Recordar tempos idos... Falar do presente, também. E até, de quando em vez, arriscar vatícínios. Em vários domínios e não só no da política...
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
NO PORTO EM FESTA - COM O DOUTOR SOARES
O animado e apaziguador reencontro no pavilhão das Antas não foi o único a acontecer no Porto. Curioso que a relativa pouca simpatia que o Dr Soares tinha pelo futebol o não levasse a recusar os convites do FCP (e seguramente de outros clubes, que eu não frequento)... Mesmo que considerasse sobrevalorizada a importância nacional e universal deste desporto, reconhecia assim a importância dos clubes como instituições. Até em Lisboa, no casino do Estoril, num aniversário do clube me lembro de ter ficado ao seu lado, nessa época em que por ser Vice-Presidente da Assembleia (não por ser genuinamente portista, como é óbvio) me cabia esse lugar no protocolo. A festa, ao contrário do que é habitual, não teve discursos. Apenas confraternização, um excelente jantar e, depois, um daqueles "shows" de casino, sem graça nenhuma (recordo vagamente uma trama de piratas). Entre cenas, o Dr Soares fechava os olhos, que abria logo que soavam as palmas. Até que do fundo da sala uma voz potente, com o acento do norte, gritou: "Biba o Porto!". Grito terminado por um palavrão de sabor regional. O Dr Soares, que me pareceu tão recetivo ao "show" de piratas das Caraíbas como eu, voltou-se para mim e desabafou: "Finalmente, algo de genuíno!"
Quanto ao futebol propriamente dito, contou-me um dirigente do FCP que, uma vez, ao assistir à entrada das equipas, lhe perguntou: "Quantos são de cada lado?" Como não se passou comigo, não garanto que seja verdade. Mas pode ser., mesmo que o Dr Soares tenha jogado à bola em pequenino, porque estas coisas esquecem quando não são prosseguidas...
Bem mais inquietante para mim, foi o que se passou numa celebração militar na Avenida dos Aliados, com a fachada da Câmara do Porto como pano de fundo. Era, se bem me lembro, o dia da Força Aérea, estavam presentes o Presidente Soares, o Primeiro Ministro Cavaco Silva e eu, em representação da Assembleia, todos solenemente alinhados no alto da plataforma. Gostava de paradas e de cerimónias militares que o presidente Vitor Crespo evitava sistematicamente (suponho que por não ter feito serviço militar e não se sentir muito à vontade). Era, pois, voluntária! O Professor Crespo convidava sempre para o substituir o 2º Vice - Presidente, que era do PS e oficial de Marinha, até que eu lhe confidenciei que era grande apreciadora de paradas e outras cerimónias militares. Além do mais, uma presença feminina era interessante, por ser, então, coisa raríssima. Aquela sessão não era a primeira, mas foi a primeira em que iam ser atribuídas condecorações. Por um altifalante, que era ouvido em toda a Avenida e nas proximidades, foi chamado o Presidente da República para impor uma insígnia. Lembro-me que avançou com todo o garbo e segurança, fruto de uma larga experiência - notei isso, mas sem atentar em pormenores. Mal ele se sentou, de novo, eis que do altifalante chamam o meu nome para entregar a segunda condecoração. Foi uma surpresa enorme, e um susto, porque eu não sabia como proceder. Tinha só duas hipóteses: perguntar a Soares ou perguntar a Cavaco... Sem hesitação, recorri ao Dr Soares (Cavaco ter-me-ia olhado com ar enfadado, mesmo que me desse resposta). Aliás, o próprio Presidente ficou um pouco perplexo: "Faça como eu fiz!". E eu: "O pior é que não vi como o Senhor Presidente fez!". Prático e rápido, o Dr Soares deu-me o esclarecimento, enquanto me levantava para descer à praça
"Coloque a medalha do lado esquerdo, acima do coração".
Cumpri o ritual sem qualquer problema... Na cerimónia militar seguinte (salvo erro, o dia das Forças Armadas) em Braga, fui convocada para idêntica tarefa, para a qual já me achava preparada. Engano meu! Saiu-me em sorte um oficial da Marinha, que objetivamente, sem culpa própria, se constituiu em inesperado desafio. A farda não era semelhante à da Força Aérea - ou pelo memos não o era uma tira resistente, que os dois longos ganchos paralelos da medalha não atravessavam com a mesma facilidade. Estava perante dois males: o receio de apunhalar o oficial se enterrasse os ganchos com uma boa dose de força e o de os deixar mal encaixados, levando a que a condecoração tombasse no chão, o que seria um desastre não menos horroroso... Por fim, sempre a perguntar se não o estava a magoar com os dois sinistros ganchos, consegui que o Comandante pudesse ostentar a insígnia no lugar certo, sem cair nem descair.
