Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
quarta-feira, 1 de abril de 2026
MARIA LAMAS
A HUMANISTA PRATICANTE
Maria Lamas é uma mulher verdadeiramente intemporal, que tem um lugar ímpar na história portuguesa do jornalismo e das Letras, do movimento feminista em meados de novecentos, e da luta contra a violência de uma longa ditadura. Foi protagonista maior, em todos estes domínios, senhora de um destino extraordinário, num dado tempo, particularmente ingrato, que, sobretudo por ser mulher, a obrigou a vencer mil obstáculos, preconceitos misóginos e perseguições da polícia política. Figura intemporal, antes de mais, como paradigma de cidadania vivida audaciosa e apaixonadamente, com uma visão clara do devir português, uma crença na força criativa e subversiva das mulheres para mudar o velha Ordem, e o velho mundo anacrónico do chamado “Estado Novo”, sempre numa atitude coerente de generosidade.
Nascida ainda no século XIX, foi aluna do “Colégio das Teresianas Jesus, Maria e José”, estudando num ambiente religioso, onde se sentia bem, e onde cedo terá despontado o sentido de missão, que, mais tarde, alargando horizontes com projetos de carreira profissional e de intervenção cívica, se consumou no humanismo laico e fraternalista com que fez percurso, num combate sem fim pela justiça, pela igualdade e pela paz.
Casou aos 18 anos, com um republicano, Oficial de Cavalaria, e com ele viveu três anos em Angola. No regresso a Torres Novas, ainda muito jovem, já vislumbramos, na suas iniciativas solidárias, a militante de ideias e causas que não tardaria a revelar-se plenamente: é voluntária da Cruz Vermelha, organiza saraus de beneficência para ajudar famílias dos soldados, publica na imprensa local artigos sobre a guerra. Aos 26 anos, depois do divórcio – à época, era visto como um ato de rebeldia ou de afrontamento dos "bons costumes",e do dever de submissão feminina – fixa-se em Lisboa e torna-se pioneira no jornalismo, que era ofício de homens. Trabalha, primeiro, numa agência de notícias, e em “A Capital”, depois no grupo editorial de “O Século”, dirigindo, durante muitos anos, a revista feminina “Modas e Bordados”. A revista, muito popular entre a metade feminina, supostamente conservadora e fútil, era o mais improvável dos instrumentos para o empreendimento que ousou: promover a revolução de mentalidades, a mobilização das mulheres de todas as idades para a vivência cidadã, a independência de espírito, a valorização do seu papel. Usa, habilmente para aconselhamento, um “correio de leitoras”, que, para ela se converteu em posto de observação e de tomada de consciência dos problemas e dilemas do mundo (ou do gueto) feminino.. A sua obra mais emblemática, que podemos classificar como “monumental”, " As Mulheres do meu País”, terá tido aí a sua pré-história.
É nesta sua forma de dar concretização pragmática e eficiente aos valores e ideais que a norteiam, e numa rara capacidade de realizar coisas grandes com meios parcos e banais, que Maria Lamas me parece singularmente inspiradora, hoje e em qualquer época. O “correio” da popularíssima revista feminina teve um enorme impacto, o mesmo se podendo dizer das conferências e das grandiosas exposições que, sob o patrocínio de “O Século”, com incomparável brilho, levou a cabo, para dar do papel mulher sua contemporânea, em diversas sociedades, domínios e circunstâncias, uma visão pedagógica e dignificante confirmada por factos e por feitos, com que desmentia, categoricamente, a ideologia misógina e opressiva do salazarismo - a última das quais, organizada na qualidade de Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), e em que exibia obras de mulheres escritoras de todo o mundo, lhe custou o emprego, uma sólida carreira e, até, a segurança pessoal. O Conselho foi eliminado, e, a partir daí ela seria alvo de repetidos atos persecutórios do regime, que quis cortar-lhe os meios de subsistência e bani-la, implacavelmente, do espaço público. Em tempo de repressão e declínio do primeiro movimento feminista português,Maria Lamas foi uma verdadeira sobrevivente, a última a presidir ao CNMP, expressão máxima desse associativismo revolucionário, que começara com Adelaide Cabete, nos primórdios da República. O Decreto do Governador Civil de Lisboa extinguiu o CNMP, mas não conseguiu silencia-la, ou erradicar os seus ideais de igualdade.
Maria Lamas estava, então, divorciada do segundo marido, o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, tinha as três filhas a cargo, dependia de si e do seu trabalho... Não se deixou abater - pelo contrário, recomeçou, com redobrado ânimo, um solitário e fecundo exercício de jornalismo de investigação, abraçando desafios cada vez maiores. Munida de uma máquina fotográfica, papel e caneta foi, pelo país adentro, em toda a espécie de incertos e deficientes meios detransporte, recolher depoimentos e testemunhos de mulheres de todos os misteres e condições, até às aldeias mais remotas e inacessíveis. Deu-lhes inédito protagonismo e visibilidade num impressionante retrato coletivo, de alta precisão, de incomensurável valor humano, literário e científico. Uma obra prima do jornalismo português, que é também, um grito de revolta contra a exploração económica, a pobreza, quando não miséria, o confinamento de horizontes, num todo em que a metade feminina era duplamente vítima de subjugação.
Maria Lamas atravessou, assim, corajosamente, as décadas seguintes, cumprindo o seu destino de ativista dos Direitos Humanos, tão eficaz a usar a escrita, como a recorrer à ação concreta.
E não menos admirável foi na sua veste privada! Sozinha educou as filhas, influenciou e cativou as netas, os netos, através de cujos testemunhos sobre a “Avó Maria”, ficamos a conhecer melhor o seu encanto como pessoa, a sua irradiante beleza de rosto e de espírito, de espírito jovem, aberto a novas ideias e formas de luta, o seu temperamento, a um tempo, impetuoso e afável, a dedicação aos que tratava como família, num círculo que se foi alargando sempre. Durante os anos de exílio, em Paris, tornou-se a "Avó Maria" de um sem número de expatriados, que nela encontravam, invariavelmente, amizade e apoio.
À terra voltou, em 1969, durante a efémera "primavera política" para participar nos dias da revolução e gozar os seus últimos anos na democracia que ajudou a refundar. Vêmo-la, ainda combativa, fulgurante e carismática, à frente do Movimento Democrático de Mulheres e a dirigir a sua Revista.
Ao Estado coube atribuir-lhe, como não podia deixar de ser, a Ordem da Liberdade. Aos Portugueses, em cada nova geração, cumpre guardar a memória do exemplo de vida que legou às "Mulheres (e aos Homens) do seu País".
Maria Manuela Aguiar
Jurista. Ex Deputada e Secretária de Estado da Emigração e Comunidades Portuguesas
Cidalia Vargas
terça, 28/06/2022, 14:02
para mim
Está mais do que perfeito.
Fico super feliz com a onda de sororidade que se está a criar entre as mulheres que colaboram nesta obra.
Bem haja!
Quando estiver paginado, envio-lhe, e será um prazer contar com a sua presença no lançamento.
Um abraço,
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