domingo, 13 de março de 2022

RUTH ESCOBAR, MULHER DO PORTO in Jornal Etc e Tal (2001)

RUTH ESCOBAR, MULHER DO PORTO, (QUE NÃO É NOME DE RUA...) 1 - Numa das minhas rondas pré-pandemia pelos alfarrabistas, fiz um pequeno achado - um interessante livro sobre a toponímia feminina do Porto, da autoria do historiador César Santos Silva, com um prefácio de Joel Cleto. A edição é de meados de 2012, não muito recente, mas receio que mantenha, no que respeita à gritante desigualdade de género neste domínio, toda a atualidade. Não parece ser tema de que as (e os) feministas façam bandeira, e de que os autarcas, poder eminentemente masculino, tenham consciência. O Autor apresenta 146 topónimos femininos, no Porto. mas entre eles, com boa vontade e simpatia, somando dezenas e dezenas dos mil e um nomes da Nossa Senhora, um bom número de Santas, a começar por Santa Catarina, cuja existência continua envolta numa nebulosa, e algumas, poucas, rainhas e princesas, entre outras ruas que pertencem, gramaticalmente, ao género feminino, mas não designam mulheres individuais. E, em alguns casos, nem se sabe, ao certo, o que designam... Se nos concentramos nas celebridades dos últimos dois séculos, o número desce, dramaticamente, para apenas 33... Entre estas, antes de 1974, apenas seis: Florinha da Abrigada, a Sãozinha (1948), Felicidade Browne (1949), Guilhermina Suggia, (1951), Aurélia de Sousa (1954), Cecília Meireles (1971) e Amália Luazes (1973). Carolina Michaelis já dava nome ao liceu, porém, só teve direito à sua rua em 2001. A partir de 1974, mais 27 senhoras ilustres receberam essa honra, sendo, maioritariamente, nascidas ou residentes na cidade. A percentagem de estrangeiras (sete, no total) é relativamente elevada, e maior seria se incluíssemos santas e rainhas. Entre as nacionais não portuenses se encontram - e muito justamente - figuras como Natália Correia, Maria Lamas, Sarah Afonso ou Vieira da Silva. Olhando os domínios em que se distinguiram, concluiremos que predominam a escrita, a música (de Suggia às nossas grandes pianistas), o professorado (universitário, sobretudo) e as Artes plásticas, algumas acumulando a excelência no campo artístico ou académico com a intervenção cívica e política. Mais raras são as mecenas (duas), as santas populares (duas) e aquela outra que alcançou a fama como modista (a Candidinha). Na área do Desporto, abundam campeãs do mundo, de Aurora Cunha a Fernanda Ribeiro. Contudo, só Rosa Mota mereceu destaque, e não numa pequena via citadina, mas num grandioso pavilhão polivalente. A década mais fausta ao reconhecimentos dos méritos femininos na toponímia foi a de noventa, (com um pico em 1991/1992), seguida dos primeiros anos do novo século - 2000/2006. Note-se que houve mulheres que foram, assim, homenageadas pelo poder municipal pouco após o falecimento, caso de Virgínia de Moura, Helena Sá e Costa, ou Sophia e outras que esperaram mais de um século para alcançarem o seu lugar na toponímia - por exemplo, Ana Plácido e a feminista e republicana Albertina Paraíso, de quem, felizmente, se lembraram, tardiamente embora, nas comemorações de 2010. Não há, neste seleto círculo, uma só portuense da Diáspora. Há mulheres que vieram do estrangeiro ou que lá, transitoriamente, estudaram ou viveram. O que não há é emigrantes não retornadas, pelo menos do Porto... longe da vista, longe do coração! A exceção que confirma a regra, a pintora Maria Helena Vieira da Silva, é lisboeta e, ao mesmo tempo, parisiense, o que lhe confere um grau particular de visibilidade e prestígio. La France!... Longe, verdadeiramente longe, fica o Brasil, para onde foi Maria Ruth do Santos, a menina de Campanhã, que morava na Rua do Bonjardim e se transformou, em São Paulo, na tão brilhante e mediática Ruth Escobar. 2 - Após a morte de Ruth, em 5 de outubro de 2017 - uma perda evocada em todo o Brasil, com eco em Nova Iorque, nas Nações Unidas - fez-se sobre ela, no país de origem, um estranho silêncio. Na sua terra, só uma associação, da qual sou fundadora, a Associação Mulher Migrante, lhe prestou a homenagem possível durante um colóquio sobre relações luso-brasileiras. Alguns meses depois, influenciada pela leitura do livro de César Santos Silva, que tivera apoio institucional da autarquia, tomei a iniciativa de me dirigir à Comissão de Toponímia da Câmara Municipal do Porto, lembrando a personalidade desta portuense, a sua ligação afetiva à cidade onde passou os primeiros dezasseis anos de vida e o extraordinário percurso que a tornou a portuguesa da sua geração mais conhecida e admirada no Brasil, como atriz, produtora teatral, mulher de Cultura e ativista dos Direitos Humanos. Uma imigrante singular, admirada pela inteligência, pela audácia e pelo modernismo, uma mulher que nunca receou desafiar os poderes constituídos, em ditadura, nem enfrentar grandes polémicas. Aos compatriotas impressionava o orgulho com que se afirmava portuguesa e portuense. A sua autobiografia, publicada em 1987, começa assim: "Lembro-me do trajeto invariável de todos os dias: da Rua do Bonjardim subo a João das Regras, atravesso a Praça da República, desço a Rua dos Mártires da Liberdade, e entro na Praça Coronel Pacheco - onde ficava o Liceu Carolina Michaelis". Liceu, onde descobriu a vocação teatral, representando, um a um, todos os Diabos, dos Autos de Gil Vicente. Esse primeiro capítulo do livro "Maria Ruth" é, todo ele, dedicado à vivência na cidade, aos passeios ao Palácio de Cristal, ou à Foz, às sessões de cinema no Rivoli, às festas populares de São João. As boas recordações da adolescência são, sobretudo, desses ambientes com que se identifica. Como confessa: "só consigo lembrar os