sábado, 26 de novembro de 2016

AS ESCOLHAS DO ESPÍRITO SANTO

Lopetegui, Peseiro, Espírito Santo... "Somos Porto" à imagem destas cabeças pensantes. Não somos "Porto à Mourinho", nem somos "Porto à Villas Boas". José e André não tinham um grande passado, quando aqui chegaram, mas aqui começaram um grande futuro. E se não havia muito a recomendá-los, não havia também nada contra. O pouco que haviam feito havia sido bem feito! Um no Leiria e no Benfica, o outro na Académica. Não é o paradigma dos que, mais recentemente, têm sido responsáveis por uma longa sucessão de desaires portistas. Lopetegui trazia a marca de maus desempenhos em equipas secundárias e vitórias só em seleções juniores. Uma contratação inexplicável, que me provocou calafrios, desde o primeiro momento. A perseguição a Ricardo Quaresma foi o seu "começo do fim". (uma espécie de versão basca de Co Adriaanse, que perseguiu, da mesma maneira, entre outros, Baía e Diego). Peseiro é um perdedor nato, que conseguiu, como era expectável, a proeza de se mostrar pior do que o antecessor. Espírito Santo, a meu ver, não prometia, à partida, inverter o caminho descendente do FCP. Porquê? Porque não é muito significativo para um clube como o Porto, o que conseguira no Rio Ave. E o trajeto no Valência revelava, sobretudo, a incapacidade de dar sequência a um início promissor, por mau relacionamento com jogadores. Com alguns dos melhores jogadores do plantel... Não há nele nenhum Jesualdo em potência! Não sabe e não me parece que vá saber nunca tirar partido da matéria prima que tem ao dispor. Falta-lhe humildade, falta-lhe carisma, falta-lhe empatia, onde sobra o seu discurso articulado, à mistura com traços de arrogância na hora da vitória e a tendência a negar as evidências em caso de derrota. Choca-me o tratamento que foi dado a Helton, a Aboubakar, a Brahimi, para referir apenas exemplos gritantes. Que bem Aboubakar vai mostrando no Besiktas a falta que faz a este Porto... E o Quaresma! O homem que decide jogos - como aconteceu até contra o Bayern, no Dragão. Quaresma não voltará mais. Mas porque será o mágico que nos resta, Brahimi, excluído das escolhas do Espírito Santo?

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

GILBERTO FERRAZ NA BIBLIOTECA JOSÉ MARMELO E SILVA

Londres, 22 nov (Lusa) - O jornalista português residente em Londres Gilberto Ferraz destacou o contributo que a sociedade britânica deu para a independência de Timor-Leste da Indonésia, num livro que vai lançar em Lisboa na quinta-feira. Organizações de direitos humanos jornalistas, académicos, estudantes e outras personalidades lutaram pela causa timorense, a qual o antigo correspondente do Jornal de Notícias e funcionário da BBC considera que não tem sido reconhecida. "Timor-Leste - Dívida por Saldar" reúne depoimentos, artigos de imprensa e correspondência diplomática, muitos dos quais inéditos, em que se pretende dar a conhecer o ativismo britânico. "Houve um movimento extraordinário que, quanto a mim, apressou e alertou" a comunidade internacional para a situação, disse o autor à agência Lusa. Gilberto Ferraz contou que, na altura, se limitou "a comunicar a audiências portuguesas o que se passava no Reino Unido sobre Timor-Leste" através dos seus artigos no JN. Durante vários anos, teve acesso a figuras como James Dunn, diplomata australiano que defendeu a independência dos timorenses, ou o prelado Martinho da Costa Lopes. Contactou com jornalistas que escreveram sobre Timor-Leste, como Hugh O'Shaughnessy, e com ativistas como o antigo deputado pelo partido Liberal Eric Lubbock e a defensora dos direitos humanos Carmel Budiardjo. Posteriormente, contou à Lusa, ouviu de Jaime Gama, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, que esse trabalho ajudou o Governo português na preparação dos argumentos de defesa de Timor-Leste em organizações internacionais. O livro, resumiu, "é uma dívida ao povo britânico pelo que fez pela causa timorense". A obra vai ser lançada na quinta-feira na Fundação Pro Dignitate, em Lisboa, no dia 25 de novembro no Auditório do Jornal de Notícias, no Porto, e no dia seguinte na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, em Espinho. Natural de Tondela, Gilberto Ferraz, de 82 anos, ingressou no Serviço Mundial da BBC em 1965, onde se manteve durante mais de 30 anos, e foi correspondente no Reino Unido do JN, TSF e RTP. Este ano, publicou um livro de memórias, também em língua portuguesa, intitulado "Por Terras de Sua Majestade".

