenderam-se a novos países - como a Suiça, a Venezuela ou a África do Sul - e a novos domínios., reunindo assistentes sociais, animadores culturais, juristas, sociólogos, psicólogos -  isto é, funcionários com formação diversa, mas sempre com declarada "vocação" social.. Junto de várias Embaixadas, foram também colocados Conselheiros Sociais, com esse mesmo perfil. Era toda uma rede bem articulada com a direcção do IAECP, que desempenhou um papel fundamental, para o reconhecimento de problemas e a procura de respostas - num tempo que já não era de grandes movimentos de saída, mas de regresso ao País. Hoje, numa fase de recomeço de um êxodo tremendo, mais se justificaria ainda a sua existência. Todavia há muito que o IAECP foi extinto, e que muitos desses especialistas, incluindo a maioria dos Conselheiros sociais, foram considerados dispensáveis.
10 - A nova emigração, de que tanto se fala, identificando-a com um determinado perfil - juventude, mulheres e homens com altas qualificações - é, na verdade muito mais complexa e abrangente. Há trabalhadores com baixa escolarização e formação profissional, como há licenciados, quadros que fogem ao desemprego e vão à aventura, desprotegidos e fragilizados pela crise nos próprios "mercados de trabalho" que procuram, sobretudo na Europa. Há gente de todas as idades, de todas as regiões do País, que se vão, sujeitos a novas formas de exploração...Como há outros que partem com situação garantida e boas perspectivas de carreira.
É correcta a posição que o responsável pela SECP tem tomado, ao assumir a dimensão do fenómeno e ao alertar para os perigos de uma saída sem informação sobre as possibilidades oferecidas pelo país de destino.
 Mas é essencial saber o que se passa, nomeadamente com quem já partiu nessas condições e equacionar formas de ajuda, de cooperação com o movimento associativo, que tão activo e solidário foi nos ciclos anteriores.
O papel de assistentes sociais, que possam promover no terreno acções coordenadas com o associativismo, parece-me o melhor paradigma de intervenção na conjuntura que atravessamos, para valer a uma emigração que se assemelha muito - apesar das suas especificidades - à dos momentos mais dramáticos do passado remoto ou recente.
No caso dos novos emigrantes "de sucesso" - que serão muitos - deve preocupar-nos a probabilidade do seu não retorno. Mas aos novos explorados - que são muitos também - é preciso prestar apoio, dar informação no imediato, com serviços de proximidade e através de especialistas – caso justamente dos assistentes sociais
10 - Está criada hoje na opinião pública a imagem de uma nova emigração de sucesso, composta por jovens, mulheres e homens - numa paridade, também ela facto novo - altamente qualificados. Essa emigração existe, mas é apenas uma parte da realidade inteira. Coexiste com uma emigração muito semelhante à tradicional - formada por portugueses com baixas qualificações e formação profissional, que fogem à pobreza e ao desemprego e caiem em situações de exploração e miséria.
O actual responsável pela SECP veio reconhecer os números, a dimensão do fenómeno e os perigos das partidas sem informação segura sobre a realidade laboral dos países demandados.
Julgo que, mesmo na conjuntura económica e financeira em que Portugal se encontra, é uma verdadeira prioridade nacional recriar uma rede de serviços de apoio social, com poucos mas altamente especializados funcionários, que possam fazer levantamento de situações, dar informação e conselho aos que se encontram ao abandono, e procurar suscitar a solidariedade do movimento associativo, que, nos anteriores ciclos migratórios, desempenhou um papel de primeira importância.

JOSÉ TAVARES

José Tavares é um dos maiores pintores de Espinho e todos ganhamos em o reconhecer - antes de mais a terra a as gentes que nas telas transformou em obras-de-arte. O mesmo se diga do País, mas é bem evidente nesse precioso legado que o seu Portugal começava nesta cidade de mar sem fim e da dura faina da pesca, em pequenos barcos coloridos, onde se aventuram homens de rostos marcados pelo sol e pelo sal das bátega - um tema recorrente, fonte de inspiração, de emoção estética, e, também, de solidariedade humana, eu diria até de intervenção social. É um pintor de todos, mas, em primeiro lugar, dos mais humildes,dos pescadores, dos pequenos artífices, dos velhos, dos pobres, dos injustiçados numa sociedade dividida entre extremos de privilégio e de carência, que assim denunciava...A sua arte faz-se desses contrastes, pode contar histórias, em quadros de um realismo absoluto, tal como abrir-se ao sonho e à formosura idílica das coisas da natureza e das pessoas. Há nela puros poemas de luz e de cor, assim como há denúncia das injustiças e dos injustiçados, uma verdadeira afirmação de cidadania,de uma consciência social que se exprime na força das imagens. Por demasiado tempo José Tavares permaneceu um quase desconhecido, embora muito talentoso artista. Talvez por opção própria, por não querer assumir - se como tal, levado pela simplicidade e discrição, que eram traços tão simpáticos da sua maneira de estar face aos outros. Um homem extremamente amável e expansivo, mas avesso a toda a forma de exibicionismo. Um voluntário "low-profile". E, por isso, não percorreu, como poderia, (e deveria ter acontecido) uma trajectória ascensional, num sem número de mostras e exposições, por todo o País e pelo estrangeiro, a dar-lhe merecidos sucesso e renome. Todavia, a vocação, essa, sim, moveu-o, desde a juventude, a encontrar nas Artes Plásticas uma forma de realização e de comunicação de sentimentos, à qual se deve um legado enorme, qualitativo e quantitativo. que permaneceu num circuito fechado de colecções particulares. Vocação de criança, de jovem, pois começou por fazer o curso preparatório de Belas artes na escola Industrial Faria Guimarães (hoje Escola Soares dos Reis), mas não teve, lamentavelmente, condições para concluir os estudos, e cedo encontrou numa tipografia industrial o primeiro emprego.. Nesse domínio se estabeleceria, mais tarde, e, quer pela via profissional. quer pelo envolvimento na comunidade espinhense, muitos e muito diversos foram os trabalhos em que o seu virtuosismo se afirmou - em capas de livros, na concepção de cabeçalhos de jornais, em graciosos desenhos para crianças, em cartões de boas festas... O espólio de José Tavares é, pois, imensamente variado, heterogéneo. Apenas a busca da verdade e da harmonia são constantes em tudo o que saiu de suas mãos. A pintura, por muitos anos, até que se reformou, ocupava apenas as horas vagas, mas foi sempre a resposta ao chamamento antigo. foi, de facto, a vocação cumprida!

A minha descoberta das ACADEMIAS DO BACALHAU

 Em 1980, por gratificante "dever de ofício", como membro do Governo responsável pela emigração, iniciei um infindável roteiro de viagens ao mundo da nossa Diáspora, que até aí desconhecia na sua verdadeira dimensão, como era comum e ainda hoje é, entre os portugueses que de deixaram ficar no território das fronteiras geográficas.