No dia seguinte, uma simpática assessora da Assembleia, veio ter comigo, nos corredores de S Bento, e disse-me:
"Com que então foi complicado colocar a condecoração na farda da Marinha?"
Assenti: "Sim, foi terrível, o tecido era impenetrável..." Por um momento, assaltou-me a dúvida: teria boa parte do país assistido à cena, nos ecrãs da TV? Tinha de apurar o facto.
"Como é que soube?".
E ela, a sorrir: "O Comandante é o meu marido". Rimos a duas às gargalhadas!
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
MÁRIO SOARES - UM LISBOETA ABERTO AO PORTO
Sou uma portuguesa do distrito do Porto, que conheceu Paris e Londres, aos 16 anos e Lisboa aos 18.
Na política nacional, o ser "da província" não era coisa de todo irrelevante. Eu era-o, duplamente, por naturalidade (Porto), e pela vida académica (Coimbra).
No PSD, onde havia Lisboa, província, grupo de Coimbra e outros mais, sempre me senti tratada como "provinciana" por vários dos mais importantes dirigentes históricos. E não só pelos políticos lisboetas, também pelos jornalistas. Nunca fui popular entre uns e outros.
Ora o Dr Soares, definitivamente um lisboeta, nado e criado na cidade, sendo "um deles" não deixava de ser "um de nós" . Nunca o vi olhar-me "do alto" (neste sentido, pois mais alto do que eu era, obviamente), desde o primeiro momento. Uma inexperiente e desajeitada jovem Secretária de Estado, para além de tímida (embora mais em público do que em pequenos grupos), a quem ele fazia sentir-se desenvolta. É "pormaior" que não esqueço, até porque tudo se passava em clima geral de confronto, a que a nossa conversa não escapava.
Falando da minha própria experiência, ao longo de quarenta anos, classifico o seu humor como tão incisivo quanto benigno. Sem excluir a graça mais contundente de todas, que selou uma espécie de reconciliação, após a campanha presidencial de 1985 (em que apoiei, entusiaticamente, Freitas do Amaral). Aconteceu. no Porto, num jantar, no grande pavilhão que ficava junto ao campo de treinos do estádio das Antas. A certa altura, não sei a que propósito, enveredámos pelo tema dos vários quadrantes políticos, mais quadrantes do que partidos, e eu proclamei-me "social-democrata à sueca". Comentário imediato do Presidente Soares:
"Social-democrata à sueca? Julguei que era social-democrata à Strauss!" (Strauss, o homem de direita bávaro, que eu detestava. Não me revi na classificação e protestei:
"O facto de pertencer à Fundação Século XXI não significa que tenha guinado à direita. Aceitei o convite do Prof Freitas do Amaral, porque trabalhei com ele no governo de Sá Carneiro e tenho por ele enorme admiração. Não é política, é amizade. E, como também gostei de trabalhar com Jaime Gama no governo do Bloco central, se ele criar uma fundação e me convidar, também aceito".
A partir daí, o teor dos comentários foi-se amenizando. Discutimos pessoas concretas e foi muito divertido, porque eu apreciava mais alguns antigos governantes socialistas do que outros do meu partido e ele "idem"... Acabámos, à gargalhada, a discutir qual era o tipo mais burro - um determinado PSD ou um determinado PS. Não chegámos a acordo. Nomes não digo.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
INTERPELAÇÕES SEMPRE SIMPÁTICAS
O Dr Soares tinha uma forma muito simpática de fazer pequenas provocações, Uma maneira de "forçar a nota", que tinha sempre graça e nunca ofendia.
