Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
sábado, 24 de fevereiro de 2024
COMUNICAÇÃO AO VIII CONGRESSO "A vez e a voz da Mulher"
VIII CONGRESSO INTERNACIONAL - VEZ E A VOZ DA MULHER IMIGRANTE
PORTUGUESA: MOBILIDADES E INTERCULTURALIDADES
Políticas públicas para a emigração feminina: o caso português - uma
perspectiva diacrónica
Manuela Aguiar
Resumo
Portugal é um país de emigração multissecular, cujas políticas tradicionalmente descuraram a proteção dos
cidadãos fora de fronteiras e se caracterizaram pela prioridade de regular os fluxos de saída, com a quase constante
imposição de restrições ao êxodo masculino e de proibição ou de limitação sistemática das migrações femininas,
primeiro para Oriente, depois para o Brasil e outros destinos. As primeiras políticas públicas destinadas às mulheres
são marcadas por uma misoginia sem paralelo na Península Ibérica e na Europa.
A revolução de 1974 trouxe a todos os cidadãos portugueses a liberdade de emigrar e o desenvolvimento de
medidas de apoio cultural e social, sem que, todavia, a situação específica das emigrantes fosse objeto de particular
atenção. Em 1981, o recém criado Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), Órgão representativo da emigração
e instância consultiva do Governo, era composto por cerca de 60 membros, eleitos no âmbito associativo, todos do sexo
masculino. Em 1983, nova eleição em colégio associativo trouxe à instituição as duas primeiras mulheres conselheiras,
uma das quais, Maria Alice Ribeiro, de Toronto, avançou com a proposta da convocação de um encontro mundial
das mulheres emigrantes portuguesas. O 1º Encontro Mundial veio a realizar-se em 1985, com o alto patrocínio da
UNESCO, dando ao país um improvável lugar de pioneirismo europeu e mundial. No entanto, a sequência a dar
às suas principais conclusões só viria a concretizar-se a partir de 2005, pela via dos “Encontros para a Cidadania
- a igualdade entre homens e Mulheres”, uma iniciativa desenvolvida através de uma parceria entre a Secretaria de
Estado das Comunidades Portuguesas e ONG’s, como a Associação Mulher Migrante e a Fundação Pro Dignitate. A
descontinuidade dos “Encontros para a cidadania” (do “congressismo” como instrumento de luta pela igualdade) e a
sub-representação feminina no interior do Conselho das Comunidades, eleito por sufrágio direto e universal, marcam
o estado atual das políticas públicas com a componente de género nas nossas comunidades do estrangeiro.
Abstract
Public Policies for Female Emigration: The Portuguese Case - a Diachronic Perspective
Portugal is a country of centuries-old emigration, whose policies traditionally neglected the protection of
citizens outside borders and were characterized by the priority of regulating outgoing flows, with the almost constant
imposition of restrictions on the male exodus and the systematic prohibition or limitation of female migration, first
to the East, then to Brazil and other destinations. The first public policies aimed at women are marked by unparalleled
misogyny in the Iberian Peninsula and Europe. The 1974 revolution brought all Portuguese citizens the freedom
to emigrate and the development of cultural and social support measures, without, however, the specific situation
of female emigrants being the object of particular attention. In 1981, the newly created Council of Portuguese
Communities (CCP), the body representing emigration and a consultative body for the Government, was made up
of around 60 members, all male, elected within associations. In 1983, a new election at an associative college brought
the institution the first two women councillors, one of whom, Maria Alice Ribeiro, from Toronto, advanced with the
proposal to convene a world meeting of Portuguese emigrant women. The 1st World Meeting took place in 1985, with
the high patronage of UNESCO, giving the country an unlikely place of European and world pioneerism. However,
the followup to be given to its main conclusions would only materialize from 2005 onwards, through the “Meetings
for Citizenship - equality between men and women”, an initiative developed through a partnership between the State
of Portuguese Communities and NGOs, such as Associação Mulher Migrante and Fundação Pro Dignitate. The
discontinuity of the “Meetings for Citizenship” (of “congressism” as an instrument of struggle for equality) and the
female under-representation within the Council of Communities, elected by direct and universal suffrage, mark the
current state of public policies with the gender component in our communities abroad.
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Nas políticas públicas para as migrações femininas distinguiremos três períodos, com base nos
seus princípios norteadores, na sua trave mestra: - as políticas de proibição, no tempo longo que se inicia
com a Expansão e vai até à Revolução de 1974. - as políticas de indiferença, a partir da proclamação na
Constituição de 1976 da plena liberdade de emigrar e dos direitos de cidadania aos emigrantes, sem que
o Estado promovesse ativamente a igualdade de sexos. - as políticas para a igualdade –desde o início do
século XXI, dando cumprimento à tarefa fundamental do Estado de promover a participação cívica e
política da mulher no espaço das comunidades do estrangeiro.
1. As políticas proibitivas ou limitativas da emigração de mulheres
Sobre estas direi apenas umas breves palavras, abarcando séculos de discriminação. Charles
Boxer, um dos académicos que mais e melhor analisou o período histórico da colonização dos dois
Estados peninsulares e um dos poucos que, no contexto global, se debruçou sobre a presença feminina
na Expansão ibérica, considera as práticas de interdição da saída das mulheres portuguesas como o
mais acabado exemplo de misoginia, comparando-as, negativamente, com as leis e os usos castelhanos.
A colonização promovida pela Coroa portuguesa foi, desde o começo, concebida como aventura
exclusivamente para homens, com a contrapartida da tolerância, ou mesmo do incentivo, à miscigenação,
ao contrário da política castelhana, que sempre privilegiou a emigração familiar, obrigando os homens
a levarem consigo as esposas, ou a regressarem a casa, para cumprirem os deveres conjugais.
No nosso caso, entre as exceções conhecidas à posição dominante conta-se a que terá envolvido
o maior número de mulheres viajantes para Oriente, as chamadas “órfãs d’el Rei”, jovens dadas em
casamento a soldados e outros colonizadores, com um dote por recompensa. Foram tentativas mais ou
menos irregulares e limitadas de reforçar, nas colónias, a cultura do reino.
As restrições impostas às portuguesas na Carreira da Índia tinham uma eficácia praticamente
total, devido aos elevadíssimos custos e riscos de uma demorada viagem de muitos meses. Não assim
nos trajetos para Ocidente, para o Brasil, onde a componente feminina foi sempre mais significativa,
quer fosse autorizada, ou não, e cresceu, enormemente, com a navegação a vapor, o substancial
embaratecimento do transporte transoceânico. Sobre a saída em massa de mulheres, o Prof. Emygdio
da Silva falava de “tremenda constatação” e o Prof. Afonso Costa de “depreciação do fenómeno
migratório”. Constatamos, assim, que não só os decisores da “res publica”, fossem eles monárquicos
ou republicanos, como a “intelligentzia” nacional perfilhavam a mesma conceção sobre o conceito
de “boa emigração”: aquela que era posta ao serviço dos interesses do Estado, com total prevalência
sobre interesses e os projetos individuais. Expatriação útil e conveniente para o equilíbrio das contas
externas e para o combate à miséria do mundo rural, era a de homens sozinhos, que, nessas condições,
trabalhavam duramente e enviavam vultosas remessas para sustentos das famílias e, por fim, porventura
velhos e cansados, regressavam à terra.