barulhos de fora, da rua, da cidade, dos outros. De dentro de casa, do dia a dia, nada..." . Até que, um dia, partiu à aventura: "quando embarquei para o Brasil, no Serpa Pinto, com a minha mãe, levava também a certeza de um destino, pois soube que tudo o que sucedeu na minha vida, mesmo antes do meu nascimento, estava moldado por uma força universal, cósmica, transcendente". E, de facto, foi cumprindo os seus sonhos de jovem imigrante, a ritmo vertiginoso. Aos 18 anos, editava uma revista "Ala Arriba" e, na qualidade de jornalista (amadora), corria o mundo, entrevistava uma longa lista de líderes famosos, como Foster Dulles, Kruschev ou Nasser, via as suas reportagens serem disputadas por revistas como a "Life", e por prestigiados jornais de S, Paulo e Lisboa, Entre os seus 20 e 30 anos, impôs-se como empresária e produtora de teatro e, depois, como atriz talentosa. No Teatro a que deu o nome, (já não Maria Ruth dos Santos, mas Ruth Escobar, apelido do segundo marido, o poeta, dramaturgo e filósofo Carlos Escobar), levou à cena tanto os prediletos autos Vicentinos como peças contemporâneas. Em 1963, criou o Teatro Nacional Popular, itinerante, que chegava às periferias do Estado, a muitos milhares de pessoas, com espetáculos de grande qualidade (Martins Pera, Suassuna...), em palco improvisado num velho autocarro. O seu terceiro marido, o arquiteto Wladimir Cardoso, viria a ser o cenógrafo de peças de enorme êxito artístico, como "Cemitério de automóveis" de Arrabal, com montagem do argentino Vitor Garcia e encenação da própria Ruth. Uma dupla que, em 1969, com "O balcão" de Jean Genet, venceria todos os prémios, no Brasil. A partir de 1964, ainda jovem, na casa dos 30 anos, durante a ditadura, converteu o seu teatro em forum de luta pela liberdade, resistindo a ameaças, interrogatórios, prisões, e ataques de comandos para-militares. E, nessa década, trouxe Portugal, vencendo obstáculos postos pela "Censura", alguns dos seus maiores sucessos, "Missa leiga" e "Cemitério de automóveis" . Em 1974, organizou o 1.º Festival Internacional de Teatro de S. Paulo, levando ao Brasil as melhores companhias do mundo e contribuindo para um movimento renovador das Artes dramáticas brasileiras, que prosseguiu com o 2.ª Festival, em 1976. Em Portugal, por influência das "três Marias", com quem conviveu, acrescentou o feminismo às suas causas, e, no Brasil, voltou a fazer história, como pioneira no terreno da política, tornando-se a primeira mulher eleita e reeleita deputada à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros, pois teve sempre só uma nacionalidade, a portuguesa). Foi também a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e, durante anos, a Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres Depois de quase uma década nos palcos políticos nacionais e internacionais, regressou, nos anos noventa, aos palcos do teatro, como intérprete, empresária e promotora de festivais internacionais, em novos moldes, mais abrangentes de outras artes. A sua herança teatral, enraizada no Gil Vicente da juventude, e no vanguardismo em que projetou a sua criatividade, ao longo de décadas, mudou a face do moderno teatro brasileiro! Uma última grande produção foi uma encenação de "Os Lusíadas", que estreou em São Paulo e conseguiu, depois, trazer a Portugal. .Em vida, Ruth Escobar recebeu as maiores condecorações brasileiras, a "Legião de Honra" de França, e a "Ordem do Infante D Henrique" de Portugal. A sua morte, em 2017, foi notícia impactante no Brasil, onde fica vivo um legado de intelectual vanguardista, que revolucionou o teatro nacional e de feminista portuguesa, que abriu caminho à intervenção política das mulheres brasileiras. Percorro os nomes femininos da toponímia portuense e julgo que Ruth acrescentaria a essa lista tão reduzida, quanto significativa, a mais valia da singularidade. .3 - Estas considerações sobre Ruth Escobar são puramente objetivas, poderia tecê-las sobre alguém com quem nunca me tivesse cruzado, alguém, porventura, de um tempo passado ou de uma geografia desconhecida. Mas, num plano mais subjetivo, vou contar como a vi pela primeira vez, em São Paulo. Não consigo precisar a data, mas, sendo, então, deputada da emigração, entre uma saída e um regresso à Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, terá acontecido entre fins de 1981 e meados de 1983. Recordo que a minha visita foi organizada por um Cônsul-Geral muitíssimo simpático, que, por fim, me convidou para uma receção, na sua residência, com uma dezena de participantes, entre os quais Ruth, a deputada, que fazia furor. Na mesa redonda, o protocolo colocou-nos lado a lado e a sintonia foi imediata. A conversa começou e continuou centrada no Porto, no nosso Porto... Ela era uns anos mais velha do que eu, mas o país, nesses anos, não mudara, em nada... nem o liceu, nem as mentalidades, os costumes, a vida das adolescentes - que voltamos a ser, nas rememorações desse jantar, rindo e extravasando genuína e juvenil alegria. No dia seguinte, o Cônsul contou-me que ficara muito surpreendido ao constatar que Ruth e eu éramos amigas de infância. Acho que, de novo, muito o surpreendi, ao dizer-lhe que não, que tinha conhecido a famosa Escobar naquela noite... Pouco depois, segundo encontro inesquecível, também em São Paulo, com Natália Correia. Natália e Ruth.! A corrente passava entre ambas - qual delas a mais heterodoxa, a mais fulgurante, a mais carismática... Ruth, tal como Natália, parecia viver, sempre, vertiginosamente e em festa, cada momento, cada ideia, cada projeto...Bem gostaria de as ver, um dia, reunidas na toponímia do Porto.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

