sexta-feira, 17 de abril de 2020

JFK

O dia mais triste de todos quantos passei em Coimbra,
Vivia então num prédio donde via os muros da penitenciária e estava a entrar na porta de casa quando uma colega me disse
Assassinaram o presidente Kennedy

A PROPÓSITO DE UM PASSO DE DANÇA DO PRESIDENTE OBAMA

A propósito de um passo de dança do Presidente Obama 

 1 - Correram mundo as imagens do Presidente dos EUA a dançar o tango em Buenos Aires, acompanhado por uma veterana bailarina. Se não era uma sua primeira tentativa, parecia. Descobri, assim uma nova afinidade com um dos políticos que mais admiro: dançamos o tango imperfeitamente, apesar de ser uma música fascinante. (Na verdade, o tango é considerado uma expressão da alma argentina, como o fado é da portuguesa. Um e outro fáceis de compreender ou de sentir, difíceis de interpretar...). Falando por experiência própria, atrevo-me a profetizar que. tal como eu, o Presidente não vai conseguir melhorar muito. 
Todavia, o que importava, ali, não era a qualidade da exibição, mas a vontade de partilhar saberes, aprendizagens, rituais de amizade, em gestos de empatia, que, um a um, somados, tornaram memoráveis as suas históricas visitas a Cuba e à Argentina - coisa que, aliás, se dirá de dois mandatos inteiros, generalizando. Pode até a América vir a ter um (ou uma!) presidente igual ou superior a Obama em pura competência - dificilmente terá o seu encanto, feito de simplicidade e simpatia. Imune, de princípio a fim, aparentemente, aos malefícios do Poder. Sempre igual a si próprio, um grande ser humano .

 2 - Ao ver Obama, caminhar em frente, na pista de dança, sem ritmo mas sempre sorridente. Lembrei-me, não de magnas questões da política internacional, mas da minha experiência pessoal num espaço culturalmente argentino (uma residência de estudantes da Cidade Universitária de Paris), a que não faltavam as noites de festa, noites de tango. 
Nos dois anos de estudos de pós-graduação em França (68/70), vivi o primeiro na Casa de Portugal, em meio tão português, que mal podia acreditar que tinha deixado a Pátria - um meio politicamente fraturado, agitado por toda a ordem de mal entendidos, embora não ,por sorte, dentro do círculo de amigos com quem convivia - e passei o último ano "emigrada", e feliz, na casa de estudantes da Fundação Argentina. A Fundação pertencia ao Estado e era dirigida por um professor de Direito, com estatuto de embaixador e, por sorte nossa, perfil de independência face ao próprio regime do país, onde já havia sinais da pavorosa ditadura que não tardaria a implantar-se. 
 Quando deixava o "campus" universitário, psicologicamente, sentia-me como que a atravessar a fronteira para a França, porque lá dentro, vivia-se o modo de estar, a cultura nacional de cada residência, apesar dos regulamentes da "Cité" exigirem, para evitar a "guetização”, uma quota de estrangeiros… A quota era, com certeza, respeitava, mas em pouco ou nada contribuía para alterar a cultura dominante - o "mainstream" de ca uma das unidades de que se compunha a !Cité",  Na Casa de Portugal (então pertença da Fundação Gulbenkian), quase não se sentia a presença dos "outros", e não me lembro de eventos "comunitários" a que fossem chamados (não havia nada digno desse nome, apenas grupos mais ou menos antagónicos. Não se cantava o fado, não se jogava a sueca, nem se bailava folclore. Via-se televisão francesa e conversava-se ou discutia-se, na nossa língua. A Casa dos Estudantes Argentina, pelo contrário, era uma festa! Quase todos os estrangeiros eram sul-americanos. Abundavam os bons cantores e os músicos, com as suas violas. E ao fim de semana, invariavelmente, com o gira-discos no volume máximo, dançava-se o tango. Todos eram convidados e ninguém assistia sentado. Até eu... Nunca me faltava par, apesar de ir aos solavancos pela sala adiante, sem acertar o passo. Sentia-me bem, no meio de amigos. Fazíamos confidências sobre os nossos problemas, contávamos histórias da nossa família, da nossa terra. A política não era obsessão, emergia, por vezes, (não muitas...), naturalmente. O meu “grupo argentino” de Paris foi tão importante como o português – ali fiz amigos para toda a vida. Não assim, curiosamente, no meio académico – não há um só colega francês cujo nome recorde. .
3 – Estes diferentes espaços em que, então, circulava ofereciam diferentes paradigmas de relacionamento intercultural. Eram microcosmos, é certo, correspondiam a um certo tempo e a um especial contexto, mas evidenciavam (evidenciam...) o modo como, em todos os tempos e contextos, uma sociedade se pode abrir aos outros e fazê-los felizes ou se pode fechar e ignorá-los, deixando-os à margem. 
Hoje, mais ainda do que há 40 anos, um dos maiores problemas da Europa tem a ver com isto: é o medo da vaga de refugiados que aí vem. É o drama da sua imigração - o drama dos jovens, de segunda e terceira geração, que se sentem estrangeiros no seu próprio país. E, afinal, a solução pode começar num simples gesto, numa simples palavra, num passo de dança…

UM MUSEU PARA AVINTES

MA1
Maria Manuela Aguiar
UM MUSEU DE AVINTES
Edifício, na Rua do Paço, onde vai ser instalado o Museu d Pão.

1 - Um Museu na zona ribeirinha?

