terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A CONSULESA ANGELINA SOUSA MENDES

LEMBRAR ANGELINA SOUSA MENDES
A CONSULESA DE BORDÉUS

 1 - Aristides Sousa Mendes, Cônsul em Bordéus durante o início da ocupação nazi, o homem que sacrificou a carreira e a família para salvar a vida de milhares de judeus, em fuga para a última fronteira, (a nossa), converteu-se num grande (para muitos, no maior) herói português do século XX. É conhecido e reconhecido como um exemplo de humanismo, nacional e internacionalmente - pelo Congresso dos EUA, por Israel e muito outros países. A História vai, justamente, guardar o seu nome para sempre. E vai, injustamente, esquecer o de sua mulher, Angelina. 
Angelina estava lá, a seu lado, em Bordéus, no dia 16 de junho de 1940, quando tomou a decisão refletida, abnegada e conjunta, de sacrificar o seu futuro para assegurar o dos refugiados, que lhe pediam um visto de passagem para a liberdade.
 Este "esquecimento" não é coisa surpreendente na crónica oficial de todos os povos, em todos os tempos. As mulheres que agiram em momentos cruciais, com igual capacidade de decisão e de sacrifício, igual força de ânimo, viram o seu papel ser, deliberada e sistematicamente, apagado ou desvalorizado. São, quando muito, como Angelina, remetidas para uma nota de rodapé nas biografias dos companheiros de combate.
Será o século XXI o da emergência das Mulheres na economia, na ciência, na política, em suma, na "res publica" e, consequentemente, na História?
Nem isso poderemos dar por seguro. Assistimos, hoje, ao ressurgimento de movimentos fundamentalistas religiosos, ("vide" o discurso das seitas apoiantes de Trump e Bolsonaro...) ou laicos neofascistas e obscurantistas, que  erguem, como bandeiras, a misoginia e a xenofobia (o "Vox" na Espanha, aqui ao lado, e, por cá, o "Chega!", se não também o atual CDS, (cuja direcção, monoliticamente masculina, está mais próxima do paradigma talibã ou saudita do que do PPE de Ursula von der Leyen)).
E mesmo que estes extremismos sejam vencidos, deixando caminho aberto a sociedades pluralistas e paritárias, onde as mulheres farão, em parceria com os homens, a história do futuro, o progresso vindouro não corrige, nem compensa, os erros e malefícios do longo passado que baniu da memória coletiva a voz e os feitos do sexo feminino.
Por isso, não obstante admitirmos que a maioria desse acervo se encontra perdido, em definitivo, é dever da nossa e de futuras gerações procurar fazer justiça a todas as mulheres, cujo ação e merecimento seja ainda possível "desocultar" e enaltecer
A esse trabalho se entregou, no que respeita à Consulesa de Bordéus, uma ilustre investigadora da Universidade Católica, a Prof.ª Ana Costa Lopes. Partiu para o interior das Beiras, para Beijós e Cabanas de Viriato, entrevistou familiares e vizinhos, que conviveram com Angelina, consultou correspondência e documentação sobre ela - que infelizmente não abunda - e, a partir dessa incursão na penumbra do seu percurso, conseguiu traçar um perfil que nos surpreende e encanta.