UM PAÍS INVARIAVELMENTE AO CENTRO in Defesa de Espinho jan 2004

2022 - UM PAÍS INVARIAVELMENTE AO CENTRO 1 - Em 1975, era assistente da Faculdade de Direito, tinha residência obrigatória em Coimbra e encontrava-me em Lisboa. Fui e voltei no meu carro, por estrada quase deserta e, depois, esperei horas, por esse momento empolgante, numa fila interminável, de gente compenetrada e silente, como quem aguarda num templo o início de uma cerimónia religiosa. A taxa de abstenção foi insignificante, o povo estava em luta democrática para a Assembleia Constituinte, onde se inaugurou a arquitetura partidária em que assentou, até 30 de janeiro passado, a casa democracia portuguesa, com os quatro partidos que elegeram a maioria dos deputados. Ao fim de 47 anos, o CDS desapareceu do Parlamento e o PCP está reduzido a seis deputados… Pelo contrário, o PS e o PSD resistem, repartem entre si a maioria de 2/3, essencial a revisão constitucional, à aprovação das Leis fundamentais do regime, às reformas estruturais de que o país precisa para ter futuro. Já houve maiorias absolutas do PSD (duas, com Cavaco Silva) e do PS (duas, com José Sócrates e, agora, com António Costa). Uma impressionante constância do voto popular, não obstante o leque de escolha partidária ser, nessa fase de construção da democracia, extremamente alargado, com um acentuado pendor esquerdista (para além dos que sobrevivem num completo anonimato, como o MRPP, os extintos MDP/CDE, UDP, UEDS, MES, PT, OCMLP, PUP, FSP, PRT, PCP-ML, PSR, e POUS entre outros). A autoproclamada direita, como o MIRN de Kaúlza de Arriaga, reduzia-se a pequenos grupos marginais. O CDS de Freitas do Amaral dizia-se "rigorosamente ao centro", (vocação de que, há muito, mais não resta do que o logótipo original) e assumia a tarefa patriótica de converter a direita ao seu programa cristão democrata - feito histórico que lhe é, sem dúvida, reconhecido. Seria, curiosamente, o primeiro partido a apoiar Mário Soares num governo de coligação PS/CDS, e, poucos anos depois, parceiro do PSD de Sá Carneiro na coligação AD, que conquistou a primeira maioria absoluta, em 1980. O PPD apresentara-se, em maio de 1974, ideologicamente na esquerda reformista, com um carismático Sá Carneiro, que já no início da década de setenta, em tempos de ditadura, ousava afirmar-se publicamente “social-democrata à sueca". Mas, quer a maioria dos militantes, quer a maioria dos dirigentes que se seguiram, embora invocando perpetuamente o seu nome, foram resvalando para o centro-direita, e apenas alguns históricos resistem ainda no centro-esquerda. Sá Carneiro tudo tentou para que o PPD fosse aceite na Internacional Socialista, o que só a oposição do PS, (já antes de 1974 membro dessa Internacional), inviabilizou. Para integrar outra família europeia, a Liberal, Sá Carneiro exigiu que adotasse, também, a designação “reformista”. O PSD já abandonou a Internacional “Liberal e Reformista”, mas esta, suponho, mantém o título, por inércia. E para onde foi, no dealbar do novo século, o PSD? Para o PPE, onde hoje convive, não só com o CDS, como com os duvidosos representantes húngaros do partido do Senhor Órban…). Talvez muitos já tenham esquecido o nome do presidente do PSD que protagonizou essa viragem à direita, a meu ver, errada. Aqui fica o nome: Marcelo Rebelo de Sousa! Note-se, porém, que, nesses tempos primordiais, nem o PS escapou à necessidade de proceder a correções de vulto do seu esquerdismo inicial, abandonando, pouco a pouco, o "slogan "Partido Socialista, Partido Marxista" e tornando-se, com Mário Soares, a grande barreira democrática à ofensiva do PCP de Cunhal e, da extrema.esquerda, e um grande paladino da nossa adesão à CEE. Só o PCP permaneceu imutável, marxista, leninista, eterno saudosista da URSS pré-Gorbatchev e simpatizante da distopia norte-coreana. Por muito simpáticos que nos sejam o Jerónimo de Sousa e os seus jovens heterónimos – e até são! – há que de admitir esta verdade. 2 - Quarenta e sete anos depois, as eleições legislativas não tiveram, nem podiam ter, a mesma força mobilizadora. Foram, contudo, em plena pandemia, com mais de um milhão e meio de portugueses confinados, uma enorme surpresa em termos de participação popular e, mais ainda, de resultados! O mais surpreendido terá sido, porventura, o Presidente da República, único e exclusivo responsável pela dissolução da Assembleia da República e convocação de eleições antecipadas, que o chumbo do OE não implicava. O Governo fez questão de não se demitir, mostrou-se pronto a apresentar um segundo orçamento e nessa atitude começou a sua vitória - na qual só foi acompanhado, à distância, pelos dois outros únicos beneficiados pela antecipação de eleições, a direita inteligente da Iniciativa Liberal e a abominável extrema-direita do Chega. Perdedores houve muitos - o PSD, o BE, a CDU, o PAN, e o CDS, desaparecido em combate. E, “last but not least”, o Presidente da República, que utilizou, pela derradeira vez, o seu trunfo maior, que é a prerrogativa de dissolver o Parlamento. No nosso sistema político, a autoridade presidencial avulta em situações de instabilidade ou de crise, e foi nesse quadro que até agora alardeou a sua influência, através de uma superabundância de atos e palavras. A partir de 30 de janeiro, o poder deslocou-se de Belém para São Bento. Veremos se, após a inversão de posições entre Marcelo e Costa, o seu relacionamento se mantém como dantes... E veremos se a vitória do PS, alavancada nos fundos da UE que estão para vir, se converte, como desejamos, na vitória do País, na recuperação do seu atraso económico. 3 - Aparentemente, estamos perante uma radical reconfiguração parlamentar, com a hecatombe de algumas formações partidárias e a emergência de outras. Não vejo as coisas assim, recuperando aquela frase célebre de Pinheiro de Azevedo, gritada em situação bem mais dramática: "o povo é sereno!". É mesmo!... António Costa não deverá continuar uma política de adiamento de reformas de fundo, que aconselham, sempre e, em muitos casos, exigem mais do que a maioria absoluta, a maioria de 2/3. Esta maioria foi, desde 1975, dada ao chamado "bloco central'' - PS e PSD. E permanece em 2022, já que ficou praticamente inalterada a expressão dos partidos que se opõem ao modelo de democracia ocidental perfilhado por Mário Soares e Sá Carneiro. Houve apenas uma dança de cadeiras no hemiciclo. Há 12 extremistas que se sentam na bancada da direita e apenas 11 na da esquerda. Ao todo, 23 em 230. Somos um País invariavelmente ao centro!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