 Cheguei à África do Sul, em setembro desse ano, já com a experiência de contactos com coletividades portuguesas de três continentes, e, assim, facilmente, pude constatar, viver e sentir a absoluta originalidade das Academias de Bacalhau, enquanto modelo de reunir os portugueses para fazerem coisas grandes na campo dos valores do humanismo, da lusofonia, da entreajuda, em ambiente de tertúlia, a partir da festa, de ditames e rituais, que se diria (e bem...) inspirados nas tradições académicas, numa fraternidade de jovens de espírito, se não de idade... Nos momentos divertidos em que levantava, baixava e bebia um copo de vinho no meu primeiro " gavião de penacho", pensava: "que ideia tão bem achada e tão bem conseguida!". Estava em Joanesburgo, na Academia-mãe, num almoço certamente mais formal do que habituais, mas onde (não obstante esse "senão"...), o espírito da festa se mantinha intacto. Entre tiradas de humor, graça "académica", boa disposição geral, ao lado do mítico fundador Durval Marques, aprendi que nas Academias, já então pujantes em outras cidades do África austral, ninguém se ficava no "convívio pelo convívio". Eram todos militantes da intervenção solidária na sociedade! Aprendi que a ação se desenrolava, sempre, em dois tempos sucessivos: Primeiro, o dos almoços de amigos, puramente lúdicos, com as suas regras estritas de convivialidade, as proibições (como falar de religião, de política...), cuja infração frequente, garantia multas pesadas: Segundo, o da gestão das generosas "multas". Com essas verbas lançaram,por exemplo, a primeira pedra do lar de terceira idade de Joanesburgo, que talvez seja o melhor de todos os que existem na Diáspora, prestaram assistência aos refugiados de Moçambique e Angola, em 1974 e 1975, e prosseguem, hoje nos quatro cantos da terra, projetos adequados ao perfil de cada comunidade, ás suas aspirações culturais ou ao apoio a desfavorecidos. Aquele primeiro "almoço de descoberta" converteu-me em incondicional admiradora de tão eficaz paradigma de, "ridendo", fazer o bem ! Ainda por cima, vi.me aceite como membro da "Academia-mãe", com um sentimento de genuína adesão aos seus princípios e práticas, fundados na amizade, na alegria de conviver e na vontade de tornar o mundo melhor e mais divertido. Não era, diga.se, a primeira portuguesa a ser assim chamada ao convívio dos auto-designados "compadres". Na altura, os almoços e, com eles, a titularidade de associado, eram, em regra, reservados aos "compadres", mas tudo o que se passava em horário pós-laboral, jantares, encontros, abrangiam as mulheres, as "comadres". Era a evidência de que a "praxis" se baseava em formas de relacionamento preexistentes - o do almoço, na pausa do trabalho, entre profissionais (todos homens, porque a metade feminina estava, de facto, ausente desse círculo), o do jantar, naturalmente, reunindo famílias inteiras. Nunca foram, bem pelo contrário, uma espécie de "clube inglês" segregacionista! Quando as Academias chegaram a comunidades onde as mulheres partilhavam com colegas homens o meio profissional, logo se abriram à sua plena participação e logo as vimos assumirem cargos de direção e até a presidência - o que nas instituições mais tradicionais foi, ou ainda é, um caminho longo... Defensora, como sou, de uma associativismo misto, onde os géneros de completam como fator de progresso e democracia, compreendo a existência de organizações femininas - ou masculinas - quando moldam realidades de cooperação, que, de outro modo, seriam prejudicadas, esperando, embora, vê-las evoluir para um harmonioso encontro das duas metades, do todo. Também neste aspeto, que tende a ser sempre menos valorizado, as Academias de Bacalhau nos deram uma lição de boas práticas, na rota dos bons princípios!

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

ENTREVISTA JORNAL ETC E TAL



É fácil, ainda hoje, uma mulher chegar à política e ter o currículo que Manuela Aguiar tem, ou ser mulher na política ainda é o cabo dos trabalhos?
“Quando fui para a política, fui pela RAZÃO errada, pois não pertencia a um partido político, nem queria pertencer. Tinha o meu quadrante ideológico, mas como não era, nem sou, feita para obediências, não fazia parte de um partido político. Comecei na política por ser independente e cheguei a um governo, de  nomeação presidencial, como independente. Foi o Governo de Mota Pinto, um Governo entre eleições, portanto efémero…
Mas, a sua atividade política não começa antes?
“Não. Antes, não tive atividade política.”
Mas tinha uma admiração por Francisco Sá Carneiro e pela social-democracia…
“… sim, mas isso não me levou a uma participação política. Fui como que sindicalista desde pequenina… era uma criança terrível, mas não era de fazer partidas. Era reivindicativa, isto numa família muito conservadora, ainda que com duas alas: republicanos ou monárquicos; salazaristas ou anti-salazaristas…
Isso não a influenciou?
“Não! Sempre fui uma pessoa independente, e não me influenciei por qualquer tipo de opinião da família a esse respeito. A primeira pessoa da minha família mais próxima,  a ser militante de partido político, foi a minha mãe, que se inscreveu no PPM… era da velha ala ainda monárquica. Ela era a única militante inscrita da família,  depois de um irmão que foi do Partido Socialista.”
E teve alguma “paixoneta” política durante a juventude?
 Spmente Kennedy. e. ,  A PERSONAGEM DE PERRY fora da política Perry Mason, que ,me levou a sonhar com a advocacia, mas a advocacia em Portugal não era nada apaixonante. Tirei, na verdade, o curso de Direito. Comecei a fazer o estágio nos tribunais criminais, mas não achei nada de especial, e acabei por enveredar por uma carreira de gabinete, num centro de estudos, e depois na Faculdade…
SOU UMA SOCIAL-DEMOCRATA À SUECA
E depois aparece, então, a política?!
“Sou oriunda de uma família onde sempre se discutiu política. Portanto, desde jovem que me Interessava pela política! E, em Portugal, não tinha ainda ninguém em que me pudesse reconhecer. Quando tinha 16…18 anos, ainda não me reconhecia em alguém. Não era salazarista, obviamente, até porque era feminista e o Salazar era um político conservador em tudo, e no que respeita às mulheres… pior ainda! Depois, já nos últimos anos de Liceu e nos primeiros anos de Faculdade, fui uma social-democrata à sueca. A Suécia, na altura, estava no seu auge…”
…Olof Palme…
“…Sim. A Suécia era a sociedade que mais procurava e conseguia a justiça social, a igualdade e o progresso em todos os aspetos. Repare que estou a falar de muito antes do 25 de Abril. Estou a falar do princípio dos anos 60. Mas, é curioso, que ainda hoje, estou mesma na linha ideológica.”
Então, ainda hoje é uma social-democrata à sueca?
“Sim, ainda hoje! Se bem que hoje a Suécia já não é o que era. Já não vive aquela sua época de ouro dos anos sessenta/setenta.
Portanto, quando surgiu um líder,  entrevistado pelo Jaime Gama, o doutor Sá Carneiro, a dizer que era um social-democrata à sueca, eu aí tive uma especial atenção por ele: ora, aí está, um social-democrata à sueca… como eu!” (risos)
Entrevistado por Jaime Gama, atual presidente da Assembleia da República?!
“Sim, no jornal «República». Nessa entrevista, o doutor Sá Carneiro declarou, pela primeira vez, o seu posicionamento ideológico.
Muito antes de ser fundado o PPD?
“Sim, muito antes! O doutor Sá Carneiro entrou na política, salvo o erro, em 1969, quando foi criada a Ala Liberal…”
… com o Magalhães Mota…
“… e o Pinto Balsemão, entre outros”.