2 - Quem era a Consulesa de Bordéus?
Angelina era prima direita de Aristides, pelos lados materno e paterno. Partilham os apelidos ("Sousa Mendes" e "Amaral Abranches").  Namoraram desde a adolescência e casaram jovens. Com apenas 22 anos, já ele chefiava a missão consular na Guiana Britânica e ela acompanhava-o. Acompanhá-lo-ia sempre, em três continentes, com os filhos, catorze, que foram nascendo nos diversos países. Depois da Guiana inglesa, seguiram-se Zanzibar, São Francisco, Boston, Porto Alegre e Curitiba, Luxemburgo, Bruxelas, e, por fim, Bordéus...
Em Bordéus se encontrava, em meados de junho de 1940, quando a ocupação nazi da Europa central lançou numa corrida para sul milhões de refugiados. A cidade tornou-se, de repente, num desordenado e tenebroso "campo de refugiados". A Espanha franquista recusava-lhes a entrada, só Portugal lhes havia servido de ponte, rumo à América. Todavia, nessa hora funesta, os diplomatas portugueses receberam novas instruções, proibindo a concessão de vistos a judeus e outros cidadãos perseguidos pelos países de origem ou apátridas (Circular 14). A 16 de junho, Aristides solicitou ao Ministério uma derrogação da Circular, que, logo no dia 17, lhe foi recusada. O Cônsul, atormentado, em estado febril, aconselhou-se com Angelina. Há muito, ela se dera conta dos riscos da situação. Mais pessimista do que o marido na análise da evolução da guerra, mandara para Cabanas os dez filhos mais novos e as empregadas. Naquela pungente noite de reflexão, ambos se nortearam, como católicos muito devotos que eram, acima de tudo, por imperativos morais e religiosos. Como ele diria depois, expressando publicamente o sentir comum, teve de desobedecer à "lei dos homens” para obedecer à “lei de Deus”. Nos dias seguintes, cumpriu escrupulosamente a missão humanitária de que se via incumbido, dando vistos a todos, indiscriminadamente, qualquer que fosse a nacionalidade, a raça ou a religião. Ajudado pela mulher e por dois dos seus filhos, não parou de trabalhar, dia e noite, sem pausas para descanso ou para refeições. Angelina abriu as portas da residência, que ficava próxima do consulado, e acolheu os mais fracos e desprotegidos, em todos os compartimentos da casa, nas camas dos filhos ausentes, nos sofás, no chão, nas escadas. Todos os que coubessem...
No relato de Sebastião Sousa Mendes: "A Srª Sousa Mendes, que agora não tinha apoio doméstico, decidiu que cozinhava e alimentava tantos refugiados quanto necessário. E assistiu aos mais necessitados, aos idosos, aos doentes na sua casa. Cozia as suas roupas, sempre que necessário, até fazia as camas, lavava a roupa deles, num verdadeiro ato de abnegação." . 
Aos que ficavam na rua, levava comida, cobertores, agasalhos. Incansável!
Ana Costa Lopes faz, aliás, notar que a intensa e eficiente intervenção solidária da Consulesa, durante aqueles memoráveis dias de junho de 1940, no meio do caos dantesco das ruas de Bordéus, não foi para ela uma espécie de "estrada de Damasco". Os depoimentos recolhidos mostram o contrário. Já antes Angelina fora e seria, depois, sempre assim, de uma generosidade sem limites. Na voz do povo da sua terra, "uma santa".
Inédito, naquele particular momento concreto, foi o facto de as circunstâncias a terem levado a transpor os gestos de solidariedade do espaço privado da casa para o público, e o de, através deles, ter contribuído para a salvação de tantos seres humanos em risco de acabarem em campos de extermínio.
A pressa tinha razão de ser… A 24 de junho, o Cônsul de Bordéus recebeu ordem para se apresentar em Lisboa, e o Consulado foi encerrado, de imediato.
Aristides, sujeito a processo disciplinar por desobediência, veio a ser severamente punido: A sua carreira terminara. Muitos dos filhos viram-se obrigados a partir para o exílio. Angelina, subsistindo com enormes dificuldades económicas, continuara a acolher na casa da Beira e, a seu pedido, nas de familiares, os refugiados, que lhe pediam auxílio, Morreu a 30 de agosto de 1948, no dia em que fazia 60 anos.
Aristides vai ter, em 2020, a consagração do seu heroísmo em Israel, onde o seu nome será dado a uma  Praça. Angelina, co-autora moral e, até, também, executante de atos de coragem e altruísmo semelhantes, pelos quais pagou o mesmo custo elevado, individual e familiar, permanecerá na obscuridade. Até quando?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

