quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES - "autobiografia oral"

AS MEMÓRIAS DO TEMPO FUTURO Imperdível a série de programas, com este título que a RTP 3 passou, de novo, há dias. São entrevistas de quase uma hora, a Mário Soares, sobre os tempos da ditadura, do PREC, do renascimento da democracia. É na verdade, uma autêntica "autobiografia oral" Guardei em arquivo, na" box", para ver muitas vezes, e tenho recomendado a todos os amigos que façam o mesmo. A meu ver, seria ideal editar a série inteira em DVD, para ser mais acessível ao grande público (eu sei que agora se vai à NET, procurar em RTP-Play, mas prefiro o velho DVD e, como eu, haverá ainda muita gente... Ontem, tive uma simpática conversa num alfarrabista na rua do Cinema Trindade (tão bem conheço as ruas de toda a baixa do Porto e de poucas sei o nome...). As conversas mais agradáveis começam muitas vezes como esta, ocasionalmente. Na livraria estávamos três pessoas, o proprietário, um outro cliente e eu. Procurava uns antigos mini cadernos com biografias de jogadores de futebol dos anos cinquenta (do FCP de Yustrich), coisa que não consegui. Os dois senhores comentaram que raramente havia mulheres a pedir literatura sobre futebol, eu, não tendo dados para discordar, lembrei que agora os estádios estão cheios de raparigas, mas eles não pareciam muito convencidos de que elas lá vão pelas mesmas razões dos homens, isto é, para ver o jogo... Palavra puxa palavra, não sei como, do enfoque no desporto transitámos para a política. Soares, Sá Carneiro, Mota Pinto... O outro cliente era, afinal, um colega, advogado formado por Coimbra, como eu, mas muito mais novo. Mário Soares esteve, naturalmente, no centro da conversa, O advogado nunca tinha votado em Soares, o livreiro, julgo, era um eleitor fiel e eu uma votante da 25ª hora, da sua última e épica campanha presidencial, mas todos nos confessámos seus grandes admiradores. O jovem advogado, que fora aluno de Mota Pinto, de quem gostava imenso, lamentava não ter tido o privilégio de privar com Soares. Perguntei-lhe se tinha visto as entrevistas da RTP3. e, como ele , de facto, tinha, disse-lhe: "A maneira como o Dr Soares conta história e peripécias é exatamente como as contava num pequeno grupo de amigos. Está ali genuíno inteiro, singular, com toda a sua graça e acutilância. Não há mais ninguém que na vida e no ecrã seja tão igual a si mesmo". Por isso, essas memórias gravadas em vídeo são um delicioso convívio com um Dr, Soares, que permitirá aos jovens, às gerações futuras, o privilégio de um encontro intemporal com a maior figura política do século XX português.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

BISPO DE BRAGANÇA E MIRANDA versus MÁRIO SOARES

(antes de virar Soarista) A coisa mais próxima de uma discordância, que tive com o Primeiro-ministro, durante os dois anos e alguns meses do governo do Bloco Central, foi provocada por uma incursão na política do Senhor Bispo de Bragança e Miranda. A propósito das medidas de austeridade, impostas pelo estado das finanças e pela intervenção do FMI, para salvar Portugal da falência em que o Governo Balsemão deixara o país, em 1983. Tempos duros - mas mal comparados aos que se viveram, neste século, com as perniciosas imposições da troika... Então, a fórmula foi aplicada inteligentemente e resultou em pleno, oferecendo ao Executivo de Cavaco, a partir da adesão à CEE, em 1985, um futuro melhor, de "vacas gordas". Em democracia, a crítica é livre e das liberdades usou aquela alta autoridade da Igreja para zurzir as mais altas autoridade do Estado. Aproveitou o mês de agosto e um ajuntamento de emigrantes em férias para lhes recomendar que acautelassem as suas poupanças, que não as mandassem para Portugal, porque isso era o mesmo que" pôr dinheiro em saco roto" - exatamente estas palavras, um ditado popular para o povo entendesse bem o seu conselho. Vi os títulos de jornal, mas interpretei a intervenção episcopal como mais uma das muitas que havia que aguentar, estoicamente, enquanto Hernâni Lopes cuidava de acertar as contas (e