NUNCA FUI COMUNISTA, NEM DE PERTO, NEM DE LONGE, PORQUE É UM PARTIDO DE OBEDIÊNCIA…
Nessa altura, não era, por certo, normal uma mulher participar na vida política, e logo durante o antigo regime?
“A minha primeira ação política foi uma catástrofe. Foi em Coimbra, onde estudava. Aí havia também a fratura idêntica à da minha casa. Havia os mais à esquerda e os mais à direita. O problema é que os mais à direita estavam junto das hostes salazaristas, e os mais à esquerda acabavam por estar, mais ou menos, misturados com as hostes comunistas.
Eu não era salazarista, nem comunista, independentemente do facto de ter sido disso acusada quando não me alinhava à direita. Aliás, quem não se alinhasse à direita tinha como referência imediata ser comunista. E eu nunca fui comunista, nem de perto nem de longe, porque é um partido de obediência, portanto eu nunca poderia ter sido comunista.
Fui candidata do Conselho de Repúblicas em Coimbra. Normalmente, o Conselho de Repúblicas ganhava entre homens e perdia entre as mulheres, que eram mais conservadoras… e, então, eu perdi!”
Também devia haver poucas mulheres a estudar…
“Não! Havia muitas em Letras. Em Direito é que não, éramos menos de dez por cento”.
Foi uma lição que aprendeu? Com a derrota, está claro!
“Não! Uma derrota? Não! O que achei é que não era feita para aquilo. Se já tinha a convicção que não era muito fadada para a política, aí fiquei com a certeza. Gostava muito de falar em tertúlias, ou em casa. Aí, era ótima a argumentar! Defendia as coisas com muita veemência, mas no palco da  política, não! Depois dessa derrota, convenci-me que era, politicamente, um desastre!”
Vem, então, o 25 de Abril…
“… o 25 de Abril, e o doutor Sá Carneiro o homem que eu seguia.”
OS DEMOCRATAS TINHAM DE TER MUITA CORAGEM PARA PARTICIPAREM EM LISTAS
O «25 de Abril» era previsível?
“Não sei se era previsível. A ditadura tinha de acabar um dia, mas, a verdade, é que nunca mais acabava. Era um regime triste! A primeira esperança foi a Primavera Marcelista, e, embora não se acreditasse muito, a verdade é que Marcelo face a Salazar – e porque estava em Coimbra não conhecia o Marcelo Caetano de perto – tinha estado a favor dos estudantes nas greves académicas, portanto eu tinha uma ideia dele como um homem mais moderno que o Salazar. Um homem mais do seu tempo. Usava mais os meios de comunicação, com aquelas Conversas em Família, e achava-o  um homem mediaticamente interessante, embora não concordasse com ele em muitas coisas.
É de salientar, entretanto, que, mesmo nessa altura,  as pessoas que eram verdadeiramente democratas tinham de ter muita coragem para participarem em listas de um regime de partido único, uma ditadura . Achei aqueles homens muito corajosos.
Entretanto, o regime também tinha as suas clivagens por dentro.  Por exemplo, nas políticas sociais de emigração, que começaram no tempo de Marcelo Caetano, em 1972; assim como as da Segurança Social etc. E que deram uma certa força, por assim dizer, ao seu governo.
Acho que se não fosse a Guerra em África, ele até tinha feito a abertura, mas foi incapaz de se libertar dos falcões da guerra e foi isso que o derrotou completamente.
Sá Carneiro, por seu turno, propunha todos os dias, ou quase todos os dias, diplomas pela Liberdade de Expressão, de reunião… de todas as liberdades, isto em plena Assembleia Nacional. Não sei ao certo quantos diplomas ele apresentou, mas todos (vinte ou trinta) foram derrotados. Depois, não sei também qual foi o diploma chumbado que o levou à demissão”.
SÁ CARNEIRO ANUNCIOU A ESPERANÇA!
Francisco Sá Carneiro (Foto: pG)
Portanto, o «25 de Abril”» ou qualquer ato contra o Regime era expectável.
“Sim. Aquela geração, mais cedo ou mais tarde, iria acabar com o regime. Mas, pronto, a revolução acabou por ser feita pelos militares. Não fazia a mínima ideia que isso fosse possível. Quando foi o 16 de março de 74, convenci-me que a coisa ficaria adiada por mais uns tempos.
A guerra continuava. Não se perdia no terreno…  só na Guiné. Não era guerra para perder no terreno, e, como tal, o regime poderia aguentar-se por mais um tempo naquela situação.
Nós éramos contra a guerra colonial. Nós, jovens da Faculdade. O doutor Sá Carneiro foi o homem que anunciou a esperança; ou seja, que alguma coisa podia mudar. Foi também, depois;  o homem que denunciou o bloqueio completo e o impasse total em que o regime estava. Se as coisas não foram pela evolução… tiveram mesmo de ir pela revolução.”
Aí, por certo, uma maior aproximação a Sá Carneiro?!
“Bem. Entretanto, ele escrevia os seus "VISTOS" no «Expresso», dos quais eu era uma fiel seguidora, estando em total consonância com as suas opiniões. Depois do 25 de abril, mais concretamente, no dia sete de maio de 1974, quando foi criado o PPD, eu estava com ele!
Curiosamente,  na véspera do 25 de Abril, fui dar aulas para Coimbra. Era assistente de um Centro de Estudos, em Lisboa.
Falei, então, com o meu diretor, e disse-lhe que tinha sido convidada para dar aulas em Coimbra e que tinha aceitado, uma vez que não era incompatível com a atividade que exercia no Centro. Tinha sido convidada pelo doutor Eduardo Correia, grande especialista de De Direito Penal Quando o encontrei num colóquio, ele convidou-me para ir dar aulas para a Faculdade de Economia, em Coimbra. Não fazia a mínima ideia quanto à criação dessa faculdade, da qual ele era o diretor. E aceitei! Aquilo arrastou-se e tomei posse no dia 24 de abril de 1974. Nessa noite vim para Lisboa. Lá se deu o 25 de Abril, e passados uns dias  Eduardo Correia era ministro da Educação…”
NA FACULDADE DE DIREITO NÃO HAVIA MULHERES
Ainda como estudante, a Faculdade de Direito foi uma boa experiência?
“ Sim mas o meu feminismo foi muito acicatado e aprofundado, porque, na verdade, era horrível estudar Direito, uma vez que a situação das mulheres, no ponto de vista jurídico, era quase igual à da Arábia Saudita atualmente. No curso não me senti discriminada em termos de exames. Terminei-o com a mesma nota dos meus colegas só que eles foram convidados para assistentes e eu não. Deram-me uma bolsa para fazer o curso complementar. Senti-me, absolutamente, discriminada. Ali, não entrava uma mulher sequer. Tinha havido uma mas depois que saiu não houve mais. .
