quarta-feira, 1 de abril de 2026

ESPINHO 2050

Espinho 2050 As singularidades de Espinho são uma invariável da sua trajetória desde as origens mais remotas. Na verdade, atravessam todos os seus tempos, os de ascensão vertiginosa como estância balnear moderna e cosmopolita e os de declínio e de perda de estatuto turístico nacional e internacional para outras geografias. Uma dessas particularidades é, claramente, a coexistência de contrastes, a mescla harmoniosa de comunidades que se reconhecem no todo. E isso vale igualmente para a confraternização dos naturais ou residentes de longa data, com a gente de fora, as vagas de “nómadas” em férias, tão essenciais à sua natureza como as vagas do mar. Em fins do século XX e durante o primeiro quartel deste século ninguém parecia adivinhar a segunda vida de Espinho no palco do mundo num amanhã não muito distante. A esta distância temporal, numa breve análise do fenómeno e das suas causas, eu diria que o movimento começou na aposta em outros destinatários para uma antiga vocação de atrair os de fora: aposta no turismo sénior através de cadeias de residências seniores, com uma forte componente internacional, quer no segmento mais abastado, quer no das classes médias. Investir na solução de um problema maior de sociedades em envelhecimento rápido era estratégia inteligente, mas quem esperava que Espinho se colocasse na vanguarda desse nicho de mercado? A meu ver, tudo começou “a latere”, com a modernização do balneário marinho e da piscina Solário Atlântico. Sobretudo do “Balneário”. A fama dos tratamentos de talassoterapia estendeu-se a nível nacional e rapidamente ultrapassou fronteiras. A qualidade e a beleza arquitetónica e ambiental do complexo balnear tornaram-no em verdadeiro “ex-libris” da cidade, que, assim, retornava a uma tradição de pioneirismo, ao mesmo tempo que alavancava um turismo cosmopolita há décadas perdido (voltaram, em grande número, os espanhóis, e não só...). Um turismo maioritariamente sénior! De facto, os mais idosos preponderavam, tendo descoberto, para além das benesses do tratamento, as facetas de uma cidade que parecia pensada primeiramente para eles, com o seu centro quase plano, o traçado geométrico de ruas, uma infinidade de lojas e “boutiques”, cafés e restaurantes, o casino, os parques e as deslumbrantes vistas de mar das esplanadas e dos passadiços, que puseram no mapa o Rio Largo. Essa foi a fase 1, logo seguida pela fase 2: a crescente fixação desses novos "descobridores" de Espinho. De princípio, por iniciativas individuais e esporádicas, logo enquadradas num plano de apoio municipal à expansão de residências séniores – algumas construções de raiz, outras reconstruções de velhas casas e mansões. Residências que evoluíram para habitats adaptativos, equipados com robôs de assistência social e plataformas de telemedicina baseadas em IA, permitindo um envelhecimento ativo e mais saudável, com espaços de coworking cultural. A "revolução grisalha" foi para a cidade o início de uma segunda vida de enorme prosperidade. “Dinheiro faz dinheiro”, diz a sabedoria popular. A Câmara de Espinho é uma das mais ricas do país e eu considero que vem utilizando os seus consideráveis meios de uma forma hábil, jogando na intergeracionalidade, realizando o sonho antigo de atrair e integrar os jovens, com os seus projetos de habitação acessível e com o acento no desporto, (que nos dá campeões em tantas modalidades e o direito a ser uma das capitais do “surf”), na investigação (o centro de ciências do mar), na crescente atração de “startups”. Cientistas e “nómadas digitais” já fazem parte da comunidade, tal como músicos, artistas, cineastas… Há movimento todo o ano e em todo o espaço do concelho, onde se diversificaram as centralidades e os eventos culturais. Espinho é a terra dos concertos ao ar livre ou nos seus vários auditórios, dos congressos e conferências, dos festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura... O centro histórico ainda mantém a animação das ruas, hoje impecavelmente pavimentadas, mais floridas, mais bonitas. As emblemáticas esplanadas de mar integram redes de sensores IoT que monitorizam a qualidade ambiental e acolhem dispositivos de realidade aumentada, projetando reconstruções holográficas do vaivém da antiga “Avenida”, da arte Xávega, (da pesca que Unamuno eternizou na literatura) e narrativas interativas do Castro de Ovil – um convite a que o visitem “in loco”, no seu fantástico cenário paisagístico. O espaço da antiga linha de comboio, após a sua extensão para além do Rio Largo e do Bairro Piscatório, converteu-se num longo corredor verde com mobilidade autónoma partilhada, ligando o centro histórico ao polo das “startups”, ao laboratório de ciências do mar e ao FACE. As Galerias Amadeo de Souza Cardoso, foram enriquecidas com uma coleção permanente de obras do seu patrono captadas em 3D (uma coleção protocolada com outras instituições). O novo Museu da Memória adota as tecnologias digitais que, através de aplicações cívicas, envolvem os cidadãos em processos colaborativos de planeamento urbano, traduzindo dados abertos em políticas participativas e reforçando a identidade de Espinho como capital de vanguarda no e-Society. A estação de comboio é, agora, considerada uma das mais espetaculares do mundo, convertida em mostra da geografia e da história de Espinho, sobres as paredes do túnel outrora tão sombrio. E o verão ainda é o verão da enchente de visitantes. Os que vêm gozar o mar e os que chegam nas correntes de “turismo cultural”, para o seu banho de imersão na cidade revivalista, na cidade museu, na cidade onde se faz Futuro. Luís Costa 13/06/2025, 15:24 (há 8 dias) para Mario, mim Muito, muito obrigado! Por mim "está fechado", como costuma dizer o Mário Augusto. E bem fechado! O texto é imaginativo e desafiador! Bem-haja, forte abraço e bom fim-de-semana, Espinho 2050 As singularidades de Espinho são uma invariável da sua trajetória desde as origens mais remotas. Na verdade, atravessam todos os seus tempos, os de ascensão vertiginosa como estância balnear moderna e cosmopolita e os de declínio e de perda de estatuto turístico nacional e internacional para outras geografias. Uma dessas particularidades é, claramente, a coexistência de contrastes, a mescla harmoniosa de comunidades que se reconhecem no todo. E isso vale igualmente para a confraternização dos naturais ou residentes de longa data, com a gente de fora, as vagas de “nómadas” em férias, tão essenciais à sua natureza como as vagas do mar. Em fins do século XX e durante o primeiro quartel deste século ninguém parecia adivinhar a segunda vida de Espinho no palco do mundo num amanhã não muito distante. A esta