Todas as terras, todas as comunidades em sentido orgânico, deviam, idealmente, ter a sua monografia, a sua imprensa, o museu do seu acervo, da história coletiva e das memórias de que se faz uma identidade carreada de geração em geração. No mundo novo a que alguns chamam "aldeia global", esta será, porventura, uma das formas de participarmos em pleno num movimento irresistível de confraternização planetária, sem nos perdermos nele. 
A Avintes não tem faltado estudo e reconhecimento de um percurso mais do que milenar e excelentes publicações, entre as quais se conta, número a número, esta Revista, como uma ponte de passagem entre o passado e o presente, a tornar-se devir. Notáveis contributos que podem servir, agora, um inovador projeto da Junta de Freguesia, um projeto museológico focado numa das atividades em que ganhou renome nacional: a broa de Avintes, que não tem igual, nem no país, nem no mundo.
Sobre ele, a Revista "Caminho Novo" me desafiou a fazer um pequeno depoimento, talvez pelo facto de poder vir a estar, de certo modo, ligada à criação do condicionalismo para um lançamento rápido da iniciativa. Na verdade, uma  casa rural da minha família paterna, com localização privilegiada, na marginal do Douro, junto ao Areínho, é uma das sedes possíveis para a localização física do museu.
E é sabido que  estou recetiva a doa- la ao Município, para esse fim, para que a ideia possa, a breve prazo, concretizar-se ali mesmo, no lugar do Paço, que é tão bonito, e naquele conjunto assimétrico, mas harmonioso, de edificações de pedra antiga, com o lagar, o forno caseiro, a eira de granito e o espigueiro, em que hibernam reminiscências de séculos de agricultura ribeirinha - de quando o milho bordejava
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Espigueiro e Casa da Eira
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Lagar

as águas do rio, e aí deixava, ao correr dos ventos, um reflexo ondulante. Ainda era assim, nos anos da minha juventude, a marginal de Avintes, um dos trechos mais idílicos do Douro num curso de correntes fortes e vagarosas, como se não tivesse pressa de chegar ao Porto, já tão perto. Paisagem não muito diferente da que avistava, no quotidiano, meu bisavô João Dias Moreira, que não conheci, mas imagino a calcorrear aqueles caminhos, na direção daquela casa, na companhia do meio - irmão, Padre Manuel Pinto da Silva, ambos vultos imponentes, com quase dois metros de altura, falando da sorte das colheitas, ou, talvez, da sorte do país, que atravessava as crises e os afrontamentos de um período revolucionário.

Descrição: C:\Users\Zé Vaz\Desktop\CN34\Fotos Artigo Museu do Pão\Museu do Pão-Casas do Paço- Manuela Aguiar\MA6-Padre Patrão-foi publicad noo Almanaque  como Jose Joaquim da Silva Valente.tif
Padre Manuel Pinto da Silva (Padre Patrão)

Ao Padre Manuel, monárquico, convicto defensor de valores cristãos tradicionais, se deve a fundação e direção do primeiro jornal da terra , o "Aurora de Avintes",

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Cabeçalho de 1.º Periódico de Avintes A Aurora de Avintes, cujo Director e Editor era o Padre Manuel Pinto da Silva (Padre Patrão).


 e a João, menos movido pelo proselitismo religioso, a reconstrução, em fins do século XIX, da casa que herdara dos pais, triplicando a área da sua matriz (muito mais antiga)) e acrescentando-lhe, do outro lado do terreiro, três pisos de aidos, lojas e arrumos, a aproveitar o declive íngreme da colina, com a eira e o espigueiro no patamar superior.
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Conjunto interior de edifícios do futuro Meseu do Pão

Tudo cercado de muros, dentro dos quais o granito austero dominava, nas escadas, nas paredes, e até no chão, emergindo aqui e ali, irregularmente, entre terra batida, sem fazer contraste com a pintura da fachada, de um  beije neutro.
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Outras instalações do futuro Museu do Pão