ASSOCIATIVISMO SENIOR

 ASSOCIATIVISMO SENIOR VERSUS ENVELHECIMENTO DO MOVIMENTO ASSOCIATIVO TRADICIONAL NO PAÍS E NA DIÁSPORA

1 - Portugal é um dos países do mundo com a população mais envelhecida, situação demográfica agravada pela ausência de políticas públicas para a promoção da participação cívica e profissional dos mais idosos e pela existência de preconceitos arreigados e de limitações jurídicas, que se traduzem em múltiplas formas de discriminação. em alguns casos consagradas em leis de duvidosa constitucionalidade, e os afastam da intervenção social e política.ou os levam e terminar prematuramente as suas carreiras
A "terceira idade", em Portugal, é predominantemente olhada no terreno da sustentabilidade da segurança social ou dos cuidados médicos e medicamentosos, logo, contabilizada no discurso corrente, como um "fardo"
Num quadro tão  negativo, em termos europeus e globais, surgiu nas duas últimas décadas,. um movimento cívico, de idosos para idosos, as chamadas "Universidades Seniores", que, configurando um novo paradigma de associativismo, nos colocou na vanguarda, a nível internacional. Em nenhum outro país terá este modelo conhecido uma mais rápida disseminação territorial, ou uma mais perfeita  consecução de objetivos, entre os quais se contam a valorização do voluntariado, da experiências e saberes, a dinamização da vivência cultural das pessoas de todas as idades, em cada terra, o rejuvenescimento anímico dos seniores e o diálogo intergeracional..
2 -  Mais difícil se tem mostrado a transposição deste modelo de sucesso do país para as comunidades do estrangeiro, onde o envelhecimento, quer das bases quer das cúpulas das associações, em que se estruturam organicamente as comunidades, é apontado como o problema maior, a par do decréscimo generalizado de participação, no contexto de novas vagas migratórias, em que a predominante emigração de perfil tradicional coexiste com a designada "nova emigração" de jovens altamente qualificados e supostamente mais individualistas.
O projeto ASAS (Academias Seniores de Artes e Saberes) foi impulsionado, a partir de 2012, pela Associação "Mulher Migrante"  (AMM), e, ao longo de período de sete anos, regista iniciativas concretas limitadas à RAS (onde cresceu no interior da preexistente "Liga da Mulher"), Argentina (região de Buenos Aires) e Canadá (Toronto).
O desafio que, no domínio da participação ativa na vida das comunidades portuguesas, se coloca aos poderes públicos e ao desenvolvimento das suas políticas, tal como às ONG's, encontrará um princípio de resposta na mobilização dos segmentos que têm sido mais marginalizados, as mulheres e os jovens, mas também, sem dúvida os mais velhos, que, em instituições novas, como as Academias Seniores, podem encontra meios de contribuir para a modernização e o futuro do associativismo na Diáspora.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

PRINCESAS IMIGRANTES

PRINCESAS IMIGRANTES
 MEGHAN MARKLE, MÁXIMA ZORRAGUIETA CERUTTI E MARIA TERESA MESTRE Y BATTISTA

1 - Em comum têm estas três mulheres nossas contemporâneas o facto de serem plebeias e estrangeiras no país onde foram viver um "conto de fadas", que, afinal, começou por ser uma verdadeira ordália, pondo à prova a sua coragem e resiliência na luta contra um feixe de incontáveis preconceitos. A problemática da sua integração no novo meio, embora este configurasse uma Corte Real, não foi muito diversa do árduo começo do comum dos processos migratórios. 
São, as três, oriundas do Novo Mundo: Meghan, a afro-americana, atriz emergente de séries televisivas; Máxima da Holanda, a argentina de origem basca e italiana, licenciada pela Universidade Católica de Buenos Aires, com "master's" nos EUA, seguido de fulgurante carreira no setor da alta finança internacional; Maria Teresa, a cubana de famílias basca e castelhana, exilada, com os pais, em NY e na Suíça, colega de Henrique do Luxemburgo, na Universidade de Genebra, onde se formou em Ciências Políticas. 
Vinham de culturas olhadas de revés pela intelectualidade e pela opinião pública europeias e tornaram-se vítimas da xenofobia latente nas nossas sociedades, onde o sentimento persiste e não só persiste como cresce...
Meghan tinha ainda contra si o facto de ser divorciada e de assumir, com orgulho, a metade negra da sua herança genética (que alguma imprensa britânica chama, despudoradamente, o seu "ADN exótico") e Máxima o labéu de filha de um antigo ministro da Agricultura da Ditadura, e o facto de se manter católica convicta. A Maria Teresa, uma cubana discreta e baixinha, pouco valia, à primeira vista, a esmerada educação e a longa tradição familiar de filantropia.
Porém, enquanto Máxima e Guilherme e Maria Teresa e Henrique gozam, hoje, de uma grande simpatia e estabilidade nos respetivos tronos, Meghan e Harry, (o primeiro casal multiétnico e multirracial da monarquia britânica), não resistiram aos desenfreados ataques racistas dos tablóides", investidas a que se juntaram, após o anúncio da sua renúncia ao estatuto real, os de muitos "media” de melhor reputação.
2 - Em mais de uma semana de infindáveis notícias e debates sobre o "Megxit", o mais chocante, a meu ver, foi a constatação da insensibilidade de quase todos os nossos comentaristas de gabarito para este aspeto do problema, ao ignorarem o etnocentrismo e o racismo, como causa da reação dos dois jovens, preferindo pôr em foco a leviandade da americana, (a intrusa, a mestiça), não tanto a do marido real (a culpa é, afinal, um substantivo feminino.).
À desvalorização dos preconceitos étnicos (ou à inconsciência do seu peso fundamental na decisão dos duques de Sussex), se aliou uma espécie de snobismo republicano de exegetas que se mostram "mais papistas do que o Papa" (no caso, a Rainha Isabel, que encima a hierarquia da Igreja Anglicana), ao pretenderem condenar o jovem casal ao serviço forçado e vitalício da Coroa. Deixem-nos sair, livremente da lista de abonados da Casa Real"!
 Outras monarquias, da sueca à espanhola, tomaram já a iniciativa de reduzir aquela lista ao círculo estreito do casal régio, seus filhos e pais sobreviventes. Parece-me bem e torna as Monarquias cada vez menos onerosas face às  Repúblicas
De qualquer modo, os direitos humanos fundamentais são para todos, sem distinção de raça, género, classe, fortuna... Já Ana de Castro Osório, feminista e republicana, há mais de um século, situava a luta pela igualdade entre Mulheres e Homens, definitivamente acima da questão de regime, dizendo que se devia dar a mesma solidariedade a todas as mulheres, qualquer que fosse o estatuto económico e social, porque todas eram, em diferentes contextos, vítimas das mesmas formas de discriminação - uma operária, ou uma princesa, por igual.
Dou, pois, a minha solidariedade à princesa Megan, que os pasquins ingleses zurziram tão injustamente por insignificâncias protocolares, como afagar a barriga durante a gravidez, ou cruzar as pernas em cerimónias públicas (tal como fazia a cunhada Kate, poupada porque, embora plebeia, é branca e autóctone).