distância temporal, numa breve análise do fenómeno e das suas causas, eu diria que o movimento começou na aposta em outros destinatários para uma antiga vocação de atrair os de fora: aposta no turismo sénior através de cadeias de residências seniores, com uma forte componente internacional, quer no segmento mais abastado, quer no das classes médias. Investir na solução de um problema maior de sociedades em envelhecimento rápido era estratégia inteligente, mas quem esperava que Espinho se colocasse na vanguarda desse nicho de mercado A meu ver, tudo começou “a latere”, com a modernização do balneário marítimo e da piscina Solário Atlântico. Sobretudo do “Balneário”. A fama dos tratamentos de talassoterapia estendeu-se a nível nacional e rapidamente ultrapassou fronteiras. A qualidade e a beleza arquitetónica e ambiental do complexo balnear tornaram-no em verdadeiro “ex-libris” da cidade, que, assim, retornava a uma tradição de pioneirismo, ao mesmo tempo que alavancava um turismo cosmopolita há décadas perdido (voltaram, em grande número, os espanhóis, e não só...). Um turismo maioritariamente sénior! De facto, os mais idosos preponderavam, tendo descoberto, para além das benesses do tratamento, as facetas de uma cidade que parecia pensada primeiramente para eles, com o seu centro quase plano, o traçado geométrico de ruas, uma infinidade de lojas e “boutiques”, cafés e restaurantes, o casino, os parques e as deslumbrantes vistas de mar das esplanadas e dos passadiços, que puseram no mapa o Rio Largo. Essa foi a fase 1, logo seguida pela fase 2: a crescente fixação desses novos "descobridores" de Espinho. De princípio, por iniciativas individuais e esporádicas, logo enquadradas num plano de apoio municipal à expansão de residências séniores – algumas construções de raiz, outras reconstruções de velhas casas e mansões. Essas residências evoluíram para habitats adaptativos, equipados com robôs de assistência social e plataformas de telemedicina baseadas em IA, permitindo um envelhecimento ativo e mais saudável, com espaços de coworking cultural. Essa "revolução grisalha" foi para a cidade o início de uma segunda vida de enorme prosperidade. “Dinheiro faz dinheiro”, diz a sabedoria popular. A Câmara de Espinho é uma das mais ricas do país e eu considero que vem utilizando os seus consideráveis meios de uma forma hábil, jogando na intergeracionalidade, realizando o sonho antigo de atrair e integrar os jovens, com os seus projetos de habitação acessível e o acento no desporto, (que nos dá campeões em tantas modalidades e o direito a ser uma das capitais do “surf”), na investigação (o centro de ciências do mar), na crescente atração de “startups”. Cientistas e “nómadas digitais” já fazem parte da comunidade, tal como músicos, artistas, cineastas Há movimento todo o ano e em todo o espaço do concelho, onde se diversificaram as centralidades e os eventos culturais. Espinho é a terra dos concertos ao ar livre ou nos seus vários auditórios, dos congressos e conferências, dos festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura... O centro histórico ainda mantém a animação das ruas, hoje impecavelmente pavimentadas, mais floridas, mais bonitas. As emblemáticas esplanadas de mar integram redes de sensores IoT que monitorizam a qualidade ambiental e acolhem dispositivos de realidade aumentada, projetando reconstruções holográficas do vaivém da antiga “Avenida”, da arte Xávega, (da pesca que Unamuno eternizou na literatura) e narrativas interativas do Castro de Ovil – um convite a que o visitem “in loco”, no seu fantástico cenário paisagístico. O espaço da antiga linha de comboio, após a sua extensão para além do Rio Largo e do Bairro Piscatório, converteu-se num longo corredor verde com mobilidade autónoma partilhada, ligando o centro histórico ao polo das “startups”, ao laboratório de ciências do mar e ao FACE. As Galerias Amadeo de Souza Cardoso, foram enriquecidas com uma coleção permanente de obras do seu patrono captadas em 3D (uma coleção protocolada com outras instituições). O novo Museu da Memória adota as tecnologias digitais que, através de aplicações cívicas, envolvem os cidadãos em processos colaborativos de planeamento urbano, traduzindo dados abertos em políticas participativas e reforçando a identidade de Espinho como capital de vanguarda no e-Society. A estação de comboio é, agora, considerada uma das mais espetaculares do mundo, convertida em mostra da geografia e da história de Espinho, sobres as paredes do túnel outrora tão sombrio. E o verão ainda é o verão da enchente de visitantes. Os que vêm gozar o mar e os que chegam nas correntes de “turismo cultural”, para o seu banho de imersão na cidade revivalista, na cidade museu, na cidade onde se faz Futuro. Luís Costa
O LEGADO FEMINISTA DE MARIA BARROSO Foi lançado, há dias, um livro sobre "Maria Barroso - Os legados", em que são analisados o seu percurso, o seu pensamento, as suas causas, no ano em que se comemora o seu centenário. A iniciativa partiu de um grupo de cinco mulheres, na sua maioria académicas, e contou com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Universidade Nova. O prefácio é do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e um dos testemunhos do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres. A primeira apresentação, em Lisboa, na Fundação Maria Soares Maria Barroso, foi antecedida por um colóquio sobre a mesma temática, organizado pela Fundação, que teve momentos altos na abertura nas intervenções dos filhos de Maria Barroso, Isabel e João Soares. Um dia memorável de saudade e de reflexão que, na realidade, não terminou ali, pois, ao longo deste ano comemorativo, a publicação vai ser divulgada em diversas regiões e cidades do país, numa multiplicidade de colóquios, o primeiro dos colóquios ocorreu em Loulé, com intervenções da escritora Lídia Jorge e de alguns dos coautores do livro. Espero que Espinho, onde veio tantas vezes, esteja presente nesse roteiro de homenagens. Na referida publicação abordei um dos legados de Maria Barroso, que, a meu ver, não tem sido suficientemente destacado: o seu feminismo. Um feminismo vivido! A vida de Maria Barroso foi uma admirável aventura cívica em que puro idealismo e sensibilidade ao sofrimento e às injustiças moldaram a humanista, e a inteligência, a determinação e o espírito prático fizeram a mulher de ação em variados domínios - a atriz, a pedagoga, a diretora de um grande colégio, a mulher apaixonada e mãe de família, a corajosa oposicionista política, a ativa construtora da nossa democracia, a Deputada, a “primeira dama” da República, a primeira mulher presidente da Cruz Vermelha, a líder de movimentos para o defesa dos