PREFÁCIO CAMINHOS DA POESIA

Prefácio
Prefaciar a nova coletânea galaico portuguesa de poemas e de lendas,
narradas numa toada poética, foi convite inesperado, que recebi como uma honra, e
aceitei como meio de me associar, em simples prosa, a um projeto tão conseguido
nos seus vários propósitos, confluindo harmonicamente na finalidade maior de
fazer futuro de duas comunidades geradas numa mesma língua antiga. Gente há quase
 um milénio separada pelos acasos da História, e por uma mera fronteira política,
sem que se haja desfeito a magma de uma unidade antecedente... Aqui, em cada folha, vem
impressa a voz livre e impetuosa dos Poetas, assumindo o papel de atores sociais
de uma reaproximação pela amizade, renascida e reforçada, de encontro em
encontro, pelos Caminhos da Poesia, assentes no mais recôndito, amplo e consensual
denominador comum, que é sempre a Cultura!
Mulheres e homens, portugueses e galegos, qualquer que seja lugar onde
nasceram ou habitam, as suas ocupações ou títulos académicos,estão juntos na
consciência de pertença a um mesmo universo cultural em expansão. Cada um se
apresenta de uma forma livre, alguns preferindo falar quase só pelos versos, outros
dando-nos a síntese de “curricula” profissionais, breves traços biográficos ou uma
simples saudação para irmãos. Partilham, essencialmente, a vontade de
intervenção num mesmo movimento de fraternidade, institucionalizado, ou não, numa
significativa pluralidade de grupos e tertúlias - movimento que das Letras, numa
amável luta, parte para os afetos, e neles redimensiona, afinal, a própria identidade.
Como diz a Poeta: “Veño dunha estirpe/guerreira, como a gran Boudice/levo no
sangue a loita/as minhas armas são pluma e tinta”
No “país lendário, que começou a norte e se estendeu a sul”, o caminho
do meu próprio sentimento de identidade galaico-portuguesa, fez-se em dois
andamentos, primeiro nas visitas à Galiza, onde tudo me parecia familiar, veredas
das aldeias, casas de pedra, a hospitalidade, a confraternização nas esplanadas,
 nos cafés e nas ruas da cidade, os rostos das pessoas e até a forma de falar, que entendia,
espontaneamente .
Mais tarde, rumando a sul, ao Algarve. encontrei, (Infinita surpresa...), pinceladas de
exotismo na cor ocre das falésias, nas casas brancas de barras azuis ou
amarelas, nos pátios mouriscos, nos modos de estar... E, assim, ainda menina, num
simples olhar em volta, me apercebi de que Portugal, tal como a Espanha, (e não ao
invés, como pretende uma certa corrente), é um todo multicultural, de tradições, de
reminiscências muito diversas (admirável diversidade!), que se constitui numa outra
unidade, singular e indestrutível, indelevelmente, no seu território e na sua
Diáspora. Todavia, de facto, mil anos de fronteiras, em que a Nação Portuguesa se forjou
 em Estado, não lograram esbater as eternas afinidades naturais do norte com a
Galiza, ou do Algarve com a Andaluzia...Sintonias que se somam sem antagonismo... E é
(e, nesta ordem de ideias porque não haveria de ser?) um poeta andaluz, Manuel
Machado, que vemos proclamar a Galiza como “Espanha madre de la Espanha
entera”... E nós acrescentamos: da Espanha, sim, e, ainda mais, de Portugal.
 Caminhamos tendo “por lema a poesia dunha mátria sen fronteiras”... Ou, como diz outro Poeta:
“que Galícia sexa luz en Lisboa”/Luz que ven dos fillos das terras nosas”
Um dos aspetos mais salientes e inovadoras desta terceira coletânea, é a
incursão nos domínios do nosso riquíssimo património lendário e mitológico, via
privilegiada de demanda identitária que anima o projeto poético coletivo. Aos Autores foi
proposto que recriassem as nossas lendas, em versão de autor e linguagem
de uma beleza e melopeia poética, e não admira que a ideia fosse tão apelativa
e alcançasse tão abundante e excelente materialização! E, com ela, o caminho se
inicia mais atrás, mais perto das origens, em diálogo com a ancestralidade profunda
da cultura popular, suas crenças, memórias, valores, enigmaticamente envoltos na
penumbra do fantástico e do mistério pressentidos e tangíveis.. Foram, assim,
convocados os Poetas na sua veste de mediadores da intelecção de uma vida
primordial, que nos oferece um cortejo de deusas, espíritos, sereias, mouras encantadas,
mágicas metamorfoses de homens e animais, trocando de pele ou de condição, o
sobrenatural enlace dos vivos e dos mortos... Vestígios de histórias intangíveis que,
sob a aparência do irracional e do absurdo, guardam a Verdade de outras idades. Há
Poetas que nesse relance retrospetivo se interrogam: “Como teria sido essa outra vida/
vida que foi a nossa em outro tempo?”... E há os nos dotam de certezas: “Somos o Povo
que fomos em tempos ancestrais”... Filhos da Suévia e do Miño co mar por
padrinho”.E, antes e suevos, nos redescobrimos celtas, lusitanos, “querreiras e
guerreiros, filhos da Deusa de que emana a vida”, no imaginário, entrevendo as
 “Xacias” que: “Lapexan na Auga/no Miño e nos regueiros/bañandose nas pozas
 frías/enxugandose ao vento”.
Tal como Navia, a Deusa lusitana, e astur- galega, que se acolhe nas
pontes, nas lagoas e rios... Presentes se fazem, vindos da Natureza, os espíritos:
“materializados em chovia arribam nos vales /multitudes de espíritos a conviver aos
mortais” E os mortos, por instantes, reunidos aos seus, na súbita diafania das
dimensões ocultas ou espectrais: “abrense as portas entre o Alén e este mundo/e veñen as
ánimas dos devanceiros/ camiñar entre os vivos… E, tão temidas e malignas, a norte
e a sul do Minho, eis as bruxas, com seus “talismáns diabólicos”: “Chegarón as
bruxas vellas/ nas suas vassoiras rápidas como lóstregos/os gatos negros, as curuxas,
os sapos”.
Quando não o diabo em pessoa, o “picaro diaño”, um dia aparecido nas
terras de Becerreá...
Nas ingénuas estórias do ilógico e do improvável pode assomar o lobo bom
que fala à menina assustada, a jovem que é transmutada numa “serva
branca”.e só na morte recuperará forma humana, a moura capaz de comer, todos os dias,
um boi inteiro, e a outra mulher que, com o filho ao colo, transporta, uma
pedra colossal, a “pedra má”…Ou a xacía, que “ergue castelos na area”, e aquela outra
“loira e fermosa, que vive nas augas do Miño”...
Muitos dos nossos “Poetas-contadores-de-lendas” buscaram inspiração no
legado mitológico das suas terras: Teixido, de onde trarás, com o amuleto, a “maxia
por sempre contigo”, Béade e a sua moura Mariña, que ali toma marido, a
Feira, e o castelo da Princesa Lia, enamorada de um gentil alcaide mouro,
Serradelo e o seu São Caetano, pronto a castigar os ímpios com a desgraça dos temporais,
Tabuado, onde se lembra como San Cristovo perdeu a capela votiva, Silvalde e a
Bicha das sete cabeças, pelo povo cortadas, uma a uma, ou ali perto, em Esmojães,
o vilão Catafula,herói improvável, morrendo em glória, na resistência ao invasor
gaulês. Do mesmo modo, mais remotamente, o domínio romano em terras galaico-
portuguesas permaneceu viveiro de Imortais, os bravos de Castro de Medeiros, o
insubmisso Viriato. a merecer alturas de epopeia, a ardilosa donzela de Monsanto
sitiado, qual outra Deu-la-Deu, a derrubar a força pela astúcia. Na luta hábil contra
um Poder maior e perverso, o mesmo alcançam as duas padeirinhas, no fogo do seu
“forno sagrado” sacrificando o vil alcaide... No sulco histórico de uma
religiosidade bárbara se insere a Lenda do Ferro em brasa, e, também, numa trama de contornos
singulares, a Lenda do Galo de Barcelos, em ambas as ordálias, a justiça divina
sobrevindo pelo milagre. Mais milagres revisitamos numa variante da saga arturiana da
procura do Santo Graal, acontecida na capela de Cebreiro, onde se guarda “o cáliz e
o relicário/ dentro de duas ampolas/ feitas de vidro e de prata”. E o suave “milagre
das rosas” da Rainha Santa, que por ele, é mais venerada do que por feitos muito
concretos, justificativos da mesma consagração de uma grande mulher política
epaladina da Igreja dos pobres e dos puros de coração.
Do espaço lendário desta coletiva, referência ainda à singeliza e à
força narrativa da vida e da morte da “Vella Maruxa” , que vai em demanda do mar: “Marucha
silente no seu camiñar/passiño a passiño achega-se al mar”...
Tantas mulheres viventes neste outro universo!...Bem se podem dizer que, no
feminino, sobejam as figuras mais extraordinárias em crónicas mitificadas, e, mais
latamente, no imaginário poético, que faltam, afinal, nos anais da História, de
onde andam desaparecidas...
Numa antologia tão original, onde a Verdade, os mitos, o fantástico, os
anseios e os medos se abraçam em versos, que percorrem séculos ou milénios, num
virar de páginas, a actualidade sofrida no planeta inteiro, o ano
fatídico de 2020, é assinalada com a curiosa introdução da palavra COVID, no léxico poético: a
peste do século que leva os homens como “bolboretas” deixadas no
«almacén dos mortos»), o apocalipse: «feche-se a gente e todos os eventos serão
cancelados»... «Vinte dias do ano vinte vinte/Vinte dias sem abraços...».quedando-se
«os amantes em quarentena»... 
Dividem-se estes Poetas da distopia entre sentimentos de finitude
(«Suspende-se a vida. Vive-se a morte»), e a sua denegação:(«Confinado
fisicamente/ mas livre como uma ave»)...
De semelhantes contrastes se vai compondo o roteiro de uma variada viagem,
entre paisagens, que podem ser do mundo exterior ou interior - paisagens
de alma...
Há os que conseguem «atravessar o mundo inteiro/nesta, mais uma, página
do diário da vida» e os não encontram o seu rumo: «Perdi-me num ir e vir de
sentimentos, vividos, sufridos». E aqueles que vão além dos limites da perda porque a
sua lhes  deixa «tão pouco que torna o nada enorme»...Os que à noite pedem: «abreme a
friesta/que quero ver as estrela», Os que nela se quedam: solitários «O
silêncio tomou conta da noite»... E os que tomam conta do quietude: «Não quero
ruído que destrua a voz deste meu silêncio»
Falam a muitas vozes os poetas...ouçamo-los!.
Os Poetas do Mar...
Mar, fonte inesgotável de inspiração no «mundo de marinheiros», que é o
nosso... «E o mar! Miña querida/ Noiva de sal e espuma (...) Cántate
cual sereia/ en rocha firme retida», assim começa o dolente poema dedicado "aos que no mar
ficaram".. E em mar se volver é anseio de grandeza que em verso se
permite: “Eu nacín sendo regato/Soñando com ser u mar/Dormir contando as estrelas/ E
vendo a lúa brillar” (...) ninguém podera parar/os soños e a fantasia/ e ainda
muito menos/ se istos son poesia». Mais triste é o mar sem horizontes, no
claro-escuro de areia e bruma: «macera este mar...a areia e a bruma que encerra noites longas».
São muitas as formas de o cantar...