3 – E, dito isto, acrescento que não sou propriamente simpatizante do perfil de Meghan, de Kate, ou, menos ainda, de Letícia de Espanha. Parece-me que lhes falta, mais do que brasões, uma dimensão cultural e humanista. E admiro, precisamente porque a têm, e com ela enobrecem e modernizam monarquias, as princesas Máxima, atualmente Rainha, e Maria Teresa, hoje Grã-Duquesa. 
Conheci esta última, numa reunião do Conselho da Europa sobre microcréditos Simples, direta, com uma vivacidade muito latina, cheia de ideias… Impressionante! Tem tido uma ação notável nos domínios da inclusão financeira, da integração de imigrantes, da igualdade das mulheres, agindo tanto a nível nacional como internacional - na UNESCO, na UNICEF, no Comité Paralímpico Internacional. Em 2006, foi-lhe atribuído, pela Fundação da Santa Sé, um prémio, a "Peace Award". É presidente da Cruz Vermelha, fundadora de uma grande Universidade para Mulheres Asiáticas, animadora do movimento contra a violência sexual "Stand, Speak, Rise up". Dirige uma Fundação, focada nestes domínios, onde reúne, como conselheiros, vários prémios Nobel.
Máxima é, atualmente, a figura mais popular da Casa Real holandesa, o Parlamento indicou-a para o Conselho de Estado e atribuiu-lhe o título inédito, na era moderna, de Rainha consorte (até então, os conjugues eram apenas príncipes). Pertence também ao Comité para a integração das Minorias Étnicas. Navega, por coincidência ou não - ambas possuem formação académica na área económica - nas mesmas águas da Grão-duquesa Maria Teresa - inclusão financeira, microcrédito, apoios a pequenas e médias empresas, integração dos imigrantes pela cultura, pela educação musical, igualdade de género. E vai mais longe, na defesa dos direitos dos "gays" e de outras causas "fraturantes" (na expressão corrente entre nós). É conselheira do Secretário-Geral das Nações Unida, no domínio das Finanças e Desenvolvimento, desde os tempos de Ban Ki-Moon.
A extraordinária capacidade de integração e o ascendente que estas mulheres estrangeiras e plebeias (Máxima, Teresa, Sílvia da Suécia e outras) ganharam, tanto no interior de Casas Reais, como a nível popular, deve-se a algo muito mais decisivo do que a geografia ou o meio social em que nasceram: às qualidades de inteligência e à excelência da formação académica, por um lado, e, por outro, ao seu carácter e ao gosto pela intervenção cívica.
Eu confesso-me "res publicana",  antes que republicana. Acredito na igualdade de todos os seres humanos e na democracia. Democracia compatível, como mostram as monarquias nórdicas europeias, com um regime de entrega da chefia simbólica do Estado ao representante de uma antiga Família. Confiam-lhe uma missão, não a sacralizam. O ideal é que essa família se cruze com gente do seu povo e de outros povos, com uma única condição: saberem escolher as mulheres ou os homens certos