Eu tinha a fama mais do que o proveito de viajar muito. Claro, como Secretária de Estado de uma emigração espalhada pelo mundo, depois como deputada da emigração Fora da Europa ou membro da Assembleia do Conselho da Europa fiz possivelmente mais horas de voo do que muitas hospedeiras de bordo, mas não eram excursões turísticas a países exóticos, eram deslocações regulares aos mesmos destinos - as maiores comunidades portuguesas, Brasil, Canadá, EUA, África do Sul, Venezuela, sem esquecer algumas mais distantes, mais antigas, mais pequenas. Quero dizer, fui vezes vezes sem conta a Paris, Estrasburgo e Bruxelas (Conselho da Europa e UEO, ao longo 13 anos), assim como ao Rio, a Toronto e Montreal, a New Jersey ou a Connecticut, a Joanesburgo, Kinshasa ou Caracas, e apenas uma vez ou duas às Bermudas, a Goa, Malaca, Curaçau, Havai, Austrália ou Suazilândia.
Hoje em dia, os meus sucessores viajam mais intensivamente, mas isso é visto com mais naturalidade...
E o certo é que o próprio Dr Soares conhecia mais mundo do que eu, mas quando se falava de um qualquer país longínquo num grupo onde eu estivesse, voltava-se para mim e perguntava:: "A Srª Drª já lá esteve?"
Nem sempre tinha estado....mas, em qualquer caso, achava graça
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
MÁRIO SOARES UM DEMOCRATA PRATICANTE
Se tivesse de definir Mário Soares em duas palavras, diria, simplesmente, UM DEMOCRATA PRATICANTE.
Não se limitava a acreditar no conceito teórico, deu abundantes provas que estava disposto a todos os sacrifícios da sua vida pessoal para a alcançar no seu país enclausurado na ditadura. E gostava, realmente de a viver com os outros, no quotidiano, em gestos concretos, num diálogo sempre aberto ao contraditório, aceitando as diferenças com uma absoluta naturalidade. Era socialista, mas considerava essencial a coexistência de outras correntes, à direita e à esquerda. Era laico, mas promovia o diálogo com as diversas religiões. Era republicano, mas mantinha relações de amizade com muitos dos Reis da Europa e o respeito pela tradição histórica da nossa própria Família real (os títulos nobiliárquicos foram abolidos pela 1ª República, mas eu sempre ouvi o Presidente Soares dar publicamente o tratamento de "Alteza Real" ao Duque de Bragança, Dom Duarte Pio, e recordo que fez questão de marcar destacada presença no Mosteiro dos Jerónimos, no dia do seu casamento).
Nada de sectarismo, de dogmatismo! Nada de roturas com adversários por divergências menores ou maiores! Coabitava bem, "très à l' aise" com os seus opositores - assim eles soubessem corresponder... Acho que não só tolerava como apreciava uma discussão acesa, mais ainda se revestida de sentido de humor. Um sinal de inteligência, que encontrei em outros políticos de primeiro plano - Mota Pinto, Sá Carneiro, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, pois a comentários heterodoxos, obtive boa recetividade. Todavia o Dr Soares, levava o caráter lúdico da convivialidade mais longe e num círculo de interlocutores mais vasto. Com tanta gente! Situei-me, felizmente, dentro desse círculo alargadíssimo e, para mim, conversar com Mário Soares, desde o primeiro encontro, na remota década de 70, até ao último, há poucos meses, foi sempre uma festa!
Relembro três de muitos episódios antigos, dos fins da década de 80:
1 - Democrata e parlamentarista - ele que foi muito mais tempo ativista partidário, governante ou presidente da República do que deputado... Mas prezava a missão parlamentar, como cerne da democracia. Alguns dos episódios em que vi esse espírito bem vivo, aconteceram, precisamente, no Palácio de São Bento.
Recordo, por exemplo, o que me disse no dia em que o presidente Joaquim Chissano discursou na sala do Senado. Eu estava sentada junto ao meu grande amigo José Gama, na 2ª ou 3ª fila, numa posição oblíqua em relação à Mesa da presidência, onde Soares e Chissano ladeavam o Presidente da Assembleia. Chissano falou muito bem. A certa altura comentei em voz baixa: "Belo discurso, num ambiente tão morno... Vamos puxar os aplausos"? O Zé Gama concordou com o plano. Muito atentos, no fim de uma bela frase, discretamente, bem sintonizados, aplaudíamos e contagiávamos todas as bancadas. Fizemos isso umas três vezes, acordámos aquela quieta massa humana, convencidos de que ninguém sabia de onde tinha partido a iniciativa.
No fim. quando me cruzei com o Presidente Soares, ele disse-me:
- "Muito bem! Pôs a sala a aplaudir nos momentos certos".
E eu, completamente atónita:
-" O Senhor Presidente viu que era eu? Não podia imaginar..."