Todavia, menos severo terá sido o ambiente humano ali vivido, pois João, ele mesmo pessoa serena e de bom feitio, era casado com Quitéria Francisca Pinto, mulher que sabia combinar perfeitamente os ritmos de labor intenso e de diversão, incomparável contadora de lendas e histórias e poetisa repentista, imbatível na arte de "cantar ao desafio". O pai andara pelo Brasil e de lá trouxera uma maneira alegre e otimista de estar em família e em sociedade, além de capital para investimentos e para construir uma vivenda, situada perto da que viria a ser da filha Francisca (Reis pelo casamento), na rua 5 de outubro, atualmente a sede dos "Plebeus Avintenses". A irmã, Esperança, casara com um jovem Adolfo Marques, dos Marques que a Avintes deram alguns dos seus famosos escultores da madeira.
Do marido, João, sabe-se que os antepassados também eram de Avintes, mas a alcunha "patrão" parece indiciar que seriam gente ligada, não à agricultura mas à pesca ou a estaleiros, que ali terão florescido. Certo é que, em boa hora, ele se dedicou à lavoura, com um sucesso que o tornou figura lendária para a descendência, constando que terá adquirido, ao longo da vida, 99 propriedades, entre pequenas courelas e matas, pinheirais e quintas. Contudo, mais importante do que o seu rasgo empresarial é a aura de lisura de trato e generosidade, em particular para com quem estava ao seu serviço, que terá originado este dito curioso: "Mais vale ser cão na casa do João Patrão do que criado nas outras quintas".
O espaço que poderá, em dias não muito distantes, albergar o museu de que se fala, fez, pois, genuinamente, parte do ciclo do milho e da broa, "ex-libris" de Avintes
2 - Incursões no campo da experimentação museológica... 
Penso, naturalmente, num museu de "nova geração", com work-shops, suportes digitais, ações formativas e pedagógicas - não um daqueles que, quando era jovem,  esgotavam,  para mim, praticamente, o seu conceito, sinónimo de coleções de arte, "templos das musas", no sentido etimológico da expressão, que eu gostava de visitar, embora conservassem quadros e estatuária, sempre ali, imutáveis e estáticos, dados à nossa contemplação. Hoje é coisas comum imprimir-lhes dinâmicas em várias direções, até ao cerne da vivência das comunidades e da interpretação das suas particularidades..
Não esperava ver-me, anos mais tarde, envolvida em "aventuras museológicas", como aconteceu em função do meu trabalho no campo das migrações. Cedo me apercebi que a longa aventura da Diáspora portuguesa, feita de uma infinidade de aventuras individuais, que ainda prosseguem, imparavelmente, merecia honras de um museu nacional, capaz de testemunhar a realidade económica, política, sócio - cultural, intercultural, e as suas formas externas e, também, internas, de presença e representação, ao longo de séculos. Estávamos no princípio dos anos oitenta e a ideia parecia, então, pouco menos do que peregrina e irrealista. O interesse académico na área da emigração andava esmorecido, se se comparar com o que despertava no auge do êxodo para o Brasil, e com o que desperta atualmente. Na demanda de modelos inspiradores, pedi, durante uma viagem oficial a Estocolmo, para visitar o museu sueco da emigração, em Vaxjo, no sul do país, e de lá regressei com ensinamentos preciosos e impressionada, sobretudo, com o rigor na procura e obtenção sistemática de dados individuais, imagens, objetos, cartas, registos paroquiais e milhares e milhares de entrevistas, cada uma com duração de horas. Ali, ao dispor de visitantes, tanto como de futuras investigações multidisciplinares, estava o pulsar de várias gerações de migrantes, não apenas de alguns notáveis, mas de pessoas comuns.  No lugar central estava o Emigrante, enquanto protagonista do movimento coletivo - uma outra forma de escrever história.
Na impossibilidade de importar, sem mais, o modelo original, para um país sem preexistência de semelhantes preocupações e  pesquisas, havia que as promover e aprofundar e, com esse propósito, se instituiu o "Fundo Documental e Iconográfico das Comunidades Portuguesas".  O "Fundo" teve, um rápido trajeto ascencional, porém, assaz abreviado, pois quando se consolidava, já com muitas dezenas de obras publicadas, terminava o meu mandato, e no executivo seguinte, como é de regra entre nós, até dentro do mesmo quadrante partidário, o programa nascente foi imediatamente abandonado....

Atravessamos agora conjuntura bastante propícia ao lançamento das mais diversas configurações  museológicas, mas no terreno quase inexplorado da emigração, só vingaram as  que se devem a ação municipal,  caso do Museu da Emigração Açoriana, na Ribeira Grande, e do Museu das Migrações e das Comunidades, em Fafe, concelho por excelência, de "brasileiros" de "torna-viagem" (que, aliás, também em Avintes e em toda a região do Porto, deixaram a sua marca e não só em bonitas mansões familiares).

A nível de sucessivos governos, o tema tem sido, espaçadamente, retomado, ainda que apenas no discurso, apesar de alguns deles terem conseguido levar a bom termo exposições temáticas de tal qualidade e dimensão que, como afirmou, recentemente, a Prof,ª Miriam Halpern Pereira, teriam podido constituir o embrião ou o primeiro polo de uma experiência museológica...  Esse queria ser e podia já sido  o destino da exposição "Os emigrantes e o mar" , que, há mais de 30 anos, foi o "canto de cisne" do  referido Fundo Documental e Iconográfico -  uma exposição que, em espaço próprio,  se converteria, facilmente, de temporária em permanente.

O paradigma sueco levou-me, igualmente, como dirigente de ONG' s, a incentivar, no âmbito do movimento associativo das comunidades do estrangeiro ou nas regiões de origem dos emigrantes, a recolha de depoimentos individuais, que, em algumas (Rio de Janeiro, Buenos Aires, Nova York,  Chaves) se traduziu em relevantes estudos e publicações. O que falta é a sua generalização, e um esforço de coordenação científica. Daí a esperança veio trazer um ambicioso projeto da Universidade Nova de Lisboa, patrocinado pela FCT,  e dirigido pela  historiadora Maria Fernanda Rollo, (antiga Secretária de Estado da Investigação Científica), que tem por  título "Memória para todos"  e a todos lança um apelo aliciante: "Faça história, partilhando a sua".

Para quem queira participar, saliento a abertura da projeto a quaisquer domínios, períodos, quadrantes geográficos, acontecimentos, festas e rituais, artesanato... A broa de Avintes, o círculo da sua produção, teria, no vasto conjunto já estudado, o mais perfeito cabimento...e falámos de mais de cem comunidades, de centenas de entrevistas, e de milhares de objetos pessoais recolhidos, de memórias das guerras mundiais, da primeira República, da guerra colonial, da ópera, de corporações (como a polícia), de aldeias e vilas. As possibilidades são infinitas, assim haja entusiasmo popular, solicitações, que, confio, hão-de chegar também das comunidades do estrangeiro.