Mas, acaba por ser professora e colocada na Faculdade de Economia, em Coimbra, por convite de Eduardo Correia, como antes contou, mas não ficou por aí muito tempo…
“Em 1974, transitei, como Assistente, da Faculdade de Economia para a de Direito, a convite do doutor Ferrer Correia. Ora, na Faculdade de Direito, e nessa altura, acontece que varreram tudo o que era da direita, e o saneamento chegou até  à fronteira. do PPD
Os homens do PPD tinham defendido, no anterior regime, os estudantes que estavam na clandestinidade, portanto eram reconhecidamente democratas! Ou seja, o leque político começava na extrema-esquerda, e acabava no PPD. E, assim, fui assistente do doutor Mota Pinto e do doutor Alarcão
EMOCRATA EMBORA FOSSE FORMADO POR INDEPENDENTES
Mota Pinto na tomada de posse como primeiro-ministro. Governo do qual fazia parte Manuela Aguiar (foto: pG)
Daí a sua ligação política ao professor Mota Pinto…
“Daí começa tudo! Ah! Antes cheguei a ter um convite do doutor Figueiredo Dias para ir para o Governo do Pinheiro de Azevedo, o qual tinha quase cem membros. Uma turbulência e um governo enorme.  Pinheiro de Azevedo era, segundo me contavam,  um homem engraçadíssimo! Mas não aceitei.
Quando o doutor Mota Pinto vai para o Governo, nos tais executivos de iniciativa presidencial,  teve de escolher uma equipa de independentes. Todos – à exceção de um, que era do PPM – eram independentes. sem filiação partidária.
Mas, o doutor Mota Pinto teve muito cuidado em escolhe-los num determinado quadrante. Ele era uma pessoa boa, extremamente inteligente, um grande professor e de uma enorme honestidade intelectual. Os «PPD’s» de Coimbra eram gente muito boa… Eu passava a vida a discutir falando dos meus ideais de igualdade. Então, o argumento do doutor Mota Pinto para eu ir para o Governo era que se eu não fosse, o executivo não teria mulheres, e que a culpa de tal facto, seria exclusivamente minha.
Fiz, então, aquilo que as mulheres fazem quando são convidadas para a política: Disse que preferia um cargo técnico! Não, eu não aceitei logo o cargo. Não queria. Era muito tímida, não gostava de falar em público…”
Mas acabou por aceitar.
“Sim e senti-me bem. Ideologicamente, o governo de Mota Pinto era social-democrata tal como o PPD se definia na altura. As franjas de pessoas ligadas ou ao PS ou ao CDS eram uma minoria….”
A ALA SOCIAL-DEMOCRATA NO ATUAL PSD É MUITO REDUZIDA
O PPD definia-se social-democrata, disse, e o atual PSD também assim se define? Ou, o PSD já não é o PPD social-democrata da altura?
“Não, não é! A ala social-democrata está muito reduzida no partido. Não tenho nenhuma ligação especial ao Rui Rio. Conheço-o da Assembleia, mas não muito bem. E ele também não me conhece. Mas votei nele e tornaria a votar, porque ele tenta recuperar o perfil social-democrata do partido…”
É como que estar a recuperar o ideal social-democrata do PPD?
“É isso que defendo. Eu não aderi a um partido de direita, nem quero pertencer a um partido de direita!
Acha que Rui Rio tem condições para continuar por muito mais tempo como líder do PSD?
“Não sei! Se o resultado nas próximas eleições legislativas for mau…”
… pelo andar da carruagem…
“Há muitas surpresas nas eleições. Não sabemos, daqui até lá, o que vai acontecer. Este Governo tem tido uma infinita habilidade, mas… tudo pode acontecer! Em termos ideológicos eu sempre me senti bem a trabalhar com o António Costa, em dois campos. No campo do feminismo… ele é um feminista! E no campo da Imigração, porque ele é um grande defensor dos direitos dos imigrantesA minha sintonia com António Costa, nestes dois campos, foi e é positiva…”
ANTÓNIO COSTA TEM SIDO UM BOM PRIMEIRO-MINISTRO
António Costa tem sido um bom primeiro-ministro?
“Sim… tem sido um bom primeiro-ministro. Não fez tudo bem, como se vê pelo descalabro no sistema de Saúde Pública….  há coisas que me preocupam”.
Mas, acha que o trabalho que o Governo está a desenvolver é equilibrado? Votaria no Partido Socialista?
“Hoje, votaria Rui Rio, para segurar Rui Rio e o PSD”.
É fundamental que Rio Rio fique à frente do partido! É isso?
“Sim”.
Só que há outra ala que não o aceita.
“Há uma ala que é apoiante do Trump e daquela senhora do Alasca E at+e havia um a bradar contra os ciganos e as minorias. Eu não sou desse partido. Por amor de Deus!. Eu não fico com esses no partido. Não me misturo com gente de extrema-direita.”
E há pessoas de extrema-direita no PSD?
“Havia um, declarado, que saiu e saiu porque quis. O partido não o expulsou! Passos Coelho não tomou uma posição e devia tê-la tomado. Não se pode admitir aquele tipo de discurso. Ou o PSD é um partido humanista, moderado, que defende as pessoas, os estrangeiros, as minorias, as etnias, a igualdade, ou, se não é, não posso pertencer a esse partido.
Ainda relativamente às minhas sintonias com o primeiro-ministro, elas vêm desses dois campos em que trabalhei com ele, em que o vi como uma pessoa coerente e integra na defesa daqueles interesses, sem politiquices”.
A GERINGONÇA FOI UM SISTEMA QUE ACABOU POR RESULTAR
Este novo facto político, único na Europa, refiro-me à Geringonça, é positivo.
“Acho que sim. Nunca me preocupei com a formação da Geringonça. O António Costa já tinha feito uma aliança do género na Câmara de Lisboa e teve facetas positivas. No Governo acabou por alargar o leque partidário.”
Já não é a mesma esquerda dos anos 70?
“O Partido Comunista ainda é um bocadinho, mas também é um partido confiável… previsível. Não é um partido para fazer ruturas. Uma visão que tivemos foi a do PCP durante o PREC, numa tentativa de tomada de poder. E depois, a de um partido comunista que joga dentro do sistema. A Geringonça foi um esquema que acabou por resultar”.
EM MUITOS CASOS AS QUOTAS NADA TÊM A VER COM A MERITOCRACIA
Regressando à sua estreia no Governo. Mota Pinto convida-a para o “Trabalho”?
“Ele convidou-me para o Ministério que eu conhecia melhor. Acho que convidou as pessoas dentro dos seus campos de especialização”.
Era a meritocracia a vir ao de cima e não tanto as quotas?
“Em muitos casos as quotas nada tem a ver com a meritocracia, bem pelo contrário”.
Foi por mérito que ele a convidou?
“Não sei se foi por mérito, sei é que eu tinha uma especialização. Foi por suposto mérito! Eu disse-lhe logo: se quiser arriscar, arrisque... E ele arriscou!
E não fui tratar de assuntos da Mulher. Fui secretária de Estado do Trabalho, não era do Trabalho Feminino. Estávamos em 1978-79, e uma das primeiras reações, num Editorial no «Expresso», de Marcelo Rebelo de Sousa – veja lá! – foi a fazer o maior elogio a Mota Pinto por ter escolhido uma mulher…”
Por quê esse “veja lá”? O Marcelo Rebelo de Sousa não é feminista?
“É, mas eu não tinha nenhuma relação particular com ele, nem vim a ter. Tenho, na verdade, uma relação muito formal, distante com Marcelo…”
COM O PROFESSOR CAVACO AS RELAÇÕES NÃO FORAM MUITO BOAS…
Mas, está a gostar dele como Presidente da República?
“Sim, sim… estou a gostar”.
É diferente?
“Ele não é diferente, ele é  Marcelo. Aliás, todos os presidentes da República têm sido o que são. O Eanes foi o que é. O Cavaco foi o que é… para o bem e para o mal (risos).