acertou, ao contrário de Gaspar e Luísa). Para além de ficarmos a saber a opinião do Bispo, achei que os emigrantes mais o seguiriam como líder espiritual do que como consultor financeiro e, por mim, guardei sobre o caso um despreocupado silêncio. Contudo, um ou dois dias depois (estava eu a norte do país, nos meus périplos habituais), recebi um telefonema direto do Primeiro Ministro. Perguntou-me se conhecia as declarações do Bispo e eu disse que sim. Informou-me, então, que o Conselho de Ministros estava reunido, tinha analisado a diatribe de Bragança e decidido que era urgente ripostar. E eu fora escolhida para a missão. Argumentei que não era a pessoa mais indicada para discutir as finanças do país com o Bispo, cuja referência ao país como um"saco roto" tinha sido feita a uma audiência de emigrantes, como o poderia ter sido a residentes, (empresários, donas de casa, a jogadores de futebol...), a não punha em causa as políticas da emigração, pelas quais eu era responsável, A meu ver, o ideal era uma réplica do próprio Chefe do Governo e, como o Dr Soares declinasse, de imediato, sugeri o Ministro das Finanças. Firmemente, embora amavelmente, pôs ponto final às minhas objeções - a decisão do Conselho de ministros estava tomada, a incumbência entregue. Não me parecia, francamente, que subir o tom da polémica fosse útil e, por isso, o meu comunicado de imprensa ou entrevista - já não sei qual o modo utilizado - foi frouxo, morno, porque não consegui deixar de ser genuína. Dei a entender que o Sr Bispo não era especialista de finanças (como Jesus Cristo, segundo o Poeta), e assim encerrei, de vez, as hostilidades. Não creio que os mandantes do Conselho de Ministros tivessem considerado brilhante o desempenho da mandatária... Todavia, quando o mesmo Senhor Bispo, algum tempo depois, recebeu o já´Presidente Soares em Bragança, com grandes manifestações de regozijo e com os maiores encómios, pensei que talvez eu tivesse com aquela minha passada atitude contribuído um pouquinho para isso...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

JESUS EM QUEDA LIVRE

Para já em Chaves. Tudo bem, desde que o ponto final de aterragem não seja o Estádio do Dragão... É um temor que me acompanha há muitos anos.
UM FRENTE A FRENTE TEMPESTUOSO :SOARES-CCP FRANÇA 1- Como toda a gente, ouvia falar das cóleras súbitas e passageiras de Mário Soares (eu própria sou muito propensa ao mesmo tipo de explosão). Todavia, 7 anos depois de o conhecer pessoalmente , nunca assistira a nada que se pudesse qualificar nesse preciso comportamento e, nunca mais voltei a presenciar nada de semelhante nos 30 anos seguintes. Mas o que tive a sorte de testemunhar foi sensacional e fez manchetes em toda a espécie de "media". 2- CCP é a sigla de Conselho das Comunidades Portuguesas. O Conselho era um órgão consultivo do Governo, composto por representantes do movimento associativo e teve, desde o seu começo, em 1981, até ao seu silenciamento, a partir de 1988, e extinção, em 1990, uma vida bastante atribulada, devida, em linha reta, à politização dos conselheiros de França e, sobretudo de Paris. A instituição era de inspiração francesa, mas o modelo original (o Conséil Supérieur des Français de l' Etranger), não nos preparara para o potencial de conflitualidade de que o nosso se revelou capaz. De tal forma o confronto foi constante e radical, nesses anos longínquos, que só eu, a Secretária de Estado que o tinha lançado no mundo das instituições nacionais, consegui lidar com ele - um exercício de paciência, qualidade ou defeito que não é o meu forte. Em 1982/83, quando fui substituída por José Vitorino no 2º Governo de Balsemão, o plenário não foi sequer convocado - uma ilegalidade, em nome da paz e sossego do ilustre governante. Em 1987, quando saí de vez do Palácio das Necessidades, no 2ª Governo de Cavaco Silva, ainda se realizou o plenário, que, à cautela, deixei convocado e em ativa preparação. Mas a sessão plenária de 1987 decorreu num ambiente fúnebre de fim dos tempos, claramente definido no discurso do meu sucessor Correia de Jesus. O CCP