Direitos Humanos, da paz e do aprofundamento dos laços no mundo lusófono. E, também, a feminista, que soube continuar, em novos tempos, a antiga tradição de luta pela liberdade e emancipação da mulher, recusando a guerra de sexos e toda e qualquer forma de supremacismo. A ausência de radicalismo constituiu, como é sabido, uma singularidade da primeira vaga do feminismo português, muito influenciada pelo contexto revolucionário em que emergiu, com homens e mulheres (famílias inteiras!) irmanados nos ideais republicanos. Na geração seguinte, Maria Barroso formou-se em meio não muito diverso, conviveu desde a infância com a resistência dos pais à ditadura, numa família solidária e tolerante e começou um imparável percurso cívico e político a lutar por uma nova revolução democrática capaz de erradicar as injustiças e desequilíbrios económicos e sociais, incluindo os de género. Nesse combate, Maria Barroso usou as armas ao seu alcance: as da cultura! Do palco do teatro fez palco de cidadania, pondo o talento e a fama ao serviço dos seus ideais, na forma como representava e como declamava a palavra revolucionária dos poetas… O regime perseguiu-a implacavelmente, cortou cerce a sua fulgurante carreira de atriz no Teatro Nacional, interditou-lhe o exercício da profissão no ensino, vigiou os seus passos, mas nunca calou a sua voz. A jovem Maria de Jesus enfrentou, sem vacilar, os interrogatórios da polícia política, a prisão do marido, como, antes, sofrera a de seu pai. Após a Revolução de 1974 foi uma notável participante na vida cultural e política do país, uma figura pública de referência, que não perderia nunca a sua individualidade, ao lado de Mário Soares. Em Belém, na missão onde mais arriscava a subalternização política, face ao estatuto do marido, o Presidente da República, revelou-se uma mais valia, a perfeita diplomata, um ícone de elegância e distinção. Sobre esse novo recomeço de vida, disse, simplesmente: "Ganhei um novo espaço para me reinventar". E ganhou, sem dúvida, mais mundo, mais experiências, mais contactos de proximidade com tanta gente, dos poderosos, que governam Estados, aos marginalizados, que estão no centro de tantas das suas inúmeras declarações públicas - as crianças, as vítimas de guerras e violência, os timorenses, os refugiados, os imigrantes, as mulheres… Sim, ainda e sempre, as mulheres, porque a igualdade jurídica fora rapidamente consagrada na Constituição e nas leis da República, mas, duas décadas depois da Revolução, as mudanças tardavam na sociedade, na política, no mundo do trabalho. O impasse acordou o feminismo intrínseco de Maria Barroso. Ela própria o revelou numa entrevista, afirmando: "Não sou feminista "à outrance", sou-o apenas por ter consciência das desigualdades que subsistem, na prática, entre homens e mulheres”. Na sua visão das coisas, a igualdade é inerente à condição humana, já que "a humanidade está dividida em duas partes, uma masculina, outra feminina, com dons e virtualidades semelhantes". A “humanidade é uma família” salientava, inspirada, certamente, no paradigma da sua própria família. Porém, a resistência das estruturas (das máquinas partidárias, das corporações económicas…), assim como das mentalidades, à afirmação da “paridade natural”, levou- a denunciar a imperfeição da nossa democracia, por manter, no século XXI, “o modelo masculino do poder” e a reconhecer a importância do sistema de quotas no processo de “empoderamento” das mulheres. Pela palavra e pela ação, empenhou-se, incessantemente, na causa da igualdade de género. É de toda a justiça equiparar o “feminismo natural” de Maria Barroso ao "verdadeiro feminismo" de Ana de Castro Osório, (um “humanismo integral”, que deve ser partilhado por ambos os sexos), ao “feminismo prático” de Carolina Beatriz Ângelo, e ao “feminismo tácito” de Maria Lamas. Foi, por sinal, nos caminhos do feminismo que nos encontramos, há quase meio século, numa sintonia espontânea, apesar de virmos de direções opostas, eu do feminismo “à outrance”, Maria Barroso da constatação de persistentes resistências à intervenção das mulheres na esfera pública, que a levava a um crescente envolvimento. Entre 2005 e 2009, com mais de oitenta anos, aceitou “correr mundo”, presidir a múltiplos “Encontros para a cidadania”, ser o rosto de uma intensa e eficaz campanha de mobilização das mulheres da Diáspora para a intervenção cívica, em que tive o privilégio de a acompanhar. No ano do seu centenário, é assim que prefiro lembrá-la, com uma mensagem humanista, solidária, intemporal, e um incomparável exemplo de vida. Na verdade, nenhuma figura pública do nosso país e do nosso tempo foi tão consensual, tão agregadora e tão amada pelo povo português.

sexta-feira, 13 de março de 2026

30 Mulheres de S Paulo PREFÁCIO

Este livro vem revolucionar a história das mulheres nas comunidades portuguesas, a perceção do seu papel nas instituições que as compõem, e a sua influência no entrelaçamento das culturas dos dois países, que têm sabido unir pelo afeto e aprofundar pela vivência. E com isso, entra, também, na história da emigração no feminino, ainda hoje mal estudada e conhecida. O fenómeno da exclusão da metade feminina da história da Humanidade, escrita pelos homens, tem nesse particular domínio um claro reflexo, mas, na verdade, estende-se aos demais. Recordo, a propósito, uma frase certeira de Maria Barroso: “A nossa História, como a dos outros povos, nunca pôs suficientemente em relevo o papel das mulheres que a ajudaram a tecer". E sem elas, "a história fica pela metade", como afirma a feminista Júlia Navarro. As mulheres tendem a proceder diferentemente, quando tomam a palavra para desocultar experiências, realizações. Contam os factos por inteiro, não deixam ninguém de fora - eles estão lá: os pais, os filhos, os maridos, os parceiros de projetos, de trabalho, de vitórias. Justamente por isso, as deveremos considerar verdadeiras continuadoras de um "feminismo integral", na luta pela democracia e os direitos humanos, sem exclusão do sexo feminino, como queria Ana de Castro Osório - a grande ideóloga do sufragismo, que, após a implantação da República, viveu no Brasil, com o marido (Cônsul em São Paulo), e aí fez, em simultâneo, a apologia da emancipação das imigrantes portuguesas e da sua especial apetência para servirem de ponte na aproximação culturas, no aprofundamento da luso-brasilidade. Duas finalidades, que, no mesmo espírito, um século depois, norteiam esta antologia de significativas e inspiradoras autobiografias. Uma esplêndida aventura literária, inserida num género que desperta crescente interesse, entre nós - o biográfico - talvez por rivalizar com a melhor ficção, na acentuação