Resposta:
- "Claro que sim! Eu sou um parlamentar!"
Era, sim. E era, também, muito perspicaz e observador. Nunca o vi olhar especialmente para a bancada onde estávamos o Zé Gama e eu.
2 - A imagem do Parlamento nunca lhe era indiferente. No dia em que recebemos o Presidente da Índia, estava eu a fazer-lhe companhia no salão nobre ainda vazio, onde o visitante e todo o longo cortejo protocolar chegariam dentro de poucos minutos, e vi-o debruçado sobre a mesa, onde estavam expostos os presentes a oferecer durante a receção, pela anfitriã, a Assembleia (um embrulho em papel colorido, inequivocamente um livro), e pelo convidado (um vistoso elefante, cravejado de pedras semi-preciosas, ali, a descoberto). Voltou-se para mim e comentou: "Belo elefante! E, em troca, a Assembleia dá-lhe mais um daqueles livros vulgares...".
Não estou a imaginar outro Presidente com um olhar tão curioso e tão preocupado com a desproporção das oferendas. Estava ele e estava eu, também. Por minha iniciativa não faria nada, porque o Presidente da Assembleia achava sempre intrusivas as minhas sugestões. Contudo, poder invocar a opinião do Dr Soares mudava as coisas.
"Tem toda a razão, Sr Presidente. Vou ver se há solução". Em princípio, não haveria, era missão impossível, mas, pelo menos, serviria para evitar a repetição da "gaffe". O Chefe de Gabinete do Prof. Crespo estava ali perto. Chamei-o e disse-lhe: "O Doutor Soares acha que o livro que vamos dar é de menos". Ele ficou espantado, a assimilar o comentário por uns segundos, mas logo acenou com a cabeça, saiu, disparado, do salão e, quase ato contínuo, regressou, acompanhado de um funcionário, em uniforme de gala, que transportava um enorme jarrão da Vista Alegre. No minuto seguinte, entrou o cortejo presidencial. Um "timing" perfeito, como num filme de "suspense"...
O Presidente da Índia, por sinal, viu, de imediato o jarrão, imponente, junto ao elefante, e disse (em inglês): "Que bonito!
Estava salva a honra do convento...
3 - Outra conversa, no mesmo salão, no mesmo contexto, a espera de uma n um Chefe de Estado. Não recordo a data com precisão, sei que foi em 1989, durante o período da 2ª revisão constitucional. Poucos dias antes, tinha sido vencida uma proposta de alteração ao artº 15, que eu tinha encabeçado, para dar aos brasileiros em Portugal o mesmo estatuto de igualdade de direitos que a Constituição Brasileira de 1988 consagrava para os Portugueses, sob condição de reciprocidade. Uma verdadeira equiparação ao estatuto da nacionalidade, sem naturalização prévia, coisa única em direito internacional. Eu apresentara a proposta, redigida em conjunto com o Deputado Adriano Moreira, primeiro na Comissão de Negócios Estrangeiros, então presidida por Dias Loureiro, (onde foi aprovada unanimemente!), e, meses depois, no plenário, onde encontrou uma inexplicável, mas inultrapassável, oposição da direção dos dois maiores grupos parlamentares, PSD e PS... Embora votada pelo CDS, pelo PRD, pelo MDP/CDE e por muitos deputados de todos os partidos não obteve os 2/3 necessários.
Mário Soares era um incondicional defensor da reciprocidade, que considerava de grande importância nas relações luso-brasileiras, como me disse nessa altura. As palavras do Presidente representavam uma espécie de vitória moral e eu, tomada de entusiasmo, manifestei um ruidoso e pouco protocolar contentamento, apertando efusivamente as mãos do Presidente.
Ficou admirado. Esperançado, também:
- Então, afinal, a emenda sempre foi aprovada?
- Não, Senhor Presidente, não foi. Mas o seu apoio dá-me imensa alegria.