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

AS CORES DA LUSOFONIA Exposição de NORBERTO d'ABREU

Norberto d' Abreu é um nome que a Venezuela há muito identifica como seu. Sendo filho de portugueses, nascido em Caracas, lá fez a formação académica, mais tarde completada em Madrid, lá ganhou fama e prestígio, em décadas de trabalho reconhecido em inúmeras mostras individuais e coletivas, ao longo de um percurso artístico ascensional, em que mestria técnica, método e criatividade se combinam na perfeição. 
Portugal, que, ao longo dos tempos e ainda hoje, raramente vem sabendo valorizar os génios da emigração e reclamá-los para si, tem aqui, graças uma meritória iniciativa da Sociedade da Independência Nacional, a oportunidade de descobrir e admirar o seu talento..
E se a Arte não tem nacionalidade, enquanto linguagem universal, o Artista, esse, pode tê-la, afirmá-la, escolhe-la como tema e fonte de inspiração. Esta exposição, com o título "Cores da Lusofonia", é um exemplo da paixão de um Homem da Diáspora por Portugal, sua essência e trajetória universalista, e pelos povos que nela conviveram e nela permanecem, em partilha fraternal e igualitária da diversidade das culturas enraizadas no idioma comum.
Norberto d 'Abreu pinta a sua ideia de Lusofonia, enquanto entrelaçamento de afetos, girândola de memórias, de rostos, de gestos e sentimentos, fulgurantemente, captados no mágico colorido das suas obras. Consegue, assim, como que reescrever a história coletiva, centrado-a em protagonistas com quem nos leva a dialogar de forma inovadora, ele que é, antes de mais, um admirável retratista! E no enfoque minucioso de uma expressão artística singular retrata-se, também, na sua visão das pessoas, a um tempo realista e sensível, juntando ao dom da observação penetrante, rigorosa e objetiva, o de uma muito subjetiva e humana simpatia. 
A "Lusofonia"  apresenta-se, aqui, modelada nos traços e nos cambiantes de imagens de vultos tutelares e de gente anónima, que a falaram, convivialmente, primeiro no pequeno reino europeu, e, depois, a transportaram num movimento imparável de expansão mundial. Todos figurados de corpo e alma  e situados, subtil e luminosamente, na sua circunstância.
Norberto d' Abreu, o contador de histórias, convida-nos  a uma leitura aprofundada da narração visual.centrada em personagens e destinos. Para além da emoção estética, da beleza do quadro no seu todo, em que sobressai a face, o olhar, o porte, o traje, há, em volta, em cada milímetro de tela, uma infinita riqueza de detalhes, sublinhando sonhos, projetos, acontecimentos, encenados num fio de narrativa  que, não raro, ele deixa extravazar da moldura convencional, em que os cânones costumam encerrá-la. Porventura, uma maneira de nos dizer que a aventura da vida é para transcender convenções e para procurar ir sempre mais longe, em busca do impossível...
"As cores da Lusofonia" são, na verdade, uma crónica pictórica esplendorosa e vibrante dessa demanda, com o estilo e a assinatura inconfundíveis de Norberto d' Abreu