intimista, através de autênticos "romances da vida real". No campo da emigração portuguesa, em especial a feminina, os registos de um conjunto de depoimentos sobre trajetos e destinos, convertem-se, quase sempre, em mirantes de observação e contemplação de uma infinita diversidade de casos, apontando, contudo, para uma caraterística predominante que as religa: a melhor compreensão da alteridade, a mais fácil vivência da dupla pertença nacional, tão bem evidenciada nesta obra. Obra que, contudo, se singulariza e salienta ao assumir-se como "um ato de empoderamento", ao mostrar quem e como o protagoniza: as extraordinárias pioneiras que, num determinado espaço (a cidade e o Estado de São Paulo) e num certo tempo, (da última grande vaga migratória para o Brasil â atualidade), irromperam no círculo hermeticamente masculino da liderança institucional e desfizeram preconceitos, com tanto de audácia e autoconfiança, como de competência. Ao revelarem-se uma mais-valia, abriram a porta a outras mulheres, e conseguiram impor um "novo normal" de partilha de poder no movimento associativo. Um efeito que, através da publicação, pode ser potenciado, muito para além de uma comunidade concreta e da sua geografia, que, aliás, não é de somenos, em se tratando do vanguardista Estado de São Paulo. A escrita torna-se, "de per si" um instrumento de mobilização, ao pôr em foco o modo e o engenho com que as mulheres aqui retratadas, pela sua própria mão, chegaram onde chegaram. Para bem avaliar o seu mérito individual e coletivo, é preciso olhar retrospetivamente um longo e penoso passado de discriminação no associativismo. É sabido que as mulheres estiveram presentes na criação das coletividades com as quais, lá fora, se recriavam os ambientes e costumes da terra natal - o gosto do convívio à volta da mesa, a música e a dança, as tradições populares, a comemoração dos rituais da saudade e da alegria. Famílias inteiras participaram no desenvolvimento de admiráveis comunidades que se converteram em extensões culturais de uma Nação que transcende o território. Todavia, às mulheres era reservado na "casa comum" o papel que pelos costumes lhes cabia na sua própria casa - uma divisão de trabalho que as reduzia ao anonimato dos bastidores, enquanto os homens se arrogavam o mando, as decisões que moldavam o futuro, a representação externa. Acontecia isso por todo o lado, no universo da nossa emigração mais antiga, (no Brasil, EUA, Argentina), ou recente, (na França, Venezuela, Canadá, sul da África, Oceânia...). É certo que, em países como o Brasil, se adivinhava a existência da mulher atrás do “grande homem", na figura da esposa do presidente - chamada "primeira-dama" - ou nas iniciativas permitidas, "a latere", em dinâmicos Departamentos Femininos. A partir de 1974, a consolidação da Democracia em Portugal, não veio provocar, na Diáspora - pura sociedade civil - um "sobressalto cívico", facilitador do acesso das mulheres ao dirigismo comunitário, nem teve repercussão nas políticas públicas para a igualdade, que ficaram circunscritas no território. Em 1981, no Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), o primeiro fórum de audição democrática dos emigrantes, não havia uma única mulher entre mais de sessenta membros escolhidos por um colégio eleitoral formado por líderes associativos e por jornalistas (situação que se repetiria nos posteriores mandatos). As primeiras duas mulheres que tiveram voz no CCP provinham do pequeno núcleo da comunicação social, não das agremiações das comunidades. A jornalista Alice Ribeiro, fez, de imediato, a diferença, ao propor à Secretaria de Estado da Emigração a convocatória de um " Encontro mundial de mulheres no associativismo e no jornalismo" - Encontro prontamente organizado, em junho de 1985, com o alto patrocínio da UNESCO Por sinal, constituiu uma iniciativa precursora a nível europeu e mundial - Improvável originalidade de um país, que, com esse passo, parecia querer redimir-se de quinhentos anos de políticas de emigração reconhecidamente misóginas. As congressistas não desperdiçaram a ocasião, não se limitaram a falar estritamente de si, de questões especificamente suas, escolheram analisar as grandes linhas da evolução das comunidades, frisando a marca cultural que elas lhe imprimiram e traçar as estratégias para o futuro. Desmentiram a ideia feita de que, na nova sociedade, se sentiam duplamente discriminadas, como mulheres e como estrangeiras. Pelo contrário, para a maioria o projeto migratório fora uma via de libertação, porque se integraram tão bem ou melhor do que os homens, ganharam independência económica, estatuto profissional e centralidade num modelo de família mais igualitário. Paradoxalmente, onde se viam confinadas a um papel secundário era nas organizações das comunidades portuguesas, como mandavam usos antigos, velhos preconceitos. Daí que, em pleno século XXI, as políticas públicas de emigração, para igualdade de sexos, tenham abordado prioritariamente o magno problema da sub- representação feminina no mundo associativo, tanto "Encontros para a cidadania", impulsionados por António Braga (2005-2009), como, com nova ênfase e dimensão, nos Congressos Mundiais de Mulheres da Diáspora convocados por José Cesário (2011-2015). Os Governos cumpriam, deste modo, o dever constitucional de promover a igualdade, visando grandes e difíceis transformações sociais, porventura morosas. A resposta, porém, só poderia ser dada pelas pessoas, por dentro das comunidades, que gozam da inteira liberdade de serem sociedade civil, " a Nação sem Estado". E eis que, apenas uma década volvida, Carina Teixeira Rodrigues, a idealizadora deste esplêndido projeto editorial, vem dar a mais inequívoca resposta, dizendo simplesmente: "falar de associativismo é inevitavelmente falar de empoderamento feminino" É assim, agora, em São Paulo! Num amanhã não muito distante, será assim em toda a Diáspora. Talvez, aqui e ali, até já seja, sem uma visibilidade comparável à que nos é oferecida nesta compilação de capítulos da crónica de um novo estado de coisas. ... As minhas últimas palavras são para as coautoras, cujas narrações, numa linguagem direta, encantatória pela genuinidade, desvendam trajetórias e destinos extraordinários, nos seus momentos mais significativos, dos mais jubilosos aos mais trágicos - amores, romances, sucessos, rupturas, doenças, perdas, superação... e, em fundo, a invariável capacidade feminina de viver muitas vidas numa só, num vaivém entre mundos paralelos, conciliando responsabilidades familiares, profissionais, exercício da cidadania, e serviço de causas, pessoas, instituições. Ao contextualizarem a linha de rumo, com enfoque na transição do