(Foi assim que decorreu uma primeira "entente" sobre o assunto, que levaria 13 anos e 3 revisões constitucionais para resolver. E só acabou resolvida, favoravelmente, depois de uma intervenção contundente e decisiva do Doutor Soares, na revisão constitucional de 2011, feita a meu pedido - essa é outra história para tenho para contar
sábado, 7 de janeiro de 2017
SAUDADES DE MÁRIO SOARES
Estava, por acaso, a ver a RTP3 e a notícia veio, pondo fim àquela esperança impossível num milagre, que temos, enquanto as pessoas ainda estão entre nós. Há muito que considerava a figura do Dr Soares como o "primus inter pares" da nossa democracia. Há muito que, sempre que o encontrava, sabia que estava a olhar o Homem que mais influíra na história portuguesa do meu tempo de vida. Contudo, ainda não pensava assim quando o conheci em 1979. Não era do seu partido - e, na altura, isso pesava bastante - embora reconhecesse já a imensa importância do seu papel, antes e, sobretudo, desde o 25 de abril, fizera quilómetros atrás dele, como tantos anónimos fizeram, em marchas e demonstrações cívicas, nas ruas de Lisboa. Ninguém como ele lutou e alcançou, para um Povo inteiro, a Liberdade.
Mas, na verdade, só comecei a gostar dele quando o conheci pessoalmente. Com ele, o à vontade era natural, a aceitação de quaisquer discordâncias políticas também (era eu Secretária de Estado no Governo Mota Pinto - governo que o líder do PS aceitava mal, como Sá Carneiro, porque era um governo de nomeação presidencial). Quando voltei aos Governos AD em 1980 e 1981, a oposição política mantinha-se: o Dr Soares estava ainda do outro lado, mas o seu encanto pessoal era o mesmo. Até que me vi do seu lado, no Governo do Bloco Central! E a minha relação com ele era quase invariavelmente marcada pela boa disposição, por ditos engraçados da sua parte, a que eu procurava responder. Apesar de voltar a situar-me no campo oposto, por uns meses, no governo minoritário de Cavaco Silva, não tardámos a retomar um diálogo refrescante e divertido (o reencontro, depois da queda do Governo Soares/MotaPinto, foi no estádio das Antas, numa grande festa portista, em que fui, por boa sorte, colocada ao seu lado). Seguidamente, já com Mário Soares Presidente, via-o e acompanhava-o, muitas vezes, na qualidade de Vice-Presidente da Assembleia. Uma das vezes em que aguardávamos, no salão nobre, a chegada de um Chefe de Estado estrangeiro, um casal real, o de Espanha, suponho, enquanto os outros membros da Mesa da Ar aguardavam à entrada do Palácio, disse-me, qualquer frase como esta: "Está aqui comigo, quando podia estar lá em baixo, na comitiva, a receber o Rei..." . Foi com toda a sinceridade que lhe respondi: "Prefiro, de longe, estar aqui na conversa com o Senhor Presidente!"
Sim, não havia nada que eu preferisse a um diálogo, mesmo que só de uns cinco minutos, com o Dr Soares!
Não era a conversa com o Presidente, nem com o grande protagonista da nossa História, mas com o Dr Mário Soares.
Tive, por fim, o gosto de fazer a única campanha presidencial, que o Dr Soares não ganhou - e eu previa que não ganhasse, mas achei-o simplesmente fabuloso! E pude intervir em alguns pequenos comícios, ao seu lado, e dizer o que me ia na alma, quanto ao que essa candidatura significava para Portugal: ter de novo um Presidente, que acrescentava prestígio ao País, cujo nome era universalmente reconhecido.
São essas recordações - sobretudo, as deliciosas narrações que encheram o último serão que passei na sua casa, com ele e a Drª Maria Barroso, na primavera de 2015 - que relembro agora. com muita amizade e infinita tristeza.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
DE 2016 a 2017 LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
I - 2016 deixa a 2017, essencialmente, um rasto de ameaças e incertezas, a nível planetário.