 3 -   Diversidade cultural  e museus municipais
No nosso país, assiste-se, neste começo do século XXI, a uma expansão de pequenos ou grandes museus municipais - e refiro-me aos que são, de facto, de vocação especificamente local, não os que resultam de uma apressada forma de descentralização, a remeter para a órbita autárquica alguns dos sedeados fora da capital. Há, evidentemente, importantíssimos museus nacionais, fora de Lisboa, (o da emigração poderá, em breve, ser um deles...) e como tal, terão de ser reconhecidos. Municipais devem, pois, considerar-se os que valorizam e divulgam as singularidades do seu espaço próprio. no que respeita a instituições, artes e artífices tradicionais, comunidades de trabalho e de empreendimento... São, hoje, muitos, por exemplo: o Centro Interpretativo do Património da Afurada, voltado para a pesca e para o rio Douro, o Museu de Espinho, dedicado à arte xávega e à indústria conserveira, o Museu do Ouro em Travassos, Póvoa do Lanhoso, o Museu da Chapelaria e o Museu do Calçado, em São João da Madeira, o Museu Mineiro de São Pedro da Cova, o Museu do Móvel de Paços de Ferreira, o Museu Marítimo de Ílhavo, (com os núcleos da faina da Ria e da pesca do bacalhau nos mares do Norte, um navio- museu e um recentemente inaugurado aquário de bacalhaus).
            Encontram, todos, a razão de ser no caráter singular de um património material e imaterial, e são, nesta perspetiva, uma celebração da diversidade cultural, do direito à sua afirmação e da responsabilidade de a cultivar e aprofundar. O que é extraordinário, único tem de ser preservado e partilhado, constituindo responsabilidade não só dos poderes públicos, como da sociedade civil e dos cidadãos.
Em Avintes, a absoluta raridade dá um claro favoritismo ao fenómeno cultural e gastronómico, que é a sua broa, afamada no país inteiro e a merecer, sem dúvida, o esforço da internacionalização, que será enormemente facilitada pela existência de uma unidade museológica ou "centro interpretativo".
Quando, como e onde isso acontecerá, é, de momento, pergunta sem resposta. Há, contudo, promissores sinais de uma tomada de consciência e vontade política, fatores determinantes para o seu arranque, num contexto em que não falta a imprescindível pesquisa da comunidade académica, recetividade popular, artefactos, empresas de fabrico artesanal, comunidades guardiãs das tradições e do segredo de um sabor inimitável. A meu ver, pode ser lido como significativo o gesto da Câmara Municipal, de distinguir, no dia da Cidade, com a medalha de Mérito Cultural, classe ouro, um fundador da Confraria da Broa, Joaquim da Costa Gomes, e quatro tradicionais obreiras da Broa de Avintes (Padaria Arminda e Neto, Padaria Broa da Manelinha, Padaria Maria Cristina e Padaria Climana) pela "produção da Broa de Avintes. Símbolo identitário e de cultura gastronómica da freguesia de Avintes e do Concelho de Vila Nova de Gaia"
A fundamentação da homenagem, serve, igualmente, de justificação para a criação do Museu da Broa, num reconhecimento que pode ser visto como a sua pedra angular. Palavras ditas precisamente neste ano de 2019, em que não vemos mero acaso, antes pressentimos, a intenção política de passar das palavras aos atos.
Há, como disse, muitas maneiras de delinear um museu, de iniciar uma caminhada e o de Avintes poderá estar perto de dar os seus primeiros passos!

segunda-feira, 30 de março de 2020

FESTIVAL PORTUGUÊS EM WARRNAMBOOL 2020

A DESCOBERTA PORTUGUESA DA AUSTRÁLIA , O PADRÃO DE WARRNAMBOOL E O FESTIVAL PORTUGUÊS


Um discurso do Dr Carlos Lemos, o grande Cônsul de Portugal em Melbourne, a quem se deve uma iniciativa inédita no mundo das Comunidades Portuguesas. Em poucas palavras, descrição do percurso com que se fez muita História

Talk at the Portuguese Festival
Warrnambool, 23February 2020

We celebrate today 30 years of the Portuguese Festival and it gives me great pleasure to stand again on this spot after so many years.

I think that it is time to recall the reason why Warrnambool means so much to the Portuguese living in Australia and Portugal.

It all goes back to the shipwreck sighted on the coastal sand dunes somewhere between here in Warrnambool and Port Fairy in the 19th Century.  Many believe that this shipwreck was the wreck of a Portuguese caravel.

But the person who gave most credibility to this legend was Kenneth McIntryre, in his book The secret discovery of Australia: Portuguese ventures 250 years before Captain Cook, published in1977.

I first came to Warrnambool in 1978, with Kenneth McIntyre, when he showed me the area where the wreck of the ship was found.  And it was at that time that the idea of building a monument to celebrate this discovery came to my mind.

The book published by McIntyre generated a great deal of interest.  The book was prescribed reading in some schools and the possibility of Portugal having discovered Australia gained some momentum.

The big issue then was to find the remnants of the wreck to prove the theory.

The first major attempt to find proof of the wreck took place in 1981 and was led by Dick Smith, who sponsored the search, with the assistance of Ian McKiggan and Army technicians.  Coinciding with the search I organised an excursion to Warrnambool, with more than 300 people from Melbourne and Geelong participating.

We were received by the Mayor John Lindsay and members of the Warrnambool City Council.  McIntyre made a speech from a boat anchored at the Flagstaff museum, to the large audience on the quay, which I translated as he spoke.  Dick Smith also arrived in his helicopter and filmed the scene with the large gathering on the quay listening to McIntyre speaking, which he added to the documentary he produced, shown later on national TV.  But no trace of the missing shipwreck was found.