Os Poetas da Terra...
Os Poetas da Terra, de Natureza fecunda e graciosa, estão hoje mais a
norte do que a sul do Minho - labregos, filhos de labregos (no sentido nobre da
palavra, que se desvirtuou num Portugal a abandonar, na miragem da cidade ou na dura
aventura da emigração, os seus campos e as suas aldeias). Na Galiza muito do que
viram os olhos da Poeta, que é a maior de todos, ainda hoje nós poderemos ver e
sentir ::
«Cheira a ti, Rosalia/Cheira a tua presença/ á tua vida, ao teu leito/ É
tudo teu, é tudo nosso!» 
São aldeias ainda vividas, não apenas conservadas na memória : “terra,
terra/eco da vida que nos guarda a auga/que âncora as nosas árbores/e
que espera a fin dos nossos corpos/ terra/lugar/orige/pátria/terra/terra/terra” .
“Aldeia/de choros e risas”. Campos onde a vista se espraia em contemplação: “baixo 
un arbore cansado/ de corroída corteza/sintome enamorado/de toda a Natureza”. A Galiza,
para sempre “chea de sacras ribeiras regadas pela auga dos deuses/ a reverter de
arte, de música e de grandes festas”. Desta vida não se apartam: «non me leves/ ao teu
mundo/ que nel/ non quero ficar»,
À mulher se pede : «nunca marches da terra/porque tu eres a terra/
da nossa amada terra Galega».Mulher, Mãe:: “Serás madre, emerxente de
súa raiz/ ncherás os espaços ocos, os movementos /de sempre, as formas, o recanto
no fogar

Os Poetas do Amor
O amor em que se gerou a lírica galaico-portuguesa: “Non me pídas a lúa
a que non chego/ Pídeme amor, amor sinxelo”. Amor que se quer reviver: “Tenho
saudade do amor que era/ Mas quem sabe possa ainda ser” ..Ou de que se morre:
“cando vexo que se morre/ por a pessoa querida/xa sei que é poesia”.Amor sem
limites:.”Amar, só amar-te a construir/amor e mais amor no amor já feito”. E amor
universal: “querer amar os outros, com o amor que nos temos”.

Os Poetas do Caminho
“Posso mostrar-te o instante para além do instante?” A caminhada não
terá fim: “A ponte que me leva/ é infinita/ando correndo nela/mais non chego”: A
ideia do longe que não se alcança é força que nos leva em frente: “vagabundo de
sonhos/quanto mais os estreito/mais deles me aparto”..E é, sobretudo, preciso é dar ao
caminho o sentido das nossas causas: “O Poeta olha-se ao espelho e vê o
mundo/Veste-o com os sonhos replicados dos seus”. Causas crenças, ambições,
 utopias: : «creo firmemente que a poesia transforma o mundo e faino muito mellor»...

Citações colhidas um pouco ao acaso, que mais não pretendem do que
salientar  riqueza, a originalidade e a pluralidade de leituras a que a coletânea
nos chama - não apenas a puramente literária, que não pretendeu estar no centro
destas breves considerações, também a etnográfica, a política, (na sua sede eminentemente
cultural), a feminista (ou humanista, na integralidade), a histórica - no seu duplo
olhar retrospetivo e prospetivo - no que acompanhamos os que pensam que a
história que mais importa é a do futuro. E, por isso, queremos sublinhar
o papel que vem assumindo, a publicação anual das coletâneas, sempre lançadas, com a
mesma periodicidade, em magnas assembleia de Poetas, realizadas,
alternadamente, na Galiza e em Portugal. Para dizer que existimos,em todo o espaço de
uma língua genesíaca, espaço sem fronteiras, que cresce na poesia, («mar de letras,
sonho de ideias) e na amizade. É um projeto que vai em frente, no caminho que
se faz, juntando a força matriz da Galiza e, (como diria Pessoa), um Ímpeto de
Portugal.

CCP paridade - proposta das Conselheiras

Senhora Conselheira

Agradeço imenso a informação e muito me regozijo com esta histórica iniciativa das Conselheiras do CCP,  
 Estou inteiramente de acordo com as propostas e quero felicitá-las pela forma tão objetiva e tão convincente como a defendem. É chocante e, como salientam, incompatível com a própria definição de democracia, a situação de discriminação de género subsistente quase 40 anos depois da criação do 1º CCP (um Conselho associativo, eleito por sufrágio direto de entre dirigentes das instituições das Comunidades Portuguesas) e 23 anos depois da adoção de um novo modelo de Conselho eleito por sufrágio direto e universal, ou seja um órgão de representação dos cidadãos portugueses do estrangeiro. Acompanhei de perto a evolução do CCP e participei nos seus trabalhos, na qualidade de membro do Governo e de Deputada da emigração, desde o seu primeiro encontro mundial, em abril de 1981 até 2005 e sempre considerei que a falta de representação feminina afetava a imagem, a credibilidade e,  em dúvida, também, a funcionalidade e a eficácia do Órgão. 
No 1ª Conselho, o de 1981, não havia uma única mulher eleita!... Em 1983 havia apenas duas, ambas jornalistas, uma de Paris, outra de Toronto. A esta se deveu a recomendação que levou à convocatória do 1º Encontro de Mulheres no Associativismo e no Jornalismo, em 1985. Um encontro de extraordinário nível, graças à qualidade da intervenção e à capacidade de construir consensos dessas grandes mulheres vindas da diáspora portuguesa, Confesso que fiquei surpreendida  . Excederam todas as minhas expetativas e deram-me, desde essa altura, a noção exata da falta que a sua voz fazia no CCP,,,
É claro que a imposição de quotas, no Conselho como na Assembleia da República, foi decisiva nos progressos que se registaram na última década, ainda que tenham ficado aquém do que se esperava. Infelizmente mais aquém ainda no CCP do que no nosso parlamento, na representação nacional no parlamento europeu ou no governo...
Sempre fui uma adepta declarada do sistema de quotas, consolidados há décadas, no interior dos partidos da social democracia nórdica e  vejo, com satisfação, a sua crescente aceitação até em países do sul, tradicionalmente pouco sensíveis`ás questões de igualdade de género. 
Quanto maior é a resistência à participação feminina, mais importante é reforçar a aplicação de quotas. Em Portugal a discriminação é particularmente visível no CCP e nas Autarquias locais (a percentagem de mulheres presidente de Câmaras é baixíssima!). Há. pois, que detetar e impedir os desvios ao espírito da lei, verificados nestes universos específicos,
Permitam-me, em tão  difícil contexto, felicitá-las pelos resultados já alcançados  a nível regional.. É um sinal de esperança. no futuro
Pela minha parte, tudo farei para divulgar esta relevante decisão conjunta das Conselheiras