Ondas de choque que já vinham de trás, mas ganharam nova dimensão, trouxeram-nos a um cenário marcado por três formas de globalização, que se entrelaçam e potenciam efeitos num todo mais nefasto do que a soma das partes: - a globalização do terror, exportada a partir dos seus núcleos territoriais no Médio Oriente, que, a todo o momento, pode levar os horrores da guerra ao mais distante e improvável recanto do universo (e que, por isso se transmuta em globalização dos sentimentos de insegurança e de medo, caldo de cultura para a aceitação dos profetas de muitos e variados extremismos - do Tea Party à Alt Right, que rodeiam Trump, de Farage e outros paladinos do Brexit, a Marine Le Pen, à Alternativa Alemanha, à ascensão ao poder dos seus "clones" na Hungria, na Polónia. - a globalização da mentira, ou "pós verdade", expressão, em si, bem reveladora de uma "normalização da mentira", a partir, como bem sabemos, sobretudo, do núcleo duro dos novos media, das redes sociais - o crime cibernético atingiu, coisa antes inimaginável, a democraticidade das eleições americanas, ajudando a eleger Donald Trump, ele próprio, autenticamente, uma encarnação da "pós-verdade" no seu quotidiano. . - a globalização de um capitalismo selvagem, regido pela lei dos mercados, à margem da leis do Estado, do seu poder de regulação e equilíbrio, ou seja, o controlo do poder político pelo financeiro, que manda, sem disfarce, nem necessidade da mediação de políticos menores, de "yes men" - uma "economia que mata" nas palavras do Papa Francisco. O Papa é cada vez mais, o grande líder espiritual do mundo, e não só da Igreja Católica, denunciando, incessantemente, esta trilogia fatal - a violência, a mentira, a ganância. Para representar a passagem de 2016 a 2017, nD melhor do que uma das mais belas canções de todos e para todos os tempos: "like a bridge over troubled water"... A esperança possível no atravessar de abismos... Poderão as eleições a realizar nos maiores países do centro da Europa, inverter a tendência de 2016 e salvar o que resta do humanismo europeu, com Angela Merkl, à direita moderada, a abrir portas a milhões de refugiados, e sem Marine Le Pen, na extrema direita, a erguer mais "muros da vergonha"?... Com Trump a fazer não a América, mas a "Russia great again" , poderá a Europa, a braços com o Brexit e a estagnação económica, ressurgir das cinzas, e lançar para outros continentes essa "bridge over troubled water"?... E poderão personalidades singulares, como o Papa e António Guterres, ser essa ponte de salvação para tantas nações desfeitas e tantos Povos sem terra? Pontos de interrogação, muitos, para o ano que assim principia... . 2 - Em Portugal, todavia, 2016 foi, inesperadamente, um ano bem melhor do que o anunciado nos pontos de interrogação colocados em fins de 2015 e lança sobre 2017, em contra-ciclo, prognósticos favoráveis... apesar da dívida colossal, da dependência de factores exógenos, do estado da economia e do estado da banca, que não mudaram, no essencial. Mudou, contudo, o estado de espírito coletivo, por influência das pessoas, que têm o poder de influenciar! O novo Presidente da República chegou e trouxe consigo uma nova forma de estar em Belém (e, um pouco por todo o lado, imparavelmente...), de dar ânimo aos seus concidadãos, em nome dos afetos, da concórdia e da alegria (e energia!) de viver. O novo Primeiro - ministro (seu antigo aluno na Faculdade de Direito, e um excelente aluno) vai pelo mesmo caminho. A imagem que melhor define o ano político, será aquela em que, no Dia Nacional, sob a chuva forte de Paris, partilham um guarda.chuva! Na verdade, primeiro, rendeu-se-lhes Portugal, que, nas sondagens, dá 97% a Marcelo Rebelo de Sousa e um pouco menos, mas bastante, a António Costa. Depois, rendeu-se-lhes a Europa, esfumado o receio dos excessos "gauchistes". de um Executivo saído de uma fórmula parlamentarista inesperada e inédita na Europa atual, se bem que legítima. E, num 10 de julho histórico, o mundo rendeu-se a Portugal no mais mediático dos desportos, com a conquista do campeonato europeu de futebol. Uma trajetória espantosa, de empate em empate até à vitória final, contra a França, anfitriã do evento e grande favorita. Uma seleção de uma vedeta única (Ronaldo, então em baixo de forma, mas, ainda assim, Ronaldo), intergeracional (do mais velho, o incomparável Ricardo Carvalho, ao mais novo, um irreverente Renato Sanches, passando pelo reaparecimento de Quaresma). Fernando Santos acaba de receber o troféu de melhor treinador do