A argumentação evidencia o reconhecimento da influência da presença da mulher no curso do
projeto migratório e no seu destino final, com maior probabilidade de uma bem-sucedida integração e
de não retorno - tendências que se viriam a confirmar. Não adivinharam, porém, outro tipo de ganho,
maior e o mais duradouro: em vez da temida “desnacionalização” o surgimento de comunidades,
portuguesas de língua, cultura e afeto, que são indissociáveis de uma forte componente feminina.
Ao longo do século XX, as portuguesas continuaram a emigrar, e, quando as fronteiras se
fecharam aos trabalhadores ativos, na década de setenta, ultrapassaram-nos em número, porque eram
admitidas a título de reunificação familiar. Estatisticamente, são atualmente cerca de metade das nossas
comunidades na Europa e no mundo.
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2. As políticas de indiferença
Uma fase inteiramente nova se abre com a Revolução do 25 de Abril e a inteira liberdade de emigrar.
A revolução de 1974 é a única a romper com a tradição de controlo estatal dos fluxos migratórios, que
atravessara todos os regimes, da monarquia absolutistas ou constitucional, à República e à Ditadura. A
Constituição de 1976 veio reconhecer aos expatriados os seus direitos de cidadania e proclamar a plena
igualdade entre mulheres e homens. Porém, como a história das sufragistas nos ensina, o abater das
barreiras jurídicas que, na conceção patriarcalista, excluíam as mulheres da vida pública, foi apenas o
primeiro passo numa caminhada onde barreiras de outra natureza lhes opõem não menor resistência.
E, por isso, o próprio legislador constitucional não se limitara a consagrar o princípio e impusera
ao Estado, no art.º 9º,(reforçado, na revisão de 1989 pelo normativo do art.º 109º) a tarefa fundamental
de promover a igualdade entre homens e mulheres no que respeita à participação cívica e política. Nada
na letra ou no espírito da lei permite a interpretação restritiva de limitar essa incumbência ao território
nacional. Contudo seria essencialmente no território que os Governos centraram o olhar, através
da criação da Comissão para a Igualdade (com esse ou outro título). As mulheres migrantes foram
esquecidas nos programas e na ação dos governos durante três décadas. À Comissão para a Igualdade
não foi dado mandato para intervenção nas comunidades portuguesas, e a Secretaria de Estado da
Emigração não criou uma instância própria para o mesmo fim. Na relação com as comunidades
migrantes a inércia dos governos, porventura a coberto da sobrevalorização do plano jurídico formal,
foi permitindo a diluição das caraterísticas e da realidade do feminino no todo da emigração, sempre
padronizada no masculino. Os problemas, os contributos, o papel das mulheres em cada comunidade,
permaneciam na sombra. Até em períodos de acentuada feminização do fenómeno migratório se
manteve essa atitude de descaso, não obstante serem consideradas mais vulneráveis, e, quando acediam
ao mercado de trabalho, duplamente discriminadas, como mulheres e como estrangeiras. Preconceitos
que vieram a ser infirmados pela investigação académica pioneira de Engrácia Leandro sobre as famílias
da região de Paris, na década de noventa. A emigração constituiu para as famílias, desde logo graças
ao duplo salário, um forte impulso ao bem-estar económico e para as portuguesas da geração do
“salto”, oriundas da ruralidade e da pobreza, quase sempre, uma via de emancipação, pela autonomia
do trabalho remunerado, e por uma vivência mais igualitária dentro da família e em sociedades onde se
integraram, quase sempre, mais rapidamente e melhor do que os homens.
Porém, dentro das comunidades portuguesas, o seu papel regredia em obrigatória conformidade
de estereótipos ancestrais. Nas associações, nos centros de convívio, na “casa portuguesa coletiva” a
divisão de trabalho reproduz os papeis masculinos e femininos tradicionais na casa tradicional. Os
clubes são repúblicas masculinas, onde as mulheres não têm voz nem voto, estão na cozinha, ou nos
bastidores da festa. A sua influência pode ser significativa, mas não é para ser vista.
3. As políticas para a igualdade
Neste contexto, o meio associativo não podia deixar de ser considerado o principal campo de
combate às discriminações de género. Em 1980, o Governo, reconhecendo, globalmente, a importância
do fenómeno associativo na autoconstrução e desenvolvimento das comunidades portuguesas, quis
estabelecer com as suas organizações uma parceria para diálogo e a coparticipação nas políticas públicas,
onde as questões de género não seriam marginalizadas. Para tal foi criado, pelo DL nº 372/80 de 12 de
setembro, o Conselho das Comunidades Portuguesas, como fórum representativo dos portugueses do
estrangeiro e órgão de consulta governamental. O espírito da revolução de 1974 chegava à Emigração,
com seis anos de atraso, rompendo com o paternalismo do “ancien regime”, aceitando o diálogo para
uma atuação concertada. Todavia, no tocante à problemática da participação feminina, o 1º Conselho
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(1981/1990) começou por frustrar expetativas. Em 1981, os eleitos eram todos homens! O grau zero
de representação feminina no CCP, nas duas áreas que o formavam, o associativismo e jornalismo,
levantava um problema de democraticidade, mas espelhava, afinal, fielmente, a realidade das lideranças
associativas. O que fazer, num tempo português em que era impensável a imposição do sistema de
quotas, em que a proporção de mulheres na AR era diminuta, nas autarquias insignificante e nos
Governos, a nível ministerial, inexistente, com a exceção de Maria de Lurdes Pintasilgo?
No segundo ato eleitoral, em 1983, as duas primeiras Conselheiras do CCP ganharam o seu lugar
no setor do jornalismo. E foi uma delas, Maria Alice Ribeiro, representante de Toronto, a autora da
recomendação para a convocatória de um encontro mundial de mulheres da Diáspora. O Governo deu
a maior prioridade à organização desse congresso, e, assim, o mais improvável dos países, pelo registo
misógino de políticas multisseculares, e o CCP, uma instituição de rosto masculino, fizeram história, em
termos europeus e mundiais, com a primeira iniciativa para o empoderamento de mulheres emigrantes,
antecipando em dez anos as decisões da Conferência de Pequim, como afirma Maria do Céu Cunha
Rego.
O Encontro Mundial de Viana foi uma espécie do Conselho das Comunidades no feminino,
em que, pelo nível das intervenções e pelo aprofundamento das questões da emigração feminina e,
globalmente, das migrações, as mulheres demonstraram quanto a sua ausência pesava negativamente
no CCP.
Entre as principais conclusões das participantes do Encontro de Viana estava o projeto de criação
de uma associação mundial de mulheres da Diáspora, que não chegaria a concretizar-se. Por seu lado,
a SEE, face à continuada sub-representação feminina no CCP, instituiu, em 1987, uma “Conferência
para a Promoção e Participação de Mulheres Portuguesas do Estrangeiro”, a funcionar, anualmente,
na órbita do Conselho.
A queda do X Governo e a tomada de posse do novo Executivo levou ao abandono das políticas
para a Igualdade, de imediato, e á extinção do próprio Conselho associativo, em 1990.