espaço privado ao público, no meio cultural luso-brasileiro, enriquecem o livro, assim aberto a várias leituras, a feminista, a sociológica, a política, a etnológica... Rememoram a saga de pais e avós, homens que vieram de uma infinidade de pequenas aldeias, sozinhos e, depois, chamaram a família para junto de si. Reescrevem a história do associativismo, e, em particular do folclore, expoente da paixão pela "traditio", que é a alma da Diáspora. Retratam a sociedade paulista, os ramos de negócio em que muitos emigrantes prosperavam, e onde algumas mulheres venceram tabus e singraram como iguais. Destacam a sua valorização pelo estudo, pelo empreendimento, pelo prestígio profissional granjeado, e, por fim, também, pela ascensão ao dirigismo associativo, que, em tantos casos, se iniciou com o envolvimento nos grupos folclóricos. A dança é, por natureza, o mais paritária e o mais lúdico dos rituais da cultura popular. Da dança com o seu par, algumas ousam vencer tabus, ao tocarem concertina, ao comandarem a tocata, ao serem ensaiadoras e diretoras dos Ranchos. Consigo levaram filhos, como os pais as haviam levado em meninas. Algumas famílias já vão na quarta geração de folcloristas. A fundação ou direção do rancho foi para muitas das coautoras o teste que as qualificou para a diretoria das associações. Todas estão, justamente, no primeiro plano de uma grande comunidade . Na data em que comemoramos o cinquentenário da Constituição da República Portuguesa, os seus valores humanistas, a proclamação jurídica da igualdade dos sexos, as trinta mulheres de São Paulo mostram como se faz a passagem da utopia de 1976 à realidade de 2026.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dialogar é preciso

Dialogar é preciso Fui sempre uma praticante de diálogo, tanto em debates académicos e tertúlias de café à portuguesa, como no espaço público, no Governo, na Assembleia, no Conselho das Comunidades Portuguesas e em organizações internacionais. Sou social-democrata "à sueca", desde os tempos de estudante e uma admiradora incondicional de Sá Carneiro, a partir dos inícios de 70, quando ele, na "Ala Liberal" da AN, reivindicava a liberdade de expressão e de reunião e a libertação de presos políticos, a democracia plena. E dava entrevistas a declarar--se, precisamente, "social democrata à sueca". Nunca mudei de quadrante. É um facto. Parece ser comum, e, porventura, positivo, evoluir mais para a direita ou para a esquerda , com o passar dos anos. Eu, ("hélas"), fiquei no mesmo lugar ideológico, desde os 16 ou 17 anos, apesar de todas as voltas que dei ao mundo - ao mundo geográfico. Vivi esperançosamente o período da revolução e da construção da democracia, votando PPD/PSD, por causa de Sà Carneiro e dos meus amigos de Coimbra (Morta Pinto, Barbosa de Melo, Figueiredo Dias, Pereira Coelho...), sem, contudo, me filiar no partido, Na Faculdade de Direito, fui assistente de Mota Pinto e, em 1978/79 Secretária de Estado do Trabalho no seu Governo . Um Executivo de independentes., como é sabido Conheci o Dr. Sà Carneiro somente em janeiro de 1980, no dia em que me convidou para ser Secretária de Estado da Emigração. Por essa altura, tomei, livremente, a decisão de me filiar no PSD. E, assim, por acaso, me tornei a primeira mulher do partido a exercer um posto governativo. Fui militante durante 45 anos, apesar de o partido se ter deslocado, pouco a pouco,, para o centro-direita, e, mais recentemente, a meu ver, para a direita sem barreiras à extrema-direita e mimetizando o seu discurso anti-imigração. Na realidade, o PSD, (como os outros partidos) tinha alas e eu mantive-me na minha, cada vez mais minoritária. Há muitos anos, já Nascimento Rodrigues, menos otimista do que eu, me dizia: "Pertencemos a uma ala do partido que já não existe." De qualquer modo, acredito, sobretudo, nas pessoas, na diferença que fazem à frente das instituições. Trabalhei igualmente bem com Mota Pinto, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, Mário Soares (com outros, nos mesmos cargos não direi o mesmo). No partido, fiz parte dos chamados "críticos", que preferiam Cavaco e Silva a Balsemão, estive, depois, com líderes de perfil tão diferente como Fernando Nogueira e Durão Barroso. Do ponto de vista do diálogo nas afinidades e nas diferenças, a relação mais interessante foi com este último. Concordamos sempre, até em discordar - na regionalização, no regime de quotas para a igualdade, que eu defendia, na guerra do Iraque, contra a qual me insurgi publicamente, etc etc. Nunca esquecerei que, graças a ele, consegui realizar o mais desafiante projeto da minha vida parlamentar, a consagração na Constituição da igualdade de direitos entre Portugueses e Brasileiros, em 2001, assim como desempenhar o mais grato de todos os lugares políticos em que me fui vendo: a presidência da Delegação Portuguesa à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, organização onde muito gostei de representar o país, durante 14 anos. Na veste de cidadã estive, também, disponível para me envolver na ação concreta, em prol de valores partilhados com democratas de diversos partidos - por exemplo, com socialistas como António Costa, nas persistentes diligências para a legalização de imigrantes, na década de noventa, com António Braga (2005.2009) e José Luís Carneiro (2005-2019), meus sucessores na pasta das Comunidades Portuguesas, em campanhas pela igualdade entre mulheres e homens na Diáspora, e com o meu então correligionário José Cesário, que, no mesmo cargo, levou as políticas públicas para a igualdade ao seu expoente máximo ( 2011- 2015). No mesmo espírito, aceitei, no final do ano passado, o convite para participar no Conselho Estratégico do PS. No mesmo espírito, espero poder colaborar sempre, com excelentes companheiros da infindável luta pelos direitos de cidadania dos expatriados ,como José Luís Carneiro e José Cesário, que considero verdadeiros amigos Hoje, como há 45 anos, tenho como prioridade dar voz e fazer justiça aos mais marginalizados e para isso todos os fóruns são bons. Assim me parece o Conselho Estratégico do PS, felizmente aberto a independentes.