But the issue was not forgotten.  John Lindsay and the Mahogony Ship Committee led by the Chairman Pat Connelly organised various seminars and the discussions carried on.

On our side, my idea of a monument gained momentum and I convinced the Portuguese Government to send a replica of the Padrão, which was erected and inaugurated here in Warrnambool in 1990.  Those who are present today will remember that the 25 of February 1990 was perhaps the most significant day marking the presence of the Portuguese in Australia, and particularly in Victoria.

The Padrão was inaugurated by the Governor of Victoria, Davis McCaughey with the Ambassador of Portugal, José Luis Gomes, attending the event, and it was estimated that more than 500 Portuguese came to Warrnambool for the occasion.  The event had great media coverage and I was interviewed by radio and television. The local newspaper, the Standard, also gave good coverage of the event.

Another boost to the possibility of finding the wreck of the caravel came about in 1992 when the State government of Victoria offered a reward of 250,000 dollars for the discovery of the wreck.  It was Steve Crabb, then Minister for Tourism, who announced the reward, and this gesture gave Warrnambool and Portugal extensive exposure in the media, not only in Australia but also overseas, including the New York Times who reported the event.  The reward attracted many search teams, using modern technology, but, sadly, the elusive caravel was not found.

McIntyre’s theory, however, the most plausible of all others, was and is in the minds of many, and in 1997, two years before Macau was incorporated into China,  the Governor of Macau, General Rocha Viera, visited Melbourne and I had the opportunity to brief him about the legend of the Mahogany Ship, the Padrão and the Portuguese presence in Warrnambool.  I suggested to him that it would be a great contribution if Macau, under his leadership, could provide the busts of Vasco da Gama and Prince Henry the Navigator to erect next to the Padrão. He accepted the request and commissioned a well-know sculptor in Portugal to execute the request.  The busts arrived, the Warrnambool City Council agreed to erect them, and here they are today, to enhance this little Portuguese enclave in Warrnambool.

Although the search for the Mahogany Ship has slowed down, the link between Warrnambool and Portugal endures.  In 2011 I negotiated an Accord of Cooperation between the cities of Warrnambool and Lagos in Algarve. The reason is that the cities have a lot in common in terms of location, population and history.  Many caravels departed from the port of Lagos in the 15th and 16th centuries and it would be likely that the caravel found in Warrnambool would have left Portugal originally from Lagos.  The former CEO of the City of Warrnambool visited Lagos and was received by the Mayor and is familiar with the city. One thing that was suggested was an exchange of students, with students from Lagos travelling to Australia to attend schools in Warrnambool, and students from Warrnambool travelling to Portugal to attend schools in Lagos.  This is an idea that could still be pursued.

In conclusion I must say that nothing could have been achieved without the support of the city and its personalities, and particularly Comendador John Lindsay and Comendador Vern Robson, who were the Mayor and the Chief Executive Officer of Warrnambool at the time.  They were instrumental in getting the support of Council for the establishment of the Padrão and the idea of the annual Portuguese festival in Warrnambool, and were also supportive of McIntyre’s theory that the Mahogany ship was of Portuguese origin and marked the early discovery of Australia by the Portuguese.  We also had the support of succeeding Mayors and the recently retired Chief Executive Officer Bruce Anson. To those mentioned and many others I am grateful for their support. We also appreciate the continuing coverage by the Warrnambool Standard newspaper of the Portuguese connection and the Portuguese Festival in Warrnambool.  

This is, most likely, my last presence in Warrnambool.  But I hope that the Council will keep supporting the Portuguese connection, and I also hope that one day evidence of the wrecked caravel will be found, and that the new generation of Portuguese in Victoria will continue the connection with Warrnambool and the historical link between Warrnambool and Portugal.

My thanks to all of you.

Carlos de Lemos OAM.
Comendador 


Note: I would like to let you know that my memoir, published in Portugal in 2016, is now being translated into English, and I hope that it will be published in Australia soon.  In my book I wrote extensively about the Portuguese connection with Warrnamboo