Seguiu-se um impasse de duas décadas. Só em 2005, por proposta dirigida ao SECP António
Braga pela “Mulher Migrante, Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade”, que se considerava,
enquanto fórum internacional, herdeira dos projetos sufragados no Encontro de Viana, são assumidos,
de forma sistemática e consistente, os deveres constitucionais do Estado neste campo, através da
organização dos “Encontros para a Cidadania – a igualdade entre homens e mulheres, realizados nos
quatro cantos do mundo ao longo do mandato do XVII Governo Constitucional, entre 2005 e 2009,
sob a presidência inspiradora de Maria Barroso. No 1º Encontro, o da América do Sul, em Buenos Aires,
com a coorganização da AMM da Argentina, o SECP António Braga falou do “desígnio de retomar da
questão de género, que tem andado esquecida ao longo dos anos”, admitindo que “Portugal não tem
tratado do papel da mulher nas comunidades de acolhimento à luz dos seus direitos de participação
cívica, cultural e política”.
Os Encontros Regionais seguintes foram realizados em Estocolmo (2006), em colaboração com
o PIKO (Federação de Mulheres Lusófonas), em Toronto (2007), organização conjunta da CônsulGeral Maria Amélia Paiva e de várias ONG’s locais, em Joanesburgo (2008), em parceria com a Liga
da Mulher, e em Berkeley (2008), com a participação do Departamento de Estudos Europeus da U
Berkeley.
No Encontro da América do Norte, em Toronto, o SE da Presidência, Jorge Lacão, reconheceu
explicitamente que “ para a promoção da igualdade se não podem limitar à ação junto das portuguesas
e dos portugueses residentes no território, citando o Programa do XVII Governo Constitucional e
salientando a importância das políticas da igualdade não só para as próprias mulheres, mas para as
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comunidades e para o aprofundamento da estratégia de aproximação entre estas e o país”. As mulheres,
disse, “encontram-se sub-representadas nas instâncias de decisão dos movimentos associativos, pelo
que os seus pontos de vista e necessidade se arriscam a não ser tidos em conta”.
4. O ciclo do “congressismo” (2011/2015)
A via de conferências e debates, que fora privilegiada pelo XVII Governo, liderado pelo PS,
veio em ser prosseguida num crescendo de iniciativas, pelo Governo PSD/CDS, com o Secretário de
Estado José Cesário, numa linha de continuidade, que é, infelizmente rara na nossa vida política. A
AMM foi, de novo, solicitada a uma colaboração de primeiro plano, e propôs ao Secretário de Estado
um plano de alternância entre Congressos Mundiais, a realizar no país, e os Encontros Regionais
nos moldes anteriores. Este quadriénio foi, no quadro das políticas para a igualdade, o período áureo
do “congressismo”, com dois Encontros Mundiais, no Fórum da Maia, em 2011, e em Lisboa, no
Palácio das Necessidade, em 2013 e quase uma trintena de conferências, colóquios e debates, em
diversos países e regiões, sempre com parcerias locais, de associações, de universidade e centros de
investigação, juntando a vertente académica à da militância ativa. Para José Cesário “o papel da Mulher
é absolutamente decisivo para essa mudança” em comunidades com “grande défice de participação
política!
5. O diálogo para a igualdade e o papel do CCP (2015-2019)
As legislativas de 2015 levam a nova alternância no poder, do PSD para o PS, com José Luís
Carneiro a assumir a pasta da emigração e a manter a problemática da Igualdade nas suas preocupações.
Procurou novas formas de cooperação com a Secretaria de Estado da Igualdade, com ONG’s das
comunidades e, em particular, com a AMM. Só condicionantes de ordem financeira e burocrática,
decorrentes de novo modo de funcionamento da DGACCP, inviabilizaram a realização de um novo
Encontro Mundial. A via alternativa foi apostar no Conselho das Comunidades. Pela primeira vez, na
Reunião Mundial do CCP, órgão onde as mulheres se mantinham (e se mantêm…) sub-representadas,
houve um longo debate sobre estas questões, para o qual me convidou, enquanto sua antecessora e
dirigente da AMM, juntamente com a Secretária de Estado da Igualdade.
Poderão futuros Executivos da República cumprir os seus deveres neste domínio, através de uma
parceria com o CCP, na estratégia de Governos da década de oitenta, retomada por José Luís Carneiro?
É a interrogação que aqui deixo. As próximas eleições para o CCP, o mais tardar em 2024
poderão dar indícios seguros. Será este Órgão representativo capaz de acompanhar a evolução das
próprias comunidades, onde é, hoje, muito maior, embora longe da paridade, a presença das mulheres
no dirigismo associativo, refletindo esse visível progresso na sua composição e funcionamento mais
igualitário? Ou será mais fácil às mulheres terem oportunidades iguais na vida das comunidades do
estrangeiro do que no próprio CCP?
Nunca saberemos, ao certo, quanto as políticas públicas no seu esforço conjunto com organizações
feministas, contribuiu para chegar ao ponto em que estamos, mas sem menosprezar a parte do Estado,
sabemos que a resposta, hoje, mais do que ontem, está nas mãos das mulheres. O que, nas vésperas
de eleições para o CCP não iliba o governo da sua tarefa de mobilização de todos, e, em particular da
minoria que as mulheres têm sido. Palavra de ordem: Participem!
quinta-feira, 18 de janeiro de 2024
25 DE ABRIL AS NOSSAS COMEMORAÇÕES in Defesa de Espinho (jan 2024)
25 de Abril
AS NOSSAS COMEMORAÇÕES
1 - Começo o novo ano envolvida na organização do programa de duas comemorações, que, para mim, se interligam. Uma que será celebrada no País inteiro, o cinquentenário de Abril 74, e outra que se desenrola no círculo (ainda) restrito de admiradores de Maria Archer, Mulher de Letras nascida, neste mês de janeiro, há 125 anos. Objetivo: recolocar, na História da Revolução, a insubmissa cidadã que pôs a sua pena ao serviço de ideias e de causas proibidas, em luta pela liberdade e pela justiça. Juntamos as duas efemérides, para que a escritora revolucionária, condenada pela ditadura a um longo exílio no Brasil, regresse, assim, através da nossa memória, ao convívio nacional, trazendo consigo a grande romancista, que tem andado injustamente esquecida na História da Literatura...
De momento, ela é bem mais estudada e reconhecida nos meios académicos do Brasil do que em Portugal, mas, lá como aqui, foi descoberta, antes de mais, pela força e modernidade da sua “escrita de intervenção” e como incomparável retratista de mulheres num tempo português cinzento e opressivo, em que elas não tinham lugar igual nem na “res publica”, nem na vida privada e na família.