SÁBADO, 26. às 15.00, na Biblioteca José Marmelo e Silva

Lançamento do livro “Timor-Leste, dívida por saldar” de Comendador Gilberto Ferraz Gilberto Ferraz, comendador, natural da freguesia de Tonda, Tondela, com um vasto currículo, destacando-se a sua função como jornalista durante 30 anos na BBC, em Londres. Organização: Associação Mulher Migrante

terça-feira, 1 de novembro de 2016

SAUDADES DE JOSÉ LELLO - A ÚLTIMA ENTREVISTA JUNHO DE 2016

O meu último encontro com José Lello, no programa de rádio e TV de uma grande jornalista, Maria Flor Pedroso. Ainda bem que aconteceu. Foi um convívio inesquecível, e, de alguma forma, um balanço de relacionamento político e, acima de tudo, pessoal de dois antigos responsáveis da pasta da Emigração - uma Secretária de Estado, um Secretário Estado. Dois Amigos. O link: https://shar.es/1E9hJt

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O DOUTOR CARLOS LEMOS NA "PRAÇA"

História da sua vida contada na "Praça" - uma inesquecível entrevista de Sónia e de Jorge Gabriel. Eu, coisa muito divertida, fiz de " efeito surpresa". Tudo perfeitamente controlado, nas salas e corredores para não nos encontrarmos antes do tempo certo, em pleno estúdio... Link to Praca program 21 October 2016 http://www.rtp.pt/play/p2778/e255525/a-praca/531208

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O DR CARLOS de LEMOS EM ESPINHO