O Mário Soares foi ele. O Jorge Sampaio é um senhor, também foi sempre igual a si mesmo. Aliás, desenvolvi relações de grande estima, admiração e proximidade com vários presidentes da República. Com o doutor Soares, evidentemente. Com o doutor Sampaio, que conheci na Assembleia da República.
Com o professor Cavaco é que as relações não foram muito boas, porque quando ele foi eleito, eu decidi apoiar o doutor Soares. Vá lá que não fui expulsa do partido. Era o doutor Marques Mendes o líder…
Mas, houve outras pessoas do PSD que apoiaram Mário Soares?
“Sim, tiveram processos, e estiveram para ser expulsos. Isto na eleição anterior. Na última candidatura do doutor Soares à Presidência, ninguém o apoiou porque achavam que não era para ganhar…
Tinha uma grande admiração pelo doutor Soares, achava fantástico que ele se candidatasse naquela idade, e gostava imenso que ele tivesse ganho. Mas, os portugueses não sabem respeitar nem a idade, nem a sabedoria, nem a capacidade.
O doutor Soares teria sido, novamente, um grande Presidente da República. Muito melhor que foi o professor Cavaco! Com o doutor Soares, Presidente da República, não tínhamos chegado à Troika, nem a essas desgraças todas. Com a experiência dele –  era um Homem muito sagaz –, com a enorme influência internacional que tinha – e que era maior que a do País -, nada disso teria acontecido.
Eu apoiei-o, mas sabia que ele ia perder. Apoiei-o com imenso gosto. Portanto, a partir daí as minhas relações com o professor Cavaco tornaram-se inexistentes (risos).
Voltando, uma vez mais, atrás: Marcelo Rebelo de Sousa fez, então, um grande elogio a Mota Pinto por tê-la no Governo…
… um elogio, em Editorial, no «Expresso», à minha presença no Governo como secretária de Estado do TRABALHO, isso, na verdade, não era habitual, porque, normalmente, as mulheres eram convidadas para pastas consideradas"femininas", Cultura, Educação…”
…as que eram convidadas?!
“Sim, porque eram muito poucas. Eram poucas e eram convidadas para essas pastas ditas femininas. E eu fui logo convidada para o Trabalho. Tive a sorte de estar em governos, onde a «guerra principal» passou por onde eu estava. No governo Mota Pinto, a principal era a guerra contra a unicidade sindical. Estava em causa a criação de uma segunda central sindical, que veio a ser a UGT. Sabíamos que era um governo de curta duração – de iniciativa presidencial e com prazo afixado.  Não tínhamos medo de tomar decisões . 
Em reuniões europeias, perguntavam-me se era secretária de Estado do Trabalho Feminino, e eu respondia: não, só do Trabalho! Ficavam espantados...
Por cá, a negociação com os sindicatos passava pelos meus departamentos. E a requisição civil que fez um braço de ferro com a Intersindical. E estivemos quase a chegar a acordo…”
Foi difícil esse diálogo?
“ Não, eles gostavam de dialogar com mulheres. O meu gabinete era completamente paritário… fui eu que fiz as quotas, E jogando nas competências! Tinha um gabinete social-democracia à sueca”
É TUDO BOA GENTE, QUANDO NÃO SE ESTÁ A LUTAR POR UM LUGAR
Uma vez mais é esse “tipo” de social-democracia que defende e que se mantém até hoje…
“Sim. Até hoje! Aliás, eu fui condecorada pelo governo sueco. E não foi daquelas condecorações negociadas em cima da mesa, na altura de visitas oficiais ,foi realmente um reconhecimento. Na Suécia fui sempre aprender coisas que apliquei em Portugal.
E portanto, tinha um bom gabinete. Tentávamos fazer o melhor possível com serenidade. Na altura, eu era completamente inexperiente. Nunca tinha chefiado nada, e, pior, nunca tinha querido chefiar fosse o que fosse. A minha opção foi um trabalho de gabinete, académico, de estudo, em ambiente não competitivo…
Sabe que é tudo boa gente quando não se está a lutar por um lugar! A natureza humana é mesmo assim. Quando nós não estamos a querer o lugar de outro, somos todos amigos.
Na Faculdade, por exemplo, já o ambiente era muito competitivo…! Não fazia diferença com o mundo político. E não era o que eu tinha escolhido. Eu tinha escolhido uma carreira onde não existissem lutas de promoções. No Centro de Estudo foi assim. e, depois, no Serviço do Provedor de Justiça Uma maravilha. Escolhi o Manuel Marcelino, meu colega da Provedoria, para ser chefe do meu gabinete. Era um alto especialista de  Administrativo, sabia muito daquilo… eu não!
E dizia-lhe: «Manuel tu és responsável pela minha liberdade, olha que eu posso ir para a cadeia!”. O meu pavor era a responsabilidade objetiva. O problema não era lidar com os sindicatos, era lidar com as matérias,  encontrar soluções dentro de uma legalidade absoluta. Na teoria era tudo mais fácil, só tinha medo de cometer erros de ordem prática.”
E acabou por ser fácil desenvolver o seu trabalho?
“Foi fácil! Tive muito boa colaboração. Eram todos muito bons. Com os sindicatos só tive um problema com uma greve na Estiva, mas lá conseguimos lidar com o problema.
Depois, nas Convenções de trabalho, havia um enorme desfasamento de salários  ebtre os sexos... Apanhei também, numa gaveta, um projeto de Lei sobre a Igualdade das Mulheres no Trabalho e no Emprego, e fei-lhe logo andamento, Perguntei a mim própria: o que é mais feminista? É convidar uma mulher para que trate disto rapidamente, ou é convidar um homem?
Decidi convidar um homem, porque estas questões de igualdade também respeitam aos homens! Convidei o João Caupers, que hoje é membro do Tribunal Constitucional,  um jurista brilhantíssimo, muito despachado e feminista.
Em 30 dias, de reuniões com os sindicatos e com o patronato, ultimaram o diploma para a criação da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego – CITE, – que ainda hoje existe -, inspirada em  modelos suecos. A regra de ouro de funcionamento do sistema, na Suécia, é: em caso de igualdade de mérito, a preferência cai no sexo sub-representado”.
E em Portugal?
“Por cá, o princípio orientador da CITE era esse, mas não fomos tão longe, o que na altura, era um pouco desenquadrado com a realidade portuguesa. Previa-se uma estrutura tripartida, entre governo, sindicatos e patronato, em que fazíamos uma observação e estudo contínuo de desigualdades e discriminações…
Ainda quanto a esse documento, o ministro deixou-me trabalhar à vontade, mas incluiu-o no chamado  "pacote laboral" do Mota Pinto, ao qual  Pintasilgo se oponha firmemente, de maneira que quando Ramalho Eanes a  submeteu ao seu parecer,  ela foi contra.
Portanto, todo o pacote laboral caiu. Fiquei preocupada, porque o diploma da CITE também tinha caído. Fui, então, ter com o meu sucessor, que era um dissidente do PSD – que não tinha razão para gostar muito de mim -, e expliquei-lhe que aquele  projeto tinha uma génese diferente dos outros, e que tinha sido discutido com todas as partes. E, então, lá saiu o diploma, com a assinatura do Mota Pinto. A minha não estava lá porque eu era secretária de Estado. As coisas correram bem. Correu tudo a contento”.
Sai do governo, e depois?