E, por isso, não é surpreendente que dois dos maiores especialistas brasileiros na obra de Maria Archer, Elisabeth Battista e Márcio Cantarin, venham a Portugal, com o proclamado propósito de celebrar o 25 de Abril. Recebi a notícia com um misto de contentamento e de apreensão, esperando que, dentro de três meses, o estado da nossa democracia não ensombre a festa…
2- Durante a sua estada em Portugal, ambos os professores participarão em várias conferências sobre Archer, precursora de Abril, organizadas pela Associação Mulher Migrante, pelo Círculo de Culturas Lusófonas Maria Archer e os seus parceiros no mundo académico. Todavia, isso será apenas uma parte da sua agenda. O que mais será, a nível oficial, oferecido, nessa data, a um visitante? Procurei informar-me, consultando os programas da Comissão das Comemorações no Google e no Facebook”. Desde a substituição do 1º Comissário, Pedro Adão e Silva, atual Ministro da Cultura, por Maria Inácia Rezola, (personalidade com mais vasto currículo académico, mas perfil muito menos mediático), nunca mais soube o que fazia a Comissão… Para saber, é preciso ir às redes sociais. Eu lá fui e constatei que o programa, com início em 2022 e termo em 2026, não perdeu a ambição nem versatilidade, desdobrando-se em múltiplos colóquios, exposições, concertos, linhas de investigação, edições de livros, concursos para jovens, recolha de testemunhos sobre o antes e o depois da Revolução, etc etc…. Essas iniciativas pretendem cobrir todo o país, a Diáspora, cada um dos PALOP, e Timor-Leste, e muitas são desenvolvidas em articulação com instituições públicas e privadas, autarquias, universidades e escolas e outros parceiros variados. A abrangência é, assim, proclamada, mas parece-me que a maioria dos eventos se situa em Lisboa, o que não deve espantar-nos no país mais centralista da Europa. É pena. A descentralização teria valido a pena, e não seria difícil de operacionalizar, convertendo as autarquias em parceiro estratégico - as autarquias todas, de norte a sul, sem esquecer as ilha, o que permitiria promover, um pouco por todo o lado, comemorações efetivamente vividas pelo povo, em ações de proximidade e com a visibilidade nacional, que lhe tem faltado nos grandes media, ainda que abunde nas plataformas digitais. As comemorações do centenário da República, para citar um exemplo ainda recente, terão sido, neste aspeto, bem mais conseguidas…
Quanto a eventos futuros, num futuro próximo, pouco revela a Comissão Executiva. O esforço de informar detalhadamente limita-se ao já acontecido no ano de 2022 (um relatório de cerca de 40 páginas) e a ações que estão em curso – como os programas “De Cravo ao peito” ou “Antes da Revolução”, projetos educativos, concursos para jovens, recolha de depoimentos sobre o antes e depois da revolução, (em que podem participar, livremente, todos os maiores de 14 anos, à data da Revolução), ou a edição de livros de autores estrangeiros, com a chancela da “Tinta da China”. (série “O 25 de abril visto de fora”). Excelente iniciativa, com um “senão”: cada volume custa entre 23.90 euros e 36 euros. São para uma elite, não para uma maioria… Aguarda-se, pois, o relatório de 2023 e mais pormenores sobre programação, com uma certeza: cada ano será dedicado à sua temática: Descolonização (2024), Democracia (2025) e Desenvolvimento (2026).
No papel é bonito, mas vago, nada que possa propor aos meus amigos brasileiros, durante a sua estada de turismo político-cultural
3 – Em qualquer caso, mais importante do que conhecer a tal calendarização oficial é olhar o contexto político em que vai cumprir-se. Ou seja, a situação social e política do Portugal democrático, 50 anos depois - os problemas de fundo com que nos confrontamos: o êxodo migratório dos jovens; a exploração de imigrantes; a falta de habitação social; a carga fiscal, o desprestígio da Justiça, a degradação de serviços e carreiras (professores, polícias, médicos, enfermeiros, jornalistas), as pensões baixas … E, a agravar as coisas, a própria “classe política”, com o insensato desfazer de uma maioria política, seguida da convocação de eleições, num prazo incrivelmente dilatado, em que se desgasta o governo
de gestão e se adiam soluções urgentes… Porque não foi equacionada a mera substituição do PM? (não, a meu ver, por um sucessor que ele mesmo tirava do bolso, mas por um militante do PS legitimado por eleições internas).
Assim, para além do provável cenário de instabilidade duradoura (oxalá me engane…), corremos o risco de não ter novo Governo em plenitude de funções, nem nova Assembleia operacional, para organizar, em São Bento, “comme il faut”, a tradicional sessão solene do 25 de Abril…
Em qualquer caso, não deverão faltar outras reflexões, outros festejos. Os nossos!
quarta-feira, 27 de dezembro de 2023
NATÁLIA, ETERNAMENTE NATÁLIA - in A Defesa de Espinho (dez 2023)
NATÁLIA, ETERNAMENTE NATÁLIA
Conheci Natália Correia, quando ambas estávamos envolvidas no projeto político de Sá Carneiro, eu no Governo, como Secretária de Estado da Emigração e Comunidades Portuguesas, ela no Parlamento, como Deputada, onde cumpria, exuberantemente, o seu "dever de deslumbrar" e estava destinada a ser uma das duas únicas deputadas que têm busto de mármore no Palácio de São Bento. Belíssimo, esculpido por Cutileiro!
A Assembleia da República conserva, nas páginas do Diário das Sessões, a magia da sua palavra, porventura a mais fulgurante, e, não raro, a mais agreste que algum dia se ouviu no hemiciclo, e talvez lhe venha a conceder, num futuro não muito distante, o privilégio de editar as suas intervenções dispersas em coletânea - até hoje privilégio, praticamente, masculino…). Este ano de 2023, em que se comemora o seu centenário, seria particularmente asada a essa homenagem, entre tantas outras em que destacaremos a edição da bem documentada e bem escrita biografia de Filipa Martins e uma minissérie da RTP de excelente qualidade televisiva e humana.
Foi precisamente em São Bento, nos “Passos Perdidos”, que aconteceu o meu primeiro encontro com Natália. Conversámos apenas sobre leis - sobre uma em particular, já nem sei qual, que passara pelo meu gabinete, e que ela defenderia, em sede parlamentar, no dia seguinte. Combinámos que, para análise de todos os detalhes, lhe enviaria a casa um distinto jurista. De lá voltou o perito mais impressionado do que se tivesse privado com figuras históricas, como Catarina da Rússia, ou a Marquesa de Alorna! Ainda por cima, Natália elogiara aquele modo de colaboração - que deveria ser a regra, mas não era - entre o Executivo e a bancada parlamentar. Talvez tenha visto nisso uma das diferenças que podem fazer as mulheres na república dos homens…
Reencontramo-nos, algumas vezes, no Botequim, que, não sendo eu notívaga, frequentava com pouca assiduidade, e, depois, no quotidiano, entre 81 e 83, na bancada da AD, a aliança partidária, que, desaparecido Sá Carneiro, entrara já no seu ocaso.