RUI LACERDA - O SEU MODO DE VER E CONVIVER in Defesa de Espinho

RUI LACERDA - O SEU MODO DE VER E DE CONVIVER  Rui Lacerda ficará sempre presente na memória de Espinho. Pertence à história da cidade, onde deixou marcas que a tornaram mais moderna, maior e melhor. Como arquiteto -  um grande arquiteto! - mas não só, também como exemplo de intervenção cívica, de  convivialidade, de partilha de ideias e saberes.As suas realizações no campo da arquitetura falam de uma dimensão humana que envolve a profissional e a acrescenta, e a transporta aos mais altos patamares. Referirei apenas três que aqui, na sua terra, podemos  admirar e usar no quotidiano (três entre tantas outras, dispersas pelo país e por outros países):  - O Auditório de Música, que dá ao público uma rara proximidade com o palco e os artistas, para além de um ambiente e uma acústica esplêndidos. Quando vou à Casa da Música do Porto, penso sempre: é interessante por fora e labiríntica e até, de certa forma, inóspita no interior .Falta-lhe a harmonia do todo que encontramos no "nosso" auditório... - A Escola Manuel Laranjeira, cuja remodelação pude, há alguns anos, apreciar detalhadamente, numa visita guiada pela sua Diretora,  que, igualmente, prima pela conjugação de arte e funcionalidade. No fim, ao agradecer à anfitriã, inclinada como sou a ter em mente paradigmas nórdicos, exclamei:  "Parece um liceu da Suécia!". - A Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, que é o orgulho de todos os Espinhenses. Foi sobre ela que mais longamente conversei com o Arquiteto Riu Lacerda e sou testemunha do seu entusiasmo, da sensibilidade com que pensava as componentes simbólicas do projeto, com uma enorme atenção aos mínimos pormenores, ao mobiliário,à decoração, e com uma absoluta eficácia na supervisão das coisas concretas, a garantir uma execução rigorosa nos diversos aspetos e fases do processo. O resultado é uma Biblioteca diferente de todas as demais, cheia de luz, nas salas de leitura que ladeiam o jardim interior, o tão original jardim das oliveiras. Cheia de portas que se abrem para aumentar as áreas de comunicação e encontro. Entre as duas entradas principais, a da rua 24 e a do jardim João de Deus,o átrio tem a largura de uma rua, é mais uma via de passagem, paralela à rua 23, um convite à população inteira e aos turistas para que a usem como tal, em visitas mais ou menos demoradas. Essa foi a explicação que me deu e me encantou!.     Traço comum na conceção destas obras primas é, portanto, uma perfeita compreensão dos objetivos, que começa na compreensão das pessoas para quem os espaços foram criados e existem - num caso os estudantes, nos outros, os melómanos, os amantes das Letras. Julgo que nunca procurava apenas a beleza da construção, como valor em si. embora a conseguisse, com facilidade, porque tinha alma de artista  A sua arquitetura é profundamente humanista, como ele próprio era. Reflete o seu "modo de ver" - o título que deu à inesquecível exposição de fotografia sobre Espinho e a sua gente.A terminar, umas breves palavras  sobre o Cidadão, o voluntário de muitas causas, movimentos e iniciativas de cultura, de desporto e de solidariedade, sempre pronto a colaborar e a participar ativamente. Foi na" Liga dos Amigos da Biblioteca José Marmelo e Silva", que mais privei com ele. A prova de que não olhava a Biblioteca, apenas como  trabalho bem conseguido e  finalizado, antes a sentia no seu dia a dia de Homem de Cultura e de cultor de amizades. No seu modo de ver e de conviver foi, assim, o mais perfeito exemplo do velho e sempre novo espírito desta cidade dialogante e fraternal.A inauguração da seu último projeto, o que não teve tempo para ver concluído - a requalificação da zona que foi, e quer ser no futuro, a grande sala de visitas de Espinho -  constituirá certam