“HISTÓRIA DE UMA VIDA” O HOMEM E O LIVRO Tem estado entre nós, desde Setembro, um dos casais portugueses mais cosmopolitas e mais viajados que conheço - o Doutor Carlos Pereira de Lemos e a Doutora Molly Murray de Lemos, emigrantes na Oceânia há largas décadas. Ele tem 90 anos, ela é mais nova, mas da mesma geração. Recentemente, ela recebeu uma honraria rara, a Ordem da Austrália, pelos seus trabalhos de investigação e ele, em Dili, as insígnias da Ordem de Timor - Leste, pela sua incansável intervenção diplomática em favor dos timorenses Nesta visita a Portugal Carlos de Lemos trouxe consigo uma autobiografia, que apresentou em vários lançamentos, de Lisboa a Melgaço, num vai vem constante, a partir de Espinho. Nada a que não esteja habituado - de movimento se fez " a história de uma vida", que parecia condenada ao confinamento em pequenos povoados serranos do Alto Minho. O Homem Carlos de Lemos quase não teve infância - saiu da escola com a 3ª classe e logo precisou trabalhar, como um adulto. A partir dos 12 anos ficou entregue a si próprio e as grandes decisões, que o conduziram a um destino prodigioso, foram da sua inteira responsabilidade. O perfeito exemplo de "self made man" que chegou longe - mas não no tipo de sucesso que geralmente se associa ao conceito: o sucesso material, a fortuna contabilizada em milhões. Não era isso o que procurava. Queria ir longe no sentido literal de abrir horizontes geográficos, mas também os horizontes do conhecimento e da Cultura. .Ele mesmo o afirma no epílogo da autobiografia: "Não acumulei dinheiro. Mas acumulei riqueza de ter vivido uma vida cheia de experiências variadas". Sozinho vai para a cidade. É empregado de café em Melgaço, depois em Monção. Já aí um dos doutores, cliente diário do café, lhe diz: "Rapaz, tu és um verdadeiro diplomata". E diplomata viria a ser, muito mais tarde…Na etapa seguinte está Lisboa e Cascais. É adjunto de topógrafo - um jovem bem parecido e simpático, facilmente aceite em tertúlias de universitários e de intelectuais. Discretamente, aí vai a exame da 4ª classe. Como topógrafo, palmilha o País, de lés a lés. Espinho, a Póvoa, são parte do seu roteiro. Na Póvoa, num só ano, completa o antigo 5º ano do liceu. Em todo o lado, convive e dialoga à vontade com elites da cultura. Está pronto para "correr mundo", até ao limite das fronteiras de um "império" (que entrava na sua fase derradeira), "do Minho a Timor".Primeiro, Moçambique - o vale do Limpopo, com esporádicas visitas à capital, onde frequenta o seletivo "Clube de Lourenço Marques"). E conta no seu círculo João Maria Tudela, Paulo Vallada, e... Samora Machel. Com as poupanças amealhadas, tira licença sem vencimento, não para se divertir, mas para estudar em Universidades da África do Sul. Quando o pecúlio se esgota procura nova ocupação, ainda mais longe. É o novo topógrafo -Chefe no projeto de construção do porto de Dili. Anos felizes, já com a Mulher. Molly, por quem se apaixonara nos bancos da Universidade. Na África do Sul pertencera ao "inner circle" de Alan Paton (cujo filho era colega). Na sua casa encontra outros famosos oposicionistas ao "apartheid", como Tambo, Mandela e Sisulu. Em Timor, o especial amigo é Rui Cinatti. Um novo capítulo se inicia, quando a carreira académica de Molly os atrai à Austrália. Serão, doravante, emigrantes. Como topógrafo, ele atravessa os desertos do norte australiano, por terras que ninguém tinha ainda pisado. Melbourne é a cidade onde, por fim, se enraízam. Molly prossegue a carreira académica. Carlos de Lemos, depois de terminar os cursos de Sociologia e de Ciências Políticas, é professor, correspondente de bancos portugueses. Um cidadão ativo na emergente comunidade portuguesa, que lidera e mobiliza. Cria a escola de português, o programa de rádio, a "comissão" de atividades sociais e culturais. Antes de ser, formalmente, acreditado como Cônsul Honorário (em 1988), já era o defensor natural dos imigrantes portugueses - e dos timorenses!. O seu prestígio e capacidade diplomática convertem-no no mais notável paladino da cultura e da história portuguesas em toda a Austrália. Consegue o "impossível" - erguer um padrão de homenagem aos navegadores portugueses em Warrnanbool, onde terão aportado as caravelas lusas, 200 anos antes de Cook.. Kenneth Mc Intire, o investigador que comprova a primazia da descoberta portuguesa, é visita assídua de sua casa. .Warrenanbool recebe, desde então, muitos milhares de turistas, sobretudo por altura do "Portuguese Festival", que, por iniciativa do nosso Cônsul, aí se realiza anualmente Converteu-se, assim, em autêntico "lugar de culto" para a nossa gente e para muitos australianos. A cidade agradeceu, dando a uma das ruas, o nome do Dr Lemos. O Presidente Sampaio distinguiu-o com a comenda da Ordem de Mérito. O Livro É uma narrativa fantástica da aventurosa trajetória deste Homem extraordinário, a mostrar mais um dos seus talentos: escrever num português límpido, simples e expressivo, que nos encanta e nos desafia a ir com ele pelo mundo fora, numa viagem que atravessa épocas, mares e continentes. É uma partilha de memórias, de confidências, de observações e comentários sobre muitos lugares e pessoas, com imenso interesse antropológico, histórico, sócio - político. É o retrato de um português de hoje que encarna, realmente, as virtudes que atribuímos aos antigos portugueses – a atracão por outras terras, outros costumes, o dom de conviver afetivamente com outros povos. É o retrato de um emigrante que soube "dar um sentido humanista e fraternal ao movimento incessante da sua vida" - cito palavras finais do meu prefácio, que é seguido por três mensagens, de personalidades dos países a que ele, de facto, pertence. Por Timor fala o Dr. Ramos Horta, reconhecendo que: "A sua tem sido, e sei que será, uma vida de serviço prestado à causa de Portugal, dos Portugueses e dos Timorenses". Por Portugal, o Dr. Rui Quartin Santos, antigo Embaixador em Canberra, realça "as suas qualidades humanas e profissionais, o prestígio que soube conquistar junto de portugueses e australianos". Pela Austrália, Sir James Gobbo, ex- Governador do Estado e Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, dirige-se, sobretudo, ao diplomata: "I think particularly of your role as Honorary Consul of Portugal and your admirable leadership of the Consular Corps in Melbourne".. Aqui fica um convite à leitura de uma história de vida, que é, também, parte da história do País e de outros Países. em "A DEFESA DE ESPINHO", 27 de outubro de 2016

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Livro doa Amigos de MÁRIO LAGES