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

AS BANDEIRAS DE JOACINE

AS BANDEIRAS DE JOACINE

1 . Joacine Katar Tavares Moreira entrou, com 37 anos e um brilhante curriculum académico, no hemiciclo de São Bento no meio de um turbilhão mediático.. 
Dão nas vistas as muitas bandeiras de que se cerca para fazer história na Assembleia da República. É o tê-las, em conjunto, nas suas mãos, não cada uma delas, que a convertem em grande pioneira.
É mulher, negra, nascida no estrangeiro, (naturalizada aos 21 anos) e gagueja, como 100.000 outros portugueses, a quem demonstra que nada lhes é impossível, nem mesmo intervir em debates televisivos e discursar na tribuna parlamentar. Sabe o que quer e sabe o que diz, ainda que o diga, por vezes, mais devagar.
 Não são, pois, repito, aquelas particularidades, "de per si" que a tornam um fenómeno político nacional, mas antes o facto de as empunhar, todas, orgulhosamente. É feminista, dirigente associativa de um movimento de mulheres negras,e combate com o seu exemplo, ativamente, diferentes formas de discriminação (a própria gaguez incluída)..
Não sendo do seu partido e não a acompanhando em todos os pontos do seu programa, gosto, sempre, de a ver afrontar e pôr, assim, a nu uma longa lista de preconceitos.

2 - Aos ataques que sofreu, antes das eleições, acresce, o que, no período seguinte, se deve enquadrar no puro domínio da xenofobia. Refiro-me ao episódio suscitado pelo simples agitar de uma bandeira da Guiné Bissau na festa da noite eleitoral do "Livre". De imediato se levantou um coro de protestos, e logo circulou uma petição, que reuniu cerca de 18.00 assinaturas, na vã tentativa de impedir a sua investidura como deputada, acusando-ou de não ser portuguesa ou de faltar aos deveres de patriotismo.
A questão da nacionalidade entrou na liça! E não costuma entrar, ao menos no desporto, quando as protagonistas trazem medalhas de ouro para Portugal - casos de Naide Gomes, (que, por sinal, representou o país de origem, São Tomé e Principe, até ao ano 2000). ou o de Patrícia  Mamona, de ascendência angolana, para só falar de fantásticas atletas, no feminino.
É certo que, na modalidade desportiva mais popular, o futebol masculino, houve já, como agora aconteceu no campo da política, afloração de opiniões e atitudes xenófobas, visando, note-se, sobretudo os brasileiros, que representavam a seleção nacional, incluindo Deco, sempre o incomparável "maestro"  da equipa. De África, a principal vítima, até hoje, terá sido o internacional Rolando, defesa do FCP (e da seleção), criticadíssimo por ter festejado um título europeu do clube com uma bandeira de Cabo Verde, sua terra natal, sobre os ombros -  gesto, a meu ver, muito bonito, que terá enchido de alegria os cabo-verdianos e servido para reforçar as suas ligações afetivas ao Porto e ao nosso País.
Aqueles 18.000 peticionários, que se julgam bons patriotas, são precisamente o contrário: maus e mesquinhos portugueses, incapazes de compreender o espírito fraternalista da nossa história partilhada com outros povos, e a realidade da CPLP, como herança, presença e futuro desse espírito no universo em expansão da lusofonia. 
A pertença à CPLP é, para Portugal, pelo menos tão importante, como a pertença à UE. Ora uma verdadeira Comunidade de povos não se faz com leis e proclamações solenes, mas com a proximidade e a aceitação de pessoas concretas. Pessoas concretas como a Doutora Joacine.

3 - Os tais 18.000 zelosos peticionários ignoram, pelo visto, que a nossa Constituição e as nossas leis admitem, sem restrições, a dupla (ou múltipla) nacionalidade. e até, atualmente, também, a dupla participação política, no País de origem e no de residência. Mais ainda: consagram um estatuto especial de direitos civis e  políticos para os cidadãos de países de língua portuguesa, sob condição de reciprocidade. Uma espécie de "cidadania lusófona", muito mais lata do que a "cidadania europeia", pois permite o voto em todos os sufrágios, de nível local ou nacional, assim como a capacidade de ser eleito para as autarquias e para a Assembleia da República ou de ser membro do Governo ou da Magistratura Judicial.
Para já, só entre Brasil e Portugal existe a necessária reciprocidade, estando em vigor, desde 2001, um estatuto de igualdade de direitos políticos -  o mais avançado que se conhece na Europa e no mundo. Se Joacine fosse brasileira  podia aceder ao cargo de deputada, ao abrigo do artº 15ª da Constituição da República, mesmo sem adquirir a nacionalidade portuguesa... É, pois, como cidadã naturalizada portuguesa, no pleno gozo dos seus direitos, que está em S Bento e pode, obviamente, deixar-se fotografar, tanto com bandeiras da CPLP, como com a da União Europeia, cuja omnipresença aparentemente não incomoda, do mesmo modo, os nacionalistas extremados que subscreveram a petição..