“Em janeiro de 1980 – depois de sair do governo em agosto de 1979 – recebi um telefonema do Sá Carneiro. Não o conhecia. Ele disse que gostava muito de falar comigo, às cinco horas. E eu… com certeza! Achei uma voz um pouco seca, por isso fui cheia de receio para um encontro com o meu ídolo.  Temia que fosse antipático...  Às cinco em ponto, Sá Carneiro, abre ele próprio a porta do gabinete e vem receber-me, com um enorme sorriso, como quem recebe a chefe da claque de fãs, Devia saber do meu sácarneirismo, que nunca escondi!.
A conversa foi muito engraçada.  Sá Carneiro era carismático, e as figuras carismáticas empolgam-nos. Ele não deixava ninguém indiferente. Perguntou-me, então, se eu falava francês e inglês… disse que sim; perguntou ainda se conhecia diplomatas, e eu respondi que não. E, ele pergunta-me, finalmente: que tal ser secretária de Estado da Emigração? Eu respondi que não, Não podia ir para aquele ministério, por andar sempre muito mal vestida e penteada. (risos)
Conversa puxa conversa, ele chamou o Freitas do Amaral, e como havia greves nos consulados, referiu que para esses casos, e para a sua resolução, eu era a pessoa indicada porque estava habituada a esse tipo de conflitos no Ministério do Trabalho. Só que eu não me dispus logo a aceitar o cargo. A coisa ficou como que no ar”.
O TRABALHO NA EMIGRAÇÃO FOI UMA EXPERIÊNCIA INCRÍVEL!
Manuela Aguiar junto a Sá Carneiro (foto: pG)
A verdade, é que acabou por aceitar o cargo para a qual foi convidada.
“Sim e, depois, parece que de lá não conseguia sair. Foi uma experiência incrível! Mas, antes de aceitar, falei com o Rui Machete, que tinha sido secretário de Estado da Emigração, e também ainda com o doutor Mota Pinto. Foi, então, que decidi ir para a Emigração.”
Mas imaginava o trabalho que ia desenvolver nessa Secretaria, a sua especificidade?
“Eu sabia que tinha que dar a cara, pois não teria nenhum ministro a responder em primeira linha como no Ministério do Trabalho. E, então, tive mesmo de dar a cara –  falar para a comunicação social etc. –e, ao fim e ao cabo, até nem custou muito.
Depois havia matérias como a Segurança Social, questões de Trabalho, que eu dominava, na parte jurídica, facilidade de contactos com as associações, Todavia, o conhecimento pormenorizado da vida dos portugueses no estrangeiro foi para mim uma total revelação.
A minha primeira viagem foi aos Estados Unidos e ao Canadá, onde as festas dos emigrantes têm um cerimonial muito rígido, ao contrário do que eu pensava, O deputado José Gama tinha-me ajudado a preparar o roteiro da viagem, onde todos os dias ia a uma terra diferente - foi cansativo, mas fantástico, porque a sequência de contactos com tantas comunidades dá-nos uma noção das suas semelhanças e diferenças”.
E a partir daqui esteve sempre ligada, direta ou indiretamente, à Emigração?!
“Sim. No Conselho da Europa, por exemplo, tive muita sorte porque beneficiei uma conjugação feminina muito importante: uma ministra dos Assuntos Sociais francesa, Georgina Dufoix; e uma sueca, que introduziu as quotas na Suécia, e era a presidente da Internacional Socialista das Mulheres, Anita Gradin.
Éramos grandes aliadas. Elas de países de imigração e eu de um da emigração. Fizemos coisas importantes na livre circulação e na dupla cidadania, como na proteção dos direitos dos emigrantes….”
Não havia direitos para os emigrantes, ou estava tudo numa fase embrionária?
“Havia direitos. Da dupla cidadania, de início, não, pois o Conselho da Europa apontava para a cidadania única.  Havia direitos, mas menos.
Portanto, a nível internacional as coisas também me correram bastante bem,  com essa aliança feminina. Praticamente não havia conflitos. A dupla cidadania foi um combate difícil, que acabou por se ganhar”.
A CIDADE DO PORTO ESTÁ BEM ENTREGUE
Entretanto, e porque falámos em desigualdades, sei que é uma regionalista assumida.
“Sou. Sou uma regionalista convicta. Tenho um olhar muito crítico sobre a macrocefalia de Lisboa”.
E como está o Porto… cidade?
“Não está mal. Sei que há muita gente que é contra o turismo no Porto, eu não. Compreendo que causa um bocado de incómodo às populações locais, mas eu acho fantástico partilhar a beleza da cidade do Porto, que é das cidades mais bonitas do mundo…”
… mas foi durante muito e muito tempo uma cidade fechada.
“Uma cidade fechada contra a sua própria natureza acolhedora Lisboa era sempre a cidade bonita e não se via a beleza do Porto, que precisava de ser descoberto…”
Esta nova realidade, deve-se a Rui Moreira, atual presidente da Câmara Municipal?
Acho que a Câmara está bem entregue. O meu problema é saber se o grande mérito é do Rui Moreira por o Porto se ter transformado numa cidade cosmopolita, como sempre sonhei que o fosse. O Porto recebe muito bem… Sou de Gondomar, E gosto també muito do Porto, Afetivamente, o Porto é a minha cidade.
A cidade, em si, deu, na realidade, um grande salto, agora não lhe sei explicar se foram as políticas camarárias, ou se foi uma valorização do património pela sociedade, mesmo que com especulação imobiliária. Portanto, não sei bem  qual é a parte que cabe ao Estado,  à sociedade civil e à autarquia.
Recordo que fui deputada municipal durante quatro anos. A campanha foi muito engraçada. A Assembleia Municipal… assim-assim. Fiz a campanha com o general Carlos Azeredo, que é uma personalidade fantástica. É um homem muito inteligente. E, nessa altura, tinha recusado candidatar-me com o Valentim, a Gondomar. Não alinhei. Para começar, ele é um machista!”
NA POLÍTICA PORTUGUESA DA EMIGRAÇÃO TEM HAVIDO LINHAS DE CONTINUIDADE
Manuela Aguiar intervindo junto a emigrantes (foto: pG)
De tudo o que fez na Emigração o que destaca?
“Entre outras coisas, foi dar continuidade ao que estava bem. O grande mal da política portuguesa, são as constantes ruturas de direção. Não há um trabalho de continuidade. Todos querem deixar a sua marca. Quem ouvi dizer isto pela primeira vez foi o doutor Barbosa de Melo.
Tanro no Trabalho como na Emigração uma preocupação que tive, mal cheguei, foi com as instalações,  com o conforto no trabalho, com a segurança de um parque automóvel decrépito e dispendioso.
E na política era importante continuar com o que estava bem..”
E, depois, deram continuidade ao seu trabalho?
“Sim, nalguns aspetos. É muito curioso: na política portuguesa da Emigração haver linhas de continuidade. A preocupação de início, em Portugal, foi criar serviços de apoio no estrangeiro e políticas à medida das alternativas… regresso ou permanência no estrangeiro. Os Portugueses são livres de ficar, são livres de voltar!
E os nosso governos devem ter uma política para quem quer regressar, e isso nem sempre foi compreendido. 