REPENSAR A HISTÓRIA DA NOSSA DEMOCRACIA 0ut 2021 /ETC e TAL

REPENSAR A HISTÓRIA DA NOSSA DEMOCRACIA 1 - Não conhecemos ainda qualquer esboço do programa das anunciadas comemorações dos 50 anos da revolução de 25 de Abril, que ocorrem em 2024. Bem à portuguesa, só sabemos para já dois nomes: o de quem as vai presidir, simbólica e honorificamente - o General Ramalho Eanes, que há muito devia ser o Marechal Ramalho Eanes, e é absolutamente indiscutível - e o de quem chefiará o Executivo, um jovem professor da área política do Governo, cuja notoriedade enquanto comentarista de vários "media" em muito suplanta o seu (ainda) modesto currículo universitário. Apesar da sensatez e moderação com que, a meu ver, sempre intervém, representa, face à escolha da personalidade do Presidente, o 8 perante o 80. O perfil de académico será o ideal para um coordenador da "comissão organizadora" das celebrações, se, como me parece fundamental para o seu êxito, se vierem a centrar em aprofundadas investigações interdisciplinares. Para fazer história e para "fazer futuro" - na linguagem de setenta, para "cumprir Abril", ou para dar a dimensão da modernidade às "conquistas da revolução". O que por tal se entende está longe de ser inequívoco ou consensual em todos os quadrantes, mas, da equidistância dos cientistas se espera que os considerem todos. Como escreveu Agostinho da Silva, o filósofo que adorava gatos, a história que mais interessa é a do futuro. Porém, não é menos verdade que o ponto de partida e a fonte de ensinamentos e de inspiração é a do passado... Os trabalhos vão, supõe-se, começar em breve e prolongar-se por vários anos, antes e depois da efeméride nuclear. Nada a opor a um tão extenso período de preparação e de continuidade de esforços se eles envolverem abertura às diversas universidades e especialistas, (não se fechando em "lobbies"" ou capelinhas), se servirem a pesquisa académica rigorosa, a recolha de documentação, a reflexão e a divulgação da história, que as gerações mais novas não viveram. Num certo sentido, essa tarefa já teve o seu início no segmento particularmente importante da preservação da memória, com o testemunho direto de muitos dos protagonistas dos acontecimentos de 1974 e da construção da democracia - ou seja, o seu "dia seguinte" da Revolução, na meia década de setenta e na de oitenta. Refiro-me, em especial, a autobiografias políticas, que não eram propriamente uma boa tradição nacional, e que estão a tornar-se coisa comum entre os nossos contemporâneos. Cavaco Silva contribuiu com dois volumes, meticulosamente documentados, e mais os seus "diários" da presidência, na esteira de Jorge Sampaio. Mário Soares deixou-nos uma riquíssima coleção de publicações, tocando várias épocas e domínios, até o literário. Bons exemplos! As últimas publicações do género que tive a oportunidade de consultar, foram as de Diogo Freitas do Amaral, em 2019, - "Mais de 35 anos de Democracia Um Percurso singular" Memórias Políticas III (1982-2017) - e de Francisco Pinto Balsemão, intitulada, simplesmente, "Memórias". Ambos nos oferecem a perspetiva diacrónica de uma fascinante e vertiginosa sucessão de eventos em duas décadas cruciais, tal como eles as atravessaram, dando o seu contributo individual para alicerçar a arquitetura do Estado democrático. E, não parando aí, trazem-nos com eles na viagem de décadas de democracia estabilizada, até à atualidade. Para muitos, sobretudo os que que nunca souberam como era o quotidiano de gente comum, mais ou menos passiva, ou de ativos contestatários sob a ditadura, é uma incursão num mundo desconhecido, regido por normas que hoje parecem estranhas, a tocar as raias do absurdo... Para outros, tem o encanto de uma saga seguida de perto, ou, até, em alguns momentos partilhada. Ao lado de Freitas do Amaral, no governo em que ele foi Vice-Primeiro Ministro de Sá Carneiro, como sua Secretária de Estado (para a Emigração), vivi o melhor ano da minha vida, o de 1980, até ao dia 4 de dezembro. Lembrá-lo, página a página, torna-se, assim, uma espécie de romagem de saudade. De Balsemão não posso dizer o mesmo, nunca fui amiga nem prosélita, mas, à distância de décadas, é um exercício estimulante constatar, porventura com mais objetividade, não só divergências de análise sobre casos e pessoas, mas concordâncias e algumas bem relevantes, como a relativa à atual filiação do PSD, a nível europeu - apontando o erro de trocar, em fins de século, a Internacional Liberal e Reformista por um PPE, cada vez mais conservador e menos cristão-democrata - ou a simpatia por um militar "presidenciável", que se chamava Mário Firmino Miguel. 2 - Embora abrangendo as vicissitudes da vida pública no decorrer do mesmo período de tempo e no mesmo espaço é muito distinta da de Balsemão a narrativa de Diogo Freitas do Amaral - reflexo natural das diferenças de personalidade, de pensamento, de formação académica, de objetivos na profissão e na política e de realizações concretas nestes dois sectores. Freitas do Amaral conjugou, na perfeição, a fulgurante carreira universitária, (muito novo ascendendo a Professor Catedrático de Direito), e a corajosa, determinada, e não menos brilhante política,caminhada política, ganhando o seu lugar entre os "pais fundadores" do regime nascido no do 25 de Abril - primeiro presidente do CDS. O "Homem de Estado", que, segundo Mário Soares, "ajudou a converter a direita portuguesa à democracia". Escreveu muitas páginas de história, que é não apenas sua, mas do País, e, por isso, de leitura obrigatória. Uma obrigatoriedade que a leveza e a naturalidade com que se exprime, numa linguagem em simultâneo precisa, simples e acessível sobre os temas mais complexos, torna especialmente grata e aliciante, não só para especialistas em questões de política nacional e internacional, mas para qualquer um de nós. Enquanto Balsemão apresenta aos leitores a sua "narrativa de vida" de mais de oito décadas, Freitas do Amaral optou pelo enfioque nas "memórias políticas", editadas ao longo de mais de 20 anos em 1995, 2008 e 2019. Neles vamos, fase a fase, seguindo o excecional trajeto de alguém que se preparou, com rigor, dedicação e muito talento, para chegar onde chegou. Numa expressão sua, lapidar. "Sonhei coisas grandes e, felizmente, vivi muitas"- Muito novo se viu a liderar um dos quatros grandes partidos do pós 25 de Abril e atingiu o topo da carreira académica. Excecional se revelaria em todos os cargos aos quais se candidatou e para os quais foi eleito, dentro e fora do país - Deputado, Vice Primeiro Ministro, Primeiro-Ministro interino, Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, Presidente da União Europeia das Democracias Cristãs (o primeiro português eleito para a presidência de uma grande "Internacional"), Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, ou candidato à presidência da República, numa eleição que ganhou na 1ª volta e perdeu na 2ª, para Mário Soares, por escassos 138.000 votos... Paradigmática é a forma como analisa os vários factores determinantes dessa derrota, com uma objetividade de cientista político, e como aceita, democraticamente, o veredicto popular, não hesitando em afirmar: "O percurso e o currículo de Mário Soares eram nitidamente superiores aos meus". (Quase metade dos portugueses tinham mostrado, nas urnas, pensar o contrário...). Recusando contestar o resultado, como alguns queriam, o candidato vencido apressou-se a felicitar o vencedor. No dia seguinte, recebeu em casa "um enorme ramo de flores', com um cartão de cumprimentos, admiração e respeito do casal Maria Barroso e Mário Soares". Nas "Memórias", comenta: "Só o Mário Soares e a Maria de Jesus seriam capazes de fazer uma coisa destas". E eu acrescentarei: Só Freitas do Amaral seria capaz desta reação. A democracia portuguesa no seu melhor! Na era dos Trump e dos Bolsonaros, motivo, para nós, de renovado orgulho. 3 - Francisco Pinto Balsemão, em mil densas páginas, reúne, nos capítulos que sobre política se debruçam, um manancial de dados, desde os dias em que a revolução apenas se adivinhava, sem hora certa. Deputado da "ala liberal" na Assembleia Nacional, a convite de Marcelo Caetano, fundador de um semanário, que soube antecipar o tempo da democracia, ("O Expresso"), co-fundador de um partido político, que pesou decisivamente na mudança de regime, o PPD/PSD, Ministro, Primeiro Ministro por dois anos e meio (em dois governos), deputado europeu por 11 dias. E muitas coisas mais: milionário nato (ou seja, de fortuna herdada, que não dilapidou), jornalista, advogado, empresário da comunicação social, não lhe falta matéria de interesse para levar ao seu público. Passados os 80 anos, bem gozada a vida, satisfeitas as ambições, as que teve e as que nem tinha sonhado (nomeadamente ser Primeiro-Ministro, o que somente aconteceu por um trágico acaso), fala sem reservas nem resguardos. É ele próprio, retrata muitas figuras da "res publica", tal como as vê e, ao fazê-lo, retrata-se a si também. Poucos são os que se autobiografam assim, emitindo opiniões com o à vontade de quem está numa roda de amigos. O jornalista vem ao de cima", redige com desembaraço e espontaneidade, sem floreados, sem excessivas subtilezas, sem poupar os alvos, ainda que estes tenham ocupado, ou ocupem hoje os mais altos cargos de Estado. As passagens agrestes sobre Marcelo Rebelo de Sousa, não só no livro, mas em entrevistas laterais ao seu lançamento, fazem furor, e, talvez expliquem, pelo menos em parte, que a 1ª edição esteja já esgotada. Da Bertrand, em Espinho, trouxe comigo o último exemplar, que só terei conseguido, por estar ligeiramente amolgado - nada que afete o conteúdo. Em jeito de recomendação, terminarei confessando que fiquei a lê-lo pela noite dentro, refrescando lembranças, algumas já vagas, e confrontado as minhas com as suas interpretações sobre o encadeamento de ocorrências, de conflitos, polémicas, pessoas que os protagonizaram - exercício tão grato quando aquelas vão no mesmo sentido como quando são dissonantes. Em suma, mais um significativo subsídio para a história de uma então tão jovem e esperançosa democracia.