Como é lidar com um mito no quotidiano? É inevitável a sua "normalização"? No caso dela, não, de modo algum… Tinha as qualidades que "humanizavam" a sua grandeza, sem a diminuírem. No convívio, era amável, solidária, incrivelmente divertida e sempre formidável, sem intimidar. Antes da minha primeira intervenção formal, nervosíssima, não ousando improvisar, escrevi umas linhas, que submeti ao seu parecer crítico. “Claro que está bem – a menina sabe que está bem!”. Eu não tinha assim tanto a certeza, e aquele "nihil obstat" levou-me a subir à tribuna com alma nova! Na verdade, gostava imenso que ela me chamasse “a menina”, embora isso só acontecesse em forma de branda e simpática reprimenda ou discordância…
Porém, como opositora, num frente a frente, siderava qualquer um, sem exceção, com secos e contundentes argumentos ou com tiradas ribombantes, não menos contundentes - ordália a que os amigos, felizmente, não tinham de se submeter… A sua tirada mais mediática foi a que incendiou o debate sobre o aborto - a resposta, em verso, a um deputado do CDS, de apelido Morgado, que se atrevera a legitimar o sexo exclusivamente para a reprodução da espécie. A diatribe poética ficou conhecida como o "truca-truca do Morgado”, pacato senhor casado e procriador de uma prole de apenas dois descendentes. Tive a sorte de assistir à cena muito perto da arrebatada Oradora.
Em 1987, depois de fazer parte de dois sucessivos e incompletos Governos, regressei, ao Parlamento e às conversas com Natália, então já no PRD. Nada que nos afastasse - afinal, partilhava o seu gosto pelo distanciamento dos aparelhos partidários e até a sua admiração pelo General Ramalho Eanes. Em agosto desse ano, eu acabava de me tornar a primeira mulher eleita vice-presidente da Assembleia da República. Ao fim de poucos dias, deu-se a inevitabilidade de ser chamada a dirigir a sessão – por acaso, sem pompa nem anúncio, a meio de um discurso de Basílio Horta, apenas para o Presidente Crespo fumar um cigarro nos bastidores. Tanto melhor para mim, que queria passar despercebida... Mas eis que Natália se levanta em aplauso, logo seguida por Helena Roseta e pelos demais deputados, incluindo Basílio, que, por um breve instante, continuara a intervenção, muito perplexo, sem saber por que motivo a Câmara inteira aplaudia de pé. Foi uma estreia, a abertura de um precedente, um minuto feminista para a história parlamentar!
Não menos feminista foi outro momento, que, também, se lhe ficou a dever: a original ideia de prestar tributo às pioneiras do movimento sufragista português, no "Dia Internacional da Mulher", a 8 de março de 1988. E, assim, oitenta anos depois da criação da “Liga das Mulheres Republicanas”, elas gozaram, enfim, do direito de serem ouvidas, ali, na casa da democracia, em longas citações dos seus discursos, pela voz de deputadas da geração das suas netas.
Em 1991, o Partido Renovador perdeu representação parlamentar e, com isso, a Assembleia da República perdeu Natália, a Mulher que acordava a Câmara da hibernação na mediocridade em que estava caída. A Mulher capaz de transformar, por exemplo, um simples jantar de portistas em S. Bento em tertúlia erudita, discorrendo brilhantemente sobre desporto, deuses e mitos, para concluir que a serpente símbolo da antiga Lusitânia e os dragões da "cidade invicta" pertenciam a uma mesma matriz. Nesses tempos, quantas vezes, da terceira fila do hemiciclo, onde habitualmente me sentava, tal como Natália, olhei em redor, pensando: "Daqui a cem anos estamos todos mortos - todos, menos a Natália".
Lembro-me de lho ter dito uma vez, perante o seu silêncio complacente e o esboço de um sorriso. A profeta de futuros longínquos era ela, eu apenas ousava uma incursão em terreno proibido ao comum dos mortais. "Begginer's luck", sorte de principiante: a minha profecia vai a caminho de se cumprir!
EDITORIAL - REVISTA DAS DELEGAÇÕES DO FCP
EDITORIAL, POR MANUELA AGUIAR (EX-DEPUTADA E ATUAL ADMINISTRADORA DA FC PORTO – FUTEBOL, SAD)
O meu trabalho de mais de 40 anos como Secretária de Estado e Deputada da Emigração permitiu-me conhecer e reconhecer a enorme importância da nossa Diáspora, que está viva em todos os continentes onde os portugueses, sem qualquer apoio dos governos de Lisboa, se organizaram numa admirável panóplia de instituições culturais, sociais e desportivas. É a Nação das Comunidades, a Nação sem Estado, pura sociedade civil, independente e forte. Dentro dessas comunidades fui encontrar, muitos portistas, muitos clubes e casas regionais de bandeira azul e branca e vi crescer, ao longo dos anos, a rede de Delegações do próprio FCP.
Estávamos no início da era de ouro do Presidente Jorge Nuno Pinto da Costa e eu fui chamada a colaborar nos nossos dois primeiros congressos de filiais, que mostraram a dimensão mundial já conquistada pelo Clube. E, por essa altura, ganhei a alcunha “Dragona”, atribuída pelo presidente Pinto da Costa, que tanto me honra!
Na verdade, sou descendente em linha reta de portistas, desde os tempos da fundação do Clube e comecei a ver futebol, jornada a jornada, com o meu pai, a partir da inauguração do Estádio das Antas, numa época em que poucas meninas frequentavam recintos desportivos. Ser do Porto e do FCP faz parte da minha identidade.
Sou naturalmente regionalista e sinto-me gratíssima ao nosso Presidente por ter conseguido, num país controlado por uma capital macrocéfala, fazer dos portistas campeões da Europa e do Mundo, e tornarem-se, assim, o símbolo máximo do futebol nacional. Presenciei ao vivo as épicas vitórias em Sevilha, Gelsenkirchen e Yokohama e foi em tão distantes lugares que me apercebi da grandeza dos sonhos azuis e brancos, que não conhecem limites.
A mensagem também não! Através das dezenas de Delegações espalhadas um pouco por todo o mundo, somos uma família cada vez maior e que se revela sempre capaz de atingir os mais ambiciosos desígnios, porque à paixão individual somamos a força coletiva de Casas e Delegações e a visão de uma liderança incomparável.
Mais de 40 anos depois, estamos ainda longe da igualdade no tratamento que a nossa e as outras regiões do país merecem do Terreiro do Paço, mas dentro de campo alcançamos já tudo quanto parecia impossível e se tornou possível, a nível nacional e internacional.
Olhamos com orgulho esse passado e com esperança o futuro, a história ainda por fazer de um Clube em imparável expansão. O nosso FCP!
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
A BIENAL DE ARTES DE ESPINHO - Lugar aos jovens in Defesa de Espinho (dez 2023)
A BIENAL DE ARTES DE ESPINHO
LUGAR AOS JOVENS
1 - A Bienal de Artes de Espinho nasceu, em 2011, sob o signo da singularidade: uma Bienal de Mulheres de Artes, coisa inédita, e, enquanto durou, ao longo de três sucessivas realizações, única no Pais, e, tanto quanto se sabe, na Europa. Mais um título de pioneirismo e modernidade para Espinho, caraterísticas que moldaram a sua vocação inicial e, pela vivência, a sua identidade. A terra e o mar viram-se, em harmonia, repartidas pela comunidade piscatória, cultora da arte xávega, pela indústria conserveira[U1] , líder de mercado, e pelo turismo, corporizado na grande migração estival, que animava a estância balnear cosmopolita, uma costa verde a rivalizar com a “Côte d’ Azur”… O comboio estava no centro do vaivém de gente, que vinha do interior do país e das Espanhas, que enchia cafés, casinos, teatros, cinemas, esplanadas, avenidas… Uma intensa vida social e cultural, pontuada por nomes ilustres, que tanto como os incansáveis trabalhadores e as vagas de anónimos veraneantes faziam a história de um lugar, que todos sentiam seu!