domingo, 29 de março de 2020

O GOVERNO COSTA DO 8 AO 80

O GOVERNO COSTA DO 8 AO 80

Nas últimas 24 horas, da atuação do Governo/Administração Pública houve uma das melhores decisões e uma das piores declarações jamais  proferidas em democracia.
A boa decisão é a de legalizar, em massa, os candidatos a imigrantes com processos em curso, com todos os direitos e deveres da residência legal e da cidadania. Muito bem! 
A insensata declaração saiu da boca de um dirigente do sistema penitenciário ( não sei se o título exato é Diretor dos Serviços Prisionais).
Depois de surgirem os primeiros infetados dentro das cadeias (não antes, note-se, como se exigiria num contexto tão previsível, e olhando exemplos de países europeus como a Itália ou Irlanda, e outros mais improváveis como o Irão)), esse responsável veio anunciar, que admitia a hipótese de deixar sair para suas casas os detidos "mais vulneráveis".  E, para justificar a medida, sentiu-se na necessidade de acrescentar que a solução se destinará a proteger os guardas prisionais, e, mais latamente, a "comunidade", e não os detidos!
Os presos à sua guarda são, por este alto responsável/irresponsável, como se tem de deduzir dessa explicação, considerados enquanto focos de contágio,e não enquanto pessoas....
Perante o silêncio da atual Ministra, veio, de seguida, falar um antigo e prestigiado Ministro da Justiça, Vera Jardim, afirmando, com clareza e  coragem, que esse plano já devia ter sido planeado e  executado, e abranger os que estão próximos do fim da cumprimento de pena, ou em condições de beneficiar de liberdade condicional (e outros critérios igualmente  sensatos...).  
Na verdade, é pouco falar de vulnerabilidade a um virus com que qualquer um pode ser tão facilmente contagiado. Tem de relevar, sim, o grau perigosidade, que, levará a excluir, sobretudo, os autores de crimes de violência física. Uma vez assim reduzida a população prisional, mais praticável será prevenir o contágio dos restantes. 
O Estado não tem, de outro modo, capacidade mínima para fazer respeitar, nas prisões que gere, as regras de segurança, de distanciamento físico, de isolamento, que impõe à população em liberdade. Não tem, reconhecidamente,  capacidade mínima para garantir a vida de quem está condenado, mas não condenado à morte, num país que foi o primeiro país a abolir essa pena! Por isso, os prisioneiros das suas cadeias estatais devem os primeiros, não os últimos, cuja saúde o governo tem de cuidar.
Todos foram sentenciados à privação de liberdade, em penitenciárias de uma democracia, que sabe não ter condições, em tempos de pandemia,  de lhes garantir a sobrevivência, a VIDA, e eles não foram condenado à morte, no país que foi o primeiro  a abolir a pena de morte.
Fico tentada a aplicar ao discurso daquele Senhor Diretor o adjetivo tão adequadamente usado pelo nosso Primeiro Ministro, para criticar a posição assumida na última semana pelo Senhor Ministro das Finanças da Holanda: REPUGNANTE.
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sexta-feira, 20 de março de 2020

COMO SE VIVE UMA DISTOPIA




COMO SE VIVE UMA  DISTOPIA

1 - Vivemos hoje em clima de guerra, a "grande guerra 2020", com uma única certeza: a de que a mais macabra das distopias se concretizou, e veio para ficar, por prazo indeterminado, na realidade de um quotidiano subitamente desestruturado. Guerra em que o exército somos todos nós, e em que, por muito disciplinados que nos mostremos, dirigir as operações no teatro bélico, contra um inimigo omnipresente e invisível, não é para qualquer um. É para políticos de grande visão e  envergadura.. Esta é a hora de revelação dos verdadeiros estadistas - previsivelmente muito poucos!
O gradualismo na tomada de medidas limitativas essenciais, que vem imperando na Europa, tem de ser olhado, creio, como sintoma de improviso e impreparação.
 Num quadro em que o aumento exponencial de contágios é um dado seguro, mal se compreende o anúncio de mais e mais restrições avulsas, em cada novo dia ou em cada conferência de imprensa. Essas medidas deviam ter sido bem pensadas e codificadas, integradas numa estratégia coerente e gizada para constituir resposta o mais lata possível a riscos e a danos.
Em Portugal, um dos últimos países europeus a ser atingido, e, por isso, beneficiário da lição de erros alheios, mal se compreende a não reposição rápida do controlo das fronteiras terrestres ou a opção pela absoluta falta de rastreio sanitário nos aeroportos, ao contrário do que aconteceu em vários outros Estados da UE.  Não procede o argumento de que aquele tipo de vigilância não é 100% eficaz, porque, mesmo que leve à deteção de pequena percentagem de portadores do virus, vale bem o esforço, pois com cada um dos portadores logo isolados se evita um foco de infeção comunitária. Só agora, já o mês de março vai a meio, nos convertemos a esta tese...
Mal se compreende, pelas mesmas razões, a incúria em garantir o acesso generalizado a máscaras de proteção, que nem nos hospitais foi adequadamente cuidado Vimos e ouvimos, vezes sem conta, a Diretora-Geral da Saúde, negar as vantagens do seu uso individual, a pretexto de que não protegiam de contágio os utilizadores. Evitavam, sim, segundo ela, que os infetados contagiassem os outros. Ótimo!  Enquanto potenciais portadores assintomáticos do "COVID 19" não queremos contagiar ninguém. Haverá melhor meio de entreajuda?
Outro estranho procedimento foi o de não realizarem testes, nas urgências e enfermarias hospitalares, a doentes com dificuldades respiratórias, ou pneumonias, a menos que tivessem permanecido em países "de risco" ou convivido diretamente com quem de lá chegara. Assim mandavam as regras sancionadas superiormente, o "protocolo" aplicável, cujo conteúdo, entretanto, já mudou, para abranger qualquer paciente em tal situação.
Por outro lado, tem havido inércia e laxismo face à especulação e ao açambarcamento de bens! Em Espinho, como por todo o lado, desapareceram, há semanas, de farmácias, lojas e supermercados, o álcool e o gel desinfetante. E, igualmente, as máscaras de proteção, mesmo depois dos preços terem disparado  - de cinco a seis euros, (por pacote de uma centena), para mais de cem euros! Foi ou vai ser, agora, finalmente, feita uma encomenda de mais de um milhão de máscaras  para os hospitais públicos - sinal de que estavam em falta... 
Um outro negócio rentável, e, provavelmente, também especulativo, é o dos testes de deteção do virus em laboratórios privados, cujo custo, para quem os possa e queira pagar, varia entre os 100  os 200 euros. - salvo na cidade do Porto, como referiremos. 
2 -  Estamos a falar de ações e omissões, não de negacionistas patéticos, como Trump e Bolsonaro, mas de políticos respeitáveis, mulheres e homens de bem, que estão a dar o seu melhor, só sendo de pôr em dúvida se o seu melhor é suficiente. Veja-se o inacreditável ziguezaguear do Presidente Macron, que, num domingo, convocou os franceses a deixarem as suas casas para para votarem num ato eleitoral desnecessário, por ser de fácil adiamento, e, no dia seguinte, decretou quarentena obrigatória, com milhares de polícias a patrulhar as ruas desertas, no país inteiro...  
Na Europa, possivelmente vai sobressair, como é costume, Angela Merkl, mulher de armas para grandes combates. Não é do meu quadrante ideológico, mas o que importa isso? A questão não é ideológica, estamos unidos contra o mesmo inimigo.
Entre nós, inesperadamente, são autoridades regionais, as que mais se salientam pela inteligência estratégica e pela coragem. de atuar prontamente. Rui Moreira, o autarca do Porto, e os líderes dos Governos das Regiões Autónomas. Rui Moreira foi o primeiro a tomar consciência da crucial importância quer do encerramento de serviços não essenciais e do convite ao resguardo de contactos no espaço público, quer do rastreio massivo, contratando com uma empresa privada, na falta de iniciativa e oferta pública, a efetivação de testes para deteção do virus, que poderão atingir os 400, diariamente. Acabo de ouvir o responsável pela OMS recomendar precisamente isso: "testing, testing, testing". Na mesma linha está Andrew Cuomo, o Governador de Nova York, cuja proposta é: "massive testing, massive quarentine". Por cá, Rui Moreira está sozinho, em boa companhia internacional.
Os executivos da Madeira e o dos Açores antes mesmo de terem deparado com o primeiro teste positivo, e apesar da evidente relutância do poder central, decretaram, e puseram em pratica, a quarentena de 14 dias para quem quer que chegue, de fora, aos seus aeroportos. E  mais longe teriam ido, encerrando, logo, o espaço aéreo regional ao tráfego regular de passageiros, se isso fosse da sua competência.
No continente, destaquemos, nesta histórica quinzena de março, sobretudo, a sociedade civil, que soube impor-se, nos mais diversos domínios. Pensemos, por exemplo, nos pais dos alunos a lutarem pelo encerramento das escolas, nos jogadores de futebol profissional a exigirem a suspensão dos campeonatos, na opinião pública a forçar a vigilância da fronteira terrestre com a Espanha. E, aqui, em Espinho, no voluntário encerramento de um grande número de restaurantes, cafés e lojas, no generalizado respeito pelo distanciamento aconselhável dos clientes do pequeno comércio alimentar, na quase desertificação espontânea das ruas da cidade, e nos gestos de solidariedade, como os da Paróquia, que já tem disponível um grupo de voluntários para ajudar os que estão retidos em casa, pela idade ou por pertencerem a um grupo de risco. 
Em suma, e lembrando, igualmente, os profissionais de saúde e todos os que permanecem nos seus postos, servindo o público, poderemos, dizer que, no nosso País, a nota máxima vai para estas múltiplas expressões de espírito cívico, de cidadania!.
Espinho, 16 de março de 2020