mundo! Ronaldo, idem, como jogador (sem ponto de exclamação, porque a isso já nos habituou). Por fim, nesta síntese de feitos notáveis do 2016 português, o maior de todos: a eleição de António Guterres para Secretário - Geral das Nações Unidas. E não pela via de meros jogos de bastidores, como aconteceu com os seus antecessores, mas numa escolha pelo puro mérito individual, em processo transparente, pontuado por debates abertos, em que foi sempre, destacadamente, vencedor. Homem universal, a quem está agora entregue a missão de velar pela paz no mundo (missão quase impossível, em que, segundo Jorge Dias, o nome maior da nossa antropologia, nos saímos melhor do que em tarefas fáceis e rotineiras). Guterres e Marcelo, colegas e especiais amigos, pertencem ainda à "geração de ouro" (terminologia mais usada em futebol, mas igualmente expressiva aqui), com que se construiu a democracia em Portugal.. É bom podermos olhar para nós próprios, sobretudo para essas personagens emblemáticas, que dão a medida grande das nossas capacidades, e sentirmos que temos muito a aprender com outros Povos, mas também muito a ensinar-lhes! 2016 foi, nesta perspectiva, um ano de mudança positiva, de auto-confiança e de auto- afirmação, que de individual, do domínio da política, se foi convertendo, a pouco e pouco, em coletiva, na sociedade. Assim seja, igualmente, 2017 Maria Manuela Aguiar
Ondas de choque que já vinham de trás, mas ganharam nova dimensão, trouxeram-nos a um cenário marcado por três formas de globalização, que se entrelaçam e potenciam efeitos num todo mais nefasto do que a soma das partes: - a globalização do terror, exportada a partir dos seus núcleos territoriais no Médio Oriente, que, a todo o momento, pode levar os horrores da guerra ao mais distante e improvável recanto do universo (e que, por isso se transmuta em globalização dos sentimentos de insegurança e de medo, caldo de cultura para a aceitação dos profetas de muitos e variados extremismos - do Tea Party à Alt Right, que rodeiam Trump, de Farage e outros paladinos do Brexit, a Marine Le Pen, à Alternativa Alemanha, à ascensão ao poder dos seus "clones" na Hungria, na Polónia. - a globalização da mentira, ou "pós verdade", expressão, em si, bem reveladora de uma "normalização da mentira", a partir, como bem sabemos, sobretudo, do núcleo duro dos novos media, das redes sociais - o crime cibernético atingiu, coisa antes inimaginável, a democraticidade das eleições americanas, ajudando a eleger Donald Trump, ele próprio, autenticamente, uma encarnação da "pós-verdade" no seu quotidiano. . - a globalização de um capitalismo selvagem, regido pela lei dos mercados, à margem da leis do Estado, do seu poder de regulação e equilíbrio, ou seja, o controlo do poder político pelo financeiro, que manda, sem disfarce, nem necessidade da mediação de políticos menores, de "yes men" - uma "economia que mata" nas palavras do Papa Francisco. O Papa é cada vez mais, o grande líder espiritual do mundo, e não só da Igreja Católica, denunciando, incessantemente, esta trilogia fatal - a violência, a mentira, a ganância. Para representar a passagem de 2016 a 2017, nD melhor do que uma das mais belas canções de todos e para todos os tempos: "like a bridge over troubled water"... A esperança possível no atravessar de abismos... Poderão as eleições a realizar nos maiores países do centro da Europa, inverter a tendência de 2016 e salvar o que resta do humanismo europeu, com Angela Merkl, à direita moderada, a abrir portas a milhões de refugiados, e sem Marine Le Pen, na extrema direita, a erguer mais "muros da vergonha"?... Com Trump a fazer não a América, mas a "Russia great again" , poderá a Europa, a braços com o Brexit e a estagnação económica, ressurgir das cinzas, e lançar para outros continentes essa "bridge over troubled water"?... E poderão personalidades singulares, como o Papa e António Guterres, ser essa ponte de salvação para tantas nações desfeitas e tantos Povos sem terra? Pontos de interrogação, muitos, para o ano que assim principia... . 