ressuscitaria com José Lello, em 1996, mantendo a designação num novo formato. É agora eleito por sufrágio universal, por emigrantes (muito poucos...) e parece condenado ao "low-profile" em que, mais pacatamente, continua a sua marcha - infelizmente, para quem nele sempre pôs altas expetativas (o meu caso). Ainda por cima surgiu, há alguns anos, um auto-designado "Conselho da Diáspora", composto, fundamentalmente, por empresário e banqueiros, que ocupa o palco mediático que falta ao CCP. 3 - Este preâmbulo é necessário para se compreender o espírito que animava os delegados do CCP- França na audiência concedida pelo Primeiro- Ministro Soares. (eram quase todos comunista, de várias facções, não sendo os do PCP necessariamente os mais agressivos...). As audiências eram simples pretexto para uma conferência de imprensa e funcionavam como altifalantes num comício permanente. Quanto mais elevado o "ranking" do interlocutor, mais amplificação garantia ao confronto. Por isso pediam encontros ao PR, ao PM, ao MNE, a que estes, regra geral, se escusavam, Viam-se, pois, na necessidade de dialogar com a Secretária de Estado que, por dever de ofício, nunca se negava a essa espécie de ritual. Dessa vez, nem o MNE Jaime Gama nem o PR Eanes lhes abriram a porta, mas alguém convenceu o PM de que eles iriam ao Palácio de Belém no dia seguinte (de facto, nem sequer sei se estava pedida a audiência ao PR - acreditava que sim, mas não acreditava que fosse concedida, porque se tratava de um pequeno grupo, não do órgão em si). Vozes mais influentes do que a minha tentaram dissuadir o Dr Soares da sua posição, mas ele não recuou. 4 - O encontro, para o qual fui, naturalmente, convocada, teve lugar na Gomes Teixeira. Assisti, sentada num dos sofás, à direita do PM. O desastre anunciava-se desde a primeira fração de minuto, a hostilidade respirava-se no ar, marcava os semblantes fechados dos conselheiros. O Dr Soares, que tinha examinado o CV resumido de cada um dos interlocutores começou, com o seu proverbial à vontade por interpelar o padre operário, que dava nas vistas, com uma berrante camisola vermelha: "O senhor é que é o padre?" Ele respondeu que sim, mas rindo abertamente, um pouco a despropósito (era um homem jovial, amplo de estatura, extrovertido, na hora de liderar o combate, que ia iniciar). O Dr Soares atalhou severamente: "Não é caso para rir! Tenho muito respeito pelos padres". Senti que a tensão subia... Seguidamente, o Abílio Laceiras tomou a palavra. Sempre gostei do Abílio e continuo a gostar, mas é tudo menos um diplomata e, ali, não sei porquê, atrapalhou-se na exposição e, por fim, como Mário Soares o olhava, dubitativamente, resolveu explicar que se exprimia assim, porque era um homem do interior da Beira. O Dr Soares ripostou logo: "Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Salazar também era um homem da Beira e tinha um discurso muito articulado". Dito certeiro que baixou a temperatura - para glacial - generalizando a discussão, um coro autêntico coro de protestos. O PM dispôs-se a repor a ordem, à maneira de um moderador de debate: "Fala aquele senhor e os outros falam depois". Foi o pandemónio! Saltaram das cadeiras, todos ao mesmo tempo, como numa coreografoa bem ensaiada, gritando que se iam embora porque o PM os tinha insultado, mandando-os calar. O Dr Soares. enquanto eles saíam, (pouco menos que em passo de corrida, atropelando-se uns aos outros), gritava também: " Isto é uma grande golpada ! Foi para isto que aqui quiseram vir... estava tudo combinado, é tudo encenação!". Claro que era. Dali, os "enragés" foram diretos para a programada conferência de imprensa, onde contaram verdades a par de "pós verdades"... .Umas das quais foi a mentira absurda, mas eficaz, de que o PM os tinha acolhido mal, com os pés em cima da mesa. Foi essa a principal notícia da imbróglio, uma notícia não só ridícula como completamente falsa. A verdade é que, muito ao seu jeito, o Dr Soares não ficou hirto e colado às costas da poltrona, deixou-se escorregar, lenta, lentamente, e os pés foram ficando um pouco mais perto