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O CÍRCULO MARIA ARCHER

A MODERNIDADE DE MARIA ARCHER

O "Círculo Maria Archer" participa, juntamente com a AMM, numa primeira jornada de homenagem à Drª Rita Gomes, neste mês de outubro,  mês do seu nascimento,  em que, todos os anos, procuraremos lembra-la, de forma especial. Faz todo o sentido associa-la à evocação de Maria Emília Archer Eyrolles Baltazar Moreira, de quem era prima, com quem conviveu desde a infância, e a quem tanto admirava. Temos a certeza de que, se hoje estivesse entre nós, participaria, ativamente, com o maior entusiasmo, no lançamento deste Círculo  e, tal como outros membros da família, veria na sua expansão uma caminhada para o futuro em que as crenças e as causas, o nome e a memória de Maria Archer estarão sempre presentes.
Nos últimos anos da presidência de Rita Gomes na AMM, foram diversas as iniciativas focadas em Maria Archer. Gostaria de as recordar como acções que lhe foram, ou, se me permitem falar no plural, nos foram, especialmente gratas: uma primeira no contexto do Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora, em Novembro de 2011,  congresso em que pretendemos reavaliar a realidade da emigração no feminino, traçando, por um lado, as linhas de evolução de mais de um século de êxodo migratório, com significativa componente feminina, e particular enfoque numa área em que têm estado, pelo menos, tão atuantes como os homens: o domínio da Cultura e do ensino da Língua.  Maria Archer foi, então, homenageada, a par de Maria Lamas, em intervenções do Reitor Salvato Trigo, da Dr.ª Olga Archer Moreira, da Dr.ª Dina Botelho e da Prof.ª. Elisabeth Battista.
Voltou a ser figura de cartaz na comemoração do Dia Internacional da Mulher, em março de 2012, na Biblioteca José Marmelo e Silva, em Espinho, onde a principal oradora foi Olga Archer Moreira, sua sobrinha neta. O programa incluiu uma "entrevista imaginária" com a grande escritora e cidadã, representada  por jovens das Escolas da cidade, que deu ao evento um toque afetivo e pedagógico. A "entrevista imaginária" seria posteriormente encenada em diversas escolas, para levar a públicos jovens o exemplo de vida de uma grande Mulher de Letras, capaz, igualmente, de ação concreta.
Nesse ano, em Lisboa, no Teatro Nacional da Trindade, a força das suas convicções e ideais foi, novamente, saudada em sucessivas intervenções sobre o seu trajeto e a sua obra, por muitas pessoas que com ela conviveram de perto. como seu sobrinho dileto, o Prof. Fernando de Pádua,  Encerrou a sessão, prestando-lhe um vibrante tributo, o Presidente Mário Soares, símbolo da luta vitoriosa pelo Portugal em liberdade, em que ela se empenhou, de alma e coração..Os múltiplos contributos estão publicados, numa das mais belas edições da AMM, coordenada por Rita Gomes e Olga Archer Moreira. Em 2013, foi relembrada, numa apresentação das publicações da "Mulher Migrante", realizada no Palácio das Necessidades e, em 2014, a Associação organizou, juntamente com a Fundação Prof. Fernando de Pádua, um colóquio, a anteceder o lançamento da publicação de Elisabeth Battista ."O legado de uma escritora viajante". E tem permanecido, nos últimos anos na agenda da "Mulher Migrante" -  no Dia Internacional da Mulher, nos colóquios de Monção, (com  repetidas encenações da "Entrevista Imaginária", sempre protagonizadas por estudantes das Escolas locais), no Dia da Comunidade Luso-brasileira, desde 2017, tendo este ano sido o Círculo Maria Archer apresentado formalmente, no âmbito dessas comemorações.
Hoje, para o lançamento do último livro de Elisabeth Battista "Sem o direito de voltar a casa" Maria Archer - uma jornalista portuguesa no exílio", estamos  reunidos, na esplêndida da Casa da Beira Alta, nossa muito acolhedora anfitriã, na pessoa do seu presidente, Dr. Afonso Costa. É uma segunda  parceria da AMM e do “Círculo”, que, esperamos, se repita muitas vezes, na prossecução dos objetivos comuns, em torno da personalidade inspiradora de Maria Archer, cuja vasta e multifacetada obra convida a estudo e a debate e cujo exemplo de inconformismo convoca à militância cidadã.