2 - Em Portugal, todavia, 2016 foi, inesperadamente, um ano bem melhor do que o anunciado nos pontos de interrogação colocados em fins de 2015 e lança sobre 2017, em contra-ciclo, prognósticos favoráveis... apesar da dívida colossal, da dependência de factores exógenos, do estado da economia e do estado da banca, que não mudaram, no essencial. Mudou, contudo, o estado de espírito coletivo, por influência das pessoas, que têm o poder de influenciar! O novo Presidente da República chegou e trouxe consigo uma nova forma de estar em Belém (e, um pouco por todo o lado, imparavelmente...), de dar ânimo aos seus concidadãos, em nome dos afetos, da concórdia e da alegria (e energia!) de viver. O novo Primeiro - ministro (seu antigo aluno na Faculdade de Direito, e um excelente aluno) vai pelo mesmo caminho. A imagem que melhor define o ano político, será aquela em que, no Dia Nacional, sob a chuva forte de Paris, partilham um guarda.chuva! Na verdade, primeiro, rendeu-se-lhes Portugal, que, nas sondagens, dá 97% a Marcelo Rebelo de Sousa e um pouco menos, mas bastante, a António Costa. Depois, rendeu-se-lhes a Europa, esfumado o receio dos excessos "gauchistes". de um Executivo saído de uma fórmula parlamentarista inesperada e inédita na Europa atual, se bem que legítima. E, num 10 de julho histórico, o mundo rendeu-se a Portugal no mais mediático dos desportos, com a conquista do campeonato europeu de futebol. Uma trajetória espantosa, de empate em empate até à vitória final, contra a França, anfitriã do evento e grande favorita. Uma seleção de uma vedeta única (Ronaldo, então em baixo de forma, mas, ainda assim, Ronaldo), intergeracional (do mais velho, o incomparável Ricardo Carvalho, ao mais novo, um irreverente Renato Sanches, passando pelo reaparecimento de Quaresma). Fernando Santos acaba de receber o troféu de melhor treinador do mundo! Ronaldo, idem, como jogador (sem ponto de exclamação, porque a isso já nos habituou). Por fim, nesta síntese de feitos notáveis do 2016 português, o maior de todos: a eleição de António Guterres para Secretário - Geral das Nações Unidas. E não pela via de meros jogos de bastidores, como aconteceu com os seus antecessores, mas numa escolha pelo puro mérito individual, em processo transparente, pontuado por debates abertos, em que foi sempre, destacadamente, vencedor. Homem universal, a quem está agora entregue a missão de velar pela paz no mundo (missão quase impossível, em que, segundo Jorge Dias, o nome maior da nossa antropologia, nos saímos melhor do que em tarefas fáceis e rotineiras). Guterres e Marcelo, colegas e especiais amigos, pertencem ainda à "geração de ouro" (terminologia mais usada em futebol, mas igualmente expressiva aqui), com que se construiu a democracia em Portugal.. É bom podermos olhar para nós próprios, sobretudo para essas personagens emblemáticas, que dão a medida grande das nossas capacidades, e sentirmos que temos muito a aprender com outros Povos, mas também muito a ensinar-lhes! 2016 foi, nesta perspectiva, um ano de mudança positiva, de auto-confiança e de auto- afirmação, que de individual, do domínio da política, se foi convertendo, a pouco e pouco, em coletiva, na sociedade. Assim seja, igualmente, 2017 Maria Manuela Aguiar
domingo, 1 de janeiro de 2017
MOTA PINTO NO SEU TEMPO POLÍTICO
Acabo um ano e começo outro a ler uma muito interessante biografia de Mota Pinto, lançada no dia 16 de dezembro, no auditório do Museu Soares dos Reis.
São cerca de 800 páginas, de uma tese de doutoramento, excelentemente documentada, sobre um dos políticos mais importantes do Século XX, e não só sobre o Homem, mas sobre o seu tempo político, que se inicia imediatamente após o 25 de abril e vai até ao ano da sua morte tão prematura, em 1985.
Um trabalho que estava, em larga medida por fazer. O enfoque sobre a espantosa aventura da democratização do País, não esquecendo, o que por vezes demais tem acontecido, uma das suas figuras principais, Mota Pinto, sem a qual o curso da História teria sido outro, mais incerto e mais moroso em direção à meta da alternância partidária na governação - que marca a transição para a plena democracia. O IV Governo Constitucional, de iniciativa presidencial, é certo, mas legitimado pelo parlamento, foi no pós revolução o primeiro que se pode considerar como tal. E por isso, na posse do VI Gov Const Sá Carneiro falaria do seu como o primeiro governo de alternância, resultante de uma eleição livre (até então tinha sido sempre o PS a liderar, como partido mais votado pelo povo, ainda que não maioritário.
A Mota Pinto se deve o mérito de provar que a agitação da rua não valia mais do o sufrágio, que o país era governável, pelo menos, à esquerda ou ao centro (a que se chamava direita, como se chamou ao IV e VI Governos, apesar de o não serem...).
Não foi o único, nem o mais pequeno dos seus méritos| E graças a ele, à prova provada da governabilidade à direita do PS, se construiu a vitória da AD... Sempre assim pensei!
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