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CAMPANHA ELEITORAL SUBMERSA E ABSTENÇÃO CONTIDA 1 –O ato cívico da votação foi um momento de bonança entre tempestades. Os ventos ciclónicos que arrasaram Leiria e grande parte da região centro, submergiram a campanha eleitoral na última semana, secundarizando a presença e o discurso dos dois candidatos, remetidos a uma relativa invisibilidade. Não obstante isso, revelaram, tanto ou mais do que em normalidade de circunstância, as suas diferenças de qualidade humana e política. Um criando ruído e falsas "perceções", no circo mediático em que medrou e existe. O outro, agindo já como o excelente presidente que, certamente, vai ser, ouvindo e apoiando as vítimas no mundo real em que sobrevivem, e lembrando-as nas primeiras palavras do sereno discurso de vitória. Nunca, em meio século de democracia, a escolha entre dois contendores foi tão fácil, entre democracia e humanismo e o seu contrário. Estranhamente, os líderes da AD não tomaram posição, invocando a sua equidistância entre uma soi-disant “direita” e o “socialismo”. Que absurdo! Há muitas esquerdas e muitas direitas. As direitas e as esquerdas democráticas têm afinidades de valores que as agregam, naturalmente, contra os extremismos, porque, como diz o ditado popular, “os extremos tocam-se”. Felizmente, os mais proeminentes rostos do PSD e do CDS, de Cavaco Silva, a Leonor Beleza e Marques Mendes, de Paulo Portas a Lobo Xavier, vieram dar o seu apoio inequívoco ao representante da civilidade e da decência contra o profeta do ódio e da cizânia. E o Povo mostrou que estava com eles e deu a António José Seguro a maior vitória eleitoral de sempre, em números absolutos. Para mim, na noite eleitoral, umas das maiores alegrias foi constatar que, em termos percentuais, no concelho de Espinho, Seguro teve uma votação superior à das três grandes cidades, onde ultrapassou os 70& - Coimbra, Lisboa e Porto. Do mesmo modo, destacarei o “voto Seguro” das mulheres portuguesas, que excedeu, largamente, o do outro sexo. Um sinal dos tempos - em começos do século XX, eram vistas como forças reacionárias, inimigas da democracia. o que foi, como é sabido, o principal argumento para a República lhes negar, até ao fim, os seus direitos politicos. 2 - A declaração do "estado de calamidade", em parte do território, foi pretexto para o demagogo da direita iliberal e desordeira. reclamar o adiamento das eleições. Pouco lhe importava a lei que não permitisse um adiamento global (cumprir a lei é só para ciganos, não é para Ventura). Antecipando a derrota anunciada em todas as sondagens, lançou mão da clássica receita trumpista de desmobilizar e descredibilizar a eleição que estava perdida, agitando o fantasma de uma enorme abstenção. Pouca sorte a dele! O povo derrotou-o duas vezes - primeiro pela participação em massa nas urnas de voto, depois, nos números e percentagens da estrondosa vitória do adversário. Tal como durante a epidemia de covid, os portugueses cumpriram, de forma exemplar, o seu dever cívico. E, na realidade, quer em 2021, quer em 2026, a abstenção, em território nacional, foi muito inferior à que os números finais indicam. Estes números são empolados pela colossal abstenção dos círculos de emigração, abstenção essa que é intrínseca ao modo de votação (presencial) dos emigrantes. Os emigrantes votaram, pela primeira vez, presencialmente, nos consulados, em 2001 (reeleição de Jorge Sampaio), mas constituíam um universo limitado, e, por isso, provocavam na taxa de abstenção aumento pouco significativo. Quando a lei consagrou o recenseamento automático de todos os portugueses com cartão de cidadão, os votantes nos dois círculos de Emigração (Europa e Fora da Europa), passou (se bem me lembro) de cerca de 250.000 para mais de um milhão e, atualmente, para 1 777 019. Contudo, a lei dá aos emigrantes com uma mão, o que lhes tira com a outra, ao não facilitar a multiplicação das mesas de voto, obrigando a maioria a deslocações de muitas dezenas, centenas ou milhares de quilómetros. Neste processo eleitoral, a abstenção, na 1ª volta, foi de cerca de 96%, na segunda, desceu ligeiramente, para um pouco mais de 95% (em números exatos: 85 854 votantes, 1,692 164 abstencionistas - na sua maioria, forçados pela distância entre a residência e o local de voto. Se, dentro do território nacional, obrigassem os portugueses do país inteiro a ir, por exemplo, votar a Lisboa, as taxas de abstenção também subiriam em flecha… A votação postal, que é permitida nas eleições legislativas, facilita, obviamente, a participação (nas últimas legislativas votaram cerca de 350 000 expatriados) mas, como é evidente, só o voto eletrónico, idealmente combinado com o postal e o presencial, poderá colocar os emigrantes em condições de igualdade com os residentes no território. Enquanto se mantiver este estado de coisas, melhor será informar corretamente o país sobre a participação eleitoral dentro e fora do território nacional.Se fizerem contas da abstenção relativas a 9 262 653 cidadãos residentes dentro de fronteiras, (e não ao total de11 milhões), e verão como ela desce. 3 - Em países de dimensão populacional imensamente superior à nossa, como o Brasil ou os EUA, há muito se introduziu o voto eletrónico, mas por cá, apesar de tão justamente reclamado pelos emigrantes, não deverá ser aceite no futuro próximo. É muito ousado para os burocratas da Administração Pública e muito arriscado para os políticos que, no íntimo, temem o voto dos expatriados – mais uns dos que outros. Espero que, um dia, não muito longínquo, algum jovem académico empreenda o estudo que falta sobre a história do “sufragismo emigrante”, que tem algumas semelhanças com o sufragismo feminista). Aqui direi, “en passant”, que o PSD foi, durante décadas, ( e quero acreditar que ainda é) o mais favorável às reivindicações dos emigrantes. Na revisão de 1997, Marques Mendes condicionou mesmo o acordo interpartidário com o PS, (então parceiro obrigatório de maioria constitucional), à aprovação do voto dos emigrantes na eleição do Presidente da República. O PS foi fazendo, lentamente, a sua “estrada de Damasco”, até avançar (pela iniciativa de José Luís Carneiro) para o grande salto qualitativo do recenseamento automático. Muito resta por fazer. Os quase 1 8000 000 recenseados no estrangeiro elegem apenas quatro deputados para o Parlamento e estão excluídos das eleições autárquicas e das autonómicas (ao contrário do que acontece, por exemplo, na vizinha Espanha). Estou convencida de que o verdadeiro travão à consagração da igualdade de direitos políticos para os emigrantes, foi o medo do seu sentido de voto (mais inclinado para o centro e a direita, considerava a esquerda…). Agora que se verifica um crescimento da extrema direita em ambos os círculos da emigração (venceram as últimas legislativas e, também, embora por pouco, estas presidenciais), será ainda mais difícil lutar pela plenitude dos seus direitos de cidadania? Espero que não! Há que acreditar nas pessoas e na Democracia. Os portugueses da Diáspora são eleitores tão conscienciosos como os residentes. A facilitação do seu exercício do voto não favorecerá o extremismo. Em condições muito adversas, são os mais militantes, os mais fanáticos que resistem. Em condições normais (sobretudo com a admissibilidade do voto digital), virá, ao de cima, a grande vaga dos moderados. Note-se que, na emigração, Ventura venceu, quase à tangente. Perdeu em todos os continentes, exceto nas Américas. Num total de cerca de 85 000 votos, a diferença para Seguro foi apenas de 1 366. Na primeira volta, Ventura liderava com 40, 93% contra 23,69% de Seguro, na 2ª volta acabaram quase empatados. Ventura ganhou nas comunidades da “velha guarda”, (na Suíça, na França), mas perdeu na Alemanha e em mais 23 países da Europa, em todos os Palop, no Oriente – ou seja, na "nova emigração" mais qualificada. O perfil de eleitor Ventura/Chega é, afinal, semelhante no país e no estrangeiro. E recolhe, ainda, o “voto do descontentamento” – e razões de protesto não faltaram nunca aos portugueses que se sentem tão discriminados. A sua insatisfação não se combate tirando-lhes direitos, mas sim fazendo-lhes justiça. In Defesa de Espinho, 19 fevereiro