do tampo da mesa, mas por baixo, não por cima. 5 - Eu, que estivera calada durante as hostilidades - só teria falado se o Primeiro ministro me desse a palavra, como é óbvio - participei, comedida embora, na segunda parte deste episódio, que foi tão intensa, ou mais, do que a primeira. O Dr. Soares estava irritadíssimo! Ao seu chamamento acorreram vários assessores do gabinete, entre eles o da imprensa, que foi encarregado de redigir um comunicado, denunciando a premeditação de toda aquela trama. Contundente e imediato!. Ninguém achava que isso fosse a melhor ideia, havia que não valorizar a importância das pessoas envolvidas e dos factos passados, dar-lhe apenas a que tinham. Enquanto durou o estado de exaltação, o Primeiro-ministro não cedeu à nossa argumentação e o assessor, muito contrariado, preparava-se para compor o texto, Foram uns dez minutos altamente emotivos e, de súbito, com o simples correr do tempo, mudou de humor e concordou connosco. Eram assim, as suas cóleras, fortes e passageiras, como chuvadas tropicais (subjetivamente a comparação faz sentido - eu ia, então, muito a África e ouvia falar desse fenómeno, que despertava a minha curiosidade, e nunca se materializava, durante as minhas estadas, até que aconteceu, no Zaire, e só por milagre o Mercedes da embaixada "navegou" por uma estrada feita rio, a caminho do aeroporto - uma coisa absolutamente excessiva e grandiosa! Já com o Dr Soares muito bem disposto, aproveitei para me vitimizar - aliás, sem cair em exagero - dizendo mais ou menos isto: - Senhor Primeiro Ministro, teve aqui uma pequena mostra do que eu aturo constantemente. Comigo são horas de discussão, tensas, repetitivas, infindáveis. E, depois, disparam os ataques descabelados na comunicação social... É o meu dia a dia. Não com todo o Conselho, há uma maioria construtiva, com quem se pode trabalhar, sem politiquices . Mas este grupo é sempre assim! A resposta veio pronta: " Nem mais um escudo para esta gente vir passear e provocar desacatos!". A ordem tinha razão de ser, era justíssima, mas não completamente exequível, porque não podia prejudicar o todo pela parte... Continuaram a ser pagos, como os outros. Os outros para cooperar, sempre e bem, nos objetivos do CCP, estes, às vezes também, apesar das "bagarres"...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

BRASIL 2000

BRASIL - uma ÚLTIMA VIAGEM Depois de deixar a VP da AR, raramente fui indicada pelo PSD para integrar delegações parlamentares (não incluo aqui 13 anos nas delegações institucionais, Conselho da Europa e UEO). Que me lembre apenas duas idas ao Brasil, uma num 25 de abril, inaugurar uma estátua em S Paulo, na companhia de vários militares da revolução de 74, outra nas festividades do 5º centenário da Descoberta, no ano 2000 e uma aos EUA, em defesa da independência de Timor. Em 2000, coincidi com o Dr. Mário Soares na comitiva do Presidente Sampaio. Do ponto de vista pessoal foram dias maravilhosos, revi os amigos da nossa comunidade, estava permanentemente entre muita gente interessante, em excelentes hotéis, sempre em movimento, de cidade em cidade - Salvador, Porto Seguro, São Paulo, Rio.... De avião ou em deslocações em mini autocarros, muito confortáveis (poucas eram as limousines), em que me sentei ao lado da Secretária de Estado da Cultura, ou do José Lello, Secretário das Comunidades. Com o Zé Lello, de longe a longe, a discussão subia de tom e, para acalmar os ânimos, o Dr Mário Soares mandava-me mudar de sítio e sentar.me com ele no banco da frente... Do ponto de vista de uma avaliação das comemorações em si, com a exceção de algumas belas exposições, a nota só pode ser negativa. Em Porto Seguro atingiu-se o ponto alto do baixo nível do programa :uma caravela, "made in Brazil" que devia aportar ali e então, encalhou desastradamente; algures nos arredores, nesse e nos dias seguintes, houve cargas da polícia sobre manifestações de índios, a programação cultural parecia um "show" de meninos da escola primária, umas danças de roda, umas frouxas serenatas nas ruas antigas do belo centro histórico, um