Por altura da 1ª Bienal, o Fórum de Arte e Cultura, que conhecemos pela sigla (FACE), com o seu Museu e as suas belas Galerias geminadas, ainda não tinha completado o segundo ano de vida, e já era, a par do Centro Multimeios, da Biblioteca José Marmelo Silva, ou do Auditório de Música, um símbolo da modernidade no século XXI. Importante património material que, porém, não cumpre a sua função só por existir, mas por se converter, de facto, em espaço de dinamização cultural e convivialidade.
A ideia de transformar uma interessante, mas efémera exposição de mulheres pintoras em originalíssima Bienal, foi, note-se, de um homem, o Dr. Armando Bouçon, Diretor do Museu. Para avaliar o caráter inovador de uma tal iniciativa, em termos nacionais, basta dizer que só muitos anos depois, se veio a realizar, em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, uma grandiosa exposição de Arte no feminino que teve enorme impacto mediático.
Antes disso, em 2017, já o Executivo Municipal resolvera pôr fim à Bienal reservada a Mulheres de Artes e adotar, na 4ª Bienal, o modelo que a tornou igual a todas as outras. Ainda por cima, por acaso (e porque neste país não há sistema de coordenação de eventos e esforços, nem sequer dentro da mesma área metropolitana…), Gaia decidiu realizar a sua Bienal exatamente no ano em que decorria, e decorre, a nossa, a poucos quilómetros de distância, em quase simultaneidade… Um orçamento não sei quantas vezes superior, permite-lhes criar polos em cidades próximas e distantes e levar a cabo um chamativo programa de eventos culturais, ao longo de todo o período de abertura ao público das exposições.
2 - Aparentemente, a Bienal de Espinho perdia no confronto. Mas eis que a evolução, nas fórmulas adotadas, foi, não de imediato, antes de uma forma gradual (e não sei se voluntária ou involuntária), criando um modelo de competição e de afirmação de um outro nicho de participação, que tem o potencial de distinguir, de novo, a Bienal de Espinho pela sua singularidade. Deixou de ser, pelos regulamentos, um espaço do feminino, e está, ainda que não formalmente, (isto é, embora regras escritas não o imponham), transformada num espaço de afirmação da juventude. A maioria dos candidatos selecionados pelo júri de concurso, assim como dos vencedores de prémios, são mulheres e homens em início de carreira, ou até mesmo ainda estudantes das Escolas de Belas Artes.
Talvez a explicação para o fenómeno, que nos limitamos a constatar, resida na composição do júri, formado, em larga medida, por professores daquelas Escolas. “Tout est bien qui finit bien”! A Bienal reconverteu-se por dentro, fez caminho próprio, apostando na juventude. Porque não, então, consagrar esta realidade, formaliza-la nas regras de jogo e na denominação?
Gaia chamou à sua Bienal, uma “Bienal de causas”. E muito bem. É a sua originalidade… No nosso caso, porque não assumir, orgulhosamente, a nova especificidade, que se foi sedimentado na prática, (determinada, talvez, numa intencionalidade, mas não num estatuto declarado: ser uma Bienal de Jovens Artistas. Imponha-se, pois, limite de idade, ou a condição de estudante de cursos de formação.
Essa escolha transparente, oficial, a meu ver, só trará vantagens, uma das quais a de evitar que nomes consagrados vejam, com compreensível desagrado, as suas candidaturas rejeitadas. Embora essa categoria de artistas plásticos se tenha, progressivamente, autoexcluindo da Bienal de Espinho, o tornar a situação clara não a desprestigirá, bem pelo contrário, antes de mais por lhe reconhecer uma identidade que a diferencia das outras…
3 – Dito isto, devo acrescentar que tenho acompanhado, sempre com contentamento, ou na feliz expressão brasileira “pensamento positivo”, o percurso da Bienal, porque tem sabido cruzar a sua própria tradição, sem se deixar acantonar por ela, com uma vontade de mudança. E, como sabemos, “todo o mundo é feito de mudança” …
Foi excelente a ideia de combinar o núcleo central de candidatos selecionados, em competição pelos prémios, com as exposições de artistas convidadas (os), uma das quais tem sido sempre reservada a “Mulheres de Artes”. Significativa homenagem ao pioneirismo das primeiras três Bienais. Não sei, de fonte segura quem a pensou, mas tudo me parece apontar para o Diretor do Museu, tão construtivamente presente na organização das (já) sete ininterruptas realizações…. E há ainda um outro registo, que julgo importante salientar, uma esplêndida constatação, devida, em exclusivo, ao mérito artístico das e dos concorrentes: a paridade entre géneros tem sido sempre, naturalmente, assegurada, quer no respeitante a presenças, quer no respeitante a prémios. Entre os jovens em auspicioso princípio de trajetória, a igualdade surge como um dado adquirido… Mas será que tem hipóteses de se confirmar, através de todas as fases? Ou, pelo contrário, haverá, depois, mais obstáculos para o sexo, em regra, ainda sub-representado neste e em outros setores, ao mais alto nível?
Este ano, essa interrogação foi levantada por uma coletividade que fixou, recentemente, a sua sede no FACE, a Associação “Mulher Migrante”. A AMM e o “Círculo Maria Archer” (que não é menos espinhense), propuseram à Câmara Municipal e à Junta de Freguesia de Espinho a realização de um ciclo de debates, no quadro da Bienal e das comemorações do cinquentenário da cidade - um ciclo inteiramente focado nas particularidades da situação das mulheres portuguesas em diversas áreas, começando pelas Artes, passando pelo espaço da emigração e da construção das Diásporas, e pela Política, e terminando na história e na vida de Espinho, com uma sessão dedicada à Mulher Vareira. A programação contou com especialistas em cada um destes campos, que dialogaram com todos os intervenientes, informalmente, em modo de tertúlia, seguindo as melhores tradições de convivialidade desta nossa terra: artistas participantes na Bienal, entre elas a Comissária da exposição feminina (em 2023, centrada na maternidade, fonte eventual de graves discriminações ao longo da carreira), algumas das maiores especialistas, académicas e investigadoras na área das migrações femininas, dirigentes associativas, vindas de comunidades próximas ou longínquas, (como as de Caracas e de Buenos Aires), jornalistas (uma das quais comissariou a 1ª Bienal), mulheres políticas, com experiência de Governos e de Assembleias, a nível nacional e local (incluindo a nossa anfitriã, Presidente de um Executivo camarário de maioria feminina, que, se for único no país, é, com certeza, caso raríssimo). E, no dia de encerramento ao público das exibições, sábado passado, foi conferencista o Dr. Bouçon, numa temática em que é mestre, a das mulheres vareiras, desde os primórdios da comunidade piscatória espinhense. A seu lado, um verdadeiro símbolo vivo dessas pioneiras, a popular e encantadora Carlota, narrava episódios de uma história de vida muito rica e fechava a última destas tertúlias com um pregão cantado em voz jovem, potente e melodiosa. Um daqueles “pregões matinais” que já não se ouvem mais no pitoresco quotidiano das nossas ruas (com número e sem nome…),
No começo de cada debate, não num lutuoso minuto de silêncio, mas em alguns minutos de palavras sentidas, lembramos a Maria José Silva, antiga funcionária municipal e Vereadora da Cultura, uma das companheiras de sempre na Associação Mulher Migrante, que nos deixou há pouco tempo, mas continuará presente na memória, como admirável exemplo de militância pelas causas que nos movem. Uma grande Senhora, na sua invariável generosidade, na espontânea simpatia do seu sorriso.
quinta-feira, 5 de outubro de 2023
ESPINHO CIDADE - O CINQUENTENÁRIO in Defesa de Espinho (set 2023)
ESPINHO CIDADE O CINQUENTENÁRIO
O que distingue Espinho das outras terras?
