quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES - UM LISBOETA ABERTO AO PORTO

Sou uma portuguesa do distrito do Porto, que conheceu Paris e Londres, aos 16 anos e Lisboa aos 18. Na política nacional, o ser "da província" não era coisa de todo irrelevante. Eu era-o, duplamente, por naturalidade (Porto), e pela vida académica (Coimbra). No PSD, onde havia Lisboa, província, grupo de Coimbra e outros mais, sempre me senti tratada como "provinciana" por vários dos mais importantes dirigentes históricos. E não só pelos políticos lisboetas, também pelos jornalistas. Nunca fui popular entre uns e outros. Ora o Dr Soares, definitivamente um lisboeta, nado e criado na cidade, sendo "um deles" não deixava de ser "um de nós" . Nunca o vi olhar-me "do alto" (neste sentido, pois mais alto do que eu era, obviamente), desde o primeiro momento. Uma inexperiente e desajeitada jovem Secretária de Estado, para além de tímida (embora mais em público do que em pequenos grupos), a quem ele fazia sentir-se desenvolta. É "pormaior" que não esqueço, até porque tudo se passava em clima geral de confronto, a que a nossa conversa não escapava. Falando da minha própria experiência, ao longo de quarenta anos, classifico o seu humor como tão incisivo quanto benigno. Sem excluir a graça mais contundente de todas, que selou uma espécie de reconciliação, após a campanha presidencial de 1985 (em que apoiei, entusiaticamente, Freitas do Amaral). Aconteceu. no Porto, num jantar, no grande pavilhão que ficava junto ao campo de treinos do estádio das Antas. A certa altura, não sei a que propósito, enveredámos pelo tema dos vários quadrantes políticos, mais quadrantes do que partidos, e eu proclamei-me "social-democrata à sueca". Comentário imediato do Presidente Soares: "Social-democrata à sueca? Julguei que era social-democrata à Strauss!" (Strauss, o homem de direita bávaro, que eu detestava. Não me revi na classificação e protestei: "O facto de pertencer à Fundação Século XXI não significa que tenha guinado à direita. Aceitei o convite do Prof Freitas do Amaral, porque trabalhei com ele no governo de Sá Carneiro e tenho por ele enorme admiração. Não é política, é amizade. E, como também gostei de trabalhar com Jaime Gama no governo do Bloco central, se ele criar uma fundação e me convidar, também aceito". A partir daí, o teor dos comentários foi-se amenizando. Discutimos pessoas concretas e foi muito divertido, porque eu apreciava mais alguns antigos governantes socialistas do que outros do meu partido e ele "idem"... Acabámos, à gargalhada, a discutir qual era o tipo mais burro - um determinado PSD ou um determinado PS. Não chegámos a acordo. Nomes não digo. Na expressão brasileira: "Não digo nem morta!".

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