quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

DE 2016 a 2017 LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER

I - 2016 deixa a 2017, essencialmente, um rasto de ameaças e incertezas, a nível planetário. Ondas de choque que já vinham de trás, mas ganharam nova dimensão, trouxeram-nos a um cenário marcado por três formas de globalização, que se entrelaçam e potenciam efeitos num todo mais nefasto do que a soma das partes: - a globalização do terror, exportada a partir dos seus núcleos territoriais no Médio Oriente, que, a todo o momento, pode levar os horrores da guerra ao mais distante e improvável recanto do universo (e que, por isso se transmuta em globalização dos sentimentos de insegurança e de medo, caldo de cultura para a aceitação dos profetas de muitos e variados extremismos - do Tea Party à Alt Right, que rodeiam Trump, de Farage e outros paladinos do Brexit, a Marine Le Pen, à Alternativa Alemanha, à ascensão ao poder dos seus "clones" na Hungria, na Polónia. - a globalização da mentira, ou "pós verdade", expressão, em si, bem reveladora de uma "normalização da mentira", a partir, como bem sabemos, sobretudo, do núcleo duro dos novos media, das redes sociais - o crime cibernético atingiu, coisa antes inimaginável, a democraticidade das eleições americanas, ajudando a eleger Donald Trump, ele próprio, autenticamente, uma encarnação da "pós-verdade" no seu quotidiano. . - a globalização de um capitalismo selvagem, regido pela lei dos mercados, à margem da leis do Estado, do seu poder de regulação e equilíbrio, ou seja, o controlo do poder político pelo financeiro, que manda, sem disfarce, nem necessidade da mediação de políticos menores, de "yes men" - uma "economia que mata" nas palavras do Papa Francisco. O Papa é cada vez mais, o grande líder espiritual do mundo, e não só da Igreja Católica, denunciando, incessantemente, esta trilogia fatal - a violência, a mentira, a ganância. Para representar a passagem de 2016 a 2017, nD melhor do que uma das mais belas canções de todos e para todos os tempos: "like a bridge over troubled water"... A esperança possível no atravessar de abismos... Poderão as eleições a realizar nos maiores países do centro da Europa, inverter a tendência de 2016 e salvar o que resta do humanismo europeu, com Angela Merkl, à direita moderada, a abrir portas a milhões de refugiados, e sem Marine Le Pen, na extrema direita, a erguer mais "muros da vergonha"?... Com Trump a fazer não a América, mas a "Russia great again" , poderá a Europa, a braços com o Brexit e a estagnação económica, ressurgir das cinzas, e lançar para outros continentes essa "bridge over troubled water"?... E poderão personalidades singulares, como o Papa e António Guterres, ser essa ponte de salvação para tantas nações desfeitas e tantos Povos sem terra? Pontos de interrogação, muitos, para o ano que assim principia... . 2 - Em Portugal, todavia, 2016 foi, inesperadamente, um ano bem melhor do que o anunciado nos pontos de interrogação colocados em fins de 2015 e lança sobre 2017, em contra-ciclo, prognósticos favoráveis... apesar da dívida colossal, da dependência de factores exógenos, do estado da economia e do estado da banca, que não mudaram, no essencial. Mudou, contudo, o estado de espírito coletivo, por influência das pessoas, que têm o poder de influenciar! O novo Presidente da República chegou e trouxe consigo uma nova forma de estar em Belém (e, um pouco por todo o lado, imparavelmente...), de dar ânimo aos seus concidadãos, em nome dos afetos, da concórdia e da alegria (e energia!) de viver. O novo Primeiro - ministro (seu antigo aluno na Faculdade de Direito, e um excelente aluno) vai pelo mesmo caminho. A imagem que melhor define o ano político, será aquela em que, no Dia Nacional, sob a chuva forte de Paris, partilham um guarda.chuva! Na verdade, primeiro, rendeu-se-lhes Portugal, que, nas sondagens, dá 97% a Marcelo Rebelo de Sousa e um pouco menos, mas bastante, a António Costa. Depois, rendeu-se-lhes a Europa, esfumado o receio dos excessos "gauchistes". de um Executivo saído de uma fórmula parlamentarista inesperada e inédita na Europa atual, se bem que legítima. E, num 10 de julho histórico, o mundo rendeu-se a Portugal no mais mediático dos desportos, com a conquista do campeonato europeu de futebol. Uma trajetória espantosa, de empate em empate até à vitória final, contra a França, anfitriã do evento e grande favorita. Uma seleção de uma vedeta única (Ronaldo, então em baixo de forma, mas, ainda assim, Ronaldo), intergeracional (do mais velho, o incomparável Ricardo Carvalho, ao mais novo, um irreverente Renato Sanches, passando pelo reaparecimento de Quaresma). Fernando Santos acaba de receber o troféu de melhor treinador do mundo! Ronaldo, idem, como jogador (sem ponto de exclamação, porque a isso já nos habituou). Por fim, nesta síntese de feitos notáveis do 2016 português, o maior de todos: a eleição de António Guterres para Secretário - Geral das Nações Unidas. E não pela via de meros jogos de bastidores, como aconteceu com os seus antecessores, mas numa escolha pelo puro mérito individual, em processo transparente, pontuado por debates abertos, em que foi sempre, destacadamente, vencedor. Homem universal, a quem está agora entregue a missão de velar pela paz no mundo (missão quase impossível, em que, segundo Jorge Dias, o nome maior da nossa antropologia, nos saímos melhor do que em tarefas fáceis e rotineiras). Guterres e Marcelo, colegas e especiais amigos, pertencem ainda à "geração de ouro" (terminologia mais usada em futebol, mas igualmente expressiva aqui), com que se construiu a democracia em Portugal.. É bom podermos olhar para nós próprios, sobretudo para essas personagens emblemáticas, que dão a medida grande das nossas capacidades, e sentirmos que temos muito a aprender com outros Povos, mas também muito a ensinar-lhes! 2016 foi, nesta perspectiva, um ano de mudança positiva, de auto-confiança e de auto- afirmação, que de individual, do domínio da política, se foi convertendo, a pouco e pouco, em coletiva, na sociedade. Assim seja, igualmente, 2017 Maria Manuela Aguiar

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