A singularidade de Espinho é absoluta, desde o seu início até aos dias de hoje. Nasceu, cresceu e evoluiu fazendo história e abrindo-se ao futuro com uma mescla de fantásticas particularidades, a combinação de facetas contrastantes num todo único. A pequena comunidade piscatória conviveu com a indústria conserveira e com o turismo balnear mais vanguardista, num mágico enclave cosmopolita, entre Gaia e da Feira, onde se erguia, em finais de oitocentos, uma urbe moderníssima de traçado geométrico, original face aos cânones tradicionais de um país antigo. A sua vertiginosa ascensão à fama fica a dever-se, por um lado, ao comboio, que a Espinho acessível a visitantes do interior de Espanha e do próprio país, por outro, (e sobretudo), à visão de ilustres fundadores, que souberam sonhar alto e realizar pragmaticamente, ao quererem e conseguirem rivalizar com as maiores estâncias estivais da Europa.
Espinho já tornara verdadeira cidade muito antes de ser reconhecida como tal, por tudo o que oferecia a residentes e a forasteiros, o seu mar de grandes vagas, as suas esplanadas e avenidas, o seu comercio florescente, a vivência internacional, as casas de espetáculos, o jogo, a hotelaria, os recintos desportivos, a animação do seu dia e da sua noite.
A minha memória de Espinho (nestes 50 anos)?
Nas minhas memórias deste último meio século, já não havia o Café Chinês, nem a preponderância alegre de “nuestros hermanos”, e, depois, deixou de haver o vaivém da Avenida, entre as palmeiras gigantes, e as esplanadas de café, o magnífico Cine Teatro São Pedro, o bonito cinema do Casino, de cujas varandas, nos intervalos, olhávamos o oceano, o comboio a atravessar a cidade e a mostrá-la, ao vivo, como incomparável cartaz turístico. A proximidade de toda a cidade com o mar, perdeu-se, para sempre, exceto nas centenas de metros de enterramento da linha férrea, e o Hospital também, com as suas múltiplas valências e reconhecida qualidade.
Com tudo isso, que se chamou progresso, com as suas consequências - as boas e as menos boas - a terra mantém intacta a sua identidade e o seu encanto! Somos, o que é, cada vez mais, cidade e comunidade, coisa tão rara!.
Somos cidade com a dimensão ideal, cujo centro podemos percorrer a pé, encontrando amigos, encontrando tudo o que precisamos, num comércio local que, como é se tornou já “slogan”,um “centro comercial ao ar livre”. A Biblioteca, o jardim. o Multimeios, a Câmara, os CTT, os bancos, os restaurantes e cafés, o mar e a piscina, a estação de comboio, ficam a alguns, poucos, minutos de distância. O espetacular Fórum de Arte e Cultura de Espinho, com as elegantes galerias de Arte e o Museu, fica a uns escassos 15 minutos a pé, e é por muitos considerado já relativamente, distante…
E somos comunidade, autêntica comunidade, com um associativismo excecionalmente pujante, que lnos dá projeção cultural (na música, e da dança, com acento nos aspetos da formação, nas Artes, nos festivais), e não menor projeção desportiva, com os nossos clubes e tantos campeões, E, igualmente, com a forte vertente da solidariedade e da beneficência, com os “media”, sua imprensa, o ensino, a Escola Profissional, os Liceus (como ainda gosto de os designar…), a Universidade Sénior.
Todas as cidades deviam ser assim. Viver em Espinho é um privilégio!
Como vê Espinho nos próximos 50 anos?
Espinho, a meu ver, pela sua dimensão humana e pela sua vivência comunitária, é já uma cidade do futuro. Essencial é não as perder, uma e outra, e progredir com elas.
Governo local e “sociedade civil” souberam, em tempo matricial, pensar um projeto de cidade, ajustado às potencialidades do lugar, e dar-lhe corpo e alma. Em tempo de prodigiosos avanços tecnológicos é essencial continuar o legado, saber valorizar caraterísticas únicas, com um novo élan de criatividade.
Sem fazer futurologia, direi apenas que gostaria que Espinho se tornasse; uma sociedade mais igualitária, mais aberta à metade feminina, mais intergeracional. Há que fixar os jovens com oportunidades profissionais e atividades lúdicas, hoje em défice. Há que apostar no turismo e nas residências séniores, (para portugueses, para estrangeiros) - aposta viável numa estância marítima, plana e geométrica, tão agradável e tão facilmente convivial.
Esta comemoração simbólica acontece num momento em que à frente dos destinos da Câmara está, pela primeira vez, um Executivo de maioria feminina e presidido por uma Mulher. É mais um motivo para acreditar que os próximos 50 anos começam bem!
Qual a sua memória do Dia da Elevação a Cidade?
Lembro-me muito bem desse dia! Por pura coincidência, passeava com minha mãe, a ver montras da Rua 19, no preciso momento em que o cortejo oficial, encabeçado pelo Primeiro Ministro Marcelo Caetano atravessava a rua, ladeado por uma comitiva de notáveis, mas também por uma verdadeira multidão.
quinta-feira, 28 de setembro de 2023
Íntimo - O prefácio
A PARTIR DE UM SONETO
" Deixei, num voo pleno de ansiedade,
Vogar, na asa do sonho, o coração"
(in "Íntimo")
Em 1995, o Pai e eu estávamos a preparar uma edição dos seus versos de juventude - sonetos dedicados a minha Mãe, no início dos anos 40, quando se conheceram. Havia muitos mais, mas só restam os que ela guardou.
À época, anos 30 e 40 do século passado, era comum os namorados expressarem sentimentos, de preferência, em palavras que rimavam e podiam guardar-se, em bom papel, como recordação, numa gaveta ou num cofre. Foi exatamente o que fez minha Mãe - guardou-os e, por isso, os "versos para você, Maria" são praticamente os únicos de sua autoria, que chegaram até hoje.
O Pai era um repentista, escrevia, com facilidade, os seus poemas e, muitas vezes, igualmente, outros para os amigos, que queriam passar por poetas. Em regra, à mesa de um café - os salões dos café foram sempre a sua segunda casa, no Porto ou em Espinho...