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

ENTREVISTA TSF - LONGE DO NOVO PSD/AD

Ouvir em Direto Últimas Podcasts Fórum TSF Política Desporto Mundo Menu Política Desiludida com "alianças constantes" entre PSD e Chega na imigração, histórica Manuela Aguiar deixa de ser militante social-democrata. É mais um nome histórico a abandonar o PSD. Quarenta e cinco anos depois de ter entrado no partido pela mão de Francisco Sá Carneiro, Manuela Aguiar entregou o cartão de militante, desiludida com as políticas para a imigração seguidas pelo governo da AD. Em entrevista exclusiva à TSF, a antiga secretária de Estado lamenta a colagem do PSD ao pior que o Chega tem, na forma como olha para os imigrantes, sobretudo a partir do segundo governo de Luís Montenegro. "No primeiro Governo, eu estava completamente aplacada, porque havia uma linha vermelha: 'Não é não'", recorda, em declarações à TSF. No entanto, "quando no segundo Governo, começa a ver-se as alianças constantes na Assembleia da República entre o PSD e o Chega, naquelas questões que eram as últimas em que eu esperava que o PSD alinhasse e ultrapassasse a linha vermelha, com a criação das fake news e das perceções, criou-se uma percepção completamente errada da imigração", defende. Para Manuela Aguiar, Portugal "não tem imigrantes a mais", mas, sim, "serviços a menos para legalizar os imigrantes". "Os imigrantes são absolutamente precisos à nossa economia, estou preocupada com os traficantes de imigração, como temos no Alentejo. Estamos, eventualmente, a negar à nossa imigração as condições de ela ser o que é: uma imigração pacífica, uma imigração útil e uma imigração que nos traz um enriquecimento cultural", argumenta. A antiga secretária de Estado e deputada lembra que "defendeu isto para os portugueses em qualquer país do mundo" e defende "isto para os estrangeiros em Portugal". Por isso, "uma pessoa que defende isto e que vê as coisas assim, dificilmente pode estar no PSD e é impossível estar no PSD de hoje", atira. Manuela Aguiar foi a primeira mulher com cartão de militante do PSD a desempenhar funções num Governo em Portugal, num Executivo liderado por Mota Pinto. Esteve depois, durante vários anos, ligada às comunidades portuguesas, primeiro, como secretária de Estado, depois como deputada eleita pelo círculo da emigração. Despediu-se do Parlamento em 2002. À TSF, Manuela Aguiar diz que o PSD é hoje um partido completamente diferente do fundado por Francisco Sá Carneiro e confessa "um verdadeiro horror" ao ouvir alguns dirigentes políticos invocarem o nome do antigo primeiro-ministro. "É um partido que tem o ministro Leitão Amaro, que diz que com a nova lei da nacionalidade, uma das mais restritivas da Europa, Portugal é mais Portugal. Eu acho que não, que não é mais Portugal, acho que é menos. Um secretário-geral, que, nas eleições americanas, entre Kamala Harris e Trump, dizia que não sabia muito bem qual havia de escolher, o que quer dizer que é trumpista, porque as pessoas têm vergonha de dizer que são definitivamente Trump. Eu nem entendo, porque, se seguirmos a doutrina social, seguirmos os papas de hoje, o Papa Francisco, o que é que ele nos diz? Está nas antípodas do discurso do PSD de hoje. É um discurso anticristão", afirma, sublinhando que Sá Carneiro "foi um homem que começou a sua vida política pelo sentimento religioso, pelos valores religiosos". "Portanto, realmente não tinha outra solução", reforça, acrescentando que Luís Montenegro cometeu um erro na segunda volta das presidenciais ao não apoiar António José Seguro. Sobre o Presidente da República eleito no passado domingo, Manuela Aguiar está convicta de que será um excelente chefe de Estado. Tópicos: Entrevista TSF Política PSD Chega imigração Manuela Aguiar

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR

2025 BRASIL/ PORTUGAL - À DESCOBERTA DE RUTH ESCOBAR 1 – A descoberta do Brasil pela expedição de Pedro Álvares Cabral ocorreu há exatamente 525 anos, em tempo pascal. No dia 22 de abril de 1500 alguns dos homens pisaram terra, para um primeiro encontro amigável dos povos de dois continentes separados por um oceano. Ao lugar deram o nome de Porto Seguro, hoje cidade turística do Estado da Bahia, especialmente vocacionada a receber os festejos da celebração dessa data matricial. Data que se tornou, oficialmente, o dia da Comunidade Luso-brasileira por força da Lei nº 5270 de 22 de abril de 1967, (a chamada “Lei da Amizade” da iniciativa do Senador Vasconcelos Tavares), a que Portugal deu pronta reciprocidade. Porém, como sabemos o Direito só tem a força que lhe dão os seus destinatários e, neste caso, o Dia da Comunidade Luso-brasileira foi sendo esquecido pelos dois Estados e tornou-se uma festa da sociedade civil, dos imigrantes de origem lusa no Brasil, com significativo apoio em alguns municípios e Assembleias Estaduais. Entre nós, a data tem sido, regra geral, pura e simplesmente ignorada. Enquanto Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, na meia década de oitenta, tentei remar contra a maré, organizei comemorações oficiais em cidades como Guimarães, Ponte do Lima, Belmonte, mas, que depois que deixei o Governo, há quase quatro décadas, não mais houve interesse governamental em continuar esse legado. E, por isso, deste lado do Atlântico, o 22 de abril, vem sendo, quando muito, festejado num pequeno círculo associativo… 2 – Em 2025, a Associação Mulher Migrante (AMM) promoveu a comemoração do dia desta comunidade no auditório do FACE, com o patrocínio da Câmara Municipal e a ativa participação da Presidente Maria Manuel Cruz. A iniciativa tornou Espinho um caso singular, um exemplo a ser seguido, nomeadamente, nos Concelhos onde já existe