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A CONSULESA ANGELINA SOUSA MENDES

LEMBRAR ANGELINA SOUSA MENDES
A CONSULESA DE BORDÉUS

 1 - Aristides Sousa Mendes, Cônsul em Bordéus durante o início da ocupação nazi, o homem que sacrificou a carreira e a família para salvar a vida de milhares de judeus, em fuga para a última fronteira, (a nossa), converteu-se num grande (para muitos, no maior) herói português do século XX. É conhecido e reconhecido como um exemplo de humanismo, nacional e internacionalmente - pelo Congresso dos EUA, por Israel e muito outros países. A História vai, justamente, guardar o seu nome para sempre. E vai, injustamente, esquecer o de sua mulher, Angelina. 
Angelina estava lá, a seu lado, em Bordéus, no dia 16 de junho de 1940, quando tomou a decisão refletida, abnegada e conjunta, de sacrificar o seu futuro para assegurar o dos refugiados, que lhe pediam um visto de passagem para a liberdade.
 Este "esquecimento" não é coisa surpreendente na crónica oficial de todos os povos, em todos os tempos. As mulheres que agiram em momentos cruciais, com igual capacidade de decisão e de sacrifício, igual força de ânimo, viram o seu papel ser, deliberada e sistematicamente, apagado ou desvalorizado. São, quando muito, como Angelina, remetidas para uma nota de rodapé nas biografias dos companheiros de combate.
Será o século XXI o da emergência das Mulheres na economia, na ciência, na política, em suma, na "res publica" e, consequentemente, na História?
Nem isso poderemos dar por seguro. Assistimos, hoje, ao ressurgimento de movimentos fundamentalistas religiosos, ("vide" o discurso das seitas apoiantes de Trump e Bolsonaro...) ou laicos neofascistas e obscurantistas, que  erguem, como bandeiras, a misoginia e a xenofobia (o "Vox" na Espanha, aqui ao lado, e, por cá, o "Chega!", se não também o atual CDS, (cuja direcção, monoliticamente masculina, está mais próxima do paradigma talibã ou saudita do que do PPE de Ursula von der Leyen)).
E mesmo que estes extremismos sejam vencidos, deixando caminho aberto a sociedades pluralistas e paritárias, onde as mulheres farão, em parceria com os homens, a história do futuro, o progresso vindouro não corrige, nem compensa, os erros e malefícios do longo passado que baniu da memória coletiva a voz e os feitos do sexo feminino.
Por isso, não obstante admitirmos que a maioria desse acervo se encontra perdido, em definitivo, é dever da nossa e de futuras gerações procurar fazer justiça a todas as mulheres, cujo ação e merecimento seja ainda possível "desocultar" e enaltecer
A esse trabalho se entregou, no que respeita à Consulesa de Bordéus, uma ilustre investigadora da Universidade Católica, a Prof.ª Ana Costa Lopes. Partiu para o interior das Beiras, para Beijós e Cabanas de Viriato, entrevistou familiares e vizinhos, que conviveram com Angelina, consultou correspondência e documentação sobre ela - que infelizmente não abunda - e, a partir dessa incursão na penumbra do seu percurso, conseguiu traçar um perfil que nos surpreende e encanta.