É um privilégio dar a minha singela contribuição para este livro, que é um ponto de encontro das memórias de cada um de nós sobre algumas das histórias passadas com Mário Lages. Um livro que é, assim, uma "viagem de descoberta" de um ser humano admirável, dotado de muitos e variados talentos, alguns inimagináveis! Por isso, cada depoimento pode trazer-nos surpresas, sempre boas, porque há na sua vida uma essencial coerência de ideias e de ações. Homem de causas e, igualmente, de imensa energia e generosidade concreta. Comunicativo, alegre e muito discreto, com o seu fino sentido de humor. Um militante do humanismo no quotidiano, um cristão verdadeiro, de quem, depois de partir do nosso convívio, poderemos, em definitivo, dizer que "passou por esta terra fazendo o bem". Conheci-o há quase 50 anos, na Casa de Portugal da "Cité Universitaire" de Paris. no início do ano académico de 1968/69. Tornou-se, logo, a figura central de um grupo de jovens portugueses, (bolseiros, investigadores em diferentes áreas, quase todos a iniciarem uma primeira experiência de estudos fora do país), graças a um dom natural de convivialidade e ao seu gosto de partilha, que começava na partilha de informações utilíssimas - sobre como lidar com a burocracia local, onde obter livros com descontos para estudantes, onde fazer refeições económicas fora do perímetro da "Cité"...- e continuava na partilha de ideias, de preocupações sociais, na envolvência cívica. Os ventos políticos que agitavam a França e Portugal, embora de origem e direção diversas, convidavam igualmente à participação. Um duplo convite a que dissemos "sim". Resolvemos começar ali mesmo, na Casa de Portugal - com eleições, naturalmente. Uma das regras inovadoras, que maio de 68 tinha imposto na "Cité", era o "droit d' affichage", um passo largo no sentido da co-gestão. No exercício desse direito, sem consulta ou pedido de autorização ao Diretor da Casa, que, nessa altura, pertencia à Fundação Gulbenkian, afixámos a respetiva convocatória, apresentámos listas, realizámos e vencemos o ato eleitoral. Digo "nós", porque estive entre os proponentes, juntamente com Mário Lages e muitos dos que constituiriam o grupo de amigos, que se consolidou a partir daí, e ainda existe. Não me recordo já dos nomes que compunham essa lista, para além do presidente da assembleia de estudantes, o Luís Galvão Teles. O desenlace eleitoral não agradou ao Diretor que o contestou, de imediato, afixando um aviso em que acusava "uma trintena de residentes" de terem desencadeado aquele processo, à margem dos estatutos da instituição. Afinal, pas de droit d' afichage"... O ato eleitoral foi repetido, nós afastamo-nos, de vez, desse campo de ensaio democrático frustrado, não guardando da querela mágoas ou ressentimentos, mas apenas o rótulo de "católicos progressistas" e a vontade de assumir essa pertença. Concentramo-nos, sem mais, na preparação de combates futuros, pelo debate e reflexão no interior do grupo e, o que não foi menos importante, ao ameno e constante convívio, em que se teceram laços de afecto indestrutíveis. Gostei de saber, agora, há pouco, por acaso, ao conversar sobre Mário Lages, que também ele falava sempre dessa estada na " Cité", como um tempo muito feliz. Qual de nós não diz precisamente o mesmo? Tudo, então, era pretexto para festas e celebrações - os aniversários, por exemplo. Uma trintena de aniversários! Nos tempos livres, visitávamos catedrais e museus, frequentávamos cinemas, livrarias, cafés, discorríamos sobre mil e um assuntos, infindavelmente. E, assim, neste ambiente de tertúlia e de reflexão crítica, se construiu uma comunidade coesa, em terra estrangeira, como tantas outras em que os expatriados recriam um espaço nacional, sem rejeição do que o circunda - emigrantes "temporários", com uma situação bem diferente da maioria dos trabalhadores portugueses que, em massa, estavam a demandar os subúrbios de Paris, mas nem por isso inibidos de exprimir, do mesmo modo, a solidariedade entre pessoas na adaptação a um mundo novo. Compartilhávamos valores, saberes, lazer, como uma grande família no interior de um lugar pequeno, como numa aldeia portuguesa em que todos são parentes, para não dizer "como numa república de Coimbra", só porque acho que nos faltava completamente o toque boémio. Nem boémios, nem "enragés", embora acreditássemos nas profundas transformações sociais e políticas