grande número de imigrantes brasileiros – trabalhadores, empresários, estudantes - quase todos aparentemente bem integrados. Este é, também, o dia deles, o dia de publicamente lhes darmos voz e visibilidade, de manifestarmos a alegria de os vermos felizes na nossa sociedade. A AMM vem celebrando a efeméride transnacional há vários anos, em Espinho e em outras cidades, sob o título “Brasil- Portugal, a descoberta continua”. Ou seja, pondo o foco na necessidade de combater a enormidade do desconhecimento mútuo do património material e imaterial comum. Com tal propósito, perante uma audiência de dezenas de estudantes, decidi falar sobre uma mulher portuguesa, Ruth Escobar, completamente ignorada na sua e nossa terra, muito embora tenha feito história no Brasil. Antes do início da sessão, em conversa com muitos dos jovens fiquei com duas certezas: o nome Ruth Escobar, às 15.00, não lhes dizia nada; às 16.00 sairiam todos daquele auditório a saber mais sobre ela do que o resto dos jovens deste país… 3 – Foi um verdadeiro prazer “pôr em palco”, (uma vez mais!), a grande atriz e produtora teatral, pioneira política, feminista e revolucionária, a emigrante portuense imortalizada com o nome artístico Ruth Escobar. Maria Ruth dos Santos nasceu no Porto, em Campanhã, viveu na rua do Bonjardim, e foi aluna do Liceu Carolina Michaelis, onde se distinguiu a representar todos os diabos de Gil Vicente. Tinha 16 anos quando a mãe a levou, a bordo do Serpa Pinto, numa viagem sem retorno para o Brasil. Lá, no Colégio Roosevelt, como antes no liceu português, o seu talento em palco deu-lhe prestígio e popularidade, a ponto de conquistar o título de "rainha" do colégio. Mas, como vivia pobremente com a mãe, trocou os estudos pelo trabalho, a vender a "Revista das Indústrias", com o que ganhava mais do que a progenitora. E, ainda antes de fazer 18 anos, deu um passo em frente e angariou apoios da comunidade portuguesa para lançar a sua própria revista, "Ala Arriba". Na veste de jornalista e diretora de jornal, apercebeu-se das ameaças à presença portuguesa na Índia e propôs-se defende-la, a nível planetário. Tinha 19 anos quando, com o patrocínio dos compatriotas de S Paulo, partiu numa volta ao mundo, com essa missão – Nova Yorque, Los Angeles (entrevista o ator Jack Lemon), Hawai, Tóquio, Manilha (entrevista o Presidente) Hong Kong, Macau, Karachi, (onde, a cobrir a Conferência Internacional sobre o Sudeste Asiático, a sua lista de entrevistados célebres cresce enormemente, com Foster Dulles, Christian Pinaud, Bulganin, Kruschev e outros,) Camboja, onde dialoga com o Principe Norodan Sihanouk (e dele recebe uma mensagem e uma fotografia para Salazar), Tailândia e da Turquia (entrevista com os primeiros –ministros), e, por fim, o mítico Nasser, durante a crise do canal de Suez - no meio de quinhentos jornalistas presentes no Cairo, foi a única a quem ele acetou responder! No mundo português foi recebida pelos governadores de Macau e da Índia e, em Lisboa, pelo ditador Salazar. Durante o longo périplo, os seus “exclusivos” eram disputados por jornais de referência no Brasil, em Portugal e, no caso de Nasser, até nos EUA. Vaticinava-se futuro à jovem jornalista, mas a sua união com o dramaturgo, filósofo e poeta Carlos Escobar leva-a a Paris, onde estuda arte dramática. Aos 20 vinte anos, de volta a São Paulo, estreou-se como empresária, produtora teatral e atriz. Poucos anos depois, construiu na cidade, no bairro residencial da Bela Vista, um teatro com o seu nome, onde os autos vicentinos se cruzavam com as peças mais vanguardistas. Na década de sessenta fundou o Teatro Nacional Popular para levar ao interior da Estado espetáculos de qualidade, montados num autocarro aberto (Martins Pera, Suassuna, montados num autocarro aberto … Não era menos exuberante a sua vida fora de cena, (somaria cinco casamentos, cinco filhos) O terceiro marido, arquiteto Wladimir Cardoso, viria a ser o cenógrafo das suas peças de maior sucesso, com o " O cemitério de automóveis" de Arrabal ou "O balcão" de Jean Genet, que, em fins de sessenta, venceu os maiores prémios do teatro brasileiro. A partir de 1964, Ruth, com trinta, trinta e tal anos) afrontou a ditadura em que o Brasil se afundava, convertendo o seu teatro em arena de luta pela liberdade, resistindo a ameaças, ataques de comandos paramilitares, violência sobre os atores, interrogatórios e prisões. De uma das vezes, foi Cacilda Becker, sua mentora e amiga, que interveio junto do Prefeito de São Paulo: "Prefeito, temos de tirar a Ruth, aquela portuguesa vai pôr fogo no quartel, é um serviço que o Senhor vai prestar às Forças Armadas, tire-a de lá quanto antes". E ele tirou... No começo da década de setenta, a emigrante sem medo trouxe a Portugal "Missa leiga", "Cemitério de automóveis”, que a Censura proibiu em Lisboa, mas autorizou na elitista Cascais, longe das massas populares... Aí Ruth conheceu as três Marias, leu "As novas cartas portuguesas", Simone de Beauvoir, e converteu-se ao feminismo. A nova causa abriu-lhe outros palcos, os da política. Ao abrigo do Tratado de Igualdade de Direitos entre Portugueses e Brasileiros (nunca se naturalizou brasileira), em oitenta, candidatou-se e foi a primeira mulher eleita e reeleita Deputada à Assembleia do Estado de São Paulo, depois, a primeira Presidente do "Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres" e a primeira Representante do Brasil nas Nações Unidas para o acompanhamento da Convenção contra a discriminação das Mulheres. Em 1974, organizara o primeiro Festival Internacional de Teatro, que levou a São Paulo, o que de melhor se fazia nas grandes capitais do mundo, feito que repetiu em 1976, vendo-se reconhecida como grande renovadora da arte dramática brasileira. Depois de deixar o cargo de Deputada, em 1988, voltou aos palcos e à organização de novos festivais paulistas, sempre em espírito de renovação, tornando-os inclusivos de outros terrenos e saberes – os Festivais de Artes e Ciências dos anos noventa. A Ruth, a caminho dos 70 anos não está disposta a parar… Já neste século, tive a sorte de assistir ao seu lado, em São Paulo, a uma última produção, tão audaciosa como as primeiras: uma original encenação de "Os Lusíadas". E assim Ruth Escobar deixou uma fantástica herança cívica, intelectual e artística, enraizada no Gil Vicente da sua juventude (segundo ela, o “Shakespeare português”) e no modernismo com que mudou a face do teatro em São Paulo e no Brasil. Por isso, recebeu as mais altas condecorações brasileiras, a nossa Ordem do Infante D Henrique, a Legião de Honra e a Ordem das Artes e das Letras, de França. É um nome lendário no Brasil, mas está, ainda, por descobrir em Portugal.