Temos, entre nós, e devemos sublinhar o facto, a maior especialista no se percurso literário, a Professora Doutora Elisabeth Battista, que todos queremos ouvir, quanto antes, pelo que direi ,agora, apenas umas breves palavras. Primeiramente, para lhe agradecer a esplêndida oportunidade que oferece ao Circulo Maria Archer de dar o melhor dos  inícios a um roteiro de reflexão e debate, ao escolhe-lo, para organizar, no Porto, a divulgação de mais um notável trabalho científico sobre a insigne Autora, nomeadamente sobre o seu trilho jornalística no exílio brasileiro, que, ao contrário dos livros, (ainda que na quase totalidade esgotados) é praticamente desconhecido. A esse agradecimento juntamos um convite, que, sabemos, será aceite, para se tornar associada do Círculo, alargando o seu espaço às fronteiras do Brasil.
Limitar-me-ei, pois, a sumariar as principais razões que nos levam a fazer de Maria Archer uma companheira de jornadas, de diálogos sobre as temáticas de género, de valorização da vivência democrática, de defesa da Igualdade e aproximação dos povos, muito em particular os do universo da lusofonia. e suas Diásporas.
Da Diáspora Portuguesa e do mundo plural da Lusofonia ela é um nome maior, como intelectual, jornalista e romancista, e como precursora na observação e registo, em preciosos textos, sobre os usos e costumes das gentes com as quais, por largas décadas, tanto gostou de  conviver,  em Moçambique, na Guiné-Bissau, em Angola, (nos anos de juventude acompanhando os pais e, depois, o marido), e, já sexagenária, no solitário exílio brasileiro de mais de duas décadas. Mulher de imensa cultura e inteligência, sempre atenta ao que acontecia em seu redor, fora como dentro do próprio país, com inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, traduziu a experiência vivida em inúmeros escritos de incomensurável valor literário e de enorme interesse etnológico, sociológico e político. Assim se converteu em testemunha rara, em memória crítica de um tempo português, opressivo e cinzento, pautado por preconceitos e discriminações, por regras de jogo viciadas, que ela pôs a nu, frontalmente, sem contemplações. e sem temor.  Ninguém, como ela, retratou o quotidiano desse Portugal do "Estado Novo", estagnado e anacrónico, avesso a qualquer forma de progresso social, em que as mulheres, em particular, se encontravam dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, depois de terem sido deformadas pela educação, pela entronização rígida dos papéis de género dentro da famílias, numa sociedade fechada ao curso da História, que ia acontecendo na Europa e por esse mundo fora.
A mais feminista das escritoras portuguesas, nascida no último ano de oitocentos, era demasiado jovem para poder ter feito parte dos movimentos revolucionários e feministas do princípio do século XX, mas viria a ser uma das poucas  que, no período de declínio desses movimentos (com o desaparecimento de uma geração memorável), prosseguiu a seu jeito, incessante e solitariamente, a mesma luta  contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, ao enclausuramento doméstico e à incultura... A escrita foi  para ela uma arma de combate  político. Segundo Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante".  Mulher livre num país ainda sem liberdade, pagou pela coragem de ser assim um preço muito alto .Viu os seus livros, que atingiam, recordes de popularidade e de vendas,  apreendidos, os jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento. Foi obrigada a partir, mas a sanha vingativa da Ditadura não se satisfez com o seu  desterro - ela foi "deliberadamente apagada da História", como escreve Maria Teresa Horta no prefácio da reedição de "Ela era apenas Mulher".
O Circulo Maria Archer surge, em pleno século XXI, para combater esse acto persecutório, consumado há décadas, Tem por assumida finalidade recolocar o  nome de Maria Archer no lugar vazio que é seu na história da nossa Literatura e do feminismo português, e, também, na história  do pioneirismo na construção de pontes entre as culturas lusófonas.  
Revisitar a obra desta Mulher de Letras, através da divulgação e do debate dos seus escritos, visa desocultar o passado, lançar luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50, e  fazer futuro com a modernidade do seu pensamento e das prioridades da sua luta cívica e cultural.
 O Circulo pretende, afinal, sobretudo,   assegurar uma segunda vida a Maria Archer, projecto perfeitamente possível,   porque, como dizia Pascoaes, existir não é pensar, é ser lembrado".

Neste projeto todos os  presentes estão convidados a participar!