que teriam de acontecer. Mantínhamos as nossas diferenças, sem conflitos, nem cisões, entre iguais, mas com uma liderança espontânea, não imposta, não declarada, não assumida, e, nem por isso, menos decisiva. Responsável, em primeira linha, pela harmonia reinante foi a personalidade de Mário Lages. Disponibilidade constante, simpatia, e bom senso, conselho dado de um modo simples e direto, faziam dele um involuntário, mas autêntico, "primus inter pares". Sensível aos problemas de cada um, com a perfeita compreensão das pessoas e das situações. Um Homem de Ciência, ou melhor, no plural, de ciências - teologia, sociologia, etnografia... - . já com um brilhante doutoramento em Roma e outro em curso, ali, em Paris. Um Homem voltado para as Artes, a escrita, a música (cantava, tocava órgão e outros instrumentos), a fotografia. Um amador de todas estas e de outras Artes, exímio em tudo o que empreendia, facilmente superando os melhores profissionais. Um exemplo: foi ele quem, na altura, fotografou as telas de Nadir Afonso para uma sumptuosa edição das suas obras. Nadir era outra inesquecível personagem da Casa de Portugal, em fins da década da década mítica de sessenta. Um génio da pintura, com um esfuziante sentido de humor, faceta que o terá aproximado de Mário Lages. Um caso de admiração mútua! Pena foi eu não ter gravado alguns dos divertidíssimos momentos que passei a ouvi-los... Com Nadir não tínhamos contacto diário, tal como com amigos que moravam fora da "Cité", e nos faziam visitas muito apreciadas. porque se integravam perfeitamente no nosso círculo de conversação, como o Padre Januário Torgal Ferreira (trazido pelo Mário) ou o Alfredo de Sousa, compadre da Eduarda Cruzeiro. Sobre o tema fotografia, devo acrescentar que Mário Lages não se limitava a tirar retratos com uma máquina "topo de gama", pois se comprazia a completar o ciclo criativo, revelando as suas próprias fotos, num pequeno laboratório de uma das residências bem perto da nossa - não me lembro exatamente qual. A da Suiça, suponho. Sempre pronto a ensinar, convidou-nos para uma espécie de aulas práticas e logo viu crescer o número de discípulos aplicados, entre os quais me contava. Nos meus álbuns ainda hoje conservo algumas dessas fotos, em muito bom estado de conservação, sinal da competência do mestre. Outro terreno em que se distinguiu: o automobilismo, condução, corridas! Ao volante transformava-se por completo, como pudemos testemunhar depois que comprou um Austin mini. O tranquilo e erudito professor que media as palavras e não era dado a qualquer tipo de radicalismo, abria aqui uma exceção e fazia autênticos ralis, por entre as filas de trânsito parisiense, onde vale (quase) tudo, inclusive ultrapassar pela esquerda e pela direita. Ninguém o conseguia seguir. Era normal tomar a dianteira e desaparecer lá à frente, num ápice. Por isso, nos passeios dominicais, em excursão de várias viaturas, traçávamos um plano prévio, com paragens e destino final pré- definidos. E uma vez em que não o fizemos, em viagem para Portugal, no verão de 1969, perdemo-lo praticamente à saída da "Cité" , no "péripherique", para nunca mais o vermos . Ia eu no Volkswagen da Eduarda Cruzeiro, (por acaso, também excelente condutora, mas não tanto) e ela, quase até chegar à fronteira portuguesa, insistia em almoçarmos em esplanadas junto à estrada, na esperança de o reencontrar, com o seu "equipa". Esperança vã. Um episódio que mostra bem como a vida era diferente, sem telemóvel... Aliás, as peripécias com o famoso "mini" começaram cedo, na "rodagem", completada numa ida e volta a Amsterdão (1000 km de boa estrada plana). Chegado à chamada "Veneza do norte", com dois ou três colegas, decidiu estacionar junto ao primeiro canal que lhes oferecia uma vista pitoresca e aparentemente singular. Daí, seguiram todos a pé para o centro, onde jantaram. Pelo caminho, atravessaram pontes, trechos parecidos, despreocupadamente... O problema surgiu, na hora de localizar o "mini", numa densa rede de canais, excessivamente semelhantes na sua beleza pitoresca. Foram horas de deambulação. Depois, em Paris, uma vez por outra, à noite, quando a visibilidade o permitia, passava sinais vermelhos - o que os franceses designam, aliás benignamente, por "bruler les rouges". Era rápido e ágil na argumentação e na condução automóvel, como no desporto, que praticávamos, quando as condições meteorológicas