No balanço da história recente antes e depois de 1974,, foram mais eficazes as políticas de apoio ao regresso do que as políticas de apoio aos emigrantes que, lá fora, ficavam entregues a si próprios. Pelo que, tudo o que fizeram no estrangeiro se deve a eles, incluindo o fortíssimo movimento associativo que se substitui ao Estado em muitas das funções que lhe são atribuídas”.
O MOVIMENTO ASSOCIATIVO NÃO É UM OBSTÁCULO À INTEGRAÇÃO
No fundo, considera o associativismo importante no apoio ao emigrante.
“Tive sempre grande respeito e admiração por aquilo que os portugueses foram capazes de fazer. A única coisa que achava, e acho, que toda a gente acha, é que não há entre portugueses um grande movimento federativo a nível universal. Há tentativas mas não ainda um movimento abrangendo a maior parte das associações que são marcantes nas comunidades.
Ao contrário do que alguns pensam, o movimento associativo não é um obstáculo à integração. Muitas das vezes, reflete, sim,  pelo menos no caso português, a capacidade de integração das comunidades e ajuda à integração, substituindo, nesse papel, o Estado; quer o Estado do país de acolhimento, quer o de país de origem.
Quando a integração está conseguida, esses movimentos abremse. Isso vê-se, facilmente, em França, onde muitas associações portuguesas procuravam ensinar o francês e dar indicações sobre determinados serviços burocráticos, como as licenças de residência etc.… era uma rede esplêndida a de apoio à emigração que chegava.
Depois, essas associações eram, e são, um espaço cultural português extrafronteiras. De notar, contudo, a tradicional marginalização  das mulheres, ou seja o seu papel, quase sempre muito mais conservador que na própria sociedade onde se encontram.”
Os homens estavam/estão sempre na cúpula das organizações?!
“Sim. Todos os interlocutores que encontrei foram sempre homens. Uma situação que me preocupava bastante”.
PASSEI SETE ANOS A EXPLICAR AO PAÍS A POLÍTICA DE APOIO AO REGRESSO DOS EMIGRANTES…
Há pouco falava em duas políticas de sucesso quanto ao regresso dos emigrantes a Portugal…
“Sim. As políticas do 25 de Abril de apoio ao regresso dos emigrantes. Falava das duas que foram bem-sucedidas. A primeira foi a política dos retornados, que foi de uma importância enorme, e que destacou, um homem, de quem não se fala suficientemente,  Amândio de Azevedo. Esteve no governo meia dúzia de meses, e nesse espaço de tempo, passou de uma política assistencialista, para a de uma verdadeira integração, apoiada nessa fase por empréstimos para investimento, que foram financiados pelos bancos e pelo Estado, um fundo perdido, se a coisa corresse mal.
Esse Fundo teve a contribuição dos americanos que deram um milhão de contos. Na altura era dinheiro! Desse montante – e tal como o Amândio Azevedo organizou aquilo -, não houve um escudo que fosse retirado para despesa dos serviços. Os serviços funcionaram com os seus meios. O dinheiro de apoio foi integralmente aplicado na ação que estava a ser desenvolvida.
Depois, a partir de 1976, criaram-se as contas de depósito do emigrante, que estavam isentas de taxas; tinham juro bonificado, e permitiam pedir crédito até ao dobro da importância que estava depositada na conta. Portanto, muitos daqueles que quiseram regressar, fizeram-no mais cedo e mais facilmente, graças a esses apoios. Havia, contudo, em Portugal, o pavor de um novo surto de regresso de um milhão de pessoas…”
Recordo-me desse pavor…
“Eu passei todo o período em que estive no Governo, de 1980 a 1987, numa luta contínua a responder  a perguntas da comunicação social sempre a incidiram no regresso dos emigrantes… sempre à espera de avalancha que, na verdade, nunca aconteceu.
Eu explicava! Tinha números; tinha dados. Eu explicava que era um regresso muito diferente do que poderiam estar a imaginar…”
E não veio tudo ao mesmo tempo. O processo foi de forma faseada…
“Sim. Vieram e fizeram o seu investimento nas suas terras, fazendo-as desenvolver, como hoje toda a gente reconhece. Mas, na altura, poucos eram os que acreditavam!
E depois, não compreendiam uma política de reintegração. Havia políticos que iam lá fora apelar aos emigrantes para não regressarem a Portugal. Achava que isso era uma coisa ofensiva para os portugueses, pois dava a ideia que o País não os queria! Eles deviam dizer aos emigrantes, para não virem para Portugal para procurar um emprego – aliás ainda hoje... A emigração, é potenciada pelo  diferencial de salários -, mas para virem se soubessem  o que íam fazer!
Depois dei, em 1990, aulas de mestrado em Relações Interculturais da Universidade Aberta de Lisboa, e explicava a política de apoio às duas alternativas. E a primeira vez que expliquei, todos os alunos entenderam. Não sei por que é que passei sete anos a explicar isto ao País?”
O BRASIL FOI SEMPRE UM PAÍS QUE NOS ACOLHEU BEM, E NÓS NÃO SABEMOS DAR VALOR A ISSO
Hoje, tudo é diferente do que era em termos de política de apoio ao regresso dos emigrantes?
“As políticas de apoio ao regresso praticamente acabaram E só agora recomeçam noutros moldes, Sobretudo da Europa. Os grandes movimentos, até meados do século passado, foram transoceânicos, e depois disso, dizem, que foi só emigração para a Europa. Eu acho engraçado até os académicos dizerem isso; pois  não é rigorosamente verdade!
É verdade que a emigração deixou de fazer-se para o Brasil – que foi o estímulo da emigração portuguesa ao longo de séculos – e passou-se a fazer MAIS para a Europa, onde a França foi como que um novo Brasil. Mas também emigraram – atenção! – para a Venezuela, para o Canadá, para os Estados Unidos e para África.
Aparecem, pouco mais tarde, os retornados da descolonização, que foram para a África do Sul – a partir de Moçambique -, ou para o Brasil. O Brasil que foi o país que melhor nos acolheu, e nem hoje sabemos dar valor a isso, principalmente retribuindo com apoio a imigrantes brasileiros que cá se encontram.
Ainda temos com o Brasil um Tratado de igualdade de tratamento. Qualquer português no Brasil, ou brasileiro em Portugal durante mais de três anos pode requerer o Estatuto de Direitos Políticos e tem todos os direitos da nacionalidade. Não há nenhum país do mundo que chegue aqui, nem de perto, nem de longe, este é o mais generoso tratado de cidadania – que nem sequer é de dupla nacionalidade – neste caso, a luso-brasileira.
Muitos portugueses no Brasil aproveitam este Estatuto, não tanto os brasileiros cá.  Não podemos ter uma política do oito e do oitenta, isto é: tratar os brasileiros como estrangeiros até terem os três anos de residência, e, só depois, trata-los como portugueses, se invocarem o Tratado.”
A CPLP TEM FUNCIONADO BEM, MAS DESDE QUE AFASTARAM JOSÉ APARÍCIO DE OLIVEIRA, VAI ANDANDO POR ANDAR
Quanto à livre circulação…
“Há uns movimentos na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que a defendem. Mas ainda não falei na CPLP porque senão jamais saímos daqui…”
…mas, a CPLP funciona mesmo, ou não passa de um conjunto de amigos que se reúne, única e simplesmente, para cumprir agenda?