Quando começámos o projeto, rapidamente mandei dactilografar os manuscritos e o Pai escolheu, logo, o título : "Íntimo", que é o do soneto a que pertencem as estrofes acima citadas. Ao Pai cabia fazer a definitiva revisão do texto, acrescentar ou cortar vírgulas, e eu trataria do resto - tipografia, capa, imagens, edição. Mas o Pai foi adiando, adiando... Reuniu as folhas soltas, uma para cada soneto, numa pasta de cartolina, e, às vezes, até saía com a pasta debaixo do braço, levava-a para o Café Palácio. A boa intenção era dar-lhe uma vista de olhos, enquanto esperava os amigos, depois da leitura vagarosa do seu jornal (estava sempre atualizado, sobretudo em matéria política - bem mais do que eu, então sempre de partida para as reuniões do Conselho da Europa ou para visitas às nossas comunidades transoceânicas). Contudo, os amigos não tardavam. ou encontrava-os já sentados numa das mesas redondas do novo Palácio ou. mais raramente, no bar do Casino. O tempo esgotava-se nas conversas, nos passeios à beira-mar, nos encontros com a família de Gondomar, diante do ecrã de televisão (horas...) ou na leitura pela noite fora - ultimamente biografias, os policiais de Sara Paretsky, Umberto Eco, humorísticos, como Guareschi, Jerome K Jerome, ("so british", o seu predileto), sem esquecer a missa e meditação diárias, as novenas na capela de Nossa Senhora da Ajuda. Era evidente que a pontuação dos versos não tinha prioridade nesta preenchida agenda de reformado, em Espinho, terra de tertúlias, esplanadas, praias e mar, de que tanto gostava, desde a sua infância. Não havia pressa. Contudo, a morte veio subitamente. O seu coração parou. Parou mesmo, coisa absurda, enquanto conversava connosco, a meio de uma frase... Sereno, bem disposto, a jantar, fazia um comentário sobre esse dia animado domingo de Páscoa, em casa do Mário, em São Cosme, onde nunca falhávamos o "compasso". Antes tinha discorrido sobre a crónica semanal de Marcelo Rebelo de Sousa, já nem sei em que jornal, talvez "O Expresso". Era um incondicional admirador de Marcelo, decerto apreciaria agora o seu estilo na presidência. Dou por mim, muitas vezes, a pensar nos diálogos que teríamos sobre vagas de acontecimentos que se sucederam na sua ausência - vitórias do Porto, derrotas do Porto, a "troika", a "peste grisalha", no dicionário dos medíocres políticos da nova geração, os atentados, a ameaça da hegemonia alemã na UE, o "Brexit", o Papa Francisco...
Não estávamos sempre de pleno acordo, mas conversávamos longamente, a dois, ou no seu grupo de amigos, a que me juntava, de vez em quando. Éramos uma família pluralista - o Pai, um democrata de sempre, republicano, anglófilo, conservador, votava PSD, a Mãe, muito à direita, monárquica e militante do PPM, fazia "voto útil" no CDS e eu, à esquerda, "social- democrata à sueca" (embora também eleitora do PSD) e, se a questão de regime ainda se pusesse, monárquica, mas igualmente à maneira sueca.
Quanto à coletânea, publiquei-a prontamente, sem mais revisões, com a ajuda de um dos mais jovens participantes da tertúlia do Café Palácio, o Fernando, que tratou da parte gráfica, numa tipografia dos Carvalhos O Pai teria apreciado esta ligação aos Carvalhos, onde viveu 11 anos felizes no famoso colégio, que é um "ex-libris" da terra, ainda hoje. Além dos versos, apenas algumas fotografias (de pouca qualidade, por sinal), e umas breves palavras da mulher e da filha.
Agora, esta edição, no ano do centenário do seu nascimento, é uma ocasião para falar dele, da sua vida, família e amigos. Íntimo, nos seus versos e na nossa prosa.
A VIDA QUE VIVE NA NOSSA MEMÓRIA
Para mim, foi um Pai presente numa infância alegre, acompanhou-me nas crises e esperanças da juventude, e, depois, ainda por muitos anos, numa relação progressivamente mais equilibrada, mais igualitária, como se a diferença de idades se fosse esbatendo.
E, por isso, quando assim é, o Pai não pode desaparecer, fica connosco até ao fim de nós próprios. Especialmente, se era como gostávamos que fosse. Se cada vez o compreendíamos mais e o achámos melhor, de facto, em correspondência com a realidade, porque quando as qualidades existem, o tempo e a experiência servem sempre a sua afirmação. Com ele, assim aconteceu, sobretudo, no respeitante àquelas qualidades que exercitava no dia a dia e o faziam ser sagaz nos seus juízos sobre as pessoas e o mundo, muito simpático para com toda a gente e competente no seu trabalho ("reliable", para usar a sua língua estrangeira preferida - para ele tudo o que era britânico era bom, da democracia aos seus bonés de "irish tweed"). Havia, sem dúvida, outros talentos inatos, de que desistiu cedo, fosse por descrença nas vantagens de os cultivar, por lucidez sobre a relativa insignificância de atingir objetivos que outros prezavam demais , ou (quem sabe?) por não se achar fadado para os alcançar. Faltava-lhe ambição, agressividade competitiva, instinto empresarial (que ambos os seus avós tinham de sobra, e, por isso, ambos fizeram fortuna). mas não lhe faltavam preocupações, com coisas grandes e pequenas. Preocupava-se demais, era excessivamente dado à ponderação de prós e contras de uma decisão, abordava as questões por todos os ângulos possíveis, levava o seu tempo (muitos anos mais tarde, quando o Dr Silva Leal, que foi seu professor no ISCTE, e meu "chefe" num Centro de Estudos, referindo-se a um político ascendente no fim do velho regime, o classificou como "suficientemente ignorante das matérias, para tomar decisões rápidas e eficazes", lembrei-me logo do meu Pai, que estava nas antípodas). Isto no que respeita a sucesso material, não na vida que há para além da procura do lucro e da "glória", nem em matéria de aventuras sentimentais, inicialmente simples namoros de juventude, depois, dois casamentos românticos, aos 19 e 22 anos, o primeiro breve e trágico, com a morte da noiva, o outro longo - mais de meio século - até à sua morte. Duas mulheres belíssimas, de forte personalidade, sempre vestidas pelo último figurino, inteligentes e audaciosas, que trouxeram, certamente, "glamour" e intensidade à sua vida.
Dizem os entendidos na matéria que os nativos de gémeos são eternamente jovens. Não sei se se comprova, se é coisa escrita nas estrelas, sei que, no caso do Pai. era certamente verdade. Talvez por isso, voltou à universidade depois dos quarenta e foi colecionando bacharelatos e licenciaturas. Começou com um recém-criado curso de Política Social no ISE e acabou, entre os primeiros licenciados em Sociologia pelo ISCTE. Tudo em Lisboa. Fez muitos amigos, sobretudo, entre os que eram, como ele, do Porto. Iam para aulas de fim de semana (gesto simpático dos professores) e para os exames em excursão de camionete. Em festa!
Gostava de conviver com jovens. Era tolerante e divertido, embora discreto, nas tertúlias. Sentido de humor, graça e simpatia tornavam-no popular junto de todas as gerações.
Seria um bom político, se tivesse vocação. Não tinha, mas gostava dos políticos em quem se revia, como Sá Carneiro e Freitas do Amaral, a quem até lhe dedicou um slogan com rima:
"Não há esquerdas, nem direitas.
Portugal é todo Freitas!
Assim era este poeta repentista...
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