concerto numa pequena capelinha apinhada de ilustres personagens... a assinatura de uma adenda ao Tratado de Igualdade entre Portugueses e Brasileiros, que se limitava a diminuir uns prazos para pedir o estatuto de direitos políticos e a coligir documentos pré-existentes. Tudo insignificante face ao significado da efeméride, como Mário Soares haveria de expor, no ano seguinte, em linguagem contundente, numa audição parlamentar, de que falarei adiante Do ponto de vista do futuro do Tratado da Igualdade, contudo, esta acabou por ser, acidentalmente, uma jornada de uma importância crucial. Acidentalmente, graças a uma conversa tida pelo Dr Soares comigo, no átrio do hotel de Salvador da Bahía, que poderia ter acontecido em qualquer outro lugar e em qualquer outro momento. Estávamos ali, de pé, adiantados em relação à hora de sair, fazendo comentários soltos sobre já não sei sobre o quê. Até que eu comecei a criticar o facto de Portugal se mostrar incapaz de corresponder aos avanços da Constituição Brasileira, que, doze anos antes, conferira aos imigrantes portugueses, a plenitude de direitos da nacionalidade, sob condição de reciprocidade. A não dação de reciprocidade na Constituição portuguesa suspendia, pois, o alargamento do estatuto em vigor para os nossos compatriotas e era motivo de escândalo. Temia-se a qualquer altura a revogação do testo constitucional brasileiro, nesta matéria. A hora certa de por fim à polémica era aquela comemoração, que só assim, ganharia a devida dimensão. O Dr Soares concordava a cem por cento com as minhas diatribes e, logo ali, acordámos um plano para promover em Lisboa, ainda durante o ano de 2000, uma revisão extraordinária da Constituição, que era possível por 3/5 da Câmara. O passo seguinte foi reunir na Fundação Soares com deputados dos vários partidos - todos adeptos da "reciprocidade", como é óbvio. Não encontrámos abertura da direção das bancadas, nomeadamente do próprio PS, que, em 1997 fora o responsável único pelo impasse em que permanecíamos (o PS de Almeida Santos, que foi, nesta questão, um obstáculo intransponível, contra uma corrente quantitativamente largamente maioritária, onde se contavam Manuel Alegre, Sampaístas, Soaristas...). Tudo parecia perdido. Mas eis que, em 2001, acontece o inesperado, uma revisão constitucional com um ponto único: a criação das condições para Portugal poder aderir ao Tribunal Penal Internacional (TPI). A tentação de acrescentar outros pontos foi irresistível - alargou-se um pouco, mas pouco, o âmbito da revisão extraordinária. Óbvio, eu tentei introduzir a questão da reciprocidade. A recetividade na direção do grupo parlamentar era nenhuma, mas Durão Barroso interveio e não houve mais oposição. Criou-se a habitual Comissão para a revisão, com uma longa agenda de audições de personalidades. Sugeri ao representante do PSD, Marques Guedes, que incluísse o Dr Soares e ele ficou espantado. "Tem a certeza? Já contactou o Dr Mário Soares?" "Não, não o contactei, mas não é preciso. Tenho a certeza absoluta de que vem aqui defender esta emenda". E tinha!. Naquela auspiciosa tarde em Salvador, o Dr Soares fora muito claro - podia contar com ele em todas as propostas e diligências na matéria. O argumento para chamar o Dr. Soares à audição foi o facto de ele ter sido o Presidente ao tempo da criação da CPLP (e o Estatuto de Igualdade na nossa Constituição não se limitava ao Brasil, alargava-se a todos os países de língua oficial portuguesa). O Dr Soares foi e arrasou o que restava de oposição à emenda - o seu próprio partido, o amigo Almeida Santos, Jaime Gama... Foi tão contundente numa audição pública, cheia de jornalistas, que o representante do PS logo ali se rendeu à evidência do discurso. Estava finalmente alcançada a reciprocidade! A partir daí, a votação, em plenário, que seria unânime (ou quase - houve uma abstenção, mas que era genérica, não direcionada à questão brasileira) era um mero "pro forma" . Terá sido essa a última grande intervenção parlamentar de Mário Soares! Aconselho a sua leitura - é uma obra-prima se sabor queirosiano!