“Não! A CPLP vai funcionando. Mas, quem estiver à frente da CPLP tem de lá estar de alma e coração. Tem de ser português, moçambicano, angolano, etc.… como era José Aparecido de Oliveira; ele que foi o grande criador da CPLP. A partir da altura em que foi o próprio Brasil a afastá-lo, a CPLP vai andando por andar!
É preciso, em meu entender, que o o Estatuto de Cidadania que há de Portugal com Brasil, se alargue aos outros países que fazem parte da organização, se torne mais concreto e frutuoso…”
Contudo, há a ideia que a CPLP funciona mais à base de acordos bilaterais…
“Na CPLP tem faltado liderança. Uma liderança de alguém que acredite.
Agora, deixe-me ir à Integração…”
ANTÓNIO COSTA FEZ ALGO DE ESPLÊNDIDO AO DAR CONTINUIDADE À LEI DA DUPLA NACIONALIDADE
Muito bem, vamos à “Integração”! Mas atenção que o tempo está a voar muito depressa nesta entrevista… (risos)
“Vamos então à Integração. É, neste aspeto, muito importante a Lei da Dupla Cidadania, porque é preciso que as pessoas sejam cidadãos do país onde estão. Em Roma, numa reunião de Ministros do conselho da Europa, em 1983, uma das coisas que se discutiu foi a dupla cidadania. Tanto Espanha como Portugal tinham mudado as suas leis há pouco, e defendemos a mesma coisa. Estávamos  a dar a dupla cidadania não para manter os portugueses ligados a Portugal, porque a ele ficarão sempre, mas sim para lhes dar incentivo a que peçam a nacionalidade do país onde estão.
Depois, em 1996, nova Convenção europeia começou a permitir a multinacionalidade. Foi muito importante! O que é curioso é agora a posição do PS sobre essa questão: PS que ao longo de muitos anos – desde 1980 – teve muito receio do voto do emigrante…”
Normalmente não era muito votado nesse “círculo”…
“O PS achava que era o voto dos emigrantes era muito conservador. Era como o voto das mulheres na 1ª República. Agora, eu acho esplêndido – e é um positivo sinal do Governo de António Costa-, que o PS tenha feito nesta legislatura algo que dá continuidade à política da dupla cidadania.
Além da dupla cidadania é precisa a dupla participação política, porque isso é que permite a um cidadão ser cidadão do seu país,  poder intervir,  sentir- se igual. Depois cada pessoa doseará a forma como colabora, ou intervém… mas isso é com eles, não é connosco.
Excelente medida: o recenseamento é, agora, automático para qualquer nacional com cartão de cidadão, e isso também vale para a emigração, o que significa que o recenseamento passou de trezentas e tal mil pessoas, para um milhão e quatrocentas mil.
Outra coisa: à integração num país estrangeiro, a Lei da dupla nacionalidade é fundamental. Hoje, por exemplo, no Canadá não há quase portugueses que não tenham a dupla nacionalidade! Os que não a têm correm o risco de serem deportados… o que é um problema! É preciso criar a categoria de imigrantes inexpulsáveis, para aqueles que são criados no país, e não apenas para os neles nascidos.
 Qual é então o problema que resta: é que os emigrantes participam muito pouco.
Aliás, diga-se que o Bloco de Esquerda foi, desde o seu início, o primeiro partido que, à esquerda,  aceitou a dupla cidadania. A Constituição diz que os portugueses podem participar em todos os processos que sejam compatíveis com a ausência, mas isso é uma questão de interpretação.
Ora, defendo que os emigrantes devem votar, também nas eleições para as regiões autónomas; para as eleições regionais, locais, porque a ligação ao País começa pela sua terra, faz-se pois  pelas autarquias.”
No Açores também se levanta essa questão.
“No caso dos Açores, houve quem objetasse que era matéria inconstitucional, porque o voto local era reservado aos naturais dos Açores.  A solução é dar o voto aos naturais e aqueles que tiveram residência nos Açores. 
Portanto espero que o voto dos emigrantes nas autárquicas; nas eleições para os governos autónomos seja conseguido brevemente nas duas regioões autónomas. Aliás, em rigor, nem era preciso mudar a Constituição. Mas se os obstáculos forem de tal ordem, que se torne espresso na letra da lei o voto autonómico”.
A «EMIGRAÇÃO» MERECIA TER UMA COMISSÃO PARLAMENTAR NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Mesmo assim há representantes da Emigração na Assembleia da República…
“Na Assembleia da Repúblico o poder legislativo está, muita das vezes, nas comissões parlamentares, e a Emigração nem sequer tem tido sempre uma subcomissão. E são só 4 os deputados eleitos pela emigração.. . Na maior parte dos países da Europa, não se coloca esta questão do teto, ou da não proporcionalidade, porque os emigrantes votam para círculos territoriais, e não votam para círculos de emigração.
Portugal inventou este sistema, seguiu-o a Croácia, e toda a gente elogiava o nosso sistema, mas eu digo que não tem só virtudes, e não tem porque os deputados da Emigração são pouco, são poucas vozes.
Repare, uma Comissão Parlamentar tem vinte e cinco elementos, ou mais; portanto, se fosse criada uma Comissão para a Emigração, proporcional à votação de cada partido, permitia que todos eles estivessem representados, o que era ótimo, uma vez que, atualmente, os 4 deputados são apenas do PSD e do PS, e isso permitia ir até ao PAN…  e fazia com que vinte e cinco deputados abordassem o problema continuadamente”.
O CONSELHO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS NÃO TEM SIDO SUFICIENTEMENTE OUVIDO
“Outra coisa que acho importante no ponto de vista da Integração – além dupla nacionalidade -, é o movimento associativo, que foi um poderoso fator de boa integração. Portugal tem aí um núcleo que pode fazer tudo, informação; divulgação cultural , congressos; exposições,ensino,  desporto…
O Conselho das Comunidades Portuguesa foi uma criação do governo de Sá Carneiro, em 1980, É  uma instituição de inspiração francesa, para a representação específica dos emigrantes. O nosso foi o segundo criado na Europa. É um órgão consultivo do Governo,  tem feito um trabalho que considero muito positivo, mas não tem sido suficientemente ouvido.
Depois de eu ter saído do Governo em 1987, foi esquecido, at+e que José Lello que o retomou, e, 1996. Ele gostava das comunidades! Depois de deixar o Governo teve a ideia de criar uma Fundação  "Terra Mater" , para a qual me convidou a trabalhar em pé de igualdade. Aí fui muito pressionada pelo meu partido a não colaborar mas não desisti...   Depois, a Fundação não pode avançar, houve dificuldades. Foi pena...    
QUANDO O PSD FOR DE DIREITA, EU SAIO!…
Foi muitas vezes pressionada pelo seu partido?
“Quando estava na Emigração não me senti pressionada. No Governo senti o facto dos meus orçamentos serem cortados, tive muita dificuldade em ter meios para fazer coisas. Não podia fazer milagres! Tirando isso, não fui pressionada. As minhas heterodoxias em relação ao meu partido são muitas, mas todas noutras áreas”.
A política defendida por Sá Carneiro ainda é recordada no atual PSD?
“Por mim sim. Não sei se é por todos os outros”.
O PSD para si não é de direita?!
“O meu PSD não é de direita! Aquele partido a que eu aderi não era de direita. Eu não sou de direita. Quando o PSD for de direita eu saio! Sou centro-esquerda! Continuo social-democrata à sueca”.