deixavam, nos campos de jogos situados convenientemente em frente à Casa de Portugal. Os relvados que a separam da vizinha Casa do Brasil eram um espaço tranquilo, onde descansávamos dos exercícios atléticos, ou, onde, em dias de sol, nos sentávamos à conversa, após tomarmos um cafezinho brasileiro. Mas café ótimo, delicioso, era o que Mário nos oferecia, vezes sem conta. Café arménio, que ele sabia preparar a preceito, numa cafeteira própria, de metal, com uma base larga, remexendo o pó na água fervente. Como eu era a maior apreciadora dessa bebida exótica, em que o líquido se mistura com o pó, quando não o deixamos assentar, deu -me uma cafeteira igualzinha à sua, que eu guardo, como lembrança das animadas discussões "à volta de uma chávena de café", muito embora não saiba usá-la. O café oriental era uma raridade, sem dúvida, e constituia mais uma evidência de como o nosso Amigo passava dos estudos arménios ao relacionamento fraterno com pessoas concretas e adotava, prontamente, os seus costumes. Tinha colegas arménios, de quem falava com entusiasmo, do mesmo modo que nos relatava avanços na investigação académica. A cafeteira não seria o único presente que dele recebi. Os outros foram livros, todos muito mais utilizados: " Le Nouveau Testament", traduzido para o francês, sob a direção da Escola Bíblica de Jerusalém (na sequência de muitas conversas sobre religião - no meu caso, então, realmente, em busca de respostas para uma crise de fé...), um álbum de arte africana, "um pocket book" de PG Wodehouse, por sinal um dos mais hilariantes da série de Blandings Castle - PG tornar-se-ia o meu autor favorito- e, por fim, o seu ensaio etnológico sobre "Vida/Morte e Diafania do Mundo na História da Carochinha", que é de leitura obrigatória, absolutamente fascinante, tanto do ponto de vista científico como literário. Livros que abrem horizontes - uma das suas grandes missões de vida... São tantas e tão boas recordações! Hoje também já o é a única que podia não o ter sido: um 14 de julho, que comemorávamos pacificamente numa esplanada do "Quartier Latin". De repente, sem razão aparente, eis que irrompe a polícia no alto da rua, que era íngreme e estreita, varrendo os turistas à bastonada! Logo se formou um tropel de criaturas vindas de os lados, ruela abaixo. Ficámos irremediavelmente separados uns dos outros. A Eduarda e eu, por sorte, "integrámos o pelotão da frente" e, ao virar de uma esquina, entrámos por um portão, que estava oportunamente aberto, e fomos recolhidas com palavras amáveis dos donos da casa. Pareciam gente muito habituada a recolher passantes em fuga. Com eles, do alto de uma janela, assistimos à cena de inusitada violência de que foram vítimas alguns dos nossos queridos compatriotas, entre eles, o Mário. Um susto enorme, que se saldou, do mal, o menos, apenas nuns "galos" na cabeça de respeitáveis cidadãos. Foi o mais próximo que estivemos de uma das "bagarres" do pós Maio 68, numa França ainda não recomposta de múltiplas formas de sobressalto. Regressados a Portugal, tentámos lutar contra a dispersão na geografia lisboeta, continuámos a reunir, com frequência, por alguns anos. Contudo, no meu caso, como no de outros, as ocupações, as ausências constantes de Lisboa, do país, levaram-me a perder a ligação assídua com "o grupo de Paris", durante mais de três décadas, até à data da homenagem prestada a Mário Lages, na Universidade Católica, aquando da sua jubilação, que foi seguida de um jantar informal, num restaurante em que reencontrei a Luísa e o António Marques de Carvalho e conheci a Ana Costa Lopes (rimos tanto, que me parecia estar de volta a Paris, à "Cité", à nossa cidade dentro da cidade!). Recomecei a participar em convívios, já não de uma "trintena", mas de uma dezena de bons amigos. Reatámos o diálogo, à volta do Mário, como nos velhos tempos, como se não tivesse havido hiatos. Com o mesmo contentamento, a mesma espontaneidade. Acho que só não esculpimos um boneco de neve e não arremessamos bolas de neve uns aos outros, porque nos faltava a matéria-prima. Tão iguais ao que fomos, apesar dos cabelos brancos! Os verdadeiros amigos têm, afinal, sempre, a idade com que os conhecemos. E, para nós, nunca morrem. in "Lembranças e afectos - A Amizade também é memória" , coordenação de Ana Costa Lopes e Roberto Carneiro, CEP-CEP. Universidade Católica Portuguesa, Lisboa 2016 A A Maria Manuela Aguiar