domingo, 15 de janeiro de 2017

O PRAZER DE VIAJAR COM ELES - ELES, Maria Barroso e Mário Soares! Não foram muitas as em que vezes fui na sua comitiva, mas foram memoráveis. Ninguém exprimiu a sensação de bem-estar e liberdade que se sentia no seu círculo O PRAZER DE VIAJAR COM ELES ELES - Maria Barroso e Mário Soares! Não foram muitas as viagens em que fui na sua comitiva, mas foram memoráveis. Ninguém exprimiu a sensação de bem-estar e liberdade que se sentia no seu círculo melhor do que a mulher de um Ministro PSD, ao lado de quem partilhei a fila do avião, horas a fio. "Com estes, tudo é permitido, com os outros (Maria e Aníbal Cavaco, o então Primeiro ministro) tudo parece mal! Se falo um pouco mais alto, repreendem-me de sobrolho levantado, se faço uma compra, é como se estivesse a arruinar as contas externas do país" . Rimo-nos imenso, ela pertence ao clube da gente divertida! Não me tendo nunca aventurado em compras no séquito do Prof Cavaco e da Dr.ª Maria (que acompanhei numa única viagem ao estrangeiro - Paris - em que me trataram bastante bem), fui, em deslocações caseiras, pelo menos uma vez apanhada em ruidosas manifestações e mandada calar, delicadamente, é certo, por um assessor...Por isso compreendia a minha amiga, mulher de ministro. Com o casal Soares tudo se passava ao contrário. Um exemplo: Quando íamos em rota para a África do Sul, com um avião cheio de empresários, jornalistas, funcionários, políticos, etc, numa algazarra medonha, já o Presidente já dormia, tranquilamente, e a Drª Maria de Jesus tentava dormir, fui eu própria que me dei conta da nossa inconveniência e pedi silêncio coletivo. Uma viagem de sonho, em que estivemos com Mandela e o Bispo Tutu - grande e sorridente conversador - , em que o ambiente a nível de sul-africanos e portugueses foi caloroso, vimos as mais belas paisagens do Cabo e assistimos ao doutoramento "honoris causa" de Mário Soares na famosa "Witts" (acho que na" Witts", mas não tenho a certeza). De qualquer modo, uma sessão colorida e soleníssima. O nosso Presidente, espantando a audiência a falar de improviso, e muito bem, enquanto os demais liam discursos pelo papel! Com o seu chapéu de doutor, que lhe ficava bem - todos ficavam, qualquer que fosse a cor e o design. De novo, dividi o meu tempo pela programação do Presidente e da Primeira Damas, com quem estive nas maiores instituições portuguesas de beneficência e cultura. (sempre tive um especial carinho pela Drª Maria Barroso, com quem 10 anos depois haveria de correr as comunidades da diáspora em quatro continentes!). Na altura, havia um movimento para a convencer a candidatar-se à presidência, movimento que eu estimulava quanto podia. Mas não podia estimular por perto do Dr Soares, que era irredutivelmente contra e se irritava, de verdade, com a simples menção da hipótese. O General Azeredo (com que depois partilharia a candidatura autárquica no Porto, na mais excêntrica e deliciosa das campanhas eleitorais - ele à Câmara, eu à Assembleia), preveniu-me, atempadamente... Creio que ele também era a favor, mas abstinha-se de o manifestar. Aquele General sempre me fascinou. Era culto, tinha muita graça e era descontraído, de uma forma que me parecia muito adequada. Perante paisagens deslumbrantes não hesitava em usar uma vistosa de máquina fotográfica, que levava a tiracolo.