AS REPÚBLICAS AUTÁRQUICAS DOS HOMENS in Defesa de Espinho out 2021

MULHERES NAS REPÚBLICAS AUTÁRQUICAS DOS HOMENS 1 - Que título dar a um comentário sobre a questão de género nas eleições locais, onde o desequilíbrio é mais ostensivo e muito mais persistente do que no Governo e na Assembleia da República? Há tantas maneiras de dizer o mesmo...Poderia citar Célia Marques, que fala de "mundo masculino", ou Sandra Ribeiro (uma voz "oficial", presidente da "Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género" (CCIG), a apontar o obstáculo de "meios masculinizados", ou Luís de Sousa (ICS da Universidade de Lisboa) na mesma linha de pensamento a responsabilizar a "envolvente masculina", ou António Barreto que chega à mesma conclusão , escrevendo sobre a "invisibilidade - feminina - no país das autarquias". Alguns exemplos, entre muitos, que guardei na memória. Finalmente, decidi "plagiar-me" a mim própria, lembrando um colóquio que, como vereadora, organizei em Espinho, em 2010, durante as comemorações do centenário 5 de outubro: "Mulheres na República dos Homens". A realidade, que os números e estatísticas revelam, é que as autarquias são, em Portugal, o último reduto do (quase) absoluto poder masculino. A lei da Paridade veio criar nos lugares secundários a ilusão de um crescente equilíbrio de género, mas deixou intocado o cargo onde reside todo o poder - a presidência das Câmaras, em sistema presidencialista. Os homens estão à frente de mais de 90% dos concelhos do continente e das Regiões Autónomas. A paridade que, na economia do diploma original, de 2006, era atingida com uns modestos 33% subiu, em reforma recente, para 40%. Subiram, com ela, as expetativas de um progresso que nos deixaria perto da barreira das quarenta presidências femininas. Desde 1985, vínhamos a registar um crescimento pequeno mas consistente. Na meia década de oitenta, contávamos apenas 4 mulheres presidentes, em 2017 já eram 32. Pouco ultrapassando os 10%, não se tratava de um resultado excelente, mas alimentava a convicção de uma caminhada irreversível. Por isso, 2021 foi verdadeiramente dececionante. Pela primeira vez, em décadas, esse número desceu (de 32 para 29), continuando a deixar de fora as principais cidades do País - Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, e por aí adiante... . 2 -Há em Portugal, a meu ver, uma crença excessiva nas virtualidades do Direito para resolver os problemas do nosso atraso social e económico, de desequilíbrios e assimetrias herdados do passado. No que, em especial, se refere à discriminações de género não penso diferentemente. Sou favorável à Lei da Paridade, considero que há muito deveríamos ter aperfeiçoado disposições a que falta caráter vinculativo, e enquanto Deputada, na Assembleia da República, sempre me manifestei nesse sentido, pela palavra e pelo voto, em oposição a teses então indiscutíveis do meu partido, o PSD (onde apenas Leonor Beleza e Marcelo Rebelo de Sousa, que não era deputado. estavam do meu lado da barreira). Tenho, todavia, a consciência de que é preciso lutar também com outras armas, para alcançar a igualdade efetiva. Há muito - logo após a Revolução de 1974, com a Constituição democrática de 1976 - está, em Portugal, consagrada a plena igualdade entre mulheres e homens. Nesse tempo histórico da meia década de setenta, terminou, assim, facilmente, pela pena do legislador, o longo e difícil combate das (e dos) sufragistas, que se centrava, e se ganhou, na esfera jurídica. Porém, removido o obstáculo que a própria Lei constituía, logo outros se levantaram nos domínios, em que a força vinculativa e sugestiva ou pedagógica do Direito tem as suas limitações. Podemos, é certo, ainda corrigir na legislação ordinária imperfeições ou desconformidades constitucionais, criar mecanismos de controle da aplicação dos comandos legais e da promoção de oportunidades iguais, do tipo da CITE (Comissão para a Igualdade do Trabalho e Emprego) , ou da CCIG. Contudo, o centro estratégico de uma mudança profunda de mentalidades e de práticas deslocou-se, definitivamente, do terreno da legiferação para o da vivência das leis. Não basta impor juridicamente a igualdade salarial, as mesmas oportunidades de progressão profissional ou de participação cívica e política para que elas aconteçam de facto. Não podemos ignorar os expedientes generalizadamente usados para manter o "status quo" - ou seja, 91% de homens presidentes de Câmara no todo nacional e uma percentagem superior, a rondar os 100%, nas capitais de distrito, nas mais importantes cidades. Se a questão fosse, sobretudo, de "mentalidade", de "aceitação social", de "socialização", como pretendem alguns doutos investigadores, caso de Luís de Sousa (Instituto de Estudos Sociais), ou de "tradições preconceituosas", como defende Sandra Ribeiro, a Presidente da CCIG, o fenómeno deveria sentir-se muito mais no mundo rural do que nas grandes urbes cosmopolitas! Aquelas condicionantes terão, sem dúvida, algum peso, mas verdadeiramente determinante é a organização partidária, o "baronato" instalado nas estruturas locais, que se defende "com unhas e dentes" da abertura desejada pelas cúpulas de Lisboa (e não em todos os quadrantes, como sabemos, mas, pelo menos, em alguns). Di-lo, claramente, um sociólogo, um académico com grande experiência de governo e parlamento, António Barreto: "o sistema político e social está organizado de forma a favorecer os homens. O menu de escolha, de oferta, está enviesado a favor dos homens. Mantém o predomínio masculino". A palavra chave é "menu de escolha". A nível nacional, para o Parlamento e para o Governo, têm poder decisivo nas escolhas os órgãos máximos dos partidos, o Secretário-Geral ou Presidente do Partido, as Comissões Políticas, o Primeiro Ministro, no seu Executivo e, por isso, a Lei da Paridade é, mais ou menos, respeitada, e o progresso tem sido constante. A nível local, não , pois no "menu de oferta" as mulheres estão (quase) sempre colocadas nas listas o mais abaixo que o "diktat" legal permite. E são cabeças de lista (quase) só em circunscrições onde esse partido não tem perspetivas de vencer... Nas últimas eleições, o PCP escolheu 80 mulheres cabeças de lista, o PS 44, o PSD 31, o Chega 30, o BE 27, o CDS 17, o PAN 13, a IL 6, o Livre 3. Contas finais elucidativas: mais de 250 candidatas à presidência da Câmara e apenas 29 eleitas... 3 - No Porto e arredores, como vamos, neste campo? Tal como em Lisboa, nunca no Porto se elegeu uma mulher para a presidência da Câmara, E, nas cidades vizinhas, a notável exceção é Matosinhos. Espinho constitui, também, caso raro, pois no seu historial já conta com uma antiga Presidente, Elsa Tavares, que a partir da Vice- presidência ascendeu ao cargo e, com um brilhante desempenho, abriu caminhos ainda não trilhados por nenhuma outra senhora. E, atualmente, apresenta um Executivo camarário que cumpre plenamente os ditames da Lei da Paridade, com 4 homens e 3 mulheres. Em termos da maioria socialista, é rigorosamente paritário - dois homens e duas mulheres. E, embora, na dimensão qualitativa, os homens ocupem os lugares cimeiros, as Vereadoras possuem currículo que permite esperar um desejável equilíbrio na obra a fazer pela terra. No "ranking" da Igualdade de género em Executivos camarários (num pequeno, mas significativo círculo de concelhos que considerei neste levantamento (para além de Porto e Espinho, Gaia, Gondomar, Matosinho e Maia),só Gondomar apresenta uma maioria de mulheres, 6 em 11. Segue-se Espinho, com 3 mulheres em 7. Os restantes ficam aquém de expetativas e regras, se não nas listas, nos resultados finais, que são os seguintes: Porto - 5 mulheres em 13; Matosinhos - 4 em 11; Gaia - 3 em 9: Maia - 3 em 11.` Uma referência é também devida ao contributo de cada partido no combate à desigualdade de género. O PS, que tem sido o grande paladino do sistema de quotas, levará alguma vantagem neste campo, mas diga-se, ao contrário do que se passa nas eleições nacionais, irregular e globalmente escassa. Neste quadro parcial, a ele se deve o bom posicionamento de Gondomar e Espinho, mas na Maia, em Matosinhos, em Gaia e no Porto de outro tanto se não pode vangloriar.. Uma última nota para uma incontornável comparação Norte/Sul, ou melhor, Porto/Lisboa. Na capital, o PSD não só venceu a Câmara, como respeitou a quota (3 vereadoras em 7). E no total, o resultado estatístico é de quase paridade - 8 mulheres e 9 homens. Temos de reconhecer que, neste aspeto, a capital fica bem melhor no retrato...