2 - Quem era a Consulesa de Bordéus?
Angelina era prima direita de Aristides, pelos lados materno e paterno. Partilham os apelidos ("Sousa Mendes" e "Amaral Abranches").  Namoraram desde a adolescência e casaram jovens. Com apenas 22 anos, já ele chefiava a missão consular na Guiana Britânica e ela acompanhava-o. Acompanhá-lo-ia sempre, em três continentes, com os filhos, catorze, que foram nascendo nos diversos países. Depois da Guiana inglesa, seguiram-se Zanzibar, São Francisco, Boston, Porto Alegre e Curitiba, Luxemburgo, Bruxelas, e, por fim, Bordéus...
Em Bordéus se encontrava, em meados de junho de 1940, quando a ocupação nazi da Europa central lançou numa corrida para sul milhões de refugiados. A cidade tornou-se, de repente, num desordenado e tenebroso "campo de refugiados". A Espanha franquista recusava-lhes a entrada, só Portugal lhes havia servido de ponte, rumo à América. Todavia, nessa hora funesta, os diplomatas portugueses receberam novas instruções, proibindo a concessão de vistos a judeus e outros cidadãos perseguidos pelos países de origem ou apátridas (Circular 14). A 16 de junho, Aristides solicitou ao Ministério uma derrogação da Circular, que, logo no dia 17, lhe foi recusada. O Cônsul, atormentado, em estado febril, aconselhou-se com Angelina. Há muito, ela se dera conta dos riscos da situação. Mais pessimista do que o marido na análise da evolução da guerra, mandara para Cabanas os dez filhos mais novos e as empregadas. Naquela pungente noite de reflexão, ambos se nortearam, como católicos muito devotos que eram, acima de tudo, por imperativos morais e religiosos. Como ele diria depois, expressando publicamente o sentir comum, teve de desobedecer à "lei dos homens” para obedecer à “lei de Deus”. Nos dias seguintes, cumpriu escrupulosamente a missão humanitária de que se via incumbido, dando vistos a todos, indiscriminadamente, qualquer que fosse a nacionalidade, a raça ou a religião. Ajudado pela mulher e por dois dos seus filhos, não parou de trabalhar, dia e noite, sem pausas para descanso ou para refeições. Angelina abriu as portas da residência, que ficava próxima do consulado, e acolheu os mais fracos e desprotegidos, em todos os compartimentos da casa, nas camas dos filhos ausentes, nos sofás, no chão, nas escadas. Todos os que coubessem...
No relato de Sebastião Sousa Mendes: "A Srª Sousa Mendes, que agora não tinha apoio doméstico, decidiu que cozinhava e alimentava tantos refugiados quanto necessário. E assistiu aos mais necessitados, aos idosos, aos doentes na sua casa. Cozia as suas roupas, sempre que necessário, até fazia as camas, lavava a roupa deles, num verdadeiro ato de abnegação." . 
Aos que ficavam na rua, levava comida, cobertores, agasalhos. Incansável!
Ana Costa Lopes faz, aliás, notar que a intensa e eficiente intervenção solidária da Consulesa, durante aqueles memoráveis dias de junho de 1940, no meio do caos dantesco das ruas de Bordéus, não foi para ela uma espécie de "estrada de Damasco". Os depoimentos recolhidos mostram o contrário. Já antes Angelina fora e seria, depois, sempre assim, de uma generosidade sem limites. Na voz do povo da sua terra, "uma santa".
Inédito, naquele particular momento concreto, foi o facto de as circunstâncias a terem levado a transpor os gestos de solidariedade do espaço privado da casa para o público, e o de, através deles, ter contribuído para a salvação de tantos seres humanos em risco de acabarem em campos de extermínio.
A pressa tinha razão de ser… A 24 de junho, o Cônsul de Bordéus recebeu ordem para se apresentar em Lisboa, e o Consulado foi encerrado, de imediato.
Aristides, sujeito a processo disciplinar por desobediência, veio a ser severamente punido: A sua carreira terminara. Muitos dos filhos viram-se obrigados a partir para o exílio. Angelina, subsistindo com enormes dificuldades económicas, continuara a acolher na casa da Beira e, a seu pedido, nas de familiares, os refugiados, que lhe pediam auxílio, Morreu a 30 de agosto de 1948, no dia em que fazia 60 anos.
Aristides vai ter, em 2020, a consagração do seu heroísmo em Israel, onde o seu nome será dado a uma  Praça. Angelina, co-autora moral e, até, também, executante de atos de coragem e altruísmo semelhantes, pelos quais pagou o mesmo custo elevado, individual e familiar, permanecerá na obscuridade. Até quando?