sábado, 14 de janeiro de 2017

UMA (não) VIAGEM E UMA VIAGEM À URSS. Recordo uma oportunidade perdida de viajar na comitiva do Primeiro-ministro Soares, durante o governo do "Bloco Central". Teria sido a mais longa, e nas condições mais difíceis, com exposição inevitável ao frio e ao vento, quando não à neve. Nada que me fizesse recusar o convite, que só fiquei a conhecer "ex post facto". Nesses anos, de 83 a 85, morreram, um após outro, vários líderes soviéticos e o Dr Soares foi, suponho, aos seus sucessivos funerais. Estava ele já na URSS, na primeira dessas solenes exéquias, quando o Doutor Mota Pinto (Vice- Primeiro Ministro e Ministro da Defesa) me informou: "Nem a Manuela imagina do que eu a livrei! Do funeral de Moscovo - horas e horas, de pé, com um tempo gélido! O Doutor Soares sugeriu o seu nome, em representação dos membros do governo do PSD, mas eu disse-lhe que do PSD não ia nenhum". O mais gratificante deste episódio, ou "não episódio", é que, segundo me contou, o Dr Soares lhe tinha dito que preferia que fosse eu a acompanhá-lo, porque me achava divertida. Acabei por integrar a comitiva de Mário Soares, então Presidente, numa viagem oficial a três repúblicas soviéticas, cerca de dez anos depois. Já em pleno tempo de degelo de relações Este/Oeste, com a ascensão de Gorbatchev ao poder. Degelo diplomático, que não climatérico. Mal conseguíamos caminhar no chão branco de Moscovo. Logo no aeroporto, assisti a várias quedas e exercícios de patinagem. Eu própria, embora habituada às neves do inverno parisiense e norte-americano, me vi a escorregar perigosamente durante todos os dias que passei na Rússia - até voarmos para a Arménia e Azerbeijão. Foi uma viagem esplêndida! O Presidente Soares conseguia escapar, de vez em quando, aos rigores da segurança e do protocolo... Levava com ele uma comitiva parlamentar tão numerosa e pluri-partidária quanto possível. Em vez de seguir o critério da proporcionalidade de representação, a Assembleia, respeitando o seu pedido, mandou um membro de cada um dos grandes ou pequenos grupos parlamentares. E o Dr Soares deleitava-se a fazer pedagogia democrática naquelas repúblicas de partido único, apresentando cada um dos partidos ali presentes, através dos deputados, da esquerda mais à esquerda, até à direita mais à direita, em todas as gradações... O pior é que. como éramos tantos, o protocolo local, em vez de nos distribuir em, pelo menos, três "limousines" pretas, acumulava-nos numa vulgar carrinha ou "mini-bus", que, inevitavelmente, ocupava a cauda do cortejo automóvel, como o tradicional "carro-vassoura" no ciclismo. Depois, como o Presidente se recusava a iniciar qualquer cerimónia sem a nossa presença, era uma correria para chegarmos junto dele. O atraso parecia culpa nossa. Tanto protestei com o protocolo local (perante a inércia dos diplomatas portugueses) que resolvi o problema, sempre ao 2º dia, em cada uma das três Repúblicas. Não me queixei nunca ao Presidente, para não despertar a sua justa ira... Em outros casos, as autoridades soviéticas deram melhores provas, sobretudo no caso de um dos convidados presidenciais que, em Helsínquia, onde tínhamos pernoitado, num primeiro "stop" em rota para Moscovo, dormiu pesadamente e perdeu o avião! Nem sequer o passaporte tinha com ele (estava nas mãos do nosso protocolo, com certeza), pelo que entrou em Moscovo com um simples cartão de visita. Houve um sem número de momentos inesquecíveis nesse longo périplo, em que umas vezes seguia o programa do Presidente e outras o da Dr.ª Maria Barroso (o mais difícil foi escolher entre a visita a um poço de petróleo ou a uma passagem de modelos no Azerbeijão - optei por esta, não menos arcaica e, sem dúvida, mais hilariante). De qualquer modo, a minha maior contribuição durante esses dias foi ir no avião, à janel,a muita atenta às nuvens no momento em que de entre elas irrompeu o cume branco do monte Ararat. Gritei: "Ararat! Que beleza!" E o Presidente e toda a gente. ao menos naquela cabin,e pode contempla-lo.